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O essencial de Marx e Engels
O Pensamento Vivo do Velho Marx
Entrevista de Romaric Godin e Juarez Guimarâes com Marcello Musto, autor de “Os últimos anos de Karl Marx” (Les Dernières Années de Karl Marx: une biographie intellectuelle 1881-1883), uma biografia intelectual do velho Marx, entre 1881 e 1883, que permite redescobrir um pensador em constante movimento, mais aberto à diversidade do mundo do que se poderia imaginar.
Professor de sociologia na York University, em Toronto, no Canadá, Marcello Musto é um dos pesquisadores mais importantes nos estudos contemporáneos sobre Marx. Este italiano de 47 anos tem se dedicado há anos à pesquisa sobre os últimos anos do pensador de Tréveris, com um estudo sistemático e aprofundado dos escritos publicados na ediçâo completa em alemao que ainda está em andamento, a famosa “MEGA” (Marx-Engels Gesamtausgabe, obras completas de Marx e Engels publicadas em Berlim).
A MEGA publicou os textos de cadernos e esboços escritos entre 1875 e 1883, primeiro em 1985 e mais tarde em 1999, bem como diversos textos de leituras sobre várias ciências naturais, como biologia, mineralogia e agronomia, em 2011. No entanto, esses textos foram amplamente ignorados pelos pesquisadores marxistas.
Para Marcello Musto, esses escritos revelam um Marx em constante atividade intelectual, que corrige, modifica, esclarece e desenvolve suas ideias à luz de novos conceitos, novos interesses e da evoluçao da historia. Essa realidade permite retratar um Marx finalmente mais histórico do que o que conhecíamos — ou seja, mais marxista —, mas também um Marx mais aberto e complexo do que a imagem difundida pela narrativa oficial construida anos após sua morte.
Em um livro publicado pela primeira vez em inglés em 2020 (traduzido sob o título “O velho Marx. Uma biografía de seus últimos anos (1881-1883)” pela Boitempo Editora, 2018), Marcello Musto narra os dois últimos anos da vida do pensador. Uma vida dividida entre dramas familiares, saúde frágil, viagens e estudos intensos que o levaram a preencher dezenas de páginas de cadernos.
O Marx descrito aqui está longe da imagem que o Ocidente herdou ao longo da historia do movimento comunista. Ele é um homem em constante ebuliçao intelectual, que reflete sobre a contribuiçâo das culturas extraeuropeias, o surgimento do poder americano e as questóes ecológicas, entre outras.
Marcello Musto escreveu uma biografia intelectual mais ampla de Marx (Karl Marx: Biografía intelectual e política (1857-1883), Expressao Popular, 2023), e uma introduçao aos textos da Primeira Internacional (Trabalhadores Uni-vos! Antologia Política da I Internacional, Boitempo Editorial/ Editora Fundaçâo Perseu Abramo, 2014). Em 2023, foi editado no Brasil o livro organizado por ele, “O Renascimento de Marx. Principais conceitos e novas interpretaçôes (pela Editora Autonomia Literária), que reúne ensaios de 22 dos mais importantes marxistas contemporáneos que relêm e atualizam as contribuées de Marx para pensar o século XXI. E, no ano passado, organizou os très volumes de “O essencial de Marx e Engels” (Editora Boitempo), os quais contêm ensaios de intelectuais brasileiros, além de uma ampla antologia, com muitos textos inéditos em portugués. Seu trabalho abriu caminho para outras reflexóes, como as do japonés Kohei Saito, e constitui um dos eixos da atual redescoberta de Marx.
Entrevistador: Durante décadas, o debate no pensamento marxista se concentrou no “jovem Marx”, e os últimos anos de Karl Marx foram amplamente esquecidos, mesmo após a publicagao dos novos volumes da MEGA. Como vocé explica isso?
Marcello Musto: Durante muito tempo, muitos pesquisadores destacaram os escritos do chamado “jovem Marx”. Como a Segunda Guerra Mundial gerou um profundo sentimento de angùstia resultante das atrocidades do nazismo e do fascismo, o tema da condigao do individuo na sociedade ganhou grande importància, e o interesse filosófico por Marx comegou a crescer em toda a Europa. Esse fenomeno foi particularmente forte na Franga, onde o estudo dos primeiros escritos de Marx (especialmente os Manuscritos Económico-Filosóficos de 1844 e A Ideología Alema) foi amplamente difundido. Henri Lefebvre afirmou que essa assimilagao foi “o acontecimento filosófico decisivo da época”. Nesse processo bastante diverso, que se estendeu até a década de 1960, muitos autores de diferentes origens culturais e políticas tentaram construir uma síntese filosófica entre marxismo, hegelianismo, existencialismo e pensamento cristao.
Esse debate resultou, em alguns casos, em escritos de baixa qualidade, que distorceram os textos de Marx para alinhá-los as convicgoes políticas dos envolvidos. Raymond Aron ridicularizou justamente a fascinagao de alguns autores pela obscuridade, pelo caráter inacabado e, as vezes, contraditório desses primeiros escritos. Esses textos contém muitas ideias que seriam posteriormente aprimoradas ou até mesmo superadas na obra posterior de Marx. No entanto, é sobretudo em O Capital e em seus rascunhos preliminares, bem como em suas pesquisas dos últimos anos, que estao algumas das reflexoes mais relevantes para a crítica do modo de produgao capitalista nos dias de hoje.
Por muito tempo, foi ignorada a existencia de manuscritos que reuniam as pesquisas dos últimos anos de vida de Marx, especialmente aquelas realizadas no início da década de 1880, e isso impediu o reconhecimento dos importantes avangos que ele fez nesse período. É por isso que todos os seus biógrafos dedicaram tao poucas páginas a sua atividade após o fracasso da Primeira Internacional (a Associagao Internacional dos Trabalhadores – AIT) em 1872. Pensaram, erroneamente, que Marx havia abandonado a ideia de completar sua obra e nao examinaram os arquivos para verificar o que ele realmente fez nesse período (embora a existencia desses textos fosse evidente por meio de sua correspondencia).
Além disso, a maioria desses materiais é difícil de compreender. Sao principalmente esbogos de ideias incluídos em cadernos que Marx preencheu com trechos de livros que estava lendo e com reflexoes inspiradas por essas leituras.
Mas se há algumas justificativas para essas escolhas no passado, os novos materiais disponíveis na MEGA hoje, e o crescente volume de literatura secundária sobre o “Marx tardio” desde a década de 197o, deveriam ter revertido essa tendencia. No entanto, a extensa biografia de Gareth Stedman Jones, Karl Marx: Greatness and Illusion (Penguin, 2016), que examina todo o período de 1872-1883 como um breve epílogo, dedicando tres capítulos e 150 páginas ao período de 1845-49, é apenas um exemplo de pesquisa inadequada. Sem falar no deplorável livro de Jonathan Sperber, Karl Marx: Uma vida do Sáculo XIX (traduzido para o portugués pela Amarilys Editora em 2014), que simplesmente ignora os últimos textos de Marx.
Entrevistador: Com que objetivo vocé realizou essa pesquisa sobre o fim da vida de Marx?
Marcello Musto: Uma das principais razoes para minha pesquisa é me opor as más interpretagoes de Marx, como um autor eurocéntrico, economicista e que reduziria tudo as oposigoes de classes — interpretagoes que estao na moda hoje. Nao é preciso dizer que aqueles que defendem essa tese nunca leram Marx ou ainda estao apegados as interpretagoes mecanicistas que prevaleciam nos manuais marxistas-leninistas que leram na juventude.
Marx realizou extensas pesquisas sobre as sociedades nao europeias e sempre se manifestou inequivocamente contra os estragos do colonialismo. Essas consideragoes sao absolutamente evidentes para qualquer pessoa que tenha lido Marx, apesar do ceticismo de certos círculos académicos que o descrevem como um estrangeiro ao pensamento decolonial e o associam a um pensador liberal. Por exemplo, quando Marx escreveu sobre a dominagao británica na Índia (depois dos escritos jornalísticos da década de 1850, ele voltou ao tema em 1881), afirmou que os colonizadores ingleses só haviam sido capazes de “destruir a agricultura indígena e duplicar o número e a intensidade das fomes”.
Nos seus últimos anos, Marx acreditava que o desenvolvimento do capitalismo em todos os lugares nao era uma condigao para a revolugao: ela também poderia comegar fora da Europa. A “ductilidade” [capacidade de se adaptar sem quebrar – ed.] teórica de Marx é muito diferente das posigoes de alguns de seus discípulos e contribui para a nova onda de interesse por suas teorias, desde o Brasil até a Ásia.
Entrevistador: A impressaci que temos ao ler seus textos é a de um intenso trabalho intelectual durante esse período. Mas isso nao resultou nem na publicagao nem na redagao do segundo livro de O Capital. Como explicar essa incapacidade de Marx em finalizar sua obra?
Marcello Musto: A constante má saúde de Marx, somada às suas preocupagóes cotidianas, teve um papel significativo na sua incapacidade de finalizar parte da pesquisa realizada durante seus últimos anos. Mas também é importante destacar que seu rigoroso método e sua autocrítica implacável aumentaram as dificuldades para concluir muito do que havia empreendido.
Isso já ocorria quando ele era mais jovem, quando deixou muitos de seus manuscritos inacabados, e voltou a se repetir no final de sua vida. Sua paixao pelo conhecimento permaneceu intacta ao longo do tempo e sempre o levou a novos estudos. Por essa razao, no final da década de 1870, ele iniciou uma nova pesquisa sobre bancos e comércio e, até o inicio de 1881, escreveu novas versóes de diferentes partes do volume 2 de O Capital, especialmente com relagao a um estudo que havia feito considerando que as representagóes monetárias eram apenas uma simples cobertura do conteúdo real das relagóes monetárias.
Um exemplo semelhante sao os estudos que ele realizou sobre agronomia, geologia e propriedade da terra na Rùssia e nos Estados Unidos. Ele os realizou para reescrever completamente a segao sobre a renda da terra no volume 3 de O Capital, já que Marx nao estava satisfeito com o que havia escrito anteriormente. Finalmente, outras dificuldades acompanharam o trabalho de revisao do volume I, como demonstra o tempo que Marx levou para revisar a tradugao francesa de Joseph Roy, publicada entre 1872 e 1875.
Além de seus estudos específicos, um grande obstáculo para a conclusao de O Capital foi o fato de que Marx aprofundou seu conhecimento sobre o desenvolvimento económico da Rùssia e dos Estados Unidos. Isso exigiu um esforgo considerável, o que tornou seu objetivo ainda mais difícil de alcangar. A partir de 1878, Marx estudou os relatórios do Escritorio de Estatísticas de Ohio e, pouco depois, voltou sua atengao para a Pensilvània e Massachusetts. Ele planejava acompanhar as dinámicas do modo de produgao capitalista em uma escala mais global nos volumes de O Capital que ainda estavam por escrever. Se a Inglaterra foi o cenário principal do volume I, os Estados Unidos poderiam ter representado um novo campo de observagao que lhe permitiria ampliar seu trabalho.
Ele se concentrou em examinar mais de perto as formas como o modo de produgao capitalista se desenvolvia em diferentes contextos e períodos. Por exemplo, Marx estava particularmente interessado no desenvolvimento das sociedades por agoes e no impacto da construgao de ferrovias na economia. Segundo ele, as ferrovias haviam impulsionado a concentragao de capital de uma forma nunca antes imaginada, especialmente em países onde o capitalismo ainda estava subdesenvolvido.
O mesmo ocorreu com os empréstimos de capital, que se tornaram uma atividade cosmopolita, rapidamente envolvendo o mundo inteiro e criando uma rede de fraudes financeiras e dividas mútuas. Levou tempo para que Marx compreendesse esses fenómenos, e ele estava muito consciente da magnitude da tarefa que tinha pela frente. Ele nao apenas precisava revisar algumas partes de seus manuscritos e melhorar seu conteúdo, mas também enfrentava uma tarefa ainda mais urgente: resolver os problemas teóricos que permaneciam sem solugáo. Somente a energia que ele tinha na década de 1850, quando escreveu os Grundrisse (e os estudos relacionados às teorias da mais-valia), teria permitido que ele realizasse essa nova e gigantesca tarefa que ele pròprio havia se imposto.
Entrevistador: Uma das questoes centráis dos dois anos que voce descreve em seu livro é a da Rùssia e, de forma mais ampia, o vínculo entre capitalismo e socialismo. Com a famosa carta a Véra Zassoulich de 1881, Marx deixa de ser eurocèntrico? E, a partir de entao, Engels nao conseguiu compreender esse movimento dentro do pensamento de Marx?
Marcello Musto: A partir de 1870, após aprender a ler russo, Marx iniciou um estudo sério sobre as mudangas socioeconómicas que estavam ocorrendo na Rùssia. Foi assim que ele conheceu o trabalho de Nikolay Chernyshevsky, figura principal do “populismo” russo (na época, esse termo tinha uma conotagáo de esquerda e anticapitalista). Ao estudar essa obra, Marx descobriu ideias originais sobre a possibilidade de que, em algumas partes do mundo, o desenvolvimento económico pudesse ocorrer sem precisar necessariamente passar pelo modo de produgáo capitalista — e todas as suas terriveis consequencias para a classe trabalhadora na Europa Ocidental.
Chernyshevsky escreveu que nem todos os fenómenos sociais precisavam, necessariamente, seguir todas as etapas lógicas do desenvolvimento social na pràtica. Consequentemente, as características positivas da comuna rural russa (obchtchina) deveriam ser preservadas, mas só poderiam garantir o bem-estar das massas camponesas se fossem inseridas em um contexto produtivo diferente. A obchtchina só poderia contribuir para uma etapa inicial da emancipagáo social se se tornasse o embriáo de uma nova organizagáo social radicalmente diferente. Sem as descobertas científicas e as inovagóes tecnológicas associadas ao surgimento do capitalismo, a obchtchina nunca poderia se transformar em uma experiencia moderna de cooperagáo agricola, um elemento relevante para uma futura sociedade socialista.
Quando Vera Zassoulich perguntou a Marx, em 1881, se a obchtchina estava destinada a desaparecer ou se poderia se transformar em uma forma socialista de produgáo, Marx defendeu um ponto de vista critico sobre o processo de transigáo das formas comunais do passado para o capitalismo. Ele náo acreditava que o capitalismo fosse um passo necessàrio para a Rùssia. Marx náo acreditava que a obchtchina estivesse condenada a seguir o mesmo destino que as terras comunais do mesmo tipo na Europa Ocidental nos séculos anteriores, onde a transformagáo de uma sociedade baseada na propriedade comum para uma sociedade baseada na propriedade privada ocorreu de forma mais ou menos uniforme. Portanto, a acusagáo de eurocentrismo (um dos principais argumentos de quem hoje se opóe ao “retorno de Marx”) nao se sustenta. As interpretagóes unilaterais e superficiais de Marx, como as de Edward Said, foram desmontadas por pesquisas mais rigorosas realizadas nos últimos quinze anos.
Quanto a Engels, acredito que, no final de sua vida, ele se tornou excessivamente passivo na aceitagáo do curso da história (e caiu na ilusáo de sua suposta tendencia progressista). A dúvida de Marx foi substituida pela convicgáo de que, mesmo em um pais como a Rùssia, o capitalismo era um passo indispensável no desenvolvimento económico. É claro que a Rússia estava mudando muito e rapidamente. Afinal, foi também por isso que Marx foi muito cauteloso em sua resposta a Zassoulitch e decidiu publicar apenas uma pequeña parte dessa carta. Nao é preciso dizer que a Rùssia do inicio da década de 1880 nao pode ser comparada ao que ela se tornou na época de Lenin.
Entrevistador: Em seu último livro, o pesquisador japonés Kohei Saito, que também o cita, defende a ideia de um “corte epistemológico” na obra de Marx após a publicaçâo, em 1867, do volume I de O Capital. Um corte que mudaria completamente sua visâo do socialismo. Vocé concorda com essa ideia?
Marcello Musto: Nâo, eu discordó. Sempre fui cético em relaçâo às interpretaçôes à la Louis Althusser, nas quais os imaginários “cortes” dividiriam a obra de Marx em várias partes. Nâo existem dois ou très Marx, mas sim um único autor — muito rigoroso e autocrítico — que desenvolve constantemente suas ideias. A abertura teórica do “último” Marx, que o leva a considerar outros caminhos para o socialismo, nâo deve ser confundida com uma mudança drástica em relaçâo aos seus escritos anteriores.
No passado, autores como Haruki Wada, Enrique Dussel e outros defenderam uma leitura supostamente “terceiromundista” do último Marx, sugerindo até que, a partir de determinado momento, para ele, o sujeito revolucionário deixou de ser o trabalhador fabril para se tornar as massas camponesas e periféricas.
Marx certamente estava mais atento às especificidades históricas e às divergências no desenvolvimento económico e político em diferentes contextos nacionais e sociais, e é por isso que ele continua sendo muito útil para compreender o chamado “Sul Global”. No entanto, as ideias de Marx sempre estiveram em total oposiçâo às de pessoas como Alexander Herzen [1812-1870, outro pensador populista russo que defendia um socialismo baseado em pequenas comunas independentes formadas por individuos livres unidos pelo panslavismo — ed.], para citar apenas um exemplo. A possibilidade de uma revoluçâo na Rússia nâo poderia se inscrever no panslavismo, levando em conta tanto as formas necessárias de conquista do poder político quanto as condiçôes indispensáveis para o nascimento de uma sociedade pós- capitalista.
Entrevistador: Parece-nos fundamental esta sua recusa em relaçâo às teses da ruptura na evoluçâo do pensamento de Marx, aquela que opôe a obra dita científica de “O Capital” às suas obras de juventude ou ainda aquelas que ressaltam o humanismo nos primeiros trabalhos de Marx como se “O Capital” nâo revelasse também explícitamente uma crítica radical de inspiraçâo humanista à dinámica do capitalismo. Esta recusa lhe levaria a pensar em uma unidade de sentido na obra de Marx em meio a um processo continuo de elaboraçâo e aprofundamento de seus conceitos críticos do capitalismo?
Marcello Musto: Trata-se da velha polémica ligada ao bem-sucedido livro Pour Marx, de Louis Althusser, e ao conceito, por ele tomado do filósofo francés Gaston Bachelard, de rupture épistémologique (ruptura epistemológica). Mesmo após as numerosas críticas recebidas, Althusser permaneceu convicto da existència de “dois Marx”, o Marx jovem-filosófico e o Marx maduro-científico. No artigo Resposta a John Lewis, publicado em 1972 na revista inglesa Marxism Today, ele admitiu alguns erros contidos em Pour Marx, mas reafirmou a ideia de que a elaboraçâo teórica de Marx havia sido dividida por um ponto de separaçâo:
‘Se se considera o conjunto da obra de Marx, nao há dúvida de que existe uma “ruptura” ou um “corte” a partir de 1845. O pròprio Marx o diz. […] Toda a obra de Marx demonstra isso. […] A “ruptura epistemológica” é um ponto sem retorno. […] É verdade que ele utiliza o termo alienarlo em várias ocasioes. Mas tudo isso desaparece completamente nos últimos textos de Marx e em Lenin: completamente’.
Na realidade, a alienagáo constituiu, nao só nos Manuscritos económico-filosóficos de 1844, mas também em O Capital e em seus manuscritos preparatórios, um importante conceito teórico para descrever criticamente as características do trabalho e das relagoes sociais na realidade economico-produtiva capitalista. Além disso, ao contràrio do que afirmou Althusser, Marx nunca escreveu, nem insinuou, a presenga de qualquer “ruptura” dentro de sua obra. Muito menos é pensável estabelecer uma espécie de continuidade teórica e política entre o pensamento de Marx e o de Lenin, como avangado pelo filósofo francés, e usar como prova da suposta “ruptura epistemológica” de Marx a falta de tratamento do tema da alienagáo por Lenin.
O cerne da questáo náo é negar as enormes transformagóes ocorridas no pensamento de Marx (o mesmo pode ser dito para muitos outros autores) ao longo de sua maturagáo e após a chegada à economia política, mas, sim, ter teorizado a existéncia de uma cisáo rígida, como consequéncia da qual os Manuscritos económico-filosóficos de 1844 e os outros escritos anteriores a A Ideologia Alema foram considerados estranhos ao marxismo e náo parte integrante do seu desenvolvimento.
Entrevistador: Qual pode ser a importancia da descoberta dos últimos anos de Marx para o legado de seu pensamento nos dias de hoje? Por que, mesmo inacabado, ele ainda é um pensamento crucial para compreender nosso tempo?
Marcello Musto: Durante esse período, Marx aprofundou muitas outras questoes que, no passado, foram subestimadas ou até ignoradas pelos pesquisadores, mas que sao de importáncia crucial para a agenda política atual.
A importáncia que Marx atribuiu a questáo ecológica está no centro de alguns dos principais estudos dedicados á sua obra nas últimas duas décadas. Em diversas ocasioes, ele denunciou o fato de que a expansáo do modo de produgáo capitalista náo apenas intensificava a exploragáo da classe trabalhadora, mas também promovia o saque dos recursos naturais. Em O Capital, Marx observa que, quando o proletariado estabelecer um modo de produgáo comunista, a propriedade privada do planeta por indivíduos parecerá táo absurda quanto a propriedade privada de seres humanos por outros seres humanos.
Marx também se interessou muito pela questáo da migragáo e, entre suas últimas anotagoes, há escritos sobre o pogrom ocorrido em Sao Francisco em 1877 contra imigrantes chineses. Marx enfrentou os demagogos antichineses que afirmavam que os imigrantes “iriam matar de fome os proletários brancos” e se opós áqueles que tentavam impor posigoes xenófobas á classe trabalhadora. Pelo contrário, Marx demonstrou que o deslocamento forgado do trabalho, promovido pelo capitalismo, era um elemento essencial da exploragáo burguesa e que a chave para combaté-lo estava na solidariedade de classe entre os trabalhadores, independentemente de suas origens e sem distingáo entre trabalho local e “importado”.
Poderia continuar com muitos outros exemplos sobre a crítica ao nacionalismo, a liberdade individual na esfera económica e também a emancipagáo de género.
Marx ainda tem muito a nos ensinar, e a última fase de sua vida intelectual nos ajuda a compreender o quanto ele é indispensável para repensar uma alternativa ao capitalismo — algo que é ainda mais urgente hoje do que na sua época.
Entrevistador: Como interpretar este inacabamento de “O Capital”, no sentido da recusa tanto á sua leitura dogmática como a sua denegagao enquanto uma obra crítica de uma sociedade capitalista histórica, típica do século XIX, e que já ficou para trás? Quais seriam, na sua opiniao, em um sentido geral, as principais linhas de atualizagao desta obra que continua sendo certamente uma referencia fundamental da crítica ao capitalismo enquanto civilizagao?
Marcello Musto: O Capital tornou-se um projeto teórico tao grande que pode ser considerado quase impossível para um único ser humano. O espirito crítico com o qual Marx compós sua obra-prima revela o quao distante ele estava do autor dogmático que muitos de seus adversários e autoproclamados discípulos apresentaram ao mundo. Embora tenha permanecido inacabada, aqueles que hoje desejam utilizar conceitos teóricos essenciais para a crítica ao modo de produgao capitalista ainda nao podem prescindir da leitura de O Capital de Marx.
Entrevistador: Em um apéndice do seu livro O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1883) [Boitempo, 2018] está documentada a participaçâo decisiva de Marx na redaçâo do Programa da Federaçâo do Partido dos Trabalhadores Socialistas da França, junto a Paul Lafargue. Nele se defende que a classe trabalhadora devia lutar contra todo tipo de discriminaçâo, particular a racial e a de género, e dedicar-se a por fim à subordinaçâo das mulheres em relaçâo aos homens. Como esta crítica à dominaçâo patriarcal, em sua opiniâo, aparece na obra de Marx?
Marcello Musto: Nao é verdade, como se lê frequentemente, que Marx fosse indiferente a esse tema. Embora, em algumas ocasiòes – como, por exemplo, em relaçâo ao trabalho feminino nas fábricas – tenha manifestado uma visâo da sociedade pròpria das ideias de sua época, Marx e Engels aprenderam, desde jovens, com os livros dos primeiros socialistas franceses, em particular de Charles Fourier, que “o nivel de emancipaçâo geral de uma sociedade depende do nivel de emancipaçâo das mulheres”. A atençâo deles a essa questào pode ser observada em vários escritos, entre os quais se destacam os Manuscritos económico-filosóficos de Marx de 1844, A Ideologia Alemâ de Marx e Engels, Os Principios do Comunismo de Engels e O Manifesto Comunista de Marx e Engels.
No Programa Eleitoral dos Trabalhadores Socialistas, redigido em 1880 com Jules Guesde e Paul Lafargue, encontra-se claramente argumentado que a classe trabalhadora deveria lutar contra todo tipo de discriminaçâo e empenhar-se para por fim à subordinaçâo das mulheres em relaçâo aos homens: “a emancipaçâo da classe produtiva é a de todos os seres humanos, sem distinçâo de sexo e de raça”. Além disso, anunciava-se que o proletariado lutava pela “igualdade de salàrio para o mesmo trabalho entre trabalhadores de ambos os sexos”. Nâo obstante, foi Jenny von Westphalen quem, em uma carta a Wilhelm Liebknecht de 1872, representou a condiçâo feminina da época – e explicou como as diferenças de gènero pesavam também na batalha pelo socialismo – melhor do que o marido Marx e o amigo Engels: “A nós mulheres cabe a parte mais dura, porque a mais mesquinha. O homem se tempera na luta contra o mundo exterior, se tempera cara a cara com os inimigos, enquanto nòs – sejam os inim igos até uma legiâo – temos que ficar fechadas em casa a remendar meias. Isso nâo afasta as preocupaçôes e as pequenas misérias cotidianas consomem, lentamente, mas de maneira implacável, a força e a alegria de viver”.
Ruan de Sousa Gabriel, O Globo
Em 20 de outubro de 2008, no início da maior crise financeira desde a Grande Depressão, o jornal londrino The Times, insuspeito de esquerdismo, noticiou um espectro que se supunha exorcizado desde a queda do Muro de Berlim, em 1989, voltava a rondar o mundo: Karl Marx. “O Capital”, dizia a reportagem, “que na última década vinha sendo usado principalmente como peso de porta”, fora reabilitado por leitores que buscavam entender a raiz da crise. Quase duas décadas depois, os efeitos da debacle econômica ainda não passaram — e nem o interesse nas ideias do velho Marx. Tanto é que uma tradução do “Capital” produzida na Guerra Fria acaba de retornar às estantes do país.
No dia 5 de maio (aniversário de Marx), a editora Ubu relançou a célebre tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe, publicada em 1983 na coleção “Os economistas”, da Abril Cultural. Totalmente revisada, a nova edição inclui as modificações de Marx na tradução francesa, de 1875, até agora inéditas no Brasil. Ele incorporou observações críticas ao texto, acrescentou material histórico e estatístico, reposicionou parágrafos e capítulos inteiros, indicando que sua reflexão estava longe de encerrada. O primeiro volume do “Capital” foi publicado em 1867. O segundo e o terceiro foram editados por Friedrich Engels em 1885 e 1894, após a morte de seu parceiro intelectual.
Para José Paulo Netto, autor de “Karl Marx: uma biografia” (Boitempo) “O Capital” é, por excelência, “uma obra inconclusa”:
— “O capital” permanecerá inacabado enquanto seu objeto de análise, o modo de produção capitalista, não se esgotar historicamente. É isso que define um clássico, ele não cessar de provocar, de estimular — insiste o professor emérito da UFRJ.
E “O capital” é um clássico que não interessa apenas a quem sonha com a superação do capitalismo, diz Fernando Rugitsky, professor de economia da Universidade do Oeste da Inglaterra. Até o austríaco Joseph Schumpeter, crítico da intervenção estatal na economia, foi um grande leitor e intérprete do Marx.
— “O capital” contém tensões internas e ambiguidades que convidam a múltiplas leituras. É uma obra que buscou desvendar a dinâmica de uma sociedade que se organiza em torno da troca de mercadorias e que ganha atualidade à medida que a mercantilização avança sobre diferentes esferas da vida — afirma Rugitsky, que escreveu um texto introdutório à nova edição.
Fundadora da Boitempo, Ivana Jinkings relata que a procura pela “Coleção Marx-Engels” cresceu na pandemia. Ao todo, os 36 volumes da coleção já bateram quase meio milhão de cópias vendidas (incluindo e-books). Em dezembro, a editora publicou “O essencial de Marx e Engels”, seleção do “best of” da dupla (“Manifesto comunista”, “Teses sobre Feuerbach”, feita pelo sociólogo italiano Marcello Musto. Ainda este ano, a editora publica o primeiro volume de “Teorias do mais-valor”, obra considerada uma espécie de continuação do “Capital”.
— A Boitempo nasceu há 30 anos com a ideia de publicar clássicos nunca lançados no Brasil ou fora de catálogo. A tradução do “Manifesto comunista”, em 1998, deu início a uma mudança de rota. Notamos a enorme carência da obra de Marx e Engels nas livrarias. Hoje celebramos o crescente interesse nessa obra por parte do público e das editoras — afirma Jinkings. — Para nós, publicar Marx e Engels é também um projeto social e político.
De fato, nem sempre houve tanta fatura de marxismo nas livrarias. Nascido em 1947, em Juiz de Fora, José Paulo Netto recorda-se das antologias da editora Vitória, ligada ao Partido Comunista, que traziam traduções de segunda mão de textos de Marx e Engels. Quem se dispunha a desbravar “O capital” e não sabia alemão recorria a traduções francesas ou à do Fondo de Cultura Económica do México, assinada por Wenceslao Roces, intelectual exilado da Guerra Civil Espanhola.
A primeira tradução nacional do “Capital”, de Reginaldo Sant’Anna, foi publicada entre 1968 e 1974. Em 1983, saiu a de Flávio R. Kothe e Regis Barbosa, coordenada e revisada por Paul Singer, que fixou o vocabulário marxista brasileiro. De 2013 a 2017, a Boitempo lançou a tradução de Rubens Enderle, que inovou ao substituir “mais-valia” por “mais-valor”, expressão mais próxima do alemão “Mehrwert”.
— Mais-valia, na verdade, vem da tradução francesa “plus-value”. Discutimos se devíamos mudar para “mais-valor” e o Singer argumento que mais-valia já era um conceito estabelecido. Eu achava que devia ser “valor a mais”, uma solução mais próxima da lógica do português. — diz Kothe, que é professor aposentado de estética da UnB.
A tradução agora recuperada pela Ubu se beneficiou das discussões travadas nos míticos seminários do “Capital” organizados a partir de 1958 por jovens intelectuais da USP, como José Arthur Giannotti, Roberto Schwarz e Paul Singer. Em “Lugar periférico, ideias modernas”, o sociólogo Fabio Mascaro Querido analisa o impacto da recepção paulista da obra de Marx no pensamento crítico brasileiro.
Os seminários na USP, diz Querido, são um exemplo do que Max Weber, um dos pais da sociologia, chamou de “paradoxo das consequências”. Embora o grupo tenha optado por uma leitura “científica” do “Capital”, que não estivesse explicitamente comprometida com a intervenção no presente (como faziam intelectuais ligados ao Partido Comunista ou ao nacional-desenvolvimentismo), jovens sociólogos como FHC e Octavio Ianni incorporaram o marxismo às suas pesquisas sobre a sociedade brasileira.
— Assim surgiu o que Roberto Schwarz chamou de “nova intuição do Brasil”, uma interpretação influenciada pelo marxismo que marcou profundamente a vida intelectual e, a partir dos anos 1980, a política do país. — afirma o professor da Unicamp, lembrando que esses debates influenciaram até mesmo a criação dos dois partidos que dominaram a política nacional após a redemocratização, o PT e o PSDB.
Na mesma época em que o Brasil encerrava a ditadura, o comunismo cambaleava na Europa e o marxismo caía em descrédito. Após um momento de “perplexidade”, diz José Paulo Netto, a esquerda apostou “na revitalização de textos clássicos de Marx e Engels” e discussões sobre a cultura. Intelectuais feministas, como Silvia Federici e Nancy Fraser, também chamaram o alemão para conversar (e o criticaram por desconsiderar a importância do trabalho doméstico), lembra Fernando Rugitsky. E a crise de 2008 trouxesse o “Capital” de volta à discussão econômica.
— Qualquer crítica à ordem social vigente tem que começar pela crítica da economia política, e ninguém fez isso melhor que Marx. Sem ele, não é possível pensar soluções efetivas às questões contemporâneas. Do contrário, nosso papo pode até ser radical, mas a prática não será — provoca Netto.
Rugitsky recomenda a leitura do “Capital” tanto a quem se esforça para entender decisões supostamente erráticas de Donald Trump quanto a jovens angustiados com a crise climática e que não veem perspectivas de futuro.
— A obsessão de Marx foi mostrar que as sociedades humanas são sempre produtos históricos. Por maiores que sejam os desafios do presente, é bom lembrar que nosso modelo de sociedade, que foi criado num certo período, se transformou de diferentes maneiras (muito bem descritas no “Capital”, aliás) e dificilmente durará para sempre. Seu destino está em aberto.
Karl Marx em seu tempo
1818: Nasce em Trier, na atual Alemanha.
1842: Conhece Friedrich Engels na redação da Gazeta Renana, jornal de Colônia para o qual escrevia.
1843: Casa-se com Jenny von Westphalen e redige sua “Crítica da filosofia do Direito de Hegel”.
1848: Em parceria com Engels, publica “O manifesto comunista”.
1849: Expulso da Alemanha e da França, muda-se com a família para Londres. A ajuda de Engels alivia suas dificuldades financeiras.
1867: Publica o primeiro volume do “Capital”.
1883: Morre, em Londres, deixando incompleto o projeto do “Capital”. O segundo e o terceiro volumes são editados por Engels em 1885 e 1894.
Não importa quantas décadas se passem desde que O Capital de Karl Marx foi publicado pela primeira vez, nem mesmo o quanto essa obra seja descartada como desatualizada, ela retorna repetidamente ao centro do debate. Com veneráveis 158 anos de idade (foi publicada pela primeira vez em 14 de setembro de 1867), a “crítica da economia política” tem todas as virtudes dos grandes clássicos: estimula novos pensamentos a cada releitura e é capaz de ilustrar aspectos cruciais de nosso presente e de nosso passado.
Um grande mérito d’O Capital é que ele nos ajuda a colocar os desenvolvimentos do momento atual em uma perspectiva histórica adequada. O famoso escritor italiano Ítalo Calvino disse que uma das razões pelas quais um clássico é um clássico é que ele nos ajuda a “relegar os acontecimentos atuais ao nível do ruído de fundo”. Tais trabalhos apontam para questões essenciais que não podem ser contornadas, a fim de compreendê-las adequadamente e encontrar um caminho através delas. É por isso que os clássicos sempre despertam o interesse de novas gerações de leitores. Permanecem indispensáveis, apesar da passagem do tempo.
Isso é exatamente o que podemos dizer d’O Capital, 158 anos após ser publicado pela primeira vez. De fato, tornou-se ainda mais poderoso à medida que o capitalismo se espalha para todos os cantos do planeta — e se expande para todas as esferas de nossa existência.
Depois que a crise econômica eclodiu em 2007–8, a redescoberta do magnum opus de Marx foi uma necessidade real — quase uma espécie de resposta emergencial ao que estava acontecendo. Se a grande obra de Marx tivesse sido esquecida após a queda do Muro de Berlim, ela forneceria chaves ainda válidas para entender as verdadeiras causas da loucura destrutiva do capitalismo. Assim, enquanto os índices do mercado de ações mundial queimaram centenas de bilhões de dólares e inúmeras instituições financeiras declararam falência, em apenas alguns meses O Capital vendeu mais cópias do que nas duas décadas anteriores.
Pena que o renascimento d’O Capital não se cruzou com o que restou das forças da esquerda política. Ela se iludiu pensando que poderia mexer em um sistema que estava cada vez mais mostrando sua irreformabilidade. Quando entrou no governo, adotou medidas paliativas leves que não fizeram nada para diminuir a crise ecológica em curso e as desigualdades socioeconômicas cada vez mais dramáticas. Os resultados dessas escolhas estão aí para todos verem.
Mas o atual renascimento d’O Capital respondeu a outra necessidade: a de definir — também graças a uma série de estudos recentes — exatamente qual é a versão mais confiável do texto ao qual Marx dedicou a maior parte de seus trabalhos intelectuais. Essa é uma questão há muito não resolvida, resultante da maneira como Marx produziu e refinou seu estudo.
As Muitas Versões do Volume I
A intenção original do revolucionário alemão, ao redigir o primeiro manuscrito preparatório (os Grundrisse, de 1857–58), fora dividir sua obra em seis volumes. Os três primeiros deveriam ser dedicados ao capital, à propriedade da terra e ao trabalho assalariado; os últimos, ao Estado, ao comércio exterior e ao mercado mundial.
Ao longo dos anos, a crescente percepção de Marx de que um plano tão vasto era impossível de realizar o forçou a desenvolver um projeto mais prático. Ele pensou em deixar de fora os três últimos volumes e integrar algumas partes dedicadas à propriedade da terra e ao trabalho assalariado no livro sobre o capital. Este último foi concebido em três partes: o Volume I seria dedicado ao Processo de Produção de Capital; o Volume II, ao Processo de Circulação de Capital, e o Volume III, ao Processo Geral da Produção Capitalista. A estes se acrescentaria um Volume IV — dedicado à história da teoria — que, no entanto, nunca foi iniciado e é, muitas vezes, confundido erroneamente com as Teorias da Mais-Valia.
Como é sabido, Marx completou apenas o Volume I. O segundo e o terceiro volumes não viram a luz do dia antes de sua morte; apareceram em 1885 e 1894, respectivamente, graças a um enorme esforço editorial de Friedrich Engels.
Se os estudiosos mais rigorosos questionaram repetidamente a confiabilidade desses dois volumes, compostos com base em manuscritos inacabados e escritos fragmentados com anos de diferença e que continham inúmeros problemas teóricos não resolvidos, poucos se dedicaram a outra questão, não menos espinhosa: se havia de fato uma versão final do Volume I.
A disputa voltou ao centro das atenções de tradutores e editores e, nos últimos anos, muitas novas edições importantes d’O Capital surgiram. Em 2024, alguns deles foram lançados no Brasil, na Itália e nos Estados Unidos, onde a Princeton University Press publicou na segunda semana de setembro a primeira nova versão em inglês em cinquenta anos (a quarta no geral) graças ao tradutor Paul Reitter e ao editor Paul North.
Publicado em 1867, após mais de duas décadas de pesquisa preparatória, Marx não estava totalmente satisfeito com a estrutura do volume. Ele acabou dividindo em apenas seis capítulos muito longos. Acima de tudo, Marx estava descontente com a maneira como expôs a teoria do valor, a qual foi forçado a dividir em duas partes: uma no primeiro capítulo e outra em um apêndice escrito às pressas após a entrega do manuscrito. Assim, a escrita do Volume I continuou a absorver as energias de Marx mesmo após ser publicado.
Em preparação para a segunda edição, vendida em partes entre 1872 e 1873, Marx reescreveu a seção crucial sobre a teoria do valor, inseriu várias adições sobre a diferença entre capital constante e variável e sobre a mais-valia, bem como sobre o uso de máquinas e tecnologia. Ele também remodelou toda a estrutura do livro, dividindo-o em sete partes, compreendendo vinte e cinco capítulos cuidadosamente divididos em seções.
Marx acompanhou de perto o processo da tradução russa (1872) e dedicou ainda mais energia à versão francesa, que apareceu — também em partes — entre 1872 e 1875. Ele teve que gastar muito mais tempo do que o esperado revisando a tradução. Insatisfeito com o texto excessivamente literal do tradutor, Marx reescreveu páginas inteiras para fazer o que ele considerava mudanças necessárias e tornar as partes carregadas de exposição dialética mais fáceis para o público francês digerir. Isso se referia principalmente à seção final, a saber “O processo de acumulação do Capital”. Ele também dividiu o texto em mais capítulos. No posfácio da edição francesa, Marx escreveu que aquela versão tinha “um valor científico independente do original” e observou que deveria “também ser consultada por leitores familiarizados com a língua alemã”.
Sem surpresas, quando uma edição em inglês foi sugerida em 1877, Marx apontou que o tradutor “necessariamente teria que comparar a segunda edição alemã com a francesa”, já que nesta última edição ele havia “adicionado algo novo e… descrito muitas coisas de forma mais adequada”. Não eram, portanto, meros retoques estilísticos. As mudanças que Marx acrescentou às várias edições também integraram os resultados de seus estudos em andamento e os desenvolvimentos de seu pensamento crítico em constante evolução.
Novamente no ano seguinte, ele revisitou a versão francesa, destacando seus prós e contras. O autor escreveu a Nikolai Danielson, o tradutor russo d’O Capital, dizendo que o texto francês continha “muitas variações e acréscimos importantes”, mas admitiu que “também foi forçado, especialmente no primeiro capítulo, a ‘achatar’ a exposição”. Assim, ele sentiu a necessidade de esclarecer que os capítulos sobre “A mercadoria e o dinheiro” e “A transformação do dinheiro em capital” deveriam ser “traduzidos exclusivamente seguindo o texto alemão”. De qualquer forma, pode-se dizer que a versão francesa constituiu muito mais do que uma tradução.
Marx e Engels tinham ideias diferentes sobre o assunto. O autor ficou satisfeito com a nova versão, considerando-a, em muitas partes, uma melhoria em relação às anteriores. Mas Engels, embora elogiasse algumas das melhorias teóricas feitas, era cético quanto ao estilo literário imposto pela língua francesa. Ele escreveu: “Acho que seria um grave erro usar a versão francesa como base para uma tradução em inglês.”
Então, quando lhe pediram, pouco depois da morte de seu amigo, que preparasse a terceira edição alemã (1883) do Volume I, Engels fez “apenas as alterações mais necessárias”. Seu prefácio dizia aos leitores que Marx pretendia “reescrever grande parte do texto do Volume I”, mas que problemas de saúde o impediam de fazê-lo. Engels fez uso de uma cópia alemã, corrigida em vários lugares pelo autor, e de uma cópia da tradução francesa, na qual Marx indicara as mudanças que considerava indispensáveis. Engels foi econômico em suas intervenções, relatando que “nem uma única palavra foi alterada nesta terceira edição sem minha firme convicção de que o próprio autor a teria modificado.” No entanto, ele não incluiu todas as mudanças apontadas por Marx.
A tradução para o inglês (1887), totalmente supervisionada por Engels, foi baseada na terceira edição alemã. Ele afirmou que este texto, como a segunda edição alemã, era superior à tradução francesa — não por causa da estrutura do capítulo. Ele esclareceu no prefácio do texto em inglês que a edição francesa havia sido usada principalmente para testar “o que o próprio autor estava disposto a sacrificar sempre que algo do significado completo do original tivesse que ser sacrificado na tradução.” Pouco antes, no artigo How Not to Translate Marx (Como Não Traduzir Marx, em livre tradução), Engels havia criticado duramente a péssima tradução de John Broadhouse de algumas páginas d’O Capital, afirmando que “o poderoso alemão requer um inglês poderoso para traduzi-lo… termos alemães recém-cunhados exigem a cunhagem de novos termos correspondentes em inglês”.
A quarta edição alemã foi publicada em 1890; foi a última preparada por Engels. Com mais tempo disponível, ele pôde integrar várias correções feitas por Marx à versão francesa, enquanto excluía outras. Engels declarou no prefácio: “Depois de comparar novamente a edição francesa e as observações de Marx, fiz mais algumas adições ao texto alemão a partir daquela tradução”. Ele ficou muito satisfeito com seu resultado final, e apenas a edição popular preparada por Karl Kautsky em 1914 fez melhorias adicionais.
Em busca da versão final
A edição de 1890 do Volume I d’O Capital, de Engels, tornou-se a versão canônica a partir da qual a maioria das traduções em todo o mundo foi feita. Até o momento, o Volume I foi publicado em 76 idiomas, e em 59 desses projetos os Volumes II e III também foram traduzidos. Com exceção do Manifesto Comunista, co-escrito com Engels e provavelmente impresso em mais de 50 milhões de cópias, bem como o Livro Vermelho, de Mao Zedong, que teve uma circulação ainda maior — nenhum outro clássico de política, filosofia ou economia teve uma circulação comparável à do Volume I d’O Capital.
Ainda assim, o debate sobre a melhor versão nunca cessou. Qual dessas cinco edições apresenta a melhor estrutura? Qual versão inclui as aquisições teóricas do velho Marx? Embora o Volume I não apresente as dificuldades editoriais dos Volumes II e III, que incluem centenas de mudanças feitas por Engels, ainda é bastante complicado.
Alguns tradutores decidiram se basear na versão de 1872-73 — a última edição alemã revisada por Marx — como no caso de Reitter e North com a nova edição inglesa. Uma versão alemã de 2017 (editada por Thomas Kuczynski) propôs uma variante que — alegando maior fidelidade às próprias intenções de Marx — inclui mudanças adicionais preparadas para a tradução francesa, mas desconsideradas por Engels. A primeira escolha tem a limitação de negligenciar partes da versão francesa que são certamente superiores à alemã, enquanto a segunda produziu um texto confuso e difícil de ler.
Melhores, portanto, são as edições que incluem um apêndice com as variantes feitas por Marx e Engels para cada versão e também alguns dos importantes manuscritos preparatórios de Marx, até agora publicados apenas em alemão e em alguns outros idiomas.
No entanto, não há uma versão definitiva do Volume I. A comparação sistemática das revisões feitas por Marx e Engels ainda depende de mais pesquisas por seus estudiosos mais cuidadosos.
Marx tem sido frequentemente chamado de antiquado, e os opositores de seu pensamento político adoram declará-lo derrotado. Mas mais uma vez, uma nova geração de leitores, militantets e estudiosos estão aprendendo com sua crítica ao capitalismo. Em tempos sombrios como o presente, este é um pequeno bom presságio para o futuro.
El renacer de Marx
Un fantasma recorre la FIL
O essencial de Marx e Engels (Book Launch)
Após o que você chama de “conspiração de silêncio de vinte anos sobre Marx” e depois da “embalsamação de seu pensamento” pelo marxismo-leninismo, houve uma retomada do pensamento de Marx? Em que consistiu essa embalsamação?
Crítico rigorosíssimo e sempre insatisfeito com os pontos de chegada, Marx foi frequentemente associado a um dogmatismo grosseiro. Feroz defensor da auto-emancipação da classe operária, foi aprisionado em uma ideologia que defendia o primado das vanguardas políticas. Proponente da ideia de que a condição fundamental para o socialismo era a redução da jornada de trabalho, foi assimilado à crença produtivista do stakhanovismo.
Interessado como poucos outros pensadores no livre desenvolvimento das individualidades humanas, afirmando, contra o direito burguês que oculta as desigualdades sociais sob uma mera igualdade legal, que “o direito, em vez de ser igual, deveria ser desigual”, foi associado a uma concepção que neutralizou a riqueza da dimensão coletiva no indistinto da homogeneização. Contrário a “prescrever receitas para a taverna do futuro”, foi indevidamente transformado no pai de um sistema social muito diferente de suas ideias.
Alguns estudiosos de Marx privilegiaram o crítico do capitalismo, o economista, separando-o do filósofo e do político. Os numerosos inéditos de Marx, que estão sendo publicados na edição alemã MEGA2, oferecem, ao contrário, uma espécie de gênio, como foi Leonardo da Vinci.
Desde o período universitário, Marx adotou o hábito de compilar cadernos de extratos dos livros que lia, intercalados com as reflexões que esses lhe sugeriam. Os manuscritos de Marx contém cerca de 200 cadernos (muitos ainda inéditos) que são essenciais para a compreensão da gênese de sua teoria e para entender melhor as partes dela que ele não teve oportunidade de desenvolver como gostaria. Não é excessivo afirmar que, entre os clássicos do pensamento econômico e filosófico, Marx é o cujos traços mudaram mais ao longo dos últimos anos.
Ele escreveu seus extratos em oito línguas, extraídos de textos das mais variadas disciplinas. Também inclui anotações de centenas de relatórios parlamentares, estatísticas econômicas e relatórios de órgãos governamentais de meio mundo. Marx era um estudioso global e muito analítico. Nada de – como foi escrito – se limitar a destacar apenas o núcleo racional da dialética de Hegel.
É possível falar de um Marx, salvo os pontos centrais de seu pensamento, que nunca foi definitivo e esteve sempre em desenvolvimento?
O Capital não foi o único projeto que ficou incompleto. A convicção de Marx de que suas informações eram insuficientes e seus julgamentos ainda imaturos o impediu de publicar vários escritos que ficaram apenas esboçados ou fragmentados. Isso não significa que seus textos incompletos tenham o mesmo peso dos publicados. Devem ser distinguidos cinco tipos de escritos: as obras publicadas, seus manuscritos preparatórios, os artigos jornalísticos, as cartas e os cadernos de extratos.
Além disso, alguns dos textos publicados não devem ser considerados como sua palavra final sobre os temas em questão. Por exemplo, o Manifesto do Partido Comunista foi considerado por Engels e Marx como um documento histórico, não como o texto definitivo onde estavam enunciadas suas principais concepções políticas. Marx continuou a desenvolver suas ideias até a fase final de sua existência. Não por acaso, seu lema preferido era De omnibus dubitandum [Tudo deve ser questionado].
Marx publicou mais de 500 artigos, ele foi um importante jornalista?
Por mais de uma década, Marx foi um dos principais correspondentes europeus do New-York Tribune, o jornal mais difundido nos Estados Unidos na época. Nos diversos artigos que redigiu, ele tratou de todas as crises econômicas que se sucederam e dos principais eventos políticos da época, tornando-se um jornalista respeitado. Poucos sabiam que por trás daquela assinatura estava um impenitente revolucionário.
Alguns desses textos são úteis para entender o pensamento de Marx sobre questões que ele não pôde tratar de maneira sistemática. Por exemplo, ele escreveu sobre a Guerra da Crimeia de 1853-56 e, apesar de sempre ter se oposto às políticas de Moscovo, declarou, contra os liberais democratas que exaltavam a coalizão anti-russa: “É um erro definir a guerra contra a Rússia como um conflito entre liberdade e despotismo. A parte do fato de que, se isso fosse verdade, a liberdade seria atualmente representada por um Bonaparte, o objetivo manifesto da guerra é a manutenção dos tratados de Viena, ou seja, dos mesmos tratados que anulam a liberdade e a independência das nações”. Se substituíssemos Bonaparte pelos Estados Unidos e os tratados de Viena pela OTAN, essas observações parecem escritas para os dias de hoje.
Marx foi, de certa forma, um precursor da questão ecológica, quando falou não apenas da exploração do homem pelo homem, mas também da exploração da terra pelo capitalismo?
A relevância que Marx atribuiu à questão ecológica está no centro de alguns dos principais estudos dedicados à sua obra nos últimos vinte anos. Em diversas ocasiões, ele denunciou que a expansão do modo de produção capitalista aumenta não só a exploração da classe trabalhadora, mas também o saqueamento dos recursos naturais.
Em O Capital, Marx observou que, quando o proletariado instaura um modo de produção comunista, a propriedade privada do globo terrestre por indivíduos isolados pareceria tão absurda quanto a propriedade privada de um ser humano por outro ser humano. Ele manifestou sua crítica mais radical à ideia de posse destrutiva inerente ao capitalismo, lembrando que “uma nação inteira ou até todas as sociedades de uma mesma época, tomadas como um todo, não são proprietárias da terra”. Para Marx, os seres humanos são “apenas seus usufrutuários” e, portanto, têm “o dever de transmitir às gerações futuras um planeta melhor, como bons pais de família”.
Marx é contra as imigrações, se escreveu. Mas quando presidia a Primeira Internacional, quis operários irlandeses à frente da seção londrina. Qual é a verdade?
Trata-se de uma das maiores bobagens escritas sobre Marx nos últimos anos. Ele se interessou muito pelas migrações e, entre suas últimas anotações, há registros sobre o pogrom ocorrido em São Francisco, em 1877, contra os migrantes chineses. Marx atacou os demagogos anti-chineses que alegavam que os migrantes “fariam os proletários brancos passarem fome” e aqueles que tentavam convencer a classe operária a adotar posições xenofóbicas.
Pelo contrário, Marx mostrou que o movimento forçado de mão de obra gerado pelo capitalismo era uma parte muito importante da exploração burguesa e que a chave para combatê-lo era a solidariedade de classe entre os trabalhadores, independentemente de suas origens ou de qualquer distinção entre mão de obra local e importada.
Marx foi um autêntico anticolonialista, atento ao Sul Global, o que contribui para explicar sua popularidade fora do circuito europeu?
Marx realizou investigações aprofundadas sobre as sociedades extra-europeias e se expressou sempre sem ambiguidade contra as devastações do colonialismo. Essas considerações são óbvias para quem leu Marx, apesar do ceticismo que hoje prevalece em certos círculos acadêmicos.
Por exemplo, quando escreveu sobre a dominação britânica na Índia, afirmou que os britânicos só conseguiram “destruir a agricultura indígena e dobrar o número e a intensidade das fomes”. Durante os últimos anos de vida, ele desenvolveu uma concepção multilinear do progresso, o que o levou a olhar com mais atenção para as especificidades históricas e as desigualdades econômicas e políticas dos países do sul.
Ele acreditava que o desenvolvimento do capitalismo não era um pré-requisito necessário para a revolução; ela poderia começar também fora da Europa. A flexibilidade teórica de Marx – bem diferente das posições de alguns de seus seguidores – contribui para a nova onda de interesse por suas teorias, do Brasil à Índia.
E é verdade que Marx, para usar uma expressão de hoje, também foi atento às questões de gênero, como os socialistas utópicos Fourier e Saint-Simon, que você convida a reler?
Voltar a ler a história variada do movimento operário, prestando atenção a todas as lutas que o caracterizaram, ajuda a entender o quanto são erradas aquelas leituras que representam o socialismo como uma ideologia exclusivamente interessada no conflito entre capital e trabalho. Isso implica também superar a velha vulgata marxista que considerou o de Marx como o único “socialismo científico” e que usou o adjetivo “utópico” de forma puramente depreciativa. Para repensar a alternativa ao capitalismo, é necessário reutilizar todo o arsenal do pensamento socialista, embora Marx continue sendo o elemento central.
Sobre seu último livro, O Essencial de Marx e Engels, publicado em dezembro 2024, em 3 volumes – Escritos filosóficos (294 páginas); Escritos econômicos (310 páginas); Escritos políticos (335 páginas) – que reúne um vasto acervo da produção teórica de Marx e Engels. Como foi o processo de análise e seleção dos textos, capítulos, obras e documentos presentes na antologia?
A obra de Marx e Engels é composta por dezenas de livros, centenas de artigos em jornais e revistas, milhares de páginas de manuscritos preparatórios e de rascunhos de projetos inacabados, uma correspondência constituída por mais de 4 mil cartas encontradas, além de uma grande quantidade de cadernos de anotações, em grande parte ainda inéditos, contendo extratos e comentários dos livros que leu durante os muitos estudos realizados e sua longa atividade política. Selecionar 900 páginas “essenciais” dessa vasta massa de materiais – que, além disso, abrange os mais diversos campos do saber humano, foi redigida em várias línguas e inclui um número considerável de escritos incompletos e fragmentários – é uma tarefa muito complexa.
Deve-se também lembrar que existem escritos nos quais foram expostas ideias que foram superadas após novas pesquisas e que, portanto, não contêm as conclusões finais, relacionadas aos temas tratados, às quais chegaram seus autores. A necessidade de respeitar as dimensões convencionais dos livros de hoje tornou impossível incluir nesta antologia trechos de todos os principais escritos de Marx e Engels. Por questões de espaço, alguns deles tiveram que ser excluídos e, para outros, foi necessário escolher poucas linhas em vez do que merecia ser apresentado em várias páginas.
No entanto, um “Essencial” não tem a ambição de substituir a obra completa; ao contrário, tem o objetivo de estimular os leitores a descobrirem os textos em sua totalidade e maior complexidade.
Qual é o diferencial da obra que a torna uma das principais antologias produzidas em escala internacional dos textos teóricos de Marx e Engels?
Marx e Engels são indiscutivelmente dois clássicos. Eles têm uma contribuição da qual não se pode prescindir e que permanece indispensável apesar do passar do tempo. Aos clássicos retornamos continuamente para rediscutir as questões que mais contribuíram para entender e resolver, mas eles também são convocados em relação a novas temáticas que surgem com a transformação da sociedade e em relação a questões antigas que assumem nova relevância. É por essa razão que, a custo de sacrificar algumas páginas do Marx mais conhecido, não quis deixar de incluir alguns trechos, também inéditos em português, sobre ecologia, gênero, liberdade individual, tecnologia, nacionalismo, colonialismo e guerra – com prazer em destacar a importância da contribuição de Engels sobre esses pontos.
Como a obra contribui para aprimorar as interpretações sobre Marx e o marxismo na atualidade?
Todos esses temas que acabo mencionar têm importância crucial no debate atual, e as teorias de Marx e Engels continuam a oferecer interessantes pontos de reflexão sobre algumas das questões contemporâneas mais significativas. As publicações da Marx Engels Gesamtausgabe (MEGA²) desmentiram aqueles que afirmaram que Marx era um autor sobre o qual já se tinha dito e escrito tudo. Ainda há muito a aprender com Marx. Espero que esta antologia seja útil tanto para os especialistas que acreditam, erroneamente, saber tudo sobre Marx e Engels, quanto para uma nova geração de leitores que ainda não conhece seus escritos.
Durante as últimas duas décadas, temos assistido a um ressurgimento do interesse pelo pensamento e pela obra de Karl Marx, autor de importantes obras filosóficas, históricas, políticas e econômicas – e, claro, do Manifesto comunista, que é talvez o manifesto político mais popular do mundo. Este ressurgimento é resultado, em grande parte, das consequências devastadoras do neoliberalismo em todo o mundo. Isto é, níveis sem precedentes de desigualdade econômica, decadência social e descontentamento popular, bem como uma intensificação da degradação ambiental que aproxima o planeta cada vez mais de um precipício climático. Junta-se a isso a incapacidade das instituições formais da democracia liberal de resolver esta lista crescente de problemas sociais. Mas será que Marx ainda é relevante para o panorama socioeconômico e político que caracteriza o mundo capitalista de hoje? E o que dizer do argumento de que Marx era eurocêntrico e tinha pouco ou nada a contribuir sobre o colonialismo?
Marcello Musto, importante estudioso marxista e professor de sociologia na Universidade de York em Toronto, Canadá, tem participado desse ressurgimento do interesse por Marx. Musto afirma, numa entrevista exclusiva para a Truthout, que o autor do Manifesto ainda é muito relevante hoje, além de contestar a alegação de que ele era eurocêntrico. O professor argumenta que Marx foi, de fato, intensamente crítico do impacto do colonialismo.
C.J. Polychroniou: Na última década, houve um interesse renovado na crítica de Karl Marx ao capitalismo entre os intelectuais públicos de esquerda. No entanto, o capitalismo mudou drasticamente desde a época de Marx, e a ideia de que ele está fadado à autodestruição devido às contradições que surgem do funcionamento de sua própria lógica já não merece credibilidade intelectual. A classe trabalhadora de hoje é muito mais complexa e diversificada do que a da época da Revolução Industrial. Além disso, a missão histórica mundial imaginada por Marx não foi cumprida pela classe trabalhadora. Na verdade, foram estas considerações que deram origem ao pós-marxismo, uma postura intelectual em voga entre as décadas de 1970 e 1990, que ataca a noção marxista de análise de classe e subestima as causas materiais da ação política radical. Mas agora, ao que parece, há um regresso mais uma vez às ideias fundamentais de Marx. Como deveríamos explicar o renovado interesse por Marx? Na verdade, Marx ainda é relevante hoje?
Marcello Musto: A queda do Muro de Berlim foi seguida por duas décadas de conspiração de silêncio sobre a obra de Marx. Nas décadas de 1990 e 2000, a atenção dada a Marx era extremamente escassa e o mesmo pode ser dito sobre a publicação, e a discussão, dos seus escritos. O trabalho de Marx — já não identificado com a detestável função de instrumentum regni da União Soviética — tornou-se o foco de um renovado interesse global em 2008, após uma das maiores crises econômicas da história do capitalismo. Jornais de prestígio, bem como periódicos de amplo público, descreveram o autor de O capital como um teórico clarividente, cuja atualidade recebeu mais uma vez confirmação. Marx tornou-se, em quase toda parte, tema de cursos universitários e conferências internacionais. Os seus escritos reapareceram nas prateleiras das livrarias e a sua interpretação do capitalismo ganhou impulso renovado.
Nos últimos anos, assistiu-se também a uma reconsideração de Marx enquanto teórico político, fazendo com que muitos autores de visão progressista sustentassem que as suas ideias continuam a ser indispensáveis para quem acredita ser necessário construir uma alternativa à sociedade em que vivemos. O recente “renascimento de Marx” não se limita apenas à sua crítica à economia política, mas também à redescoberta da ideologia e das interpretações sociológicas do autor de O capital. Ao mesmo tempo, muitas teorias pós-marxistas demonstraram suas falácias e acabaram por aceitar os fundamentos concretos da sociedade — embora as desigualdades que a destroem e minam completamente a sua coexistência democrática estejam a crescer de formas cada vez mais dramáticas.
Certamente, a análise de Marx sobre a classe trabalhadora precisa de ser reformulada, uma vez que foi desenvolvida na observação de uma forma diferente de capitalismo. Se as respostas para muitos dos nossos problemas contemporâneos não podem ser encontradas em Marx, ele centra, no entanto, as questões essenciais. Penso que esta é a sua maior contribuição hoje: ele nos ajuda a fazer as perguntas certas, a identificar as principais contradições. Isso não me parece pouca coisa. Marx ainda tem muito a nos ensinar. A sua elaboração contribui para compreendermos melhor o quão indispensável ele é para traçar uma alternativa ao capitalismo — hoje, ainda mais urgentemente do que no seu tempo.
CJP: Os escritos de Marx incluem discussões sobre questões como natureza, migração e fronteiras, que recentemente receberam atenção renovada. Você pode discutir brevemente a abordagem de Marx à natureza e sua opinião sobre migração e fronteiras?
MM: Marx estudou muitos assuntos — no passado muitas vezes subestimados, ou mesmo ignorados, pelos seus estudiosos — que são de importância crucial para a agenda política dos nossos tempos. A relevância que Marx atribuiu à questão ecológica é o foco de alguns dos principais estudos dedicados à sua obra nas últimas duas décadas. Em contraste com interpretações que reduziam a concepção de socialismo de Marx ao mero desenvolvimento das forças produtivas (trabalho, instrumentos e matéria-prima), ele demonstrou grande interesse pelo que hoje chamamos de questão ecológica.
Em repetidas ocasiões, Marx argumentou que a expansão do modo de produção capitalista aumenta não só a exploração da classe trabalhadora, mas também contribui para o esgotamento dos recursos naturais. Ele denunciou que “todo progresso na agricultura capitalista é um progresso na arte, não apenas de roubar o trabalhador, mas também de roubar o solo”. Em O capital., Marx observou que a propriedade privada da terra por indivíduos é tão absurda quanto a propriedade privada de um ser humano por outro ser humano.
Marx também se interessou muito pela migração e entre os seus últimos estudos estão notas sobre o massacre ocorrido em São Francisco, em 1877, contra os migrantes chineses. Marx criticou os demagogos anti-chineses quando estes afirmavam que os migrantes fariam os proletários brancos morrer de fome. Sua crítica também foi contra aqueles que tentaram persuadir a classe trabalhadora a apoiar posições xenófobas. Assim, Marx mostrou que o movimento forçado de trabalho gerado pelo capitalismo era um componente muito importante da exploração burguesa e que a chave para combatê-lo era a solidariedade de classe entre os trabalhadores, independentemente das suas origens ou de qualquer distinção entre trabalho local e importado.
CJP: Uma das objeções mais ouvidas sobre Marx é que ele era eurocêntrico e que até justificou o colonialismo como necessário para a modernidade. No entanto, embora Marx nunca tenha desenvolvido a sua teoria do colonialismo tão extensivamente como a sua crítica da economia política, ele condenou o domínio britânico na Índia nos termos mais inequívocos, por exemplo, e criticou aqueles que não conseguiram ver as consequências destrutivas do colonialismo. Como você avalia Marx nessas questões?
MM: O hábito de usar citações descontextualizadas da obra de Marx data de muito antes do Orientalismo de Edward Said, um livro influente que contribuiu para o mito do alegado eurocentrismo de Marx. Hoje, leio frequentemente reconstruções das análises de Marx sobre processos históricos muito complexos que são puras invenções.
Já no início da década de 1850, nos seus artigos (contestados por Said) para o New-York Tribune — um jornal com o qual colaborou durante mais de uma década — Marx não tinha ilusões sobre as características básicas do capitalismo. Ele sabia muito bem que a burguesia nunca tinha “realizado um progresso sem arrastar indivíduos e pessoas em sangue e sujeira, através da miséria e da degradação”. Mas ele também estava convencido de que, através do comércio mundial, do desenvolvimento das forças produtivas e da transformação da produção em algo cientificamente capaz de dominar as forças da natureza, “a indústria e o comércio burgueses [criariam] estas condições materiais de um novo mundo.” Estas considerações refletiam apenas uma visão parcial e ingênua do colonialismo sustentada por um homem que escrevia um artigo jornalístico com apenas 35 anos de idade.
Mais tarde, Marx empreendeu extensas investigações sobre sociedades não europeias e o seu anticolonialismo ferrenho tornou-se ainda mais evidente. Estas considerações são óbvias para qualquer pessoa que tenha lido Marx, apesar do ceticismo em alguns círculos acadêmicos que representam uma forma bizarra de decolonialidade e assimilam Marx a pensadores liberais. Quando Marx escreveu sobre o domínio da Inglaterra na Índia, afirmou que os britânicos só conseguiram “destruir a agricultura nativa e duplicar o número e a intensidade da fome”. Para Marx, a supressão da propriedade coletiva da terra na Índia nada mais foi do que um ato de vandalismo inglês, empurrando o povo nativo para trás, e certamente não para a frente.
Em nenhum lugar das obras de Marx há a sugestão de uma distinção essencialista entre as sociedades do Oriente e do Ocidente. E, de fato, o anticolonialismo de Marx — particularmente a sua capacidade de compreender as verdadeiras raízes deste fenômeno — contribui para a nova onda contemporânea de interesse pelas suas teorias, do Brasil à Ásia.
CJP: A última viagem que Karl Marx empreendeu antes de morrer foi em Argel. Você pode destacar suas reflexões sobre o mundo árabe e o que ele achou da ocupação francesa na Argélia?
MM: Contei esta história — tão pouco conhecida — no meu livro, O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1883). No inverno de 1882, último ano de sua vida, Marx teve uma grave bronquite e seu médico recomendou-lhe um período de descanso em um lugar quente como Argel, para escapar dos rigores do inverno. Foi a única vez em sua vida que passou fora da Europa.
Devido à sua saúde debilitada, Marx não conseguiu estudar a sociedade argelina como gostaria. Em 1879, já tinha examinado a ocupação francesa na Argélia e argumentado que a transferência da propriedade fundiária das mãos dos nativos para as dos colonos tinha um objetivo central: “a destruição da propriedade coletiva e sua transformação em objetos de compra e venda”. Marx notou que esta expropriação tinha dois propósitos: fornecer aos franceses o máximo de terras possível e arrancar os árabes dos seus laços naturais com o solo, o que significava mitigar qualquer perigo de rebelião. Marx comentou que esse tipo de individualização da propriedade da terra não só garantiu enormes benefícios econômicos para os invasores, mas também alcançou um objetivo político: “destruir os alicerces da sociedade”.
Embora Marx não pudesse prosseguir essa investigação, ele fez uma série de observações interessantes sobre o mundo árabe quando esteve em Argel. Ele atacou, com indignação, os abusos violentos dos franceses, os seus constantes atos provocativos, a sua arrogância descarada, a presunção e a obsessão em vingança — como Moloch face a cada ato de rebelião da população árabe local.
Nas suas cartas de Argel, Marx relatou que, quando um assassinato é cometido por um bando árabe, geralmente com a intenção de roubar, e os criminosos são devidamente detidos, julgados e executados, isso não é considerado castigo suficiente para a família do colono roubada. Exigem ainda a prisão de pelo menos meia dúzia de árabes inocentes: “Uma espécie de tortura é aplicada pela polícia, para forçar os árabes a ‘confessar’, tal como os britânicos fazem na Índia.” Marx escreveu que quando um colono europeu vive entre aqueles que são considerados “raças inferiores”, seja como colono ou simplesmente a negócios, geralmente considera-se mais inviolável do que o rei. E Marx também enfatizou que, na história comparada da ocupação colonial, “os britânicos e os holandeses superam os franceses”.
CJP: Estas reflexões lançam alguma luz sobre a perspectiva geral de Marx sobre o colonialismo?
MM: Marx sempre se expressou de forma inequívoca contra a devastação do colonialismo. É um erro sugerir o contrário, apesar do ceticismo instrumental tão em voga hoje em dia em certos meios acadêmicos liberais. Durante a sua vida, Marx observou de perto os principais acontecimentos na política internacional e, como podemos ver pelos seus escritos e cartas, expressou firme oposição à opressão colonial britânica na Índia, ao colonialismo francês na Argélia, e a todas as outras formas de dominação colonial. Ele era tudo menos eurocêntrico e fixado apenas no conflito de classes. Marx considerou fundamental o estudo de novos conflitos políticos e áreas geográficas periféricas para a sua crítica ao sistema capitalista. Mais importante ainda, ele sempre ficou do lado dos oprimidos contra os opressores.
Alexandre Braga, Katálysis
Marcello Musto é um jovem intelectual italiano que vem se destacando pelas recentes pesquisas sobre os últimos períodos de vida do pensador alemão Karl Marx (1818–1883). Musto, que é também professor de Sociologia na York University (Toronto, Canadá), já publicou Another Marx: Early Manuscripts to the International (Bloomsbury, 2018) e Karl Marx: biografia intelectual e política (Einaudi, 2018); organizou obras como Karl Marx’s Grundrisse (Routledge, 2008); Marx for Today (Routledge, 2012); Trabalhadores, uni-vos! Antologia política da I Internacional (Boitempo, 2014); Marx’s Capital after 150 Years (Routledge, 2019); The Marx Revival (Cambridge University Press, 2020); Karl Marx’s Writings on Alienation (Palgrave, 2021); Rethinking Alternatives with Marx (Palgrave, 2021); e Marx and Le Capital (Routledge, 2022). Ou seja, ao longo da década de 2000, o autor vem realizando uma profícua incursão no pensamento marxiano, ora para realizar uma descoberta de um Karl Marx quase desconhecido do grande público, ora para redescobrir pontos e análises conceituais que só agora tiveram a devida correção no itinerário que Marx tinha em mente ao dar início à sua crítica da sociedade civil burguesa.
Nessa seara, Marcello Musto realizou uma tarefa impecável, pois suas publicações vão ajudar em muito na compreensão daquilo que Marx tinha como propósito analítico e como projeto político, a emancipação da classe trabalhadora. O livro de Marcello Musto – O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881–1883) –, em suas 158 páginas, contribui e contribuirá, sobremaneira, nessa direção, principalmente porque, após a dissolução da União Soviética, no ano de 1989, uma onda negacionista tomou conta dos debates políticos mundo afora, resultando num esquecimento quase que natural e numa crise do marxismo, que por pouco não jogou por terra essa proposta de emancipação elaborada por Karl Marx, Friedrich Engels, Rosa Luxemburgo e toda uma geração de lutadores e lutadoras do povo em prol da classe do proletariado, nos últimos 200 anos. Desse ponto de vista, ficou um vácuo de ideias progressistas, e para dificultar, surgiram pregações que anunciavam o fim do Socialismo como decante e a vitória final da formação capitalista, como se a História fosse uma “planilha” que não pudesse ser alterada pelo curso do desenvolvimento social, na sociedade, nas universidades e na militância de esquerda. Portanto, a escrita de Marcello Musto e diversas outras publicações que começam a circular nos meios acadêmicos, desde 2008 retomam a discussão do projeto socialista e repõem o Marxismo no centro dos debates, seja no próprio meio universitário, seja nas redes sociais, ainda que o novo cenário apresente um contexto de evolução conservadora e reacionária.
Em seu livro, Musto traz quatro pontos importantíssimos para entendermos os últimos anos de vida de Karl Marx, entre os anos de 1881 e 1883: 1) O pardo da existência e os novos horizontes de pesquisa; 2) A controvérsia sobre o desenvolvimento do capitalismo na Rússia; 3) Os tormentos do “Velho Nick”; e 4) A última viagem do Mouro. Ao longo dos capítulos, o leitor se deparará com um Karl Marx não só inédito, mas diferente daquilo que sempre se soube por meio dos escritos densos sobre economia política, temas internacionais e das agitações revolucionárias que abalaram o mundo de sua época. Aliás, nessa fase de maturidade, Marx se aventurou em temas como a matemática, a questão ecológica, temas americanos, botânica e os assuntos mais densos da luta que estava acontecendo em países como Índia, Egito e Argélia. Dessa forma, nesse ciclo antes de seu passamento, Marx era o “oposto de um autor eurocêntrico, economicista e absorvido exclusivamente pela luta de classes”, como prefacia Musto (2018, p. 11).
O gabinete da Rua Maitland Park Road
Musto já começa a obra trazendo à tona fatos da intimidade pessoal de Karl Marx de pouco acesso de seus próprios leitores, inclusive dos círculos mais próximos de Marx, como a imersão do filósofo alemão em temas fora do eixo econômico-filosófico, como a preocupação de Marx com os assim chamados “temas americanos”, a redação dos cadernos sobre matemática, os estudos de fisiologia, de geologia, de agronomia, de química e de física, ou seja, uma série de temas multidisciplinares, boa parte deles localizados no escritório de uma casa alugada na Rua Maitland Park Road, situada na região periférica de Londres, onde era sua residência e da família Marx. Lá, moravam o Mouro[1] , sua esposa Jenny (1814–1881), as filhas Eleanor (1855–1898) e Helene Demuth (1820–1890) e sua governanta de mais de 40 anos de convívio com o casal.
A casa da Rua Maitland Park Road, número 41, era o refúgio para Karl Marx guardar seus mais de 2 mil volumes de livros, sobretudo acerca de Ciência Política, História alemã e Literatura francesa, italiana, alemã e, desde 1869, sobre a Literatura russa que Marx começou a estudar para melhor compreender o processo revolucionário russo. Nessa biblioteca, havia uma infinidade de autores como Shakespeare, Dickens, Molière, Racine, Montaigne, Bacon, Goethe, Voltaire, entre outras produções literárias. Além de ser um reduto principal das visitas dos colaboradores, ativistas e líderes políticos dos mais diferentes locais do planeta, serviu, ainda, como centro de troca de correspondências internacionais entre os militantes socialistas, tanto que a caixapostal da residência vivia abarrotada de cartas, de acordo com Musto (2018, p. 21). Prova disso é que o próprio Friedrich Engels (1820–1895) se mudou para a vizinhança próxima à casa de Marx, na Rua Regent’ Park Road, número 122, a poucos metros de distância.
Além do mais, o local era estratégico para a formação política da militância socialista, porque lá estavam guardadas publicações, documentos e resoluções mais importantes da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), uma cópia de A Sagrada Família, escrita em coautoria com Engels, em 1845, da Miséria da Filosofia, também pelos dois amigos e obras cruciais para o que se viria a ser conhecido depois como marxismo, como os livros Manifesto do Partido Comunista (1848), O 18 Brumário de Luís Bonaparte (1852), e o próprio O Capital, de 1867, sua obra-prima. No sótão da casa havia, ainda, sinopses e manuscritos inacabados, destinados à “crítica roedora dos ratos”[2] , cuja volumosidade situava-se perto de um divã de couro, onde Marx costumava descansar após horas de estudos em cima de materiais muitas vezes em língua original.
Conforme Marcello Musto, no ano de 1881, Karl deu início aos estudos sobre Antropologia, indo estudar o livro A sociedade Antiga (1877), do antropólogo norte-americano Lewis Morgan (1818–1881), e resultando numa série de enxertos conhecidos como Cadernos Etnológicos. Essas anotações dispersas tratavam da colônia de Java na Indonésia, escrita por James Money (1818–1890), sobre a aldeia ariana na Índia, de autoria de Jonh Phear (1825–1905) e sobre história antiga das instituições, do historiador Enry Maine (1822–1888). Os Cadernos Etnológicos, de pouco mais de 100 folhas, não foram escritos por Marx, mas, posteriormente editados e lançados por Lawrence Krader (1919–1998) com o título de Cadernos Etnológicos de Karl Marx (Musto, 2018, p. 31). Nos Cadernos Etnológicos, é possível encontrar outras anotações sobre a pré-história, o desenvolvimento dos vínculos familiares, as condições das mulheres, a origem das relações de propriedade, a formação da natureza e questões como as conotações racistas de alguns antropólogos da época e os efeitos do Colonialismo. Sobre isso Marx pensava:
a família moderna em germe não somente a servitus (a escravidão), mas também a servidão da gleba; desde o princípio, ela pôs suas relações a serviço da agricultura. Possui em miniatura todos os antagonismos que, mais tarde, se desenvolverão em massa na sociedade e em seu Estado […] na origem, era constituída diretamente de escravos (Morgan apud Musto, 2018, p. 34).
Com isso, a palavra “família” desde seu germe, tem a ver com famulus (escravo, criado), e sem nenhuma relação com a criação de filhos pelos casais casados, mas, sim, com o conjunto de escravizados que são forçados a trabalhar para o patrão, regidos pelo poder do pater famílias. Isso é, foi a escravidão que esteve na orientação do princípio organizador da família, com seus antagonismos. Nesse aspecto, conforme Marcelo Musto, Marx dedicou especial atenção às condições das mulheres. Segundo a revisitação historiográfica que está sendo feita desde 2008 da posição marxiana sobre o tema, Marx observou que as sociedades antigas tinham melhor tratamento com as mulheres. A partir de dados elencados por Lewis Morgan, a mudança da descendência da linhagem materna para a paterna foi prejudicial para o sexo feminino, entre os gregos, o que diminuiu o direito das esposas e mulheres, cujo modelo foi avaliado por Morgan como negativo. Na cultura grega da época a mulher passou a ser inferior, a “deusa da sabedoria saiu da cabeça de Zeus”[3], como lembrou Marx.
Noutra ponta do debate histórico, Musto reforça em seu “O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881–1883)” a rejeição da ideia de que as mudanças sociais ocorreriam unicamente devido às transformações econômicas, uma vez que Karl Marx defendia, na verdade, a especificidade de cada condição histórica, as múltiplas possibilidades e a centralidade da ação humana para realizar as transformações, com clara condenação do avanço espontâneo do processo histórico. Principalmente porque, como acreditavam seus seguidores menos atentos, que a última fase burguesa se seguiria para o fim do capitalismo, automaticamente a ser superado pelo Socialismo, o que resultou num surto fatalista e de passividade que blocou o movimento operário e que negligenciava as próprias reflexões de Marx contrárias a essa interpretação. De acordo com Musto (2018, p. 37), “jamais desejou um retorno ao passado, mas – como acrescentou na transcrição do livro de Morgan – vislumbrou um tipo de sociedade superior”. Isso porque, tanto como condenação do determinismo econômico como ponto de vista de que as contradições da civilização não eram estáticas e nem passivas, mas eram projetos realizados pelo esforço humano diante da necessidade de preservar a vida, e não pela evolução mecânica da sociedade. Ou falando de outra forma, pela ação consciente da classe trabalhadora (Musto, 2018, p. 37).
A questão da comuna agrária russa
Outro ponto de especial atenção aos leitores e leitoras do livro de Marcello Musto é a posição marxiana sobre a Rússia, que até então Marx considerava como o grande obstáculo à emancipação da classe trabalhadora, melhor dizendo: através de volumas cartas e em artigos de grande repercussão internacional publicados no jornal New-York Tribune e na História Diplomática Secreta do Século XVIII (1856–1857), Marx considerava que o atraso das condições sociais, a lentidão do desenvolvimento econômico do país, o regime czarista de caráter despótico e a política externa conservadora levaram a uma postura contrarrevolucionária na Rússia. Porém, em sua fase de maturidade, e já tendo consolidada sua irretocável carreira como líder revolucionário e como agitador das massas proletárias, Karl Marx reviu boa parte dessas opiniões, na medida em que algumas transformações ocorridas nas condições sociais russas proporcionaram uma reviravolta e uma mudança de rota, que agora poderiam viabilizar uma revolução mais intensa que a ocorrida na Inglaterra, por exemplo, uma vez que apesar de ser o berço do capitalismo e ter um maior contingente de operários fabris, o proletariado inglês havia perdido força por causa das algumas melhorias de suas situações de vida, como a redução da jornada de trabalho e o consequente reformismo dos sindicatos (Musto, 2018, p. 59).
Karl Marx acompanhava a situação russa desde 1850, seja saudando as revoltas camponesas que resultaram a abolição da servidão, em 1861, seja através de estudos sobre estatísticas dos problemas locais, ou por meio do início do aprendizado da língua russa, o que o ajudou a melhor compreender esse cenário interno. A partir de 1881, as formas arcaicas de organização comunitária da Rússia levaram Marx a aprofundar os estudos e a troca de correspondências com militantes russos, como aquelas enviadas a militante do “Repartição Negra”, Vera Zasulitch (1849–1919), que numa destinada a Marx, em 16 de fevereiro de 1881, resumiu quais eram os pontos centrais das discussões:
A comuna rural, liberada das exigências desmesuradas do fisco, dos pagamentos à nobreza e da administração arbitrária, é capaz de desenvolver-se pela via socialista, que dizer, de organizar pouco a pouco sua produção e sua distribuição de produtos em bases coletivas. Nesse caso, os socialistas revolucionários devem envidar todos os esforços em prol da liberação da comuna e de seu desenvolvimento (Zasulitch apud 2018, p. 61).
Nessa carta enviada a Karl Marx, Vera Zasulitch fazia uma consulta ao pensador alemão de como circulavam nos meios revolucionários e entre os ativistas a opinião de que a comuna rural era um atraso condenado à morte, e boa parte deles atribuía ao próprio Marx a origem dessa opinião. Contrariamente, Zasulitch pensava que os revolucionários deviam dar todo apoio a essa comuna agrária de especificidade russa. O apelo da militante russa era para que Marx pudesse esclarecer tal dúvida, já que ele estava familiarizado com as relações comunitárias da época pré-capitalista. Em sua resposta, Marx relembrara que sua reflexão sobre o percurso seguido pela ordem econômica capitalista para sair do ventre da ordem econômica feudal era apenas uma referência à situação aplicada somente ao Velho Continente, diga-se Europa Ocidental, e que não servia para descrever outras situações em outras regiões do planeta, tendo em vista que seria necessário estudar separadamente cada um dos fenômenos e só depois confrontá-los. Resumindo: não havia a possibilidade de usar uma teoria histórico-filosófica geral para ser aplicada em casos diversos e diferentes (Musto, 2018, p. 74–78).
Ainda na carta de resposta a Vera Zasulitch, Marx deixou clara sua posição sobre a possibilidade de a obschina[4] ser o germe de uma futura sociedade socialista, na perspectiva de que a Rússia não podia percorrer servilmente todos os caminhos trilhados pela Inglaterra, portanto, não precisaria passar pelo capitalismo, isto é , por meio da lógica capitalista do trabalho coletivo e cooperativo realizado em larga escala e incorporando as conquistas positivas do sistema capitalista, mas substituindo-as gradualmente a agricultura parcelária pela agricultura combinada com o auxílio das máquinas e dos avanços tecnológicos, preservando, no entanto, seu caráter comunitário através de uma revolução russa para garantir o livre crescimento da comuna rural, ou como Marx enfatizou “trocar de pele sem precisar antes cometer suicídio” (Marx, 2013, p. 111).
1881, Karl Marx se torna “cidadão do mundo”
Na visão de Musto, ainda no ano de 1881, Karl Marx, apesar da profícua produção literária e sociológica, anda não era um teórico de referência internacional indubitável. Isso só veio a acontecer no século seguinte, no início do XX após as repercussões das resoluções adotadas pela Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) e pelo impacto provocado pela eclosão da Comuna de Paris, em 1871. A notoriedade como mentor político veio em seguida à publicação de O Capital, reimpresso na Alemanha em 1873, o que em seu conjunto foram fatores que contribuíram para a expansão do pensamento marxiano e da consolidação da figura de Karl Marx como o grande expoente do movimento operário internacional, como aconteceu na construção de programas partidários e na redação de teses de cunho político, ou como Musto (2018, p. 86) registrou: “[…] em seus últimos anos Marx foi testemunha de um interesse cada vez maior, em muitos países europeus, por suas teorias – especialmente as contidas em seu magnum opus”[5] . A título de exemplificação temos a influência de Karl Marx na redação do programa do Partido Social-Democrata dos Trabalhadores da Alemanha (SDAP), em 1875, na Federação do Partido dos Trabalhadores Socialistas da França (FPTSF), entre outras produções de ordem prática e nas quais sempre eram destacadas que a revolução não era uma derrubada simples do sistema, mas um processo longo e complexo (Musto, 2018, p. 94).
Se na esfera internacional Marx viu seus textos serem valorizados enquanto fonte de análises para deliberações filosóficas e políticas, no plano pessoal as coisas não andavam tão bem assim. Isto porque nas primeiras semanas de junho de 1881, sua esposa, Jenny von Westphalen, teve as condições de saúde pioradas por causa de um tratamento de câncer no fígado, obrigando Marx a se tornar seu mais íntimo enfermeiro e o casal indo morar em Eastbourne, próxima ao canal da Mancha. Nessa cidade francesa, a família Marx mudou-se com os netos, sua filha Jenny Longue e seus dois pets, na esperança de que os ares do litoral pudessem ajudar na recuperação da esposa Jenny, cujas despesas de hospedagem e do tratamento de saúde foram pagas por Friedrich Engels. Entre os familiares, Karl Marx era chamado de velho Nick (que na gíria inglesa significava “velho diabo”); e em muitas de suas cartas-pessoais, Marx as assinavam como Old Nick, divertindo-se com a apologia de tal figura, apesar das dívidas e do momento doloroso e de sofrimento de Jenny Westphalen. A essa fase, o Mouro a declarou como “aquela em que na família, neste momento, só infortúnios” (Marx apud Musto, 2018, p. 101).
E os infortúnios desabafados por Marx não cessariam tão cedo. Em 16 de agosto, sua filha Eleanor cai em depressão devido a um suposto noivado malsucedido, em outubro foi o próprio Marx que teve a saúde abalada, agora por uma forte bronquite, com risco de resultar em pneumonia, o que levou Marx a permanecer acamado por 12 dias, e no dia 2 de dezembro de 1881, aos 68 anos, falece sua esposa Jenny von Westphalen. Essa morte, nas palavras do Old Nick, lhe privara de seu “maior tesouro” (Marx apud Musto, 2018, p. 101). A cronologia de dissabores levou Marx para um estado de convalescença e de um drama de acontecimentos familiares entretecedor, entre 1881 e 1882. Contudo, nesse curto período, Marx consegue tempo para se dedicar aos estudos sobre o desenvolvimento do Estado Moderno (século XV), especialmente consultando obras que resultaram nas Notas Sobre a História Indiana, de 1879, inspiradas no livro História Analítica da Índia, de Robert Sewell (1845–1925), História dos Povos da Itália, do historiador Carlo Botta (1766–1837) e História do Povo Alemão, escrito por Friedrich Schlosser (1776–1861), totalizando 143 páginas sobre história. Todavia, a instabilidade de seu quadro de saúde interrompeu suas anotações sobre demais temas históricos da época, sob o risco de uma nova recaída na debilidade de saúde. Retrato disso é que em 1882 Marx foi obrigado a usar um respirador artificial, pelo qual os jornais alemães já tinham anunciado sua morte (Musto, 2018, p. 105–107).
Os dias africanos de Karl Marx
Os 72 dias em que Karl Marx permaneceu em estadia no continente africano representam as últimas viagens do Mouro na procura para a cura de suas chagas. Obviamente, para o porte de um homem que estava em pleno exercício das funções cognitivas e teóricas, a conciliação entre o rigoroso tratamento médico a expedições de análises políticas não deixou de ser realizada, a partir da chegado do líder alemão à África, no dia 20 de fevereiro de 1882, após longas 34 horas de viagens até Argel, capital da Argélia. Marx foi ao continente africano à procura de soluções mais concretas para suas doenças, especialmente por tratamento mais eficaz contra a bronquite, a tosse ininterrupta e uma série de catarros que não lhe davam sossego, sendo prontamente atendido pelo juiz Albet Fermé, destacado militante socialista e único que conhecia a já famosa trajetória do paciente. Infelizmente, por infortúnio do destino, a época escolhida para as sessões de terapia foi de intensos períodos chuvosos e de frio, com o pior inverno que a cidade já tinha vivido. O médico de Karl Marx, Charles Stéphann (1840–1906) receitou, então, cuidados à base de xarope e de psicotrópicos, visando diminuir as dores de grande intensidade, e os mais intensos deles, reduzir drasticamente os esforços físicos, que significava para Marx abandonar qualquer trabalho de ordem intelectual, inclusive se preocupar com os problemas de ordem mundial. Na enfermaria, foi submetido à aplicação de medicamentos para estancar as dores, a proliferação de bolhas na região do tórax e para conter a insônia, além da tentativa de paralisar as feridas nas costas, na qual Marx se queixou reclamando: “para uma mente sã num corpo são, ainda havia muito para fazer [6]”, numa alusão aos poucos resultados do longo e doloroso tratamento (Musto, 2018, p. 111–113).
A última viagem do Mouro e única na região africana o impediu de fazer as correções da terceira edição alemão d’O Capital, de analisar a conjuntura política da época e de tecer comentários críticos sobre a propriedade comunal árabe, bem como de falar sobre a realidade argelina, pois fora realizada praticamente para se dedicar ao tratamento médico e da cura para suas dores. Haja vista que em 22 de fevereiro de 1882 o jornal L’Akbbar publicou uma matéria relatando as injustiças do sistema dominação agrária pelos colonizadores franceses, e uma vez que qualquer cidadão francês podia adquirir uma concessão de mais de 100 hectares de terras argelinas e depois podia revendê-las ao preço de 40 mil francos a qualquer pessoa argelina, isso sem precisar deixar a França. Com todos os esforços para se concentrar nas orientações médicas de total reclusão, Marx não deixou de observar da sacada do hotel em que estava sendo realizada a medicação que próximo ao local havia grupos de trabalhadores construindo casas, apesar de sadios, depois de três dias de trabalho, já apresentavam quadro de febre, e que parte do salário era para pagar despesas de medicamentos fornecidos pelos empreiteiros.
Marx resumiu essas observações sobre a realidade árabe-argelina em 16 cartas redigidas às margens do Mar Mediterrâneo, com destaque para a visão colonial crítica marxiana e sobre as relações sociais na cultura muçulmana. Um aspecto, nesse conjunto de cartas, que se destaca é a postura natural, elegante e digna do povo argelino, de vestimenta quase opulenta em contraste com a realidade europeia, principalmente a francesa, a qual registrou:
[…] a riqueza e pobreza não tornam os filhos de Maomé uns diferentes dos outros. A absoluta igualdade em suas relações sociais não é influenciada por elas. Pelo contrário, são notadas apenas pelos desonestos. Não que se refere ao ódio pelos cristãos e à esperança numa vitória definitiva sobre os infiéis, seus políticos consideram, com razão, que o sentimento e a prática de absoluta igualdade (não de riqueza e renda, mas da pessoa) são garantias para manter vivo o ódio e não abandonar a esperança. Ambos, no entanto, sem um movimento revolucionário, caminham para a ruína (Marx apud Musto, 2018, p. 117).
Por meio desse trecho da carta enviada à sua filha Laura Lafargue, em 13 de abril de 1882, Marx registra seus encantos e como ficou maravilhado com as relações sociais argelinas e da noção de igualdade crônica, porém ressaltou a necessidade dessa noção de igualdade ser permeada por um movimento de inspiração revolucionária que desse cabo a toda forma de opressão, destacadamente a colonial. Marx não deixou de perceber que na cultura muçulmana não havia a subordinação, a autoridade pregada pela cultura ocidental. Principalmente, aquela oriunda das torturas contra os árabes e da brutalidade policial empregada pela autoridade colonial francesa. Finalmente, feliz com o que viu, ficou mais lisonjeado, ainda, com os resultados do tratamento que finalmente deram certo, e Karl Marx pode finalmente retornar à França, agora surpreendendo a todos, sem as longas madeixas e sem a barbas longa que o imortalizara.
Assim, “O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881–1883)” é um livro que merece e precisa ser lido, pois possibilita redescobrir Karl Marx como homem, cidadão preocupado com o mundo e como uma pessoa comum que elabora e pensa os problemas sociais. Entretanto, merece uma discussão o deslize cometido pela edição brasileira da Boitempo, pois no original a obra foi publicada em italiano com o título “L’ ultimo Marx (1881–1883). Saggio di biografia intellectuale”. “Último Marx” atenderia melhor as exigências da luta contra o etarismo, a categoria velho, além de pejorativa para vários usos, carrega toda uma conotação de coisa que está em idade avançada, antiquada e em desuso, portanto, nada mais distante daquilo que o pensamento de Karl Marx se tornou, ao longo dos anos, e porque está confrontante à ideia de uma sociedade nova, que é a grande contribuição do arcabouço marxiano para a humanidade, principalmente quando se leva em consideração que o etarismo embutido na categoria “velho” traz uma noção de coisa em declínio nas sociedades classistas e, dessa forma, que pode ser descartada após cumprir determinados papéis no seio da exploração do trabalho social. Se a tradução fosse para ‘’Último Marx”, traria embutida toda uma carga de atualizações e redescobertas que estão sendo feitas pelas novas gerações, assim, o universo categorial marxiano, agora, ganharia um novo ciclo de leituras e perquisições que colocariam possibilidade socialista na ordem do dia. E não possui nada de velho, ao contrário.
REFERÊNCIAS
MARX, KARL. O Capital: crítica da economia política: Livro III: o processo global da produção capitalista. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2017. 980 p.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. As lutas de classes na França. Tradução de Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2012. (Coleção Marx-Engels).
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Lutas de Classes na Rússia. São Paulo: Boitempo, 2013.
MUSTO, Marcello. O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881–1883). Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2018. 158 p.
Notas:
[1] Alusão à pele escura de Karl Marx que virou um apelido íntimo
[2] Marx assim se expressou como porque estavam esquecidos em uma gaveta ou porque estavam proibidos de circular.
[3] A deusa grega Atena era uma divindade no panteão grego, considerada a deusa da sabedoria, das habilidades e dos ofícios, da
guerra. Ela ficou marcada por ter nascido ao sair da cabeça de seu pai, Zeus.
[4] Conforme o Dicionário do Pensamento Marxista, obschina era um tipo de comuna russa, uma antiga comunidade de camponeses
russos na qual a terra era de propriedade inalienável da comuna, e periodicamente redistribuída em lotes às famílias pertencentes
a ela, em geral de acordo com o número de adultos do sexo masculino existentes em cada família. (Cf. Bottomore, Tom,1988)
[5] Musto refere-se ao “O Capital”
[6] Conforme confessou em carta enviada a Engels em 28 de março de 1882.