Created: Friday, 22 June 2018 10:56 | Rate this article
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| Category: Interviews

O Velho Marx, pela luta até o fim, vermelho, 22 June 2018.

Por Alessandra Monterastelli

Com uma escrita acessível e de fácil andamento, Musto traz uma analise aprofundada dos feitos de Marx em seus últimos anos de vida.

Nos primeiros capítulos, temos uma rápida contextualização do momento vivido na Europa por Marx e sua família; Musto faz um retrato da relação do economista com seus netos, dos quais sentiu muita falta após a mudança da filha e do genro. Revela-se, nessas primeiras páginas, um olhar mais sensível quanto a personalidade de Marx, incluindo as descrições simpáticas feitas por jornalistas que puderam entrevista-lo na época.

Ficamos sabendo do escritório de Marx, abarrotado de livros nas estantes, além daqueles sobre sua escrivaninha. De seus estudos, de como ele, para cria-los, grifava e divagava sobre obras de outros autores, na maioria das vezes andando de um lado para o outro.

Nos últimos anos, Marx lidava com momentos difíceis em sua vida pessoal, especialmente relacionados a sua saúde e a de sua esposa, Jenny. O livro revela algo interessante: a dedicação de Marx à matemática, na qual encontrou um refúgio para aliviar a mente, mas não deixar de exercitá-la. Em momentos duros, ele não se arriscou a escrever algo em sua área que depois não faria mais sentido: ele preferia treinar matemática. “A primeira razão, porém, menor, para ele estudar essa matéria, foi que ele precisava da matemática como instrumento de elaboração de estudos econômicos. Mas a principal razão do seu encontro com a matemática é que Marx se refugia nela; ela é uma amiga. Quando Marx está sofrendo e precisa ocupar o pensamento, ele usa a matemática”, conta Marcello Musto.

Engana-se, segundo o escritor, quem vê Marx apenas como economista. “Ele não pode ser resumido em uma só matéria ou disciplina”. Marx dedicou a sua vida a estudar economia política; antes, porém, foi estudante de direito, depois estudou filosofia, e por fim, ao se tornar jornalista, nunca mais abandonou a política. “Após conhecer Engels é que se dedica a sua verdadeira paixão intelectual: a economia política. A sua ideia de economia política é muito diferente, por exemplo, daquela de muitas universidades americanas atualmente. Não é uma economia de fórmulas, mas uma disciplina que ele lê politicamente, ele procurara desmascarar os enganos dos economistas burgueses”, explica Musto. O objetivo de Marx era, portanto, fazer uma crítica da economia política, e para isso deve fundamentalmente passar pelo conhecimento da história.

Com os avanços do pensamento neoliberal e conservador, é comum vermos a economia como uma disciplina de verdades absolutas baseadas em números indiscutíveis; mas até mesmo os números podem sugerir coisas diferentes, dependendo do contexto, da situação, do problema e da abordagem. Nunca foi o intuito de Marx separar a economia da história e da política; pelo contrário, seria impossível fazer uma análise critica de uma sem a outra.

Musto conta que Marx aumentou o campo de sua análise, e por isso “gostaria de ter publicado outro volume do Capital, em que não tivesse apenas a Inglaterra e a Europa no geral como centro de sua pesquisa, mas também os Estados Unidos, a Rússia, entre outros países”. Para isso, Marx teria estudado antropologia e as sociedades não ocidentais, fazendo uma crítica ao colonialismo europeu. Por trás disso, não havia, como se tem dito, mera curiosidade intelectual, mas o propósito teórico-político de alargar e refinar a compreensão do capitalismo: “ele queria entender o desenvolvimento do capitalismo em outros contextos históricos e geográficos”, completa Musto.

Como o livro trata dos últimos anos da vida de Marx, quando questionado sobre uma suposta ruptura entre o jovem e o velho Karl Marx, Marcello Musto rebate: para ele, há uma continuidade dos temas do Marx juvenil e do Marx de “o capital”, algo natural, já que é o mesmo autor que não rompeu com ele mesmo. Porém esses temas se apresentam de formas muito diferentes.

“Eu não estou de acordo com a tese de Louis Althusser, [isto é, que existe um rompimento entre o jovem e o velho Marx] porque não concordo com uma analise que divide a obra de Marx em diferentes etapas. É logico que o Marx jovem e o Marx do capital, ou esse do qual escrevo, são autores muito diferentes. O Marx jovem é um rapaz de 26 anos, muito brilhante, mas que ainda não começou o percurso da economia política. Ao meu ver, existe um exagero quanto ao debate das obras do jovem Marx, já que essas obras precedem importantes pontos de desenvolvimento da obra do autor, desenvolvimento que vem do estudo, mas também da pratica da militância, uma vez que a experiencia também é muito importante para Marx. Na minha opinião, toda essa atenção precisa passar para as obras do Marx mais maduro”, argumenta Musto, que já escreveu outro livro que trata sobre o pensamento de Marx, intitulado “Repensar Marx e os marxismos” (“Ripenzare Marx e i marxismi”).

Musto, além de professor e pesquisador, é também escritor e diz estar acompanhando de perto a situação política na Itália. Quando questionado pelo Portal Vermelho sobre sua opinião acerca da vitória dos populistas e da extrema-direita no país europeu, ele lamenta que a esquerda italiana vive hoje o momento mais dramático de sua história. “Nunca houve um momento de tanta fragilidade, onde a esquerda é praticamente inexistente. Acredito que tiveram poucos governos na história da Itália perigosos como esse. O problema não é só o governo, mas o sentimento que predomina na população. A única esperança de esquerda que existe hoje na Itália é um pequeno partido chamado Poder ao Povo”, explica.

O Poder ao Povo concorreu às eleições de março desse ano, mas conseguiu cerca de 1% dos votos. Por alguns analistas, foi reconhecido como a única oposição verdadeira, que apresentava alguma novidade progressista.

Musto explica que a Itália está em uma das situações mais feias no continente europeu: nos outros países da Europa existem partidos de esquerda muito maiores. “A Itália é uma anomalia negativa, sendo que nos anos anteriores era um dos países europeus onde a esquerda era mais forte. Isso aconteceu porque os partidos de esquerda italianos fizeram aliança com os partidos sociais-democratas, e esses governos fizeram uma política fortemente neoliberal e contrarreformista, ou seja, fizeram os projetos da direita, o que fez com que as pessoas não diferenciassem mais a direita da esquerda. Isso favoreceu o nascimento de partidos ‘não-ideológicos’, que na verdade são ideológicos, uma vez que trabalham pelo status quo do capitalismo”, completa Musto, e com ar reflexivo reitera: “A solução é a esquerda se tornar forte novamente. O problema é como”.

“O Velho Marx: uma biografia de seus últimos anos [1881-1883]” é um livro relativamente curto, mas que dá novas visões sobre o trabalho de Marx, graças a sua pesquisa rigorosa e a presença de diversos trechos de cartas, manuscritos e documentos inéditos.

No prelúdio da obra, narra-se a visita do jornalista norte-americano Swinton, que pergunta à Marx: “qual é a lei do ser?”. “Com um tom profundo e solene”, o filosofo teria respondido: “A luta!”. De fato, o livro de Musto mostra como Marx viveu em prol da luta, até o último de seus dias.