Created: Sunday, 29 April 2018 09:35 | Rate this article
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O Encontro de Marx com a Economia Política

1. Paris: Capital do Século XIX

Paris é “um milagre descomunal, um conjunto espantoso de movimentos, máquinas e ideias, a cidade de mil romances diferentes, a cabeça do mundo”[1].

Foi assim que Balzac descreveu num dos seus contos o efeito provocado pela metrópole sobre aqueles que não a conheciam bem.

Nos anos anteriores à revolução de 1848, a cidade era habitada por artesãos e trabalhadores em constante agitação política. Das suas colónias de exilados, revolucionários, escritores e artistas, e do fermento social em geral, acumulou uma intensidade apenas vista em poucas épocas. Mulheres e homens com os mais variados dotes intelectuais publicavam livros, revistas, jornais, escreviam poesia, discursavam em sessões e discutiam interminavelmente em cafés, nas ruas e nos bancos públicos. A proximidade levava a que exercessem uma influência contínua uns sobre os outros.[2]

Mikhail Bakunin, que tinha decidido atravessar o Reno, viu-se de repente “entre aqueles elementos novos que ainda não tinham nascido na Alemanha… [num clima onde] as ideias políticas circulam entre todos os estratos da sociedade”.[3] Lorenz von Stein escreveu que “a vida do próprio povo estava a começar a criar novas ligações e a conceber novas revoluções”.[4] Arnold Ruge [1802-1880] considerava que “em Paris viveremos as nossas vitórias e as nossas derrotas”.[5] Em resumo, este era o lugar para se estar naquele momento particular da história.

Para Balzac, “as ruas de Paris têm qualidades humanas e uma fisionomia tal que nos deixam marcas a que não podemos resistir”.[6] Muitas destas marcas também atingiram Karl Marx, que aos vinte e cinco anos se tinha mudado para lá, em outubro de 1843; elas influenciaram profundamente a sua evolução intelectual, que amadureceu decisivamente ao longo do seu tempo em Paris.

Na sequência da sua experiência jornalística no Rheinische Zeitung [Gazeta Renana], o abandono de Marx do horizonte conceptual do estado racional Hegeliano, juntamente com um radicalismo democrático, significaram que ele chegara à capital francesa com uma certa abertura teórica. Mas isso era agora abalado pela visão tangível do proletariado. A incerteza criada pela atmosfera problemática da altura, que vivia a rápida consolidação de uma nova realidade económico-social, foi dissipada assim que contactou, quer teorica quer empiricamente, com a classe trabalhadora parisiense e as suas condições de vida e trabalho.

A descoberta do proletariado e, através dele, da revolução; o novo compromisso com o comunismo, ainda definido de forma pouco clara e semi-utópica; a crítica da filosofia especulativa de Georg Wilhelm Friedrich Hegel [1770-1831] e da Esquerda Hegeliana; o primeiro esboço da conceção materialista da história e o início da sua crítica da economia política: eis o conjunto dos temas fundamentais que Marx desenvolveria ao longo deste período.   

2. Clássicos da Economia Política e Trabalho Alienado

A economia política não foi a primeira paixão intelectual de Karl Marx. Ela acabara de surgir enquanto disciplina na Alemanha durante a sua juventude e ele só a encontrou após muitas outras matérias. Quando trabalhava na Rheinische Zeitung, Marx já se tinha debruçado acerca de questões económicas específicas, embora apenas do ponto de vista jurídico ou político. Mas a censura atingiu o jornal e levou-o a terminar a experiência, “a retirar-me do espaço público para o meu estudo”.[7] Prosseguiu os seus estudos sobre o estado e as relações jurídicas, nos quais Hegel era a autoridade máxima, e em 1843 escreveu o manuscrito que foi publicado postumamente como Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Tendo desenvolvido a convicção de que a sociedade civil era a verdadeira base do estado político, ele formulou, pela primeira vez, a importância do fator económico nas relações sociais.

Mas foi apenas em Paris que Marx deu início ao “estudo crítico sério da economia política”[8], tendo recebido um impulso decisivo a partir das contradições na lei e na política que não podiam ser resolvidas no âmbito da sua própria esfera, e da incapacidade de ambas em fornecer soluções para os problemas sociais. O “Esboço de uma Crítica da Economia Política” de Engels — um dos seus dois artigos publicados no primeiro e único volume dos Deutsch-französische Jahrbücher [Anais franco-alemães] — também influenciou Marx nesta altura. A partir daí, os seus estudos, até então sobretudo filosóficos, políticos e históricos, voltaram-se para a nova disciplina que se tornou o fulcro das suas preocupações científicas e definiu um novo horizonte que ele nunca abandonaria,

Sob a influência do livro de Moses Hess [1812–1872], Essence of Money (1845), e da sua transposição do conceito de alienação de um plano especulativo para o plano económico-social, Marx começou por concentrar-se na crítica da mediação económica do dinheiro enquanto obstáculo para a concretização da essência humana. Numa polémica contra A Questão Judaica (1843) de Bruno Bauer, ele considerou que a questão Judaica era um problema social que representava os pressupostos filosóficos e histórico-sociais da civilização capitalista como um todo. O Judeu era a metáfora e a vanguarda histórica para as relações que produzia, uma figura mundana que se tornou sinónimo do capitalismo tout court.

Logo em seguida, Marx começou grandes leituras numa nova área de estudo e escreveu, tanto nos seus manuscritos e cadernos de excertos, muitos comentários críticos que compilou, como habitualmente, do material de leitura. O fio condutor do seu trabalho era a necessidade de revelar e confrontar a maior mistificação da economia política: a ideia de que as suas categorias eram válidas em todos os tempos e em todos os lugares. Marx estava profundamente consternado por esta cegueira e falta de noção histórica por parte dos economistas, que assim tentavam ocultar e justificar a desumanidade das condições económicas do seu tempo, apresentando-as como um facto natural. Num comentário a um texto de Say, apontou que “a propriedade privada é um facto cuja constituição não diz respeito à economia política, mas que constitui, no entanto, o seu fundamento”. […] O conjunto da economia política é portanto baseada num facto desprovido de necessidade”[9]. Observações idênticas repetem-se nos Manuscritos Economico-Filosóficos de 1844, onde Marx sublinha que “a economia política parte do facto da propriedade privada; não o explica”. “O economista afirma como facto ou acontecimento o que deveria deduzir”[10].

O seu estudo profundo e alargado da história dera-lhe uma primeira chave para ler a evolução temporal das estruturas sociais, e ele também já assumira o que considerava as melhores ideias de Pierre-Joseph Proudhon [1809-1865], incluindo a crítica da ideia de propriedade privada enquanto um direito natural. Com estes apoios, Marx conseguiu alcançar o entendimento cognitivo principal do carácter provisório da história. Os economistas burgueses apresentavam leis do modo de produção capitalista como leis eternas da sociedade humana. Marx, pelo contrário, tomou como seu único e exclusivo objeto de análise as relações específicas do seu tempo, “o lacerado mundo da indústria”[11]; ele sublinhou a sua transitoriedade enquanto etapa produzida pela história, e partiu para a investigação sobre as contradições criadas pelo capitalismo e que conduzem à sua superação.

Esta forma diferente de entender as relações sociais teve consequências importantes, das quais se destacam sem dúvida as referentes ao conceito de trabalho alienado. Ao contrário dos economistas e do próprio Hegel, para quem ele era uma condição natural e imutável da sociedade, Marx definiu o caminho que o levaria a rejeitar a dimensão antropológica da alienação em favor de uma conceção que a enraizava historicamente numa dada estrutura de produção e de relações sociais: o distanciamento do homem no meio das condições do trabalho industrial.

Nos Manuscritos Economico-Filosóficos de 1844, a alienação é apresentada como o fenómeno através do qual o produto do trabalho confronta o trabalho “como algo estranho, um poder independente do produtor”. A par desta definição geral, Marx elencou quatro formas de alienação do trabalhador na sociedade burguesa: 1) do produto do seu trabalho, que se torna “um objeto estranho que tem poder sobre ele”; 2) da sua atividade laboral, que ele entende como sendo dirigida contra si, como algo que “não lhe pertence”[12]; 3) da “pertença à espécie do homem”, que se transforma num “ser estranho a si”; e 4) dos restantes seres humanos, e da relação com o seu trabalho e com o objeto do seu trabalho[13].

Para Marx, em contraste com Hegel, a alienação não era coincidente com a objetificação enquanto tal, mas antes com um fenómeno específico no âmbito de uma forma precisa de economia: em concreto, o trabalho assalariado e a transformação dos produtos do trabalho em objetos que se opõem aos produtores. A diferença política entre estas duas posições é enorme. Enquanto Hegel apresentava a alienação como uma manifestação ontológica do trabalho, Marx entendia-a como característica de uma época específica, capitalista, da produção, e julgava que seria possível superá-la através da “emancipação da sociedade da propriedade privada”[14].

Nos Manuscritos Economico-Filosóficos de 1844, Marx também enunciava a sua ideia de comunismo. Mas como ainda não tinha alargado o seu estudo da economia nem amadurecido a sua experiência política, essa ideia de comunismo continuava a ser bastante abstrata.

O Marx Parisiense estava faminto de leituras e a elas se dedicava dia e noite. Era um homem cheio de entusiasmo e projetos, que elaborava planos de trabalho tão grandes que nunca poderia completar, e que estudava cada documento relevante para o objeto de investigação; ele foi absorvido pelo rápido avanço do seu conhecimento e pelos variados interesses que o levavam a novos horizontes, novas decisões e ainda mais áreas de investigação.

Absorvido por tão vastos interesses, Marx planeou o esboço da crítica da filosofia do direito de Hegel, iniciou estudos sobre a Revolução Francesa de forma a escrever uma história da Convenção e sugeriu uma crítica das doutrinas socialistas e comunistas existentes. Então, atirou-se como um louco à economia política, que de repente assumiu prioridade sobre a tarefa de abrir terreno na Alemanha à crítica transcendental de Bauer et al., interrompendo-a para escrever a sua primeira obra acabada: A Sagrada Família ou A crítica da Crítica crítica. Contra Bruno Bauer e consortes (1845). Ainda assim, o mais prolífico jovem da Esquerda Hegeliana tinha publicado menos do que muitos dos restantes. Havia algo incrível sobre a sua meticulosidade na sua recusa “em escrever uma frase se fosse incapaz de prová-la de dez formas diferentes”[15]. A convicção de Marx de que a sua informação era insuficiente e os seus juízos imaturos, impediu-o de publicar boa parte do trabalho a que deu início; permaneceram portanto na forma de esboços e fragmentos. As suas notas são por isso extremamente valiosas. Elas permitem-nos medir o alcance da sua investigação, contêm algumas reflexões suas, e devem ser consideradas uma componente essencial da sua obra. Isto também é válido para o período Parisiense, em que os seus manuscritos e notas de leitura testemunham o laço indissolúvel entre o que ele escreveu e os comentários que fez ao trabalho dos outros.

3. Manuscritos e Cadernos de Excertos: Os Documentos de 1844

Apesar do cariz incompleto e fragmentado dos Manuscritos Economico-Filosóficos de 1844, quase todas as suas leituras ou ignoraram ou trataram como pouco importantes os problemas filológicos que apresentam.

Também foi erradamente assumido que Marx escreveu estes textos só após ter lido e juntado excertos dos trabalhos sobre economia política, enquanto na verdade o processo de composição alternou por vários grupos de manuscritos, e os correspondentes excertos foram espaçados no tempo ao longo do seu período Parisiense, dos artigos para os Deutsch-französische Jahrbücher à Sagrada Família.

Apesar destes evidentes problemas de forma, apesar da confusão que se seguiu à publicação de diferentes versões e, acima de tudo, sabendo que boa parte do segundo manuscrito (o mais importante e também o mais disperso) não estava naquele conjunto, nenhum dos intérpretes ou compiladores relevantes reexaminou os originais. No entanto, isto era particularmente necessário para um texto tão marcante nos debates acerca das várias interpretações de Marx.

Escritos entre maio e agosto, os Manuscritos Economico-Filosóficos de 1844 não são uma obra que se desenvolve de forma sistemática ou predeterminada. Todas as referências que lhe são feitas num dado sentido — tanto as que apontam a plenitude completa do pensamento de Marx como as que veem uma conceção definitiva oposta à sua maturidade científica — são refutadas por um exame filológico cuidadoso. Sem serem homogéneos ou sequer interligados entre as suas partes, os manuscritos são a expressão evidente de uma posição em movimento. O escrutínio dos nove cadernos que chegaram até nós, com mais de 200 páginas de excertos e comentários, mostram-nos a maneira como Marx assimilava e usava o material de leitura que os alimentou.

Marx fez os seus primeiros excertos a partir do Tratado de Economia Política (1803) de Say, transcrevendo secções inteiras enquanto adquiria conhecimento sobre os fundamentos da economia. A única nota foi acrescentada depois, no lado direito da respetiva folha, que era a zona que ele guardava para esse efeito. A subsequente compilação a partir sobre Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações (1776) serviu idêntico propósito de o familiarizar com conceitos básicos da economia. De facto, embora estes sejam os excertos mais longos, praticamente não têm comentários. E no entanto o pensamento de Marx sobressai claramente a partir da sua montagem de passagens e, como acontecia muitas vezes noutros âmbitos, da sua forma de colocar lado a lado as teses divergentes de vários economistas. Isso muda, contudo, no caso dos Princípios de Economia Política e de Tributação (1817) de Ricardo, onde surgem as primeiras observações da sua autoria, em particular em relação aos conceitos de valor e preço que ainda eram entendidos como perfeitamente idênticos. Esta equação do valor e preço da mercadoria situa-se na conceção inicial de Marx, que apenas atribuía verdade ao valor de troca produzido pela concorrência e consignava o preço natural ao domínio da abstração. À medida que estes estudos avançavam, as suas notas críticas deixaram de ser esporádicas, mas pontuavam os seus resumos e aumentavam com o seu conhecimento enquanto passava de um autor para outro. Havia frases isoladas, depois notas mais longas, e finalmente — a propósito dos Elementos de Política Económica de James Mill —um comentário crítico sustentado acerca da mediação do dinheiro enquanto representação da dominação completa das coisas sobre os seres humanos; aqui, a relação entre os excertos e o próprio texto de Marx é totalmente invertida, com aqueles a surgirem espaçados ao longo deste.

Para concluir, Marx apresentou as suas ideias tanto nos Manuscritos Economico-Filosóficos de 1844 como nos cadernos de excertos das suas leituras. Os manuscritos estão cheios de citações, sendo o primeiro quase uma recolha direta, e os cadernos de compilações, embora muito centrados nos textos que lia na altura, são acompanhados dos seus comentários. Os conteúdos de ambos, a divisão formal das folhas em colunas, a paginação e o tempo da sua composição confirmam que os Manuscritos Economico-Filosóficos de 1844 não são um trabalho que sobressaia por si, mas parte da produção crítica de Marx, que consistia na altura em excertos de textos que ele estudava, reflexões críticas sobre esse material, e rascunhos que punha no papel, escritos de um jorro ou de forma mais refletida. Separar estes manuscritos do resto, extrapolá-los do seu contexto, pode levar a erros de interpretação.

Só apreciando estas notas no seu todo, juntamente com a reconstrução histórica de como elas amadureceram na mente de Marx, mostram bem o itinerário e a complexidade do seu pensamento ao longo do intenso ano de trabalho em Paris.

4. Da Filosofia à Práxis Revolucionária

O pensamento de Marx teve uma evolução decisiva no ano que passou em Paris. Estava agora seguro de que a transformação do mundo era uma questão prática, “que a filosofia não podia resolver precisamente porque ela entendia este problema como meramente teórico”[16]. Ele despediu-se para sempre da filosofia que não chegara a esta consciencialização e conseguiu a sua necessária conversão para a filosofia da práxis. A partir de agora, a sua análise tomou como ponto de partida não a categoria de trabalho alienado, mas a realidade da existência miserável dos trabalhadores. As suas conclusões não foram especulativas, mas sim dirigidas à ação revolucionária.

A sua conceção da própria política mudou profundamente. Sem adotar nenhuma das doutrinas comunistas redutoras daquele tempo, até distanciando-se delas, atingiu a consciência plena de que as relações económicas tecem a rede de ligações da sociedade e de que a “religião, família, estado, lei, moralidade, ciência, arte, etc, são apenas modos específicos de produção e estão sob a alçada da lei geral”[17]. O estado perdeu aqui a posição principal que tinha na filosofia política de Hegel; integrado na sociedade, é entendido como uma esfera determinada, ao invés de determinar, pelas relações entre seres humanos.

O quadro conceptual de Marx também se alterou substancialmente no que respeita ao sujeito revolucionário. De uma referência inicial à “humanidade em sofrimento”[18], partiu para uma identificação específica do proletariado, considerando-o primeiro como um conceito abstrato baseado em antíteses dialéticas — o “elemento passivo”[19] da teoria — e depois, na sequência das suas primeiras análises socio-económicas, como o elemento ativo da sua própria libertação, a única classe dotada de potencial revolucionário na ordem social capitalista.

Então, a crítica algo vaga da mediação política do estado e da mediação económica do dinheiro, entendidas como obstáculos à concretização da Feuerbachiana essência humana comum, deu lugar à crítica de uma relação histórica em que a produção material começa a surgir como a base para qualquer análise e transformação do presente. O que Marx propôs já não é uma reivindicação genérica pela emancipação mas uma transformação radical do verdadeiro processo de produção.

Algumas das visitas de Marx comprovaram o seu trabalho intenso durante este período. O jornalista radical Heinrich Bürgers [1820–1878] disse sobre ele em 1844: “Marx tinha iniciado investigações profundas na área da economia política e alimentava o projeto de escrever uma obra crítica que refundasse a ciência económica.”[20] Também Engels, que conheceu Marx pela primeira vez no verão de 1844 e forjou uma amizade e solidariedade teorico-política que duraria para o resto das suas vidas, foi levado pela sua esperança num levantamento social iminente para incitar Marx, na primeira carta da sua correspondência de quatro décadas, a publicar o quanto antes. A sensação de Marx sobre a insuficiência do seu conhecimento impediu-o de terminar e publicar os manuscritos. Mas ele escreve, juntamente com Engels, A Sagrada Família, um ataque polémico contra Bauer e outras figuras do movimento da  Esquerda Hegeliana, do qual Marx se distanciara em 1842, alegando que ela funcionava num isolamento especulativo e era voltada exclusivamente para batalhas conceptuais estéreis.

Enquanto trabalhava na Sagrada Família, Engels instou o seu amigo numa carta no início de 1845 a terminar a outra obra no prelo. Mas estes apelos não serviram de muito. Marx ainda sentia a necessidade de continuar os seus estudos antes de tentar dar uma forma acabada aos rascunhos que escrevera. Em qualquer caso, ele apoiou-se na convicção de que iria em breve ser capaz de publicar, e a 1 de fevereiro de 1845 — após ter recebido ordem para sair de França por causa da sua colaboração com o bissemanário dos trabalhadores em língua alemã Vorwärts! assinou um contrato com o editor de Darmstadt Karl Wilhelm Leske [1821 - 1886] para uma obra em dois volumes que seria intitulada “Crítica da Política e Economia Política”.

Os Manuscritos Economico-Filosóficos de 1844 e os cadernos de excertos e notas marcaram o início do estudo crítico desta nova disciplina por Marx. Estão repletos de elementos teóricos com origem em predecessores e contemporâneos. Nenhum dos esboços ou obras deste período podem ser classificados sob uma única disciplina: não existem textos puramente filosóficos, essencialmente económicos ou apenas políticos. Marx tinha a capacidade de combinar experiências dos proletários Parisienses com estudos da Revolução Francesa, leituras de Smith com as perspetivas de Proudhon, a revolta dos tecelões da Silésia com a crítica da conceção do estado em Hegel, e das análises de Buret sobre a pobreza com o comunismo. As suas ideias, e em especial as observações económicas que começaram a desenvolver-se, não foram fruto de uma súbita fulminação, mas o resultado de um estudo profundo.

Notas:

  1. ^ Honoré de Balzac, The History of the Thirteen. Ferragus. Harmondsworth: Penguin, 1972, p. 33.
  2. ^ Cf. Isaiah Berlin, Karl Marx. London: Oxford University Press, 1963, p. 81f.
  3. ^ Mikhail Bakunin, Ein Briefwechsel von 1843, in MEGA•, vol. I/2, 1982, p. 482.
  4. ^ Lorenz von Stein, Der Socialismus und Communismus des heutigen Frankreichs. Ein Beitrag zur Zeitgeschichte. Leipzig: Otto Wigand, 1848, p. 509. 
  5. ^ Arnold Ruge, Zwei Jahre in Paris. Etudien und erinnerungen. Leipzig: Zentralantiquariat der DDR, 1975, p. 59.
  6. ^ Balzac, The History of the Thirteen. Ferragus, op. cit., p. 31.
  7. ^ Karl Marx, A Contribution to the Critique of Political Economy, in MECW, vol. 29, p. 263.
  8. ^ Karl Marx, Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, in MECW, vol. 3, p. 231.
  9. ^ Karl Marx, ‘Exzerpte aus Jean Baptiste Say: Traité d’économie politique’, in MEGA•, vol. IV/2, p. 316. 
  10. ^ Marx, Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, op. cit., p. 207-1.
  11. ^ Marx, Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, op. cit., p. 292.
  12. ^ Marx, Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, in MECW, vol. 3, p. 274.
  13. ^ Ibid., p. 277.
  14. ^ Marx, Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, op. cit., p. 280.
  15. ^ Ver Paul Lafargue, in Enzensberger (Ed.), Gespräche mit Marx und Engels, op. cit., p. 32.
  16. ^ Marx, Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, op. cit., p. 302.
  17. ^ Marx, Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, op. cit., p. 302.
  18. ^ Karl Marx, ‘Letters from Deutsch-Französische Jahrbücher’, in MECW, vol. 3, p. 141.
  19. ^ Marx, ‘Contribution to the Critique of Hegel’s Philosophy of Law. Introduction’, op. cit., p. 183. 
  20. ^ Heinrich Bürgers, in Enzensberger (ed.), Gespräche mit Marx und Engels. op. cit., p. 46.