A formação da crítica de Marx à economia política: dos estudos de 1843 aos Grundrisse

I. Introdução
Apesar das previsões de que a obra de Marx seria relegada ao esquecimento eterno, ela retornou ao cenário histórico nos anos recentes e diversos de seus textos re-apareceram nas prateleiras das livrarias em várias partes do mundo.
A redescoberta de Marx se baseia no poder de explicação ainda presente em seus escritos. Diante de uma nova e profunda crise do capitalismo, muitos estão se voltando para um autor que, no passado, foi muitas vezes erroneamente associado à União Soviética e que, por esse motivo, foi apressadamente esquecido após 1989.
Esse interesse político renovado foi precedido pelo ressurgimento de estudos históricos sobre o trabalho de Marx. Depois do esmaecimento de interesse em suas obras nos anos 80 e da “conspiração de silêncio” dos anos 90, edições novas ou re-publicações de seu trabalho se tornaram disponíveis em quase todos os lugares (com a exceção da Rússia e da Europa Oriental, onde os desastres do “socialismo realmente existente” ainda são recentes demais para que o ressurgimento de Marx figure na agenda), com resultados importantes e inovadores em diversos dos campos onde os novos estudos surgiram. [2]
Para os interessados nessas re-interpretações, especial atenção deve ser dada à edição histórico-crítica das obras completas de Marx e Engels, a Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA2), cuja publicação em partes foi retomada em 1998 (Cf. Musto 2009; Musto 2011). Temos, assim, acesso aos cadernos e a todos os manuscritos preparatórios para o segundo e terceiro volumes do Capital. Nos cadernos encontramos não apenas material retirado dos livros que Marx leu, mas também algumas das reflexões que ele fez sobre o que leu, revelando a oficina de sua teoria crítica, a trajetória completa de seu pensamento e as fontes nas quais se baseou para desenvolver suas próprias idéias. A publicação de todos os manuscritos do Capital e de todas as revisões editoriais feitas por Engels[3] possibilitará uma avaliação crítica confiável dos originais de Marx e da extensão das contribuições de Engels nas edições publicadas dos volumes dois e três.
Meu objetivo aqui é reconstruir os estágios da crítica de Marx à economia política sob a luz das aquisições filológicas da MEGA², para oferecer uma explicação mais completa da formação do pensamento de Marx em relação ao que já foi dito até agora. A grande maioria das pesquisas nessa área considerou apenas alguns períodos do desenvolvimento de sua obra, muitas vezes traçando uma linha direta dos [Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844] [4] até o [Grundrisse] (1957-58), e daí até o primeiro volume do Capital (1867), ou passando, no melhor dos casos, pela análise de apenas dois outros textos: A miséria da filosofia (1847) e as [Teorias da mais-valia] (1862-1863).[5]
O estudo de manuscritos preciosos e dos resultados interessantes que foram surgindo a partir dessas análises permaneceu como privilégio de um círculo restrito de intelectuais capazes de ler os volumes em alemão da MEGA². O objetivo deste ensaio é tornar esses textos mais conhecidos e reacender o debate sobre a origem e o caráter inconcluso do trabalho de Marx.[6] Meu estudo está dividido em duas partes. Na primeira, que corresponde ao ensaio presente, examino a pesquisa de Marx sobre a economia política e algumas de suas descobertas teóricas nesse campo, desde os estudos iniciais de 1843 à composição do [Grundrisse] (1857-58) – os volumosos manuscritos preparatórios do curto trabalho intitulado Uma contribuição para a crítica da economia política (1859), que é geralmente considerado o primeiro rascunho do Capital. No segundo artigo, a ser publicado num futuro próximo, examinarei a composição do Capital através de seus vários rascunhos, desde o [Grundrisse] até os manuscritos finais de 1881, escritos antes da morte de Marx. Sob a luz do novo material do MEGA², nessa parte considerarei mais cuidadosamente alguns dos debates marxológicos mais importantes do século XX, tais como aqueles relacionados à suposta lacuna entre os primeiros escritos e o Capital, ou à acusação de que Engels simplificou as idéias de Marx. Também procurarei demonstrar como uma leitura séria dos textos recém-publicados pode ser útil para uma nova leitura política da obra de Marx, com vistas à compreensão e transformação da sociedade contemporânea.
Inicialmente, o presente ensaio procura: a) reconstruir os estudos de economia política que Marx realizou em Paris, Manchester e Bruxelas entre 1843 e 1847 e que culminaram na publicação de A miséria da filosofia (§ II e III) e b) considerar o destino político e pessoal de Marx durante as revoluções de 1848 e o primeiro período de seu exílio posterior em Londres (§ IV e V). Nesse período ele escreveu sobre economia política para dois periódicos que ele fundou e dirigiu: entre 1848 e 1849 o Neue Rheinische Zeitung: Organ der Demokratie e, em 1850, o Neue Rheinische Zeitung: Politisch-ökonomische Revue. Também nessa época, ele consolidou sua convicção de que uma nova revolução só poderia surgir a partir de uma crise econômica mundial. Já a parte VI do presente texto enfoca os 26 cadernos de anotações que ele compilou entre 1850 e 1853, conhecidos como [Os cadernos de Londres]. Essas anotações dão prova de sua imersão em dezenas de obras sobre economia política, possibilitando reconstruir uma fase importante do pensamento de Marx que poucos intérpretes investigaram até agora. Finalmente, após uma discussão do julgamento dos Comunistas em 1853 (§ VII) – um acontecimento importante que mobilizou as energias Marx durante muito tempo – as partes VIII e IX deste texto analisam o desenvolvimento de sua posição nos artigos que escreveu para o New York Tribune sobre a possibilidade de uma crise econômica na década de 1850. A deflagração de tal crise acabaria por coincidir com o trabalho inicial no [Grundrisse], onde ele discute a relação entre dinheiro e valor e os processos de produção e circulação do capital, onde introduz o conceito de mais-valia e re-trabalha criticamente os estudos profundos de economia política que o tinham absorvido nos anos anteriores. Uma tabela no Apêndice estabelece a ordem cronológica dos cadernos de notas, dos manuscritos e das obras sobre economia política no período de 1843-1858.

II. O encontro com a Economia Política
A Economia Política não era a primeira paixão intelectual de Karl Marx: tratava-se de uma disciplina que acabava de surgir na Alemanha de sua juventude e seu interesse por ela só apareceu depois de diversos outros assuntos.
Nascido em Trier em 1818, numa família de origem judaica, Marx iniciou sua vida acadêmica em 1835 estudando direito nas universidades de Bonn e Berlin. Em seguida, interessou-se pela filosofia (particularmente pelo Hegelianismo dominante na época) e acabou se graduando na Universidade de Jena em 1841, com a tese A diferença entre as filosofias Demócrita e Epicurea da Natureza. Ele decidiu, então, iniciar uma carreira acadêmica, mas a filosofia de Hegel deixou de ter apoio oficial quando Friedrich Wilhelm IV subiu ao trono na Prússia e Marx, tendo sido membro da Juventude Hegeliana, teve que mudar de planos. Entre 1842 e 1843 ele se dedicou ao jornalismo, cobrindo assuntos contemporâneos, e trabalhou para o Rheinische Zeitung, o diário da cidade de Colônia (Alemanha) do qual ele logo se tornou o jovem editor chefe. Entretanto, logo após ter aceitado o posto e ter começado a publicar seus próprios artigos sobre questões econômicas – embora apenas em seus aspectos legais e políticos (Marx 1975, p. 224-263, 332-358 e Marx e Engels 1975a, p. 199-236, 296-323) – a censura atacou o jornal e o obrigou a por fim na experiência, “retirando-se do palco público para os estudos” (Marx e Engels 1987: 263 e 1980:100). Ele então prosseguiu com seus estudos sobre o Estado e as relações legais – áreas nas quais Hegel era uma autoridade reconhecida – e em 1843 escreveu o manuscrito que foi postumamente publicado como [Crítica da filosofia do direito de Hegel] (Marx 1975b, p. 231 e 1982: 325). Tendo desenvolvido a convicção de que a sociedade civil formava a base real do estado político, nesse texto ele apresentou suas primeiras reflexões sobre a importância dos fatores econômicos na formação da totalidade das relações sociais.
Marx iniciou um “estudo crítico rigoroso da economia política”[7] apenas depois de se mudar para Paris, onde, em 1844, ele fundou e ajudou a editar o Deutsch-französische Jahrbücher.[8] A partir desse momento, suas reflexões, que haviam sido basicamente de uma natureza filosófica, histórica e política, se voltaram para a nova disciplina que constituiria o cerne de sua pesquisa futura. Ele leu intensamente em Paris, preenchendo nove livros de notas e citações. De fato, na universidade ele havia adquirido o hábito de compilar resumos de obras, frequentemente acompanhadas por reflexões que elas lhe sugeriam.[9] Os chamados [Manuscritos de Paris] são especialmente interessantes por seus longos compêndios do Traité d’économie politique de Jean-Baptiste Say e d’ A riqueza das nações de Adam Smith[10] – de quem Marx adquiriu seus conhecimentos básicos de economia política – assim como dos Princípios da economia política e tributação de David Ricardo e dos Elementos de Economia Política de James Mill[11], que lhe possibilitaram fazer suas primeiras avaliações dos conceitos de valor e preço, e assim lançar uma crítica do dinheiro como dominação de coisas estranhas sobre o homem.
Ao mesmo tempo em que fazia esses estudos, Marx fez anotações em três cadernos que seriam publicados postumamente como [Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844], onde ele dá atenção especial ao conceito de trabalho alienado (entäusserte Arbeit). Indo na direção oposta dos principais economistas e do próprio Hegel, Marx viu esse fenômeno, através do qual a produção do trabalhador se opõe a ele como “algo estranho, como um poder independente do produtor” (Marx 1975b , p. 272 e 1982: 364-365) não como uma condição natural ou imutável, mas como característica de uma estrutura específica de relações sociais de produção: o modo capitalista de produção e o trabalho assalariado.
Algumas das pessoas que visitaram Marx nesse período dão testemunho da intensidade do seu ritmo de trabalho. O jornalista radical Heinrich Bürgers escreve no final de 1844: “Marx iniciou investigações profundas no campo da economia política com um projeto de escrever uma obra crítica que iria re-fundar a ciência econômica.” (Bürgers 1973: 46). Entusiasmando com a esperança de um levante social iminente, Friedrich Engels – que conheceu Marx no verão de 1844 e iniciou com ele uma relação de amizade e uma solidariedade teórico-política que duraria pelo resto de suas vidas – insistiu, na primeira carta de uma correspondência que duraria quarenta anos, que Marx publicasse o mais rápido possível: “Tome providências para que o material que você coletou seja publicado logo. Já está mais do que na hora!” (Engels a Marx, início de outubro de 1844, Marx e Engels 1982, p. 6). Mas o sentimento de inadequação que Marx tinha em relação ao seu conhecimento o impediu de completar e publicar seus manuscritos. Entretanto, ele escreveu com Engels [12] A sagrada família, ou A Crítica da Crítica crítica: contra Bruno Bauer e consortes, uma tirada polêmica contra Bauer e outras figuras do movimento da esquerda Hegeliana do qual Marx havia se afastado em 1842, acusando-os de operar em isolamento especulativo em torno, exclusivamente, de debates conceituais estéreis.
Tendo publicado esse trabalho, Engels lhe escreve novamente no início de 1845, insistindo para que o amigo completasse o trabalho em preparação:
Faça um esforço para acabar seu livro de economia política, mesmo que ainda haja coisas nele com as quais você esteja insatisfeito, não importa. Os ânimos estão exaltados e é preciso agir enquanto o ferro está quente (…). Já é mais do que tempo. Portanto, tente acabá-lo antes de abril. Faça como eu, estabeleça uma data final e faça com que o livro seja publicado logo. (Engels a Marx, 20 de janeiro de 1845, Marx e Engels 1982, p. 17-18).
Mas a insistência foi inútil. Marx ainda sentia a necessidade de continuar seus estudos antes de dar forma final aos rascunhos que havia escrito. De qualquer modo, ele estava certo de que logo poderia publicar e no dia 1 de fevereiro de 1845 – depois de ter sido expulso da França por ter colaborado com o Vorwärts!, um jornal publicado em alemão por trabalhadores – ele assinou um contrato com o editor Karl Wilhelm, da Darmstadt, para a publicação de um trabalho em dois volumes a ser intitulado “Crítica da política e da economia política” (Marx e Engels 1963, p. 669).

III. Continuando o estudo de economia
Em fevereiro de 1845 Marx se mudou para Bruxelas, onde conseguiu permissão para fixar residência desde que “não publicasse nada sobre a situação política atual” (Marx e Engels, 1975a: 677). Ele permaneceu ali até março de 1848 com sua esposa Jenny von Westphalen e sua primeira filha Jenny, nascida em Paris em 1844. Durante esses três anos, especialmente em 1845, ele progrediu de modo frutífero em seus estudos de economia política. Em março de 1845 ele iniciou o trabalho em uma crítica – que ele nunca chegou a completar – do livro do economista alemão Friedich List sobre “o sistema nacional de economia política” (Marx 1975c, p. 265-293). Além disso, entre fevereiro e julho ele completou seis cadernos com anotações, os chamados [Cadernos de Bruxelas], que enfocam principalmente os conceitos básicos de economia política, com ênfase especial nos Études sur l’économie politique, de Sismonde de Sismondi, nos Cours d’économie politique, de Henri Storch e nos Cours d’économie politique, de Pelegrino Rossi. Ao mesmo tempo, Marx se aprofundou em questões associadas à maquinaria e à indústria de larga escala, copiando uma série de páginas da Economia da maquinaria e dos manufaturadores, de Charles Babbage.[13] Com Engels, ele também planejou a organização da tradução alemã de uma “biblioteca dos melhores escritores socialistas estrangeiros”. [14] Porém, devido à escassez de tempo e a impossibilidade de assegurar fundos com algum editor, os dois tiveram que abandonar o projeto e se concentrar em seu próprio trabalho.
Marx passou os meses de julho e agosto em Manchester examinado a vasta literatura em inglês sobre economia, uma tarefa essencial para o livro que ele tinha em mente. Ele compilou nove cadernos de citações, os [Cadernos de Manchester], onde novamente as principais referências eram de manuais de economia política e livros sobre a história da economia, tais como Palestras sobre os elementos da economia política, de Thomas Cooper, aHistória dos preços e do estado de circulação, de Thomas Tooke, A literatura da economia política, de John Ramsay McCulloch e Ensaios sobre algumas questões abertas de economia política, de John Stuart Mill.[15] Marx também se interessou enormemente por questões sociais e juntou passagens de alguns dos principais volumes de literatura socialista em inglês, em especial doLabour’s Wrongs and Labour’s Remedy, de John Francis Bray e dos Essay on the Formation of Human Character e Book of the New Moral World, de Robert Owen.[16] Argumentos semelhantes foram apresentados no primeiro trabalho de Friedrich Engels, A condição da classe trabalhadora na Inglaterra, na verdade publicado em junho de 1845.
Na capital belga, além dos estudos sobre economia, Marx trabalhou em outro projeto que ele considerou necessário, diante das circunstâncias políticas. Em novembro de 1845 ele teve a idéia de escrever com Engels, Joseph Weydemeyer e Moses Hess uma “crítica da moderna filosofia alemã como exposta por seus representantes, Feuerbach, Bruno Bauer e Stirner, assim como do socialismo alemão como exposto por seus diversos profetas” (Marx e Engels 1976, p. 72). O texto final, publicado postumamente com o título de A ideologia alemã, tinha um objetivo duplo: combater as mais recentes formas do neo-hegelianismo na Alemanha (The Ego and His Own, de Max Stirner, havia sido publicado em outubro de 1844) para, em seguida, como Marx escreveu para o editor Leske, “preparar o público para a perspectiva adotada em minha Economia (Oekonomie), que se opõe, diametralmente, à academia alemã passada e presente”.[17] Esse texto, no qual ele trabalhou até junho de 1846, jamais foi completado, mas ajudou na elaboração mais clara, embora ainda não definitiva, daquilo que Engels definiria para o público quarenta anos mais tarde como a “concepção materialista da história”.[18]
Para rastrear o progresso da “Economia” em 1846, é novamente necessário analisar as cartas de Marx a Leske. Em agosto ele informou o editor que “o manuscrito do primeiro volume” já estava praticamente pronto “há muito tempo”, mas que ele não “queria publicá-lo sem uma nova revisão, tanto na questão do conteúdo quanto do estilo.” Ele continua: “É claro que um escritor que trabalha sem parar não pode, no final de seis meses, publicar palavra por palavra aquilo que escreveu seis meses antes.” Entretanto, ele procuraria concluir o livro no futuro próximo: “A versão revisada do primeiro volume estará pronta para publicação no final de novembro. O segundo volume, de natureza mais histórica, virá logo depois” (Karl Marx a Carl Wilhelm Julius Leske, 1 de agosto de 1846, Marx e Engels 1982, p. 51). Mas esses relatos não correspondiam ao estado real de seu trabalho, já que nenhum de seus manuscritos poderia ter sido descrito como “praticamente pronto” na medida em que o editor ainda não havia recebido nem sequer o primeiro no início de 1847, decidindo assim anular o contrato.
Esses atrasos constantes não deveriam ser atribuídos a qualquer tipo de descuido da parte de Marx. Ele nunca abandonou a atividade política nesses anos e na primavera de 1846 promoveu o trabalho do “Comitê de Correspondência Comunista”, cuja missão era organizar uma aliança entre as várias ligas de trabalhadores na Europa. Entretanto, o trabalho teórico sempre foi sua prioridade, como testemunham as pessoas que o visitavam regularmente nesse período. O poeta alemão Georg Weerth, por exemplo, escreveu em novembro de 1846:
Num certo sentido Marx é considerado o cabeça do partido comunista. Porém, muitos comunistas e socialistas auto-didatas ficariam espantados se soubessem o quanto esse homem é capaz de fazer. Marx trabalha dia e noite para esclarecer as mentes dos trabalhadores da América, da França, da Alemanha, etc. a respeito do sistema peculiar que os obscurece. (…) Ele trabalha como um louco em sua história da economia política. Há muitos anos esse homem não dorme mais do que quatro horas por noite. (Georg Weerth a Wilhelm Weerth, 18 de novembro de 1846, Enzensberger, 1973, p. 68-9).
Suas notas de trabalho e seus escritos publicados fornecem provas adicionais de sua diligência. Entre o outono de 1846 e setembro de 1847 ele completou três grandes cadernos com citações, em geral relacionadas à história da economia, retiradas da Geschichtliche Darstellung des Handels, der Gewerbe und des Ackerbaus der bedeutendsten handeltreibenden Staaten unsrer Zeit, de Gustav von Gülich, um dos principais economistas alemães da época.[19] Em dezembro de 1864, depois de ter lido o Système des contradictions économique ou Philosophie de la misere, de Pierre-Joseph Proudhon (que ele achou “muito fraco” [Marx a Pavel Vasilyevich Annenkov, 28 de dezembro de 1846, Marx e Engels 1982, p. 95]), Marx decidiu escrever uma crítica. Ele fez isso diretamente em francês, para que seu oponente, que não lia em alemão, fosse capaz de entendê-lo. O texto foi completado em abril de 1847 e publicado em julho com o título de Misère de la philosophie: Réponse à la Philosophie de la misère de M. Proudhon. Tratava-se do primeiro escrito publicado por Marx sobre economia política, que expunha suas idéias sobre a teoria do valor, a abordagem metodológica apropriada para uma compreensão da realidade social e o caráter historicamente transiente dos modos de produção.
O adiamento do livro planejado – uma crítica da economia política – não se devia, portanto, à falta de aplicação de Marx, mas à dificuldade da tarefa. A questão a ser examinada criticamente era tão vasta que seriam necessários muitos mais anos para discuti-la com sua característica seriedade e consciência crítica. No final da década de 1840, embora ele não estivesse totalmente consciente disso, Marx estava apenas no início de seus esforços.

IV. 1848 e o início da revolução
Enquanto os conflitos sociais se intensificavam na segunda metade de 1847, as atividades políticas exigiam mais tempo de Marx. Em junho a Liga Comunista, uma associação de trabalhadores e artesãos alemães com filiais internacionais, foi fundada em Londres; em agosto Marx e Engels estabeleceram uma Associação de Trabalhadores Alemães em Bruxelas; e em novembro Marx se tornou vice-presidente da Associação Democrática de Bruxelas, que se dividia entre uma ala revolucionária e uma parte democrática mais moderada. No final do ano de 1847, a Liga Comunista deu a Marx e a Engels a tarefa de escrever um programa político, e pouco tempo depois, em fevereiro de 1848, esse texto foi publicado com o título de Manifesto do Partido Comunista. Suas palavras iniciais – “Um espectro ronda a Europa, o espectro do comunismo” – estavam destinadas a se tornarem famosas em todo o mundo. Uma de suas teses principais teria o mesmo destino: “A história de todas as sociedades até hoje existentes é a história da luta de classes” (Marx e Engels 1976, p. 481-482).
A publicação do Manifesto não poderia ter sido mais apropriada. Logo em seguida, um movimento revolucionário de abrangência e intensidade sem precedentes lançou a ordem política e social do continente europeu numa crise. Os governos estabelecidos tomaram todas as contra-medidas possíveis para por fim às insurreições e em março de 1848 Marx foi expulso da Bélgica para a França, onde uma república acabara de ser proclamada. Naturalmente, ele deixou de lado seus estudos de economia política e intensificou suas atividades jornalísticas em prol da revolução, ajudando a pensar num rumo político desejável. Em abril ele se mudou para a região da Rhineland – a mais desenvolvida economicamente e mais liberal politicamente na Alemanha – e em junho começou a editar o Neue Rheinische Zeitung. Organ der Demokratie, que havia sido fundado em Colônia nesse meio tempo. Embora seus artigos sejam, em sua maioria, crônicas dos eventos políticos, em abril de 1849 ele publicou uma série de editoriais sobre a crítica da economia política, pois acreditava que a hora havia chegado em que “era preciso lidar mais diretamente com as próprias relações sobre as quais a existência da burguesia e sua ordem, assim como a escravidão dos trabalhadores, se fundam” (Marx 1977, p. 198). Cinco artigos baseados em palestras que ele havia proferido em dezembro de 1847 para a Associação de Trabalhadores Alemães em Bruxelas apareceram com o título Trabalho Assalariado e Capital, onde Marx apresentava ao público, de modo mais extenso do que no passado e na linguagem mais compreensível possível para os trabalhadores, sua concepção dos modos através dos quais o trabalho assalariado era explorado pelo capital.
Entretanto, o movimento revolucionário que surgiu em toda a Europa em 1848 foi derrotado num curto espaço de tempo. Entre as razões para a vitória do lado autoritário e conservador estavam: a recuperação da economia; a debilidade da classe trabalhadora, que em alguns países mal podia contar com uma estrutura organizacional; a retirada do apoio das classes médias às reformas, que se aproximaram da aristocracia para impedir o movimento em direção a um radicalismo excessivo. Tudo isso permitiu que as forças políticas reacionárias retomassem um controle firme sobre as rédeas do governo.
Após um período de intensa atividade política, em maio de 1848 Marx recebeu uma ordem de expulsão da Prússia e voltou à França. Mas, quando a revolução foi derrotada em Paris, as autoridades ordenaram que ele se mudasse para Morbihan, então uma região desolada e infestada de malária da Bretanha. Diante de “atentado velado contra minha vida”, ele decidiu abandonar a França e ir para Londres, onde ele acreditava existir “condições positivas para começar um jornal em alemão” (Karl Marx a Friedrich Engels, 23 de agosto de 1849, Marx e Engels 1982, p. 213). Ele permaneceria na Inglaterra como exilado pelo resto da vida, mas a reação européia não poderia tê-lo isolado num lugar melhor para que ele escrevesse sua crítica da economia política. Na época, Londres era o mais importante centro econômico e financeiro do mundo, o “demiurgo do cosmos burguês” (Marx e Engels 1978, p. 134), e, portanto, o local mais favorável do qual observar os mais recentes desenvolvimentos econômicos e retomar seus estudos da sociedade capitalista.

V. Em Londres esperando pela crise
Marx chegou à Inglaterra no verão de 1849, aos trinta e um anos. Sua vida na capital inglesa estava longe de ser tranqüila. Sua família – que contava com seis pessoas após o nascimento de Laura em 1845, de Edgar em 1847 e de Guido logo após sua chegada em 1849 – teve que morar por um longo período em condições precárias no Soho, um dos bairros mais pobres de Londres à época. Além dos problemas familiares, Marx estava envolvido num comitê de ajuda aos exilados alemães, que ele financiava com o apoio da Liga Comunista e cuja missão era dar assistência a diversos refugiados políticos em Londres.
A despeito das condições adversas, Marx conseguiu atingir seu objetivo de iniciar uma nova publicação. Em março de 1850 ele começou a editar a Neue Rheinische Zeitung. Politisch-okonomische Revue, uma publicação mensal que ele esperava ser o lugar de uma “investigação abrangente e científica das condições econômicas que formam a base da totalidade do movimento político”. Ele acreditava que “um tempo de aparente calma como o presente deve ser utilizado precisamente para o propósito de elucidar o período revolucionário pelo qual acabamos de passar, a natureza das partes conflitantes e as condições sociais que determinam a existência e a luta entre essas partes” (Marx e Engels 1978, p. 5).
Marx estava convencido, erroneamente, que a situação seria um interlúdio breve entre a revolução concluída recentemente e uma outra que se preparava mais adiante. Em dezembro de 1849 ele escreveu ao amigo Weydemeyer: “Estou seguro de que quando três, talvez dois números mensais [da Neue Rheinische Zeitung] tiverem aparecido, uma conflagração mundial intervirá e a oportunidade de acabar temporariamente com a economia política terá se dissipado”. Uma “poderosa crise industrial, agrícola e comercial” estava claramente iminente (Karl Marx a Joseph Weydemeyer, 19 de dezembro de 1849, Marx e Engels1982: 220). E ele contava com o surgimento de um novo movimento revolucionário, embora apenas após o início da crise, pois a prosperidade industrial e comercial enfraquecia a resolução das massas proletárias. Mais tarde, em As lutas de classe na França, que apareceram na forma de uma série de artigos na Neue Rheinische Zeitung, ele afirmou que “uma revolução verdadeira (…) só é possível em períodos nos quais (…) as modernas forças de produção e as formas burguesas de produção entram em conflito (…). Uma nova revolução só é possível como conseqüência de uma nova crise” (Marx 1978, p. 135). Marx não mudou de opinião mesmo quando a prosperidade econômica começou a se espalhar e no primeiro número da Neue Rheinische Zeitung (janeiro-fevereiro) ele escreveu que a reviravolta não tardaria, pois os mercados da Índias Ocidentais estavam “já praticamente saturados” e que os da América do Norte e do Sul, assim como da Austrália, em breve seguiriam o mesmo caminho. Logo:
[…] com as primeiras notícias sobre esses excedentes, as área de produção e especulação entrarão em “pânico” simultaneamente – talvez já no final da primavera, no máximo em julho ou agosto. Essa crise, entretanto, que deve coincidir com grandes conflitos no Continente, terá resultados bem diferentes daqueles das crises anteriores. Enquanto todas as crises até agora tem sinalizado um novo avanço, uma nova vitória da burguesia industrial sobre a propriedade rural e a burguesia financeira, esta crise marcará o início da moderna revolução inglesa (Marx e Engels, 1978a, p. 254-255).
Também no número seguinte, de março-abril de 1850, Marx argumentava que a conjuntura econômica positiva não representava mais do que uma melhora temporária, pois a superprodução e os excessos da especulação no setor das estradas de ferro estavam produzindo uma crise cujos efeitos seriam:
[…] mais significativos do que de qualquer crise até agora. Ela coincide com a crise da agricultura (…). Essa crise dupla na Inglaterra está sendo apressada e expandida, tornando-se mais inflamável, pelas convulsões que simultaneamente ameaçam o Continente; e as revoluções continentais assumirão um caráter socialista incomparavelmente mais claro com os efeitos da crise inglesa no mercado mundial (Marx e Engels 1978b, p. 340).
O cenário desenhado por Marx, que levava em consideração tanto os mercados europeus quanto os norte-americanos, era bastante otimista do ponto de vista da causa do movimento dos trabalhadores. Em sua opinião, “após a entrada da América na recessão causada pela superprodução, podemos esperar que a crise se desenvolva bem mais rapidamente no mês seguinte do que até o momento.” Sua conclusão, portanto, era otimista: “A coincidência da crise do comércio e da revolução (…) torna-se cada vez mais certa. Que les destins s’accomplissent!” (Marx e Engels 1978b, p. 341).
Durante o verão Marx aprofundou a análise econômica iniciada antes de 1848 e no número de maio-outubro de 1850 do jornal – o último antes que a falta de fundos e a polícia prussiana forçassem seu fechamento. Ele chegou à importante conclusão de que “a crise comercial contribuiu infinitamente mais para as revoluções de 1848 do que a revolução para a crise comercial” (Marx e Engels 1978c, p. 497). A partir desse ponto, a crise econômica adquiriu uma importância fundamental em seu pensamento, não apenas economicamente, mas também sociológica e politicamente. Além disso, ao analisar os processos de especulação e superprodução galopantes, ele se aventurou a prever que “se o novo ciclo de desenvolvimento industrial que começou em 1848 seguir o mesmo curso daquele de 1843-1847, a crise acontecerá em 1852.” A crise futura, ele enfatizava, também atingiria o campo e “pela primeira vez a crise industrial e comercial coincidirá com a crise da agricultura.” (Marx e Engels 1978c, p. 503).
As previsões de Marx realizadas nesse período de mais de um ano se provaram equivocadas. Porém, mesmo nos momentos em que ele estava mais firmemente convencido de que uma nova onde revolucionária estava iminente, suas idéias eram bem diferentes daquelas de outros líderes políticos europeus exilados em Londres. Embora Marx estivesse errado a respeito do desenvolvimento da situação econômica, ele considerava indispensável o estudo do atual estado das relações econômicas e políticas para os objetivos da atividade política. De outro lado, a maior parte dos líderes democráticos e comunistas da época, que ele caracterizou como “alquimistas da revolução”, pensavam que o único pré-requisito para uma revolução vitoriosa era a “preparação adequada de sua conspiração” (Marx e Engels 1978c, p. 318).
Um exemplo disso era o manifesto “Às Nações”, publicado pelo Comitê Central da Democracia Européia, que Giuseppe Mazzini, Alexandre Ledru-Rollin e Arnold Ruge haviam fundado em Londres em 1850. De acordo com Marx, esse grupo dava a crer que “a revolução fracassou devido à ambição e inveja dos líderes individuais e às visões mutuamente hostis dos diversos educadores populares.” Ele também ficou “estupefato” com o modo através do qual esses líderes concebiam a “organização social”: “uma multidão se formando nas ruas, um tumulto, um aperto de mãos e tudo acaba. Em sua visão, a revolução consiste meramente na derrubada do governo existente: assim que esse objetivo for atingido, “a vitória” terá sido conquistada” (Marx e Engels 1978c, p. 529-530).
Ao contrário daqueles que esperavam que outra revolução surgisse do nada, Marx estava convencido, no outono de 1850, de que ela não aconteceria sem uma nova crise mundial. A partir desse ponto, ele se distanciou das falsas esperanças de uma revolução iminente [20] e viveu em “completo isolamento” (Marx a Engels, 11 de fevereiro de 1851, Marx e Engels 1982: 286). Como escreveu Wilhelm Pieper, um membro da Liga Comunista, em janeiro de 1851: “Marx leva uma vida bastante retirada e seus únicos amigos são John Stuart Mill e Loyd. Sempre que se faz uma visita, ele recebe o visitante com categorias econômicas no lugar de cumprimentos” (Marx a Engels [notas de Wilhelm Pieper], 27 de janeiro de 1851, Marx e Engels 1982, p. 269-270).
Nos anos seguintes, Marx, de fato, viu poucos amigos em Londres e manteve contato próximo apenas com Engels, que nesse ínterim tinha se estabelecido em Manchester. Em fevereiro de 1851 Marx escreveu a Engels: “Fico enormemente satisfeito com o isolamento público e autêntico no qual nós dois, você e eu, nos encontramos. Está inteiramente de acordo com nossas atitudes e princípios” (Marx a Engels, 11 de fevereiro de 1851, Marx e Engels, 1982, p. 286). Engels, de sua parte, respondeu: “É essa a posição que podemos e devemos adotar na próxima ocasião: “a crítica feroz de todos.” O “principal” era “encontrar algum modo de publicar nossas coisas, seja numa revista na qual possamos fazer um ataque frontal e consolidar nossa posição em relação às outras pessoas, ou em livros.” Em resumo, ele concluiu com certo otimismo, “o que pode todo o blá-blá-blá de toda a turba de exilados contra você, quando você pode responder com sua economia política?” (Engels a Marx, 13 de fevereiro de 1851, Marx e Engels 1982, p. 290-291). O desafio, portanto, tornou-se a previsão do início da crise. Para Marx, que agora tinha um motivo político adicional, havia chegado a hora de se voltar novamente ao estudo da economia política.

VI. As notas de pesquisa de 1850-53
Durante os três anos em que Marx interrompeu seus estudos de economia política, houve uma sucessão de eventos econômicos – desde a crise de 1847 até a descoberta de ouro na Califórnia e na Austrália – cuja importância o levou a retomar a pesquisa, ao mesmo tempo em que revisava suas anotações antigas para tentar dar a elas uma forma acabada. (Tuchscheerer, 1973, p. 318). Suas leituras adicionais foram resumidas em 26 livros de anotações, dos quais 24 (também contendo textos de outras disciplinas) ele compilou entre setembro de 1850 e agosto de 1853, numerando-os entre os chamados [Cadernos de Londres]. Esse material de estudo é extremamente interessante, documentando um período de desenvolvimento significativo na crítica de Marx, quando ele não apenas resumiu o conhecimento que havia adquirido, mas, ao estudar dezenas de novos livros em profundidade, especialmente em inglês, na biblioteca do Museu Britânico, adquiriu outras idéias importantes para o trabalho que ele pensava em escrever. [21]
Os [Cadernos de Londres] podem ser divididos em três grupos. Nos primeiros sete cadernos (I-VII), escritos entre setembro de 1850 e março de 1851, alguns dos diversos trabalhos que Marx leu e anotou foram: A History of Prices de Thomas Tooke, A View of the Money System of England de James Taylor, Histoire de la Monnaie de Germain Garnier, os Sämtliche Schriften über Banken und Münzwesen de Johann Georg Büsch,An Enquiry into the Nature and Effects of the Paper Credit of Great Britain de Henry Thornton, e A riqueza das nações de Adam Smith. [22] Marx se concentrou especialmente na história e teorias das crises econômicas, prestando bastante atenção à forma do dinheiro e ao crédito em sua tentativa de entender suas origens. Ao contrário de outros socialistas da época como Proudhon – que estavam convencidos que as crises econômicas poderiam ser evitadas através da reforma do sistema monetário e de crédito – Marx chegou à conclusão que, como o sistema de crédito constituía uma das condições básicas, as crises poderiam, no máximo, serem agravadas ou mitigadas através do uso correto ou incorreto da circulação monetária. As verdadeiras causas da crise deveriam, na verdade, ser procuradas nas contradições da produção. [23]
No final do primeiro grupo de anotações, Marx resumiu seu próprio conhecimento em dois cadernos que ele não numerou como parte da série principal e que foram intitulados [Ouro: o sistema monetário perfeito] (Marx 1986c, p 3-85).[24] Nesse manuscrito, que ele escreveu na primavera de 1851, Marx copiou dos principais trabalhos de economia política – às vezes incluindo seus próprios comentários – aquilo que ele considerava como as passagens mais importantes sobre a teoria do dinheiro. Dividido em 91 partes, uma para cada livro analisado, [Ouro] não era apenas uma coleção de citações, mas pode ser pensado como a primeira formulação autônoma de Marx sobre a teoria do dinheiro e da circulação [25] a ser utilizada na escrita do livro que ele vinha planejando há muitos anos.
Nesse mesmo período, embora Marx tivesse que enfrentar problemas pessoais terríveis – especialmente a morte de seu filho Guido em 1850 – e suas condições econômicas fossem precárias – a ponto dele se ver forçado a delegar os cuidados de sua filha Franziska, nascida em março de 1851, a estranhos – Marx não apenas conseguiu dar continuidade a seu próprio trabalho, mas estava esperançoso de que ele seria concluído em breve. Em 2 de abril de 1851, ele escreveu a Engels:
Estou tão adiantado que creio que terei terminado toda essa tralha econômica em cinco semanas. Et cela fait terei terminado a Economia em casa e poderei aplicar-me à outra área do conhecimento no Museu [Britânico]. Ça commence à m’ennuyer. Au fond, essa ciência não fez progresso desde A. Smith e D. Ricardo, a despeito do quanto tenha sido feito em pesquisas individuais, muitas vezes de grande discernimento. … Em breve terei prontos dois volumes de 60 páginas. [Tradução modificada.] (Marx a Engels, 2 de abril de 1851, Marx e Engels 1982, p. 325).
Engels recebeu a notícia com grande alegria: “Fico feliz que você tenha finalmente terminado com a economia política. A coisa já está se alongando e enquanto você tiver na sua frente um livro cuja leitura você considere importante, você não vai começar a escrever.” (Engels a Marx, 3 de abril de 1851, Marx e Engels 1982, p. 330). Mas a carta de Marx refletia mais seu otimismo sobre o fim do trabalho do que o estado real das coisas. À parte todos os cadernos de anotações, e com a exceção de [Ouro], este último longe de ser um texto pronto para impressão, Marx ainda não tinha produzido um único manuscrito. Sem dúvida, ele havia conduzido sua pesquisa com grande intensidade, mas ele ainda não dominava totalmente os materiais econômicos e, a despeito de sua determinação e convicção de que obteria sucesso, seus escrúpulos o impediam de avançar além de suas anotações e comentários críticos para finalmente escrever seu livro. Além disso, não havia um editor nos bastidores insistindo para que ele fosse mais conciso em seus estudos. A “Economia” estava longe de estar pronta “em breve”.
Assim, Marx se voltou mais uma vez para o estudo dos clássicos da economia política e entre abril e novembro de 1851 escreveu o que pode ser visto como o segundo grupo (VIII-XVI) dos [Cadernos de Londres]. O Caderno VIII é quase todo dedicado às anotações retiradas doInquiry into the Principles of Political Economy de James Steuart, que ele havia começado a estudar em 1847 e doPrincípios da economia política e tributação, de Ricardo. As citações de Ricardo, na verdade, compiladas enquanto ele escrevia o [ Ouro], constituem a parte mais importante dos [Cadernos de Londres], devido aos inúmeros comentários e reflexões pessoais que as acompanham.[26] Até o final da década de 1840, Marx tinha essencialmente aceito as teorias de Ricardo, enquanto que a partir de agora, através do estudo novo e mais aprofundado da renda da terra e do valor, ele vai além de Ricardo em certos aspectos. [27] Desse modo, Marx revisou algumas de suas visões anteriores sobre questões fundamentais e, assim, expandiu o raio de seu conhecimento para examinar ainda outros autores. Os Cadernos IX e X, de maio-julho de 1851, se concentram em economistas que lidaram com as contradições da teoria de Ricardo e que, em certos aspectos, tinham aperfeiçoado suas concepções. Um grande número de anotações desses livros são provenientes de: A History of the Past and Present State of the Labouring Population de John Debell Tuckett, Popular Political Economy de Thomas Hodgskin, On Political Economy de Thomas Chalmers, An Essay on the Distribution of Wealth de Richard Jones e Principles of Political Economy de Henry Charles Carey[28].
A despeito do escopo mais amplo da pesquisa e da acumulação de questões teóricas a serem resolvidas, Marx permaneceu otimista em relação à conclusão do projeto. No final de junho de 1851 ele escreveu ao fiel Weydemeyer:
Geralmente estou no Museu Britânico das 9 da manhã às 7 da noite. O material no qual estou trabalhando é tão terrivelmente complexo que, não importa o quanto eu me dedique, só poderei concluí-lo dentro de 6 ou 8 semanas. Além disso, há interrupções constantes de natureza prática, inevitáveis nas circunstâncias miseráveis nas quais estamos vegetando aqui. Mas, mesmo assim, a coisa está chegando rapidamente à sua conclusão. (Marx a Joseph Weydemeyer, 27 de junho de 1851, Marx e Engels 1982, p. 377).
Evidentemente, Marx pensou que seria capaz de escrever seu livro em dois meses, utilizando a vasta quantidade de anotações e notas críticas que ele já havia compilado. Entretanto, mais uma vez ele não conseguiu chegar à tão desejada conclusão, nem tampouco conseguiu começar o manuscrito final que seria enviado aos editores. Desta vez a razão principal para o atraso foram suas dificuldades econômicas. Na falta de uma fonte de renda estável e desgastado por sua condição física, ele escreveu a Engels no final de julho de 1851:
É impossível seguir vivendo assim… Eu deveria ter terminado meu trabalho na biblioteca há muito tempo. Mas tem havido muitas interrupções e distúrbios e em casa tudo está num estado de guerra. Por diversas noites estou num estado lamentável e me enfureço até as lágrimas. É claro que não consigo fazer muita coisa. (Marx a Engels, 31 de julho de 1851, Marx e Engels 1982, p. 398).
Para melhorar sua situação financeira, Marx decidiu retomar a atividade jornalística e começou a procurar um jornal. Em agosto de 1851 ele se tornou correspondente do New York Tribune, o jornal de maior circulação nos Estados Unidos, escrevendo centenas de páginas durante um período intenso que se estendeu até fevereiro de 1862.[29] Ele escreveu sobre os principais eventos políticos e diplomáticos da época, além de uma questão econômica e financeira após a outra, de modo a se tornar em poucos anos um jornalista respeitado.
Entretanto, o estudo crítico da economia política prosseguiu por todo o verão de 1851. Em agosto, Marx leu o Idée générale de la Révolution au XIXe siècle de Proudhon e planejou escrever uma crítica dele junto com Engels (projeto que mais tarde ele deixou de lado).[30] Além disso, ele continuou a compilar anotações de suas leituras: o Caderno XI é sobre textos que lidam com a condição da classe trabalhadora e os Cadernos XII e XIII cobrem suas pesquisas sobre química agrária. Tendo compreendido a importância dessa disciplina para o estudo do renda da terra, ele fez inúmeras anotações deDie organische Chemie in ihrer Anwendung auf Agricultur und Physiologie de Justus Liebig e do Elements of Agricultural Chemistry and Geology de James F.W. Johnston. No Caderno XIV, Marx se voltou mais uma vez para o debate sobre a teoria da população de Thomas Robert Malthus, especialmente nos The Principles of Population escrito por seu oponente Archibald Alison. Pesquisou os modos pré-capitalistas de produção, como demonstraram as passagens de Économie politique des Romains de Adolphe Dureau de la Malle e de History of the Conquest of Mexico e History of the Conquest of Peru de William H. Prescott. Marx também estudou o colonialismo, particularmente através de Lectures on Colonization and Colonies de Herman Merivale (Marx e Engels 1991). Finalmente, entre setembro e novembro de 1851, ele estendeu seu campo de pesquisa à tecnologia, dando espaço considerável no Caderno XV à história da tecnologia de Johann H. M. Poppe e no Caderno XVI a diversas questões de economia política.[31] Como uma carta a Engels de meados de outubro de 1851 mostra, Marx estava, então, “inteiramente envolvido no trabalho sobre a Economia”, “pesquisando sobretudo a tecnologia, sua história e a agronomia”, para que ele pudesse “formar algum tipo de opinião sobre o assunto” Marx a Engels, 13 de outubro de 1851, Marx e Engels 1982: 476).
No final de 1851, a editora Löwenthal de Frankfurt demonstrou interesse pelo projeto de Marx. Da correspondência com Engels e Lassalle [32], pode-se inferir que Marx trabalhava então num projeto em três volumes: o primeiro introduziria sua própria concepção, enquanto o segundo traria uma crítica de outros socialismos e o terceiro uma história da economia política. Entretanto, inicialmente o editor estava interessado apenas no terceiro volume, com a opção de publicar os outros se o projeto se mostrasse bem sucedido. Engels procurou convencer Marx a aceitar a mudança de planos e assinar um contrato: era necessário “avançar enquanto a situação é propícia” e era “absolutamente essencial quebrar o encanto criado por sua longa ausência do mercado editorial alemão e, mais tarde, negociar com os editores [tradução modificada]” Engels a Marx, 27 de novembro de 1851, Marx e Engels 1982, p. 494). – mas o interesse do editor não se confirmou e o projeto redundou em nada. Após dois meses, Marx se voltou novamente ao fiel Weydemeyer nos Estados Unidos para perguntar-lhe se não seria possível “encontrar aí um editor para [sua] Economia” (Karl Marx a Joseph Weydemeyer, 30 de Janeiro de 1852, Marx e Engels 1983b, p. 26).
Apesar desses obstáculos à publicação, Marx não perdeu o otimismo no que se referia à iminência de uma crise econômica. No fim de 1851, ele escreveu ao famoso poeta Ferdinand Freiligrath, um velho amigo: “A crise, contida por todos os tipos de fatores (…), deve explodir no máximo no próximo outono. E,après les derniers événements je suis plus convaincu que jamais, qu’il n’y aura pas de révolution sérieuse sans crise commerciale.’ [33]
Enquanto isso, Marx deu prosseguimento ao seu trabalho. Entre dezembro de 1851 e março de 1852, ele escreveu O dezoito brumário de Luís Bonaparte, mas, devido ao estado de censura de seus escritos na Prússia, ele teve que publicar seu texto em Nova York, no períodico de pequena circulação de Weydemeyer, Die Revolution. A esse respeito, ele disse a um amigo, Gustav Zerffi, no final de 1852 : “nenhum editor ousa publicar qualquer coisa que eu tenha escrito.” (Marx a Gustav Zerffi, 28 December 1852, Marx e Engels 1983, p. 270). Entre maio e junho de 1852, ele escreveu o polêmico Grandes homens do exílio, uma galeria de caricaturas de figuras importantes da emigração política alemã em Londres (Johann Gottfried Kinkel, Ruge, Karl Heinzen e Gustav von Struve). Entretanto, a busca por um editor foi inútil: o manuscrito foi dado ao húngaro János Bangya, para que ele o levasse à Alemanha, mas ele era na verdade um agente da polícia que entregou o manuscrito às autoridades. O texto, portanto, não foi publicado durante a vida de seus dois autores.
Entre abril de 1852 e agosto de 1853, Marx recomeçou a compilação de passagens e escreveu o terceiro e último grupo (XVII-XXIV) dos [Cadernos de Londres], que ainda não foram publicados. Essas partes lidam principalmente com os vários estágios do desenvolvimento da sociedade humana, com grande parte da pesquisa se concentrando nas controvérisas históricas sobre a Idade Média e sobre a história da literatura, da cultura e dos costumes. Ele tinha interesse particular pela Índia, país sobre o qual estava escrevendo para o New York Tribune.
Como demosntra esse amplo campo de interesses, Marx não estava exatamente “descansando”. Os obstáculos aos seus projetos novamente tinham a ver com a pobreza contra a qual ele lutou todos esses anos. Apesar do apoio constante de Engels – que a partir de 1851 começou a enviar-lhe 5 libras esterlinas por mês e o dinheiro do New York Tribune, que pagava duas libras esterlinas por artigo –, Marx vivia em condições verdadeiramente desesperadoras. Ele não apenas teve que enfrentar a morte da filha Franziska, em abril de 1852, mas também uma vida cotidiana que estava se tornando uma longa batalha. Em setembro de 1852 ele escreveu a Engels:
Nos últimos 8-10 dias tenho alimentado minha família apenas com pão e batatas, mas não tenho certeza de que conseguirei ao menos isso hoje (…). A melhor coisa que poderia acontecer seria que a dona do apartamento nos despejasse. Assim, eu poderia pelo menos economizar a quantia de ₤22 (…). Ainda por cima, as dívidas continuam se acumulando: devemos ao padeiro, ao leiteiro, ao homem do chá, ao quitandeiro, ao açougueiro. Como poderei sair desse inferno? Por fim (…) [mas isso foi] essencial para que permaneçamos vivos, consegui, nos últimos 8-10 dias pegar emprestado alguns trocados de conhecidos alemães. (Marx a Engels, 8 de setembro de 1852, Marx e Engels 1983, p. 181-2).
Tudo isso teve um efeito devastador sobre o trabalho e o tempo de Marx: “Às vezes passo um dia todo para conseguir uns centavos. Garanto que quando vejo o sofrimento de minha esposa e a impossibilidade de fazer algo a respeito, tenho vontade de mandar tudo ao inferno.” (tradução modificada, Marx a Engels, 25 de outubro de 1852, Marx e Engels 1983, p. 216). Muitas vezes a situação se tornava insuportável, como quando ele escreveu a Engels em outubro de 1852: “Ontem penhorei um casaco dos meus dias em Liverpool para comprar papel para escrever” (Marx a Engels, 27 de outubro de 1852, Marx e Engels 1983, p. 221).
Porém, as turbulências do mercado financeiro continuavam a manter a moral de Marx alta e ele escreveu sobre elas aos seus amigos mais próximos. Com grande auto-ironia, ele declarou a Lassalle em fevereiro de 1852: “A crise financeira finalmente atingiu um nível comparável apenas à crise comercial que se faz sentir agora em Nova York e em Londres. Mas ao contrário dos senhores do comércio, não posso nem mesmo declarar falência.” (Marx a Ferdinand Lassalle, 23 de fevereiro de 1852, Marx e Engels 1983, p. 46). Em abril ele disse a Weydemeyer que, devido a circunstâncias extraordinárias como a descoberta de novos depósitos de ouro na Califórina e na Austrália e a penetração comercial dos ingleses na Índia, “pode bem ser que a crise seja postergada até 1853. Mas sua erupção será surpreendente. E até lá não se pode considerar as chances de convulsão revolucionária.” (Marx a Joseph Weydemeyer, 30 de abril de 1852, Marx e Engels 1983, p. 96). Em agosto, imediatamente após os colapsos especulativos nos Estados Unidos, ele escreveu triunfantemente a Engels: “Não estamos nos aproximando da crise? A revolução pode vir antes do que esperávamos” (Marx a Engels, 19 de agosto de 1852, Marx e Engels 1983, p. 163).
Marx não expressou suas opiniões apenas em suas correspondências, mas escreveu sobre o assunto no New York Tribune. Num artigo de novembro de 1852 sobre o “Pauperismo e o Livre Comércio”, ele previu: “A crise (…) terá um caráter ainda mais perigoso do que em 1847, quando era de natureza muito mais comercial e monetária do que industrial, pois quanto maior a mais-valia que o próprio capital concentra na produção industrial, (…) maior, mais duradoura, mais direta será a crise que desabará sobre as massas trabalhadoras.” (Marx e Engels 1979a, p. 361). Em resumo, poderia ser necessário esperar mais um pouco, mas ele estava convencido – mais devido à impaciência para ver uma nova série de levantes sociais do que pela análise rigorosa dos eventos econômicos – que mais cedo ou mais tarde a hora da revolução chegaria.

VII. O julgamento dos comunistas e dificuldades pessoais
Em outubro de 1852 o governo prussiano iniciou o julgamento de membros da Liga Comunista que haviam sido presos no ano anterior. A acusação era a de que eles haviam participado de uma organização internacional de conspiradores liderados por Marx contra a monarquia prussiana. Entre outubro e dezembro, para demonstrar que as acusações eram infundadas, Marx começou a “trabalhar para o partido contra as maquinações do governo” (Marx a Adolf Cluss, 7 de dezembro de 1852, Marx e Engels 1983, p. 259). e compôs Revelações sobre o julgamento comunista em Colônia. Publicado anonimamente na Suíça em janeiro de 1853, esse trabalho curto não obteve o efeito desejado, pois uma grande parte da cópia foi confiscada pela polícia prussiana e o texto circulou apenas nos Estados Unidos e entre um número reduzido de leitores. Ele foi publicado pela primeira vez em série no Neu-England-Zeitung em Boston e em seguida como um livro independente. Marx ficou compreensivelmente desencorajado por mais esse fracasso após tantos outros: “É o suficiente para que se para de escrever totalmente. Esse trabalho constante pour le roi de Prusse!” [34]
Ao contrário do que afirmavam as maquinações orquestradas pelos ministros do governo prussiano, Marx estava muito isolado politicamente nesse período. A dissolução da Liga Comunista – que aconteceu efetivamente em 1851 e se tornou oficial no final de 1852 – reduziu enormemente o número de seus contatos políticos. Aquilo que diversas forças policiais e oponentes políticos definiam como o “grupo de Marx” [35] contava com poucos membros realmente engajados. Na Inglaterra, além de Engels, os únicos homens que poderiam ser considerados «marxianos» [36] eram Pieper, Wilhelm Wolff, Wilhelm Liebknecht, Peter Imandt, Ferdinand Wolff e Ernst Dronke. Em outros países, onde a maioria dos exilados políticos havia buscado refúgio, Marx tinha relações próximas apenas com Weydemeyer e Cluss nos Estados Unidos, Richard Reinhardt em Paris e Lassalle na Prússia. Marx sabia muito bem que embora esses contatos criassem uma rede que resistia em tempos difíceis, eles não eram numerosos suficientemente para “constituir um grupo” (Marx a Engels, 10 de março de 1853, Marx e Engels 1983, p. 290).
Além disso, mesmo esse círculo restrito tinha dificuldades em entender algumas das posições políticas e teóricas de Marx, causando muitas vezes mais problemas que benefícios. Em tais ocasiões ele só podia desabafar com Engels: “De todas as experiências desagradáveis nesses anos, as maiores têm consistentemente sido aquelas propiciadas pelo meu suposto grupo de amigos (…). Proponho declarar publicamente na próxima oportunidade que não tenho absolutamente nada a ver com nenhum grupo” (tradução modificada, Marx a Engels, 8 de outubro de 1853, Marx e Engels 1983, p. 386). Ao contrário de outros líderes da emigração política, Marx sempre havia se recusado a se juntar aos comitês internacionais existentes, que passavam o tempo fantasiando sobre a revolução iminente. O único membro de outras organizações com quem ele mantinha contato era Ernest Charles Jones, o principal representante da ala esquerda do movimento chartista.
O recrutamento de novos partidários ativos e especialmente o envolvimento de trabalhadores em suas idéias era, portanto, uma questão importante e complicada. O trabalho de Marx tinha que atingir esse objetivo: o recrutamento era uma necessidade tanto teórica quanto política. Em março de 1853, Engels escreveu a Marx:
Você deve acabar sua Economia; mais tarde, quando tivermos um jornal, poderemos publicá-la em números semanais e aquilo que o populus não pode entender, os discipuli explicariam tant bien que mal, mais cependant non sans effet. [37] Isso criaria uma base para debate para as nossas associações que, espero, até lá estarão restauradas. (Engels a Marx, 11 de março de 1853, Marx e Engels 1983, p. 293).
Marx havia anteriormente escrito a Engels que ele esperava passar alguns dias com ele “em abril” para “conversar em paz sobre as circunstâncias presentes, que em [sua] opinião deveriam, em breve, causar um terremoto” (Marx a Engels, 10 de março de 1853, Marx e Engels 1983, p. 289). Mas Marx não conseguiu se concentrar no trabalho devido à pobreza que o atormentava. Em 1853 o Soho foi o epicentro de outra epidemia de cólera e as circunstâncias em que se encontrava a família de Marx se tornaram ainda piores. Em agosto ele escreveu a Engels que “inúmeros credores” haviam “cercado a casa” e que “três quartos do [seu] tempo eram gastos na busca de centavos” (Marx a Engels, 18 de agosto de 1853, Marx e Engels 1983, p. 356). Para sobreviver, o último recurso dele e de sua esposa Jenny era penhorar as poucas roupas e objetos de valor que ainda havia numa casa onde faltavam “os recursos até para garantir as coisas mais necessárias” (Marx a Engels, 8 de julho de 1853, Marx e Engels 1983, p. 352). O dinheiro dos artigos de jornal se tornou cada vez mais indispensál, embora a escrita deles consumisse tempo precioso. No final do ano Marx reclamou ao amigo Cluss:
Tinha a esperança de que (…) poderia de alguma forma me isolar por alguns meses para trabalhar na minha Economia. Parece que não conseguirei. A trabalheira perpétua do jornal é cansativa, leva tempo, me desconcentra e, no final, não paga muito. Por mais independente que pensava ser, sempre me vejo atado ao jornal e aos leitores, especialmente quando, como no meu caso, ganha-se em dinheiro vivo. O trabalho puramente intelectual é totalmente diferente. (Marx a Adolf Cluss, 15 de setembro de 1853, Marx e Engels 1983, p. 367).
Quando Marx não tinha escolha e era forçado a se voltar para as necessidades da vida, seu pensamento estava, mesmo assim, firmemente ancorado na “Economia”.

VIII. Os artigos sobre a crise no New York Tribune
Nesse período a crise econômica foi um tema constante nos artigos de Marx para o New York Tribune. Em “Revolução na China e na Europa”, de junho de 1853, onde ele relacionou a revolução anti-feudal chinesa que começou em 1851 com a situação econômica geral, Marx novamente expressou sua convicção de que em breve chegaria “um momento em que a extensão dos mercados não será capaz de atender à extensão das manufaturas britânicas e essa desproporção deverá causar uma nova crise com a mesma certeza como causou no passado” (Marx 1979a, p. 95-96). Em sua opinião, na seqüência da revolução, uma contração imprevista do grande mercado chinês “acenderá o pavio da mina superlotada do sistema industrial moderno e causará a explosão da crise geral que há muito tempo se prepara e que, espalhando-se, será seguida de perto por revoluções políticas no Continente” (Marx 1979a: 98). É claro que Marx não via o processo revolucionário de modo determinista, mas ele estava seguro de que a crise era um pré-requisito indispensável para sua eclosão:
Desde o início do século XVIII não houve uma revolução séria na Europa que não tenha sido precedida de uma crise comercial e financeira. Isso se aplica tanto para a revolução de 1789 quanto a de 1848. (…) Há pouca chance de que guerras ou revoluções surpreendam a Europa a não ser em conseqüência de uma crise comercial e industrial geral, cujo sinal foi dado, como é comum, pela Inglaterra, a representante da indústria européia no mercado mundial (Marx 1979a: 99).
O argumento foi enfatizado no final de setembro de 1853, no artigo “Movimentos políticos: a escassez de pão na Europa”:
(…) nem os discursos dos demagogos nem as bobagens dos diplomatas levarão a situação a uma crise, mas (…) há desastres econômicos e convulsões sociais iminentes que anunciam com certeza uma revolução européia. Desde 1849 a prosperidade comercial e industrial prepara o esteio no qual a contra-revolução dormiu em segurança. (Marx 1979b: 308).
Traços de otimismo com o qual Marx aguardava os eventos podem ser encontrados em sua correspondência com Engels. Numa carta, também de setembro de 1853, ele escreveu: “As coisas marcham maravilhosamente. (Les choses marchent merveilleusement). O caos dominará a Franca quando a bolha financeira estourar” (Marx a Engels, 28 de setembro de 1853, Marx e Engels 1983, p. 372). Entretanto, a crise não veio e ele concentrou suas energias em outra atividade jornalística para não perder sua única fonte de renda.
Entre outubro e dezembro de 1853, Marx escreveu uma série de artigos intitulados Lord Palmerston, nos quais criticava a política exterior de Henry John Temple, terceiro Visconde Palmerston, que há muito tempo era o secretário de assuntos exteriores e futuro primeiro ministro da Grã-Bretanha. Eles foram publicados tanto no New York Tribune quanto em The People’s Paper, editado pelos chartistas ingleses. Entre agosto e novembro de 1854, após o levante civil e militar na Espanha em junho, ele escreveu outra série, A Revolução na Espanha, na qual resumia e analisava os principais acontecimentos da década passada na Espanha. Ele levou essas tarefas muito a sério, como se pode conferir nos nove grossos cadernos de anotações que ele compilou entre setembro de 1853 e janeiro de 1855. Os quatro primeiros, que se concentravam na história da diplomacia, forneceram a base paraLord Palmerston, enquanto os outros cinco, sobre a história política, social e cultural espanhola, incluíam a pesquisa para a série A Revolução na Espanha.[38]
Finalmente, em algum momento entre o fim de 1854 e o início de 1855, Marx retomou seus estudos de economia política. Porém, após a interrupção de três anos, ele decidiu reler seus antigos manuscritos antes de prosseguir. Em meados de 1855, ele escreveu a Engels:
Nos últimos 4-5 dias não pude escrever (…) devido a uma inflamação severa nos olhos. (…) Meu problema nos olhos foi causado pela leitura de meus próprios cadernos sobre economia, não tanto para elaborar a coisa, mas para pelo menos dominar o material e deixá-lo pronto para prosseguir. (Marx a Engels, 13 de fevereiro de 1855, Marx e Engels 1983, p. 522).
Essa revisão deu origem a mais vinte páginas de novas anotações, que Marx intitulou de [ Citações. Essência do dinheiro, essência do crédito, crises]; há também novas citações de anotações que ele havia feito nos últimos anos. Retomando livros de autores como Tooke, John Stuart Mill e Steuart, assim como a artigos do The Economist, ele continuou a resumir as teorias dos principais economistas políticos sobre o dinheiro, o crédito e as crises, que ele havia começado a estudar em 1850 (Schrader, 1980, p. 99).
Ao mesmo tempo, Marx produziu mais artigos sobre a recessão para o New York Tribune. Em janeiro de 1855, em “A crise comercial na Grã-Bretanha”, ele escreveu com satisfação: “A crise comercial inglesa, cujos sintomas premonitórios foram anunciados há muito tempo em nossas colunas, é agora um fato alardeado pelas mais altas autoridades no assunto” (Marx e Engels, 1980a, p. 585). Dois meses mais tarde, em “A crise na Inglaterra”:
Em apenas alguns meses a crise atingirá um ponto que a Inglaterra desconhece desde 1846, talvez desde 1842, quando seus efeitos forem sentidos entre a classe trabalhadora. Então o movimento político que estava adormecido há seis anos recomeçará. (…) Aí então as duas facções opostas deste país se enfrentarão cara a cara – a classe média e as classes trabalhadoras, a Burguesia e o Proletariado (Marx e Engels, 1980b, p. 61).
Porém, justamente no momento em que Marx parecia pronto para re-iniciar seu trabalho na “Economia”, dificuldades pessoais mais uma vez causaram uma mudança de planos. Em abril de 1855, ele foi afetado profundamente pela morte de Edgar, seu filho de oito anos. Ele confidenciou a Engels:
Já tive muita má sorte na vida, mas só agora sei o que é a infelicidade real (…). Entre os tormentos terríveis que tive que suportar, a lembrança de sua amizade tem me ajudado, assim como a esperança de que ainda haja algo sensato que possamos fazer no mundo. (Marx a Engels, 12 de abril de 1855, Marx e Engels 1983, p. 533).
A saúde e a situação econômica de Marx permaneceram desastrosas por todo o ano de 1855 e sua família aumentou com o nascimento de Eleanor, em janeiro. Ele frequentemente reclamava a Engels sobre problemas nos olhos, nos dentes e uma tosse terrível, além do fato de que “a decadência física também afeta [ou seu] cérebro” (Marx a Engels, 3 de março de 1855, Marx e Engels 1983, p. 525). Uma outra complicação foi causada por um processo que Freund, o médico da família, moveu contra Marx por falta de pagamento. Para escapar disso tudo, Marx teve que passar algum tempo entre meados de setembro e início de dezembro vivendo com Engels em Manchester e permanecendo escondido em casa por algumas semanas após seu retorno. A solução foi encontrada devido a um “acontecimento feliz”: uma herança de 100 libras após a morte de um tio de noventa anos de Jenny (Marx a Engels, 8 de março de 1855, Marx e Engels 1983, p. 526).
Assim, Marx só conseguiu retomar seu trabalho sobre economia política em junho de 1856, escrevendo alguns artigos para o The People’s Paper sobre o Crédit Mobilier, o principal banco comercial da França, que ele considerava “um dos fenômenos econômicos mais peculiares de nosso tempo” (Marx 1986, p. 10). Depois da situação familiar ter melhorado um pouco no outono de 1856, o que lhes permitiu deixar seu alojamento no Soho para um apartamento melhor no norte de Londres, Marx escreveu novamente sobre a crise para o New-York Tribune. Ele argumentava em “A crise monetária na Europa”, publicado em 3 de outubro de 1856, que “um movimento nos mercados de dinheiro europeu análogo ao pânico de 1847” estava a caminho (Marx 1986a, p. 113). Em “A crise européia”, que foi publicado em novembro, quando todos as colunistas estavam confidentemente assegurando que o pior já havia passado, ele insistia:
As indicações trazidas da Europa (…) certamente parecem adiar para um dia futuro o colapso final da especulação e do mercado de ações, que homens de ambos os lados do oceano instintivamente prevêem, como se esperassem com pavor uma catástrofe inevitável. Entretanto, esse adiamento só garante o colapso; de fato, a natureza crônica da crise financeira atual apenas assegura um desfecho mais violento e destrutivo. Quanto mais a crise durar, pior será seu epílogo (Marx 1986b: 136).
Os acontecimentos também deram a Marx a oportunidade de atacar seus oponentes políticos. Em “A crise monetária na Europa”, ele escreveu:
Se colocarmos lado a lado os efeitos desse curto pânico monetário e o efeito das proclamações de Mazzini e de outros, toda a história, desde 1849 dos enganos dos revolucionários oficiais, perde imediatamente seu mistério. Eles desconhecem completamente a vida econômica dos povos, não sabem nada sobre as condições reais do movimento histórico e quando a nova revolução começar ele terão tanto direito quanto Pilatos de lavar suas mãos e protestar que são inocentes do derramamento de sangue. (Marx 1986a, p. 115).
Entretanto, na primeira metade de 1857, uma calma absoluta prevaleceu nos mercados internacionais. Até março Marx trabalhou nas Revelações da história diplomática do século XVIII, um conjunto de artigos publicados em The Free Press, um jornal dirigido por David Urquhart, conservador que se opunha a Palmerston. Esses textos deveriam ter sido apenas a primeira parte de um trabalho sobre a história da diplomacia, que Marx havia planejado no início de 1856 durante a Guerra da Criméia, mas que ele nunca chegaria a completar. Também neste caso ele fez um estudo profundo dos materiais: entre janeiro de 1856 e março de 1857 ele compilou sete cadernos de anotações sobre a política internacional do século XVIII. Tais cadernos ainda não foram publicados.
Finalmente, em julho, Marx escreveu algumas notas críticas curtas, mas interessantes sobre Harmonies Économiques de Frédéric Bastiat ePrinciples of Political Economy de Carey, que ele havia estudado e anotado em 1851. Nessas notas, postumamente publicadas com o título de [ Bastiat e Carey], ele apontava a ingenuidade dos dois economistas (o primeiro um defensor do comércio livre, o segundo do protecionismo), que, em seus escritos, haviam se esforçado para demonstrar “a harmonia das relações de produção” (Marx 1975d, 4; 1993: 886) [39] e, portanto, da sociedade burguesa como um todo.

IX. A crise financeira de 1857 e os [Grundrisse]
Desta vez, ao contrário das crises anteriores, a tempestade econômica não começou na Europa, mas nos Estados Unidos. Nos primeiros meses de 1857 os bancos de Nova York aceleraram o volume de empréstimos, apesar da queda nos depósitos. O aumento da atividade especulativa resultante piorou as condições econômicas gerais e, depois que a filial de Nova York do Ohio Life Insurance and Trust Company se declarou insolvente, o pânico que se seguiu levou a inúmeras falências. A perda de confiança no sistema bancário produziu uma contração de crédito, uma redução dos depósitos e a suspensão das ordens de pagamento.
Pressentindo a natureza extraordinária dos acontecimentos, Marx imediatamente retomou seu trabalho. Em 23 de agosto de 1857 – exatamente um dia antes do colapso do Ohio Life que semeou pânico na opinião pública – ele começou a escrever a [Introdução] a sua “Economia”. O início explosivo da crise lhe deu um motivo adicional que havia estado ausente nos anos anteriores. Após a derrota de 1848, Marx havia enfrentado toda uma década de retrocessos políticos e grande isolamento pessoal. Porém, com a eclosão da crise, ele vislumbrou a possibilidade de participar de uma nova rodada de revoltas sociais e achou que sua tarefa mais urgente era a análise dos fenômenos econômicos que seriam importantes para o início da revolução. Isso significava escrever e publicar o quanto antes o trabalho que ele havia planejado por tantos anos.
De Nova York a crise se espalhou rapidamente para o resto dos Estados Unidos e, após algumas semanas, para todos os centros do mercado mundial na Europa, na América do Sul e no Oriente, tornado-se a primeira crise financeira internacional da história. Notícias desses desenvolvimentos causaram grande euforia em Marx, servindo de combustível para uma grande explosão de produção intelectual. O período entre o verão de 1857 e a primavera de 1858 foi um dos mais prolíficos de sua vida: ele escreveu mais em apenas alguns meses do que nos anos anteriores. Em dezembro de 1857 ele escreveu a Engels: “Estou trabalhando como um louco todas as noites nos meus estudos econômicos para ter pelo menos um esquema geral [Grundrisse], claro, antes do dilúvio.” Ele também aproveitou a oportunidade para relembrar que suas previsões de que uma crise era inevitável não haviam sido infundadas, pois “o Economist de sábado diz que nos últimos meses de 1853, em todo o ano de 1854, no outono de 1855 e nas mudanças abruptas de 1856, a Europa nunca esteve a mais do que um passo da crise iminente” (Marx a Engels, 8 de dezembro de 1857, Marx e Engels, 1983c, p. 217).
O trabalho de Marx se tornou mais notável e abrangente. Entre agosto de 1857 e maio de 1858 ele completou oito cadernos conhecidos como o [ Grundrisse][40], enquanto que como correspondente do New York Tribune, ele escreveu dezenas de artigos sobre, entre outras coisas, o desenvolvimento da crise na Europa. Devido à necessidade de melhorar suas condições econômicas, ele também concordou em escrever uma série de verbetes para a The New American Cyclopædia. Por fim, entre outubro de 1857 e fevereiro de 1858, ele compilou três cadernos de anotações, intitulados [Cadernos da crise].[41] Ao contrário das anotações que ele fizera anteriormente, neste caso não se tratava de uma compilação de passagens dos trabalhos de outros economistas, mas de uma grande quantidade de notas, tomadas de diversos jornais diários, sobre os principais desenvolvimentos da crise, tendências da bolsa de valores, flutuações do mercado e falências importantes na Europa, nos Estados Unidos e outras partes do mundo. Uma carta a Engels em dezembro indica a intensidade de sua atividade:
Estou trabalhando enormemente, em geral até as 4 da manhã. Estou envolvido numa tarefa dupla: 1. Elaboração dos princípios de economia política. (Para o benefício do público é absolutamente essencial ir au fond do problema e para o meu próprio, individualmente, é preciso que eu me livre desse pesadelo.) 2. A atual crise. Além dos artigos para o [New York – MM] Tribune, tenho feito notas sobre a crise, que, entretanto, me tomam tempo considerável. Penso que lá pela primavera deveríamos escrever um panfleto juntos sobre o caso como um lembrete para o público alemão de que ainda estamos aqui como sempre e sempre os mesmos. (Marx a Engels, 18 de dezembro de 1857, Marx e Engels, 1983c: 224). [42]
No que se refere aos [Grundrisse], na última semana de agosto Marx fez um plano para o caderno “M” que deveria servir como a [Introdução] para o trabalho; em seguida, em meados de outubro, ele deu continuidade aos outros sete cadernos (I-VII). No primeiro e em parte do segundo, ele escreveu o chamado [Capítulo sobre o dinheiro], que lida com o dinheiro e o valor, enquanto que nos outros ele escreveu o chamado [ Capítulo sobre o capital]. Aí ele aloca centenas de páginas sobre o processo de produção e circulação de capital e introduz alguns dos temas mais importantes de todo o manuscrito, tais como o conceito de mais-valia e as formações econômicas que precederam o modo de produção capitalista. Entretanto, esse esforço imenso não permitiu que ele completasse o trabalho. No final de fevereiro de 1858 ele escreveu a Lassalle:
Na verdade, tenho trabalhado nos estágios finais há alguns meses. Mas a coisa toda prossegue muito vagarosamente, pois assim que se pensa que alguns assuntos, que foram estudados durante anos, já foram tratados, eles começam a revelar novos aspectos que exigem tratamento mais detalhado (…). O trabalho a que tenho me dedicado ultimamente é uma Crítica das categorias econômicas, ou, se preferir, uma análise crítica do sistema da economia burguesa. Ainda não tenho idéia de quantas páginas esse assunto vai tomar (…). Agora que estou finalmente pronto para começar o trabalho após quinze anos de estudos, tenho um sentimento desconfortável de que, no final das contas, movimentos turbulentos do lado de fora irão provavelmente intervir. (Marx a Ferdinand Lassalle, 22 de fevereiro de 1858, Marx e Engels 1983a, p. 270-271).
Na realidade, porém, não houve sinal do tão aguardado movimentos revolucionário que supostamente irromperia com a crise. Desta vez, outra razão que impediu que Marx completasse o manuscrito foi sua consciência de que ele ainda estava longe de dominar criticamente todo o material. O [Grundrisse], portanto, permaneceu um rascunho. Após ter trabalhado cuidadosamente, entre agosto e outubro de 1858, na introdução do [Capítulo sobre o dinheiro] no manuscrito [Texto original do segundo e início do terceiro capítulo de “Uma contribuição para a crítica da economia política”], ele publicou em 1859 um livro curto que não obteve ressonância pública: Uma contribuição para a crítica da economia política. Oito anos de estudos intensos e enorme esforço intelectual passariam antes da publicação do primeiro volume do Capital.

X. Conclusões
Se levarmos em conta não apenas os trabalhos mais conhecidos já traduzidos, mas também os manuscritos e livros de anotações da MEGA², a imensidão e a riqueza do projeto teórico de Marx surgem sob uma nova luz. Esses cadernos mostram as enormes limitações da explicação marxista-leninista – uma ideologia que frequentemente via a concepção de Marx como algo separado dos estudos que ele fez, como se ela estivesse magicamente presente em sua cabeça desde o nascimento –, mas também do debate na Europa dos anos 1960 sobre se havia uma quebra epistemológica em seu pensamento ou uma continuidade básica com a filosofia de Hegel. Na verdade, os participantes do debate consideraram apenas alguns dos textos de Marx e mesmo alguns deles foram tratados como obras totalmente acabadas, quando esse não era o caso.
As pesquisas de Marx entre o período dos [Manuscritos econômico-filosóficos de 1844] e de [A ideologia alemã] e o período do [Grundrisse] e em seguida entre o [Grundrisse] e os vários rascunhos do Capital finalmente se tornaram acessíveis aos pesquisadores através da MEGA². Isso tornou possível seguir os diversos estágios intermediários da evolução de suas idéias tanto nos anos 1850 quanto após a publicação do primeiro volume do Capital, sugerindo uma interpretação mais crítica e aberta de sua teoria. Esse quadro que surge da MEGA² é obra de um autor que deixou uma grande parte de seus escritos inacabados para se voltar até a morte para estudos que comprovassem a correção de suas teses.
Numa época em que as idéias de Marx foram finalmente libertadas das correntes da ideologia soviética e quando elas são novamente investigadas com o objetivo de analisar o mundo contemporâneo, uma visão mais fiel da gênese de seu pensamento pode ter implicações importantes para o futuro – não apenas para os estudos de Marx, mas para o ressurgimento de um pensamento crítico que procure transformar o presente.

Apêndice: Tabela Cronológica dos cadernos de anotações, manuscritos, artigos e livros sobre economia política no período de 1843–58

Ano Título Descrição
1843-45 [Cadernos de Paris] 9 cadernos de anotações que formam os primeiros estudos que Marx fez da economia política.
1844 [Manuscritos econômico-filosóficos de 1844] Manuscrito incompleto composto em paralelo com os [Cadernos de Paris].
1845 [Rascunho de um artigo sobre o livro de Friedrich List: Das Nationale System der Politischen Oekonomie] Manuscrito incompleto de um artigo contra o economista alemão List.
1845 [Cadernos de Bruxelas] 6 cadernos de anotações sobre conceitos básicos de economia política.
1845 [Cadernos de Manchester] 9 cadernos de anotações sobre problemas econômicos, história econômica e literatura socialista britânica.
1846-47 Citações do Historical Account of Commerce de von Gülich 3 cadernos de anotações sobre história econômica.
1847 A miséria da filosofia Texto polêmico contra o System of Economic Contradictions de Proudhon.
1849 Trabalho assalariado e capital 5 artigos publicados no Neue Rheinische Zeitung. Organ der Demokratie.
1850 Artigos para o Neue Rheinische Zeitung. Politisch-okonomische Revue Artigos sobre a situação econômica.
1850-53 [Cadernos de Londres] 24 cadernos de anotações enfocando, principalmente, a economia política (em particular: história e teoria das crises, dinheiro, alguns clássicos da economia política, condição da classe trabalhadora e tecnologia).
1851 [Ouro. O sistema monetário perfeito] 2 cadernos de anotações compiladas durante a escrita dos [Cadernos de Londres], incluindo citações das teorias mais importantes sobre dinheiro e circulação.
1851-62 Artigos para o New York Tribune Approximadamente 70 artigos sobre economia política, dos 487 publicados nesse jornal.
1855 [Citações. Essência do dinheiro, essência do crédito, crises] 1 caderno de anotações resumindo as teorias dos principais economistas sobre dinheiro, crédito e crises.
1857 [Introdução] Manuscrito contendo as mais detalhadas considerações de Marx sobre método.
1857-58 [Cadernos sobre a crise] 3 cadernos com relatórios sobre a crise financeira de 1857.
1857-58 [Grundrisse] Manuscrito preparatório para Uma contribuição para uma crítica da economia política (1859).

 

Tradução: Marcos Soares; revisão: Paula Marcelino

 

References
[1] Professor de Ciência Política da York University (Toronto – Canada), www.marcellomusto.com.
[2] Interpretações inovadoras do pensamento de Marx como um todo incluem Poistone (1993); Carver (1998); Lebowitz (2003). São interessantes por terem relacionado Marx com a questão ambiental: Leopold (2007); Musto (2008); Foster (2000) e Burkett (2006). Para um levantamento abrangente dos estudos marxistas nos últimos 20 anos, ver Therborn (2007) e Musto (2010).
[3] A segunda seção da MEGA², Das Kapital und Vorarbeiten, que trará esse material, deve ser publicada em 2010, coincidindo com a publicação do Volume II/4.3 Manuskripte 1883-1867. Teil 3, o último lote de manuscritos do período entre 1863-1867.
[4] Neste ensaio, os títulos dados pelos editores para os manuscritos incompletos de Marx serão colocados entre colchetes.
[5] Dentre os poucos autores que, com os recursos disponíveis no momento, realmente fizeram um esforço para interpretar as fases menos conhecidas da gênese do pensamento de Marx, atenção especial deve ser dada aos artigos de Maximilien Rubel, ‘Les cahiers de lecture de Karl Marx. I. 1840-1853’ and ‘II. 1853-1856’, publicados pela primeira vez em 1957 e 1960 na International Review of Social History e posteriormente republicados em Rubel (1974, p. 301-59). Nos países de língua inglesa, as pesquisas feitas sobre esses temas começaram a aparecer apenas quinze anos mais tarde, com Carver (1998) e com os três livros de Oakley (1983, 1984 e 1985).
[6] Às vezes esse debate se baseou em interpretações extremamente superficiais. Para um exemplo recente (e ruim) desse tipo de interpretação, ver Wheen (2006).
[7] A censura e as dissensões entre Marx e o outro diretor, Arnold Ruge, dificultaram enormemente essa publicação, que apareceu uma única vez, em fevereiro de 1844.
[8] O Nachlass de Marx contém cerca de duzentos cadernos de resumos, que são essenciais para uma compreensão da origem de sua teoria e de partes dela que Marx nunca teve a oportunidade de desenvolver tão bem quanto desejava. As passagens que sobreviveram, que cobrem todo o período de 1838 a 1882, estão escritas em oito línguas (alemão, grego antigo, latim, francês, inglês, italiano, espanhol e russo) e pertencem às mais variadas disciplinas. Elas foram tomadas de textos de filosofia, arte, religião, política, direito, literatura, história, economia política, relações internacionais, tecnologia, matemática, fisiologia, geologia, mineralogia, agronomia, etnologia, química e física, assim como de artigos em jornais, revistas, procedimentos parlamentares, estatísticas governamentais oficiais, relatórios e publicações.
[9] Como Marx ainda não lia em inglês em 1844, ele leu as traduções desses livros em francês.
[10] Essas passagens estão em Marx e Engels (1981 e 1998). As únicas partes traduzidas para o inglês estão em Marx e Engels (1975, p. 211-228).
[11] Sobre a relação entre os [Manuscritos Econômico-políticos de 1844] e os [Manuscritos de Paris], ver Musto (2009).
[12] Na verdade, Engels contribuiu com apenas cerca de dez páginas para o texto.
[13] Todas essas passagens podem ser encontradas em Marx e Engels (1998)
[14] Ver ‘Plan of the “Library of the Best Foreign Socialist Writers”‘ (Marx e Engels 1975b, p. 667).
[15] Essas passagnes estão em Marx e Engels (1988), que também incluem os primeiros [Cadernos de Manchester]. Foi nesse período que Marx começou a ler diretamente em inglês.
[16] Essas passagens, ainda não publicadas, e que fazem parte dos [Cadernos de Manchester] VI-IX, devem aparecer em breve em Karl Marx and Friedrich Engels, Exzerpte und Notizen. August 1845 bis Dezember 1850, MEGA² IV/5.
[17] Marx (1982) e MEGA² III/2, Berlin: Dietz.
[18] Ver Engels (1990b, p. 519). Na verdade, Engels já havia usado essa expressão em 1859, em sua resenha do livro de Marx Uma contribuição para a critíca da economia política, mas o artigo não teve repercussão e o termo começou a circular apenas após a publicação de Ludwig Feuerbach.
[19] Essas passagens constituem o volume Marx (1983).
[20] “Os democratas vulgares esperavam que as faíscas começassem a voar de novo a qualquer momento; mas nós já havíamos declarado no outono de 1850 que pelo menos o primeiro capítulo do período revolucionário estava encerrado e que não se podia esperar nada até o início de uma nova crise mundial. Por essa razão fomos excomungados como traidores da revolução pelas mesmas pessoas que, mais tarde, quase sem exceção, foram para o lado de Bismarck.” (Marx e Engels 1990, p. 510).
[21] Para uma avaliação da importância dos [Cadernos de Londres] ver o número especial – n. 7 (1979) – do períodicoArbeitsblätter zur Marx-Engelsforschung: Fragen der Entwicklung der Forschungsmethode von Karl Marx in den Londoner Exzerptheften von 1850–185 de Wolfgang e Noske do ano de 1979.
[22] Com exceção do material de Adam Smith, que está no volume Exzerpte und Notizen. März bis Juni 1851 (Marx e Engels 1986), todas as anotações em questão podem ser encontradas em Marx e Engles (1983). A riqueza das nações de Smith (Caderno VII) e os Princípios de economia política e tributação de Ricardo (Cadernos IV, VII and VIII), que Marx havia lido em francês durante sua estadia em Paris em 1844, desta vez foram estudados no original em inglês.
[23] Ver Marx a Engels, 3 de fevereiro de 1851 (Marx e Engels1982a: 275).
[24] O segundo dentre esses cadernos não numerados também contém outras anotaçoes, notadamente passagens de On the Regulation of Currencies de John Fullarton.
[25] Outra exposição breve das teorias de Marx sobre o dinheiro, o crédito e as crises está no Caderno VII, nas fragmentadas ‘Reflections’, (Marx e Engels 1982a: 584-92).
[26] Ver Marx (1986d, pp. 326-31, 350-72, 381-95, 402-4, 409-26). Prova da importância dessas páginas é o fato de que essas citações, junto com outras do mesmo autor nos Cadernos IV e VII, foram publicadas em 1941, no segundo volume da primeira edição do [Grundrisse].
[27] Nessa fase crucial de novas descobertas teóricas, a relação de Marx com foi de grande importância: por exemplo, algumas de suas cartas a ele resumem sua visão crítica da teoria de Ricardo sobre a renda da terra (Marx a Engels, 7 de janeiro de 1851, Marx e Engels 1982, p 258-263; Marx e Engels 1984, 6-10) e a circulação monetária (Marx a Engels, 3 de fevereiro de 1851, Marx e Engels 1982, p. 273-278; Marx e Engels 1984: 24-30).
[28] Nesse mesmo príodo, Marx voltou sua atenção para a indústria e a maquinaria. Ver Müller (1992).
[29] Na época, o New York Tribune era publicado em três versões diferentes (o New York Daily Tribune, o New York Semi-Weekly Tribune e o New York Weekly Tribune). Cada uma delas publicou diversos artigos de Marx. Para ser mais preciso, o New York Daily Tribune publicou 487 artigos, com mais da metade deles re-aparecendo no New York Semi-Weekly Tribune e mais de um quarto no New York Weekly Tribune (a esses artigos devem ser adicionados alguns outros que ele enviou ao jornal, mas que foram recusados pelo editor, Charles Dana). Dos artigos publicados no New York Daily Tribune, mais de duzentos são editoriais sem assinatura. Deve-se adicionar ainda que, para dar a Marx mais tempo para seus estudos de economia política, aproximadamente metade desses artigos foram na verdade escritos por Engels. O envio de artigos ao New York Tribune sempre foi motivo de grande interesse, como pode-se ver, por exemplo, em uma afirmação do editorial do número de 7 de abril de 1853: “O Sr. Marx tem diversas opiniões firmes, (…) mas quem não ler suas cartas deixará de ter acesso a uma das fontes de informação mais instrutivas sobre as grandes questões das política européia atual.” Citado em Marx a Engels, 26 de abril de 1853 (Marx e Engels, 1983, p. 315).
[30] Ver Marx e Engels (1979a, p. 545-570).
[31] Esses cadernos ainda não foram publicados na MEGA², mas o Caderno XV apareceu na coleção de Hans Peter Müller (1982). Ver o estudo recente de Wendling (2009).
[32] Ver esp. Ferdinand Lassalle to Karl Marx, 12 May 1851, MEGA² III/4, pp. 377-8; Marx a Engels, 24 de novembro de 1851 (Marx e Engels, 1982a: 490-2); e Engels a Marx, 27 de novembro de 1851 (Marx e Engels, 1982a: 493-5).
[33] “E depois dos últimos acontecimentos eu estou mais convencido do que nunca de que não haverá revolução séria sem crise comercial.” (T. R.). Marx a Ferdinand Freiligrath, 27 December 1851 (Marx e Engels, 1982a, p. 520).
[34] “Pelo rei da Prússia!” (T. R.). Marx a Engels, 10 de março de 1853 (Marx e Engels, 1983, p. 288).
[35] Essa expressão foi utilizada pela primeira vez em 1846, para se referir às diferenças entre Marx e o comunista alemão Wilhelm Weitling. Ela foi mais tarde usada também nos procedimentos do julgamento em Colônia. Ver Maximilien Rubel (1974, p 26, n. 2).
[36] Esse termo apareceu pela primeira vez em 1854 (Haupt 1986, p. 2).
[37] “De um jeito ou de outro, mas não sem resultado”. (T. R.).
[38] Esses cadernos de notas foram publicados recentemente em Marx e Engels (2007).
[39] Como as passagens extraídas de Ricardo, [Bastiat and Carey], esse trecho foi incluído no segundo volume da primeira edição do [Grundrisse].
[40] Com exceção dos Cadernos M e VII, que estão no Instituto Internacional de História Social de Amsterdã, todos os cadernos estão no Arquivo do Estado Russo de História Sócio-Política em Moscou. Com relação às datas, deve-se enfatizar que o primeiro rascunho do Caderno I, que contem a análise crítica de Marx de De la réforme des banques de Alfred Darimon, foi escrito nos meses de janeiro e fevereiro de 1857, não (como os editores do [Grundrisse] pensavam) em outubro. Ver Ossobowa (1990).
[41] Esses cadernos ainda não foram publicados (Cf. Krätke, 2008).
[42] Alguns dias mais tarde, Marx comunicou seus planos a Lassalle: ‘A atual crise comercial me impeliu a trabalhar seriamente no plano geral da minha economia política, assim como também na preparação de algo sobre a atual crise’ (Marx a Ferdinand Lassalle, 21 de dezembro de 1857 (Marx e Engels, 1983c, p. 226).

 

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Journal:

Critica Marxista

Pub Info:

Vol. 2011, n. 33, 31-65

Reference:

Available in:

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