Tag: Portuguese
Conferências sobre Karl Marx
Ana Carolina Marra de Andrade, Verinotio
“Novos rostos de Marx”[1]: da crítica da economia política aos horizontes da luta pela emancipação humana
Introdução
O presente texto traz um debate sobre a vida e obra de Karl Marx a partir da biografia Karl Marx: biografia intelectual e política (1857-1883) [Karl Marx: biografia intellettuale e política 1857-1883], publicada originalmente em 2018, e cuja versão traduzida foi publicada no Brasil pela Expressão Popular em 2023. Professor de Sociologia na York University (Toronto, Canadá), o italiano Marcello Musto é uma das principais especialistas mundiais acerca da vida e obra de Karl Marx na atualidade. Também escreveu O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos, 1881-1883 [L’ultimo Marx: biografia intellettuale (1881–1883)] (MUSTO, 2018), e teve seu trabalho como autor e organizador traduzido para vinte e cinco idiomas[2].
A biografia não é apenas mais uma compilação de fatos ocorridos na vida do autor d’O capital. Na obra, o autor busca apresentar uma nova faceta do consagrado fundador da crítica da economia política, ao mesmo tempo desvinculando-o de suas interpretações vulgares, e também apresentando-o enquanto um pensador real, humano, que teve que enfrentar durante sua vida uma série de dificuldades materiais, desde a doença até a miséria. Musto reconstrói a história de Marx em conexão com o desenvolvimento de seu pensamento teórico, e, nesse sentido, traz à tona uma ampla gama de materiais marxianos, desde de cadernos, manuscritos e livros publicados, até cartas do autor tratando de suas questões pessoais e relatos de pessoas próximas.
Ademais, diante do grande número de biografias já existentes do Marx que se dedicam a apresentar somente o período de sua juventude, Musto opta por caminho distinto – começa do período de elaboração do primeiro rascunho da crítica da economia política, os Grundrisse, em 1857, chegando até o final da vida do autor, ressaltando os vínculos entre sua elaboração teórica, sua militância política e os acontecimentos mundiais e de sua vida privada. Só este recorte dá à obra um caráter inovador, pois quase todas as biografias até hoje publicadas privilegiam seus escritos juvenis. Além disso, Musto conecta a crítica da economia política a todos os inúmeros projetos aos quais Marx se dedicou concomitantemente ao longo dos anos, rompendo com “divisão fictícia entre o ‘Marx filósofo’, o ‘Marx economista’ e o ‘Marx político’” (MUSTO, 2018), de modo a representar com primor a totalidade da dimensão da proposta de um pensador profundamente dedicado a transformar o mundo.
A escolha desse livro para o debate se insere em um momento no qual, há alguns anos, têm-se popularizado estudos sobre o “último Marx”[3]. Os novos materiais da Marx-Engels Gesamtausgabe (Mega), que vêm sendo publicados desde 1998, têm contribuído para a emergência de uma visão sobre Marx diferente da vulgata comumente impulsionada por movimentos operaístas ou stalinistas, um Marx “capaz de examinar as contradições da sociedade capitalista muito além do conflito entre capital e trabalho” (MUSTO, 2018, p. 16). Em dezembro de 2023, a versão digital de vários cadernos do “último” Marx foi publicada pela MEGA, referente ao IV/27 M/E: Excertos e notas de 1879-1881 (etnologia, história primitiva, história da propriedade fundiária) 2023/24 [Exzerpte und Notizen 1879 bis 1881 (Ethnologie, Frühgeschichte, Geschichte des Grundeigentums) 2023/24, cf. MARX, 2025]. Grande parte desse material permanecia inédita, o que – tem impulsionado novos debates em torno da teoria marxiana – inclusive a partir de excertos já conhecidos, anteriormente publicados, como na edição de Lawrence Krader dos chamados Cadernos etnológicos[4]. Esses textos têm contribuído com a visão de Marx como autor “completamente diferente da vulgata que o descreve como eurocêntrico, economicista e interessado apenas na análise da esfera produtiva e no conflito de classes entre capital e trabalho” (MUSTO, 2018, p. 18), o que, como explica Musto, não significa que “os textos que surgiram recentemente derrubam o que já se sabia sobre esse autor” (MUSTO, 2018, p. 19), mas o complementam. Assim, enquanto outros comentadores, como Michael Löwy (2018) e Jean Tible (2020), defendem que no “último” Marx um teórico que passou por uma grande virada em seu pensamento, deixando de lado concepções prévias que seriam “eurocêntricas”, Musto opta por trazer a continuidade entre seus escritos desde 1858.
A obra é dividida em quatro partes: Parte I. A crítica da economia política; II. Militância política; III. As pesquisas da última década; e IV. A teoria política. Como explica o autor: “A primeira delas – ‘A crítica da economia política’ – é dedicada à descrição das principais etapas da elaboração e redação d’O capital”, a segunda foca na “participação de Marx na Associação Internacional dos Trabalhadores”, a terceira, em fazer um “exame da correspondência e dos manuscritos, alguns ainda inéditos, dos últimos anos da vida de Marx” (MUSTO, 2018, p. 18), e a quarta em “examinar as concepções de Marx sobre o modo de produção capitalista e o perfil que a sociedade comunista poderia assumir” (MUSTO, 2018, p. 19). O presente texto também irá seguir a linha temática dessa divisão
“Hic Rhodus, hic salta!”[5]: a crítica da economia política e o fardo da obra magna
Hic Rhodus, hic salta! [Aqui é Rodes, salta aqui mesmo!] Hier ist die Rose, hier tanze! [Aqui está a rosa, dança agora!]” Karl Marx, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte
Segundo Musto (2023), “a economia política não foi a primeira paixão intelectual de Marx” (p. 27). Assim, antes de entrar nos períodos de foco da presente biografia, isto é, a partir de 1857, o autor faz uma breve introdução da formação intelectual do autor d’O capital. Musto resgata o Marx redator da Gazeta Renana (1842-1843). Nesse momento, ele próprio afirma que foi impelido a se voltar para os chamados “interesses materiais” (MARX, 2024, p. 24), ocupando-se, em 1843, de uma revisão crítica da Filosofia do direito de Hegel, momento em que “amadureceu a convicção de que a sociedade civil era a base real do estado político” (MUSTO, 2023, p. 27), e, acrescenta-se, passou por uma virada crucial em seu pensamento: a crítica da especulação (cf. CHASIN, 2009). No mesmo ano, Marx, perseguido político da monarquia alemã, muda-se para Paris, e foi lá, “após ter entrado em contato com o proletariado [parisiense] e ficado impressionado com as considerações contidas no artigo de Friedrich Engels, Esboços para uma crítica da economia política (1844)”, que ele se volta a estudar criticamente a economia política, o que marca outra mudança da maior importância em seu pensamento, justamente a crítica da economia política[6], e resulta nos fascinantes Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 (cf. MUSTO, 2023, p. 28).
O período subsequente é muito fértil em termo de produções, passando desde relevantes manuscritos inacabados como A ideologia alemã (1845-1846)[7], livros publicados, como A miséria da filosofia (1847) e o Manifesto do partido comunista (1848), até os artigos jornalísticos da Nova Gazeta Renana: órgão da democracia (1848-9). Por perseguições políticas, Marx passou esse período “entre Bruxelas, Paris e Colônia” e “peregrinou por Berlim, Viena, Hamburgo e muitas outras cidades alemãs” (MUSTO, 2023, p. 29), até, após ordens de Luís Bonaparte, mudar-se para Londres, onde iria viver como apátrida até o resto de seus anos (exceto por alguns períodos menores em outros países, como na Argélia). Lá, passou por um difícil recomeço: “Os primeiros anos do exílio inglês foram marcados pela mais profunda pobreza e por doenças, que nessa data provocaram também a dramática perda de três de seus filhos” (MUSTO, 2023, p. 29).
Contudo, Marx manteve uma árdua rotina de estudos, visando a entender “a anatomia da sociedade burguesa”, que, em suas palavras, “deve ser procurada na economia política” (MARX, 2014, pp. 24-5). Muitos textos e cadernos de notas com seus estudos foram redigidos nos anos subsequentes a sua chegada em Londres, mas foi em 1857 que, impulsionado pela avassaladora crise financeira[8] – a qual, “ao contrário das crises anteriores, […] não começou na Europa, mas nos Estados Unidos da América” (MUSTO, 2023, p. 32) –, redigiu os oito cadernos manuscritos de crítica da economia política que ficaram conhecidos como Grundrisse (1857-8). São da mesma época os Cadernos sobre a crise. Nesses anos, “Marx se propôs a trabalhar em dois projetos diferentes ao mesmo tempo: a elaboração de uma obra teórica, dedicada à crítica do modo de produção capitalista, e a redação de um livro, mais restrito à atualidade, relativo aos desdobramentos da crise em curso” (MUSTO, 2023, p. 34). Assim, ele também se dedicava a compilar notícias sobre a crise ao redor do mundo, registrando não apenas os eventos econômicos relevantes dos Estados Unidos e da Inglaterra, mas de toda a Europa, Índia, China, Egito, Brasil e Austrália (cf. MUSTO, 2023, p. 35).
Musto, então, faz uma análise de alguns dos temas que perpassam os Grundrisse de Marx. Na “Introdução” de 1857, Marx traz considerações críticas em relação ao método da economia política e ao método hegeliano, apresentando sua teoria das abstrações[9] e condenando o “mito de Robinson Crusoé como paradigma do Homo oeconomicus, ou a extensão dos fenômenos típicos da era burguesa a todas as outras sociedades que já existiram, inclusive as primitivas”[10], de modo que a economia política em geral parte do indivíduo isolado, algo que “antes dessa época […] simplesmente não existia” (MUSTO, 2023, p. 37). O restante dos manuscritos é dividido em “duas partes: o ‘capítulo do dinheiro’, no qual tratou do dinheiro e do valor, e o ‘capítulo do capital’, no qual dedicou centenas de páginas à descrição do processo de produção e circulação do capital” (MUSTO, 2023, p. 51). O projeto inicial da crítica à economia política era dividido em seis livros: “1. Do capital (contém alguns capítulos introdutórios [Vorchapters]). 2. Da propriedade fundiária. 3. Do trabalho assalariado. 4. Do estado. 5. Comércio exterior. 6. Mercado mundial” (MARX in ENGELS; MARX, 2020, p. 118). Marx abandona esse plano a partir de 1863 (cf. MARX in ENGELS; MARX, 2020, p. 97), dando lugar ao projeto dos três livros d’O capital como os conhecemos, o qual tampouco foi finalizado, tendo apenas o primeiro livro sido publicado em vida.
O final da década de 1850, apesar de muito produtivo, foi marcado por uma situação econômica difícil, na qual ele precisou contar com a ajuda financeira de seu amigo, Engels: “A única renda de Marx, além da ajuda que Engels lhe garantia, consistia nos pagamentos recebidos do jornal New York Tribune.” (MUSTO, 2023, p. 44) O amigo o ajudava, inclusive, redigindo parte dos textos do jornal, para que Marx pudesse se dedicar ainda mais à crítica da economia política. Porém, “a pobreza não era o único espectro que assombrava Marx. Como na maior parte de sua conturbada existência, foi acometido, também nesse período, por múltiplas doenças” (MUSTO, 2023, p. 45). Nesse momento, Marx passou por dores diversas, inflamações nos olhos e problemas hepáticos, a maior parte das enfermidades agravadas pelo regime extenuante de trabalho. Contudo, mantinha-se resiliente:
Se nunca deixou de lutar contra a sociedade burguesa, com igual constância manteve a consciência de que, nessa batalha, seu principal objetivo era forjar a crítica ao modo de produção capitalista. Para cumprir essa tarefa, era necessário um estudo muito rigoroso da economia política e a análise constante dos eventos contemporâneos. (MUSTO, 2023, p. 60)
Assim, os Grundrisse foram escritos em meio a problemas de saúde, sofrimentos e luto por seu sétimo filho com Jenny, que faleceu logo após o nascimento (cf. MUSTO, 2023, pp. 45-6). Os Grundrisse fizeram parte de um projeto abandonado, o projeto da crítica em seis livros, e o resultado publicado de seu trabalho foi a Contribuição à crítica da economia política (1859), texto do qual “os Grundrisse foram o laboratório inicial” (MUSTO, 2023, p. 61).
Em 1860, Marx teve que interromper seus estudos de economia política para lidar com acusações difamatórias espalhadas por Carl Vogt, então professor de Ciências Naturais em Genebra e ex-representante da esquerda na Assembleia Nacional de Frankfurt. Vogt vinha sendo tachado como favorável a Luís Bonaparte, e culpou Marx por sua reputação. O professor acusou-o de enganar os trabalhadores, empurrando o proletariado à destruição, e de se envolver em uma conspiração contra ele, além de ser “líder supremo” de um grupo denominado “Gangue do Enxofre” (cf. MUSTO, 2023, p. 64). Marx, então, além de processar o jornal por difamação (pedido rejeitado pela Real Suprema Corte da Prússia), dedicou-se a fazer um trabalho de crítica teórica, que ficou intitulado de Senhor Vogt [Herr Vogt], “um curto-circuito causado pelo desejo de destruir o adversário que, com mentiras, ameaçar sua credibilidade e tentara manchar sua história política e que, ao mesmo tempo, fizera-o usando de charlatanismo literário, algo que Marx desprezava profundamente” (MUSTO, 2023, p. 69). O texto, contudo, foi um fracasso: além de silenciado pelos próprios jornais, acabou entrando na lista de censurados pelo governo alemão.
Nesse momento, Marx seguia convivendo com seus “inimigos de sempre: a miséria e a doença” (MUSTO, 2023, p. 69). Em 1861, via-se novamente cercado de dívidas, tendo que penhorar boa parte de seus bens. No ano anterior, sua esposa, Jenny, contraíra varíola, e chegou a passar a qual também por um “estado de profunda depressão” (MUSTO, 2023, p. 70). Musto ressalta que um acontecimento relevante da mesma época foi a leitura de Marx d’A origem das espécies pela seleção natural (1859), de Charles Darwin, um livro que marcou sua era[11]. O Mouro, como lhe chamavam seus amigos próximos (cf. MUSTO, 2018), foi, então, para a Holanda, onde conseguiu um empréstimo de seu tio Lion Philips, o que ajudou a estabilizar sua situação financeira. Também visitou clandestinamente a Alemanha, hospedando-se por um mês na casa de Ferdinand Lassalle em Berlim, um pensador da esquerda alemã com o qual Marx ainda travaria muitos embates teóricos e práticos[12]. Lá, teve que acompanhar agitados compromissos sociais organizados por Lassalle e sua esposa, os quais não combinavam com o estilo de vida “eremita” que vivia em Londres. Dessa época é “a primeira fotografia conhecida de Marx” (MUSTO, 2023, p. 73). Voltando para a Inglaterra em abril, esperava-lhe sua “Economia”.
Ainda em 1861, logo após a eleição de Abraham Lincoln, eclodiu a Guerra Civil Americana (1861-5), ou Guerra de Secessão. Desde a década anterior, Marx trabalhava como redator do New York Tribune, e escreveu, além de importantes textos militantes enquanto representante da Internacional dos Trabalhadores[13], vários artigos jornalísticos[14] ressaltando as contradições da guerra e seu apoio à “morte da escravidão” (cf. MUSTO, 2023, p. 79). Além disso, não deixou de acompanhar, “com seu habitual interesse, todos os acontecimentos ligados à Rússia e à Europa Oriental” (MUSTO, 2023, p. 81). Em 1863, eclodiu a Revolta de Janeiro na Polônia contra a ocupação da Rússia czarista, reprimida com a ajuda da Prússia de Otto von Bismark, o que resultou na vitória russa em abril de 1864. Marx se debruçou sobre a questão polonesa, posicionando-se contra o massacre e em favor de uma Polônia – e de uma Alemanha – independentes da influência moscovita (cf. MUSTO, 2023, pp. 83-4). Ao traçar este itinerário, vemos um Marx militante, interessado na libertação dos povos ao redor do mundo. Musto é bem-sucedido em demonstrar como “diante dos grandes acontecimentos da história, ocorridos em lugares distantes e diferentes, Marx pôde, uma vez mais, compreender o que se passava no mundo e oferecer sua contribuição para transformá-lo” (MUSTO, 2023, p. 84).
A década de 1860 também foi muito frutífera para seus estudos sobre economia política, escrevendo, entre agosto de 1861 e junho de 1863, “23 volumosos cadernos de anotações dedicados à transformação do dinheiro em capital, ao capital comercial e, sobretudo, a diferentes teorias com as quais os economistas explicaram a mais-valia” (MUSTO, 2023, p. 85). O projeto, aqui, ainda era o da escrita dos seis livros, que, notoriamente, é posteriormente abandonado pelo projeto dos três livros. Musto faz uma análise desses 23 cadernos e seus temas principais, explicando que Marx escreveu, desde uma crítica aos fisiocratas até uma análise das teorias de Adam Smith, Germain Garnier, Charles Ganilh, François Quesnay (em especial, seu Quadro econômico de 1758), Thomas Malthus, James Mill, Samuel Bailey, John Stuart Mill, Johann Rodbertus, David Ricardo, e muitos outros.
Porém, o biógrafo explica que esta fase também foi marcada por uma série de intempéries e sofrimentos de nível pessoal, físico e financeiro. Em 1862, em razão da Guerra Civil, o jornal New York Tribune passava por uma crise financeira e precisou abdicar dos colaboradores estrangeiros, de modo que “o último artigo de Marx para o jornal estadunidense foi publicado em 10 de março de 1862” (MUSTO, 2023, p. 87), e o filósofo renano perdia o que era “desde o verão de 1851, sua principal fonte de renda” (MUSTO, 2023, p. 87), o que novamente colocou um entrave em seus estudos econômicos. Marx, entretanto, “não abdicou dos estudos e dedicou-se a uma nova área de pesquisa: as teorias da mais-valia (1862-1863)” (MUSTO, 2023, p. 87), redigindo seus famosos manuscritos com este nome, que também ficaram posteriormente conhecidos como o “Livro IV d’O capital”, apesar de ser vinculado ao projeto da obra original, e não ao projeto dos três livros posteriores, mas guardando semelhanças estruturais com o Livro III redigido entre 1864-5 (cf. MUSTO, 2023, p. 104).
Afetado, ainda que brevemente, por novos problemas oculares e hepáticos, e sofrendo com o aprofundamento de sua preocupante condição financeira, em 1863, Marx teve que passar alguns períodos afastado dos estudos de economia política. Dedicou-se por um tempo à maquinaria, chegando a fazer um curso prático experimental, e estudou bastante a questão da Polônia, que enfrentava desafios diplomáticos com a Prússia. O Mouro, contudo, não parou completamente seus trabalhos, e durante esse ano redigiu os cadernos XX-XXIII e chegou a compilar “oito cadernos suplementares […] contendo cerca de 600 páginas de resumos econômicos dos séculos XVIII e XIX e retirados de mais de 100 volumes” (MUSTO, 2023, p. 96)
Foi a partir de 1863 que Marx deu início à redação d’O capital:
Nesse período, de fato, ele seguiu uma ordem: o primeiro rascunho do Livro I; o único manuscrito do Livro III, no qual encontramos a única exposição de Marx sobre o processo geral da produção capitalista; e a versão inicial do Livro II, que contém a primeira representação geral do processo de circulação do capital. (MUSTO, 2023, p. 97)
Porém, o marco da escrita de sua grande obra foi também o começo de seus carbúnculos, “o que sua esposa Jenny chamou de ‘a doença terrível’, contra a qual Marx lutaria por muitos anos de sua vida” (MUSTO, 2023, p. 97). Musto demonstra a partir das diversas cartas e rascunhos como essa doença estava diretamente associada com o fardo de redigir a crítica da economia política – quanto mais Marx trabalhava em seu projeto, mais os furúnculos se proliferavam. O próprio Mouro admitiu a Engels: “a minha doença vem sempre da cabeça” (MARX apud MUSTO, 2023, p. 117). Assim, O capital foi escrito entre problemas físicos desconcertantes e problemas econômicos oscilantes, com alguns alívios financeiros intermitentes, como uma inesperada e infeliz – porém conveniente – herança do amigo Wilhelm Wolff em 1863, que lhe proporcionou uma condição estável até aproximadamente meados de 1865, e os muitos auxílios monetários periodicamente concedidos por seu amigo Engels.
Marx alternava entre os livros durante sua escrita d’O capital, escrevia, por exemplo, alguns capítulos do Livro III, e depois focava no Livro II etc. Apesar de continuar tomado pelos furúnculos, seguiu avidamente dedicado ao seu projeto, especialmente após, em março de 1865, assinar o contrato para a publicação da obra até o final do ano, prazo que teve que ser postergado algumas vezes – a publicação de fato ocorreu apenas em 1867. Mesmo com os percalços, Marx estudava e escrevia cotidianamente por longas horas, nunca deixando de lado seus deveres na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) que realizou sua primeira conferência em setembro de 1865, em Londres (cf. MUSTO, 2023, p. 104).
Nessa época, como Engels vivia em Manchester e Marx em Londres, temos uma longa troca de cartas entre os amigos que permitiu ao biógrafo entender com certos detalhes a situação do filósofo renano. Musto explica que já “no início de 1866, Marx deu início a um rascunho do Livro I d’O capital”, contudo, “contrariando suas previsões, […] o ano inteiro foi passado na luta contra os carbúnculos e com o agravamento de seu estado de saúde” (MUSTO, 2023, p. 105). Em geral, o excesso de trabalho agravava penosamente a condição de Marx, que não abandonou suas obrigações na AIT, e “não obstante a tão grave e dolorosa condição os pensamentos de Marx continuaram voltados, principalmente, para a conclusão de sua obra” (MUSTO, 2023, p. 106), trabalhou até ser forçado, por seu próprio corpo, a tirar alguns meses de descanso, sob pena de ocorrer-lhe o pior (cf. MUSTO, 2023, p. 109).
Os problemas físicos, as eventuais complicações de sua situação econômica, e sua “permanente curiosidade intelectual” (MUSTO, 2023, p. 110) que só aumentava o tamanho de seu projeto, seguiram sendo fatores responsáveis pelo adiamento da publicação d’O capital. Porém, em abril de 1867, a “tão esperada notícia” chegou: o livro estava pronto (cf. MUSTO, 2023, p. 113), e, com isso, a saúde de Marx também melhorou (MUSTO, 2023, pp. 113-4). No “Prefácio” da primeira edição, o próprio Marx admite: “A obra, cujo primeiro volume apresento ao público, é a continuação de meu escrito Contribuição à crítica da economia política, publicado em 1859. A longa pausa entre começo e continuação se deve a uma enfermidade que me acometeu por muitos anos e interrompeu repetidas vezes meu trabalho.” (MARX, 2017, p. 77)
Marx foi a Hamburgo, cidade da editora, e depois passou cerca de um mês em Hanover na casa do amigo Ludwig Kugelmann. Musto analisa os relatos próximos de sua esposa, Franziska Kugelmann, em que descreve uma personalidade alegre e agradável do Mouro (cf. MUSTO, 2023, p. 114). O texto a ser publicado foi revisado por Engels, que sugeriu mudanças substanciais na forma da escrita e na estrutura do texto. Marx revisou seus rascunhos e, então, “O capital foi colocado à venda, com 14 mil exemplares, em setembro de 1867” (MUSTO, 2023, p. 116). Ainda assim, “nos anos seguintes a estrutura da obra seria ampliada e várias alterações também seriam feitas no texto” (p. 117).
Entre instabilidades de saúde, tanto relacionada MUSTO, 2023, com os furúnculos quanto com problemas hepáticos, o Mouro seguia pesquisando e escrevendo a crítica da economia política. O objetivo era, agora, concluir o Livro II. Entre seus estudos, Musto destaca comentários de Marx sobre livros de história e agricultura que leu em 1868, incluindo considerações vanguardistas sobre ecologia que datam dessa época. Além disso, o autor considera, a partir de uma análise das correspondências, que é possível entender que Marx supera a noção da lei da queda tendencial da taxa de lucro após 1868:
Data de fins de abril de 1868 a carta enviada a Engels na qual Marx traçava um novo esboço da sua obra, com particular referência ao “desenvolvimento, nas suas características muito gerais […] da taxa de lucro”. Foi a última vez em que se referiu, em sua correspondência, à lei da queda tendencial da taxa de lucro. Apesar da grande crise econômica que se desenvolveu a partir de 1873, esse conceito, tão enfatizado posteriormente – ao qual é dedicada toda a terceira seção do Livro III d’O capital (que foi escrito em 1864-1865) –, nunca mais foi mencionado por Marx e foi considerado superado. (MUSTO, 2023, p. 119)
Assim, 1868 marca a última menção da lei da queda tendencial da taxa de lucro, o que sustenta o argumento de que ele seria superado[15]. Essa é a posição de outros autores vinculados à Mega2, em especial Michael Heinrich (2013), que não apenas critica tal lei marxiana como sustenta que o próprio Marx teria a revisado ainda em vida[16], contudo, essa concepção não é consensual dentro da tradição marxista[17], até mesmo porque o próprio Marx nunca afirmou propriamente o abandono dessa concepção. Outro grande acontecimento da vida de Marx na mesma época é que, em 1869, em razão de seu estudo da questão agrária e “depois de tomar conhecimento da nova e nada desprezível literatura que analisava as mudanças ocorridas na Rússia” (MUSTO, 2023, p. 120), dedicou-se avidamente ao estudo da língua russa, como se fosse, nas palavras de sua esposa, “uma questão de vida ou morte” (LONGUET apud
MUSTO, 2023, p. 120).
Musto apresenta um Marx nada dogmático, mesmo diante de seu magnum opus: em 1872, finalmente foi publicada uma reimpressão do Livro I d’O capital, com sua estrutura inteiramente reformulada. Apenas em 1875 foi publicada a tradução francesa, que foi quase uma nova edição, pois o próprio Marx não apenas corrigiu, mas “reescreveu passagens” e páginas inteiras “para tornar palatável ao público francês” (MARX apud MUSTO, 2023, p. 122), aproveitando para fazer retificações e mudanças (cf. MUSTO, 2023, pp. 123; 203). É notório que os rascunhos do Livro II foram deixados incompletos, e os do Livro III, também, além de possivelmente desatualizados. Contudo, nem mesmo o Livro I, Marx, em seu perfeccionismo, considerou completo: “nem a tradução francesa, de 1872-1875, nem a terceira edição alemã, de 1881, podem ser consideradas como a versão definitiva que estava em suas aspirações” (MUSTO, 2023, p. 124).
O “filósofo” preocupado em mudar o mundo: da militância na Internacional até o trabalho do “último Marx”
Explicitados alguns dos principais acontecimentos da elaboração e publicação da crítica da economia política marxiana, a segunda parte da biografia reflete particularmente acerca da militância política de Marx, em especial na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), na luta pela libertação irlandesa, e em torno da Comuna de Paris. Marx, apesar de não ser um dos fundadores da AIT (cf. MUSTO, 2023, p. 131), foi um de seus principais membros e articuladores, chegando a liderar uma de suas correntes majoritárias. Musto analisa a organização desde sua gênese a partir de diversos documentos da época desde a assembleia de fundação, em 1864 em Londres. As principais correntes na fundação eram: o sindicalismo inglês; o mutualismo francês, seguidores de Pierre-Joseph Proudhon; os comunistas, liderados por Marx, inicialmente minoritários; e alguns outros grupos ainda menores (cf. MUSTO, 2023, pp. 129-30). Proudhon já havia sido alvo de numerosas críticas de Marx e de Engels na obra Miséria da filosofia, de 1847, resposta à Filosofia da miséria do pensador francês (cf. ENGELS; MARX, 2017), e seria um de seus principais opositores políticos nos anos subsequentes na AIT, sobretudo por sua força hegemônica entre os membros da França, da Suíça francófona, Valônia e Bruxelas (cf. MUSTO, 2023, p. 146).
A Alemanha não possuía representantes na AIT, até mesmo em razão da censura e perseguição política que o país sofria na época, mas a Associação Geral dos
Trabalhadores Alemães (AGT) girava em sua órbita. A AGT era uma organização fundada e liderada por Ferdinand Lassalle, que, contudo, “seguiu um diálogo ambíguo com Otto von Bismarck e perdeu interesse pela Internacional durante os primeiros anos de sua existência” (MUSTO, 2023, p. 138). Lassalle e sua relação com a monarquia alemã foram profundamente criticados por Marx ao longo de sua vida, seja por meio de cartas (cf. MUSTO, 2023, p. 150), ou, na década de 1870, na célebre Crítica do Programa de Gotha (1975) (cf. MARX, 2012), redigida como resposta ao manifesto de unificação da AGT com o Partido Social-Democrata dos Trabalhadores, movimento vinculado a Marx na Alemanha (cf. MUSTO, 2023, pp. 204-5).
A organização era diversa, e Marx cumpria um relevante papel na agregação dos diferentes grupos, mesmo sem poupá-los de suas críticas. Para Musto, “a sua habilidade política permitiu-lhe conciliar o que parecia irreconciliável e garantiu um futuro à Internacional que, sem o seu protagonismo, teria partilhado o mesmo rápido esquecimento de todas as outras numerosas associações operárias que a precederam”, de modo que “foi ele quem criou um programa político não excludente, mas firmemente classista, garantindo uma organização que aspirava ser de massas e não sectária” (MUSTO, 2023, p. 131). O protagonismo do autor d’O capital foi crescendo dentro da organização. Muitos membros se identificavam com o modo através do qual ele expressava claramente seu projeto comunista e ressaltava que a organização não deveria se preocupar com a disputa de eleições: “não podemos nos tornar o trampolim de mesquinhas ambições parlamentares” (MARX apud MUSTO, 2023, p. 133)[18], mas sem abandonar, como os seguidores de Proudhon, a perspectiva das conquistas concretas, como a legislação pela redução da jornada de trabalho. No primeiro congresso da AIT, em 1866 em Genebra, a linha vinculada a Marx era majoritária, e sua maior oposição era composta pelos mutualistas franceses, que acabaram perdendo no resultado geral (cf. MUSTO, 2023, pp. 141-2).
Com o tempo, o mutualismo foi perdendo força. Este foi um resultado de uma firme disputa política de Marx, mas, conforme Musto, “mais ainda do que Marx, foram os próprios trabalhadores que tornaram a doutrina proudhoniana marginal na Internacional” (MUSTO, 2023, p. 147), pois, pelo aumento das greves, da luta por direitos, e da mobilização do movimento operário em geral, as teses mutualistas pareciam cada vez mais desconectados da luta concreta dos trabalhadores. Ao analisar os documentos do Congresso de Bruxelas de 1868, Musto destaca que pela primeira vez a AIT se posicionou claramente sobre a necessidade de socialização dos meios de produção por meio da utilização do poder público (cf. MUSTO, 2023, p. 148), uma grande derrota para os mutualistas.
Não obstante, o congresso marcaria o início da virada coletivista da organização. Contando com a participação do russo Mikhail Bakunin, então membro da Aliança Social-Democrata, com o tempo Marx foi “confrontado com um rival ainda mais duro, um adversário que formava uma nova tendência – o anarquismo coletivista – no seio da organização e que pretendia conquistá-la” (MUSTO, 2023, p. 153). Musto descreve: “Em suma, Bakunin queria transformar a Internacional em uma organização controlada por ele, ‘por meio da infiltração desta [a Aliança Social Democrata] sociedade secreta’. Marx denunciou este objetivo e abriu-se um conflito sem limites entre os dois.” (MUSTO, 2023, p. 162)
No interior do cenário político dos anos 1860 e 70, Marx foi um grande defensor da união internacional dos trabalhadores e da libertação dos povos em geral. Em inúmeros textos e cartas, Marx denuncia a burguesia inglesa por antagonizar seus proletários ao proletariado irlandês para favorecer seu domínio classista, defendendo em 1870 que “o golpe decisivo contra as classes dominantes na Inglaterra (e que será decisivo para o movimento operário mundial) só pode ser desferido na Irlanda e não na Inglaterra” (MARX apud MUSTO, 2023, p. 158). Marx foi redator da Primeira e da Segunda Mensagem do Conselho Geral sobre a Guerra franco-prussiana, guerra a qual eclodiu em 1870 e terminou em 71 com a derrota francesa, posicionando-se fortemente contra Luís Bonaparte[19], mas também contra a Prússia, em prol da uma união proletária pela paz, e expressando seus medos com relação aos frutos futuros da guerra (cf. MUSTO, 2023, pp. 164-5).
Em março de 1871, eclodiu um dos eventos mais relevantes do século, a Comuna de Paris, a qual, apesar do “papel desempenhado pelos dirigentes da Internacional” estava, contudo, “nas mãos da ala jacobino-radical” (MUSTO, 2023, p. 170). Dois dias após sua violenta repressão, em maio, Marx “regressou ao Conselho Geral e trouxe consigo um manuscrito intitulado A guerra civil na França (1871)” (MUSTO, 2023, p. 168), que também foi aprovado e publicado em nome do Conselho Geral da AIT, e reflete a postura ao mesmo tempo de exaltação da coragem dos communards e reconhecimento de sua relevância histórica, mas também de crítica a um movimento “que estava condenado à derrota” (MUSTO, 2023, p. 166).
Com o fim da Comuna, os países europeus em geral se tornaram mais repressivos com os movimentos de oposição, e a AIT, independente de não ter tido parte na direção do movimento de Paris, passou a ser demonizada, juntamente com seus dirigentes. Marx afirmou, com tons irônicos, que teve a “honra de ser o homem mais caluniado e mais ameaçado de Londres” (MARX apud MUSTO, 2023, p. 171). Assim, a tarefa do Mouro na organização agora era dupla: ao mesmo tempo “defender a Internacional do ataque de forças hostis e colocar por terra a influência crescente de Bakunin” (MUSTO, 2023, p. 171), e ele não conteve esforços para sanar, na mídia e nos encontros políticos, ambas ameaças. Na conferência de Londres de 1871, a AIT publicou uma resolução que definia o partido político (em sentidos muito distintos e mais amplos do que entendemos hoje)[20] como um “instrumento fundamental da luta do movimento operário” (MUSTO, 2023, p. 174), o que foi muito mal visto pelos comunitaristas. Em razão de sua má recepção entre os apoiadores de Bakunin, Musto diagnostica a resolução como um “erro de avaliação cometido por Marx que acelerou a crise da internacional” (MUSTO, 2023, p. 177). Fato é que a conferência marcou o início de um período desfavorável à ala comunista.
Os conflitos se aprofundaram de tal modo que, no ano seguinte, o V Congresso Geral da Internacional, em Haia, no qual Marx e Engels estavam presentes, marcaria o fim da organização, ao menos nos moldes de sua fundação em 1864. Com receio de a organização ser tomada por representantes de uma “seita sectária” e “abstencionista” comandada por Bakunin, foi votada a transferência da sede do Conselho Geral para Nova York, defendida também por Marx e por Engels, decisão que venceu por poucos votos, muito criticada não apenas pelos comunitaristas, mas também pelos blanquistas, que “abandonaram o congresso e, pouco depois, também a Internacional” (MUSTO, 2023, p. 186). Contudo, o evento acabou sendo, nas palavras de Musto, uma “vitória de Pirro” para Marx, pois, na verdade “agravou significativamente a crise da organização” (MUSTO, 2023, p. 188), e acelerou sua dissolução. Após sua transferência, “a Internacional foi substituída por dois agrupamentos de forças muito pequenos” e “sem capacidade de planejamento e ambição política”, os “centralistas” e os “autonomistas” ou “federalistas” (MUSTO, 2023, p. 194), ambos os quais rapidamente foram extintos.
À luz deste embate, Musto analisa decisões da Internacional e outros textos em que Marx e Engels se contrapõem ao revolucionário russo, e vice-versa, notadamente As chamadas cisões na Internacional (1872) de Marx e Engels; Excertos e comentários críticos ao “Estado e anarquia” de Bakunin (1875) de Marx; a Carta ao La Liberté de Bruxelas (1872) de Bakunin, e Estado e anarquia (1873), a única obra completa do russo. Contudo, é importante frisar que o biógrafo critica a tese de que o fim da Internacional se deu apenas pelos conflitos internos, ou pior, a que personifica tais conflitos, alegando que derivou de uma disputa pessoal entre Marx e Bakunin. A derrocada da organização deve ser entendida à luz de seu contexto histórico, das determinações objetivas dos elementos econômicos e sociais que a engendraram:
A tese, sugerida por numerosos acadêmicos, de que foi o conflito entre as suas duas correntes ou, o que é ainda mais improvável, o conflito entre dois homens, ainda que do calibre de Marx e Bakunin, que determinou o declínio da Internacional, não parece convincente. As razões de seu fim devem ser procuradas em outro lugar. O que tornou a Internacional obsoleta foram, acima de tudo, as grandes mudanças que ocorreram fora dela. O crescimento e a transformação das organizações do movimento operário, o reforço dos estados- nação com a unificação nacional da Itália e da Alemanha, a expansão da Internacional em países como Espanha e a Itália, caracterizados por condições econômicas e sociais profundamente diferentes das da Inglaterra e da França, onde a associação nasceu, a definitiva guinada à moderação do sindicalismo inglês e a repressão que se seguiu à queda da Comuna de Paris, tudo isto agiu conjuntamente para tornar a configuração original da Internacional inadequada às novas condições históricas. (MUSTO, 2023, p. 187)
Fato é que o fim da Internacional em 1872 foi também o fim de uma era muito relevante para Marx. A organização devia muito a ele, que foi por alguns anos um de seus principais líderes, e ele à organização, que também ajudou a popularizar suas teorias entre os trabalhadores. A data é também um marco da sua última década, dado seu falecimento em março de 1883.
Entre seus recorrentes problemas de saúde, que não cessavam, na década de 1870, especificamente entre 1872-75, Marx também se ocupava com a tradução – ou, melhor dizendo, edição – francesa do Livro I d’O capital, que consistiu em uma revisão crítica com mudanças e acréscimos em toda a obra. Outros textos relevantes da mesma época são um manuscrito para o Livro III, A relação entre a taxa de mais- valia e a taxa de lucro desenvolvida matematicamente (1875), e a Crítica do Programa de Gotha (1875) sobre a unificação dos partidos socialistas na Alemanha. Além disso, desde 1869 o autor aprendia russo e não deixava de pesquisar sobre as mudanças sociais que ocorriam no país, recebendo uma série de livros e publicações de seu amigo e economista russo, posteriormente tradutor d’O capital, Nicolai Danielson. Em 1875, na Alemanha, travou amizade com o historiador russo Maksim Kovalevsky, com quem também trocou obras e correspondências até o final de sua vida (cf. MUSTO, 2023, pp. 206-7). Os livros teóricos lidos por Marx – sem contar com as muitas obras de literatura que conhecia – eram, em geral, tão diversos quanto seus interesses, não se limitando à história ou economia política. Na época passaram, por exemplo, desde fisiologia e botânica até formas de propriedade coletiva (cf. MUSTO, 2023, pp. 208- 9).
Com o advento da Guerra Russo-Turca (1877-1878), Marx se ocupou em estudar o que era chamado em sua época de “questão oriental” e o papel da reacionária Rússia tsarista, que, contudo, passava por seus próprios conflitos sociais internos após a (segundo Marx, lamentável) vitória de Alexandre II (cf. MUSTO, 2023, pp. 210-1). Na Alemanha, apesar de o Partido Socialista dos Trabalhadores da Alemanha (PSTA) estar se expandindo, a situação era preocupante, pois ele era cada vez mais dominado por tendências conflitantes com os interesses da classe trabalhadora. Esse foi um dos motivos que levou Marx a escrever o décimo capítulo da obra de Engels Anti-Dühring, contra o professor e intelectual socialista alemão (cf. MUSTO, 2023, p. 212) cujos apoiadores cresciam dentro do PSTA. Sobre a conjuntura alemã, o autor d’O capital também viu de modo negativo a tentativa do anarquista Karl Eduard Nobiling de assassinar o Rei Wilhelm I, resultado de uma leitura “tola” do contexto social que apenas acarretou no aumento das perseguições aos socialistas no país (cf. MUSTO, 2023, pp. 214-5). Ele entendia que os anarquistas do partido, ao contrário da massa de operários que o compunham, eram “um esboço da juventude sem problemas que quer fazer história e apenas demonstra como as ideias do socialismo francês [podem] se tornar uma caricatura de homens degradados de classes superiores” (MARX apud MUSTO, 2023, p. 215). De outro lado, Marx também temia o avanço da “ralé do socialismo de cátedra” (MARX apud MUSTO, 2023, p. 217), socialistas de estado que dominavam as universidades alemãs, como Adolph Wagner (cf. MUSTO, 2023, p. 234).
O principal projeto de Marx ainda continuava ativo: “Entre 1877 e 1881, Marx
redigiu novas versões de várias partes do Livro II d’O capital.” (MUSTO, 2023, p. 218) Entre problemas pessoais (dentre eles, o falecimento da segunda esposa de Engels em 1878) e de saúde, dedicou-se a estudar livros sobre comércio, capital financeiro, bancário, e circulação de capital em geral (cf. MUSTO, 2023, pp. 218-20). Paralelamente, estudava sobre “os desenvolvimentos econômicos da Rússia e dos Estados Unidos” (MUSTO, 2023, p. 220), chegando a afirmar que “o campo mais interessante para os economistas, est[ava], sem dúvida, nos Estados Unidos” (MARX apud MUSTO, 2023, p. 221).
Os próprios estudos para o Livro II o levaram a, em 1878, focar em “geologia, mineralogia e química agrária” (MUSTO, 2023, p. 221), visando sobretudo a aumentar seu conhecimento sobre renda da terra (cf. MUSTO, 2023, p. 222). Não obstante a continuidade de seus trabalhos, o prazo para a finalização do segundo livro estava em suspenso, o que justificou, em uma carta para Danielson, em razão de: (1) poder “esperar até que a crise industrial na Inglaterra atingisse seu ponto mais alto”, (2) precisar estudar melhor o material que havia recebido sobre a Rússia e os Estados Unidos; e (3) ordens médicas para reduzir seu tempo de trabalho (cf. MUSTO, 2023, pp. 225-6).
O ano de 1879 é marcado por estudos sobre Ciências naturais, química, física, fisiologia e geologia (cf. MUSTO, 2023, p. 229), dos quais, como sempre, tomava notas em seus cadernos pessoais. Em setembro, dedicou-se ao livro A propriedade comum da terra… (1879) de seu amigo e correspondente, Kovalevsky, que lhe fora enviado pelo próprio autor. Dele, tomou extratos nos quais “resumiu as diferentes maneiras pelas quais os colonizadores espanhóis na América Latina, os ingleses na Índia e os franceses na Argélia haviam regulamentado os direitos de posse” (p. 229), passando “formas de propriedade da terra existentes entre as civilizações pré-colombianas” (MUSTO, 2023, p. 229). Ademais, dedicou-se extensivamente a tomar notas referentes à colonização inglesa na Índia, que compõem mais da metade de seus excertos sobre o autor russo. Entre 1879-80, decidiu organizar uma cronologia da história indiana, as Notas sobre a história da índia (664-1858), baseada em diversos autores com os quais teve contato ao longo de sua vida, o que aponta um claro interesse do autor na região. Nesse período, Marx também se voltou a estudar textos sobre as comunidades indígenas e a economia na Austrália, resultado de seu interesse geral em entender a realidade das colônias inglesas. São da mesma época as Glosas marginais do Tratado de economia política de Wagner (1880), nas quais critica veementemente seu chamado “socialismo de estado” (cf. MUSTO, 2023, pp. 233-5).
Em 1880, Marx acompanhava de perto a emergência da Federação do Partido
Socialista dos Trabalhadores da França (FPTSF), redigindo o Programa eleitoral dos trabalhadores socialistas (1880), com Lafargue. Nele, escreve que, além da necessidade da expropriação dos meios de produção, “a emancipação da classe produtiva é a emancipação de todos os seres humanos sem distinção de sexo e raça” (MARX apud MUSTO, 2023, p. 236). Ele via a recém formada organização como o “primeiro movimento real dos trabalhadores na França”, diferente de organizações anteriores que se constituíram enquanto “seitas que recebiam a palavra de ordem de seus fundadores” (MARX apud MUSTO, 2023, p. 237). Ainda em 1880, Marx organizou a Enquete operária (1880), um questionário publicado na Revue Socialiste a ser preenchido pelos operários, circulando 25 mil cópias pela França. A enquete foi uma iniciativa original, voltada a dar voz aos próprios operários; uma alternativa aos, também muito utilizados por Marx, relatórios de inspetores que constavam nos Livros azuis [Blue books].
Outros eventos da época são o encontro com o jornalista liberal dos Estados Unidos John Swinton, que posteriormente afirmou que, ao contrário de suas expectativas, viu em Marx um homem de muito bom caráter. Do mesmo ano é, também, a Carta à Assembleia de Genebra (1880), em comemoração da revolução polonesa de 1830, de Marx e Engels. A nível pessoal, o autor d’O capital nunca deixou de batalhar contra seus muitos problemas de saúde, mas agora enfrentava também uma deterioração na condição física de sua amada esposa, Jenny, que padecia de um grave câncer no fígado.
Em seus últimos anos, Marx dedicou-se a estudos diversos. Entre dezembro de 1880 e junho de 1881 escreveu a maior parte das notas que foram publicadas, em 1972, na compilação denominada Cadernos etnológicos, feita por Krader, mas hoje disponíveis na versão digital no site da Mega2. Na vida privada, esse período foi, sem dúvida, bastante penoso. Enquanto suas dores reumáticas e problemas respiratórios pioravam, ele viu membros de sua família adoecendo. Sua querida filha mais nova, Eleanor (“Tussy”), passou por um sério período depressivo por volta de 1880-81, e sua esposa Jenny von Westphalen estava a cada dia mais fraca em decorrência do câncer. Sua companheira de vida morreu em 2 de dezembro de 1881, aos 68 anos (cf. MUSTO, 2023, p. 254). Por este advento trágico, somado à necessidade própria de recuperação, Marx viaja, sob recomendação médica de mudança de “ares”, para a Argélia, aportando em Argel em 20 de fevereiro de 1882. Estimulado pelo novo ambiente, estudou sobre o país e a cultura árabe, e, em suas cartas “atacou, com indignação, os abusos violentos dos colonizadores franceses em Argel” (MUSTO, 2023, p. 259). Contudo, sua condição física não melhorou, ao invés, o isolamento do restante de sua família surtiu-lhe um efeito negativo, fazendo-lhe retornar à Europa pouco tempo depois, desembarcando já no dia 5 de maio (cf. MUSTO, 2023, p. 259).
Mesmo diante de intempéries, Marx manteve-se ativo intelectualmente. Outros textos relevantes do “último Marx” são o Caderno B 168 / B 150 (duplamente numerado em sua capa), de outubro 1882, no qual estão, dentre outras[21], suas notas sobre The origin of civilisation and the primitive condition of man (1870), de John Lubbock; e uma cronologia de fatos importantes da história mundial, desde o século I aC (1881-2). São da mesma época a famosa carta à Vera Zasulich (1881) e o “Prefácio” à edição russa do Manifesto do partido comunista (1882)[22]. Os últimos meses de Marx, em 1883, foram vividos em Londres. Já bastante debilitado, sofreu mais uma perda irreparável, a de sua filha: “Em 11 de janeiro [de 1883], antes mesmo de completar 39 anos, Jenny morreu de câncer na bexiga.” (MUSTO, 2023, p. 264) A partir de então, a deterioração de Marx se agravou rapidamente, e desenvolveu um abscesso pulmonar. O autor d’O capital faleceu às 14h45 do dia 14 de março de 1883, e a seu amigo Engels, coube “‘fazer alguma coisa’ com seus manuscritos inacabados” (MUSTO, 2023, p. 266). Marx se foi, mas, como ressalta Musto, “nunca o abandonou a certeza de que muitos outros continuariam seu trabalho teórico e que milhões deles, em todos os cantos do mundo, continuariam a luta pela emancipação das classes subalternas” (MUSTO, 2023, p. 266).
Marx e o projeto de uma sociedade emancipada “E nós bradamos: A revolução está morta! – Viva a revolução!”
Karl Marx, As lutas de classes na França
A quarta parte da biografia escrita por Musto, “A teoria política”, é voltada para analisar a dialética do capitalismo e o caráter da sociedade comunista. Parte da leiga crítica, aponta Marx como um teórico que teve uma visão positiva da sociedade civil- burguesa, e até mesmo etapista[23] ou evolucionista da história, por tratar da possibilidade do comunismo como engendrada pelo modo de produção capitalista. Musto, contudo, explica como essas inferências são equivocadas, na medida em que:
1) Marx não coloca que as sociedades devem passar por estágios históricos necessários; e 2) as condições para o comunismo serem engendradas no interior da sociedade capitalista é devido ao desenvolvimento da produção humana em geral, não a uma visão engessada da história. O biógrafo resume essas condições da seguinte maneira:
[…] constituem os pré-requisitos fundamentais para o possível surgimento da sociedade comunista […]: 1) a cooperação do trabalho; 2) o aporte científico-tecnológico para a produção; 3) a apropriação das forças da natureza pela produção; 4) a criação de grandes máquinas que só podem ser usadas em conjunto pelos operários; 5) a economia dos meios de produção; 6) a tendência a criar o mercado mundial (MUSTO, 2023, p. 273).
O modo de produção capitalista inaugura um índice de produção nunca antes alcançado pela humanidade, ao mesmo tempo que cria “uma classe que tem de suportar todos os fardos da sociedade sem desfrutar de suas vantagens” (ENGELS; MARX, 2007, p. 2.007). Ou seja, os produtos do trabalho humano não são acessados por aqueles que os produzem. Tem-se, por exemplo, de um lado, a capacidade de produzir, transportar e armazenar uma imensidão de alimentos, muitos descartados no lixo; de outro, a fome e a miséria[24]. Contudo, já existindo tal capacidade tecnológica, produtiva, a possibilidade de uma sociedade que não sofra de fomes periódicas em razão de secas naturais, já está dada pela própria realidade. Marx era “profundamente contrário ao ditame produtivista do capitalismo” (MUSTO, 2023, p. 278), mas o exemplo utilizado por nós serve para demonstrar que não se trata de romantizar a sociedade civil-burguesa, e sim de situar a possibilidade do comunismo historicamente, pensamento foi mantido por Marx ao longo de toda sua vida:
[…] com continuidade, desde as primeiras formulações da concepção materialista da história na década de 1840 até suas últimas intervenções políticas na década de 1880, Marx destacou a relação entre o papel fundamental do incremento produtivo gerado pelo modo de produção capitalista e as pré-condições necessárias para o surgimento da sociedade comunista pela qual o movimento dos trabalhadores deveria lutar (MUSTO, 2023, pp. 279-80).
Apesar de considerar que o capitalismo fornece as pré-condições do comunismo, Marx “negou inúmeras vezes – tanto em textos publicados quanto em manuscritos não publicados – que tivesse concebido uma interpretação unidirecional da história, segundo a qual os seres humanos estavam destinados a seguir o mesmo caminho em todos os lugares e, além disso, por meio dos mesmos estágios” (MUSTO, 2023, pp. 281-2). O autor d’O capital é veementemente contrário à posição de que todas as sociedades devem fazer uma revolução civil-burguesa, e “durante os últimos anos de sua existência” dedicou-se a refutar “a tese, erroneamente atribuída a ele, da inexorabilidade histórica do modo de produção burguês” (MUSTO, 2023, p. 282).
Com essas condições dadas pela revolução industrial inglesa, o próprio Marx deixa explícito em sua carta à Vera Zasulich (1882), que a Rússia do século XIX, por exemplo, já poderia fazer uma transição ao comunismo através de sua própria comuna rural, sem antes realizar uma revolução burguesa, “trocando de pele sem cometer suicídio (MARX in ENGELS; MARX, 2013, p. 100). Para ele, “a contemporaneidade da produção ocidental, que domina o mercado mundial, permite à Rússia incorporar à comuna todas as conquistas positivas produzidas pelo sistema capitalista sem passar por seus forcados caudinos [fourche caudines]” (MARX in ENGELS; MARX, 2013, p. 94). Nesse sentido, Marx entendia que a “história da Rússia, ou de qualquer outro país, não precisava refazer todas as etapas que marcaram a história da Inglaterra ou de outras nações europeias” (MUSTO, 2023, p. 284). Essa postura não é uma “ruptura dramática com suas convicções anteriores”, mas, para Musto, o “amadurecimento de sua posição teórico-política” (MUSTO, 2023, p. 285). Para nós, não é uma mudança, e sim uma consequência de seu pensamento anterior, acrescido agora de novos estudos específicos sobre a Rússia.
Marx teve a oportunidade de criticar em vida as “interpretações” equivocadas que entendiam O capital como uma fórmula das etapas da história de todos os países, e “dogmatismos” desse tipo que surgiam em seu nome (cf. MUSTO, 2023, p. 289). Ele contestou, por exemplo, Mikhajlovsky por “transfigurar seu ‘esboço da gênese do capitalismo na Europa Ocidental em uma teoria histórico-filosófica da marcha universal fatalmente imposta a todos os povos, qualquer que seja sua situação história’” (MARX apud MUSTO, 2023, p. 283). A escolha da Inglaterra como o enfoque d’O capital se dá em razão da forma clássica de entificação do capitalismo, sendo o país na qual as determinações específicas da sociedade civil-burguesa já estavam colocadas, à época de Marx, de modo mais evidente, como ele próprio explica no “Posfácio” de sua obra[25]. Apesar de ler autores evolucionistas, Marx nunca foi afetado por essa tendência, como Musto explica em sua biografia sobre o “último” Marx:
Todos os autores lidos e resumidos por Marx nos Cadernos etnológicos haviam sido influenciados – com nuances distintas – pela teoria evolucionista que imperava à época, e alguns deles eram também defensores convictos da superioridade da civilização burguesa. Um estudo dos Cadernos etnológicos mostra claramente que Marx não sofreu nenhuma influência dessas asserções ideológicas. (2018, p. 39)
A última seção do capítulo da teoria política é dedicada a traçar o “perfil da sociedade comunista”. Antes de Marx, destacam-se os socialistas “críticos-utópicos”, que cumpriram uma função histórico-crítica específica, apesar de suas visões moralistas e seus projetos irrealizáveis (cf. MUSTO, 2023, pp. 292-3), e de que nunca alcançaram o estatuto de crítica aos reais fundamentos da sociedade civil-burguesa. Após a revolução francesa, emergiu a suposição de que “todos os males da sociedade acabariam assim que fosse estabelecido um sistema de governo fundado na igualdade absoluta de todos os seus membros” (MUSTO, 2023, p. 293), o igualitarismo, que foi um “princípio orientador da Conspirações dos Iguais”, defendida, por exemplo, por François-Noël Babeuf e Sylvain Maréchal (MUSTO, 2023, p. 294). Musto analisa as ideias e vertentes do igualitarismo desde a revolução francesa até meados do século
XX. Eles eram baseados em uma “ideologia igualitária ingênua” como solução dos problemas sociais, baseadas em uma imposição “de cima para baixo” (MUSTO, 2023, p. 295).
Outra corrente relevante dos primeiros socialistas, defendida por, dentre outros, Henri de Saint-Simon, Charles Fourier, Robert Owen e Étienne Cabet, apostava “que a elaboração teórica de melhores sistemas de organização social era uma condição suficiente para mudar o mundo” (MUSTO, 2023, p. 296). Muitos deles tinham de fato o “compromisso de promover o surgimento de pequenas comunidades alternativas” (MUSTO, 2023, p. 297), todas as quais, sabe-se, tiveram o mesmo destino fatal. Esses movimentos eram, essencialmente, antirrevolucionários. Com o tempo, “suas organizações se tornaram […] seitas políticas dogmaticamente vinculadas a sistemas teóricos que já estavam predeterminados e, portanto, completamente desvinculadas dos conflitos reais da classe trabalhadora” (MUSTO, 2023, p. 299), como tratam Marx e Engels no panfleto da AIT As ditas cisões na Internacional (1872) e na chamada Carta circular (1879).
Marx “refutou a ideia de que [sua teoria] poderia ser a inspiração para um novo credo político dogmático” e “se recusou a propor a configuração de um modelo universal de sociedade comunista” (MUSTO, 2023, p. 302), por exemplo no “Posfácio à segunda edição” (1873) do Livro I d’O capital e nas Glosas marginais sobre Wagner (1879-1880). Ainda assim, ele escreveu sobre o comunismo, no que Musto classifica por três grupos textuais distintos: 1) críticas às concepções de socialismo de outros autores; 2) “escritos sobre luta e propaganda política destinados às organizações da classe proletária de sua época” (MUSTO, 2023, p. 304); e 3) observações críticas ao modo de produção capitalista que geram reflexões sobre o comunismo. Contudo, ressalta, “suas anotações […] não devem ser avaliadas como o modelo marxista a ser adotado dogmaticamente, nem, muito menos, como as soluções que […] deveriam ter sido aplicadas, indiferenciadamente, em diferentes lugares e épocas” (MUSTO, 2023, p. 304).
O comunismo não é a aplicação de um ideal, mas uma sociedade emancipada[26], sem classes e sem política, baseada na associação de seres humanos livres e na produção coletiva (cf. MARX, 2017, p. 153), que parte “de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades!” (MARX, 2012, p. 25). As condições objetivas para a existência da sociedade comunista estão dadas, mas não faz sentido deliberar, a partir do arcabouço categórico marxiano, sobre um modelo afirmativo de como a revolução será e como a sociedade comunista se organizará, redundando em utopias sem fundamento ou futurologias crassas. É necessário retirar as deturpações amplamente disseminadas sobre o sentido de comunismo e resgatar o projeto revolucionário marxiano em seu sentido profundamente emancipatório.
A partir da obra de Musto, é possível notar como Marx nunca foi um intelectual apartado em sua “torre de Marfim” – não há uma cisão entre “teoria” e “prática” em sua obra; elas são, ao invés, indissociáveis. Em sua vida, Marx teve uma postura de participação ativa e de agregação dos movimentos de esquerda, sem nunca abandonar seus próprios pensamentos ou poupar seus pares de duras críticas. Criticando o materialismo contemplativo, Engels e Marx (2007) redigiram a famosa tese 11: “os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo” (p. 535), objetivando romper com a oposição entre filosofia e mundo. A transformação material do mundo depende da devida compreensão da realidade, e vice-versa:
A arma da crítica não pode, é claro, substituir a crítica da arma, o poder material tem de ser derrubado pelo poder material, mas a teoria também se torna força material quando se apodera das massas. A teoria é capaz de se apoderar das massas tão logo demonstra ad hominem, e demonstra ad hominem tão logo se torna radical. Ser radical é agarrar a coisa pela raiz. Mas a raiz, para o homem, é o próprio homem. (MARX, 2013, pp. 151-2)
Assim, entender a realidade é também intervir nela – as armas da crítica nas mãos das massas são força material. Marx é muito maior que qualquer tipo de deturpação economicista, etapista ou evolucionista de sua teoria, ou de toda crítica que tenta vendê-lo como um teórico eurocentrista e colonialista a ser descartado. Não se trata de não o entender como um europeu do século XIX, e sim reconhecer que ele foi muito além dos preconceitos burgueses da ideologia dominante em seu tempo, partindo de um projeto de emancipação material dos seres humanos em geral.
Espaço de discussão
Como mencionamos anteriormente, nos tempos atuais tem ressurgido um grande interesse na vida e obra de Marx, impulsionado pela recente publicação de muitos cadernos de anotações do “último Marx” pela Mega2, antes inéditos ao público. Assim, os textos dessa época, nos quais Marx trata de questões como gênero, colonialismo, dentre outros, têm sido alvo de grandes debates na tradição marxista. Se para Edward Said, Marx apresenta uma visão “orientalista romântica”, a qual mantém até o final de sua vida (cf. SAID, 2012, p. 197), há uma corrente que defende que esses textos marcam uma mudança radical de pensamento de Marx, em que ele deixa de lado supostas tendências eurocêntricas anteriores. Para Michael Löwy (2020), por exemplo, os Cadernos etnológicos mostram a “evolução de Marx, a partir de posições eurocêntricas, em direção a uma crescente abertura ao ‘Outro’” (p. 23), de modo que “A morte interrompeu um extraordinário processo de reelaboração, de reformulação, de reinvenção do materialismo histórico e da teoria da revolução” (LÖWY, 2018).
Jean Tible (2020) propõe um Marx selvagem a partir dos escritos do “último Marx”. Para ele, o filósofo, ao final da vida, volta-se “às sociedades sem classes em busca de inspiração para futuras organizações” (TIBLE, 2020, p. 104). Assim, os cadernos representariam uma virada do pensamento marxiano em direção a outros povos, uma “mudança em que o autor passa a valorizar por si mesmas as experiências e formas de resistência que ocorrem fora dos países da Europa Ocidental” (TIBLE, 2020, p. 93). Para ele, essas sociedades serviriam de “modelo” para o comunismo, de modo que elas servem de inspiração como contraposição, apesar do avanço das forças produtivas, à desigualdade que acompanha evolução da técnica: “na visão de Marx – e de vários marxistas – haveria um elo entre comunismo primitivo e comunismo moderno que resolveria essa contradição, unindo o pré e o pós-capitalismo” (TIBLE, 2020, p. 99), isto é, “um elo entre passado e futuro, tradição e porvir” (TIBLE, 2020, p. 104). Nesse sentido, nos extratos do “último Marx” e n’A origem da família… “a conclusão de Morgan é retomada por Marx e Engels assim como as formas sociais igualitárias e sem classes constituem inspiração para futuras organizações” (TIBLE, 2020, p. 104), já presente em outros de seus textos, mas intensificado na obra de ambos na década de 1880.
A biografia de Musto mostra um olhar distinto sobre o “último Marx”. Para ele, o autor d’O capital manteve-se a par da história e dos acontecimentos de países de fora do velho continente não apenas ao final de sua vida, mas ao longo de toda ela – evidentemente, a partir dos limites do material disponível em sua época. Além disso, entende que Marx “nunca desejou um retorno ao passado, mas sim, como anotou nos extratos sobre Morgan, o advento de um ‘tipo superior de sociedade, baseado em uma nova forma de produção e um modo diferente de consumo” (MUSTO, 2023, p. 248). Nesse sentido, Marx nunca teve como “solução” uma “reedição socialista do ‘mito do bom selvagem’” (MUSTO, 2018, p. 37), mas a construção de um novo tipo de sociedade, que, além disso, “não surgiria por meio de uma evolução mecânica da história, mas somente por meio da luta consciente dos trabalhadores” (MUSTO, 2023, p. 248).
Entendemos que “Marx não estava revisando e reformulando todo seu arcabouço teórico anterior, mas, na verdade, colhendo seus resultados” (ANDRADE, 2025, p. 36), e ao olhar para seu percurso teórico, isso se confirma. Igualmente, o filósofo não trata de comunidades sem estado buscando um modelo de inspiração para a sociedade comunista – não se trata de olhar para o passado, até mesmo porque várias dessas sociedades foram contemporâneas a ele, e existem ainda no presente. Não há uma “receita de bolo” para a revolução ou para o comunismo, como tentaram os chamados “socialistas utópicos”, pois projetar um modelo na realidade é impossível. Para Marx (2012): “Cada passo do movimento real é mais importante do que uma dúzia de programas” (p. 17) – trata-se de partir do real, do existente.
Ademais, Marx não parte das conclusões de Morgan, mas critica o romantismo mistificador com do estadunidense diante das sociedades ditas “primitivas”. Entendemos que se “Morgan transporta princípios burgueses até as comunidades que analisa, como fraternidade, igualdade e democracia”, Marx, por outro lado, opõe a ele sua própria visão acerca da história, criticando a transposição anacrônica de ideais burgueses até sociedades distintas, e “a todo momento remontando às relações reais e concretas” (ANDRADE, 2025, p. 202).
De um modo geral, nota-se como o estudo da relação entre a vida e obra de Marx é essencial para entendermos seu pensamento em torno de sua gênese, estrutura e função. Ante a tais “novos rostos de Marx”, percebe-se como ele foi um pensador muito à frente de seu tempo – e, em certo sentido, também muito à frente de nosso, tendo muitas contribuições pouco exploradas, seja em razão de materiais ainda não publicados ou de perseguições políticas e deturpações posteriores feitas com seu arcabouço teórico. Apresenta-se um teórico muito interessado em se manter atualizado sobre as pesquisas mais avançadas de sua época sobre as mais variadas sociedades. Longe de se circunscrever às noções tradicionais de um economista, um cientista político, sociólogo, historiador etc., ou até um “filósofo” em sentido estrito, Marx era um pensador que não se limitou diante da divisão parcelar do conhecimento.
Como Musto ressalta, ao longo de toda sua trajetória intelectual, Marx
foi, ainda que apátrida, um verdadeiro “cidadão do mundo”:
O mundo inteiro, portanto, estava contido em seu escritório. Mesmo permanecendo sentado à escrivaninha, por meio de seu estudo das transformações sociais nos Estados Unidos, das esperanças nutridas pelo fim da opressão colonial na índia, do apoio à causa feniana, da análise da crise econômica na Inglaterra e da atenção dedicada às eleições na França, Marx observava constantemente os sinais dos conflitos sociais que se desenvolviam em todas as latitudes do globo terrestre. Onde quer que emergisse, ele tentava acompanhá-los.
Não é sem razão, é verdade, costumava dizer de si mesmo: “Sou um cidadão do mundo, e ajo onde me encontro”. Seus últimos anos de vida não desmentiram esse modo de ser. (MUSTO, 2018, p. 57)
Nesse sentido, se, por um lado, reconhecer e humanizar a trajetória de Marx contribui para tirá-lo de um “pedestal” muito comumente atribuído aos grandes pensadores, por outro, fortalece também uma visão contrária a certas tendências que o postulam como antiquado ou preso às determinações de seu próprio tempo. A obra de Musto é muito frutífera para a formação de uma visão realista sobre essa personalidade tão controversa, e vem em um momento em que essa tarefa é da mais suma importância. A partir dessa biografia, é evidente como boa parte da leiga crítica ao autor d’O capital é insustentável, pois ao contrário da imagem muito disseminada por movimentos anticomunistas – mas também por uma parcela de marxistas –, Marx não é um pensador etapista, evolucionista ou eurocentrista, e nunca considerou “apenas” a luta entre burgueses e operários, ou “apenas” a Europa ou a Inglaterra.
[1] Expressão utilizada em referência ao curso ministrado por Marcello Musto, autor de Karl Marx: biografia intelectual e política (1857-1883), na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) entre os dias 13/11 e 4/12/2024.
[2] Mais informações sobre o autor podem ser conferidas em: <https://marcellomusto.org/>. Acesso em: 2 set. de 2025
[3] Sobre os debates em torno do “último Marx” nas últimas décadas, cita-se o trabalho do próprio Musto (2018), de Heather Brown (2012), Kevin Anderson (2019, 2025), e Jean Tible (2020), além de autores menores como Lucas Álvares (2019), Gustavo Velloso (2018), e o nosso trabalho, Andrade (2025).
[4]. Os textos selecionados pelo etnólogo estadunidense Lawrence Krader são uma pequena parcela de todos os excertos marxianos de 1879-83, notadamente excertos de Marx referentes a quatro obras distintas: A sociedade antiga ou investigações sobre as linhas do progresso humano desde a selvageria, através da barbárie, até a civilização [Ancient society or researches in the lines of human progress from Savagery, through Barbarism to Civilization] (1877) de Lewis Henry Morgan; A aldeia ariana na Índia e no Ceilão [The Aryan village in India and Ceylon], de John Budd Phear (1880); A origem da civilização e a condição primitiva do homem: condição mental e social dos selvagens [The origin of civilisation and the primitive condition of man: mental and social condition of savages] (1870) de John Lubbock (Lord Avebury); e Preleções sobre o início da história das instituições [Lectures on the early history of institutions] (1875), de Henry Sumner Maine. Tais excertos mesclam parcialmente os cadernos de Marx nomeados B 146 e B 160, os quais hoje podemos ter acesso na versão digital da Mega2. O título do texto dado por Krader, Cadernos etnológicos, é, no mínimo, parcial. Musto (2023) prefere chamar a totalidade desses excertos de Cadernos antropológicos, nome utilizado também em uma versão italiana, Quaderni antropologici (2009), em que estão as notas sobre Morgan e sobre Maine. Para entender melhor o debate em torno da edição de Krader e do vínculo de Marx a essas áreas do conhecimento, cf. Andrade (2025).
[5] “Aqui é Rodes, salta aqui mesmo!”, provérbio latino baseado na fábula O fanfarrão, de Esopo. A expressão é utilizada por Marx em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (1852) (cf. MARX, 2011, p. 30) e por Hegel no “Prefácio” de sua Filosofia do direito.
[6] Opondo-se ao falseamento do tríplice amálgama originário do pensamento marxiano, que enfraquece e diminui sua radicalidade e originalidade, tomando-o por uma mera justaposição de pensamentos anteriores, J. Chasin (2009) define a formação do pensamento marxiano a partir de três grandes críticas ontológicas: a crítica à politicidade (p. 66), inaugurada com o texto Sobre a questão judaica (1843), no qual a política deixa de ter um caráter ontopositivo, isto é, perde sua dimensão resolutiva diante dos problemas sociais; a crítica à especulação (cf. CHASIN, 2009, p. 72), marcada pela Crítica da filosofia do direito de Hegel (1843), em que Marx é capaz de se contrapor à “coisificação da lógica” do sistema hegeliano; e a crítica à economia política (cf. CHASIN, 2009, p. 74), inaugurada pelos Manuscritos econômico-filosóficos (1844), que marcam um pensamento propriamente marxiano na medida em que ela ultrapassa e engloba suas críticas anteriores, pois na “busca da anatomia da sociedade civil […] as categorias da economia política são ontocriticamente elevadas à esfera filosófica, onde esplendem como malha categorial da produção e reprodução da vida humana” (CHASIN, 2009, p. 75).
[7] Hoje há um debate em torno da suposta unidade dos manuscritos que compõem A ideologia alemã. Para entender mais, cf. Hubmann; Pagel (2022).
[8] Em uma carta a Ferdinand Lassalle, de 21 de dezembro de 1857, Marx explica que “a presente crise comercial me estimulou a dedicar-me seriamente à formulação dos traços fundamentais da Economia política e, ao mesmo tempo, preparar alguma coisa sobre a atual crise” (MARX in ENGELS; MARX, 2020, p. 113)
[9] Acerca da teoria das abstrações, cf. Assunção (2018).
[10] Para entender melhor o problema da gênese do capitalismo e as críticas marxianas às “robinsonadas” da Economia Política, cf. Heleno (2024).
[11] Como explica Maurício Vieira Martins (2024), a relevância da obra de Darwin no pensamento filosófico se associa à derrubada definitiva da teoria criacionista: “Foi apenas em 1859, com a publicação darwiniana de A origem das espécies – e, mais ainda, em 1871, com A descendência do homem – que o milenar criacionismo teve sua ontologia religiosa consistentemente demolida em bases científicas.” (MARTINS, 2024, p. 30).
[12] Para entender melhor os embates teóricos e práticos entre Marx e Lassalle, cf. Machado (2022).
[13] Cita-se o Discurso da Associação Internacional dos Trabalhadores ao presidente Johnson (1865) e o Discurso ao Sindicato Nacional dos Trabalhadores dos Estados Unidos da América (1869), dentre outros (cf. MUSTO, 2023, p. 80).
[14] A tradução em português desses artigos com outros textos da mesma temática pode ser conferida em Escritos sobre a guerra civil americana (cf. ENGELS, MARX, 2020).
[15] Leonardo Gomes de Deus, Bovick Wandja Yemba e Lucien André Regnault Marques (2018) apontam que esse é um dos grandes debates da contemporaneidade, analisando suas principais vertentes.
[16] Para Michael Heinrich (2013), “as mudanças mais importantes ocorreram enquanto Marx trabalhava no terceiro rascunho (1871-81). Presumivelmente, Marx estava atormentado por dúvidas consideráveis sobre a lei da taxa de lucro. Já no Manuscrito de 1863-5, Marx não estava completamente convencido com sua explicação, como fica claro pelas repetidas tentativas de formular uma justificativa. Essas dúvidas provavelmente se amplificaram ao longo da década de 1870. Em 1875, surge um manuscrito abrangente que foi publicado pela primeira vez sob o título “Tratamento matemático da taxa de mais- valia e da taxa de lucro”. Aqui, sob várias condições de contorno e com muitos exemplos numéricos, Marx tenta compreender matematicamente a relação entre a taxa de mais-valia e a taxa de lucro. A intenção é demonstrar as “leis” do “movimento da taxa de lucro”, através do qual rapidamente se torna evidente que, em princípio, todos os tipos de movimento são possíveis. Várias vezes, Marx observa as possibilidades de aumento da taxa de lucro, embora a composição do valor do capital estivesse aumentando. No caso de uma composição renovada do Livro III, todas essas considerações teriam que ser incluídas em uma revisão do capítulo sobre a “lei da queda tendencial da taxa de lucro”. Uma consideração consistente sobre elas deveria ter levado ao abandono da “lei”. Marx também sugere isso em uma nota manuscrita que fez em sua cópia da segunda edição do Volume I, que não se encaixa mais na queda tendencial e que Engels incorporou como nota de rodapé na terceira e quarta edições (numa tradução livre): “Nota aqui para trabalhar mais tarde: se a extensão for apenas quantitativa, então, para um capital maior e um menor no mesmo ramo de atividade, os lucros são proporcionais às magnitudes dos capitais avançados. Se a extensão quantitativa induzir uma mudança qualitativa, então a taxa de lucro sobre o capital maior aumenta ao mesmo tempo.”
[17] A discussão acerca da lei da queda tendencial da taxa de lucro acompanha a história de recepção d’O capital. Leonardo Costa Ribeiro, Leonardo Gomes de Deus, Pedro Mendes Loureiro e Eduardo da Motta Albuquerque (2017) fazem um mapeamento de alguns dos debates envolvendo a lei da queda tendencial da taxa de lucro tanto nos textos do Marx quanto a partir de suas repercussões na tradição marxista. Ainda que a elaboração marxiana seja de fato autêntica, um debate sobre a tendência da queda da taxa de lucro (e suas contratendências) remonta à economia política clássica, estando presente em autores como Smith, Ricardo e Mill. Já as críticas à lei como elaborada por Marx remontam, dentre outros, a Paul Sweezy (1942), Nobuo Okishio (1961), e, mais recentemente, a uma nova tendência encabeçada por Heinrich, que nasceu do trabalho filológico da Mega2, que inaugurou novas perspectivas sobre o Livro III d’O capital. Boa parte do argumento dessa tendência, como vimos, gira em torno de Marx não mais ter abordado a lei da queda tendencial da taxa de lucro após seus manuscritos de 1863-5. Contudo, Ribeiro et al. (2017) trazem o manuscrito de Marx de 1875, Taxa de mais valor e de taxa de lucro consideradas matematicamente, no qual remete-se à lei em questão, leia- se: “Ao considerar a taxa de lucro – distinta da taxa de mais-valor –, partimos de um determinado capital, com uma determinada composição e uma determinada taxa de valorização. Em seguida, deixamos que ele passe por uma série de mudanças possíveis que produzem alterações na taxa de lucro, que é, em última análise, uma função de diferentes variáveis, e encontramos as leis que determinam o aumento, a queda ou a constância da taxa de lucro, em uma palavra, as leis de seu movimento. As leis descobertas dessa maneira são válidas para o capital social, considerado como um único capital, portanto, para a taxa de lucro considerada como uma proporção entre o capital social em funcionamento e o mais-valor por ele produzido (MEGA II.14, p. 128)” (MARX apud RIBEIRO et al., 2017, pp. 5-6 – tradução livre). Assim, para os autores, Marx não abandonou sua perspectiva anterior sobre a lei da queda tendencial da taxa de lucro e suas contratendências, o que, ademais, também implicaria mudanças com relação a outros temas também tratados em seu Livro I. Para eles: “Em outras palavras, no final de sua trajetória, Marx não abandonou sua perspectiva, pois isso implicaria abandonar também a perspectiva do Volume I. As leis que regem a taxa de lucro são outra maneira de abordar as leis descritas no processo de acumulação no volume I. Se descrevermos as leis da composição do capital, da concorrência e do mais-valor, encontraremos a lei da queda tendencial da taxa de lucro. No entanto, como ‘leis do movimento’, elas não são inevitáveis, nunca fazem parte de uma teoria do colapso do capitalismo. A lei descreve um processo da sociedade capitalista que, como Marx sabia, é contraditório e, portanto, deve incluir as contratendências como elemento-chave.” (RIBEIRO et al., 2017, p. 6 – tradução livre).
[18] Essa concepção do papel da política em Marx foi posteriormente denominada pelo filósofo brasileiro José Chasin de concepção ontonegativa da politicidade. Essa concepção é identificada como uma noção fundante do pensamento marxiano a partir de 1843, notadamente em Sobre a questão judaica, momento no qual Marx “vai da sustentação ardorosa do estado universal, racionalmente posto, à negação radical de sua possibilidade, e não por mero recurso a algum volteio cético, mas pela emergência de um complexo determinativo que se afirma como reprodução ideal do efetivamente real, ou seja, pela via da crítica ontológica à mais elevada expressão, à época, da reflexão política” (CHASIN, 2013, p. 46). O reconhecimento da incapacidade da politicidade de resolver a miséria social, isto é, de seu caráter essencialmente negativo, não é um abandono da esfera da política ou mesmo da luta por direitos, mas o reconhecimento de que a verdadeira emancipação humana não é a emancipação política, mas a emancipação do homem da política com a dissolução da sociedade civil-burguesa (cf. MARX, 2010). Assim, resumidamente, o fim último da política não deve ser ela própria, isto é, por exemplo, a ocupação de um cargo eleitoral, mas remeter para além de si mesma, para a emancipação humana.
[19] Observa-se que Marx já havia escrito, entre 1848 e 1850, artigos sobre Luís Bonaparte e a situação francesa, publicados na Nova Gazeta Renana. Esses textos foram republicados por Engels, em 1895, em um compilado intitulado As lutas de classes na França de 1848 a 1850. Além disso, em 1852, Marx publicou na revista Die Revolution o ensaio O 18 de Brumário de Luís Bonaparte.
[20] Nota-se que é anacrônico transpor, aqui, a definição de partido no sentido de partido político atual, sendo mais associada à organização geral da classe. Musto ressalta: “Convém sublinhar que, nessa época, a noção de partido político tinha um significado muito mais amplo do que aquele que se consolidou no século XX, e que a concepção de Marx era radicalmente diferente tanto da blanquista, com a qual acabou por entrar em conflito, como da leninista, mais tarde implantada em muitas organizações comunistas após a revolução de outubro.” (2023, pp. 174-5).
[21] Notadamente, notas sobre Egyptianf finance (1882), de Michael George Mulhall; e Spoiling the Egyptians, de Sheldon Amos (1882).
[22] Para entender mais sobre os textos do “último Marx” sobre a Rússia, cf. Souza (2025).
[23] Para entender as críticas à concepção de que Marx seria um “etapista histórico”, cf. Heleno (2019).
[24] É válido pontuar que exemplo dado por nós não pode ser considerado um problema de distribuição de alimentos, como trata boa parte do socialismo vulgar, na medida em que não é possível dissociar a distribuição do modo de produção. Nas palavras de Marx: “A distribuição dos meios de consumo é, em cada época, apenas a consequência da distribuição das próprias condições de produção; contudo, esta última é uma característica do próprio modo de produção. […] O socialismo vulgar (e a partir dele, por sua vez, uma parte da democracia) herdou da economia burguesa o procedimento de considerar e tratar a distribuição como algo independente do modo de produção e, por conseguinte, de expor o socialismo como uma doutrina que gira principalmente em torno da distribuição.” (MARX, 2012, p. 25)
[25] O que pretendo nesta obra investigar é o modo de produção capitalista e suas correspondentes relações de produção e de circulação. Sua localização clássica é, até o momento, a Inglaterra. Essa é a razão pela qual ela serve de ilustração principal à minha exposição teórica, mas, se o leitor alemão encolher farisaicamente os ombros ante a situação dos trabalhadores industriais ou agrícolas ingleses, ou se for tomado por uma tranquilidade otimista, convencido de que na Alemanha as coisas estão longe de ser tão ruins, então terei de gritar-lhe: De te fabula narratur [A fábula refere-se a ti]! (MARX, 2017, p. 78).
[26] “[…] a emancipação humana só estará plenamente realizada quando o homem individual real tiver recuperado para si o cidadão abstrato e se tornado ente genérico na qualidade de homem individual na sua vida empírica, no seu trabalho individual, nas suas relações individuais, quando o homem tiver reconhecido e organizado suas ‘forces propres’ [forças próprias] como forças sociais e, em consequência, não mais separar de si mesmo a força social na forma da força política.” (MARX, 2010, p. 54).
Referências bibliográficas
ALMEIDA, Matheus; ÁLVARES, Lucas Parreira. O desafio de Marx à razão antropológica. Máquina Crísica entrevista Lucas Parreira Álvares e Matheus Almeida. Máquina Crísica, ago. 2019. Disponível em: <https://maquinacrisica.org/2019/08/14/o- desafio-de-marx-a-razao-antropologica-maquina-crisica-entrevista-lucas-parreira- alvares-e-matheus-almeida/>. Acesso em 17 maio 2024.
ÁLVARES, Lucas Parreira. Flechas e martelos: Marx e Engels como leitores de Lewis Morgan. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Direito e Ciências do Estado da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2019.
ANDERSON, Kevin. Marx nas margens: nacionalismo, etnia e sociedades não ocidentais. São Paulo, Boitempo, 2019.
ANDERSON, Kevin. The late Marx’s revolutionary roads: colonialism, gender, and indigenous communism. London/New York: Verso, 2025.
ANDRADE, Ana Carolina Marra de. Relações de parentesco em sociedades sem estado: as críticas de Marx a Morgan e a Maine. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Direito e Ciências do Estado da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2025.
ASSUNÇÃO, Vânia Noeli. A teoria das abstrações de Marx: o método científico exato para o estudo do ser social. Verinotio – Revista on-line de Filosofia e Ciências Humanas, n. 18, 2014.
BROWN, Heather. Marx on gender and the family: a critical study. Chicago, IL: Haymarket Books, 2012.
CHASIN, J. Marx: estatuto ontológico e resolução metodológica. São Paulo: Boitempo, 2009.
CHASIN, J. Marx – a determinação ontonegativa da politicidade. Verinotio – Revista on-line de Filosofia e Ciências Humanas, n. 15, Ano VIII, abr. 2013.
ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845-1846). São Paulo: Boitempo, 2007.
ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. Miséria da filosofia: resposta à Filosofia da miséria do Sr. Proudhon. São Paulo: Boitempo, 2017.
ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. Cartas sobre O capital. São Paulo: Expressão Popular, 2020.
ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. Escritos sobre a Guerra Civil Americana: artigos do New York Daily Tribune, Die Presse e outros (1861-1865). Londrina / São Paulo: Aetia Editorial/Peleja, 2020.
HELENO, Matheus Correa de Souza. Era Karl Marx um etapista histórico? Práxis Comunal, v. 2, n. 1, p. 1-15, jan./jun. 2019.
HELENO, Matheus Correa de Souza. Lineamentos sobre o problema da gênese do capitalismo na “Introdução” de 1857 de K. Marx. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) – Faculdade de Direito e Ciências do Estado da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2024.
HEINRICH, Michael. Crisis theory, the law of the tendency of the profit rate to fall,
and Marx’s studies in the 1870s. New York: Monthly Review, 2013. Disponível em:
<https://monthlyreview.org/2013/04/01/crisis-theory-the-law-of-the-tendency-of- the-profit-rate-to-fall-and-marxs-studies-in-the-1870s/>. Acesso em: 12 ago. 2025.
HUBMANN, Gerald; PAGEL, Ulrich. A “Ideologia alemã” não é um livro: Conversa sobre a nova edição dos manuscritos da Ideologia alemã. Entrevista feita por Olavo Ximenes. Dissonância: Revista de Teoria Crítica, v. 6, pp. 28-56, Campinas, 2022. LÖWY, Michael. A descoberta do último Marx. Blog da Boitempo, 30 mai. 2018. Disponível em: <https://blogdaboitempo.com.br/2018/05/30/michael-lowy-a-
descoberta-do-ultimo-marx/>. Acesso em: 29 jun. 2025.
LÖWY, Michael. “Apresentação”. In: TIBLE, Jean. Marx selvagem. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.
MACHADO, Gabriel Müller de Jesus P. Ferdinand Lassalle e a crítica marxiana ao direito como crítica ao idealismo. Brazilian Journal of Development, v. 8, n. 8, August, 2022.
MARX, Karl. Sobre a questão judaica. São Paulo: Boitempo, 2010.
MARX, Karl. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011. MARX, Karl. As lutas de classes na França. São Paulo: Boitempo, 2011.
MARX, Karl. Crítica do Programa de Gotha. São Paulo: Boitempo, 2012.
MARX, Karl. “Crítica da filosofia do direito de Hegel – Introdução”. In: MARX, Karl.
Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2013.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2017.
MARX, Karl. Heft 1880 bis 1881. Mega Digital, 2025. Disponível em:
<https://megadigital.bbaw.de/exzerpte/detail.xql?id=M5176449>. Acesso em: 14 abr. 2025.
MARTINS, Maurício Vieira. Os 180 anos dos Manuscritos de 1844 de Marx: materialismo, subjetividade e o debate com Hegel. Verinotio – Revista on-line de Filosofia e Ciências Humanas, v. 29.2, pp. 24-67, jul.-dez., 2024.
MUSTO, Marcello. Karl Marx: biografia intelectual e política (1857-1883). São Paulo: Expressão Popular, 2023.
MUSTO, Marcello. O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1883).
São Paulo: Boitempo, 2018.
RIBEIRO, Leonardo Costa; DEUS, Leonardo Gomes de; LOUREIRO, Pedro Mendes; ALBUQUERQUE, Eduardo da Motta. Profits and fractal properties: notes on Marx, countertendencies and simulation models. Review of Political Economy, 2017. Disponível em:
<https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/09538259.2016.1265823>. Acesso em: 20 set. 2025.
SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
SOUZA, Gabriella M. Segantini. O mir e o mundo: Marx em diálogo com o movimento revolucionário russo no século XIX. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Direito e Ciências do Estado da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2025.
TIBLE, Jean. Marx selvagem. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.
VELLOSO, Gustavo. Anti-Lubbock: as “negações” do velho Mouro contra o Barão de
Avebury. Práxis Comunal, v. 1, n. 1, pp. 72-86, jan./dez., 2018.