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Grécia, Itália e os sagazes sarcasmos de Marx sobre os “governos técnicos”

Se retornasse ao debate jornalístico no mundo de hoje, analisando o caráter cíclico e estrutural das crises capitalistas, Marx poderia ser lido com particular interesse hoje na Grécia e na Itália por um motivo especial: a reaparição do “governo técnico”.

Na qualidade de articulista do New York Daily Tribune, um dos diários de maior circulação de seu tempo, Marx observou os acontecimentos político-institucionais que levaram ao nascimento de um dos primeiros “governos técnicos” da história, em 1852, na Inglaterra: o gabinete Aberdeen (dezembro de 1852/janeiro de 1855).

A análise de Marx é notável por sua sagacidade e sarcasmo. Enquanto o Times celebrava o acontecimento como um sinal de ingresso “no milênio político, em uma época na qual o espírito de partido está destinado a desaparecer e no qual somente o gênio, a experiência, o trabalho e o patriotismo darão direito a acesso aos cargos públicos”, e pedia para esse governo o apoio dos “homens de todas as tendências”, porque “seus princípios exigem o consenso e o apoio universais”; enquanto os editorialistas do jornal diziam isso, Marx ridicularizava a situação inglesa no artigo “Um governo decrépito. Perspectivas do gabinete de coalizão”, publicado em janeiro de 1853.

O que o Times considerava tão moderno e bem articulado, era apresentado por Marx como uma farsa. Quando a imprensa de Londres anunciou “um ministério composto por homens novos”, Marx declarou que “o mundo ficará um tanto estupefato ao saber que a nova era da história está a ponto de ser inaugurada por cansados e decrépitos octogenários (…), burocratas que participaram de praticamente todos os governos desde o final do século passado, frequentadores assíduos de gabinetes duplamente mortos, por idade e por usura, e só mantidos vivos por artifício”.

Para além do juízo pessoal estava em questão, é claro, o de natureza política. Marx se pergunta: “quando nos promete a desaparição total das lutas entre os partidos, inclusive o desaparecimento dos próprios partidos, o que o Times quer dizer?” A interrogação é, infelizmente, de estrita atualidade no mundo de hoje, no qual o domínio do capital sobre o trabalho voltou a tornar-se tão selvagem como era em meados do século XIX.

A separação entre o “econômico” e o “político”, que diferencia o capitalismo de modos de produção que o precederam, chegou hoje ao seu ápice. A economia não só domina a política, fixando agendas e decisões, como retirou competências e atribuições que eram próprias desta, privando-a do controle democrático a tal ponto que uma mudança de governo já não altera as diretrizes da política econômica e social.

Nos últimos 30 anos, inexoravelmente, o poder de decisão foi sendo transferido da esfera política para a econômica, transformando possíveis decisões políticas em incontestáveis imperativos econômicos que, sob a máscara ideológica do “apolítico”, dissimulam, ao contrário, uma orientação claramente política e de conteúdo absolutamente reacionário. O deslocamento de uma parte da esfera política para a economia, como âmbito separável e inalterável, a passagem do poder dos parlamentos (já suficientemente esvaziados de valor representativo pelos sistemas eleitorais e majoritários e pela revisão autoritária da relação entre Poder Executivo e Poder Legislativo) para os mercados e suas instituições e oligarquias constitui, em nossa época, o maior e mais grave obstáculo interposto no caminho da democracia. As avaliações de Standard & Poor’s, os sinais vindos de Wall Street – esses enormes fetiches da sociedade contemporânea – valem muito mais do que a vontade popular.

No melhor dos casos, o poder político pode intervir na economia (as classes dominantes precisam disso, inclusive, para mitigar as destruições geradas pela anarquia do capitalismo e a violência de suas crises), mas sem que seja possível discutir as regras dessa intervenção e muito menos as opções de fundo.

Exemplos deslumbrantes disso são os acontecimentos dos últimos dias na Grécia e na Itália. Por trás da impostura da noção de um “governo técnico” – ou, como se dizia nos tempos de Marx, do “governo de todos os talentos” – esconde-se a suspensão da política (referendo e eleições estão excluídos), que deve ceder em tudo para a economia. No artigo “Operações de governo” (abril de 1853), Marx afirmou que “o mínimo que se pode dizer do governo de coalizão (“técnico”) é que ele representa a impotência do poder (político) em um momento de transição”. Os governos já não discutem as diretrizes econômicas, mas, ao contrário, as diretrizes econômicas é que são as parteiras dos governos.

No caso da Itália, a lista de seus pontos programáticos ficou clara em uma carta (que deveria ter sido secreta) dirigida pelo Banco Central europeu ao governo Berlusconi. Para “recuperar a confiança” dos mercados, é preciso avançar pela via das “reformas estruturais” – expressão que se tornou sinônimo de dano social – ou seja, redução de salários, revisão de direitos trabalhistas em matéria de contratações e demissões, aumento da idade de aposentadoria e privatizações em grande escala. Os novos “governos técnicos” encabeçados por homens crescidos sob o teto de algumas das principais instituições responsáveis pela crise (veja-se os currículos de Papademos e de Monti) seguirão esse caminho. Nem é preciso dizer, pelo “bem do país” e pelo “futuro das gerações vindouras”, é claro. Para o paredão com qualquer voz dissonante desse coro.

Mas se a esquerda não quer desaparecer tem que voltar a saber interpretar as verdadeiras causas da crise em curso e ter a coragem de propor e experimentar as respostas radicais exigidas para a sua superação.

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Karl Marx

Com a retomada, em 1998, das publicações da Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA2), o pensamento de Karl Marx pode ser recuperado, de maneira não instrumental, por pesquisadores do mundo todo. Ao longo das publicações anteriores, sua obra foi marcada por uma profunda e reiterada incompreensão, consequência das tentativas de sistematização mecânica de sua teoria crítica, pelo empobrecimento que acompanhou sua popularização, pela manipulação e censura de seus escritos e pelo uso instrumental dos mesmos para fins políticos. Agora, a incompletude dessa obra pode se destacar e, desobstruída pelas interpretações que anteriormente a deformaram, tornar-se, até mesmo, sua negação.

Nos últimos anos houve um ressurgimento internacional, por parte dos estudiosos, do interesse sobre um autor incompreendido. Seu pensamento, aparentemente fora de moda, de fato ainda se mantém indispensável para entender nosso momento atu- al, e finalmente retorna aos campos livres do conhecimento. Seu trabalho, liberto da odiosa fungão de instrumentum regni a qual serviu a um propósito instrumental no passado, torna-se foco de um renovado interesse.

As publicações da Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA2), retomada em 1998, após a interrupção que se seguiu ao colapso dos países socialistas; a reorganização da edição em curso dos seus escritos; e a transferência da sede da MEGA2 para Berlin- Brandenburgische Akademie der Wissenschaften, são os exemplos mais significantes desse renovado interesse na obra de Karl Marx. Recentemente, a importante meta de publicação do quinquagésimo volume — 0 décimo desde a retomada da publicação dos 114 previstos (cada um composto por dois livros, texto e aparato critico) — foi alcançada.

Muitas das ultimas descobertas filológicas da nova edição histérico-critica iluminam uma característica peculiar da obra de Marx: sua incompletude. Marx deixou muito mais manuscritos que escritos impressos. Esse foi ocaso também d’O Capital, cuja publicação completa, incluídos todos os trabalhos preparatórios de 1857 em diante, só será finalmente concluída na segunda secção da MEGA2, em 2010. Depois da morte de Marx, Friedrich Engels foi o primeiro a enfrentar a desafiadora empreitada — dada a dispersão dos materiais, a dificuldade da linguagem de Marx e a ilegibilidade de sua caligrafia – de publicar os fragmentários Nachlassde seu amigo. Esta série de dificuldades é especialmente aparente no terceiro livro d’O Capital (MEGA2, II/15), 0 único para o qual Marx foi incapaz, mesmo minimamente, de providenciar uma for- ma definitiva. A intensa atividade editorial, na qual Engels focou seus esforços no período entre 1885 e 1894, resultou na transição de um texto muito cru, principalmente através da composição de “pensamentos registrados in statu nascendi” e notas preliminares, para um texto orgânico de uma teoria económica sistemática. Não é surpreendente que isso tenha resultado em muitos erros de interpretação. E de grande interesse, a esse respeito, o volume prece- dente (MEGA2, II/14). Na verdade, ele contém os últimos seis manuscritos de Marx, escritos de modo esparso no período de 1871 a 1882, para o terceiro livro d’O Capital. O mais importante destes

manuscritos é volumoso Mehrwertrate und Profitrate mathematisch behandelt de 1875 — bem como os textos incluídos por Engels durante sua atividade editorial. Esses manuscritos, em particular, descrevem com inequívoca exatidão o trajeto percorrido até sua versão publicada que, levando em conta numero de intervenções no texto, se mostra bem maior do que se tinha até agora como hipótese: eles permitem entender os pontos fortes e fracos de Engels em seu papel de editor. Outra coisa que confirma o valor desse livro é o fato de que 45 dos seus 51 textos estão sendo publicados pela primeira vez.

A pesquisa filológica da MEGA2 produziu importantes resulta- dos também para a primeira Secção, a qual incluiu os escritos, artigos e rascunhos de Marx e Engels. Dois volumes foram publicados recentemente. O primeiro (MEGA2, I/14) inclui duzentos artigos e rascunhos, elaborados pelos dois autores em 1855 para o New York Tribune e para o Neue Order-Zeitung de Breslau. Muitos estudos suplementares tornaram possível incluir outros 21 textos (que não tinham sido atribuídos aos dois autores na medida em que foram publicados anonimamente no importante American Daily), pertencentes aos seus escritos mais famosos sobre a politica e diplomacia europeia, sobre crise economica internacional e sobre a guerra da Crimeia; 0 segundo volume (MEGA2, I/31) apresenta alguns dos textos tardios de Engels. O volume contém projetos, notas, incluindo o manuscrito Rolle der Gewalt in der Geschichte, mas sem os comentários de Edouard Bernstein, que foi o seu primeiro editor; comunicados para a organização movimento dos trabalha- dores; e uma série de prefácios para reimpressão de escritos e artigos já publicados. Entre esses últimos, de particular interesse são Die auswartige Politik des russischen Zarentums, a historia de duas décadas de politica externa da Russia publicada no Die Neue Ziet e depois proibida por Josef Stalin em 1934, e Juristen-Sozialismus, escrito com Karl Kautsky, cuja a paternidade das partes individuais esta, pela primeira vez, reconhecida com precisão.

Ha também desenvolvimentos interessantes na terceira secção da nova edição histérico-critica, que contém a correspondência. O tema principal em um volume (MEGA2, III/13) publicado recente- mente é a atividade politica de Marx na Associagao Internacional dos Trabalhadores (AIT), fundada em Londres em 28 de setembro de 1864. As cartas documentam a atividade de Marx no primeiro ano de vida da Associação, na qual ele rapidamente assumiu um papel dirigente cada vez maior, e atestam seu esforço em combinar comprometimento publico – depois de 16 anos estava novamente na linha de frente – com trabalho cientifico. Entre as questões debatidas: o papel dos sindicatos, cuja importância Marx enfatizava ao se opor diretamente a Ferdinand Lassalle, e sua proposta de formação de cooperativas fundadas pelo Estado prussiano: “a classe trabalhadora ou é revolucionária, ou não é nada”; a polémica contra o owenista John Weston, que resultou no conjunto de conferências que foram reunidas em 1898, depois de sua morte, em Salário, prego e lucro; os comentários sobre a Guerra Civil nos Estados Unidos; a brochura A questão militar prussiana e o partido alemão dos trabalhadores, de Engels.

O outro volume recente de correspondência (MEGA2, III/9) tem como pano de fundo a recessão económica de 1857. A crise deflagrou a esperança de Marx na recuperação do movimento revolucionário depois do impasse que se seguiu a derrota de 1848: “a crise continua cavando, como a boa velha toupeira que é°. Essa expectativa resultou no ressurgimento da produtividade intelectual de Marx e 0 impulsionou a delinear os contornos de sua teoria económica “antes do déluge’, pelo qual esperava, mas que novamente não se realizou. Foi nesse período mesmo que Marx compôs os últimos cadernos dos Grundrisse – um ponto de vista privilegiado para se observar a evolução da concepçao do autor – e decidiu pela publicação do seu trabalho em parcelas, a primeira das quais, Contribuição para a Critica da Economia Politica, apareceu em junho de 1859. De ponto de vista pessoal essa fase foi marcada por uma “miséria gangrenada’: “eu não acho que alguém alguma vez tenha escrito sobre ‘dinheiro’ tendo tao pouco da coisa”. E possível ver Marx lutando desesperadamente apesar de sua situação precária para completar sua “Economia”: “eu preciso perseguir meu objeto nos bons e maus momentos e não permitir que a sociedade burguesa me transforme numa máquina de fazer dinheiro”. Não obstante, ainda que completa- mente dedicado a completar a segunda parte, Marx não foi capaz de concluí-la e o primeiro livro d’O Capital sé foi publicado em 1867. A porção restante de seu imenso projeto, apesar do carater sistemático que lhe é normalmente atribuído, só seria realizada em parte e permaneceria cheia de manuscritos abandonados, rascunhos e projetos inacabados.

Fiel companhia e danação de toda produção literária de Marx, essa incompletude também é naturalmente evidente em seus primeiros trabalhos. O primeiro numero da nova série do Marx-Engels-Jahrbuch (Marx, Engels e Weydemeyer, 2004), que é inteiramente dedicado a Ideologia Alemā, é uma prova irrefutável disso. Esse livro — que antecipa o volume I/5 da MEGA2, finalmente publicado – contém partes de um manuscrito diretamente atribuído a Moses Hess e, diferente das edições anteriores, conterá as anotações de Marx e Engels exatamente como foram deixadas pelos autores, i.e. sem qualquer tentativa de reconstrução. As partes incluídas no Marx-Engels-Jahrbuch correspondem aos “capítulos” I. Feuerbach e I. Sankt Bruno. Os sete manuscritos que sobreviveram a “critica roedora dos ratos” estão selecionados como textos independentes e colocados em ordem cronológica. A natureza desigual dos textos é imediatamente percebida nessa edição. Em particular o capitulo sobre Feuerbach esta longe de completo. Ainda, como conjunto esse volume ajuda a estabelecer bases confiáveis para pesquisa futura sobre a elaboração do pensamento de Marx. A Ideologia Alemã, por vezes considerada como uma apresentação exaustiva da concepçao materialista de Marx, recuperou seu cárter fragmentário original.

Finalmente, tomando sempre a medida da preocupação do jovem Marx, vale a pena assinalar a reedição da coleção das obras de juventude de Marx pelos estudiosos social-democratas Landshut e Mayer (Marx, 2004). Essa edição, publicada originalmente em 1932 —ao mesmo tempo em que a “primeira” MEGA -,permitiu a disseminaçao dos Manuscritos Econémico-Filoséficos e da Ideologia Alemã, até então nao publicados, apesar do numero de erros de conteúdo e no arranjo das diferentes partes do texto, além de uma ma decifração da versão original.

Depois de muitas temporadas marcadas por uma profunda e reiterada incompreensão de Marx, consequência de certo esforço de sistematização de sua teoria critica – levando em conta seu caráter originalmente incompleto e não-sistemático -, pelo empobrecimento que acompanhou sua popularização, pela manipulação e censura de seus escritos e pelo uso instrumental dos mesmos para fins políticos, a incompletude dessa obra se destaca com indiscreto charme, desobstruída pelas interpretações que anteriormente a deformaram, tornando-se, até mesmo, sua negação. Dessa incompletude reemerge a riqueza de um pensamento problemático e polimórfico e um horizonte distante para o qual a Marx Forschung (a pesquisa em Marx) possui ainda tantos caminhos a percorrer.

Traducao: Daniela Mussi.

Referěncias bibliográficas
Engels, Friedrich. Werke, Artikel, Entwurfe. Oktober 1886 bis Februar 1891. Berlim: Akademie Verlag, 2002 (MEGA”, 1/31).
Marx, Karl e ENGELS, Friedrich. Briefwechsel Oktober 1864 bis De- zember 1865. Berlim: Akademie Verlag, 2002 (MEGA”, III/13).
Marx, Karl e Engels, Friedrich. Manuskripte und redaktionelle Texte zum dritten Buch des Kapitals‘; 1871 bis 1895. Berlin: Akademie Verlag, 2003 (MEGA”, II/14).
Marx, Karl e Engels, Friedrich. Briefwechsel Januar 1858 bis Au- gust 1859. Berlim: Akademie Verlag, 2003 (MEGA”, III/9).
Marx, Karl e Engels, Friedrich. Werke, Artikel, Entwurfe. Januar bis Dezember 1855. Berlim: Akademie Verlag, 2001 (MEGA’, I/14).
Marx, Karl, Engels, Friedrich e Weydemeyer, Joseph, Die deutsche Ideologie. Berlim: Akademie Verlag, 2004.
Marx, Karl. Das Kapital. Kritik der politischen Okonomie. Dritter Band. Hamburg 1894. Berlim: Akademie Verlag, 2004 (MEGA’, II/15).
Marx, Karl, Die Fruhschriften. Stuttgart: Kroner, 2004.

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A formação da crítica de Marx à economia política

I. Introdução
Apesar das previsões de que a obra de Marx seria relegada ao esquecimento eterno, ela retornou ao cenário histórico nos anos recentes e diversos de seus textos re-apareceram nas prateleiras das livrarias em várias partes do mundo. A redescoberta de Marx se baseia no poder de explicação ainda presente em seus escritos. Diante de uma nova e profunda crise do capitalismo, muitos estão se voltando para um autor que, no passado, foi muitas vezes erroneamente associado à União Soviética e que, por esse motivo, foi apressadamente esquecido após 1989.

Esse interesse político renovado foi precedido pelo ressurgimento de estudos históricos sobre o trabalho de Marx. Depois do esmaecimento de interesse em suas obras nos anos 80 e da “conspiração de silêncio” dos anos 90, edições novas ou re-publicações de seu trabalho se tornaram disponíveis em quase todos os lugares (com a exceção da Rússia e da Europa Oriental, onde os desastres do “socialismo realmente existente” ainda são recentes demais para que o ressurgimento de Marx figure na agenda), com resultados importantes e inovadores em diversos dos campos onde os novos estudos surgiram. [2]

Para os interessados nessas re-interpretações, especial atenção deve ser dada à edição histórico-crítica das obras completas de Marx e Engels, a Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA2), cuja publicação em partes foi retomada em 1998 (Cf. Musto 2009; Musto 2011). Temos, assim, acesso aos cadernos e a todos os manuscritos preparatórios para o segundo e terceiro volumes do Capital. Nos cadernos encontramos não apenas material retirado dos livros que Marx leu, mas também algumas das reflexões que ele fez sobre o que leu, revelando a oficina de sua teoria crítica, a trajetória completa de seu pensamento e as fontes nas quais se baseou para desenvolver suas próprias idéias. A publicação de todos os manuscritos do Capital e de todas as revisões editoriais feitas por Engels[3] possibilitará uma avaliação crítica confiável dos originais de Marx e da extensão das contribuições de Engels nas edições publicadas dos volumes dois e três.

Meu objetivo aqui é reconstruir os estágios da crítica de Marx à economia política sob a luz das aquisições filológicas da MEGA², para oferecer uma explicação mais completa da formação do pensamento de Marx em relação ao que já foi dito até agora. A grande maioria das pesquisas nessa área considerou apenas alguns períodos do desenvolvimento de sua obra, muitas vezes traçando uma linha direta dos [Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844] [4] até o [Grundrisse] (1957-58), e daí até o primeiro volume do Capital (1867), ou passando, no melhor dos casos, pela análise de apenas dois outros textos: A miséria da filosofia (1847) e as [Teorias da mais-valia] (1862-1863).[5]

O estudo de manuscritos preciosos e dos resultados interessantes que foram surgindo a partir dessas análises permaneceu como privilégio de um círculo restrito de intelectuais capazes de ler os volumes em alemão da MEGA². O objetivo deste ensaio é tornar esses textos mais conhecidos e reacender o debate sobre a origem e o caráter inconcluso do trabalho de Marx. [6] Meu estudo está dividido em duas partes. Na primeira, que corresponde ao ensaio presente, examino a pesquisa de Marx sobre a economia política e algumas de suas descobertas teóricas nesse campo, desde os estudos iniciais de 1843 à composição do [Grundrisse] (1857-58) – os volumosos manuscritos preparatórios do curto trabalho intitulado Uma contribuição para a crítica da economia política (1859), que é geralmente considerado o primeiro rascunho do Capital. No segundo artigo, a ser publicado num futuro próximo, examinarei a composição do Capital através de seus vários rascunhos, desde o [Grundrisse] até os manuscritos finais de 1881, escritos antes da morte de Marx. Sob a luz do novo material do MEGA², nessa parte considerarei mais cuidadosamente alguns dos debates marxológicos mais importantes do século XX, tais como aqueles relacionados à suposta lacuna entre os primeiros escritos e o Capital, ou à acusação de que Engels simplificou as idéias de Marx. Também procurarei demonstrar como uma leitura séria dos textos recém-publicados pode ser útil para uma nova leitura política da obra de Marx, com vistas à compreensão e transformação da sociedade contemporânea.

Inicialmente, o presente ensaio procura: a) reconstruir os estudos de economia política que Marx realizou em Paris, Manchester e Bruxelas entre 1843 e 1847 e que culminaram na publicação de A miséria da filosofia (§ II e III) e b) considerar o destino político e pessoal de Marx durante as revoluções de 1848 e o primeiro período de seu exílio posterior em Londres (§ IV e V). Nesse período ele escreveu sobre economia política para dois periódicos que ele fundou e dirigiu: entre 1848 e 1849 o Neue Rheinische Zeitung: Organ der Demokratie e, em 1850, o Neue Rheinische Zeitung: Politisch-ökonomische Revue. Também nessa época, ele consolidou sua convicção de que uma nova revolução só poderia surgir a partir de uma crise econômica mundial. Já a parte VI do presente texto enfoca os 26 cadernos de anotações que ele compilou entre 1850 e 1853, conhecidos como [Os cadernos de Londres]. Essas anotações dão prova de sua imersão em dezenas de obras sobre economia política, possibilitando reconstruir uma fase importante do pensamento de Marx que poucos intérpretes investigaram até agora. Finalmente, após uma discussão do julgamento dos Comunistas em 1853 (§ VII) – um acontecimento importante que mobilizou as energias Marx durante muito tempo – as partes VIII e IX deste texto analisam o desenvolvimento de sua posição nos artigos que escreveu para o New York Tribune sobre a possibilidade de uma crise econômica na década de 1850. A deflagração de tal crise acabaria por coincidir com o trabalho inicial no [Grundrisse], onde ele discute a relação entre dinheiro e valor e os processos de produção e circulação do capital, onde introduz o conceito de mais-valia e re-trabalha criticamente os estudos profundos de economia política que o tinham absorvido nos anos anteriores. Uma tabela no Apêndice estabelece a ordem cronológica dos cadernos de notas, dos manuscritos e das obras sobre economia política no período de 1843-1858.

II. O encontro com a Economia Política
A Economia Política não era a primeira paixão intelectual de Karl Marx: tratava-se de uma disciplina que acabava de surgir na Alemanha de sua juventude e seu interesse por ela só apareceu depois de diversos outros assuntos.Nascido em Trier em 1818, numa família de origem judaica, Marx iniciou sua vida acadêmica em 1835 estudando direito nas universidades de Bonn e Berlin. Em seguida, interessou-se pela filosofia (particularmente pelo Hegelianismo dominante na época) e acabou se graduando na Universidade de Jena em 1841, com a tese A diferença entre as filosofias Demócrita e Epicurea da Natureza. Ele decidiu, então, iniciar uma carreira acadêmica, mas a filosofia de Hegel deixou de ter apoio oficial quando Friedrich Wilhelm IV subiu ao trono na Prússia e Marx, tendo sido membro da Juventude Hegeliana, teve que mudar de planos. Entre 1842 e 1843 ele se dedicou ao jornalismo, cobrindo assuntos contemporâneos, e trabalhou para o Rheinische Zeitung, o diário da cidade de Colônia (Alemanha) do qual ele logo se tornou o jovem editor chefe. Entretanto, logo após ter aceitado o posto e ter começado a publicar seus próprios artigos sobre questões econômicas – embora apenas em seus aspectos legais e políticos (Marx 1975, p. 224-263, 332-358 e Marx e Engels 1975a, p. 199-236, 296-323) – a censura atacou o jornal e o obrigou a por fim na experiência, “retirando-se do palco público para os estudos” (Marx e Engels 1987: 263 e 1980:100).

Ele então prosseguiu com seus estudos sobre o Estado e as relações legais – áreas nas quais Hegel era uma autoridade reconhecida – e em 1843 escreveu o manuscrito que foi postumamente publicado como [Crítica da filosofia do direito de Hegel] (Marx 1975b, p. 231 e 1982: 325). Tendo desenvolvido a convicção de que a sociedade civil formava a base real do estado político, nesse texto ele apresentou suas primeiras reflexões sobre a importância dos fatores econômicos na formação da totalidade das relações sociais.

Marx iniciou um “estudo crítico rigoroso da economia política”[7] apenas depois de se mudar para Paris, onde, em 1844, ele fundou e ajudou a editar o Deutsch-französische Jahrbücher.[8] A partir desse momento, suas reflexões, que haviam sido basicamente de uma natureza filosófica, histórica e política, se voltaram para a nova disciplina que constituiria o cerne de sua pesquisa futura. Ele leu intensamente em Paris, preenchendo nove livros de notas e citações. De fato, na universidade ele havia adquirido o hábito de compilar resumos de obras, frequentemente acompanhadas por reflexões que elas lhe sugeriam.[9] Os chamados [Manuscritos de Paris] são especialmente interessantes por seus longos compêndios do Traité d’économie politique de Jean-Baptiste Say e d’ A riqueza das nações de Adam Smith[10] – de quem Marx adquiriu seus conhecimentos básicos de economia política – assim como dos Princípios da economia política e tributação de David Ricardo e dos Elementos de Economia Política de James Mill[11], que lhe possibilitaram fazer suas primeiras avaliações dos conceitos de valor e preço, e assim lançar uma crítica do dinheiro como dominação de coisas estranhas sobre o homem.

Ao mesmo tempo em que fazia esses estudos, Marx fez anotações em três cadernos que seriam publicados postumamente como [Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844], onde ele dá atenção especial ao conceito de trabalho alienado (entäusserte Arbeit). Indo na direção oposta dos principais economistas e do próprio Hegel, Marx viu esse fenômeno, através do qual a produção do trabalhador se opõe a ele como “algo estranho, como um poder independente do produtor” (Marx 1975b , p. 272 e 1982: 364-365) não como uma condição natural ou imutável, mas como característica de uma estrutura específica de relações sociais de produção: o modo capitalista de produção e o trabalho assalariado.

Algumas das pessoas que visitaram Marx nesse período dão testemunho da intensidade do seu ritmo de trabalho. O jornalista radical Heinrich Bürgers escreve no final de 1844: “Marx iniciou investigações profundas no campo da economia política com um projeto de escrever uma obra crítica que iria re-fundar a ciência econômica.” (Bürgers 1973: 46). Entusiasmando com a esperança de um levante social iminente, Friedrich Engels – que conheceu Marx no verão de 1844 e iniciou com ele uma relação de amizade e uma solidariedade teórico-política que duraria pelo resto de suas vidas – insistiu, na primeira carta de uma correspondência que duraria quarenta anos, que Marx publicasse o mais rápido possível: “Tome providências para que o material que você coletou seja publicado logo. Já está mais do que na hora!” (Engels a Marx, início de outubro de 1844, Marx e Engels 1982, p. 6). Mas o sentimento de inadequação que Marx tinha em relação ao seu conhecimento o impediu de completar e publicar seus manuscritos. Entretanto, ele escreveu com Engels [12] A sagrada família, ou A Crítica da Crítica crítica: contra Bruno Bauer e consortes, uma tirada polêmica contra Bauer e outras figuras do movimento da esquerda Hegeliana do qual Marx havia se afastado em 1842, acusando-os de operar em isolamento especulativo em torno, exclusivamente, de debates conceituais estéreis.

Tendo publicado esse trabalho, Engels lhe escreve novamente no início de 1845, insistindo para que o amigo completasse o trabalho em preparação:

Faça um esforço para acabar seu livro de economia política, mesmo que ainda haja coisas nele com as quais você esteja insatisfeito, não importa. Os ânimos estão exaltados e é preciso agir enquanto o ferro está quente (…). Já é mais do que tempo. Portanto, tente acabá-lo antes de abril. Faça como eu, estabeleça uma data final e faça com que o livro seja publicado logo. (Engels a Marx, 20 de janeiro de 1845, Marx e Engels 1982, p. 17-18).

Mas a insistência foi inútil. Marx ainda sentia a necessidade de continuar seus estudos antes de dar forma final aos rascunhos que havia escrito. De qualquer modo, ele estava certo de que logo poderia publicar e no dia 1 de fevereiro de 1845 – depois de ter sido expulso da França por ter colaborado com o Vorwärts!, um jornal publicado em alemão por trabalhadores – ele assinou um contrato com o editor Karl Wilhelm, da Darmstadt, para a publicação de um trabalho em dois volumes a ser intitulado “Crítica da política e da economia política” (Marx e Engels 1963, p. 669).

III. Continuando o estudo de economia
Em fevereiro de 1845 Marx se mudou para Bruxelas, onde conseguiu permissão para fixar residência desde que “não publicasse nada sobre a situação política atual” (Marx e Engels, 1975a: 677). Ele permaneceu ali até março de 1848 com sua esposa Jenny von Westphalen e sua primeira filha Jenny, nascida em Paris em 1844. Durante esses três anos, especialmente em 1845, ele progrediu de modo frutífero em seus estudos de economia política. Em março de 1845 ele iniciou o trabalho em uma crítica – que ele nunca chegou a completar – do livro do economista alemão Friedich List sobre “o sistema nacional de economia política” (Marx 1975c, p. 265-293). Além disso, entre fevereiro e julho ele completou seis cadernos com anotações, os chamados [Cadernos de Bruxelas], que enfocam principalmente os conceitos básicos de economia política, com ênfase especial nos Études sur l’économie politique, de Sismonde de Sismondi, nos Cours d’économie politique, de Henri Storch e nos Cours d’économie politique, de Pelegrino Rossi. Ao mesmo tempo, Marx se aprofundou em questões associadas à maquinaria e à indústria de larga escala, copiando uma série de páginas da Economia da maquinaria e dos manufaturadores, de Charles Babbage.[13] Com Engels, ele também planejou a organização da tradução alemã de uma “biblioteca dos melhores escritores socialistas estrangeiros”. [14] Porém, devido à escassez de tempo e a impossibilidade de assegurar fundos com algum editor, os dois tiveram que abandonar o projeto e se concentrar em seu próprio trabalho.

Marx passou os meses de julho e agosto em Manchester examinado a vasta literatura em inglês sobre economia, uma tarefa essencial para o livro que ele tinha em mente. Ele compilou nove cadernos de citações, os [Cadernos de Manchester], onde novamente as principais referências eram de manuais de economia política e livros sobre a história da economia, tais como Palestras sobre os elementos da economia política, de Thomas Cooper, aHistória dos preços e do estado de circulação, de Thomas Tooke, A literatura da economia política, de John Ramsay McCulloch e Ensaios sobre algumas questões abertas de economia política, de John Stuart Mill.[15] Marx também se interessou enormemente por questões sociais e juntou passagens de alguns dos principais volumes de literatura socialista em inglês, em especial doLabour’s Wrongs and Labour’s Remedy, de John Francis Bray e dos Essay on the Formation of Human Character e Book of the New Moral World, de Robert Owen.[16] Argumentos semelhantes foram apresentados no primeiro trabalho de Friedrich Engels, A condição da classe trabalhadora na Inglaterra, na verdade publicado em junho de 1845.

Na capital belga, além dos estudos sobre economia, Marx trabalhou em outro projeto que ele considerou necessário, diante das circunstâncias políticas. Em novembro de 1845 ele teve a idéia de escrever com Engels, Joseph Weydemeyer e Moses Hess uma “crítica da moderna filosofia alemã como exposta por seus representantes, Feuerbach, Bruno Bauer e Stirner, assim como do socialismo alemão como exposto por seus diversos profetas” (Marx e Engels 1976, p. 72). O texto final, publicado postumamente com o título de A ideologia alemã, tinha um objetivo duplo: combater as mais recentes formas do neo-hegelianismo na Alemanha (The Ego and His Own, de Max Stirner, havia sido publicado em outubro de 1844) para, em seguida, como Marx escreveu para o editor Leske, “preparar o público para a perspectiva adotada em minha Economia (Oekonomie), que se opõe, diametralmente, à academia alemã passada e presente”.[17] Esse texto, no qual ele trabalhou até junho de 1846, jamais foi completado, mas ajudou na elaboração mais clara, embora ainda não definitiva, daquilo que Engels definiria para o público quarenta anos mais tarde como a “concepção materialista da história”.[18]

Para rastrear o progresso da “Economia” em 1846, é novamente necessário analisar as cartas de Marx a Leske. Em agosto ele informou o editor que “o manuscrito do primeiro volume” já estava praticamente pronto “há muito tempo”, mas que ele não “queria publicá-lo sem uma nova revisão, tanto na questão do conteúdo quanto do estilo.” Ele continua: “É claro que um escritor que trabalha sem parar não pode, no final de seis meses, publicar palavra por palavra aquilo que escreveu seis meses antes.” Entretanto, ele procuraria concluir o livro no futuro próximo: “A versão revisada do primeiro volume estará pronta para publicação no final de novembro. O segundo volume, de natureza mais histórica, virá logo depois” (Karl Marx a Carl Wilhelm Julius Leske, 1 de agosto de 1846, Marx e Engels 1982, p. 51). Mas esses relatos não correspondiam ao estado real de seu trabalho, já que nenhum de seus manuscritos poderia ter sido descrito como “praticamente pronto” na medida em que o editor ainda não havia recebido nem sequer o primeiro no início de 1847, decidindo assim anular o contrato.

Esses atrasos constantes não deveriam ser atribuídos a qualquer tipo de descuido da parte de Marx. Ele nunca abandonou a atividade política nesses anos e na primavera de 1846 promoveu o trabalho do “Comitê de Correspondência Comunista”, cuja missão era organizar uma aliança entre as várias ligas de trabalhadores na Europa. Entretanto, o trabalho teórico sempre foi sua prioridade, como testemunham as pessoas que o visitavam regularmente nesse período. O poeta alemão Georg Weerth, por exemplo, escreveu em novembro de 1846:

Num certo sentido Marx é considerado o cabeça do partido comunista. Porém, muitos comunistas e socialistas auto-didatas ficariam espantados se soubessem o quanto esse homem é capaz de fazer. Marx trabalha dia e noite para esclarecer as mentes dos trabalhadores da América, da França, da Alemanha, etc. a respeito do sistema peculiar que os obscurece. (…) Ele trabalha como um louco em sua história da economia política. Há muitos anos esse homem não dorme mais do que quatro horas por noite. (Georg Weerth a Wilhelm Weerth, 18 de novembro de 1846, Enzensberger, 1973, p. 68-9).

Suas notas de trabalho e seus escritos publicados fornecem provas adicionais de sua diligência. Entre o outono de 1846 e setembro de 1847 ele completou três grandes cadernos com citações, em geral relacionadas à história da economia, retiradas da Geschichtliche Darstellung des Handels, der Gewerbe und des Ackerbaus der bedeutendsten handeltreibenden Staaten unsrer Zeit, de Gustav von Gülich, um dos principais economistas alemães da época.[19] Em dezembro de 1864, depois de ter lido o Système des contradictions économique ou Philosophie de la misere, de Pierre-Joseph Proudhon (que ele achou “muito fraco” [Marx a Pavel Vasilyevich Annenkov, 28 de dezembro de 1846, Marx e Engels 1982, p. 95]), Marx decidiu escrever uma crítica. Ele fez isso diretamente em francês, para que seu oponente, que não lia em alemão, fosse capaz de entendê-lo. O texto foi completado em abril de 1847 e publicado em julho com o título de Misère de la philosophie: Réponse à la Philosophie de la misère de M. Proudhon. Tratava-se do primeiro escrito publicado por Marx sobre economia política, que expunha suas idéias sobre a teoria do valor, a abordagem metodológica apropriada para uma compreensão da realidade social e o caráter historicamente transiente dos modos de produção.

O adiamento do livro planejado – uma crítica da economia política – não se devia, portanto, à falta de aplicação de Marx, mas à dificuldade da tarefa. A questão a ser examinada criticamente era tão vasta que seriam necessários muitos mais anos para discuti-la com sua característica seriedade e consciência crítica. No final da década de 1840, embora ele não estivesse totalmente consciente disso, Marx estava apenas no início de seus esforços.

IV. 1848 e o início da revolução
Enquanto os conflitos sociais se intensificavam na segunda metade de 1847, as atividades políticas exigiam mais tempo de Marx. Em junho a Liga Comunista, uma associação de trabalhadores e artesãos alemães com filiais internacionais, foi fundada em Londres; em agosto Marx e Engels estabeleceram uma Associação de Trabalhadores Alemães em Bruxelas; e em novembro Marx se tornou vice-presidente da Associação Democrática de Bruxelas, que se dividia entre uma ala revolucionária e uma parte democrática mais moderada. No final do ano de 1847, a Liga Comunista deu a Marx e a Engels a tarefa de escrever um programa político, e pouco tempo depois, em fevereiro de 1848, esse texto foi publicado com o título de Manifesto do Partido Comunista. Suas palavras iniciais – “Um espectro ronda a Europa, o espectro do comunismo” – estavam destinadas a se tornarem famosas em todo o mundo. Uma de suas teses principais teria o mesmo destino: “A história de todas as sociedades até hoje existentes é a história da luta de classes” (Marx e Engels 1976, p. 481-482).

A publicação do Manifesto não poderia ter sido mais apropriada. Logo em seguida, um movimento revolucionário de abrangência e intensidade sem precedentes lançou a ordem política e social do continente europeu numa crise. Os governos estabelecidos tomaram todas as contra-medidas possíveis para por fim às insurreições e em março de 1848 Marx foi expulso da Bélgica para a França, onde uma república acabara de ser proclamada. Naturalmente, ele deixou de lado seus estudos de economia política e intensificou suas atividades jornalísticas em prol da revolução, ajudando a pensar num rumo político desejável. Em abril ele se mudou para a região da Rhineland – a mais desenvolvida economicamente e mais liberal politicamente na Alemanha – e em junho começou a editar o Neue Rheinische Zeitung. Organ der Demokratie, que havia sido fundado em Colônia nesse meio tempo. Embora seus artigos sejam, em sua maioria, crônicas dos eventos políticos, em abril de 1849 ele publicou uma série de editoriais sobre a crítica da economia política, pois acreditava que a hora havia chegado em que “era preciso lidar mais diretamente com as próprias relações sobre as quais a existência da burguesia e sua ordem, assim como a escravidão dos trabalhadores, se fundam” (Marx 1977, p. 198). Cinco artigos baseados em palestras que ele havia proferido em dezembro de 1847 para a Associação de Trabalhadores Alemães em Bruxelas apareceram com o título Trabalho Assalariado e Capital, onde Marx apresentava ao público, de modo mais extenso do que no passado e na linguagem mais compreensível possível para os trabalhadores, sua concepção dos modos através dos quais o trabalho assalariado era explorado pelo capital.

Entretanto, o movimento revolucionário que surgiu em toda a Europa em 1848 foi derrotado num curto espaço de tempo. Entre as razões para a vitória do lado autoritário e conservador estavam: a recuperação da economia; a debilidade da classe trabalhadora, que em alguns países mal podia contar com uma estrutura organizacional; a retirada do apoio das classes médias às reformas, que se aproximaram da aristocracia para impedir o movimento em direção a um radicalismo excessivo. Tudo isso permitiu que as forças políticas reacionárias retomassem um controle firme sobre as rédeas do governo.

Após um período de intensa atividade política, em maio de 1848 Marx recebeu uma ordem de expulsão da Prússia e voltou à França. Mas, quando a revolução foi derrotada em Paris, as autoridades ordenaram que ele se mudasse para Morbihan, então uma região desolada e infestada de malária da Bretanha. Diante de “atentado velado contra minha vida”, ele decidiu abandonar a França e ir para Londres, onde ele acreditava existir “condições positivas para começar um jornal em alemão” (Karl Marx a Friedrich Engels, 23 de agosto de 1849, Marx e Engels 1982, p. 213). Ele permaneceria na Inglaterra como exilado pelo resto da vida, mas a reação européia não poderia tê-lo isolado num lugar melhor para que ele escrevesse sua crítica da economia política. Na época, Londres era o mais importante centro econômico e financeiro do mundo, o “demiurgo do cosmos burguês” (Marx e Engels 1978, p. 134), e, portanto, o local mais favorável do qual observar os mais recentes desenvolvimentos econômicos e retomar seus estudos da sociedade capitalista.

V. Em Londres esperando pela crise
Marx chegou à Inglaterra no verão de 1849, aos trinta e um anos. Sua vida na capital inglesa estava longe de ser tranqüila. Sua família – que contava com seis pessoas após o nascimento de Laura em 1845, de Edgar em 1847 e de Guido logo após sua chegada em 1849 – teve que morar por um longo período em condições precárias no Soho, um dos bairros mais pobres de Londres à época. Além dos problemas familiares, Marx estava envolvido num comitê de ajuda aos exilados alemães, que ele financiava com o apoio da Liga Comunista e cuja missão era dar assistência a diversos refugiados políticos em Londres.

A despeito das condições adversas, Marx conseguiu atingir seu objetivo de iniciar uma nova publicação. Em março de 1850 ele começou a editar a Neue Rheinische Zeitung. Politisch-okonomische Revue, uma publicação mensal que ele esperava ser o lugar de uma “investigação abrangente e científica das condições econômicas que formam a base da totalidade do movimento político”. Ele acreditava que “um tempo de aparente calma como o presente deve ser utilizado precisamente para o propósito de elucidar o período revolucionário pelo qual acabamos de passar, a natureza das partes conflitantes e as condições sociais que determinam a existência e a luta entre essas partes” (Marx e Engels 1978, p. 5).

Marx estava convencido, erroneamente, que a situação seria um interlúdio breve entre a revolução concluída recentemente e uma outra que se preparava mais adiante. Em dezembro de 1849 ele escreveu ao amigo Weydemeyer: “Estou seguro de que quando três, talvez dois números mensais [da Neue Rheinische Zeitung] tiverem aparecido, uma conflagração mundial intervirá e a oportunidade de acabar temporariamente com a economia política terá se dissipado”. Uma “poderosa crise industrial, agrícola e comercial” estava claramente iminente (Karl Marx a Joseph Weydemeyer, 19 de dezembro de 1849, Marx e Engels1982: 220). E ele contava com o surgimento de um novo movimento revolucionário, embora apenas após o início da crise, pois a prosperidade industrial e comercial enfraquecia a resolução das massas proletárias. Mais tarde, em As lutas de classe na França, que apareceram na forma de uma série de artigos na Neue Rheinische Zeitung, ele afirmou que “uma revolução verdadeira (…) só é possível em períodos nos quais (…) as modernas forças de produção e as formas burguesas de produção entram em conflito (…). Uma nova revolução só é possível como conseqüência de uma nova crise” (Marx 1978, p. 135). Marx não mudou de opinião mesmo quando a prosperidade econômica começou a se espalhar e no primeiro número da Neue Rheinische Zeitung (janeiro-fevereiro) ele escreveu que a reviravolta não tardaria, pois os mercados da Índias Ocidentais estavam “já praticamente saturados” e que os da América do Norte e do Sul, assim como da Austrália, em breve seguiriam o mesmo caminho. Logo:

[…] com as primeiras notícias sobre esses excedentes, as área de produção e especulação entrarão em “pânico” simultaneamente – talvez já no final da primavera, no máximo em julho ou agosto. Essa crise, entretanto, que deve coincidir com grandes conflitos no Continente, terá resultados bem diferentes daqueles das crises anteriores. Enquanto todas as crises até agora tem sinalizado um novo avanço, uma nova vitória da burguesia industrial sobre a propriedade rural e a burguesia financeira, esta crise marcará o início da moderna revolução inglesa (Marx e Engels, 1978a, p. 254-255).

Também no número seguinte, de março-abril de 1850, Marx argumentava que a conjuntura econômica positiva não representava mais do que uma melhora temporária, pois a superprodução e os excessos da especulação no setor das estradas de ferro estavam produzindo uma crise cujos efeitos seriam:

[…] mais significativos do que de qualquer crise até agora. Ela coincide com a crise da agricultura (…). Essa crise dupla na Inglaterra está sendo apressada e expandida, tornando-se mais inflamável, pelas convulsões que simultaneamente ameaçam o Continente; e as revoluções continentais assumirão um caráter socialista incomparavelmente mais claro com os efeitos da crise inglesa no mercado mundial (Marx e Engels 1978b, p. 340).

O cenário desenhado por Marx, que levava em consideração tanto os mercados europeus quanto os norte-americanos, era bastante otimista do ponto de vista da causa do movimento dos trabalhadores. Em sua opinião, “após a entrada da América na recessão causada pela superprodução, podemos esperar que a crise se desenvolva bem mais rapidamente no mês seguinte do que até o momento.” Sua conclusão, portanto, era otimista: “A coincidência da crise do comércio e da revolução (…) torna-se cada vez mais certa. Que les destins s’accomplissent!” (Marx e Engels 1978b, p. 341).

Durante o verão Marx aprofundou a análise econômica iniciada antes de 1848 e no número de maio-outubro de 1850 do jornal – o último antes que a falta de fundos e a polícia prussiana forçassem seu fechamento. Ele chegou à importante conclusão de que “a crise comercial contribuiu infinitamente mais para as revoluções de 1848 do que a revolução para a crise comercial” (Marx e Engels 1978c, p. 497). A partir desse ponto, a crise econômica adquiriu uma importância fundamental em seu pensamento, não apenas economicamente, mas também sociológica e politicamente. Além disso, ao analisar os processos de especulação e superprodução galopantes, ele se aventurou a prever que “se o novo ciclo de desenvolvimento industrial que começou em 1848 seguir o mesmo curso daquele de 1843-1847, a crise acontecerá em 1852.” A crise futura, ele enfatizava, também atingiria o campo e “pela primeira vez a crise industrial e comercial coincidirá com a crise da agricultura.” (Marx e Engels 1978c, p. 503).

As previsões de Marx realizadas nesse período de mais de um ano se provaram equivocadas. Porém, mesmo nos momentos em que ele estava mais firmemente convencido de que uma nova onde revolucionária estava iminente, suas idéias eram bem diferentes daquelas de outros líderes políticos europeus exilados em Londres. Embora Marx estivesse errado a respeito do desenvolvimento da situação econômica, ele considerava indispensável o estudo do atual estado das relações econômicas e políticas para os objetivos da atividade política. De outro lado, a maior parte dos líderes democráticos e comunistas da época, que ele caracterizou como “alquimistas da revolução”, pensavam que o único pré-requisito para uma revolução vitoriosa era a “preparação adequada de sua conspiração” (Marx e Engels 1978c, p. 318).

Um exemplo disso era o manifesto “Às Nações”, publicado pelo Comitê Central da Democracia Européia, que Giuseppe Mazzini, Alexandre Ledru-Rollin e Arnold Ruge haviam fundado em Londres em 1850. De acordo com Marx, esse grupo dava a crer que “a revolução fracassou devido à ambição e inveja dos líderes individuais e às visões mutuamente hostis dos diversos educadores populares.” Ele também ficou “estupefato” com o modo através do qual esses líderes concebiam a “organização social”: “uma multidão se formando nas ruas, um tumulto, um aperto de mãos e tudo acaba. Em sua visão, a revolução consiste meramente na derrubada do governo existente: assim que esse objetivo for atingido, “a vitória” terá sido conquistada” (Marx e Engels 1978c, p. 529-530).

Ao contrário daqueles que esperavam que outra revolução surgisse do nada, Marx estava convencido, no outono de 1850, de que ela não aconteceria sem uma nova crise mundial. A partir desse ponto, ele se distanciou das falsas esperanças de uma revolução iminente [20] e viveu em “completo isolamento” (Marx a Engels, 11 de fevereiro de 1851, Marx e Engels 1982: 286). Como escreveu Wilhelm Pieper, um membro da Liga Comunista, em janeiro de 1851: “Marx leva uma vida bastante retirada e seus únicos amigos são John Stuart Mill e Loyd. Sempre que se faz uma visita, ele recebe o visitante com categorias econômicas no lugar de cumprimentos” (Marx a Engels [notas de Wilhelm Pieper], 27 de janeiro de 1851, Marx e Engels 1982, p. 269-270).

Nos anos seguintes, Marx, de fato, viu poucos amigos em Londres e manteve contato próximo apenas com Engels, que nesse ínterim tinha se estabelecido em Manchester. Em fevereiro de 1851 Marx escreveu a Engels: “Fico enormemente satisfeito com o isolamento público e autêntico no qual nós dois, você e eu, nos encontramos. Está inteiramente de acordo com nossas atitudes e princípios” (Marx a Engels, 11 de fevereiro de 1851, Marx e Engels, 1982, p. 286). Engels, de sua parte, respondeu: “É essa a posição que podemos e devemos adotar na próxima ocasião: “a crítica feroz de todos.” O “principal” era “encontrar algum modo de publicar nossas coisas, seja numa revista na qual possamos fazer um ataque frontal e consolidar nossa posição em relação às outras pessoas, ou em livros.” Em resumo, ele concluiu com certo otimismo, “o que pode todo o blá-blá-blá de toda a turba de exilados contra você, quando você pode responder com sua economia política?” (Engels a Marx, 13 de fevereiro de 1851, Marx e Engels 1982, p. 290-291). O desafio, portanto, tornou-se a previsão do início da crise. Para Marx, que agora tinha um motivo político adicional, havia chegado a hora de se voltar novamente ao estudo da economia política.

VI. As notas de pesquisa de 1850-53
Durante os três anos em que Marx interrompeu seus estudos de economia política, houve uma sucessão de eventos econômicos – desde a crise de 1847 até a descoberta de ouro na Califórnia e na Austrália – cuja importância o levou a retomar a pesquisa, ao mesmo tempo em que revisava suas anotações antigas para tentar dar a elas uma forma acabada. (Tuchscheerer, 1973, p. 318). Suas leituras adicionais foram resumidas em 26 livros de anotações, dos quais 24 (também contendo textos de outras disciplinas) ele compilou entre setembro de 1850 e agosto de 1853, numerando-os entre os chamados [Cadernos de Londres]. Esse material de estudo é extremamente interessante, documentando um período de desenvolvimento significativo na crítica de Marx, quando ele não apenas resumiu o conhecimento que havia adquirido, mas, ao estudar dezenas de novos livros em profundidade, especialmente em inglês, na biblioteca do Museu Britânico, adquiriu outras idéias importantes para o trabalho que ele pensava em escrever. [21]

Os [Cadernos de Londres] podem ser divididos em três grupos. Nos primeiros sete cadernos (I-VII), escritos entre setembro de 1850 e março de 1851, alguns dos diversos trabalhos que Marx leu e anotou foram: A History of Prices de Thomas Tooke, A View of the Money System of England de James Taylor, Histoire de la Monnaie de Germain Garnier, os Sämtliche Schriften über Banken und Münzwesen de Johann Georg Büsch,An Enquiry into the Nature and Effects of the Paper Credit of Great Britain de Henry Thornton, e A riqueza das nações de Adam Smith. [22] Marx se concentrou especialmente na história e teorias das crises econômicas, prestando bastante atenção à forma do dinheiro e ao crédito em sua tentativa de entender suas origens. Ao contrário de outros socialistas da época como Proudhon – que estavam convencidos que as crises econômicas poderiam ser evitadas através da reforma do sistema monetário e de crédito – Marx chegou à conclusão que, como o sistema de crédito constituía uma das condições básicas, as crises poderiam, no máximo, serem agravadas ou mitigadas através do uso correto ou incorreto da circulação monetária. As verdadeiras causas da crise deveriam, na verdade, ser procuradas nas contradições da produção. [23]

No final do primeiro grupo de anotações, Marx resumiu seu próprio conhecimento em dois cadernos que ele não numerou como parte da série principal e que foram intitulados [Ouro: o sistema monetário perfeito] (Marx 1986c, p 3-85).[24] Nesse manuscrito, que ele escreveu na primavera de 1851, Marx copiou dos principais trabalhos de economia política – às vezes incluindo seus próprios comentários – aquilo que ele considerava como as passagens mais importantes sobre a teoria do dinheiro. Dividido em 91 partes, uma para cada livro analisado, [Ouro] não era apenas uma coleção de citações, mas pode ser pensado como a primeira formulação autônoma de Marx sobre a teoria do dinheiro e da circulação [25] a ser utilizada na escrita do livro que ele vinha planejando há muitos anos.

Nesse mesmo período, embora Marx tivesse que enfrentar problemas pessoais terríveis – especialmente a morte de seu filho Guido em 1850 – e suas condições econômicas fossem precárias – a ponto dele se ver forçado a delegar os cuidados de sua filha Franziska, nascida em março de 1851, a estranhos – Marx não apenas conseguiu dar continuidade a seu próprio trabalho, mas estava esperançoso de que ele seria concluído em breve. Em 2 de abril de 1851, ele escreveu a Engels:

Estou tão adiantado que creio que terei terminado toda essa tralha econômica em cinco semanas. Et cela fait terei terminado a Economia em casa e poderei aplicar-me à outra área do conhecimento no Museu [Britânico]. Ça commence à m’ennuyer. Au fond, essa ciência não fez progresso desde A. Smith e D. Ricardo, a despeito do quanto tenha sido feito em pesquisas individuais, muitas vezes de grande discernimento. … Em breve terei prontos dois volumes de 60 páginas. [Tradução modificada.] (Marx a Engels, 2 de abril de 1851, Marx e Engels 1982, p. 325).

Engels recebeu a notícia com grande alegria: “Fico feliz que você tenha finalmente terminado com a economia política. A coisa já está se alongando e enquanto você tiver na sua frente um livro cuja leitura você considere importante, você não vai começar a escrever.” (Engels a Marx, 3 de abril de 1851, Marx e Engels 1982, p. 330). Mas a carta de Marx refletia mais seu otimismo sobre o fim do trabalho do que o estado real das coisas. À parte todos os cadernos de anotações, e com a exceção de [Ouro], este último longe de ser um texto pronto para impressão, Marx ainda não tinha produzido um único manuscrito. Sem dúvida, ele havia conduzido sua pesquisa com grande intensidade, mas ele ainda não dominava totalmente os materiais econômicos e, a despeito de sua determinação e convicção de que obteria sucesso, seus escrúpulos o impediam de avançar além de suas anotações e comentários críticos para finalmente escrever seu livro. Além disso, não havia um editor nos bastidores insistindo para que ele fosse mais conciso em seus estudos. A “Economia” estava longe de estar pronta “em breve”.

Assim, Marx se voltou mais uma vez para o estudo dos clássicos da economia política e entre abril e novembro de 1851 escreveu o que pode ser visto como o segundo grupo (VIII-XVI) dos [Cadernos de Londres]. O Caderno VIII é quase todo dedicado às anotações retiradas doInquiry into the Principles of Political Economy de James Steuart, que ele havia começado a estudar em 1847 e doPrincípios da economia política e tributação, de Ricardo. As citações de Ricardo, na verdade, compiladas enquanto ele escrevia o [ Ouro], constituem a parte mais importante dos [Cadernos de Londres], devido aos inúmeros comentários e reflexões pessoais que as acompanham.[26] Até o final da década de 1840, Marx tinha essencialmente aceito as teorias de Ricardo, enquanto que a partir de agora, através do estudo novo e mais aprofundado da renda da terra e do valor, ele vai além de Ricardo em certos aspectos. [27]

Desse modo, Marx revisou algumas de suas visões anteriores sobre questões fundamentais e, assim, expandiu o raio de seu conhecimento para examinar ainda outros autores. Os Cadernos IX e X, de maio-julho de 1851, se concentram em economistas que lidaram com as contradições da teoria de Ricardo e que, em certos aspectos, tinham aperfeiçoado suas concepções. Um grande número de anotações desses livros são provenientes de: A History of the Past and Present State of the Labouring Population de John Debell Tuckett, Popular Political Economy de Thomas Hodgskin, On Political Economy de Thomas Chalmers, An Essay on the Distribution of Wealth de Richard Jones e Principles of Political Economy de Henry Charles Carey[28]. A despeito do escopo mais amplo da pesquisa e da acumulação de questões teóricas a serem resolvidas, Marx permaneceu otimista em relação à conclusão do projeto. No final de junho de 1851 ele escreveu ao fiel Weydemeyer:

Geralmente estou no Museu Britânico das 9 da manhã às 7 da noite. O material no qual estou trabalhando é tão terrivelmente complexo que, não importa o quanto eu me dedique, só poderei concluí-lo dentro de 6 ou 8 semanas. Além disso, há interrupções constantes de natureza prática, inevitáveis nas circunstâncias miseráveis nas quais estamos vegetando aqui. Mas, mesmo assim, a coisa está chegando rapidamente à sua conclusão. (Marx a Joseph Weydemeyer, 27 de junho de 1851, Marx e Engels 1982, p. 377).

Evidentemente, Marx pensou que seria capaz de escrever seu livro em dois meses, utilizando a vasta quantidade de anotações e notas críticas que ele já havia compilado. Entretanto, mais uma vez ele não conseguiu chegar à tão desejada conclusão, nem tampouco conseguiu começar o manuscrito final que seria enviado aos editores. Desta vez a razão principal para o atraso foram suas dificuldades econômicas. Na falta de uma fonte de renda estável e desgastado por sua condição física, ele escreveu a Engels no final de julho de 1851:

É impossível seguir vivendo assim… Eu deveria ter terminado meu trabalho na biblioteca há muito tempo. Mas tem havido muitas interrupções e distúrbios e em casa tudo está num estado de guerra. Por diversas noites estou num estado lamentável e me enfureço até as lágrimas. É claro que não consigo fazer muita coisa. (Marx a Engels, 31 de julho de 1851, Marx e Engels 1982, p. 398).

Para melhorar sua situação financeira, Marx decidiu retomar a atividade jornalística e começou a procurar um jornal. Em agosto de 1851 ele se tornou correspondente do New York Tribune, o jornal de maior circulação nos Estados Unidos, escrevendo centenas de páginas durante um período intenso que se estendeu até fevereiro de 1862.[29] Ele escreveu sobre os principais eventos políticos e diplomáticos da época, além de uma questão econômica e financeira após a outra, de modo a se tornar em poucos anos um jornalista respeitado.

Entretanto, o estudo crítico da economia política prosseguiu por todo o verão de 1851. Em agosto, Marx leu o Idée générale de la Révolution au XIXe siècle de Proudhon e planejou escrever uma crítica dele junto com Engels (projeto que mais tarde ele deixou de lado).[30] Além disso, ele continuou a compilar anotações de suas leituras: o Caderno XI é sobre textos que lidam com a condição da classe trabalhadora e os Cadernos XII e XIII cobrem suas pesquisas sobre química agrária. Tendo compreendido a importância dessa disciplina para o estudo do renda da terra, ele fez inúmeras anotações deDie organische Chemie in ihrer Anwendung auf Agricultur und Physiologie de Justus Liebig e do Elements of Agricultural Chemistry and Geology de James F.W. Johnston.

No Caderno XIV, Marx se voltou mais uma vez para o debate sobre a teoria da população de Thomas Robert Malthus, especialmente nos The Principles of Population escrito por seu oponente Archibald Alison. Pesquisou os modos pré-capitalistas de produção, como demonstraram as passagens de Économie politique des Romains de Adolphe Dureau de la Malle e de History of the Conquest of Mexico e History of the Conquest of Peru de William H. Prescott. Marx também estudou o colonialismo, particularmente através de Lectures on Colonization and Colonies de Herman Merivale (Marx e Engels 1991). Finalmente, entre setembro e novembro de 1851, ele estendeu seu campo de pesquisa à tecnologia, dando espaço considerável no Caderno XV à história da tecnologia de Johann H. M. Poppe e no Caderno XVI a diversas questões de economia política.[31] Como uma carta a Engels de meados de outubro de 1851 mostra, Marx estava, então, “inteiramente envolvido no trabalho sobre a Economia”, “pesquisando sobretudo a tecnologia, sua história e a agronomia”, para que ele pudesse “formar algum tipo de opinião sobre o assunto” Marx a Engels, 13 de outubro de 1851, Marx e Engels 1982: 476).

No final de 1851, a editora Löwenthal de Frankfurt demonstrou interesse pelo projeto de Marx. Da correspondência com Engels e Lassalle [32], pode-se inferir que Marx trabalhava então num projeto em três volumes: o primeiro introduziria sua própria concepção, enquanto o segundo traria uma crítica de outros socialismos e o terceiro uma história da economia política. Entretanto, inicialmente o editor estava interessado apenas no terceiro volume, com a opção de publicar os outros se o projeto se mostrasse bem sucedido. Engels procurou convencer Marx a aceitar a mudança de planos e assinar um contrato: era necessário “avançar enquanto a situação é propícia” e era “absolutamente essencial quebrar o encanto criado por sua longa ausência do mercado editorial alemão e, mais tarde, negociar com os editores [tradução modificada]” Engels a Marx, 27 de novembro de 1851, Marx e Engels 1982, p. 494). – mas o interesse do editor não se confirmou e o projeto redundou em nada. Após dois meses, Marx se voltou novamente ao fiel Weydemeyer nos Estados Unidos para perguntar-lhe se não seria possível “encontrar aí um editor para [sua] Economia” (Karl Marx a Joseph Weydemeyer, 30 de Janeiro de 1852, Marx e Engels 1983b, p. 26).

Apesar desses obstáculos à publicação, Marx não perdeu o otimismo no que se referia à iminência de uma crise econômica. No fim de 1851, ele escreveu ao famoso poeta Ferdinand Freiligrath, um velho amigo: “A crise, contida por todos os tipos de fatores (…), deve explodir no máximo no próximo outono. E,après les derniers événements je suis plus convaincu que jamais, qu’il n’y aura pas de révolution sérieuse sans crise commerciale.’ [33]

Enquanto isso, Marx deu prosseguimento ao seu trabalho. Entre dezembro de 1851 e março de 1852, ele escreveu O dezoito brumário de Luís Bonaparte, mas, devido ao estado de censura de seus escritos na Prússia, ele teve que publicar seu texto em Nova York, no períodico de pequena circulação de Weydemeyer, Die Revolution. A esse respeito, ele disse a um amigo, Gustav Zerffi, no final de 1852 : “nenhum editor ousa publicar qualquer coisa que eu tenha escrito.” (Marx a Gustav Zerffi, 28 December 1852, Marx e Engels 1983, p. 270). Entre maio e junho de 1852, ele escreveu o polêmico Grandes homens do exílio, uma galeria de caricaturas de figuras importantes da emigração política alemã em Londres (Johann Gottfried Kinkel, Ruge, Karl Heinzen e Gustav von Struve). Entretanto, a busca por um editor foi inútil: o manuscrito foi dado ao húngaro János Bangya, para que ele o levasse à Alemanha, mas ele era na verdade um agente da polícia que entregou o manuscrito às autoridades. O texto, portanto, não foi publicado durante a vida de seus dois autores.

Entre abril de 1852 e agosto de 1853, Marx recomeçou a compilação de passagens e escreveu o terceiro e último grupo (XVII-XXIV) dos [Cadernos de Londres], que ainda não foram publicados. Essas partes lidam principalmente com os vários estágios do desenvolvimento da sociedade humana, com grande parte da pesquisa se concentrando nas controvérisas históricas sobre a Idade Média e sobre a história da literatura, da cultura e dos costumes. Ele tinha interesse particular pela Índia, país sobre o qual estava escrevendo para o New York Tribune.

Como demosntra esse amplo campo de interesses, Marx não estava exatamente “descansando”. Os obstáculos aos seus projetos novamente tinham a ver com a pobreza contra a qual ele lutou todos esses anos. Apesar do apoio constante de Engels – que a partir de 1851 começou a enviar-lhe 5 libras esterlinas por mês e o dinheiro do New York Tribune, que pagava duas libras esterlinas por artigo –, Marx vivia em condições verdadeiramente desesperadoras. Ele não apenas teve que enfrentar a morte da filha Franziska, em abril de 1852, mas também uma vida cotidiana que estava se tornando uma longa batalha. Em setembro de 1852 ele escreveu a Engels:

Nos últimos 8-10 dias tenho alimentado minha família apenas com pão e batatas, mas não tenho certeza de que conseguirei ao menos isso hoje (…). A melhor coisa que poderia acontecer seria que a dona do apartamento nos despejasse. Assim, eu poderia pelo menos economizar a quantia de ₤22 (…). Ainda por cima, as dívidas continuam se acumulando: devemos ao padeiro, ao leiteiro, ao homem do chá, ao quitandeiro, ao açougueiro. Como poderei sair desse inferno? Por fim (…) [mas isso foi] essencial para que permaneçamos vivos, consegui, nos últimos 8-10 dias pegar emprestado alguns trocados de conhecidos alemães. (Marx a Engels, 8 de setembro de 1852, Marx e Engels 1983, p. 181-2).

Tudo isso teve um efeito devastador sobre o trabalho e o tempo de Marx: “Às vezes passo um dia todo para conseguir uns centavos. Garanto que quando vejo o sofrimento de minha esposa e a impossibilidade de fazer algo a respeito, tenho vontade de mandar tudo ao inferno.” (tradução modificada, Marx a Engels, 25 de outubro de 1852, Marx e Engels 1983, p. 216). Muitas vezes a situação se tornava insuportável, como quando ele escreveu a Engels em outubro de 1852: “Ontem penhorei um casaco dos meus dias em Liverpool para comprar papel para escrever” (Marx a Engels, 27 de outubro de 1852, Marx e Engels 1983, p. 221).

Porém, as turbulências do mercado financeiro continuavam a manter a moral de Marx alta e ele escreveu sobre elas aos seus amigos mais próximos. Com grande auto-ironia, ele declarou a Lassalle em fevereiro de 1852: “A crise financeira finalmente atingiu um nível comparável apenas à crise comercial que se faz sentir agora em Nova York e em Londres. Mas ao contrário dos senhores do comércio, não posso nem mesmo declarar falência.” (Marx a Ferdinand Lassalle, 23 de fevereiro de 1852, Marx e Engels 1983, p. 46). Em abril ele disse a Weydemeyer que, devido a circunstâncias extraordinárias como a descoberta de novos depósitos de ouro na Califórina e na Austrália e a penetração comercial dos ingleses na Índia, “pode bem ser que a crise seja postergada até 1853. Mas sua erupção será surpreendente. E até lá não se pode considerar as chances de convulsão revolucionária.” (Marx a Joseph Weydemeyer, 30 de abril de 1852, Marx e Engels 1983, p. 96). Em agosto, imediatamente após os colapsos especulativos nos Estados Unidos, ele escreveu triunfantemente a Engels: “Não estamos nos aproximando da crise? A revolução pode vir antes do que esperávamos” (Marx a Engels, 19 de agosto de 1852, Marx e Engels 1983, p. 163).

Marx não expressou suas opiniões apenas em suas correspondências, mas escreveu sobre o assunto no New York Tribune. Num artigo de novembro de 1852 sobre o “Pauperismo e o Livre Comércio”, ele previu: “A crise (…) terá um caráter ainda mais perigoso do que em 1847, quando era de natureza muito mais comercial e monetária do que industrial, pois quanto maior a mais-valia que o próprio capital concentra na produção industrial, (…) maior, mais duradoura, mais direta será a crise que desabará sobre as massas trabalhadoras.” (Marx e Engels 1979a, p. 361). Em resumo, poderia ser necessário esperar mais um pouco, mas ele estava convencido – mais devido à impaciência para ver uma nova série de levantes sociais do que pela análise rigorosa dos eventos econômicos – que mais cedo ou mais tarde a hora da revolução chegaria.

VII. O julgamento dos comunistas e dificuldades pessoais
Em outubro de 1852 o governo prussiano iniciou o julgamento de membros da Liga Comunista que haviam sido presos no ano anterior. A acusação era a de que eles haviam participado de uma organização internacional de conspiradores liderados por Marx contra a monarquia prussiana. Entre outubro e dezembro, para demonstrar que as acusações eram infundadas, Marx começou a “trabalhar para o partido contra as maquinações do governo” (Marx a Adolf Cluss, 7 de dezembro de 1852, Marx e Engels 1983, p. 259). e compôs Revelações sobre o julgamento comunista em Colônia. Publicado anonimamente na Suíça em janeiro de 1853, esse trabalho curto não obteve o efeito desejado, pois uma grande parte da cópia foi confiscada pela polícia prussiana e o texto circulou apenas nos Estados Unidos e entre um número reduzido de leitores. Ele foi publicado pela primeira vez em série no Neu-England-Zeitung em Boston e em seguida como um livro independente. Marx ficou compreensivelmente desencorajado por mais esse fracasso após tantos outros: “É o suficiente para que se para de escrever totalmente. Esse trabalho constante pour le roi de Prusse!” [34]

Ao contrário do que afirmavam as maquinações orquestradas pelos ministros do governo prussiano, Marx estava muito isolado politicamente nesse período. A dissolução da Liga Comunista – que aconteceu efetivamente em 1851 e se tornou oficial no final de 1852 – reduziu enormemente o número de seus contatos políticos. Aquilo que diversas forças policiais e oponentes políticos definiam como o “grupo de Marx” [35] contava com poucos membros realmente engajados. Na Inglaterra, além de Engels, os únicos homens que poderiam ser considerados «marxianos» [36] eram Pieper, Wilhelm Wolff, Wilhelm Liebknecht, Peter Imandt, Ferdinand Wolff e Ernst Dronke. Em outros países, onde a maioria dos exilados políticos havia buscado refúgio, Marx tinha relações próximas apenas com Weydemeyer e Cluss nos Estados Unidos, Richard Reinhardt em Paris e Lassalle na Prússia. Marx sabia muito bem que embora esses contatos criassem uma rede que resistia em tempos difíceis, eles não eram numerosos suficientemente para “constituir um grupo” (Marx a Engels, 10 de março de 1853, Marx e Engels 1983, p. 290).

Além disso, mesmo esse círculo restrito tinha dificuldades em entender algumas das posições políticas e teóricas de Marx, causando muitas vezes mais problemas que benefícios. Em tais ocasiões ele só podia desabafar com Engels: “De todas as experiências desagradáveis nesses anos, as maiores têm consistentemente sido aquelas propiciadas pelo meu suposto grupo de amigos (…). Proponho declarar publicamente na próxima oportunidade que não tenho absolutamente nada a ver com nenhum grupo” (tradução modificada, Marx a Engels, 8 de outubro de 1853, Marx e Engels 1983, p. 386). Ao contrário de outros líderes da emigração política, Marx sempre havia se recusado a se juntar aos comitês internacionais existentes, que passavam o tempo fantasiando sobre a revolução iminente. O único membro de outras organizações com quem ele mantinha contato era Ernest Charles Jones, o principal representante da ala esquerda do movimento chartista.

O recrutamento de novos partidários ativos e especialmente o envolvimento de trabalhadores em suas idéias era, portanto, uma questão importante e complicada. O trabalho de Marx tinha que atingir esse objetivo: o recrutamento era uma necessidade tanto teórica quanto política. Em março de 1853, Engels escreveu a Marx:

Você deve acabar sua Economia; mais tarde, quando tivermos um jornal, poderemos publicá-la em números semanais e aquilo que o populus não pode entender, os discipuli explicariam tant bien que mal, mais cependant non sans effet. [37] Isso criaria uma base para debate para as nossas associações que, espero, até lá estarão restauradas. (Engels a Marx, 11 de março de 1853, Marx e Engels 1983, p. 293).

Marx havia anteriormente escrito a Engels que ele esperava passar alguns dias com ele “em abril” para “conversar em paz sobre as circunstâncias presentes, que em [sua] opinião deveriam, em breve, causar um terremoto” (Marx a Engels, 10 de março de 1853, Marx e Engels 1983, p. 289). Mas Marx não conseguiu se concentrar no trabalho devido à pobreza que o atormentava. Em 1853 o Soho foi o epicentro de outra epidemia de cólera e as circunstâncias em que se encontrava a família de Marx se tornaram ainda piores. Em agosto ele escreveu a Engels que “inúmeros credores” haviam “cercado a casa” e que “três quartos do [seu] tempo eram gastos na busca de centavos” (Marx a Engels, 18 de agosto de 1853, Marx e Engels 1983, p. 356). Para sobreviver, o último recurso dele e de sua esposa Jenny era penhorar as poucas roupas e objetos de valor que ainda havia numa casa onde faltavam “os recursos até para garantir as coisas mais necessárias” (Marx a Engels, 8 de julho de 1853, Marx e Engels 1983, p. 352).

O dinheiro dos artigos de jornal se tornou cada vez mais indispensál, embora a escrita deles consumisse tempo precioso. No final do ano Marx reclamou ao amigo Cluss:

Tinha a esperança de que (…) poderia de alguma forma me isolar por alguns meses para trabalhar na minha Economia. Parece que não conseguirei. A trabalheira perpétua do jornal é cansativa, leva tempo, me desconcentra e, no final, não paga muito. Por mais independente que pensava ser, sempre me vejo atado ao jornal e aos leitores, especialmente quando, como no meu caso, ganha-se em dinheiro vivo. O trabalho puramente intelectual é totalmente diferente. (Marx a Adolf Cluss, 15 de setembro de 1853, Marx e Engels 1983, p. 367).

Quando Marx não tinha escolha e era forçado a se voltar para as necessidades da vida, seu pensamento estava, mesmo assim, firmemente ancorado na “Economia”.

VIII. Os artigos sobre a crise no New York Tribune
Nesse período a crise econômica foi um tema constante nos artigos de Marx para o New York Tribune. Em “Revolução na China e na Europa”, de junho de 1853, onde ele relacionou a revolução anti-feudal chinesa que começou em 1851 com a situação econômica geral, Marx novamente expressou sua convicção de que em breve chegaria “um momento em que a extensão dos mercados não será capaz de atender à extensão das manufaturas britânicas e essa desproporção deverá causar uma nova crise com a mesma certeza como causou no passado” (Marx 1979a, p. 95-96). Em sua opinião, na seqüência da revolução, uma contração imprevista do grande mercado chinês “acenderá o pavio da mina superlotada do sistema industrial moderno e causará a explosão da crise geral que há muito tempo se prepara e que, espalhando-se, será seguida de perto por revoluções políticas no Continente” (Marx 1979a: 98). É claro que Marx não via o processo revolucionário de modo determinista, mas ele estava seguro de que a crise era um pré-requisito indispensável para sua eclosão:

Desde o início do século XVIII não houve uma revolução séria na Europa que não tenha sido precedida de uma crise comercial e financeira. Isso se aplica tanto para a revolução de 1789 quanto a de 1848. (…) Há pouca chance de que guerras ou revoluções surpreendam a Europa a não ser em conseqüência de uma crise comercial e industrial geral, cujo sinal foi dado, como é comum, pela Inglaterra, a representante da indústria européia no mercado mundial (Marx 1979a: 99).

O argumento foi enfatizado no final de setembro de 1853, no artigo “Movimentos políticos: a escassez de pão na Europa”:

(…) nem os discursos dos demagogos nem as bobagens dos diplomatas levarão a situação a uma crise, mas (…) há desastres econômicos e convulsões sociais iminentes que anunciam com certeza uma revolução européia. Desde 1849 a prosperidade comercial e industrial prepara o esteio no qual a contra-revolução dormiu em segurança. (Marx 1979b: 308).

Traços de otimismo com o qual Marx aguardava os eventos podem ser encontrados em sua correspondência com Engels. Numa carta, também de setembro de 1853, ele escreveu: “As coisas marcham maravilhosamente. (Les choses marchent merveilleusement). O caos dominará a Franca quando a bolha financeira estourar” (Marx a Engels, 28 de setembro de 1853, Marx e Engels 1983, p. 372). Entretanto, a crise não veio e ele concentrou suas energias em outra atividade jornalística para não perder sua única fonte de renda.

Entre outubro e dezembro de 1853, Marx escreveu uma série de artigos intitulados Lord Palmerston, nos quais criticava a política exterior de Henry John Temple, terceiro Visconde Palmerston, que há muito tempo era o secretário de assuntos exteriores e futuro primeiro ministro da Grã-Bretanha. Eles foram publicados tanto no New York Tribune quanto em The People’s Paper, editado pelos chartistas ingleses. Entre agosto e novembro de 1854, após o levante civil e militar na Espanha em junho, ele escreveu outra série, A Revolução na Espanha, na qual resumia e analisava os principais acontecimentos da década passada na Espanha. Ele levou essas tarefas muito a sério, como se pode conferir nos nove grossos cadernos de anotações que ele compilou entre setembro de 1853 e janeiro de 1855. Os quatro primeiros, que se concentravam na história da diplomacia, forneceram a base paraLord Palmerston, enquanto os outros cinco, sobre a história política, social e cultural espanhola, incluíam a pesquisa para a série A Revolução na Espanha.[38]

Finalmente, em algum momento entre o fim de 1854 e o início de 1855, Marx retomou seus estudos de economia política. Porém, após a interrupção de três anos, ele decidiu reler seus antigos manuscritos antes de prosseguir. Em meados de 1855, ele escreveu a Engels:

Nos últimos 4-5 dias não pude escrever (…) devido a uma inflamação severa nos olhos. (…) Meu problema nos olhos foi causado pela leitura de meus próprios cadernos sobre economia, não tanto para elaborar a coisa, mas para pelo menos dominar o material e deixá-lo pronto para prosseguir. (Marx a Engels, 13 de fevereiro de 1855, Marx e Engels 1983, p. 522).

Essa revisão deu origem a mais vinte páginas de novas anotações, que Marx intitulou de [ Citações. Essência do dinheiro, essência do crédito, crises]; há também novas citações de anotações que ele havia feito nos últimos anos. Retomando livros de autores como Tooke, John Stuart Mill e Steuart, assim como a artigos do The Economist, ele continuou a resumir as teorias dos principais economistas políticos sobre o dinheiro, o crédito e as crises, que ele havia começado a estudar em 1850 (Schrader, 1980, p. 99).

Ao mesmo tempo, Marx produziu mais artigos sobre a recessão para o New York Tribune. Em janeiro de 1855, em “A crise comercial na Grã-Bretanha”, ele escreveu com satisfação: “A crise comercial inglesa, cujos sintomas premonitórios foram anunciados há muito tempo em nossas colunas, é agora um fato alardeado pelas mais altas autoridades no assunto” (Marx e Engels, 1980a, p. 585). Dois meses mais tarde, em “A crise na Inglaterra”:

Em apenas alguns meses a crise atingirá um ponto que a Inglaterra desconhece desde 1846, talvez desde 1842, quando seus efeitos forem sentidos entre a classe trabalhadora. Então o movimento político que estava adormecido há seis anos recomeçará. (…) Aí então as duas facções opostas deste país se enfrentarão cara a cara – a classe média e as classes trabalhadoras, a Burguesia e o Proletariado (Marx e Engels, 1980b, p. 61).

Porém, justamente no momento em que Marx parecia pronto para re-iniciar seu trabalho na “Economia”, dificuldades pessoais mais uma vez causaram uma mudança de planos. Em abril de 1855, ele foi afetado profundamente pela morte de Edgar, seu filho de oito anos. Ele confidenciou a Engels:

Já tive muita má sorte na vida, mas só agora sei o que é a infelicidade real (…). Entre os tormentos terríveis que tive que suportar, a lembrança de sua amizade tem me ajudado, assim como a esperança de que ainda haja algo sensato que possamos fazer no mundo. (Marx a Engels, 12 de abril de 1855, Marx e Engels 1983, p. 533).

A saúde e a situação econômica de Marx permaneceram desastrosas por todo o ano de 1855 e sua família aumentou com o nascimento de Eleanor, em janeiro. Ele frequentemente reclamava a Engels sobre problemas nos olhos, nos dentes e uma tosse terrível, além do fato de que “a decadência física também afeta [ou seu] cérebro” (Marx a Engels, 3 de março de 1855, Marx e Engels 1983, p. 525). Uma outra complicação foi causada por um processo que Freund, o médico da família, moveu contra Marx por falta de pagamento. Para escapar disso tudo, Marx teve que passar algum tempo entre meados de setembro e início de dezembro vivendo com Engels em Manchester e permanecendo escondido em casa por algumas semanas após seu retorno. A solução foi encontrada devido a um “acontecimento feliz”: uma herança de 100 libras após a morte de um tio de noventa anos de Jenny (Marx a Engels, 8 de março de 1855, Marx e Engels 1983, p. 526).

Assim, Marx só conseguiu retomar seu trabalho sobre economia política em junho de 1856, escrevendo alguns artigos para o The People’s Paper sobre o Crédit Mobilier, o principal banco comercial da França, que ele considerava “um dos fenômenos econômicos mais peculiares de nosso tempo” (Marx 1986, p. 10). Depois da situação familiar ter melhorado um pouco no outono de 1856, o que lhes permitiu deixar seu alojamento no Soho para um apartamento melhor no norte de Londres, Marx escreveu novamente sobre a crise para o New-York Tribune. Ele argumentava em “A crise monetária na Europa”, publicado em 3 de outubro de 1856, que “um movimento nos mercados de dinheiro europeu análogo ao pânico de 1847” estava a caminho (Marx 1986a, p. 113). Em “A crise européia”, que foi publicado em novembro, quando todos as colunistas estavam confidentemente assegurando que o pior já havia passado, ele insistia:

As indicações trazidas da Europa (…) certamente parecem adiar para um dia futuro o colapso final da especulação e do mercado de ações, que homens de ambos os lados do oceano instintivamente prevêem, como se esperassem com pavor uma catástrofe inevitável. Entretanto, esse adiamento só garante o colapso; de fato, a natureza crônica da crise financeira atual apenas assegura um desfecho mais violento e destrutivo. Quanto mais a crise durar, pior será seu epílogo (Marx 1986b: 136).

Os acontecimentos também deram a Marx a oportunidade de atacar seus oponentes políticos. Em “A crise monetária na Europa”, ele escreveu:

Se colocarmos lado a lado os efeitos desse curto pânico monetário e o efeito das proclamações de Mazzini e de outros, toda a história, desde 1849 dos enganos dos revolucionários oficiais, perde imediatamente seu mistério. Eles desconhecem completamente a vida econômica dos povos, não sabem nada sobre as condições reais do movimento histórico e quando a nova revolução começar ele terão tanto direito quanto Pilatos de lavar suas mãos e protestar que são inocentes do derramamento de sangue. (Marx 1986a, p. 115).

Entretanto, na primeira metade de 1857, uma calma absoluta prevaleceu nos mercados internacionais. Até março Marx trabalhou nas Revelações da história diplomática do século XVIII, um conjunto de artigos publicados em The Free Press, um jornal dirigido por David Urquhart, conservador que se opunha a Palmerston. Esses textos deveriam ter sido apenas a primeira parte de um trabalho sobre a história da diplomacia, que Marx havia planejado no início de 1856 durante a Guerra da Criméia, mas que ele nunca chegaria a completar. Também neste caso ele fez um estudo profundo dos materiais: entre janeiro de 1856 e março de 1857 ele compilou sete cadernos de anotações sobre a política internacional do século XVIII. Tais cadernos ainda não foram publicados.

Finalmente, em julho, Marx escreveu algumas notas críticas curtas, mas interessantes sobre Harmonies Économiques de Frédéric Bastiat ePrinciples of Political Economy de Carey, que ele havia estudado e anotado em 1851. Nessas notas, postumamente publicadas com o título de [ Bastiat e Carey], ele apontava a ingenuidade dos dois economistas (o primeiro um defensor do comércio livre, o segundo do protecionismo), que, em seus escritos, haviam se esforçado para demonstrar “a harmonia das relações de produção” (Marx 1975d, 4; 1993: 886) [39] e, portanto, da sociedade burguesa como um todo.

IX. A crise financeira de 1857 e os [Grundrisse]
Desta vez, ao contrário das crises anteriores, a tempestade econômica não começou na Europa, mas nos Estados Unidos. Nos primeiros meses de 1857 os bancos de Nova York aceleraram o volume de empréstimos, apesar da queda nos depósitos. O aumento da atividade especulativa resultante piorou as condições econômicas gerais e, depois que a filial de Nova York do Ohio Life Insurance and Trust Company se declarou insolvente, o pânico que se seguiu levou a inúmeras falências. A perda de confiança no sistema bancário produziu uma contração de crédito, uma redução dos depósitos e a suspensão das ordens de pagamento.

Pressentindo a natureza extraordinária dos acontecimentos, Marx imediatamente retomou seu trabalho. Em 23 de agosto de 1857 – exatamente um dia antes do colapso do Ohio Life que semeou pânico na opinião pública – ele começou a escrever a [Introdução] a sua “Economia”. O início explosivo da crise lhe deu um motivo adicional que havia estado ausente nos anos anteriores. Após a derrota de 1848, Marx havia enfrentado toda uma década de retrocessos políticos e grande isolamento pessoal. Porém, com a eclosão da crise, ele vislumbrou a possibilidade de participar de uma nova rodada de revoltas sociais e achou que sua tarefa mais urgente era a análise dos fenômenos econômicos que seriam importantes para o início da revolução. Isso significava escrever e publicar o quanto antes o trabalho que ele havia planejado por tantos anos.

De Nova York a crise se espalhou rapidamente para o resto dos Estados Unidos e, após algumas semanas, para todos os centros do mercado mundial na Europa, na América do Sul e no Oriente, tornado-se a primeira crise financeira internacional da história. Notícias desses desenvolvimentos causaram grande euforia em Marx, servindo de combustível para uma grande explosão de produção intelectual. O período entre o verão de 1857 e a primavera de 1858 foi um dos mais prolíficos de sua vida: ele escreveu mais em apenas alguns meses do que nos anos anteriores. Em dezembro de 1857 ele escreveu a Engels: “Estou trabalhando como um louco todas as noites nos meus estudos econômicos para ter pelo menos um esquema geral [Grundrisse], claro, antes do dilúvio.” Ele também aproveitou a oportunidade para relembrar que suas previsões de que uma crise era inevitável não haviam sido infundadas, pois “o Economist de sábado diz que nos últimos meses de 1853, em todo o ano de 1854, no outono de 1855 e nas mudanças abruptas de 1856, a Europa nunca esteve a mais do que um passo da crise iminente” (Marx a Engels, 8 de dezembro de 1857, Marx e Engels, 1983c, p. 217).

O trabalho de Marx se tornou mais notável e abrangente. Entre agosto de 1857 e maio de 1858 ele completou oito cadernos conhecidos como o [ Grundrisse][40], enquanto que como correspondente do New York Tribune, ele escreveu dezenas de artigos sobre, entre outras coisas, o desenvolvimento da crise na Europa. Devido à necessidade de melhorar suas condições econômicas, ele também concordou em escrever uma série de verbetes para a The New American Cyclopædia. Por fim, entre outubro de 1857 e fevereiro de 1858, ele compilou três cadernos de anotações, intitulados [Cadernos da crise].[41] Ao contrário das anotações que ele fizera anteriormente, neste caso não se tratava de uma compilação de passagens dos trabalhos de outros economistas, mas de uma grande quantidade de notas, tomadas de diversos jornais diários, sobre os principais desenvolvimentos da crise, tendências da bolsa de valores, flutuações do mercado e falências importantes na Europa, nos Estados Unidos e outras partes do mundo. Uma carta a Engels em dezembro indica a intensidade de sua atividade:

Estou trabalhando enormemente, em geral até as 4 da manhã. Estou envolvido numa tarefa dupla: 1. Elaboração dos princípios de economia política. (Para o benefício do público é absolutamente essencial ir au fond do problema e para o meu próprio, individualmente, é preciso que eu me livre desse pesadelo.) 2. A atual crise. Além dos artigos para o [New York – MM] Tribune, tenho feito notas sobre a crise, que, entretanto, me tomam tempo considerável. Penso que lá pela primavera deveríamos escrever um panfleto juntos sobre o caso como um lembrete para o público alemão de que ainda estamos aqui como sempre e sempre os mesmos. (Marx a Engels, 18 de dezembro de 1857, Marx e Engels, 1983c: 224). [42]

No que se refere aos [Grundrisse], na última semana de agosto Marx fez um plano para o caderno “M” que deveria servir como a [Introdução] para o trabalho; em seguida, em meados de outubro, ele deu continuidade aos outros sete cadernos (I-VII). No primeiro e em parte do segundo, ele escreveu o chamado [Capítulo sobre o dinheiro], que lida com o dinheiro e o valor, enquanto que nos outros ele escreveu o chamado [ Capítulo sobre o capital]. Aí ele aloca centenas de páginas sobre o processo de produção e circulação de capital e introduz alguns dos temas mais importantes de todo o manuscrito, tais como o conceito de mais-valia e as formações econômicas que precederam o modo de produção capitalista. Entretanto, esse esforço imenso não permitiu que ele completasse o trabalho. No final de fevereiro de 1858 ele escreveu a Lassalle:

Na verdade, tenho trabalhado nos estágios finais há alguns meses. Mas a coisa toda prossegue muito vagarosamente, pois assim que se pensa que alguns assuntos, que foram estudados durante anos, já foram tratados, eles começam a revelar novos aspectos que exigem tratamento mais detalhado (…). O trabalho a que tenho me dedicado ultimamente é uma Crítica das categorias econômicas, ou, se preferir, uma análise crítica do sistema da economia burguesa. Ainda não tenho idéia de quantas páginas esse assunto vai tomar (…). Agora que estou finalmente pronto para começar o trabalho após quinze anos de estudos, tenho um sentimento desconfortável de que, no final das contas, movimentos turbulentos do lado de fora irão provavelmente intervir. (Marx a Ferdinand Lassalle, 22 de fevereiro de 1858, Marx e Engels 1983a, p. 270-271).

Na realidade, porém, não houve sinal do tão aguardado movimentos revolucionário que supostamente irromperia com a crise. Desta vez, outra razão que impediu que Marx completasse o manuscrito foi sua consciência de que ele ainda estava longe de dominar criticamente todo o material. O [Grundrisse], portanto, permaneceu um rascunho. Após ter trabalhado cuidadosamente, entre agosto e outubro de 1858, na introdução do [Capítulo sobre o dinheiro] no manuscrito [Texto original do segundo e início do terceiro capítulo de “Uma contribuição para a crítica da economia política”], ele publicou em 1859 um livro curto que não obteve ressonância pública: Uma contribuição para a crítica da economia política. Oito anos de estudos intensos e enorme esforço intelectual passariam antes da publicação do primeiro volume do Capital.

X. Conclusões
Se levarmos em conta não apenas os trabalhos mais conhecidos já traduzidos, mas também os manuscritos e livros de anotações da MEGA², a imensidão e a riqueza do projeto teórico de Marx surgem sob uma nova luz. Esses cadernos mostram as enormes limitações da explicação marxista-leninista – uma ideologia que frequentemente via a concepção de Marx como algo separado dos estudos que ele fez, como se ela estivesse magicamente presente em sua cabeça desde o nascimento –, mas também do debate na Europa dos anos 1960 sobre se havia uma quebra epistemológica em seu pensamento ou uma continuidade básica com a filosofia de Hegel.

Na verdade, os participantes do debate consideraram apenas alguns dos textos de Marx e mesmo alguns deles foram tratados como obras totalmente acabadas, quando esse não era o caso.
As pesquisas de Marx entre o período dos [Manuscritos econômico-filosóficos de 1844] e de [A ideologia alemã] e o período do [Grundrisse] e em seguida entre o [Grundrisse] e os vários rascunhos do Capital finalmente se tornaram acessíveis aos pesquisadores através da MEGA². Isso tornou possível seguir os diversos estágios intermediários da evolução de suas idéias tanto nos anos 1850 quanto após a publicação do primeiro volume do Capital, sugerindo uma interpretação mais crítica e aberta de sua teoria. Esse quadro que surge da MEGA² é obra de um autor que deixou uma grande parte de seus escritos inacabados para se voltar até a morte para estudos que comprovassem a correção de suas teses.

Numa época em que as idéias de Marx foram finalmente libertadas das correntes da ideologia soviética e quando elas são novamente investigadas com o objetivo de analisar o mundo contemporâneo, uma visão mais fiel da gênese de seu pensamento pode ter implicações importantes para o futuro – não apenas para os estudos de Marx, mas para o ressurgimento de um pensamento crítico que procure transformar o presente.

Apêndice: Tabela Cronológica dos cadernos de anotações, manuscritos, artigos e livros sobre economia política no período de 1843–58

Ano Título Descrição
1843-45 [Cadernos de Paris] 9 cadernos de anotações que formam os primeiros estudos que Marx fez da economia política.
1844 [Manuscritos econômico-filosóficos de 1844] Manuscrito incompleto composto em paralelo com os [Cadernos de Paris].
1845 [Rascunho de um artigo sobre o livro de Friedrich List: Das Nationale System der Politischen Oekonomie] Manuscrito incompleto de um artigo contra o economista alemão List.
1845 [Cadernos de Bruxelas] 6 cadernos de anotações sobre conceitos básicos de economia política.
1845 [Cadernos de Manchester] 9 cadernos de anotações sobre problemas econômicos, história econômica e literatura socialista britânica.
1846-47 Citações do Historical Account of Commerce de von Gülich 3 cadernos de anotações sobre história econômica.
1847 A miséria da filosofia Texto polêmico contra o System of Economic Contradictions de Proudhon.
1849 Trabalho assalariado e capital 5 artigos publicados no Neue Rheinische Zeitung. Organ der Demokratie.
1850 Artigos para o Neue Rheinische Zeitung. Politisch-okonomische Revue Artigos sobre a situação econômica.
1850-53 [Cadernos de Londres] 24 cadernos de anotações enfocando, principalmente, a economia política (em particular: história e teoria das crises, dinheiro, alguns clássicos da economia política, condição da classe trabalhadora e tecnologia).
1851 [Ouro. O sistema monetário perfeito] 2 cadernos de anotações compiladas durante a escrita dos [Cadernos de Londres], incluindo citações das teorias mais importantes sobre dinheiro e circulação.
1851-62 Artigos para o New York Tribune Approximadamente 70 artigos sobre economia política, dos 487 publicados nesse jornal.
1855 [Citações. Essência do dinheiro, essência do crédito, crises] 1 caderno de anotações resumindo as teorias dos principais economistas sobre dinheiro, crédito e crises.
1857 [Introdução] Manuscrito contendo as mais detalhadas considerações de Marx sobre método.
1857-58 [Cadernos sobre a crise] 3 cadernos com relatórios sobre a crise financeira de 1857.
1857-58 [Grundrisse] Manuscrito preparatório para Uma contribuição para uma crítica da economia política (1859).

Tradução: Marcos Soares; revisão: Paula Marcelino

References
1. Professor de Ciência Política da York University (Toronto – Canada), www.marcellomusto.com.
2. Interpretações inovadoras do pensamento de Marx como um todo incluem Poistone (1993); Carver (1998); Lebowitz (2003). São interessantes por terem relacionado Marx com a questão ambiental: Leopold (2007); Musto (2008); Foster (2000) e Burkett (2006). Para um levantamento abrangente dos estudos marxistas nos últimos 20 anos, ver Therborn (2007) e Musto (2010).
3. A segunda seção da MEGA², Das Kapital und Vorarbeiten, que trará esse material, deve ser publicada em 2010, coincidindo com a publicação do Volume II/4.3 Manuskripte 1883-1867. Teil 3, o último lote de manuscritos do período entre 1863-1867.
4. Neste ensaio, os títulos dados pelos editores para os manuscritos incompletos de Marx serão colocados entre colchetes.
5. Dentre os poucos autores que, com os recursos disponíveis no momento, realmente fizeram um esforço para interpretar as fases menos conhecidas da gênese do pensamento de Marx, atenção especial deve ser dada aos artigos de Maximilien Rubel, ‘Les cahiers de lecture de Karl Marx. I. 1840-1853’ and ‘II. 1853-1856’, publicados pela primeira vez em 1957 e 1960 na International Review of Social History e posteriormente republicados em Rubel (1974, p. 301-59). Nos países de língua inglesa, as pesquisas feitas sobre esses temas começaram a aparecer apenas quinze anos mais tarde, com Carver (1998) e com os três livros de Oakley (1983, 1984 e 1985).
6. Às vezes esse debate se baseou em interpretações extremamente superficiais. Para um exemplo recente (e ruim) desse tipo de interpretação, ver Wheen (2006).
7. A censura e as dissensões entre Marx e o outro diretor, Arnold Ruge, dificultaram enormemente essa publicação, que apareceu uma única vez, em fevereiro de 1844.
8. O Nachlass de Marx contém cerca de duzentos cadernos de resumos, que são essenciais para uma compreensão da origem de sua teoria e de partes dela que Marx nunca teve a oportunidade de desenvolver tão bem quanto desejava. As passagens que sobreviveram, que cobrem todo o período de 1838 a 1882, estão escritas em oito línguas (alemão, grego antigo, latim, francês, inglês, italiano, espanhol e russo) e pertencem às mais variadas disciplinas. Elas foram tomadas de textos de filosofia, arte, religião, política, direito, literatura, história, economia política, relações internacionais, tecnologia, matemática, fisiologia, geologia, mineralogia, agronomia, etnologia, química e física, assim como de artigos em jornais, revistas, procedimentos parlamentares, estatísticas governamentais oficiais, relatórios e publicações.
9. Como Marx ainda não lia em inglês em 1844, ele leu as traduções desses livros em francês.
10. Essas passagens estão em Marx e Engels (1981 e 1998). As únicas partes traduzidas para o inglês estão em Marx e Engels (1975, p. 211-228).
11. Sobre a relação entre os [Manuscritos Econômico-políticos de 1844] e os [Manuscritos de Paris], ver Musto (2009).
12. Na verdade, Engels contribuiu com apenas cerca de dez páginas para o texto.
13. Todas essas passagens podem ser encontradas em Marx e Engels (1998)
14. Ver ‘Plan of the “Library of the Best Foreign Socialist Writers”‘ (Marx e Engels 1975b, p. 667).
15. Essas passagnes estão em Marx e Engels (1988), que também incluem os primeiros [Cadernos de Manchester]. Foi nesse período que Marx começou a ler diretamente em inglês.
16. Essas passagens, ainda não publicadas, e que fazem parte dos [Cadernos de Manchester] VI-IX, devem aparecer em breve em Karl Marx and Friedrich Engels, Exzerpte und Notizen. August 1845 bis Dezember 1850, MEGA² IV/5.
17. Marx (1982) e MEGA² III/2, Berlin: Dietz.
18. Ver Engels (1990b, p. 519). Na verdade, Engels já havia usado essa expressão em 1859, em sua resenha do livro de Marx Uma contribuição para a critíca da economia política, mas o artigo não teve repercussão e o termo começou a circular apenas após a publicação de Ludwig Feuerbach.
19. Essas passagens constituem o volume Marx (1983).
20. “Os democratas vulgares esperavam que as faíscas começassem a voar de novo a qualquer momento; mas nós já havíamos declarado no outono de 1850 que pelo menos o primeiro capítulo do período revolucionário estava encerrado e que não se podia esperar nada até o início de uma nova crise mundial. Por essa razão fomos excomungados como traidores da revolução pelas mesmas pessoas que, mais tarde, quase sem exceção, foram para o lado de Bismarck.” (Marx e Engels 1990, p. 510).
21. Para uma avaliação da importância dos [Cadernos de Londres] ver o número especial – n. 7 (1979) – do períodicoArbeitsblätter zur Marx-Engelsforschung: Fragen der Entwicklung der Forschungsmethode von Karl Marx in den Londoner Exzerptheften von 1850–185 de Wolfgang e Noske do ano de 1979.
22. Com exceção do material de Adam Smith, que está no volume Exzerpte und Notizen. März bis Juni 1851 (Marx e Engels 1986), todas as anotações em questão podem ser encontradas em Marx e Engles (1983). A riqueza das nações de Smith (Caderno VII) e os Princípios de economia política e tributação de Ricardo (Cadernos IV, VII and VIII), que Marx havia lido em francês durante sua estadia em Paris em 1844, desta vez foram estudados no original em inglês.
23. Ver Marx a Engels, 3 de fevereiro de 1851 (Marx e Engels1982a: 275).
24. O segundo dentre esses cadernos não numerados também contém outras anotaçoes, notadamente passagens de On the Regulation of Currencies de John Fullarton.
25. Outra exposição breve das teorias de Marx sobre o dinheiro, o crédito e as crises está no Caderno VII, nas fragmentadas ‘Reflections’, (Marx e Engels 1982a: 584-92).
26. Ver Marx (1986d, pp. 326-31, 350-72, 381-95, 402-4, 409-26). Prova da importância dessas páginas é o fato de que essas citações, junto com outras do mesmo autor nos Cadernos IV e VII, foram publicadas em 1941, no segundo volume da primeira edição do [Grundrisse].
27. Nessa fase crucial de novas descobertas teóricas, a relação de Marx com foi de grande importância: por exemplo, algumas de suas cartas a ele resumem sua visão crítica da teoria de Ricardo sobre a renda da terra (Marx a Engels, 7 de janeiro de 1851, Marx e Engels 1982, p 258-263; Marx e Engels 1984, 6-10) e a circulação monetária (Marx a Engels, 3 de fevereiro de 1851, Marx e Engels 1982, p. 273-278; Marx e Engels 1984: 24-30).
28. Nesse mesmo príodo, Marx voltou sua atenção para a indústria e a maquinaria. Ver Müller (1992).
29. Na época, o New York Tribune era publicado em três versões diferentes (o New York Daily Tribune, o New York Semi-Weekly Tribune e o New York Weekly Tribune). Cada uma delas publicou diversos artigos de Marx. Para ser mais preciso, o New York Daily Tribune publicou 487 artigos, com mais da metade deles re-aparecendo no New York Semi-Weekly Tribune e mais de um quarto no New York Weekly Tribune (a esses artigos devem ser adicionados alguns outros que ele enviou ao jornal, mas que foram recusados pelo editor, Charles Dana). Dos artigos publicados no New York Daily Tribune, mais de duzentos são editoriais sem assinatura. Deve-se adicionar ainda que, para dar a Marx mais tempo para seus estudos de economia política, aproximadamente metade desses artigos foram na verdade escritos por Engels. O envio de artigos ao New York Tribune sempre foi motivo de grande interesse, como pode-se ver, por exemplo, em uma afirmação do editorial do número de 7 de abril de 1853: “O Sr. Marx tem diversas opiniões firmes, (…) mas quem não ler suas cartas deixará de ter acesso a uma das fontes de informação mais instrutivas sobre as grandes questões das política européia atual.” Citado em Marx a Engels, 26 de abril de 1853 (Marx e Engels, 1983, p. 315).
30. Ver Marx e Engels (1979a, p. 545-570).
31. Esses cadernos ainda não foram publicados na MEGA², mas o Caderno XV apareceu na coleção de Hans Peter Müller (1982). Ver o estudo recente de Wendling (2009).
32. Ver esp. Ferdinand Lassalle to Karl Marx, 12 May 1851, MEGA² III/4, pp. 377-8; Marx a Engels, 24 de novembro de 1851 (Marx e Engels, 1982a: 490-2); e Engels a Marx, 27 de novembro de 1851 (Marx e Engels, 1982a: 493-5).
33. “E depois dos últimos acontecimentos eu estou mais convencido do que nunca de que não haverá revolução séria sem crise comercial.” (T. R.). Marx a Ferdinand Freiligrath, 27 December 1851 (Marx e Engels, 1982a, p. 520).
34. “Pelo rei da Prússia!” (T. R.). Marx a Engels, 10 de março de 1853 (Marx e Engels, 1983, p. 288).
35. Essa expressão foi utilizada pela primeira vez em 1846, para se referir às diferenças entre Marx e o comunista alemão Wilhelm Weitling. Ela foi mais tarde usada também nos procedimentos do julgamento em Colônia. Ver Maximilien Rubel (1974, p 26, n. 2).
36. Esse termo apareceu pela primeira vez em 1854 (Haupt 1986, p. 2).
37. “De um jeito ou de outro, mas não sem resultado”. (T. R.).
38. Esses cadernos de notas foram publicados recentemente em Marx e Engels (2007).
39. Como as passagens extraídas de Ricardo, [Bastiat and Carey], esse trecho foi incluído no segundo volume da primeira edição do [Grundrisse].
40. Com exceção dos Cadernos M e VII, que estão no Instituto Internacional de História Social de Amsterdã, todos os cadernos estão no Arquivo do Estado Russo de História Sócio-Política em Moscou. Com relação às datas, deve-se enfatizar que o primeiro rascunho do Caderno I, que contem a análise crítica de Marx de De la réforme des banques de Alfred Darimon, foi escrito nos meses de janeiro e fevereiro de 1857, não (como os editores do [Grundrisse] pensavam) em outubro. Ver Ossobowa (1990).
41. Esses cadernos ainda não foram publicados (Cf. Krätke, 2008).
42. Alguns dias mais tarde, Marx comunicou seus planos a Lassalle: ‘A atual crise comercial me impeliu a trabalhar seriamente no plano geral da minha economia política, assim como também na preparação de algo sobre a atual crise’ (Marx a Ferdinand Lassalle, 21 de dezembro de 1857 (Marx e Engels, 1983c, p. 226).

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Journal Articles

Difusão e recepção dos Grundrisse no mundo

1. 1858-1953: Cem anos de solidão
Ao deixar de lado os Grundrisse, em maio de 1858, para se dedicar ao trabalho da Contribuição à Crítica da Economia Política, Marx utilizou passagens daquele na elaboração deste último texto, mas, em seguida, referiu-se pouquíssimas vezes a ele novamente. Na verdade, embora tivesse o hábito de fazer referência a seus próprios estudos precedentes, chegando a transcrever passagens inteiras deles, os manuscritos preparatórios d’O capital, com exceção daqueles de 1861-1863, não contêm nenhuma referência aos Grundrisse. Esta obra se situa entre tantos outros esboços em que Marx não tinha intenção de se deter.

Pode não haver certeza sobre o assunto, mas é provável que nem mesmo Friedrich Engels tenha lido os Grundrisse. Como é sabido, Marx logrou terminar, até sua morte, apenas o primeiro volume d’ O capital e os manuscritos inacabados do segundo e terceiro volumes foram selecionados e reunidos para publicação por Engels. No curso desse trabalho, ele deve ter examinado dezenas de cadernos contendo esboços preliminares d’O capital, e é plausível admitir que, ao colocar alguma ordem na montanha de papéis, ele tenha folheado os Grundrisse e concluído que era uma versão prematura do trabalho de seu amigo – anterior até à Contribuição à Crítica da Economia Política de 1859 – e que não poderia, portanto, ser utilizada para seus propósitos. Além disso, Engels nunca se referiu aos Grundrisse, nem em seus prefácios aos dois volumes d’O capital que se encarregou de publicar, nem em sua própria coleção imensa de cartas.

Depois da morte de Engels, grande parte dos textos originais de Marx foi entregue ao arquivo do Partido Social-Democrata Alemão (SPD) em Berlim, onde foram tratados com negligência extrema. Conflitos políticos no interior do Partido impediram a publicação de numerosos materiais importantes que Marx havia deixado para trás; na verdade, eles levaram a desmembrar os manuscritos e por muito tempo impediram a publicação da edição completa dos trabalhos dele. Não deixaram ninguém ficar responsável por um inventário do legado intelectual de Marx, de modo que os Grundrisse continuaram desconhecidos ao lado de outros textos.

A única parte desse legado que veio ao conhecimento público neste período foi o “Prefácio”, que Karl Kautsky publicou em 1903 naDie Neue Zeit (Os Novos Tempos), [1] com uma breve nota que o apresentou como um “esboço incompleto”, datado de 23 de agosto de 1857. Argumentando que o texto era a introdução para a obra magna de Marx, Kautsky deu a ele o títuloEinleitung zu einer Kritik der politischen Ökonomie ( Prefácio à crítica da economia política) e afirmou que “apesar de seu caráter incompleto”, o texto “ofereceu um número vasto de novos pontos de vista”.[2] Interesse considerável, na verdade, era demonstrado pelo texto: as primeiras versões em outras línguas consumaram-se em francês (1903) e em inglês (1904), e rapidamente ele se tornou divulgado de modo mais amplo depois de Kautsky publicá-lo em 1907 como um apêndice à Contribuição à Crítica da Economia Política. Cada vez mais traduções apareceram – incluindo a russa (1922), a japonesa (1926), a grega (1927) e a chinesa (1930) – até que se tornou um dos trabalhos mais comentados de toda a produção teórica de Marx.

Enquanto o Prefácio contou com a sorte, os Grundrisse continuaram desconhecidos por um longo período. É difícil acreditar que Kautsky não tenha tomado conhecimento do manuscrito inteiro com o Prefácio, mas nunca fez qualquer menção a ele. E um pouco depois, quando decidiu publicar alguns dos escritos de Marx desconhecidos até então entre 1905 e 1910, ele se concentrou no conjunto de textos de 1861-1863, para o qual deu o título Teorias da mais-valia.

A descoberta dos Grundrisse ocorreu em 1923, graças a David Ryazanov, diretor do Instituto Marx-Engels (IME) em Moscou e organizador da Marx Engels Gesamtausgabe (MEGA), as obras completas de Marx e Engels. Posteriormente, ao investigar o Nachlass em Berlim, ele revelou a existência dos Grundrisse em uma reportagem para a Academia Socialista de Moscou sobre a obra de Marx e Engels:

Eu encontrei entre os textos de Marx uns oito cadernos de estudos de economia… O manuscrito pode ser datado de meados de 1850 e contém os primeiros esboços da obra de Marx [Das Kapital], cujo título ele não havia ainda cunhado na época; [também] representa a primeira versão de sua Contribuição à Crítica da Economia Política. [3]

“Em um desses cadernos”, Ryazanov prossegue, “Kautsky encontrou o ‘ Prefácio’ à Contribuição à Crítica da Economia Política” – e considerou os manuscritos preparatórios d’O capital de “interesse excepcional para aqueles que abordam o desenvolvimento intelectual de Marx e seu próprio método de trabalho e de pesquisa”. [4]

Por meio de um acordo entre o IME, o Instituto de Pesquisa Social em Frankfurt e o Partido Social-Democrata Alemão (que ainda tinha custódia doNachlass Marx-Engels) para a publicação da MEGA, os Grundrisse foram fotografados com muitos outros escritos inéditos e começaram a ser estudados por especialistas em Moscou. Entre 1925 e 1927, Pavel Veller do IME catalogou todos os materiais preparatórios d’ O capital, o primeiro dos quais era o próprio Grundrisse. Em 1931, ele foi completamente desvendado e datilografado e, em 1933, uma parte foi publicada em russo como “Capítulo sobre dinheiro”, seguida dois anos depois por uma edição em alemão. Finalmente, em 1936, o Instituto Marx-Engels-Lenin (IMEL, sucessor do IME) adquiriu seis dos oitos cadernos dos Grundrisse, que possibilitaram resolver o restante dos problemas editoriais.

Em 1939, por conseguinte, o último manuscrito importante de Marx – um trabalho extenso de um dos mais férteis períodos de sua vida – apareceu em Moscou sob o título dado a ele por Veller: Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie (Rohentwurf) 1857-1858. Dois anos mais tarde, aparece seguido de um apêndice (Anhang), incluindo os comentários de Marx de 1850-1851 sobre os Princípios de economia política e tributação de Ricardo, suas observações sobre Bastiat e Carey, seu próprio sumário para osGrundrisse, e o material preparatório (Urtext) da Contribuição à Crítica da Economia Política de 1859. O prefácio do IMEL para a edição de 1939 destacou seu valor excepcional: “o manuscrito de 1857-1858, publicado na íntegra pela primeira vez neste volume, marcou uma decisiva fase na obra econômica de Marx”. [5]

Embora as linhas editoriais e o formato da publicação fossem semelhantes, os Grundrisse não foram incluídos nos volumes da MEGA, mas apareceram em edição à parte. Além disso, a proximidade da Segunda Guerra Mundial fez que a obra permanecesse virtualmente desconhecida: as três mil cópias tornaram-se rapidamente muito raras, e apenas pouquíssimas conseguiram atravessar as fronteiras soviéticas. Os Grundrisse não foram publicados na Sochinenya de 1928-1947, a primeira edição russa das obras de Marx e Engels, e sua primeira republicação em alemão teve de aguardar até 1953. Embora seja surpreendente que um texto como os Grundrisse fosse publicado ainda durante a era Stálin, herético como certamente era em relação aos então indiscutíveis cânones do diamat, o “materialismo dialético” de estilo soviétivo, devemos também lembrar que era naquela época o mais importante dos escritos de Marx a não chegar a circular na Alemanha. Sua publicação posterior, que atingiu na Berlim Oriental as trinta mil cópias, era parte das comemorações do Karl Marx Jahr,[6] do septuagésimo aniversário da morte de seu autor e do centésimo qüinquagésimo de seu nascimento. Escritos em 1857-1858, os Grundrisse foram disponibilizados para leitura em todo o mundo apenas a partir de 1953, depois de cem anos de solidão.

2. Quinhentas mil cópias circulando no mundo
Apesar da ressonância desse importante novo manuscrito que antecedeu O capital, e apesar do valor teórico atribuído a ele, as edições em outras línguas demoraram a aparecer. Depois do Prefácio, outro extrato, as “Formas que precedem a produção capitalista”, era o primeiro a despertar interesse. Esse extrato foi traduzido em russo em 1939, e posteriormente do russo para o japonês em 1947-1948. Posteriormente, a edição alemã separada dessa parte e uma tradução para o inglês contribuíram para assegurar um amplo número de leitores: a edição alemã, que surgiu em 1952 como parte da Kleine Bücherei des Marxismus-Leninismus (Pequena Biblioteca do Marxismo-Leninismo), serviu de base às versões húngara e italiana (1953 e 1954, respectivamente); enquanto a tradução inglesa, publicada em 1964, contribuiu para difundir o texto nos países anglófonos e, por meio das traduções na Argentina (1966) e Espanha (1967), para os leitores do mundo de língua espanhola. O organizador dessa edição inglesa, Eric Hobsbawm, acrescentou um prefácio que ajudou a relevar sua importância: Formações econômicas pré-capitalistas. Conforme ele observou, era

a tentativa mais sistemática [de Marx] de enfrentar o problema da evolução histórica”, e “pode-se afirmar, sem hesitação, que qualquer discussão histórica marxista realizada sem levar em consideração este trabalho… terá de ser reconsiderada à luz do mesmo. [7]

Cada vez mais especialistas em todo o mundo começaram, na verdade, a se interessar por esse texto, que apareceu em muitos outros países e em todos lugares propiciou discussões teóricas e históricas importantes. As traduções dos Grundrisse, na íntegra, iniciaram-se no final da década de 1950; sua difusão foi um processo lento, mas permanente, que finalmente permitiu uma apreciação mais acabada, e em alguns aspectos diferente, da obra de Marx. Os melhores intérpretes dos Grundrisse abordaram-no no original, mas seu estudo mais amplo – entre os especialistas que não liam em alemão e, sobretudo, entre os militantes políticos e estudantes universitários – ocorreu somente depois de sua publicação em várias línguas nacionais.

As primeiras a aparecer foram no Oriente: no Japão (1958-1965) e na China (1962-1978). Uma edição russa saiu na União Soviética somente em 1968-1969, como um suplemento à segunda edição ampliada da Sochinneniya (1955-1966). Sua exclusão prévia dessa edição era de todas a mais séria, pois tinha resultado em uma omissão parecida com a da Marx-Engels-Werke (MEW) de 1956-1968, que reproduziu a seleção soviética de textos. A MEW – a edição consideravelmente mais utilizada das obras de Marx e Engels, bem como a fonte para as traduções em muitas outras línguas – não continha os Grundrisse até sua publicação como um suplemento em 1983.

Os Grundrisse também começaram a circular na Europa Ocidental no final dos anos 1960. A primeira tradução apareceu na França (1967-1968), mas era de inferior qualidade e teve de ser substituída por uma tradução mais fiel ao texto em 1980. Uma versão italiana deu seqüência entre 1968 e 1970 à iniciativa significativamente vinda, como na França, de uma editora independente do Partido Comunista.

O texto foi publicado na Espanha na década de 1970. Se excluirmos a versão de 1970-1971 publicada em Cuba, que tinha pouco valor como era o caso da elaborada na versão francesa, e cuja circulação permaneceu confinada nos limites daquele país, a primeira tradução propriamente espanhola foi realizada na Argentina entre 1971 e 1976. Foi seguida por outras três produzidas conjuntamente na Espanha, Argentina e México, tornando o espanhol a língua com o maior número de traduções dos Grundrisse.

A tradução inglesa foi precedida em 1971 por uma seleção de extratos, organizada por David McLellan, e gerou expectativas nos leitores do texto: “Os Grundrisse são muito mais que um esboço aproximado d’ O capital”;[8] na verdade, mais do que qualquer outra obra, “contêm uma síntese de várias linhas do pensamento de Marx… Em um certo sentido, nenhuma das obras de Marx é completa, mas a mais completa delas é os Grundrisse”. [9] A tradução completa chegou finalmente em 1973, depois de vinte anos da edição original em alemão. Seu tradutor, Martin Nicolaus, observou em uma introdução:

Além de seu grande valor histórico e biográfico, eles [os Grundrisse] acrescentam muitos novos materiais, e figuram-se como o único esboço de todo o projeto de economia política. … Os Grundrisse desafiam e colocam em questão muitas interpretações importantes de Marx ainda aceitas. [10]

Os anos 1970 foram também cruciais para as traduções na Europa Oriental. Uma vez que a luz verde havia sido dada na União Soviética, não havia mais nenhum grande obstáculo para seu aparecimento nos países “satélites”: Hungria (1972), Tchecoslováquia (1971-1977 em tcheco, em 1974-1975 em eslovaco) e Romênia (1972-1974), bem como na Iugoslávia (1979). Durante o mesmo período, duas contrastantes edições dinamarquesas foram lançadas no mercado quase ao mesmo tempo: uma publicada por uma editora ligada ao Partido Comunista (1974-1978), e outra, por uma editora próxima à Nova Esquerda (1975-1977).

Nos anos 1980, os Grundrisse foram também traduzidos no Irã (1985-1987), onde constituiu a primeira edição minuciosa em persa de todos os trabalhos de Marx, e em um número crescente de países europeus. A edição eslovena data de 1985, e a polonesa e a finlandesa de 1986 (esta última com o apoio soviético). Com a dissolução da União Soviética e o fim do que foi conhecido como “socialismo realmente existente”, que na realidade foi uma descarada negação do pensamento de Marx, houve um período de queda da publicação dos escritos de Marx. No entanto, nem nos anos em que o silêncio envolvendo seu autor era rompido somente por pessoas que o relegavam com absoluta certeza ao esquecimento os Grundrisse deixaram de ser traduzidos em outras línguas. As edições da Grécia (1989-1992), da Turquia (1999-2003), da Coréia do Sul (2000) e do Brasil (prevista para 2009) fazem dos Grundrisse o trabalho de Marx com o maior número de novas traduções nas duas últimas décadas.

Ao todo, os Grundrisse foram traduzidos na íntegra em 22 línguas, [11] compreendendo um total de 32 versões diferentes. Sem contar as edições parciais, que foram impressas em mais de quinhentas mil cópias [12] – um quadro que surpreenderia enormemente o homem que escreveu esse texto apenas para resumir, com a maior imprecisão, os estudos econômicos que havia empreendido até aquele momento.

3. Leitores e intérpretes
A história da recepção dos Grundrisse, bem como de sua difusão, é marcada por um começo um tanto tardio. A razão decisiva disso, além das hesitações associadas a sua redescoberta, é certamente a complexidade do próprio manuscrito esboçado de modo incompleto e impreciso, e a dificuldade de traduzi-lo e de interpretá-lo em outras línguas. Em relação a isso, a autoridade no assunto Roman Rosdolsky observou:

Em 1948, quando pela primeira vez eu tive a sorte de ter acesso a uma das raríssimas cópias na época… ficou claro desde o princípio que era um trabalho de fundamental importância para a teoria marxista. Contudo, seu formato inusitado e até certo ponto sua maneira obscura de expressão deixaram-no muito distante do alcance de um amplo círculo de leitores. [13]

Essas considerações levaram Rosdoslky a tentar fazer uma exposição clara e um exame crítico do texto: como resultado, a obraZur Entstehungsgeschichte des Marxchen ‘Kapital’.Der Rohentwurf des ‘Kapital’ 1857-58 (Gênese e estrutura de O capital de Karl Marx), que apareceu em alemão em 1968, é a primeira e ainda a principal monografia dedicada aos Grundrisse. Traduzida em muitas línguas, encorajou a publicação e a circulação da obra de Marx e tem tido uma influência considerável sobre todos seus intérpretes subseqüentes.

O ano de 1968 foi importante para os Grundrisse. Além do livro de Rosdolsky, o primeiro ensaio sobre essa obra em inglês apareceu na edição de março-abril da New Left Review: “The Unknown Marx”, de Martin Nicolaus,[14] que teve o mérito de tornar os Grundrisse conhecidos de modo mais amplo e destacar a necessidade de uma tradução completa dessa obra. Enquanto isso, na Alemanha e na Itália, os Grundrisse persuadiram algumas das lideranças na revolta estudantil, que ficaram empolgadas com o conteúdo radical e explosivo e elaboraram suas alternativas através das páginas dessa obra. O fascínio era irresistível especialmente entre aqueles que na Nova Esquerda estavam comprometidos com a superação da interpretação de Marx oriunda do marxismo-leninismo.

Por outro lado, os tempos estavam mudando no Oriente também. Depois de um período inicial no qual os Grundrisse foram quase completamente ignorados, ou vistos com desconfiança, o estudo introdutório de Vitalii Vygodskii’s – Istoriya odnogo velikogo otkrytiya Karla Marksa (A história de uma grande descoberta: como Marx escreveu O capital ), publicado na Rússia em 1965 e na República Democrática Alemã em 1967 – tomou uma direção política diferente. Ele definiu os Grundrisse como um “trabalho de gênio”, que “nos esclarece sobre o ‘laboratório criativo de Marx’ e nos capacita a seguir passo a passo o processo no qual Marx elaborou sua teoria econômica”, e para a qual foi necessário, portanto, dar a devida atenção. [15]

No espaço de apenas poucos anos os Grundrisse tornaram-se um texto-chave para muitos marxistas influentes. Além daqueles já mencionados, os especialistas que em particular se interessavam pela obra, eram: Walter Tuchscheerer na República Democrática Alemã, Alfred Schmidt na República Federativa Alemã, os membros da Escola de Budapeste na Hungria, Lucien Sève na France, Kiyoaki Hirata no Japão, Gajo Petrović na Iugoslávia, Antonio Negri na Itália, Adam Schaff na Polônia e Allen Oakley na Austrália. No geral, tornou-se um trabalho com o qual qualquer estudioso sério de Marx tinha de lidar. Com várias nuances, os intérpretes dos Grundrisse se dividiram entre aqueles que o consideravam um trabalho autônomo completo em si conceitualmente e outros que o viam como um manuscrito prematuro que meramente preparou o caminho para O capital.

O cenário ideológico das discussões sobre os Grundrisse – o centro da disputa era a legitimidade ou ilegitimidade das abordagens de Marx, com suas enormes repercussões políticas – propiciou o desenvolvimento de interpretações equivocadas e que parecem hoje ridículas. Um dos mais entusiasmados comentadores dos Grundrisse argumentou até que este era teoricamente superior a O capital, apesar dos dez anos a mais de pesquisa intensa utilizados para a elaboração deste último. De modo análogo, entre os principais detratores dos Grundrisse, havia alguns que alegavam que, apesar das partes importantes para nosso entendimento da relação de Marx com Hegel e apesar das passagens significativas sobre alienação, esse texto não acrescentou nada para o que já era conhecido sobre Marx.

Não foram apenas essas as leituras contrastantes dos Grundrisse, havia também não leitores da obra – o mais notável e representativo exemplo foi o de Louis Althusser. Ainda que tenha tentado pôr em evidência os supostos silêncios de Marx e ler O capital com o objetivo de “tornar visível o que há de invisível nele”, [16] ele permitiu a si próprio não levar em consideração uma massa considerável de centenas de páginas escritas dos Grundrisse e efetuar uma divisão (debatida calorosamente mais tarde) do pensamento de Marx entre as obras de juventude e as obras de maturidade, sem tomar conhecimento do conteúdo e do significado dos manuscritos de 1857-8. [17]

Desde meados dos anos 1970, contudo, os Grundrisse angariaram um número bastante significativo de leitores e intérpretes. Dois comentários extensos apareceram: um em japonês em 1974 [18] e o outro em alemão em 1978,[19] mas muitos outros autores também escreveram sobre a obra. Vários especialistas reconheciam-no como um texto de importância vital para uma das questões debatidas de modo mais amplo, relacionadas ao pensamento de Marx: sua dívida intelectual com Hegel. Outros estavam fascinados pelas quase proféticas declarações nas passagens sobre maquinaria e automação, e no Japão os Grundrisse também foram lidos como um texto altamente atual para nosso entendimento da modernidade. Nos anos 1980, os primeiros estudos detalhados começaram a aparecer na China, onde a obra serviu para lançar luz sobre a gênese d’ O capital, enquanto na União Soviética uma coletânea de textos foi dedicada integralmente aos Grundrisse. [20]

Nos anos recentes, a capacidade contínua das obras de Marx de explicar (como também de criticar) o modo capitalista de produção tem proporcionado uma renovação do interesse por parte de diversos especialistas internacionais. [21] Se essa renovação perdurar e se for acompanhada por uma nova demanda por Marx no campo da política, os Grundrisse certamente provarão uma vez mais ser um de seus escritos capazes de despertar maior atenção.

Enquanto isso, na esperança de que “a teoria de Marx seja uma fonte viva de conhecimento e de prática política para o qual esse conhecimento se dirige”,[22] a história apresentada aqui da difusão e recepção global dos Grundrisse é proposta como um reconhecimento modesto de seu autor e como uma tentativa de reconstruir um capítulo ainda não escrito na história do marxismo.

Apêndice: Tabela cronológica de traduções dos Grundrisse

1939-41 Primeira edição alemã
1953 Segunda edição alemã
1958-65 Tradução japonesa
1962-78 Tradução chinesa
1967-1968 Tradução francesa
1968-1969 Tradução russa
1968-1970 Tradução italiana
1970-1971 Tradução espanhola
1971-1977 Tradução tcheca
1972 Tradução húngara
1972-1974 Tradução romena
1973 Tradução inglesa
1974-1975 Tradução eslovaca
1974-1978 Tradução dinamarquesa
1979 Tradução sérvia/sérvio-croata
1985 Tradução eslovena
1985-1987 Tradução persa
1986 Tradução polonesa
1986 Tradução finlandesa
1989-1992 Tradução grega
1999-2003 Tradução turca
2000 Tradução coreana
2008 Tradução portuguesa

References
1. O autor traduziu todos os títulos de livros, artigos e revistas que se encontravam numa língua diferente do inglês – língua original deste artigo. Nessa tradução, respeitamos esse procedimento do autor, com a diferença que apresentamos os títulos em português, fazendo obviamente alguns ajustes nos casos em que a edição brasileira do texto não reproduzir literalmente a tradução do título original. (N.T.)
2. Karl M. “Einleitung zu einer Kritik der politischen Ökonomie”. Die Neue Zeit, ano 21, v.1, n.1, p.710.
3. David Ryazanov “ Neueste Mitteilungen über den literarischen Nachlaß von Karl Marx und Friedrich Engels ” (Últimas notícias sobre o legado literário de Karl Marx e Friedrich Engels). Archiv für die Geschichte des Sozialismus und der Arbeiterbewegung , ano 11, 1925, p.393-4.
4. Ibidem, p.394.
5. Marx-Engels-Lenin-Institut. “Vorwort” (Préfácio) In: Karl M. Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie (Rohentwurf) 1857-1858 . Moscou, Verlag für Fremdsprachige Literatur, 1939, p.VII.
6. Ano Karl Marx. (N.T.)
7. Eric Hobsbawm. “Introduction” In: Karl Marx. Pre-Capitalist Economic Formations. London, Lawrence & Wishart, 1964, p. 10. [N. T.] Ver também edição brasileira: Eric Hobsbawm. Introdução. In: Karl Marx. Formações econômicas pré-capitalistas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975, p.14.
8. David McLellan. Marx’s Grundrisse. London: Macmillan, 1971, p.2.
9. Ibidem, p.14-5.
10. Martin Nicolaus. Foreword. Karl Marx. Grundrisse. Harmondsworth, Peguin Books, 1973, p.7. (N.T.) Ver também a edição brasileira: Martin Nicolaus. Introdução. In: César Bejamin (Org.) Marx e o socialismo. São Paulo: Expressão Popular, 2003.
11. Ver a tabela cronológica de traduções no Apêndice 1. Às traduções completas mencionadas acima devem ser acrescentadas as edições em sueco (Karl Marx. Grunddragen i kritiken av den politiska ekonomin. Stockholm, Zenit/R&S, 1971) e macedônio (Karl Marx. Osnovi na kritikata na politi kata ekonomija (grub nafrlok): 1857-1858 . Skopje, Komunist, 1989), assim como as traduções doPrefácio e das Formas que precedem a produção capitalista publicadas em diversas línguas, do vietnamita ao norueguês, do árabe ao holandês, do hebreu ao búlgaro.
12. O total foi calculado levando em consideração a tiragem observada durante pesquisa nos países em questão.
13. Roman Rosdolsky. The making of Marx’s ‘Capital’ (v.1). London: Pluto Press, 1977. (N.T.) Ver também edição brasileira: Roman Rosdolsky. Gênese e estrutura de O capital de Karl Marx. Rio de Janeiro: Ed. Uerj/Contraponto, 2001.
14. Ver versão em língua portuguesa desse artigo: Martin Nicolaus. “ Marx desconhecido”. In: Robin Blackburn (Org.) Ideologia na ciência social: ensaios críticos sobre a teoria social . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. ([N.T.)
15] Vitalli Vygodskii. The story of a great discovery: how Marx wrote “Capital”. Tunbridge Wells: Abacus Press, 1974, p.44.
16. Louis Althusser e Étienne Balibar. Reading Capital. London: Verso, 1979, p.32. (N.T.) Ver também edição brasileira: Louis Althusser e Étienne Balibar. Ler O capital. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
17. Ver Lucien Sève. Penser avec Marx aujourd’hui. Paris: La Dispute, 2004, que recorda como “com a exceção de textos tais como o Prefacio … Althusser nunca leu os Grundrisse, no sentido real da palavra leitura” (p.29). Ao adaptar o termo “corte epistemológico” (coupure epistémologique) de Gaston Bachelard, que o próprio Althusser tinha emprestado e feito uso, Sève fala de um “corte bibliográfico ( coupure bibliographique) artificial que resultou nas visões mais equivocadas de sua gênese e, portanto, de sua coerência com o pensamento maduro de Marx” (p.30).
18. Kiriro Morita e Toshio Yamada.Komentaru keizaigakuhihan’yoko (Comentários sobre os Grundrisse), Tokyo: Nihonhyoronsha, 1974.
19. Projektgruppe Entwicklung des Marxschen Systems. Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie (Rohentwurf) . Kommentar. Hamburg, VSA, 1978.
20. V.V.A.A. Pervonachal’ny variant “Kapitala”. Ekonomicheskie rukopisi K. Marksa 1857-1858 godov (A primeira versão d’O capital, Manuscritos Econômicos de 1857-1858, de K. Marx). Moscow: Politizdat, 1987.
21. Ver Marcello Musto. “The rediscovery of Karl Marx”. International Review of Social History, n.52/53, p. 477-98, 2007.
22. Roman Rosdolsky, op. cit., p.xiv.

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A redescoberta de Karl Marx

Introdução
Poucos homens estremeceram o mundo como Karl Marx. Sua morte, muito pouco noticiada, foi seguida por um inigualável aumento da sua fama. Em pouco tempo, seu nome era pronunciado tanto pelos trabalhadores de Detroit e Chicago, como pelos primeiros socialistas indianos em Calcutá. Sua imagem estava no congresso dos Bolcheviques em Moscou após a revolução. Seu pensamento inspirou os programas e estatutos de todos os movimentos políticos dos trabalhadores, de toda Europa até Xangai. Suas idéias mudaram irreversivelmente a história, economia e filosofia.

Ainda assim, apesar da consolidação das suas teorias, de tornar-se uma ideologia dominante e uma doutrina de Estado para uma considerável parte da humanidade no século XX e a ampla disseminação dos seus escritos, até hoje ele ainda não possui uma completa e científica edição do seu trabalho. De todos os grandes pensadores, ele é o único com esta sina.

A principal razão para isto reside na freqüente incompletude da obra de Marx. Com a exceção dos artigos de jornais que ele escreveu entre 1848 e 1862, a maioria publicado no New-York Tribune, um dos mais importantes jornais da época, os trabalhos publicados foram relativamente poucos, quando comparados com os trabalhos parcialmente concluídos e a impressionante diversidade das suas pesquisas. Indicativamente, em 1881, quando perguntado por Karl Kautsky sobre uma possível edição completa das suas obras, Marx disse: “Antes de tudo, elas teriam que ser escritas”.

Marx deixou muito mais manuscritos, que publicações. O método extremamente rigoroso e a impiedosa autocrítica, que lhe tornou impossível levar até o fim muitos dos trabalhos começados; as condições de extrema pobreza e o estado de saúde debilitada permanentes; sua indistinta paixão pelo conhecimento que sempre o levava a estudos diversos, tornaram a incompletude a sua fiel companheira e maldição da sua produção intelectual e da sua própria vida.

Marx e Marxismo: incompletude versus sistematização
Após a morte de Marx em 1883, Friedrich Engels foi o primeiro a se dedicar à difícil tarefa – devida à dispersão do material, linguagem obscura e a inteligibilidade da caligrafia – de editar o legado do amigo. Seu trabalho se concentrou na seleção e reconstrução do material original, na publicação de textos não editados ou incompletos e na republicação e tradução dos escritos já conhecidos.

Mesmo se existiram exceções, como no caso das Teses sobre Feuerbach, editado em 1888 como um apêndice ao seu Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Alemã Clássica; a Crítica ao Programa de Gotha, que saiu em 1891, Engels focou-se na edição d’O Capital, do qual apenas o primeiro foi publicado antes da morte de Marx. Esta tarefa que durou mais de uma década, foi realizada com a explícita intenção de realizar “um trabalho conexo e até onde possível completo”. Durante esta atividade no segundo e terceiro volumes do Capital, Engels fez muito além de reconstruir a gênese e desenvolvimento dos manuscritos originais de Marx. Na seleção dos textos, que estavam longe de serem versões definitivas, Engels tentou dar uma uniformidade ao todo, e enviou a cópia dos volumes aos publishers em uma edição completa e em estado definitivo.

Anteriormente, entretanto, Engels já tinha contribuído para o processo de sistematização dos seus escritos. Lançado em 1879, Anti-Dühring, definido por Engels como a “mais ou menos ordenada exposição do método dialético e da visão comunista encabeçada por Marx e eu”, tornou-se um ponto crítico de referência na formação do ‘Marxismo’ como um sistema e a sua diferenciação do eclético socialismo disseminado na época. Do socialismo utópico ao socialismo científico teve importância ainda maior: foi uma re-elaboração, para fins de popularização, de três capítulos do trabalho prévio, publicado em 1880 e que desfrutou de um sucesso comparável ao do Manifesto do Partido Comunista.

Mesmo se existia uma clara diferença entre este tipo de popularização, assumido em polêmica aberta com os atalhos simplistas das sínteses enciclopédicas e adotado pela próxima geração da social-democracia alemã, a opção de Engels pelas ciências naturais, abriu o caminho para a concepção evolucionista do darwinismo social que, logo depois, também seria defendido pelo movimento operário.

Marx, por outro lado, indiscutivelmente crítico e aberto, mesmo se algumas vezes com tentações deterministas, safou-se do clima cultural na Europa no final do século XIX. Como nunca antes, era uma cultura permeada pela popularidade de concepções sistemáticas – sobretudo darwinistas. Em resposta, o recém nascido Marxismo, que tinha se tornado uma ortodoxia nas páginas da revista Die Neue Zeit sob a edição de Kautsky, rapidamente adaptou-se a este modelo.

Um fator decisivo que ajudou a consolidar esta transformação do trabalho de Marx pode ser identificado nas modalidades que acompanharam a sua difusão. Panfletos de síntese e pequenos compêndios eram privilegiados, como demonstrado pelas reduzidas tiragens das edições dos seus textos nesta época. Além disto, alguns dos seus trabalhos não interessavam para uso político e a primeira edição dos seus escritos foi publicada com revisões pelos editores. Esta prática resultante da incerteza do legado de Marx, foi crescentemente combinada com a censura de alguns dos seus trabalhos. A forma de manual, um importante meio para a exportação mundial do pensamento do Marx, certamente representou um muito eficaz instrumento de propaganda, mas isto também levou a consideráveis alterações na sua concepção original. A circulação desta complexa e incompleta obra no seu choque com o positivismo, para responder às necessidades práticas do partido proletário, refletiu um empobrecimento teórico e uma versão vulgarizada do material original.

Da evolução deste processo uma doutrina esquemática tomou forma, uma interpretação evolucionista elementar embebida em determinismo econômico: o marxismo do período da segunda internacional (1889-1914). Guiado por uma firme, embora ingênua convicção da linearidade do progresso da história, e assim, da inevitável substituição do capitalismo pelo socialismo, demonstrou ser incapaz de aprender os desenvolvimentos atuais, e romper os necessários elos com a práxis revolucionária. Isto produziu uma espécie de fatalidade silenciosa, que deu estabilidade para a ordem existente.

A teoria da crise [Zusammenbruchstheorie] ou a tese do eminente fim da sociedade burguesa-capitalista, que encontrou sua mais favorável expressão na crise da grande depressão que se desdobrou nos vinte anos após 1873, foi proclamada como a essência fundamental do socialismo científico. As afirmações de Marx, mirando na delimitação dos princípios dinâmicos do capitalismo e mais amplamente, em descrever as tendências de seu desenvolvimento no seu interior, foram transformadas em leis históricas universais, das quais era possível deduzir o curso dos eventos, mesmo os detalhes particulares.

A idéia de um capitalismo contraditório agonizante, autonomamente destinado a colapsar, estava também presente no marco teórico da primeira plataforma inteiramente ‘marxista’ de um partido político, The Eurfurt Programme de 1891 e no comentário de Kautsky, que anunciava como “desenvolvimentos econômicos inexoráveis levariam à bancarrota do modo capitalista de produção com a necessidade de uma lei da natureza. A criação de uma nova forma de sociedade que substituirá a atual não é mais algo desejável, se tornou inevitável. Isto era a mais clara e mais significante representação dos limites intrínsecos da concepção da época, bem como da sua enorme distância do homem que a inspirou.

Mesmo Eduard Bernstein, que concebeu o socialismo como uma possibilidade, e assim assinalou a descontinuidade com as interpretações que eram dominantes no período, lia Marx de modo igualmente artificial, que não se diferenciava dos outros escritos da época e contribuiu para a difusão de uma imagem dele, como forma do amplamente difundido Debate Bernstein, que era igualmente falso e instrumental.

O marxismo russo, que no século XX teve um papel fundamental na popularização do pensamento de Marx, seguiu esta trajetória de sistematização e vulgarização com ainda maior rigidez. De fato, para o seu pioneiro mais importante, George Plekanov, “Marxismo é uma concepção de mundo completa” permeada por um reducionismo monista segundo o qual as transformações superestruturais na sociedade ocorrem simultaneamente com modificações econômicas. Apesar dos duros conflitos ideológicos destes anos, muitas características dos elementos teóricos da Segunda Internacional foram mantidos por aqueles que definiriam a matriz cultural da Terceira Internacional. Esta continuidade estava clara no Theory of Historical Materialism de Nikolai Bukharin, publicado em 1921, segundo a qual “na natureza e sociedade há uma regularidade exata, uma lei natural permanente. A determinação desta lei natural é a primeira tarefa da ciência”. O produto deste determinismo social, completamente concentrado no desenvolvimento das forças produtivas, gerou um doutrina segundo a qual “a multiplicidade de causas que fazem suas ações sentidas pela sociedade não contradizem no mínimo a existência de uma única lei da evolução social”.

Com a construção do maxismo-leninismo, o processo de alteração do pensamento tomou sua manifestação definitiva. Privado de sua função como um guia para ação, a teoria se tornou uma justificação a posteriori. O ponto sem volta, foi atingido com ‘Diamat’ (Dialekticeskij materializm), “o ponto de vista do partido marxista-leninista”. O panfleto de Stalin de 1938, Materialismo Dialético e Materialismo Histórico, que teve uma vasta distribuição, fixou os elementos essenciais desta doutrina: o fenômeno da vida coletiva é regulado por “leis necessárias ao desenvolvimento social”, “perfeitamente reconhecíveis” e “a história da sociedade aparece como um inevitável desenvolvimento da sociedade e o estudo da história se torna uma ciência”. Isto “significa que a ciência da história da sociedade, apesar de toda complexidade do fenômeno da vida social, pode tornar-se uma ciência, tão exata como, por exemplo, a biologia, capaz de utilizar as leis do desenvolvimento da sociedade para fazer seu uso prático” e que, consequentemente, a tarefa do partido proletário é guiar suas atividades por estas leis. Hoje é evidente como a confusão com os conceitos de “científico” e “ciência” atingiram o seu ápice. A cientificidade do método de Marx, baseada em um escrupuloso e coerente marco teórico, foi substituída por metodologias das ciências naturais, nos quais a contradição não estava presente. Finalmente, a superstição na objetividade das leis históricas, de acordo com as quais elas operavam como leis da natureza independentemente da vontade do homem, foi abonada.

Depois deste catecismo ideológico, o mais rígido dogmatismo conseguiu disseminar-se. A ortodoxia marxista-leninista impôs um inflexível monismo que também produziu efeitos perversos nos escritos de Marx. Inquestionavelmente, com a Revolução Soviética o marxismo desfrutou de um momento significativo de expansão e circulação para localidades e classes sociais, que até então, não tinha incidência. Entretanto, novamente a circulação de textos baseou-se muito mais manuais do partido, guias e antologias ‘marxistas’ sobre vários temas, que nos textos de Marx. Mais além, enquanto a censura de alguns textos aumentou, outros eram cortados e manipulados: por exemplo, como práticas de indução em citações deliberadamente reunidas. Estes usos foram resultado de um previsível fim e eles foram tratados da mesma maneira que o bandido Procusto reservava às suas vítimas: se eram muito logos, eram amputados, se muito curtos, alongados.

Concluindo, a relação entre a disseminação e a não-esquematização do pensamento, entre a sua popularização e a necessidade de não empobrecê-lo teoricamente, é sem dúvida muito difícil de perceber, especialmente o crítico e deliberadamente não-sistemático pensamento de Marx. De todos os modos, nada pior poderia acontecer com ele. Distorcido por diferentes perspectivas para se tornar uma função das necessidades da política contingencial, ela foi assimilado por elas e desprezado por causa delas. De crítica, sua teoria foi utilizada como salmos de algum tipo de bíblia e desta exegese nasceu o mais impensável paradoxo.

Longe de atentarem-se aos seus avisos contra “escrever receitas […] para os cozinheiros (cook-shops) do futuro” , ele foi transformado no pai ilegítimo de um novo sistema social. Uma crítica muito rigorosa e nunca complacente com suas conclusões, ele tornou-se a fonte do mais obstinado doutrinismo. Crédulo na concepção materialista da história, ele foi mais afastado do seu contexto histórico, do que qualquer outro autor. De estar certo que “a emancipação da classe trabalhadora tem que ser pelo próprio trabalho dos trabalhadores”, ele foi aprisionado em uma ideologia que via a primazia de uma vanguarda política e a preponderância no seu papel como proponentes de uma consciência de classe e líderes da revolução. Um defensor da idéia que a condição fundamental para a maturação das capacidades humanas era a redução da jornada de trabalho, ele foi assimilado à crença produtivista de Stakhanovism. Convencido da necessidade da abolição do Estado, ele se encontrou identificado como o seu defensor. Interessado como poucos outros pensadores em desenvolvimento livre da individualidade dos homens, argumentando contra a burguesia que esconde as disparidades sociais atrás da igualdade no direito, que “ao invés de sermos iguais, nós deveríamos se desiguais”, ele foi acomodado em uma concepção que neutralizou a riqueza da dimensão coletiva da vida social na indistinção da homogeneização. A incompletude original da obra crítica de Marx foi sujeitada à pressão da sistematização dos sucessores, que produziram, inexoravelmente, a desnaturalização do seu pensamento.

A odisséia da publicação das obras de Marx e Engels
“Foram os escritos de Marx e Engles […] alguma vez lidos na sua totalidade por alguém além do grupo de amigos próximos e discípulos dos autores?”, perguntou Antonio Labriola em 1897, se referindo ao que era conhecido então dos trabalhos deles. Suas conclusões foram inequívocas: “lendo todos os escritos dos fundadores do socialismo científico parece ter sido até agora um privilégio dos iniciados”; “o materialismo histórico” tem sido propagado “por meio de uma infinidade de equívocos, confusões, alterações grotescas, estranhamente disfarçadas e intervenções não reveladas”. Como foi demonstrado pela pesquisa histórica, a convicção que Marx e Engels foram realmente lidos foi fruto de um mito.

Ao contrário, muitos dos seus textos eram raros ou difíceis de achar mesmo na língua original. A proposta do acadêmico italiano de dar vida à “completa e crítica edição de todos os escritos de Marx e Engels” era imperativa. Para Labriola, não era preciso nem compilações nem antologias, ou o esboço de um testamentum juxta canonem receptum. Ao invés, “toda a atividade política e científica, toda a produção literária, mesmo que ocasional, dos dois fundadores do socialismo crítico, teria que estar à disposição dos leitores […] porque eles falam diretamente a quem quer que tenha o desejo de lê-los”. Mais de um século depois do seu desejo, este projeto ainda não foi realizado.

O executor natural desta opera omnia, não poderia ser outro que o Sozialdemokratische Partei Deutschlands (Partido Socialdemocrata Alemão), detentor do Nachlaß e cujos membros tiveram a maior competência teórica e política. Todavia, conflitos políticos dentro da social democracia não apenas impediram a publicação da vasta maioria dos trabalhos não publicados de Marx, mas causaram a dispersão dos manuscritos, comprometendo qualquer tentativa de uma edição sistemática. Inacreditavelmente, o partido alemão não o catalogou, tratando o legado literário deles com a máxima negligência. Nenhum dos seus teóricos listou as obras ou dedicou-se a levantar as correspondências, numerosas e extremamente dispersas, apesar do fato que isto era certamente uma fonte de informação muito útil de esclarecimentos, se de se continuação dos escritos.

A primeira publicação trabalhos completos, a Marx Engels Gesamtausgabe (MEGA), ocorreu apenas nos anos 20, como iniciativa de David Borisovič Ryazanov, diretor do Instituto Marx-Engels de Moscou. Esta iniciativa naufragou, devido às turbulentas ações do movimento operário internacional, que frequentemente estabelecia obstáculos, ao invés de favorecer a publicação dos trabalhos. Os expurgos stalinistas na União Soviética, que também afetaram os acadêmicos que trabalharam neste projeto e o surgimento do nazismo na Alemanha, levaram ao precoce interrupção da publicação. Tal era a produção contraditória de uma ideologia inflexível que tirou sua inspiração de um autor cujos trabalhos ainda eram em parte inexplorados. A consolidação do marxismo e sua cristalização em um dogmático corpus, precedeu o conhecimento dos textos que seriam necessários para conhecer a formação e evolução do pensamento de Marx. Os primeiros trabalhos, de fato, foram publicados somente na MEGA em 1927, a Crítica a filosofia do direito de Hegel, e em 1932 os Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844 e A Ideologia Alemã. Como já ocorrido com o segundo e terceiro livros d’O Capital eles foram publicados em edições nas quais eles apareciam como trabalhos completos; uma escolha que posteriormente se demonstraria a fonte de numerosas confusões interpretativas.

Ainda depois, alguns importantes trabalhos preparatórios d´O Capital: em 1993 o rascunho do capítulo 6 de O Capital ‘Resultados do Processo de Produção Direta’ e entre 1939 e 1941 os Fundamentos da Crítica a Economia Política, mais conhecida como Os Grundrisse, que teve circulação muito limitada. Além disto, estes escritos não publicados, como aqueles que seguiram, quando não foram escondidos por medo que poderiam erodir o cânone ideológico dominante, foram acompanhados por uma interpretação funcional às necessidades políticas que, na melhor hipótese, fizeram previsíveis ajustes para predeterminar interpretações e nunca permitiram uma completa reavaliação da obra de Marx.
A primeira edição russa dos trabalhos selecionados foi também terminada na União Soviética entre 1928 e 1947: Sočinenija (Obra Completa). Apensar deste nome, apenas incluiu alguns trabalhos, mas com 28 volumes (em 33 livros) que constituiu a mais completa coleção em termos qualitativos dos dois autores da época. A segunda Sočinenija, apareceu entre 1955 e 1966 em 39 volumes (42 livros). De 1956 a 1968 na República Democrática Alemã, em uma iniciativa do comitê central do SED, 41 volumes em 43 livros do Marx Engels Werke (MEW) foram publicados. Tal edição, entretanto, longe de completa, foi rebaixada por introduções e notas nas quais, seguindo o modelo da edição Soviética, que instruía o leitor segundo a ideologia do marxismo-leninismo.

O projeto de uma ‘segunda’ MEGA, planejado como a fiel reprodução com um extenso aparato crítico de todos os escritos dos pensadores, foi renascida nos anos 1960. Mas estas publicações, que começaram em 1975, foram também interrompidas, então por causa dos eventos de 1989. Em 1990, com o objetivo de continuar a edição o Internationaal Instituut voor Sociale Geschiedenis of Amsterdam e o Karl Marx Haus em Trier formaram a Internationale Marx-Engels-Stiftung (IMES). Após a difícil fase de reorganização, no curso da qual novos princípios editoriais foram aprovados e a editora Akademie Verlag tomou o lugar de Dietz Verlag, a publicação da chamada MEGA 2 começou em 1998.

MEGA2: A redescoberta de um autor mal compreendido
Contrariamente a todas as previsões do seu definitivo esquecimento, nos últimos anos os acadêmicos internacionais voltaram sua atenção a Marx. O valor de seu pensamento foi reafirmado por muitos e seus escritos estão sendo desempoeirados das estantes de bibliotecas da Europa, Estados Unidos e Japão. Um dos mais significativos exemplos da sua redescoberta é precisamente a continuidade da MEGA 2. O projeto completo, no qual acadêmicos de várias disciplinas e países participam, é articulado em quatro seções: A primeira inclui todos os trabalhos, artigos e rascunhos, menos O Capital; o segundo inclui O Capital e seus estudos preliminares começando em 1857; o terceiro é dedicado à correspondência; enquanto o quarto inclui extratos, anotações, entre outros. Dos 114 volumes planejados 53 já foram publicados (13 desde a retomada em 1998), cada um deles consiste em dois livros: o texto mais o aparato crítico, que contém os índices e muitas notas adicionais. As aquisições editoriais da MEGA 2 produziram importantes resultados nas quatro seções. Na primeira, Werke, Artikel und Entwürfe, a pesquisa foi recomeçada com a publicação de dois novos volumes.

O primeiro, ‘Karl Marx-Friedrich Engels, Werke, Artikel, Entwürfe. Januar bis Dezember 1855’, inclui 200 artigos e rascunhos escritos pelos dois autores em 1855 para o New-York Tribune e o Neue Oder-Zeitung de Breslau. Conjuntamente aos mais conhecidos escritos sobre política e diplomacia européia, reflexões sobre a conjuntura econômica interna e a guerra da Criméia, a pesquisa tornou possível adicionar 21 outros textos previamente não atribuídos porque eram publicados anonimamente em jornal americano. O segundo ‘Friedrich Engels, Werke, Artikel, Entwürfe. Oktober 1886 bis Februar 1891’, por outro lado, apresenta parte do trabalho do último Engels. O volume alterna entre projetos e notas. Entre estes está o manuscrito Rolle der Gewalt in der Geschichte, sem as intervenções de Bernstein editou sua primeira publicação, que é dirigido a organizações do movimento operário e prefacia a republicação de escritos e artigos. Entre os últimos, de particular interesse está Die auswärtige Politik des russischen Zarentums, a história de dois séculos de política externa russa que apareceu em Die Neue Zeit, mas que foi suprimido por Stalin em 1934, e Juristen-Sozialismus, escrito com Kautsky, cuja paternidade das partes individuais foi esclarecida pela primeira vez.

Seguindo, de considerável interesse é o primeiro número de Marx-Engels-Jahrbuch, uma nova série publicada pelo IMES, inteiramente dedicado à A Ideologia Alemã. Este livro, antecipando o volume I/5 da MEGA 2, inclui as páginas de Marx e Engels que correspondem ao manuscrito ‘I. Feuerbach’ e ‘II. Sankt Bruno’. Os sete manuscritos que sobreviveram, à “crítica roedora dos ratos” são selecionados como textos independentes e cronologicamente ordenados. Desta edição pode deduzir-se com clareza, o caráter não unitário da obra. Novos e definitivos alicerces são dados para a pesquisa científica para traçar a elaboração teórica de Marx com confiabilidade. A Ideologia Alemã, considerada até agora como uma exaustiva exposição da concepção materialista da história, é agora reconstruída com a sua original fragmentação.

A pesquisa para a segunda edição da MEGA 2, Das Kapital’ und Vorarbeiten, se concentrou nos anos recentes no segundo e terceiro livros d’O Capital. O volume Karl Marx, Das Kapital. Kritik der politischen Ökonomie. Zweites Buch. Redaktionsmanuskript von Friedrich Engels 1884/1885’ inclui o texto do segundo livro compilado por Engels, com base em sete manuscritos de vários tamanhos escritos por Marx entre 1865 e 1881. Engels, de fato, recebeu muitas versões do segundo livro de Marx, mas não indicações sobre qual deveria ser publicada. Ao contrário, ele encontrou um material “com estilo pouco apurado e cheio de coloquialismos, oferecendo expressões engraçadas e termos técnicos em inglês e francês ou sentenças inteiras e até páginas em inglês. Os pensamentos eram escritos conforme se desenvolviam na cabeça do autor. […] Nas conclusões dos capítulos, devido a ansiedade do autor para iniciar o próximo, sempre haveria apenas algumas frases desconexas para apontar os próximos desenvolvimentos que ficaram incompletos”.

Ainda, Engels teve que tomar determinantes decisões editoriais. As mais recentes descobertas filológicas estimam que esta intervenção fosse cerca de 5.000: uma quantidade muito maior que as que se estimavam. As modificações consistem em edições e exclusões de passagens, modificações na estrutura, inserção de parágrafos, substituição de conceitos, reelaborações de algumas formulações de Marx ou traduções de palavras adaptadas de outras línguas. O texto entregue à gráfica só saiu após estas modificações. Este volume, então, nos permite reconstruir todo o processo de seleção, composição e correção dos manuscritos de Marx, estabelecer quais as mais significativas alterações de Engels e onde ele conseguiu respeitar inteiramente os manuscritos – que, repito, não representam o estado final de sua pesquisa.

A publicação do terceiro livro d’O Capital, ‘Karl Marx, Das Kapital. Kritik der politischen Ökonomie. Dritter Band’, o único volume que Marx não logrou dar forma definitiva, envolveu ainda maior intervenção editorial. Neste prefácio Engels adverte como o texto foi “um primeiro rascunho extremamente incompleto. O início de várias partes foi, como regra, cuidadosamente feito e até recebeu tratamento estatístico. Mas, conforme seguia, o manuscrito ficava mais esquemático e incompleto, bem como, mais desvios a temas paralelos levantados cujos lugares específicos no argumento seriam posteriormente decididos.”. Assim, o intenso trabalho editorial de Engels que lhe tomou boa parte das energias entre 1885 e 1894, produziu a transição de um texto provisional, composto de pensamentos “escritos em statu nascendi” e notas, a outro unitário, com formato de uma teoria econômica nascente concluída e sistemática.

Isto tornou-se aparente no volume ‘Karl Marx-Friedrich Engels, Manuskripte und redaktionelle Texte zum dritten Buch des Kapitals’. Ele contém os últimos seis manuscritos referentes ao terceiro livro d’O Capital, escritos entre 1871 e 1882. Destes, o mais importante é a longa seção sobre “A relação entre a taxa de mais-valia e a taxa de lucro matematicamente desenvolvida” de 1875, bem como os textos adicionados por Engels. Os últimos demonstram com exatidão o caminho tomado para a versão publicada. A posterior confirmação do mérito do livro é o fato que 45 dos 51 textos neste volume eram inéditos. A totalidade da segunda seção, finalmente permitirá uma precisa avaliação crítica dos textos originais deixados por Marx e o valor e limites do trabalho editorial de Engels.

A terceira seção da MEGA 2, Briefwechsel, contém as cartas trocadas entre Marx e Engels, bem como aquelas entre eles e numerosos correspondentes. O número total de cartas destas correspondências é enorme. Mais de 4.000 escritas por Marx e Engels (2.500 entre eles) foram encontradas, bem como, 10.000 endereçadas a eles por terceiros, uma vasta maioria inéditas antes da MEGA 2. Mais além, existe uma forte evidência de outras 6.000 cartas, embora estas não tenham sido preservadas. Quatro novos volumes foram editados o que agora nos permite a releitura de importantes fases da biografia intelectual de Marx pelas cartas daqueles com os quais manteve contato.

O contexto das cartas reunidas em ‘Karl Marx-Friedrich Engels, Briefwechsel Januar 1858 bis August 1859’ é a recessão de 1857. Esta, renova em Marx a esperança de uma retomada do movimento revolucionário, após uma década de refluxo aberta após a derrota de 1848 “A crise tem ficado submersa como a boa velha toupeira” Esta expectativa renovou o vigor da sua produção intelectual e o encorajou a delinear as linhas fundamentais da sua teoria econômica “antes do déluge”, esperada, mas ainda não realizada. Precisamente neste período, Marx escreveu suas últimas notas dos Grundrisse e decidiu publicar seu trabalho em panfletos . O primeiro destes, publicado em junho de 1859, foi intitulado Contribuição a crítica da Economia Política. Pessoalmente, esta fase o marcou pela “profunda miséria”: “Eu não creio que alguém tenha escrito sobre ‘dinheiro’, com tanta falta de dinheiro”. Marx lutou desesperadamente para garantir que a precariedade da sua condição não o impedisse de terminar sua ‘economia’ e declarou: “Eu tenho que perseguir meus objetivos a todo custo e não deixar que a sociedade burguesa me transforme em uma máquina de fazer dinheiro”. Todavia, o segundo panfleto nunca viu a luz do dia e a próxima publicação sobre economia teve que esperar até 1867, o ano no qual ele enviou o primeiro volume d’O Capital para a gráfica.

Os volumes ‘Karl Marx-Friedrich Engels, Briefwechsel September 1859 bis Mai 1860’ e ‘Karl Marx-Friedrich Engels, Briefwechsel Juni 1860 bis Dezember 1861’ contêm a correspondência relacionada ao tortuoso tema da publicação do Herr Vogt e a acalorada controvérsia entre Vogt e Marx. Em 1859, Karl Vogt acusou Marx de ter instigado uma conspiração contra ele, bem como de ser o líder de um grupo que vivia de chantagear aqueles que participaram nos levantes de 1848. Assim, para defender a sua reputação, Marx foi obrigado a se defender. Isto foi logrado graças a um enérgico intercâmbio de correspondência com militantes, com os quais ele teve relações políticas depois de 1848, com o propósito de obter dele todos os possíveis documentos sobre Vogt. O resultado foi um polêmico panfleto de 200 páginas: Herr Vogt. Assuntos pessoais neste período, não iam bem. Além dos desanimadores problemas financeiros – no final de 1861 Marx disse “se este [ano] for igual ao que passou, de minha parte, eu prefiro o inferno – haviam também aqueles costumeiros de saúde, os últimos causados pelos primeiros. Durante algumas semanas, por exemplo, ele parou de trabalhar: “a única ocupação que posso conservar para a tranqüilidade da alma é a matemática”, uma das grandes paixões da sua vida.

Novamente no início de 1861, sua condição agravou-se por uma inflamação no fígado e ele escreveu para Engels: “Estou sofrendo como Jô, embora não de temor a Deus”. Faminto por leitura novamente ele se refugiou na cultura: “para mitigar o profundo mau humor causado pela situação, incerto em todos os sentidos, estou lendo Tucídides. Pelo menos estes antigos sempre permanecem novos”. De todos os modos, em agosto de 1861 ele retomou seus trabalhos com afinco. Ale junho de 1863, ele preencheu 23 cadernos, que incluíam as Teorias sobre a Mais-Valia. Os 5 primeiros, que tratam da transformação do dinheiro em capital, foram ignorados por 100 anos e publicados apenas em 1973 em russo e em 1976 na língua original.

O tema principal de ‘Karl Marx-Friedrich Engels, Briefwechsel Oktober 1864 bis Dezember 1865’ é a atividade política de Marx na Associação Internacional de Operários, fundada em Londres em 28 de setembro de 1864. As cartas documentam as ações de Marx no período inicial da organização, durante o qual ele rapidamente conquistou o papel de liderança e sua tentativa de combinar estas tarefas públicas, que ele assumiu novamente como prioritárias após 16 anos, com o trabalho científico. Entre as questões que eram debatidas estava o funcionamento da organização dos sindicatos, importância que ele enfatizava, enquanto ao mesmo tempo, ia contra Lassalle e sua proposta de formar cooperativas financiadas pelo Estado prussiano: “a classe trabalhadora é revolucionária ou não é nada”; a polêmica contra Owenite John Weston, que resultou em um conjunto de artigos reunidos postumamente em 1898 com o nome de Valor, Preço e Lucro; considerações sobre a Guerra Civil dos Estados Unidos; e o panfleto de Engels sobre A questão militar a Prússia e o Partido Operário Alemão.

As novidades da histórica edição crítica são também notáveis na quarta seção, Exzerpte, Notizen, Marginalien. Este contém numerosos resumos e notas de estudos de Marx, que constituem um significante testemunho do seu colossal trabalho. Desde seus anos na universidade, ele adotou o hábito de compilar cadernos de anotações com extratos de livros que ele leu, frequentemente os fragmentando com reflexões com as quais eles o propeliam a fazer. O Nachlaß de Marx contém aproximadamente 200 cadernos de resumos. Estes são essenciais para o conhecimento e compreensão da gênese da sua teoria e de partes do que ele não teve chances de desenvolver como queria.

Os extratos preservados, que vão de 1838 a 1882, são escritos em oito línguas – Alemão, Grego antigo, Latim, Francês, Inglês, Italiano, Espanhol e Russo – e abarcam um amplo leque de disciplinas. Foram tirados de textos de filosofia, arte, religião, política, direito, literatura, história, economia-política, relações internacionais, tecnologia, matemática, fisiologia, geologia, mineralogia, agronomia, etnologia, química e física, bem como artigos de jornais e revistas, informes parlamentares, estatísticas, relatórios e publicações de órgãos governamentais – entre estes estão os famosos “Livros Azuis”, em particular os Relatórios dos inspetores de fábricas, que continha investigações da maior importância para seus estudos.

Esta imensa fonte de conhecimento, em grande parte ainda não publicada, foi o nascedouro da teoria crítica de Marx. A quarta seção da MEGA 2, planejada em 32 volumes, proverá acesso a isto pela primeira vez. Quatro volumes foram recentemente publicados. ‘Karl Marx, Exzerpte und Notizen Sommer 1844 bis Anfang 1847’ contém oito extratos de cadernos, compilados por Marx entre o verão de 1844 e dezembro de 1845. Os dois primeiros são de sua estada em Paris e vieram logo após os Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844. Os outros seis foram escritos no ano seguinte em Bruxelas, após sua expulsão de Paris e na Inglaterra, onde ele permaneceu entre julho e agosto. Nestes cadernos estão os traços da aproximação de Marx com a economia política e o processo de formação da sai primeira elaboração de teoria econômica. Isto emerge claramente dos extratos de manuais de economia política de Storch e Rossi, como nos tirados de Boisguillebert, Lauderdale, Sismondi e em relação à maquinaria e técnicas de manufatura, de Baggage e Ure. Com parando estes cadernos com os escritos do período, publicados e inéditos, evidencia-se a inegável influência destes escritos no desenvolvimento das suas idéias. A totalidade das notas, com a reconstrução histórica da sua maturação, mostra o progresso e a complexidade do seu pensamento crítico durante este intenso período de trabalho.

O volume ‘Karl Marx-Friedrich Engels, Exzerpte und Notizen September 1853 bis Januar 1855’ contém nove longos cadernos de extratos, compilados por Marx essencialmente durante 1854. Eles foram escritos no mesmo período no qual ele publicou uma importante série de artigos do New-York Tribune: aqueles sobre ‘Lord Palmerston’ entre outubro e dezembro de 1853 e reflexões sobre “A Espanha Revolucionária” entre julho e agosto de 1854, enquanto os textos sobre a guerra da Criméia – quase todos escritos por Engels – saíram em 1856. Quatro destes cadernos contém anotações sobre a história da diplomacia tomados principalmente, dos textos dos historiadores Famin e Francis, do advogado e diplomata alemão von Martens, pelo político ‘Tory’ Urquhart, bem como das “Correspondências relativas aos temas do Levante” e “Os debates políticos de Hansard”. Os outros cinco, foram tomados de Chateubriand, do escritor espanhol de Jovellanos, do general espanhol San Miguel, do seu amigo interiorano de Marliani e de muitos outros autores dedicados exclusivamente à Espanha e demonstram a intensidade que Marx examinou sua história social e política e a cultura. Mais além, as notas do Essai sur l’histoire de la formation et des progrès du Tiers État de Augustin Thierry despertam interesse particular. Todas estas notas são muito importantes porque elas revelam as fontes de onde Marx retirou e nos permite entender o modo como ele utilizava estas leituras para escrever seus artigos.

O grande interesse de Marx sobre as ciências naturais, quase completamente desconhecido, aparece no volume ‘Karl Marx-Friedrich Engels, Naturwissenschaftliche Exzerpte und Notizen. Mitte 1877 bis Anfang 1883’. Este volume apresenta notas de química orgânica e inorgânica do período 1877 – 1883, que nos permitem descobrir mais aspectos do seu trabalho. Isto é muito importante, porque estas pesquisas ajudam a desacreditar a falsa lenda, recontada em numerosas biografias suas, que tentam mostrá-lo como desistente dos próprios estudos nas últimas décadas da sua vida e que sua curiosidade intelectual estava completamente satisfeita. As notas publicadas contém fórmula químicas, estratos dos livro de química de Meyer, Roscoe, e Schorlemmer, e também notas sobre física, fisiologia e geologia – disciplinas que passaram por importantes desenvolvimentos científicos no último quarto do século XIX, e sobre os quais Marx queria manter-se informado. Estes estudos constituem um dos menos explorados campos de pesquisa sobre Marx e, como não estão diretamente conectados com a excussão do trabalho n’O Capital, eles trazem questões não respondidas sobre as razões para este interesse.

Se os manuscritos de Marx, antes de serem publicados, conheceram numerosos altos e baixos, os livros que Marx e Engels possuíam sofreram sina ainda pior. Depois da morte de Engels, as duas bibliotecas que obtiveram seus livros com interessantes anotações e marcas foram ignoradas e em parte dispersadas e apenas subsequentemente reconstruída e catalogada com dificuldade. O volume ‘Karl Marx-Friedrich Engels, Die Bibliotheken von Karl Marx und Friedrich Engels’ , é fruto de 75 anos de pesquisa. Consiste em um index de 1.450 livros em 2.100 volumes – ou dois terços dos possuídos por Marx e Engels – que incluem notas de todas as páginas dos volumes nos quais havia anotações.

É uma publicação em andamento que será integrada a MEGA 2 e é completada pelo index dos livros não disponíveis hoje (o número recuperado é de 2.100 em 3.200 volumes), com indicações presentes em 40.000 páginas de 830 textos e a publicação dos comentários sobre as leituras nas margens dos volumes. Como muitos que tiveram contato próximo com Marx notaram, ele não considerava os livros objetos de luxo, mas instrumentos de trabalho. Ele os tratava mal, dobrava as páginas e os sublinhava. “Eles são meus escravos e têm que me obedecer” , ele disse sobre seus livros. Por outro lado, dedicava toda a devoção, ao ponto de se definir como “um máquina condenada a devorar livros para expeli-los, em uma forma modificada, no lixo da história”.

Para conhecer algumas de suas leituras – nunca deve-se esquecer que sua biblioteca é apenas uma parte do seu incansável trabalho conduzido por décadas no Museu Britânico em Londres – bem como, os seus comentários em relação a esta, constituem uma preciosa fonte de reconstituição da sua pesquisa. Isto também ajuda a refutar a falsa interpretação marxista-leninista, que tem frequentemente apresentado seu pensamento como o fruto de um repentino raio, que na realidade, uma elaboração cheia de elementos teóricos derivados de seus predecessores e contemporâneos.

Finalmente, alguém deveria ter perguntado: que novo Marx emerge da nova edição histórico-crítica? Certamente, um Marx diferente daquele aceito por um longo período por muitos seguidores e opositores. Os tortuosos processos de disseminação de seus escritos e a ausência de uma edição completa delas, juntamente à sua fundamental incompletude, o infame trabalho de seus sucessores, as tendenciosas leituras, e as mais numerosas falhas para lê-lo, são causas fundamentais para o grande paradoxo: Karl Marx é um autor incompreendido, a vítima de uma profunda e frequentemente confusão. Ao invés do rígido perfil que era encontrado em muitas praças de regimes não-liberais na Europa oriental, o representando como o caminho ao futuro com uma convicção dogmática, hoje pode-se reconhecer um autor que deixou uma grande parte do seu trabalho incompleto para dedicar-se , até a sua morte, a outros estudos que verificariam a validade de suas teses. Da redescoberta de seu trabalho ressurge a riqueza de uma problemática e pensamento polimorfo, que forma um rico horizonte para o futuro Marx Forschung.

Marx, aquele ‘cachorro morto’
Devido aos conflitos teóricos e eventos políticos, o interesse na obra de Marx nunca foi contínuo e, desde o começo, ele tem experimentado momentos de indiscutível declínio. Da ‘crise do marxismo’ à dissolução da Segunda Internacional, das discussões sobre os limites da teoria da mais-valia à tragédia do comunismo soviético, as críticas às idéias de Marx sempre pareceram exceder o seu horizonte conceitual. Sempre houve, entretanto um ‘retorno a Marx’. Um novo apelo em referência aos desenvolvimentos do seu trabalho e da crítica a economia política às formulações sobre alienação ou as brilhantes páginas de polêmicas políticas, continuam a exercer irresistível fascinação para os seguidores e opositores. Todavia, no fim do século, tendo sido unanimemente declarada desaparecida, de repente Marx reaparece no palco da história.

Livre da repugnante função de instrumentum regni, ao qual foi consignado no passado, e das correntes do marxismo-leninismo do qual ele é certamente separado, a obra de Marx tem sido direcionada a novos campos do conhecimento e lida novamente em todos os cantos do mundo. O inteiro desvelamento deste precioso legado teórico, afastado dos presunçosos proprietários e modos de uso reducionistas, se tornou novamente possível. Entretanto, se Marx não é identificado com a rígida esfinge do ‘socialismo real’ do século XX, ele poderia ser igualmente mal compreendido no sentido que o seu legado político e teórico poderia ser confinado a um passado que não tem mais contribuição aos conflitos correntes, a circunscrever o seu pensamento a um clássico mumificado que não tem relevância hoje ou confinado á especialização acadêmica.

A retomada do interesse em Marx vai muito além de restritos círculos de acadêmicos, como também de importantes pesquisas filológicas, dedicadas a demonstrar a sua diversidade no que se refere ao grande número de intérpretes. A redescoberta de Marx está baseada na sua persistente capacidade de explicar o presente: ele continua um instrumento indispensável para entendê-lo e ser capaz de transformá-lo.

Confrontados com a crise da sociedade capitalista e as profundas contradições que a permeiam, há um retorno ao autor deixado de lado muito rapidamente após 1989. Desde erupção da crise financeira nos Estados Unidos, jornais, revistas e reportagens televisivas e radiofônicas, continuamente discutem Marx, como sendo o mais importante pensador de nosso tempo. Quando ele formulou suas teorias, o capitalismo existia somente nos Estados unidos e Europa – e, excluindo-se a Inglaterra, e outros poucos centros produtivos, havia muita diferença da sua forma atual. Mesmo assim, ele antecipou sua expansão global e a disseminação do trabalho assalariado que posteriormente incluiriam todo o planeta. E precisamente hoje, quando o capitalismo conseguiu um extraordinário desenvolvimento em extensão e intensidade, algumas das análises de Marx estão se revelando ainda mais acuradas que no seu próprio tempo. É suficiente mencionar a importância da acumulação pelas finanças e sistema de crédito, que explicitadas no volume 3 d’O Capital ou as crises de um capitalismo, no qual tendo esgotado sua expansão geográfica, é cada vez mais vítima de suas próprias contradições. Marx parece essencial atualmente e após anos de pensamento único, manifestos pós-modernos uni-ideológicos, teorias superficiais da globalização, solenes discursos sobre o ‘fim da história’ e a obsessão com idéias biopolíticas vazias, o valor da sua teoria está novamente se tornando cada ver mais mundialmente reconhecido.

Além disto, a literatura sobre Marx, que desapareceu há 15 anos, demonstra sinais de ressurgimento em muitos países e, juntamente com o florescimento de novos estudos, existem muitos panfletos escritos em diferentes linguagens com títulos como Por que ler Marx hoje? Um consenso análogo é desfrutado por revistas abertas a discussão de Marx e os vários marxismos, bem como há agora conferências internacionais, cursos universitários e seminários dedicados a este autor. Finalmente, mesmo se timidamente e frequentemente em formas confusas – da América Latina á Europa, passando pelo movimento alter-mundialista – uma nova demanda está sendo registrada em termos políticos.

O que resta de Marx hoje? Qual a utilidade de seu pensamento hoje para a luta pela emancipação da humanidade? Que parte do seu trabalho é mais fértil para estimular a crítica ao presente? Como se poderia ir ‘além de Marx, com Marx’? Estas são algumas das questões que recebem respostas nada unânimes. Se a retomada contemporânea de Marx tem uma certeza, ela consiste precisamente na descontinuidade a respeito ao passado que foi caracterizado pela ortodoxia monolítica que dominou e condicionou profundamente a interpretação deste filósofo. Mesmo marcado pelos limites evidentes e o risco do sincretismo, um período chegou caracterizado por muitos Marxs, de fato, após uma Era de dogmatismo, não poderia ser diferente. A tarefa de responder a estes problemas está então com a pesquisa, teórica e prática, de uma nova geração de acadêmicos e ativistas políticos.

Entre os Marxs que continuam indispensáveis, ao menos dois podem ser identificados. O crítico ao modo capitalista de produção: o analítico, perceptivo, e incansável pesquisador que intuiu e analisou seu desenvolvimento em escala global e descreveu a sociedade burguesa melhor que mingúem. Este é o pensador que recusou conceber o capitalismo e o regime da propriedade privada, como cenários imutáveis para a natureza humana e quem ainda oferece sugestões para quem quer construir alternativas a economia, política e sociedade neoliberal. O outro Marx a quem a maior atenção deve ser prestada, é o teórico do socialismo: o autor que repudiou a idéia de socialismo de Estado, propagada então por Lassalle e Rodbertus; o pensador que entendeu o socialismo como a transformação possível das relações de produção e não como uma variedade de suaves paliativos para o problema da sociedade.
Sem Marx, nós vamos ficar condenados à apatia crítica e parece que a causa da emancipação humana precisa continuar a usá-lo, como a crise financeira internacional recente demonstrou. Este ‘espectro’ está destinado a rondar o mundo e estremecer a humanidade por um bom tempo.

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Vicissitudes e novos estudos de A ideologia alemã

As múltiplas iniciativas de publicação das obras completas de Marx e Engels têm visto florescer, a propósito de suas edições, alguns periódicos que têm por objetivo acompanhar e promover os trabalhos, além de oferecer uma contribuição à investigação.

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A importância de Marx, 150 anos depois do Grundrisse

Marcello Musto – Professor Hobsbawm, Karl Marx voltou ao foco das atenções duas décadas depois de 1989, quando foi apressadamente relegado ao esquecimento. Livre do papel de intrumentum regni que lhe foi atribuído na União Soviética e das amarras do “marxismo-leninismo”, não só tem recebido atenção intelectual pela nova publicação de sua obra, como também tem sido objeto de crescente interesse.

Em 2003, a revista francesa Nouvel Observateur dedicou um número especial a Marx, com um título provocador: “O pensador do terceiro milénio?” Um ano depois, na Alemanha, em uma pesquisa organizada pela companhia de televisão ZDF para estabelecer quem eram os alemães mais importan¬tes de todos os tempos, mais de 500 mil espectadores votaram em Karl Marx, que obteve o terceiro lugar na classificação geral e o primeiro na categoria de “relevância atual”.

Em 2005, 0 semanário alemão Der Spiegel publicou uma matéria especial que tinha como título “Ein Gespenst Kehrt zuruk” (A volta de um espec¬tro), enquanto os ouvintes do programa “In Our Time” da Rádio 4, da BBC, votavam em Marx como o maior filósofo de todos os tempos. Em uma conversa com Jacques Attali, recentemente publicada, você disse que, paradoxalmente, “são os capitalistas, mais que outros, que estão redescobrindo Marx” e falou também de seu assombro ao ouvir da boca do homem de negócios e político liberal, George Soros, a seguinte fra¬se: “Ando lendo Marx e há muitas coisas interessantes no que ele diz”. Ainda que seja débil e mesmo vago, quais são as razões para esse renascimento de Marx? É possível que sua obra seja considerada como de interesse só de especialistas e intelectuais, para ser apresentada em cursos universitários como um grande clássico do pensamento mo¬derno que não deveria ser esquecido? Ou poderá surgir no futuro uma nova “demanda de Marx”, do ponto de vista político?

Eric Hobsbawm – Estamos assistindo, no mundo capitalista, a um indis-cutível renascimento do interesse público por Marx, com exceção, pro-vavelmente, dos novos membros da União Européia, do leste europeu. Este renascimento foi provavelmente acelerado pelo fato de que o 150° aniversário da publicação do Manifesto Comunista coincidiu com uma cri-se económica internacional particularmente dramática em um período de uma veloz globalização do livre-mercado.
Cento e cinquenta anos atrás, ao analisar a “sociedade burguesa”, Marx previu a natureza da economia mundial no início do século XXI. Não é surpreendente que os capitalistas inteligentes, especialmente no setor financeiro globalizado, fiquem impressionados com Marx, já que eles são necessariamente mais conscientes que outros com relação à natureza e às instabilidades da economia capitalista na qual eles atuam.
A maioria da esquerda intelectual já não sabe o que fazer com Marx.

Ela foi desmoralizada pelo colapso do projeto social-democrata na maioria dos Estados do Atlântico Norte, nos anos 1980, e pela conversão massiva dos governos nacionais à ideologia do livre mercado, assim como pelo colapso dos sistemas políticos e económicos que afirmavam ser inspira¬dos por Marx e Lênin. Os assim chamados “novos movimentos sociais”, como o feminismo, tampouco tiveram uma conexão lógica com o anti- capitalismo (ainda que, individualmente, muitos de seus membros pos¬sam estar alinhados com esta perspectiva) ou questionaram a crença no progresso sem fim do controle humano sobre a natureza comparti¬lhada tanto pelo capitalismo como pelo socialismo tradicional. Ao mesmo tempo, o “proletariado”, dividido e diminuído, deixou de ser convincente como agente histórico da transformação social postulada por Marx.

Devemos levar em conta também que, desde 1968, os mais proeminen¬tes movimentos radicais preferiram a ação direta não necessariamente baseada em muitas leituras e análises teóricas. Naturalmente, isso não significa que Marx tenha deixado de ser considerado um grande clássico e pensador, embora por razões políticas, especialmente em países como França e Itália, que já tiveram poderosos Partidos Comunistas, tenha havido uma apaixonada ofensiva intelectual contra Marx e as análises marxistas, que provavelmente atingiu seu ápice nos anos 1980 e 1990. Há sinais agora de que o processo retomará seu curso.

Marcello Musto – Marx foi um agudo e incansável investigador que, ao longo de sua vida, percebeu e analisou melhor do que ninguém em seu tempo o desenvolvimento do capitalismo em escala mundial. Ele enten-deu que o nascimento de uma economia internacional globalizada era inerente ao modo capitalista de produção e previu que este processo geraria não somente o crescimento e prosperidade alardeados por po-líticos e teóricos liberais, mas também violentos conflitos, crises econó-micas e injustiça social generalizada. Na última década, vimos a crise financeira do Leste asiático, que começou no verão de 1997; a crise económica argentina de 1999-2002 e, sobretudo, a crise dos emprésti-mos hipotecários que começou nos Estados Unidos em 2006 e agora tornou-se a maior crise financeira do pós-guerra. É correto dizer, então, que o retorno do interesse pela obra de Marx está baseado na crise da sociedade capitalista e na duradoura capacidade de ele ajudar a expli¬car as profundas contradições do mundo atual?

Eric Hobsbawm – Não é possível afirmar se a política da esquerda no futuro será inspirada uma vez mais nas análises de Marx, como ocorreu com os velhos movimentos socialistas e comunistas: isso dependerá do que vai acontecer no mundo capitalista. Isso se aplica não somente a Marx, mas à esquerda considerada como um projeto e uma ideologia política coerente. Uma vez que, como você diz corretamente, a recupe-ração do interesse por Marx está consideravelmente – eu diria, princi-palmente – baseada na atual crise da sociedade capitalista, a perspec- tiva é mais promissora do que foi nos anos 1990. A atual crise financeira mundial, que pode transformar-se em uma grande depressão económi-ca nos Estados Unidos, dramatiza o fracasso da teologia do livre merca-do global descontrolado e obriga, inclusive o governo norte-americano, a escolher ações públicas esquecidas desde os anos 30.

As pressões políticas já estão debilitando o compromisso dos governos neoliberais em torno de uma globalização descontrolada, ilimitada e desregulada. Em alguns casos, como a China, a enorme desigualdade e injustiça, causadas por uma transição geral a uma economia de livre mercado, já colocam problemas importantes para a estabilidade social e geram dúvidas nos altos escalões de governo. É claro que qualquer “retorno a Marx” será essencialmente um retorno à análise de Marx sobre o capitalismo e seu lugar na evolução histórica da humanidade – incluindo, sobretudo, suas análises sobre a instabilidade essencial do desenvolvimento capitalista que funciona através de crises económicas periódicas auto-geradas com dimensões políticas e sociais. Nenhum marxista poderia acreditar que, como argumentaram os ideólogos neoliberais em 1989, o capitalismo liberal havia triunfado para sempre, que a história tinha chegado ao fim ou que qualquer sistema de rela¬ções humanas possa jamais ser definitivo.

Marcello Musto – Você não acha que, se as forças políticas e intelectu¬ais da esquerda internacional, que se questionam sobre o que poderia ser o socialismo deste novo século, renunciarem às idéias de Marx, es¬tarão perdendo um guia fundamental para o exame e a transformação da realidade atual?

Eric Hobsbawm – Nenhum socialista pode renunciar às idéias de Marx, na medida em que sua crença em que o capitalismo deve ser sucedido por outra forma de sociedade está baseada, não na esperança ou na vontade, mas em uma análise séria do desenvolvimento histórico, parti-cularmente da era capitalista. Sua previsão de que o capitalismo seria substituído por um sistema administrado ou planejado socialmente pa-rece razoável, ainda que certamente ele tenha subestimado os elemen-tos de mercado que sobreviveriam em algum sistema pós-capitalista.

Uma vez que Marx, deliberadamente, absteve-se de especular acerca do futuro, não pode ser responsabilizado pelas formas específicas em que as economias “socialistas” foram organizadas sob o chamado “so-cialismo realmente existente”. Quanto aos objetivos do socialismo, Marx não foi o único pensador que queria uma sociedade sem exploração e alienação, em que os seres humanos pudessem realizar plenamente suas potencialidades, mas foi o que expressou essa idéia com maior força, e suas palavras mantêm seu poder de inspiração.
Contudo, Marx não regressará como uma inspiração política para a es-querda até que seja entendido que seus escritos não devem ser trata-dos como programas políticos, autoritários ou não, mas como guia para se compreender a forma de Marx analisar a natureza do desenvolvimen-to capitalista. Tampouco podemos ou devemos esquecer que ele não conseguiu realizar uma apresentação bem planejada, coerente e com-pleta de suas idéias, apesar das tentativas de Engels e outros de cons¬truir, a partir dos manuscritos de Marx, um volume II e III de O Capital.

Como os Grundrisse mostram, mesmo que tivesse sido completado, O capital formaria apenas uma parte do próprio plano original, talvez ex-cessivamente pretensioso, de Marx. Por outro lado, Marx não voltará a ser inspiração da esquerda até que a tendência frequente entre ativistas radicais, de transformar anti-capitalismo em anti-globalização, seja aban-donada. A globalização existe e, salvo um colapso da sociedade huma¬na, é irreversível. Marx reconheceu isso como um fato e, como um internacionalista, deu-lhe as boas-vindas, em princípio. O que ele criti¬cou e 0 que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo.

Marcello Musto – Um dos escritos de Marx que suscitaram o maior inte-resse entre os novos leitores e comentadores são os Grundrisse. Escri-tos entre 1857 e 1858, os Grundrisse são o primeiro rascunho da crítica da economia política de Marx e, portanto, também o trabalho inicial pre-paratório do Capital, contendo numerosas reflexões sobre temas que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte de sua criação inacabada. Por que, em sua opinião, estes manuscritos da obra de Marx continuam provocando mais debate que qualquer outro texto, apesar do fato de ele tê-los escrito somente para resumir os fundamentos de sua crítica da economia política? Qual é a razão de seu apelo permanente?

Eric Hobsbawm – Do meu ponto de vista, os Grundrisse provocaram um impacto internacional tão grande na cena marxista intelectual por duas razões relacionadas. Eles permaneceram virtualmente não publicados antes dos anos 50 e, como você diz, contendo uma massa de reflexões sobre assuntos que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte. Não fizeram parte do largamente dogmatizado corpus do marxismo or-todoxo no mundo do socialismo soviético. Mas não podiam simplesmen¬te ser descartados pelo marxismo soviético. Puderam, portanto, ser usados por marxistas que queriam criticar ortodoxamente ou ampliar o alcance da análise marxista mediante o apelo a um texto que não podia ser acusado de herético ou anti-marxista. Assim, as edições dos anos 70 e 80, antes da queda do Muro de Berlim, continuaram provocando debate, fundamentalmente porque nestes escritos Marx coloca proble¬mas importantes que não foram considerados no Capital, como, por exem¬plo, as questões assinaladas em meu prefácio ao volume de ensaios que você organizou [Karl Marx’s Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later, editado por M. Musto, Londres-Nova York, Routledge, 2008],

Marcello Musto – No prefácio deste livro, escrito por vários especialistas internacionais para comemorar o 150° aniversário de sua composi¬ção, você escreveu: “Talvez este seja o momento correto para retornar ao estudo dos Grundrisse, menos constrangidos pelas considerações temporais das políticas de esquerda entre a denúncia de Stalin, feita por Nikita Khruschev, e a queda de Mikhail Gorbachev”. Além disso, para destacar o enorme valor deste texto, você diz que os Grundrisse “tra-zem análise e compreensão, por exemplo, da tecnologia, o que leva o tratamento de Marx do capitalismo para além do século XIX, para a era de uma sociedade onde a produção não requer já mão-de-obra massiva, para a era da automatização, do potencial de tempo livre e das trans-formações do fenômeno da alienação sob tais circunstâncias. Este é o único texto que vai, de alguma maneira, além dos próprios indícios do futuro comunista apontados por Marx na Ideologia Alemã. Em poucas palavras, esse texto tem sido descrito corretamente como o pensamen¬to de Marx em toda sua riqueza”. Assim, qual poderia ser o resultado da releitura dos Grundrisse hoje?

Eric Hobsbawm – Não há, provavelmente, mais do que um punhado de editores e tradutores que tenham tido um pleno conhecimento desta grande e notoriamente difícil massa de textos. Mas uma releitura ou leitura deles hoje pode ajudar-nos a repensar Marx: a distinguir o geral na análise do capitalismo de Marx daquilo que foi específico da situação da sociedade burguesa na metade do século XIX. Não podemos prever que conclusões podem surgir desta análise. Provavelmente, somente podemos dizer que certamente não levarão a acordos unânimes.
Marcello Musto – Para terminar, uma pergunta. Por que é importante ler Marx hoje?

Eric Hobsbawm – Para qualquer interessado nas idéias, seja um estu-dante universitário ou não, é patentemente claro que Marx é e perma-necerá sendo uma das grandes mentes filosóficas, um dos grandes ana-listas económicos do século XIX e, em sua máxima expressão, um mes-tre de uma prosa apaixonada. Também é importante ler Marx porque o mundo no qual vivemos hoje não pode ser entendido sem que se leve em conta a influência que os escritos deste homem tiveram sobre o século XX. E, finalmente, deveria ser lido porque, como ele mesmo es-creveu, o mundo não pode ser transformado de maneira efetiva se não for entendido. Marx permanece sendo um soberbo pensador para a com¬preensão do mundo e dos problemas que devemos enfrentar.

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Difusão e recepção do Manifesto do partido comunista na Itália entre 1889 e 1945

I. Prólogo
Em razão de conflitos teóricos ou de acontecimentos políticos, o interesse pela obra de Marx nunca foi constante e, desde quando se manifestou, viveu momentos indiscutíveis de declínio. Da “crise do marxismo” à dissolução da Segunda Internacional, das discussões sobre os limites da teoria da mais valia às tragédias do comunismo soviético, as críticas às idéias de Marx pareceram, cada vez mais, superar de modo definitivo o seu horizonte conceitual. Porém, sempre houve um “retorno a Marx”.1 Constantemente se desenvolveu uma nova necessidade de voltar à sua obra que, através da crítica à economia política, das formulações sobre a alienação ou das brilhantes páginas dos phamphlet políticos, exerce um fascínio irresistível sobre seguidores e opositores.

Não obstante, com o findar do século, tivesse sido decretado por unanimidade o seu esquecimento, inesperado, há alguns anos por essa parte, Marx se reapresentou sobre o palco da história. Na verdade, houve uma real e verdadeira retomada de interesse a seu respeito e, nas estantes de bibliotecas da Europa, Estados Unidos e Japão, os seus escritos têm sido ressuscitados cada vez com maior frequência.

A redescoberta de Marx baseia-se na sua persistente capacidade explicativa do presente, do qual ele permanece como instrumento indispensável para poder compreendê-lo e transformar. Diante da crise da sociedade capitalista e das profundas contradições que a atravessam, volta-se a questionar esse autor deixado de lado, rápido demais, depois de 1989. Assim, a afirmação de Jacques Derrida – “será um erro não ler, reler e discutir Marx”2 – que poucos anos atrás parecia uma provocação isolada, tornou-se cada vez mais compartilhada. Do fim dos anos 90, de fato, semanários, periódicos, emissoras de rádio e TV não fazem outra coisa senão discutir sobre o pensador mais atual dos nossos tempos: Karl Marx. O primeiro artigo que produziu certo eco nesta direção foi “The Return of Karl Marx”, publicado na revista americana The New Yorker.3 Depois foi a vez da BBC, que em 1999 conferia a Marx o cetro de maior pensador do milênio.

Alguns anos mais tarde, o bimestral do Nouvel Observateur foi inteiramente dedicado ao tema “Karl Marx – le penseur du troisieme millenaire?”4 E, pouco depois, a Alemanha pagou o seu tri- buto àquele que havia obrigado ao exílio por quarenta anos: em 2004, mais de 500 mil telespectadores da televisão nacional ZDF indicaram Marx como a terceira personalidade alemã de todos os tempos (primeiro, ali- ás, na categoria “atualidade”) e, durante as últimas eleições políticas, a conhecida revista Der Spiegel retratava-o na capa, com o título “Ein Gespent kehrt zurük” (Um fantasma voltou), com os dedos em sinal de vitória.5 Para completar essa curiosa coleção, há uma pesquisa feita em 2005 pelo canal de rádio BBC 04 que deu a Marx a palma de filósofo mais amado pelos ouvintes ingleses.

Também a literatura sobre Marx, abandonada quase completamente há 15 anos, dá sinais efusivos de retomada, e, ao lado do florescer de novos estudos significativos, despontam, em várias línguas, opúsculos de título Why read Marx today? Um consenso análogo atinge as revistas internacionais abertas às contribuições concernentes a Marx e ao mar- xismo, assim como voltaram a ser de moda convenções, cursos e seminá- rios universitários dedicados a esse autor. Além disso, ainda que timidamente ou de forma um pouco confusa, da América Latina ao movimento alter-mundialista, uma nova exigência de Marx chega também da es- fera política.

Mais uma vez, o texto marxiano que mormente suscitou o envolvimento de leitores e estudiosos foi o Manifesto do Partido Comunista. Em 1998, de fato, por ocasião do 150o aniversário de sua publicação, o Manifesto de Marx e Engels foi impresso em dezenas de novas edições em todos os cantos do planeta e celebrado não só como a mais formidável previ- são do desenvolvimento do capitalismo em escala mundial, mas tam- bém como o texto político mais lido na história da humanidade.6 Por esse motivo, pode ser interessante retomar os acontecimentos que acompanharam a sua primeira difusão na Itália.

II. Karl Marx: o menosprezo italiano
Na Itália, as teorias de Marx gozaram de extraordinária popularida- de. Inspirando partidos, organizações sindicais e movimentos sociais, influíram, como nenhuma outra, na transformação da vida política nacio- nal. Difundidas em todos os campos da ciência e da cultura mudaram, irreversivelmente, a sua abordagem e até mesmo o léxico. Concorrendo para a tomada de consciência da própria condição de classes subalter- nas, foram o principal instrumento teórico no processo de emancipação de homens e mulheres.

O nível de difusão que alcançaram pode ser comparado ao de pou- cos países. É mister perguntar-se, portanto, sobre a origem desta noto- riedade. Isto é, quando se falou pela primeira vez de Karl Marx? Quando apareceu nos jornais esse nome, com base nos primeiros escritos tradu- zidos? Quando a fama se propagou no imaginário coletivo de operários e militantes socialistas? E, sobretudo, de que maneira e em que circunstâncias se consolidou a afirmação do seu pensamento?

As primeiríssimas traduções dos escritos de Marx, quase completa- mente desconhecido durante as ações revolucionárias de 1848, apare- ceram somente na segunda metade dos anos 60. Todavia, foram pouco numerosas e relacionadas somente à Mensagem Inaugural e aos Estatutos da Associação Internacional dos Trabalhadores.7 Para esse atraso, sem dúvida concorreu o isolamento de Marx e Engels da Itália, com a qual, não obstante o fascínio que nutriam pela sua história e cultura e o interesse demonstrado pela sua realidade, não mantiveram correspondência epistolar até o ano de 1860 e relações políticas efetivas antes de 1870.8

Um primeiro interesse pela figura de Marx floresceu somente por co- incidência da experiência revolucionária da Comuna de Paris. Ao “funda- dor e chefe geral da Internacional”,9 de fato, a imprensa nacional, assim como a miríade de folhetins operários existentes, dedicaram, em poucas semanas, flashes biográficos e a publicação de extratos de cartas e de resoluções políticas (entre essas, A guerra civil na França). Mesmo nessa circunstância, os escritos impressos – que, incluindo aqueles de Engels, chegaram ao número de 85 somente no biênio 1871-1872 – referiam-se exclusivamente a documentos da Internacional, testemunho de uma aten- ção inicialmente política e só posteriormente de caráter teórico.10 Além disso, em alguns jornais apareceram descrições fantasiosas que colabo- raram para conferir à sua imagem uma aura legendária: “Carlo Marx é um homem astuto e corajoso a toda prova. Viagens rápidas entre um e ou- tro Estado, contínuas transformações, fazem com que atire sobre si a vigilância de todos os espiões policiais da Europa”.11

A autoridade que começou a envolver o seu nome foi tão grande quanto genérica.12 Durante esse período, de fato, manuais de propagan- da difundiram as concepções de Marx – ou pelo menos aquelas presumi- das como tais – juntamente àquelas de Darwin e Spencer.13 O seu pensa- mento foi considerado sinônimo de legalismo14 ou de positivismo.15 As suas teorias foram, de maneira inverossímil, sintetizadas com aquelas de seus opostos como Fourier, Mazzini, Bastiat.16 A sua figura, aproximada – segundo os equívocos – àquela de Garibaldi17 ou de Schäffle.18

O interesse dirigido a Marx, além de permanecer assim tão aproxi- mativo, não se traduziu nem mesmo numa adesão às suas posições po- líticas. Entre os internacionalistas italianos – que no confronto entre Marx e Bakunin tomaram parte de maneira quase maciça por este último –, de fato, a sua elaboração permaneceu quase desconhecida e o conflito no seio da Internacional foi percebido mais como um confronto pessoal en- tre os dois do que propriamente como uma contenda teórica.19

Não obstante tudo isso, no decênio seguinte, marcado pela hegemonia do pensamento anárquico – que se impôs facilmente na realidade italiana caracterizada mais pela ausência do modelo de um moderno capitalismo industrial e pela conseqüente limitada consistência da classe operária, do que pela viva tradição conspirativa reforçada pela recente revolução no país20 –, os elementos teóricos de Marx foram-se afirmando lentamente nas filas do movimento operário.21 Aliás, paradoxal- mente, conheceram uma primeira divulgação exatamente através dos anarquistas, que compartilhavam completamente as teorias da auto- emancipação operária e da luta de classes, presentes nos Estatutos e nas Mensagens e Instruções da Internacional.22 A seguir, eles continua- ram a publicar Marx, muitas vezes polemizando o socialismo que fora verbosamente revolucionário, mas que na prática era legalista e revisionista. A mais importante iniciativa realizada foi, sem dúvida, a pu- blicação, em 1879, do compêndio do primeiro livro de O Capital, organiza- do por Carlo Cafiero. Foi a primeira ocasião em que, mesmo de maneira popularizada, os principais conceitos teóricos de Marx puderam começar a circular na Itália.

III. Os anos 80 e o “marxismo sem Marx”
Os escritos de Marx não foram traduzidos nem mesmo nos anos 80. Exceto por pouquíssimos artigos publicados pela imprensa socialista, as únicas obras publicadas foram de Engels (O Socialismo Utópico e o Socia- lismo Científico, em 1883, e A Origem da família, da propriedade privada e do Estado, em 1885) e vieram à luz – em edições de reduzidíssima difusão – somente graças à tão obstinada quanto virtuosa iniciativa do socialista de Benavento, Pasquale Martignetti. Por outro lado, começaram a ocupar-se de Marx setores importantes da cultura oficial, que nutriram a respeito dele menores dificuldades do que aquelas manifestadas, ao contrário, no âmbito alemão.

Assim, por iniciativa dos mais importantes níveis editoriais e acadêmicos, a prestigiadíssima Biblioteca do Economista, a mesma que Marx tinha consultado muitas vezes no curso das suas pesquisas do British Museum, publicou, entre os anos de 1882 e 1884, separadamente, e em 1886, em um único volume, o primeiro livro de O Capital. Diante da demonstração da vacuidade do movimento italiano, Marx fora informado sobre essa iniciativa, que foi a única tradução da obra realizada na Itália até depois da Segunda Guerra Mundial, só casualmente e dois meses antes da morte.23 Engels, ao contrário, somente em 1893!24

Mesmo numa realidade ainda limitada, como aquela que se tentou até aqui brevemente descrever, a primeira circulação do marxismo pode ser datada justamente nesse período. Todavia, por causa do número reduzidíssimo de traduções dos escritos de Marx e do difícil acesso a eles, essa difusão quase nunca aconteceu através de fontes originais, mas de referências indiretas, citações de segunda mão, compêndios por obra da miríade de escritores-leitores ou auto-proclamados continuadores, surgidos da noite para o dia.25

Durante esses anos, desenvolveu-se um verdadeiro processo de osmose cultural, que atingiu não só as diversas concepções socialistas presentes no território, mas também ideologias que nada tinham a ver com o socialismo. Estudiosos, agitadores políticos e jornalistas forma- ram as próprias idéias hibridando o socialismo com todos os outros ins- trumentos teóricos de que dispunham.26 E se o marxismo conseguiu se afirmar rapidamente em relação a outras doutrinas, justamente em ra- zão da ausência de um socialismo autóctone, o êxito dessa homogeneização cultural foi o nascimento de um marxismo empobreci- do e falsificado.27

Um marxismo passe-partout. Sobretudo, um marxismo sem consciência de Marx, visto que os socialistas italianos que o tinham lido nos seus textos originais podiam, ainda, ser contados nos dedos.28
Ainda que elementar e impuro, determinista, e em função das contin- gências políticas, esse marxismo foi, de qualquer forma, capaz de confe- rir uma identidade ao movimento dos trabalhadores, para afirmarem-se no Partido dos Trabalhadores Italianos, constituído em 1892, e até mes- mo ampliar a própria hegemonia na cultura e na ciência italiana.29

Do Manifesto do Partido Comunista, até o fim dos anos 80, não há ain- da nenhum traço. Não obstante isso, ele exercerá, junto com o seu prin- cipal intérprete, Antônio Labriola, um papel importante no rompimento daquele marxismo adulterado que tinha, até então, caracterizado a rea- lidade italiana. Porém, antes de falar disso é necessário voltar um pouco.

IV. As primeiras publicações do Manifesto na Itália
O prólogo à primeira impressão do Manifesto do Partido Comunista anunciava a sua publicação “em inglês, francês, alemão, italiano, flamengo e dinamarquês”.30 Na verdade, esse propósito não foi realizado. Ou, como seria melhor afirmar, o Manifesto tornou-se um dos escritos mais difundi- dos na história da humanidade, mas não segundo os planos dos seus autores.

A primeira tentativa de tradução do Manifesto para o italiano e para o espanhol foi realizada em Paris, por Hermann Ewerbeck, membro dirigente da Liga dos Comunistas da capital francesa.31 Todavia, não obstante a distância de anos, e no Herr Vogt Marx apontasse erroneamente a existência de uma edição italiana,32 essa empresa nunca foi realizada. Do projeto inicial, a única tradução realizada foi a inglesa de 1850, precedida da sueca de 1848. Sucessivamente, em seguida àquela das re- voluções do biênio 1848-1849, o Manifesto foi esquecido. As únicas reimpressões, duas nos anos 50 e três nos anos 60, apareceram em língua alemã, e pelo aparecimento de novas traduções seria necessário esperar duas décadas. Em 1869, de fato, foi enviada para a tradução a edição russa e, em 1871, a sérvia. No mesmo período, em Nova Iorque, veio à luz a primeira versão inglesa publicada nos Estados Unidos (1871) e a primeira tradução francesa (1872). Ainda em 1872, saiu em Madri a primeira tradução espanhola, seguida, no ano seguinte, da portugue- sa, feita a partir daquela.33

Nessa época, na Itália, o Manifesto ainda era desconhecido. A sua primeira breve exposição, composta de resumos e trechos de texto, apa- receu somente em 1875, na obra de Vito Cusumano, Le scuole economiche della Germania in rapporto alla questione sociale. Lia-se nela: “do ponto de vista do proletariado este programa é tão importante quanto a Declara- ção dos Direitos do Homem para a burguesia: esse é um dos fatos impor- tantes do século XIX, um daqueles fatos que caracterizam, que dão nome e endereço a um século”.34 Posteriormente, as referências ao Manifesto foram pouco freqüentes. Porém, o escrito foi citado, em 1883, nos artigos que deram notícia sobre a morte de Marx. O folhetim socialista La Plebe falava dele como um “dos documentos fundamentais do socialismo con- temporâneo […] símbolo da maioria do proletariado socialista do ocidente e da América do Norte”.35 O quotidiano burguês Gazzetta Piemontese, ao contrário, apresentava Marx como o autor do “famoso Manifesto Comunista, que se tornou o lábaro do socialismo militante, o catecismo dos deserdados, o evangelho sob o qual votam, juram, combatem os operários alemães e a maior parte dos operários ingleses”.36 A despeito dessas apreciações, a sua impressão teve, porém, de esperar ainda mais.

Em 1885, depois de ter recebido uma cópia do Manifesto de Engels, Martignetti fez uma primeira tradução. Mas, por falta de dinheiro, a edição nunca foi publicada. A primeira tradução italiana apareceu, com mais de quarenta anos de atraso, somente em 1889, ano em que já tinham sido publicadas 21 edições em alemão, 12 em russo, 11 em francês, 8 em inglês, 4 em espanhol, 3 em dinamarquês (a primeira em 1884), 2 em sueco, e 1, respectivamente, em língua portuguesa, checa (1882), polonesa (1883), norueguesa (1886) e iídiche (1889). O texto italiano foi enviado para o prelo com o título de Manifesto dei socialisti redatto da Marx e Engels (Manifesto dos socialistas redigido por Marx e Engels), em dez fascículos entre agosto e novembro, no jornal democrático de Cremona L’Eco del Popolo. Essa versão, porém, distinguiu-se pela péssi- ma qualidade, em que faltavam os prefácios de Marx e Engels, a terceira seção (“Literatura socialista e comunista”) e diversas outras partes que foram omitidas ou resumidas. Além disso, a tradução de Leonida Bissolati, feita a partir da edição alemã de 1883 e confrontada com aquela france- sa de 1885, organizada por Laura Lafargue, simplificava as expressões mais complicadas. Portanto, mais que uma tradução, tratou-se da popularização de um escrito, com certo número de passagens textual- mente traduzidos.37

A segunda edição italiana, que foi a primeira editada em brochura, foi publicada em 1891. A tradução, realizada a partir da francesa de 1885 do jornal parisiense Le Socialiste, e o prefácio foram obra do anarquista Pietro Gori. O texto é marcado pela ausência do preâmbulo e pela presença de diversos erros. O editor Flaminio Fantuzzi, também próximo às posições anarquistas, advertiu Engels apenas superficialmente sobre os fatos e este, em uma carta a Martignetti, expressou o seu desconforto pelos “prefácios de desconhecidos tipo Gori”.38

A terceira tradução italiana saiu em 1892, em folhetim no periódico Lotta di Classe, de Milão. Essa versão, que se apresentava como a primei- ra e única tradução italiana do Manifesto, “e que não é uma traição”,39 foi feita por Pompeo Bettini a partir da edição alemã de 1883. Ainda que também apresentasse erros e simplificações de algumas passagens, so- bressaiu-se às outras, teve numerosas reedições até 1926 e deu início ao processo de formação da terminologia marxista na Itália.40 No ano seguinte, com algumas correções e melhoramentos de estilo e com a indicação de que “a versão completa [tinha sido] feita a partir da 5a edição alemã (Berlim, 1891)”,41 essa tradução apareceu em brochura, em mil cópias. Em 1896, houve a reimpressão de duas mil cópias. O texto continha os prefácios de 1872, 1883 e 1890, traduzidos por Filippo Turati, diretor de Critica Sociale, à época a principal revista do socialismo italiano, e o apropriado prefácio “Ao leitor italiano”, conseguido com êxi- to junto a Engels para a ocasião, a fim de distinguir a nova edição da- quelas que tinham-na precedido. O prefácio italiano foi o último escrito para o Manifesto por um de seus autores.

Nos anos seguintes foram publicadas duas outras edições que, ain- da que carentes da indicação do tradutor, retomavam pontualmente a versão de Bettini. A primeira – na qual faltava, porém, o prefácio – e a terceira edição foram realizadas para dar ao Manifesto uma edição popu- lar e barata. Ela foi promovida por ocasião do 1o de Maio de 1897, pela revista Era Nuova, e surgiu em Diano Marina (Ligúria) em oito mil cópias. A segunda, sem prefácio, em Firenze, pelo editor Nerbini, em 1901.

V. O Manifesto entre fins de Oitocentos e o fascismo
Nos anos 90, o processo de difusão dos escritos de Marx e Engels teve um grande progresso. A consolidação das estruturas editoriais, da- quele que tinha-se tornado o Partido Socialista Italiano, a obra realizada por diversos jornais e pequenos editores e a colaboração de Engels à Critica Sociale foram circunstâncias que concorreram para determinar um conhecimento maior da obra de Marx. Isso não bastou, porém, para de- ter o processo de alteração que acompanhava a sua divulgação. A esco- lha de combinar as concepções de Marx com as teorias mais disparata- das foi obra tanto daquele fenômeno denominado “socialismo catedráti- co” quanto do movimento operário, cujas contribuições teóricas, mesmo tendo-se tornado pouco consistentes, ainda se caracterizavam por um dificílimo conhecimento dos escritos de Marx.

Marx já gozava de indiscutível notoriedade, mas ainda era conside- rado um primus inter pares na multidão dos socialistas existentes.42 Sobretudo, fora colocado em circulação por péssimos intérpretes do seu pensamento. Tome-se o exemplo daquele que foi considerado “o mais socialista, o mais marxista […] dos economistas italianos”,43 Achille Loria, corretor e aperfeiçoador daquele Marx que ninguém conhecia suficien- temente para dizer em que tivesse sido melhorado. Já que é conhecida a sua descrição ilustrada por Engels no “Prefácio ao Livro III” de O Capi- tal – “indiscrição ilimitada, agilidade de enguia para escapar de situa- ções insustentáveis, heróico desdém aos golpes recebidos, prontidão em apropriar-se de produtos alheios”44 –, para melhor descrever a falsi- ficação sofrida por Marx, pode ser útil lembrar uma anedota contada, em 1896, por Benedetto Croce. Em 1867, em Napoli, por ocasião da constituição da primeira seção italiana da Internacional, um desconheci- do personagem estrangeiro, “muito alto e muito loiro, de modos pareci- dos com os dos antigos conspiradores e de fala misteriosa”, interveio para convalidar o nascimento do círculo.

Por muitos anos, um advogado napolitano, presente no encontro, continuou convicto de que “aquele homem alto e loiro tivesse sido Karl Marx”,45 e foi necessário um grande esforço para que se conseguisse convencê-lo do contrário. Vez que na Itália muitos conceitos marxistas foram introduzidos pelo “ilustre Loria”,46 pode-se concluir que o que fora inicialmente divulgado foi um Marx desnaturado, um Marx, também esse, “alto e loiro”.47

Tal realidade mudou somente graças à obra de Labriola, que primei- ro introduziu na Itália o pensamento marxista de maneira autêntica. Mais que ser interpretado, atualizado ou “completado” com outros autores, pode-se afirmar que, graças a ele, Marx foi revelado pela primeira vez.48 Esta empresa deu-se através dos Saggi sulla concezione materialistica della storia (Ensaios sobre a concepção materialista da história), publicados por Labriola entre 1895 e 1897. O primeiro desses, In memoria del Mani- festo dei comunisti (Em memória do Manifesto dos comunistas), consistia justamente em um estudo sobre a gênese do Manifesto que, posterior- mente à aprovação alcançada junto a Engels pouco antes da sua mor- te,49 tornou-se o seu mais importante comentário e a interpretação oficial da parte “marxista”.

Muitos dos limites da realidade italiana puderam assim ser enfrentados. Segundo Labriola, a revolução “não pode proceder a partir do tumulto de uma turba guiada por alguns, mas deve ser e será o resultado dos próprios proletários”.50 “O comunismo crítico [que para o filósofo napolitano era o nome mais apropriado para descrever as teorias de Marx e Engels] não fabrica as revoluções, não prepara as insurreições, não arma os tumultos […], enfim, não é um seminário em que se forme o estado maior dos capitães da revolução proletária; mas é somente a consciência de tal revolução”.51 O Manifesto, portanto, não é “o vademecum da revolução proletária”,52 mas o instrumento para desmascarar a ingenuidade do socialismo que se pensa possível “sem a revolução, ou se- ja, sem uma fundamental mutação da estrutura elementar e geral da sociedade”.53

Com Labriola, o movimento operário italiano teve, finalmente, um teórico capaz de, contemporaneamente, igualar-se aos níveis máximos da filosofia e do marxismo europeu. Todavia, o rigor de seu marxismo, problemático pelas imediatas circunstâncias políticas e crítico dos com- promissos teóricos, decretou também a sua desatualização.54

Encravada entre os dois séculos, de fato, a publicação de La filosofia di Marx (A filosofia de Marx), de Giovanni Gentile (livro marcado posterior- mente, por Lênin, como “digno de atenção”55), dos escritos de Croce que proclamavam a “morte do socialismo”56 e – no âmbito militar – dos valo- res de Francesco Saverio Merlino57 e de Antonio Graziadei,58 também ins- piraram na Itália o vento da “crise do marxismo”. Contudo, no Partido Socialista Italiano não havia, como na Alemanha, um marxismo ortodoxo e, na realidade, o embate foi travado entre dois “revisionismos”, um reformista e outro sindical-revolucionário.59

Nesse mesmo período, a partir de 1899 e até 1902, deu-se uma proliferação de traduções de Marx e Engels que forneceram ao leitor italiano boa parte das obras disponíveis à época. Foi nesse contexto que, em 1902, como apêndice à 3a edição do escrito de Labriola (Em memó- ria do Manifesto dos comunistas), apareceu uma nova tradução do Mani- festo, a última feita na Itália até o fim da Segunda Guerra Mundial. Essa – cuja paternidade foi dada por alguns a Labriola e, por outros, à sua mulher Rosalia Carolina De Sprenger – continha algumas inexatidões e omissões e foi retomada em poucas reedições do texto.
A versão mais utilizada até a segunda metade do pós-guerra foi, então, aquela de Bettini, reproduzida em numerosas reimpressões.

A uma primeira, de 1910, seguiram-se diversas, organizadas pela Sociedade Editora Avanti, que se tornou o principal veículo de propaganda do Partido Socialista. Particularmente duas, em 1914, das quais a segunda continha Os fundamentos do comunismo de Engels. Ainda entre 1914 e 1916 (reimpressa no biênio 1921-1922), foi inserida no primeiro tomo da edição das Obras de Marx e Engels, que, a despeito da confusão geral dominante, na Itália – como na Alemanha – foram reunidas, junto àque- las de Lassalle. Depois, em 1917, por duas vezes em 1918, tendo como apêndice os 14 pontos da Conferência de Kienthal e o manifesto da Con- ferência de Zimmerwald, em 1920 (com duas reimpressões em 1922) em uma tradução revista por Gustavo Sacerdote, e, enfim, em 1925. A essas edições Avanti, acrescentem-se outras sete reimpressões que aparece- ram, em editoras menores, entre 1920 e 1926.

Durante a primeira década do século, o marxismo se despediu da prática política quotidiana do Partido Socialista Italiano. Em um famoso debate parlamentar de 1911, de fato, o presidente do conselho, Giovanni Giolitti, afirmava: “o Partido Socialista moderou demais o seu programa. Karl Marx fora mandado para a geladeira”.60 Os comentários aos textos de Marx, que pouco tempo antes tinham invadido o mercado literário, arrefeceram. E, se se exclui o “retorno a Marx” dos estudos filosóficos de Rodolfo Mondolfo,61 além de outras poucas exceções, o mesmo se verifi- cou durante os anos 10. Quanto às iniciativas por obra de outras realida- des, o campo burguês havia há tempos celebrado a “dissolução do mar- xismo”, enquanto na Igreja Católica as condenações preconceituosas prevaleceram sobre as tentativas de análise.

Em 1922, irrompe a barbárie fascista. Em 1923, todos os exemplares do Manifesto foram retirados das bibliotecas públicas e das universida- des. Em 1924, todas as publicações de Marx e aquelas ligadas ao movi- mento operário foram queimadas.62 As leis “fascistíssimas” de 1926, en- fim, decretaram a dissolução dos partidos de oposição e deram início ao período mais trágico da história moderna italiana.

Se não se levam em consideração algumas edições datilografadas e mimeografadas, os poucos escritos de Marx publicados em língua italiana entre 1926 e 1943 apareceram no exterior (entre os quais se destacam duas versões do Manifesto impressas na França, em 1931 e 1939, e uma outra publicada em Moscou, em 1944, com uma nova tradução de Palmiro Togliatti). Únicas exceções a tal complô de silêncio foram três diferentes edições do Manifesto do Partido Comunista. Duas delas apareceram, “para uso de estudiosos” e com direito à consulta somente através de solicita- ção prévia, em 1934. A primeira, da coletânea Política e economia, que alinhava, ao lado de Marx, textos de Labriola, Loria, Pareto, Weber e Rimmel; a tradução era aquela de Bettini revisitada pelo organizador Robert Michels.63 A segunda, em Florença, na versão de Labriola, em um outro volume coletivo, Le carte dei diritti (As cartas dos direitos), primeiro tomo da coleção “Clássicos do liberalismo e do socialismo”.

E depois do último, em 1938, desta vez sob a organização de Croce, como apêndice a uma coleção de ensaios sobre Labriola, intitulada La concezione materialistica della storia (A concepção materialista da história), na tradu- ção feita por ele mesmo. O volume incluía também um ensaio de Croce, que se tornou famoso, de título bastante explícito, Come nacque e come morì il marxismo teorico in Italia (1895-1900) (Como nasceu e como mor- reu o marxismo teórico na Itália (1895-1900)). O filósofo idealista, po- rém, se enganava. O marxismo italiano não estava morto, mas somente aprisionado nos Quaderni del cárcere (Cadernos do cárcere), de Antonio Gramsci,64 que logo mostrariam todo o seu valor teórico e político.

Com a liberação do fascismo, o Manifesto recomeçou a aparecer em diversas edições. Federações provinciais do Partido Comunista Italiano, iniciativas e editoras pequenas e particulares na Itália meridional já libe- rada deram ao texto de Marx e Engels um novo fôlego. Três edições apa- recerem em 1943 e oito, em 1944. E assim paulatinamente nos anos su- sucessivos: das nove edições publicadas no fim da guerra, em 1945, à façanha de 1948, por ocasião do centenário.

VI. Conclusão
Repercorrendo a história da edição italiana do Manifesto do Partido Comunista, fica evidente o enorme atraso com que foi publicada. Contra- riamente a muitos países em que o Manifesto foi o primeiro escrito de Marx e Engels a ser traduzido, na Itália apareceu só depois de outras obras.65 Também a sua influência política foi modesta e ele nunca incidiu diretamente sobre os principais documentos do movimento operário. Tanto menos foi determinante na formação da consciência política dos dirigen- tes socialistas. Todavia, foi de grande relevância para os estudiosos (veja- se o caso de Labriola) e, através de suas edições, teve um papel impor- tante entre os militantes, até se tornar a referência teórica privilegiada.

Mais de 150 anos de sua publicação, estudado por incalculáveis exegetas, opositores e seguidores de Marx, o Manifesto atravessou as mais variadas estações e foi lido nos modos mais diversos. Pedra angu- lar do “socialismo científico” ou plágio do Manifeste de la démocratie, de Victor Considerant; texto incendiário culpado de ter fomentado o ódio entre as classes do mundo ou símbolo da libertação do movimento ope- rário internacional; clássico do passado ou obra de vanguarda da reali- dade moderna da “globalização capitalista”. Qualquer que seja a inter- pretação considerada, uma coisa é certa: pouquíssimos outros escritos na história podem vangloriar-se de análoga vitalidade e difusão. Ainda hoje, de fato, o Manifesto continua a ser impresso e a ser assunto seja na América Latina como na China, nos Estados Unidos como na Itália e em toda a Europa.

Se a perpétua juventude de um escrito está na sua capacidade de saber envelhecer, ou seja, de ser capaz de estimular novos pensamen- tos, pode-se afirmar que o Manifesto possui, sem dúvida, essa virtude.