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Em 28 de setembro de 1864, a sala do St. Martin’s Hall, um edifício situado no coração de Londres, estava lotado. Estavam reunidos cerca de dois mil trabalhadores e trabalhadores para participar de um comício de sindicalistas ingleses e colegas parisienses. Graças a esta iniciativa, nascia o ponto de referência do conjunto das principais organizações do movimento operário: a Associação Internacional de Trabalhadores.
Em poucos anos, a Internacional despertou paixões por toda a Europa. Graças a ela, o movimento operário pode compreender mais claramente os mecanismos de funcionamento do modo de produção capitalista, adquiriu maior consciência de sua própria força e inventou novas formas de luta. De forma contrária, nas classes dominantes, causou terror a notícia da formação da Internacional. A ideia de trabalhadores reclamarem maiores direitos e um papel ativo na história suscitou repulsa nas classes acomodadas e foram muitos os governos que a perseguiram com todos os meios a seu alcance.
As organizações que fundaram a Internacional eram muitos diferentes entre si. Seu centro motor inicial foram os sindicatos ingleses, que passaram a considerá-la o instrumento mais idôneo para lutar contra a importação de mão de obra de fora durante as greves. Outro importante ramo da associação foi a dos mutualistas, a componente moderada fiel à Teoria de Proudhon, predominante na França à época, enquanto o terceiro grupo, por ordem de importância, foram os comunistas, reunidos em torno da figura de Marx.
Inicialmente, fizeram parte também da Internacional grupos de trabalhadores que reivindicavam teorias utópicas, núcleos de exilados inspirados por concepções vagamente democráticas e defensoras de ideias interclassistas, como alguns seguidores de Mazzini. O empenho em fazer com que convivessem todas estas almas na mesma organização foi indiscutivelmente obra de Marx. Seus dotes políticos lhe permitiram conciliar o que não parecia conciliável, assegurando um futuro à Internacional. Foi Marx quem outorgou à Associação a clara finalidade de realizar um programa político não excludente, apesar de ser fortemente de classe, como garantia de um movimento que aspirava ser de massas e não sectário. Foi sempre Marx, alma política do Conselho Geral de Londres, que redigiu quase todas as resoluções principais da Internacional. Entretanto, diferentemente do que foi propagado pela liturgia soviética, a Internacional foi muito mais do que apenas Marx.
Desde o final de 1866, intensificaram-se as greves em muitos países europeus, o coração vibrante de uma época de luta significativa. A primeira grande batalha vencida graças ao apoio da Internacional foi a dos bronzistas de Paris no inverno de 1867. Neste período, tiveram também o vitorioso desenlace nas greves dos trabalhadores das fábricas de Marchienne, as dos operários das bacias mineiras de Provenza, dos mineiros de carvão de Charleroi e dos pedreiros de Genebra. Em cada um destes acontecimentos, repetiu-se de modo idêntico a pauta: arrecadação de dinheiro em apoio aos grevistas, graças aos chamamentos redigidos e traduzidos pelo Conselho Geral e depois enviados aos trabalhadores de outros países, e à compreensão de que estes últimos não fizessem ações fura greve.
Todo isso obrigou os patrões a buscar um compromisso e a aceitar muitas das demandas dos operários. Iniciou-se uma época de progresso social, durante a qual os movimentos dos trabalhadores conseguiu maiores direitos para aqueles que ainda não gozavam deles, como prescreviam as receitas liberais da direita. Depois do êxito de todas estas lutas, centenas aderiram à Internacional em todas as cidades em que foram registradas greves.
Apesar das complicações derivadas da heterogeneidade das línguas, culturas políticas e países implicados, a Internacional conseguiu reunir e coordenar mais organizações e numerosas lutas nascidas espontaneamente. Seu maior mérito foi o de ter sabido indicar a absoluta necessidade da solidariedade de classe e da cooperação transnacional. Objetivos e estratégias do movimento operário mudaram de maneira irreversível e são atuais ainda hoje, 150 anos depois.
A proliferação de greves mudou também os equilíbrios no interior da organização. O Congresso de Bruxelas de 1868 votou a resolução sobre a socialização dos meios de produção. Tal ação representou um passo decisivo no decorrer da definição das bases econômicas do socialismo e, pela primeira vez, um dos baluartes reivindicativos do movimento operário ficou integrado ao programa político de uma grande organização. Entretanto, depois de ter derrotado os partidários de Proudhon, Marx teve que enfrentar seu novo rival interno, o russo Bakunin, que se somou à Internacional em 1869.
O período compreendido entre o final dos anos 60 e o início dos anos 70 foi rico em conflitos sociais. Muitos dos trabalhadores que fizeram parte dos protestos neste intervalo de tempo receberam apoio da Internacional, cuja fama ia sendo difundida cada vez mais. Da Bélgica à Alemanha e da Suíça à Espanha, a Associação aumentou seu número de militante e desenvolveu uma eficiente estrutura organizativa em quase todo o continente. Foi também para além do oceano, graças à iniciativa dos imigrantes reunidos nos Estados Unidos.
O momento mais significativo da história da Internacional coincidiu com a Comuna de Paris. Em março de 1871, após o fim da guerra franco-prussiana, os operários expulsaram o governo Thiers e tomaram o poder. Este foi o acontecimento político mais importante da história do movimento operário do século XIX. Desde aquele momento, a Internacional esteve no olho do furacão e adquiriu grande notoriedade. Na boca da burguesia, o nome da organização se tornou sinônimo de ameaça à ordem constituída, enquanto na dos trabalhadores se tornou a esperança de um mundo sem exploração e injustiças. A Comuna de Paris deu vitalidade ao movimento operário e levou-o a tomar posições mais radicais. Uma vez mais, a França mostrou que a revolução era possível, que o objetivo podia e devia ser a construção de uma sociedade radicalmente diferente da capitalista, mas também que, para alcançá-lo, os trabalhadores teriam que criar formas de associação política estáveis e bem organizadas.
Por esta razão, durante a Conferência de Londres de 1871, Marx propôs uma resolução sobre a necessidade de a classe trabalhadora se dedicar à batalha política e construir onde fosse possível um novo instrumento de luta considerado indispensável para a revolução: o partido (utilizado até então apenas pelos operários da Confederação Germânica). Muitos, entretanto, opuseram-se a esta decisão. Para além do grupo de Bakunin, contrário a qualquer política que não fosse a da destruição imediata do Estado, várias federações se uniram em sua impaciência e rebeldia em relação {a proposta do Conselho Geral, ao considerar que a eleição de Londres era uma ingerência na autonomia das federações locais.
O adversário principal da campanha iniciada por Marx foi uma atmosfera ainda resistente em aceitar o salto qualitativo proposto. Desenvolveu-se assim um enfrentamento que fez da direção da organização algo ainda mais problemático, enquanto ela se estendia na Itália e se ramificava na Holanda, Dinamarca, Portugal e Irlanda.
Em 1872, a Internacional era muito diferente do que havia sido no momento de sua fundação. Os componentes democratico-radicais tinham abandonado a Associação, depois de terem sido encurralados. Os mutualistas haviam sido derrotados e suas forças drasticamente reduzidas. Os reformistas já não constituíam a parte predominante da organização (salvo na Inglaterra) e o anticapitalismo tinha se transformado na linha política de toda a Internacional, também das novas tendências – como a anarquista, dirigida por Mijail Bakunin, e a blanquista – que haviam se somado no decorrer dos anos. O cenário, por outro lado, havia mudado radicalmente também fora da Associação. A unificação da Alemanha em 1871 sancionou o inicio de uma nova era em que o Estado nacional se afirmou definitivamente como forma de identidade política, jurídica e territorial.
O novo contexto tornava pouco plausível a continuidade de um organismo supranacional em que as organizações de vários países, apesar de dotadas de independência, deviam ceder uma parte considerável da direção política.
A configuração inicial da Internacional estava superada e sua missão original era concluída. Não se tratava de preparar e coordenar iniciativas de solidariedade em escala europeia, em apoio a greves, nem de convocar congressos para discutir acerca da utilidade da luta sindical ou da necessidade de socializar a terra e os meios de produção. Estes temas haviam se transformado em patrimônio coletivo de todos os componentes da organização. Depois da Comuna de Paris, o verdadeiro desafio do movimento operário era a revolução, ou seja, como se organizar para colocar fim ao modo de produção capitalista e derrocar as instituições do mundo burgues.
Durante sucessivas décadas, o movimento operário adotou um programa socialista que se estendeu primeiro por toda a Europa e depois por todos os rincões do mundo, construindo novas formas de coordenação supranacional que reivindicavam o nome e o ensino da Internacional. Esta imprimiu na consciência dos trabalhadores a convicção de que a libertação do trabalho do jugo do capital não podia ser obtida dentro das fronteiras de um país apenas, mas era, pelo contrário, uma questão global. E igualmente, graças à Internacional, os operários compreenderam que sua emancipação poderia ser conquistada somente por eles mesmos mediante sua capacidade de organização, uma conquista que não poderia ser delegada a outros. Em suma, a Internacional difundiu entre os trabalhadores a consciência de que sua escravidão terminaria somente com a superação do modo de produção capitalista e do trabalho assalariado, posto que as melhoras no interior do sistema vigente não transformariam sua condição estrutural.
Em uma época em que o mundo do trabalho se encontra acuado, também na Europa, sofrendo com condições de exploração e legislações semelhantes às do século XIX e em que velhos e novos conservadores tratam, uma vez mais, de separar o que trabalha do desempregado, precário ou migrante, a herança política da organização fundada em Londres recobra uma extraordinária relevância. Em todos os casos em que se comete uma injustiça social relativa ao trabalho, cada vez que se pisa em um direito germina a semente da nova Internacional.
Tradução: Daniella Cambaúva
Os 150 anos da Internacional
No dia 28 de setembro de 1864, em um edifício no coração de Londres, nasceu aquele que se tornaria o ponto de referência das principais organizações do movimento operário: a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT).
As entidades que fundaram a AIT diferiam muito. Entre elas havia os sindicatos ingleses, os mutualistas franceses, os comunistas, os exilados democráticos, inúmeros grupos de trabalhadores que se reconheciam em teorias utópicas, aos quais, mais tarde, juntaram-se outras tendências, como os anarquistas de Bakunin.Foi Marx quem conseguiu que todas essas almas convivessem numa mesma organização e que realizou um programa político não excludente, embora firmemente classista, como garantia de um movimento que ambicionava ser de massas, e não sectário. Apesar das dificuldades derivadas da heterogeneidade de línguas, culturas políticas e países envolvidos, a AIT foi capaz de afiliar um enorme contingente de trabalhadores em toda a Europa e coordenar inúmeras greves nascidas espontaneamente. Graças à AIT, os trabalhadores adquiriram maior consciência da própria força e inventaram novas formas de luta. Após sua fundação, objetivos e estratégias do movimento operário transformaram-se de modo irreversível. Foi o Conselho Geral da AIT que aprovou algumas das mais famosas resoluções sobre a importância do sindicato, a criação do partido político ou a socialização da terra e dos meios de produção. Os congressos da AIT foram o palco no qual se forjaram debates históricos sobre o comunismo e a anarquia ou sobre a guerra como produto inevitável do regime capitalista.
O momento mais signifivativo da história da AIT coincidiu com a Comuna de Paris, ou seja, quando, em março de 1871, os operários derrubaram o governo de Thiers e tomaram o poder. Esse foi o evento político mais importante da história do movimento operário do século XIX. A França tinha mostrado que a revolução era possível, que o objetivo podia e devia ser a construção de uma sociedade radicalmente diferente da capitalista, mas também que, para alcançá-lo, os trabalhadores deveriam criar formas de associação política estáveis e bem organizadas.
Nas décadas seguintes, o movimento operário adotou um programa socialista, expandiu-se, primeiro, por toda a Europa e, depois, pelos mais diversos cantos do mundo e construiu novas formas de coordenação supranacionais, que se referiam ao nome e aos ensinamentos da AIT. Essa organização imprimiu na consciência dos proletários a convicção de que a emancipação do trabalho do jugo do capital não podia ser obtida nos limites de um único país, mas que era, ao contrário, uma questão global. Do mesmo modo, graças à AIT os operários compreenderam que sua emancipação só podia ser conquistada por eles mesmos, por sua capacidade de organizar-se, não podendo ser transferida a outrem. Por fim, a AIT difundiu entre os trabalhadores a consciência de que sua escravidão só teria fim com a superação do modo de produção capitalista e do trabalho assalariado, uma vez que as melhorias no interior do sistema vigente, ainda que devessem ser almejadas, não modificariam sua condição estrutural.
Em uma época na qual, em muitas partes do planeta, o mundo do trabalho é obrigado a suportar condições de exploração semelhantes àquelas do século XIX, a herança política da organização fundada em Londres em 1864 volta a adquirir extraordinária relevância. Em todas as situações em que se comete uma injustiça no trabalho, cada vez que um direito é pisoteado, germina a semente da nova Internacional.
Tradução de: Isabella Marcatti
I. A formação da Internacional
No dia 28 de setembro de 1864, o salão do St. Martin’s Hall, edifício situado no coração de Londres, estava lotado. Ali se encontravam cerca de 2 mil trabalhadoras e trabalhadores para assistir ao comício de alguns dirigentes sindicais ingleses e de um pequeno grupo de operários vindos do continente.
Os organizadores da assembleia não imaginavam – nem teriam podido prever – o que essa iniciativa geraria. Em pouco tempo, a Internacional suscitou paixões em toda a Europa, difundiu o ideal da solidariedade de classe e motivou a consciência de uma grande massa de mulheres e homens, que escolheram a luta com a mais radical das metas: a de mudar o mundo. Nas classes dominantes, ao contrário, a notícia da fundação da Internacional provocou horror. O pensamento de que também os operários viessem a exigir para si um papel ativo na história gerou indignação, e foram numerosos os governos que invocaram a eliminação da organização, perseguindo-a com todos os meios de que dispunham.
As organizações operárias que fundaram a Internacional eram muito distintas entre si. A tarefa política de fazer conviver todos esses ânimos na mesma organização foi indiscutivelmente obra de Marx. Seus dotes políticos lhe permitiram conciliar aquilo que parecia inconciliável e asseguraram um futuro à Internacional, que, sem o seu protagonismo, teria seguramente caído no mesmo rápido esquecimento de todas as outras numerosas associações operárias que a precederam. Foi Marx quem deu uma finalidade clara à Internacional. Foi ele quem realizou um programa político não excludente, embora firmemente classista, como garantia de uma organização que ambicionava ser de massas e não sectária. Foi Marx, alma política de seu Conselho Geral, quem redigiu suas principais resoluções e compilou todos os relatórios preparatórios para os congressos. Ele foi o homem certo no lugar certo.
II. Greves e expansão
A Inglaterra foi o primeiro país onde foram apresentados pedidos de adesão à Internacional. A atividade do Conselho Geral em Londres foi decisiva para seu reforço. Na primavera de 1866, com seu apoio aos grevistas dos Alfaiates Unificados de Londres, a organização contribuiu ativamente, pela primeira vez, para uma luta operária. Em seguida à vitória desses trabalhadores, cinco pequenas sociedades de alfaiates, de cerca de quinhentos trabalhadores cada uma, decidiram filiar-se à Internacional. O resultado positivo de outras disputas atraiu diversos sindicatos pequenos, tanto que, em setembro de 1865, as organizações sindicais filiadas eram já dezessete, para um total de mais de 25 mil membros.
Em setembro 1866, a cidade de Genebra sediou o primeiro con- gresso da Internacional. Fizeram-se presentes sessenta delegados, pro- venientes da Inglaterra, da França, da Alemanha e da Suíça. Naquele momento, a Associação pôde fazer um balanço muito favorável, tendo acolhido sob sua bandeira, apenas dois anos depois de sua fundação, mais de uma centena de sindicatos e organizações políticas.
A partir do fim daquele ano, as greves se intensificaram em muitos países europeus. Organizadas por grandes massas de trabalhadores, elas contribuíram para a tomada de consciência das condições em que essas pessoas eram forçadas a viver e foram o coração pulsante de um novo e importante período de lutas. Essas mobilizações representaram um primeiro momento de encontro e coordenação com a Internacional, que os apoiou com proclamações e apelos de solidariedade, organizando a coleta de dinheiro em favor dos grevistas e promovendo encontros para bloquear as tentativas dos patrões de enfraquecer a resistência dos trabalhadores.
Assim, apesar das dificuldades derivadas da heterogeneidade de países, línguas e culturas políticas, a Internacional conseguiu reunir e coordenar muitas organizações e lutas nascidas espontaneamente. Seu maior mérito foi o de ter sabido indicar a absoluta necessidade da solidariedade de classe e da cooperação internacional, superando irreversivelmente o caráter parcial dos objetivos e das estratégias do movimento operário. A partir de 1867, reforçada pelo sucesso desses resultados, pelo número aumentado de seus militantes e por uma eficiente estrutura organizativa, a Internacional avançou em todo o continente.
Se o Congresso de Bruxelas de 1868 marcou o momento a partir do qual teve início a viragem coletivista da Internacional, o congresso do ano seguinte, realizado em setembro 1869 na Basileia, consumou esse processo, erradicando as teorias de Pierre-Joseph Proudhon. O Congresso de Basileia também foi interessante por outro motivo: a participação do delegado Mikhail Bakunin. Não tendo conseguido conquistar a direção da Liga da Paz, em setembro de 1868 ele havia fundado, em Genebra, a Aliança da Democracia Socialista, uma organização que, em dezembro, apresentou um pedido de adesão à Internacional. Depois de ter finalmente derrotado os mutualistas e o espectro de Proudhon, Marx se viu, a partir daquele momento, na necessidade de enfrentar um rival ainda mais hostil, um desafiante que formaria uma nova tendência – o anarquismo coletivista – no interior da organização, e que visava conquistá-la.
III. Desenvolvimento em toda a Europa e a Comuna de Paris
O período entre o fim dos anos 1860 e o início dos anos 1870 foi rico em conflitos sociais. Nesse intervalo de tempo, muitos dos trabalhadores que tomaram parte nos protestos resolveram dirigir-se à Internacional, cuja fama difundia-se cada vez mais. Apesar de seus recursos limitados, o Conselho Geral jamais deixou de responder com apelos de solidariedade a suas seções europeias com a coleta de fundos.
Em 1869, a Internacional obteve uma significativa expansão em quase toda a Europa. Devido à dura repressão imperial, na França o ano de 1868 havia sido caracterizado por uma fortíssima crise da Internacional. O ano sucessivo tornou-se, ao contrário, o de seu renascimento. Na Bélgica, distinguiu-se pela ascensão do sindicalismo, o êxito vitorioso das greves e a adesão à Internacional de inúmeras sociedades operárias. Durante esse período, o progresso da Internacional manifestou-se também na Suíça. Na Confederação Alemã do Norte, contudo, as coisas tomaram um rumo totalmente diverso. Apesar de o movimento operário daquele país já contar com organizações políticas, seu entusiasmo pela Internacional foi mínimo, e os pedidos de adesão tornaram-se escassos. Em compensação aos fracos resultados alemães, houve duas novidades positivas. Em maio de 1869, algumas seções da Internacional foram fundadas num novo país, a Holanda. Um pouco mais tarde, ela renasceu também na Itália, nação na qual só estivera presente, até então, com alguns núcleos esparsos e sem relação entre si. Ainda mais significativa, ao menos pelo caráter simbólico e considerando as esperanças que despertou, foi a expansão da Internacional no outro lado do Atlântico. A partir de 1869, por iniciativa de alguns imigrantes recém-chegados, foram constituídas as primeiras seções nos Estados Unidos.
Nesse cenário de dimensão universal, ainda que marcado por evidentes contradições e pela marcha desigual de seu desenvolvimento nos diversos países, a Internacional se preparava para celebrar seu quinto congresso, em setembro de 1870. Todavia, a Guerra Franco-Prussiana, deflagrada a 19 de julho de 1870, forçou sua suspensão.
Depois da queda de Bonaparte, derrotado em Sedan pelos alemães, em 4 de setembro de 1870 foi proclamada na França a Terceira República. A clara perspectiva de um governo que não realizaria nenhuma reforma social animou a sublevação dos parisienses, concluída com a derrubada de Thiers e a fundação, no dia 18 de março, da Comuna de Paris, o mais importante evento político da história do movimento operário do século XIX.
A Comuna de Paris foi reprimida com brutal violência pelo exér- cito de Versalhes. Não obstante os dramáticos eventos de Paris e o furor da repressão posta em ação por todos os governos europeus, a força da Internacional aumentou em seguida aos acontecimentos da Comuna. Apesar de frequentemente cercada pelas mentiras es- critas por seus adversários, a palavra “A Internacional” tornou-se, nesse período, conhecida de todos. Para os capitalistas e para a classe burguesa, soava como sinônimo de ameaça da ordem constituída, mas para os operários significou a esperança num mundo sem exploração e injustiças. A confiança de que isso fosse realizável aumentou depois da Comuna. A insurreição parisiense deu força ao movimento operário, impulsionando-o a assumir posições mais radicais e a intensificar a militância. Paris mostrou que a revolução era possível, que o objetivo podia e devia ser a construção de uma sociedade radicalmente diferente da capitalista, mas também que, para alcançá-lo, os trabalhadores deviam criar formas de associações políticas estáveis e bem organizadas.
IV. A crise da Internacional
Nesse cenário, que não permitia a convocação de um novo con- gresso, e a quase dois anos de distância do último, o Conselho Geral decidiu promover uma Conferência em Londres (setembro 1871), para defender a Internacional da ofensiva das forças inimigas e obstaculizar a crescente influência de Bakunin.
Se o Congresso de Genebra de 1866 havia confirmado a importância do sindicato, a Conferência de Londres de 1871 definiu o outro instru- mento fundamental de luta do movimento operário: o partido político. Apenas quatro delegados se opuseram à Resolução IX (“ação política da classe operária”), defendendo a necessidade de se adotar uma posição “abstencionista” de não engajamento na ação política; mas a vitória de Marx logo se mostrou efêmera. Após a conferência, Marx estava convicto de que as resoluções aprovadas em Londres receberiam o apoio de quase todas as principais federações e seções locais. Mas pouco tempo depois ele precisou reavaliar a situação.
A oposição ao Conselho Geral foi de diversos tipos, e muitas vezes baseou-se em motivos pessoais. Formou-se, assim, uma estranha al- quimia que tornou a direção da organização ainda mais problemática. O adversário principal da virada ocorrida com a Resolução IX foi um ambiente ainda imaturo para receber o salto de qualidade proposto por Marx. O princípio de autonomia das várias realidades das quais se compunha a Internacional era considerado uma das pedras basilares da Associação, não só pelo grupo mais ligado a Bakunin, mas por grande parte das federações e seções locais. A batalha final ocorreu no fim do outono de 1872. Depois dos terríveis eventos dos últimos três anos, a Internacional pôde finalmente voltar a reunir-se num congresso (Haia, setembro 1872).
A decisão de maior relevo tomada em Haia foi a introdução da principal deliberação política da conferência de 1871 nos estatutos da Associação. A luta política não era mais considerada um tabu, mas, antes, o instrumento necessário para a transformação da sociedade: “Porque os senhores da terra e do capital se servem de seus privilégios políticos para proteger e perpetuar seus monopólios econômicos, assim como para escravizar o trabalho, a conquista do poder político converte-se numa grande obrigação do proletariado”.
A Internacional era então muito diferente do que havia sido no tempo de sua fundação. Os componentes democrático-radicais abandonaram a Associação, depois de terem sido marginalizados. Os mutualistas haviam sido derrotados e suas forças, drasticamente reduzidas. Os reformistas não constituíam mais a parte dominante da organização (exceto na Inglaterra) e o anticapitalismo tornara-se a linha política de toda a Internacional, inclusive das novas tendências – como a anárquico-coletivista – que haviam se formado no curso dos últimos anos. Ainda que durante a existência da Internacional a Europa atravessasse uma fase de grande prosperidade econômica – que, em alguns casos, tornou menos difíceis as condições do proletariado –, os operários haviam compreendido que sua situação só mudaria verdadeiramente com o fim da exploração do homem sobre o homem, e não por meio de reivindicações econômicas voltadas à obtenção de meros paliativos às condições existentes.
Ademais, o cenário havia mudado radicalmente também no ex- terior da organização. A unificação da Alemanha, ocorrida em 1871, marcou o início de uma nova era, em que o Estado-nação afirmou-se definitivamente como forma de identidade política, jurídica e territorial. O novo contexto tornava pouco plausível a continuidade de um organismo supranacional ao qual as organizações dos vários países, ainda que munidas de autonomia, deviam ceder uma parte consistente da direção política e uma cota das contribuições dos próprios filiados. Depois da Comuna de Paris, o verdadeiro desafio que se colocou ao movimento operário era a revolução, isto é, o de como organizar-se para pôr fim ao modo de produção capitalista e derrubar as instituições do mundo burguês. Não mais a questão da reforma da sociedade existente, da construção de uma sociedade nova. Para avançar por esse novo caminho da luta de classe, Marx pensava ser inadiável a construção, em cada país, de partidos políticos da classe operária.
O documento Ao conselho federal da região espa- nhola da Associação Internacional dos Trabalhadores, redigido por Engels em fevereiro de 1871, foi uma das declarações do Conselho Geral mais explícitas nesse sentido. A morte da Internacional, que certamente se seguiria à decisão tomada em Haia de transferência do Conselho Geral para Nova York, era infinitamente preferível do que uma longa e inútil sucessão de lutas fratricidas. Porém, não parece convincente argumentar – como muitos o fizeram – que a principal razão para o declínio da Internacional tenha sido o conflito entre seus dois concorrentes, ou mesmo entre dois indivíduos, Marx e Bakunin, por maior que sejam suas estaturas. Na verdade, foram as mudanças ocorridas no mundo ao redor da Internacional que a tor- naram obsoleta. O crescimento e a transformação das organizações do movimento operário, o fortalecimento dos Estados-nação causado pela unificação nacional da Itália e da Alemanha, a expansão da Internacional em países como a Espanha e a Itália – com condições econômicas e sociais profundamente diferentes daquelas da Inglaterra e da França, onde a Associação havia nascido –, a definitiva virada moderada do sindicalismo inglês e a repressão que se seguiu à queda da Comuna de Paris agiram, de modo concomitante, para tornar a configuração originária da Internacional inapropriada frente às condições históricas modificadas.
V. A Nova Internacional
A Internacional imprimiu na consciência dos proletários a convicção de que a emancipação do trabalho do jugo do capital não podia ser obtida no interior dos limites de um único país, mas que, ao contrário, era uma questão global. Do mesmo modo, graças à Internacional os operários compreenderam que sua emancipação só podia ser con- quistada por eles mesmos, por sua capacidade de organizar-se, não podendo ser transferida a outrem. Por fim, a Internacional – e nesse ponto a contribuição teórica de Marx foi fundamental – difundiu entre os trabalhadores a consciência de que sua escravidão só teria fim com a superação do modo de produção capitalista e do trabalho assalariado, uma vez que as melhorias internas do sistema vigente, ainda que importantes, não modificariam por si só sua dependência econômica das oligarquias patronais.
Existe um verdadeiro abismo a separar as esperanças daquele tempo e a desesperança do presente; a determinação antissistêmica daquelas lutas e a subalternidade ideológica contemporânea; a solidariedade construída por aquele movimento operário e o individualismo de nossos dias, produto da competição do mercado e das privatizações; a paixão pela política dos trabalhadores que se reuniram em Londres em 1864 e a resignação e apatia hoje imperantes.
No entanto, numa época em que o mundo do trabalho voltou a sofrer condições de exploração semelhantes àquelas do século XIX, o projeto da Internacional retorna com extraordinária atualidade. Sob cada injustiça social, em todo lugar em que trabalhadoras e trabalhadores se veem privados de seus direitos, germina a semente da nova Internacional.
A barbárie da “ordem mundial” vigente, os desastres ecológicos produzidos pelo presente modo de produção, o inaceitável abismo que separa as riquezas de uma minoria de exploradores e o estado de indigência de extratos cada vez mais vastos da população mundial, a opressão de gênero e os novos ventos da guerra, do racismo e do chauvinismo impõem ao movimento operário contemporâneo reorganizar-se, com urgência, a partir de duas características da Internacional: a radicalidade dos objetivos a perseguir e a forma poliédrica de sua estrutura. Os objetivos da organização nascida em Londres há 150 anos são hoje mais atuais e indispensáveis que nunca. Mas, para estar à altura do presente, a nova Internacional não poderá prescindir de dois requisitos fundamentais: deverá ser plural e anticapitalista.
Introdução
I. O início do caminho
No dia 28 de setembro de 1864, o salão do St. Martin’s Hall, edifício situado no coração de Londres, estava lotado. Ali encontravam-se cerca de 2 mil trabalhadoras e trabalhadores para assistir ao comício de alguns dirigentes sindicais ingleses e de um pequeno grupo de operários vindos do continente. No manifesto de convocação da assembleia, fora anunciada a presença de uma “delegação eleita pelos operários de Paris” que “apresentaria sua resposta ao discurso dos companheiros ingleses e um plano para um melhor entendimento entre os povos”1. De fato, em julho de 1863 algumas organizações operárias francesas e inglesas, reunidas em Londres para uma manifestação de solidariedade ao povo polonês – insurreto contra a ocupação de seu país pelo Império russo –, haviam proclamado os objetivos que julgavam de fundamental importância para o movimento operário. No texto preparatório do encontro, escrito pelo célebre dirigente sindical George Odger (1813-1877) e publicado no biebdomadário inglês The Bee-Hive com o título “Address of English to French Workmen” [Mensagem dos trabalhadores ingleses aos trabalhadores franceses], declaravam:
A fraternidade entre os povos é altamente necessária para a causa do trabalho, pois constatamos que sempre que tentamos melhorar nossa condição social por meio da redução das horas de trabalho, ou pelo aumento dos salários, nossos empregadores ameaçam trazer franceses, alemães, belgas e outros para realizarem nosso trabalho por salários mais baixos. E lamentamos dizer que isso tem ocorrido, embora não em razão de um desejo de nos prejudicar da parte de nossos irmãos do continente, mas pela falta de uma comunicação regular e sistemática entre as classes trabalhadoras de todos os países. Nosso objetivo é elevar os salários dos operários pior remunerados, aproximando-os o máximo possível daqueles dos melhor remunerados, e não permitir que nossos empregadores nos joguem uns contra os outros e nos empurrem, assim, para a condição mais baixa possível, adequada a sua busca avarenta pelo lucro.2
Os organizadores da assembleia não imaginavam – nem teriam podido prever – o que essa iniciativa geraria dali a pouco. O que ambicionavam era a construção de um fórum internacional de discussão, no qual pudessem examinar os principais problemas relacionados aos trabalhadores. Mas não consideravam a hipótese de fundar uma verdadeira organização, um instrumento de coordenação da iniciativa sindical e política da classe operária. Do mesmo modo, sua ideologia fora inicialmente marcada por lemas gerais de caráter ético-humanitário, tais como a fraternidade entre os povos e a paz mundial, muito mais do que pelo conflito de classes e por objetivos políticos concretos. Em razão desses limites, a assembleia do St. Martin’s Hall poderia ter sido mais uma das muitas iniciativas de caráter vagamente democrático já realizadas naqueles anos, mas que não deram qualquer resultado. Em vez disso, por meio dela constituiu-se o protótipo de todas as futuras organizações do movimento operário, um modelo que tanto reformistas quanto revolucionários tomariam, a partir de então, como ponto de referência: a Associação Internacional dos Trabalhadores3.
Em pouco tempo, ela suscitou paixões em toda a Europa, difundiu o ideal da solidariedade de classe e motivou a consciência de uma grande massa de mulheres e homens, que escolheram a luta com a meta mais radical, a de mudar o mundo. O editorial de um enviado do The Times ao terceiro congresso da organização, realizado em Bruxelas em 1868, reproduz plenamente a ambição do projeto da Internacional:
O que está contemplado [em seu projeto] é não uma simples melhoria, mas nada menos que uma regeneração, e não apenas de uma nação, mas da humanidade. Esse é certamente o objetivo mais amplo já contemplado por qualquer instituição, com exceção, talvez, da Igreja Cristã. Para ser breve, esse é o programa da Associação Internacional dos Trabalhadores.4
Graças à Internacional, o movimento operário pôde compreender mais claramente os mecanismos de funcionamento do modo de produção capitalista, adquirir maior consciência da própria força e desenvolver novas e mais avançadas formas de luta. Seu eco ultrapassou os confins da Europa, gerando a esperança de que outro mundo era possível até para os artesãos de Buenos Aires, os membros das primeiras associações operárias de Calcutá e os grupos de trabalhadores na Austrália e na Nova Zelândia.
Nas classes dominantes, ao contrário, a notícia da fundação da Internacional provocou horror. O pensamento de que também os operários viessem a exigir um papel ativo na história gerou indignação, e foram numerosos os governos que invocaram a eliminação da organização, perseguindo-a com todos os meios de que dispunham.
II. O homem certo no lugar certo
As organizações operárias que fundaram a Internacional eram muito distintas entre si. O centro motor foi o sindicalismo inglês. Seus dirigentes, quase todos reformistas, interessavam-se sobretudo por questões de caráter econômico. Lutavam pela melhoria das condições dos trabalhadores, sem, contudo, colocar o capitalismo em discussão. Assim, conceberam a Internacional como um instrumento favorável a seu objetivo, impedindo a importação da mão de obra estrangeira durante as greves.
Outro ramo significativo da organização, por muito tempo dominante na França e forte também na Bélgica e na Suíça francesa, foi o dos mutualistas. Seguidores das teorias de Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), opunham-se a qualquer tipo de envolvimento político dos trabalhadores, eram contrários à greve como instrumento de luta e exprimiam posições conservadoras em relação à emancipação feminina. Defensores de um sistema cooperativo sobre uma base federalista, sustentavam ser possível modificar o capitalismo mediante acesso igualitário ao crédito. Por essas razões, constituíram a ala direita da Internacional.
Ao lado desses dois componentes, numericamente majoritários, o terceiro grupo, por ordem de importância, foi o dos comunistas, reunidos em torno da figura de Karl Marx (1818-1883) e ativos – com pequenos grupos, dotados de uma esfera de influência muito circunscrita – em algumas cidades alemãs e suíças, assim como em Londres. Anticapitalistas, os comunistas se opunham ao sistema de produção existente, reivindicando a necessidade da ação política para sua derrubada.
Nas fileiras da Internacional, à época de sua fundação, também havia componentes sem qualquer relação com a tradição socialista e inspirados por concepções vagamente democráticas, como alguns grupos de exilados dos países do Leste europeu. Entre esses, podem ser citados os seguidores de Giuseppe Mazzini (1805-1872), expoente de um pensamento interclassista, orientado principalmente às reivindicações nacionais e que concebia a Internacional como uma associação útil para a difusão de apelos de libertação dos povos oprimidos da Europa5.
A completar o quadro da organização, tornando ainda mais complexo o equilíbrio de forças, havia vários grupos de trabalhadores franceses, belgas e suíços, que aderiram à Internacional trazendo consigo as teorias mais diversas e confusas, entre as quais algumas inspiradas no utopismo. Por fim, jamais associada à Internacional, embora sempre girando em sua órbita, estava também a Associação Geral dos Trabalhadores Alemães, partido dirigido pelos seguidores de Ferdinand Lassalle (1825-1864), que ostentava uma nítida posição antissindical e concebia a ação política exclusivamente nos estreitos limites nacionais.
Foram esses os heterogêneos grupos fundadores da Internacional, e foi esse o variegado e complexo entrelaçamento de culturas e experiências políticas e sindicais que caracterizou seu nascimento. Construir uma base geral e saber efetuar a síntese política de uma organização tão ampla, não obstante sua forma federativa, apresentou-se, desde o início, como tarefa muito árdua. Além disso, todas essas diferentes tendências, mesmo depois de terem aderido a um programa comum, continuaram a exercitar notável influência, frequentemente centrífuga, nas seções locais em que eram majoritárias.
A tarefa política de fazer conviver todos esses ânimos na mesma organização – e, além disso, com um programa tão distante dos princípios de cada um deles –, foi indiscutivelmente obra de Marx. Seus dotes políticos lhe permitiram conciliar aquilo que parecia inconciliável e asseguraram um futuro à Internacional, que, sem o seu protagonismo, teria seguramente caído no mesmo rápido esquecimento de todas as outras inúmeras associações operárias que a precederam6. Foi Marx quem deu uma finalidade clara à Internacional, quem realizou um programa político não excludente, embora firmemente classista, como garantia de uma organização que ambicionava ser de massas e não sectária. Marx foi a alma política de seu Conselho Geral, aquele que redigiu todas as suas resoluções principais e compilou todos os relatórios preparatórios para os congressos (com exceção daquele de Lausanne, em 1867, que coincidiu com seu trabalho de revisão das provas de impressão de O capital *). Ele foi “o homem certo no lugar certo”, como escreveu o dirigente operário alemão Johann Georg Eccarius (1818-1889)7.
Todavia, diversamente do que afirmam muitas reconstruções fantasiosas, que o representam como o fundador da Internacional, Marx não estava entre os organizadores da assembleia realizada no St. Martin’s Hall. Assistiu a ela, ao contrário, como “personagem mudo”8, como relatou em carta endereçada ao amigo Friedrich Engels (1820-1895). Soube, porém, reconhecer imediatamente a potencialidade do evento e pôs-se a trabalhar para o êxito da associação. Graças ao prestígio que, embora circunscrito a certos âmbitos, acompanhava seu nome, foi nomeado entre os 34 membros do Comitê Diretor Provisório9 da Associação, no interior do qual, tendo conquistado em pouco tempo a confiança de seus membros, a ele foi dada a incumbência de redigir a Mensagem inaugural e os Estatutos provisórios da Internacional. Na redação desses documentos fundamentais, assim como naquela de muitos outros sucessivos, Marx valorizou as melhores ideias dos vários componentes da organização, ao mesmo tempo que eliminou suas inclinações corporativas e acentos sectários. Além disso, conciliou firmemente a luta econômica com a luta política e tornou irreversível a escolha de pensar e agir em escala internacional10.
Foi graças à perspicácia de Marx que a Internacional tornou-se um órgão de síntese política das tendências presentes nos diversos contextos nacionais. Ela foi capaz de unificá-las num projeto de luta comum, garantindo autonomia às seções locais, mas não total independência em relação ao centro dirigente11. As dificuldades para manter unida a organização foram extenuantes para Marx12, sobretudo quando se considera que sua concepção anticapitalista não era a posição política dominante no interior da organização. Todavia, com o passar do tempo, muitas vezes por meio de confrontos e rupturas, e graças à incessante persistência de sua atividade, o pensamento de Marx tornou-se a doutrina hegemônica13.
Apesar desse duro caminho, sua elaboração trouxe não poucos benefícios à luta política daqueles anos. O novo perfil das mobilizações operárias, a experiência revolucionária da Comuna de Paris, o desafio (para ele inédito) de manter unida uma organização política tão grande e complexa, a polêmica com as outras tendências do movimento operário, surgidas das várias questões que se apresentaram ao longo da vida da Associação, tudo isso impulsionou Marx para além dos limites da economia política, à qual ele havia se dedicado inteiramente após a derrota da Revolução de 1848 e do consequente refluxo das forças mais progressistas. Além disso, ele foi estimulado a desenvolver suas ideias e, às vezes, a revisá-las, a fim de questionar velhas certezas, colocar novas questões e, principalmente, elaborar de forma mais concreta sua crítica do capitalismo em termos de definições da sociedade comunista. A representação do papel de Marx na Internacional difundida pela ortodoxia soviética, isto é, aquela de um revolucionário que teria transposto mecanicamente ao terreno histórico uma elaboração política já consumada e precedentemente elaborada em teoria, no isolamento de um quarto de estudos, é totalmente distante da realidade14.
III. Estrutura da organização
Tanto no curso de sua existência como nas décadas sucessivas, a Internacional foi representada como uma organização vasta e financeiramente poderosa. O número de seus membros foi sempre superestimado, seja por um insuficiente conhecimento da realidade, seja pelos exageros de alguns de seus dirigentes, seja para justificar a brutal repressão nos confrontos da Internacional. O promotor público que, em junho de 1870, processou alguns dos dirigentes franceses da Internacional, declarou que a organização possuía mais de 800 mil membros na Europa15. Um ano mais tarde, após a derrota da Comuna de Paris, o jornal The Times afirmou que esse número era de 2,5 milhões. Ao passo que seu principal estudioso à época, no campo conservador, Oscar Testut (1840-?), chegou mesmo a imaginar uma multidão de 5 milhões de membros16.
Na verdade, o número de seus membros foi muito inferior. Uma estimativa, ainda que apenas aproximada, da consistência efetiva da Internacional foi sempre uma questão complexa17, tanto para seus dirigentes como para os estudiosos. Com base nas pesquisas realizadas, é possível lançar a hipótese de que, durante seu período de maior afirmação (ou seja, no biênio 1871-1872), o número máximo de adesões, numa base anual, superou 150 mil. Mais detalhadamente: 50 mil na Inglaterra, mais de 30 mil na França e o mesmo número na Bélgica, 6 mil na Suíça, cerca de 30 mil na Espanha, cerca de 25 mil na Itália e mais de 10 mil na Alemanha (cuja imensa maioria, porém, só pode ser considerada membro por ser militante do Partido Social-Democrata dos Trabalhadores da Alemanha [Sozialdemokratische Arbeiterpartei Deutschland]), mais alguns milhares dispersos por outros países europeus e 4 mil nos Estados Unidos.
Dada a época e, portanto, a ausência quase absoluta – com exceção dos sindicatos ingleses e da Associação Geral dos Trabalhadores Alemães – de organizações efetivas da classe trabalhadora, essas cifras devem ser avaliadas como extremamente relevantes. É preciso também ter presente que, durante sua existência, a Internacional só era reconhecida como organização legal na Inglaterra, na Suíça, na Bélgica e nos Estados Unidos18. Em outros países onde teve uma presença consistente – é o caso de França, Espanha e Itália –, ela permaneceu ilegal por diversos anos, e seus militantes sofreram perseguições. Aderir à Internacional era considerado ilegal nos 39 Estados da Confederação Germânica, e no Império Austro-Húngaro seus pouquíssimos membros foram forçados a agir na clandestinidade. Não obstante, sua capacidade agregadora foi notável. Depois de apenas dois anos de vida, havia conseguido federar centenas de sociedades operárias. A partir do fim de 1868, graças à propaganda promovida pelos seguidores de Mikhail Bakunin (1814-1876), a ela se agregaram sociedades na Espanha e, depois da Comuna de Paris, surgiram seções na Itália, Holanda, Dinamarca e Portugal. O desenvolvimento da Internacional foi, sem dúvida, irregular; por múltiplas e diversas razões, enquanto crescia em alguns países, em outros mantinha-se estável ou regredia sob os golpes da repressão. Todavia, entre aqueles que aderiram à Internacional, mesmo que por um breve período, sobreviveu um forte sentido de pertencimento comum. Com efeito, também quando o ciclo das lutas das quais os trabalhadores haviam participado se encerrou e a adversidade e os rigores de suas vidas os forçaram a distanciar-se da organização, eles conservaram intocados os laços de solidariedade de classe e responderam da melhor forma que podiam ao chamado de um comício, às palavras de um manifesto, ao tremular da bandeira vermelha da luta, em nome e em memória da Internacional, a organização que os havia apoiado no momento de necessidade19.
Em relação à totalidade dos trabalhadores da época, os membros da Internacional foram, porém, uma parcela reduzida da classe operária. Em Paris, por exemplo, o número de membros jamais ultrapassou 10 mil, e em grandes cidades como Roma, Viena e Berlim seu número foi ainda mais exíguo. A qualificação dos operários que aderiram à Internacional constitui outra prova evidente de seus limites: ela deveria ser a organização dos operários assalariados, mas apenas um número muito exíguo destes tornou-se membro. O principal influxo veio do setor da construção, na Inglaterra, da indústria têxtil, na Bélgica, e de vários tipos de artesãos, na França e Suíça.
Na Inglaterra, com a única exceção dos operários siderúrgicos, a força da Internacional entre os proletários da indústria foi sempre limitadíssima20. Estes jamais se tornaram a maioria da Associação, mesmo após a expansão da organização nos países da Europa meridional. Outro grande limite da Internacional foi o de não ter conseguido abarcar o mundo do trabalho não qualificado21. Esforços nessa direção foram realizados desde a preparação para o primeiro congresso da organização, como demonstra a clara exortação às organizações dos trabalhadores contida no documento “Instructions for the Delegates of the Provisional General Council. The Different Questions” [Instruções para os delegados do Conselho Geral provisório. As questões singulares]:
Para além de seus propósitos originais, eles [os sindicatos] devem agora aprender a agir deliberadamente como centros organizadores da classe operária no interesse mais amplo de sua emancipação total. Devem auxiliar todo movimento social e político que aponte nessa direção. Considerando a si mesmos e agindo como os paladinos e representantes da classe operária inteira, não podem deixar de alistar em suas fileiras os párias da sociedade [the non-society men]. Devem defender cuidadosamente os interesses das atividades de pior remuneração, tais como os trabalhadores agrícolas, tornados impotentes por circunstâncias excepcionais. Devem convencer o mundo inteiro de que seus esforços, longe de serem estreitos e egoístas, visam à emancipação dos milhões de oprimidos.22
Também na Inglaterra, no entanto, com exceção dos escavadores, os trabalhadores não especializados não se filiaram à Internacional. Nesse país, o maior número de adesões veio do setor têxtil, dos alfaiates, dos sapateiros e dos carpinteiros, ou seja, dos trabalhadores que, à época, eram os mais organizados e dotados de maior consciência de classe. Por fim, a Internacional permaneceu sempre uma organização formada exclusivamente por trabalhadores ocupados, e os desempregados jamais fizeram parte dela. Análoga foi a proveniência de seus dirigentes, que, salvo algumas exceções, eram principalmente artesãos e intelectuais.
Dispor de dados corretos sobre os meios financeiros da Internacional é igualmente difícil. A despeito das fantasiosas descrições sobre a pretensa abundância de seus recursos23, a organização teve uma situação financeira cronicamente instável. A taxa de inscrição individual era de um xelim, enquanto cada um dos sindicatos devia contribuir, como sujeito coletivo, com três pence por membro. Em muitos países, no entanto, os filiados individuais foram sempre poucos e, na Inglaterra, as contribuições devidas pelos sindicados foram, constantemente, tão incertas e limitadas que o Conselho Geral acabou por liberar estes últimos para contribuir com o que podiam. As somas recolhidas jamais superaram poucas dezenas de libras esterlinas anuais24, que mal bastavam para pagar o salário de quatro xelins por semana do secretário-geral e o aluguel da sede, por cuja inadimplência a Internacional era frequentemente ameaçada de despejo.
Num dos mais importantes documentos da vida da organização, Marx resumiu assim suas funções: “A Associação Internacional dos Trabalhadores tem como tarefa combinar e generalizar os movimentos espontâneos das classes trabalhadoras, mas não ditar ou impor um sistema doutrinário, seja ele qual for”25. Não obstante a notável autonomia concedida às federações e seções locais singulares, a Internacional conservou sempre um lugar de direção política. Seu Conselho Geral constituía, de fato, o órgão em que se efetuava a síntese entre as várias tendências políticas e do qual emanavam as linhas diretivas da organização. De outubro de 1864 a agosto de 1872, o Conselho Geral se reuniu, com grande regularidade, por 385 vezes. No curso de tantas noites de terça-feira, durante as quais, numa sala repleta de fumaça de charutos e cachimbos, realizaram-se as reuniões do Conselho Geral, seus membros debateram inúmeras problemáticas, entre as quais: as condições de trabalho dos operários, os efeitos da introdução da maquinaria, as greves que deviam ser apoiadas, o papel e a importância dos sindicatos, a questão irlandesa, diversos problemas de política externa e, naturalmente, a questão de como construir a sociedade do futuro. O Conselho Geral foi também o organismo que se ocupou da elaboração dos documentos da Internacional. Circulares, cartas e resoluções foram os meios correntemente empregados, enquanto manifestos, mensagens e apelos foram os documentos excepcionais, utilizados em circunstâncias particulares26.
IV. A formação da Internacional
A falta de sincronia entre os principais eventos organizacionais e políticos da Internacional dificulta a reconstrução cronológica de sua história. Do ponto de vista organizacional, as fases mais importantes atravessadas pela Associação foram: I) seu nascimento (1864-1866), ou seja, a fase desde sua fundação até o primeiro congresso (Genebra, 1866); II) sua expansão (1866-1870); III) o impulso revolucionário e a repressão que se seguiu à Comuna de Paris (1871-1872); e IV) a cisão e a crise (1872-1877). Já do ponto de vista do confronto político, as principais fases da Internacional foram: I) o debate inicial entre os vários componentes e a construção de seus fundamentos teóricos (1864-1865); II) o conflito pela hegemonia entre coletivistas e mutualistas (1866-1869); e III) o confronto entre centralistas e autonomistas (1870-1877). Nos parágrafos que seguem, percorreremos tanto os eventos organizacionais como os políticos.
A Inglaterra foi o primeiro país em que foram apresentados pedidos de adesão à Internacional. Em fevereiro de 1865, a ela se filiaram 4 mil membros da Sociedade Sindical dos Pedreiros (Operative Society of Bricklayers). Pouco depois, seguiram-se grupos de trabalhadores da construção civil e sapateiros. No curso de seu primeiro ano de vida, o Conselho Geral realizou uma intensa atividade de divulgação dos princípios da Associação. Isso ajudou a ampliar seu horizonte para além de questões puramente econômicas, como demonstra a presença da Internacional entre as organizações que participaram da Reform League, o movimento pela reforma eleitoral surgido em fevereiro de 1865.
Na França, a Internacional começou a tomar forma em janeiro de 1865, data em que foi fundada, em Paris, sua primeira seção. Outros centros principais surgiram um pouco mais tarde, em Lyon e Caen. Sua força foi, porém, muito limitada. Na capital francesa, sua base não conseguiu se expandir e, durante esse período inicial, muitas outras organizações operárias tiveram uma consistência numérica superior. A influência ideológica exercida pela Associação foi débil, e as relações de força, limitadas; juntamente com a escassa determinação política, impediram a fundação de uma federação nacional. Apesar desses limites, os franceses, em grande parte seguidores das teorias mutualistas de Proudhon, consolidaram-se como o segundo grupo mais consistente da Internacional durante a primeira conferência da organização, realizada entre 25 e 29 de setembro daquele ano em Londres. Esta contou com a presença de trinta delegados provenientes da Inglaterra, da França, da Suíça e da Bélgica, além de alguns outros representantes da Alemanha, da Polônia e da Itália. Cada um deles apresentou informes, sobretudo de caráter organizacional, sobre os primeiros movimentos da Internacional em seus países. Para essa sede foi convocado, para o ano seguinte, o primeiro Congresso Geral.
No período entre essas duas reuniões, a Internacional continuou a expandir-se na Europa. Ela começou a construir seus primeiros núcleos importantes na Bélgica e na Suíça francesa. As chamadas leis prussianas de associação (Kombinationsgesetze), que impediam os grupos políticos alemães de estabelecer relações estruturais com organizações de outros países, não permitiram que fossem abertas seções da Internacional naquela que, à época, era a Confederação Alemã. A Associação Geral dos Trabalhadores Alemães (Allgemeine Deutsche Arbeiterverein) – primeiro partido operário da história, fundado em 1863, com cerca de 5 mil membros, e liderado pelo discípulo de Lassalle, Johann Baptist von Schweitzer (1833-1875) – seguiu uma linha de ambíguo diálogo com Otto von Bismarck (1815-1898) e se desinteressou da Internacional nos primeiros anos de sua existência. Essa mesma postura foi compartilhada por Wilhelm Liebknecht (1826-1900), apesar de sua grande proximidade política com Marx. Johann Philipp Becker (1809-1886), um dos principais líderes da Internacional na Suíça, tentou contornar essas dificuldades por meio do Grupo de Seções de Língua Alemã, baseado em Genebra e, por um bom tempo, foi o único organizador dos primeiros núcleos internacionalistas na Confederação Alemã.
A obtenção desses resultados foi altamente favorecida pela difusão de jornais que ou simpatizavam com as ideias da Internacional ou eram verdadeiros órgãos do Conselho Geral. Ambas as categorias contribuíram para o desenvolvimento da consciência de classe e para a rápida circulação de notícias relativas às atividades da Internacional. Dentre os periódicos surgidos nos primeiros anos de sua existência, menção especial deve ser feita ao biebdomadário The Bee-Hive e ao The Miner and Workman’s Advocate (que mais tarde se chamaria The Workman’s Advocate e, por fim, The Commonwealth), ambos publicados em Londres; ao hebdomadário de língua francesa Le Courrier International, também publicado em Londres; ao La Tribune du Peuple, órgão oficial da Internacional na Bélgica a partir de agosto de 1865; ao Journal de l’Association Internationale des Travailleurs, órgão da seção na Suíça francesa; ao Le Courrier Français, um hebdomadário proudhoniano publicado em Paris; e ao Der Vorbote, em Genebra, dirigido pelo alemão Becker27.
A atividade do Conselho Geral em Londres foi decisiva para o reforço da Internacional. Na primavera de 1866, com seu apoio aos grevistas dos Alfaiates Unificados de Londres (London Amalgamated Tailors), a organização contribuiu, pela primeira vez ativamente, para uma luta operária. Em seguida à vitória desses trabalhadores, cinco pequenas sociedades de alfaiates, com cerca de quinhentos trabalhadores cada, decidiram filiar-se à Internacional. O resultado positivo de outras disputas atraiu diversos sindicatos menores, tanto que, quando de seu primeiro congresso, as organizações sindicais filiadas eram já dezessete, para um total de mais de 25 mil membros. A Internacional foi a primeira associação a ser bem-sucedida na difícil tarefa de alistar organizações sindicais em suas fileiras28.
Entre 3 e 8 de setembro de 1866, a cidade de Genebra sediou o primeiro congresso da Internacional. Fizeram-se presentes sessenta delegados, provenientes da Inglaterra, da França, da Alemanha e da Suíça. Naquele momento, a Associação pôde fazer um balanço muito favorável, tendo acolhido sob sua bandeira, apenas dois anos depois de sua fundação, mais de uma centena de sindicatos e organizações políticas. Os participantes do congresso se dividiram substancialmente em dois blocos. O primeiro, composto pelos delegados ingleses, pelos poucos alemães presentes e pela maioria dos suíços, seguiu as diretivas do Comitê Central redigidas por Marx, ausente em Genebra. O segundo, do qual faziam parte franceses e uma parte dos suíços de língua francesa, era constituído de mutualistas. Àquela época, a Internacional era uma organização em que prevaleciam as posições moderadas. Os mutualistas, liderados pelo parisiense Henri-Louis Tolain (1828-1897), prefiguravam uma sociedade em que o trabalhador seria, ao mesmo tempo, produtor, capitalista e consumidor. Eles viam na concessão de crédito gratuito uma medida determinante para transformar a sociedade; opunham-se ao trabalho feminino, condenado do ponto de vista moral e social, e rejeitavam qualquer interferência do Estado em matéria de relações de trabalho (inclusive a redução legal da jornada de trabalho para oito horas), porquanto estavam convencidos de que isso ameaçaria as relações privadas entre os trabalhadores e os patrões e reforçaria o sistema vigente.
Baseando-se nas resoluções preparadas por Marx, os dirigentes do Comitê Central presentes no congresso conseguiram suplantar o grupo dos mutualistas, numericamente fortes, e obtiveram resultados favoráveis à intervenção do Estado. Sobre esta última questão, na seção das “Instructions for Delegates of the Provisional General Council. The different questions”, Marx havia declarado que:
Isso só pode ser realizado convertendo-se a razão social em força social, o que, sob dadas circunstâncias, realiza-se unicamente quando forçado pelo poder estatal. Ao impor essas leis, a classe trabalhadora não fortalece o poder governamental. Ao contrário, ela transforma esse poder, que hoje é usado contra ela, em seu próprio benefício. Ela realiza por um ato geral aquilo que uma multidão de indivíduos isolados não conseguiriam realizar.29
Essas reivindicações reformistas, portanto, longe de tornarem mais forte a sociedade burguesa, como acreditavam erroneamente Proudhon e seus seguidores, representavam um ponto de partida indispensável para a emancipação da classe trabalhadora. Nas instruções preparadas por Marx para o Congresso de Genebra, por fim, é reconhecida a função fundamental do sindicato, contra a qual se haviam manifestado não só os mutualistas, mas também alguns seguidores de Robert Owen (1771-1858), na Inglaterra, e, fora da Internacional, os lassallianos alemães30:
Essa atividade dos sindicatos é não só legítima, mas também necessária. Ela não pode ser dispensada enquanto durar o atual sistema de produção. Pelo contrário, tem de ser generalizada pela formação e a articulação de sindicatos em todos os países. Por outro lado, sem que eles mesmos percebessem, os sindicatos formaram centros de organização da classe trabalhadora, tal como as municipalidades e comunas medievais o fizeram para a classe média. Se os sindicatos são necessários para as guerras de guerrilha entre o capital e o trabalho, eles são ainda mais importantes como agências organizadas para a superação do próprio sistema do trabalho assalariado e do domínio do capital.
No mesmo documento, Marx não poupou de sua crítica os sindicatos existentes. Pois,
concentrados com demasiada exclusividade nas lutas locais e imediatas contra o capital, os sindicatos ainda não entenderam plenamente seu poder de ação contra o próprio sistema de escravidão assalariada. Por essa razão, mantiveram-se demasiadamente distantes dos movimentos sociais e políticos gerais.31
A mesma coisa ele afirmara numa mensagem ao Conselho Geral em 20 e 27 de julho, que seria postumamente publicada como artigo, sob o título “Value, Price and Profit”*:
as classes trabalhadoras não devem exagerar para si mesmas o resultado final dessas lutas diárias. Não devem esquecer de que estão lutando contra os efeitos, mas não contra as causas desses efeitos; que estão retardando o movimento descendente, mas não alterando sua direção; que estão aplicando paliativos, não curando a doença. Não devem, portanto, deixar-se absorver exclusivamente por essas inevitáveis lutas de guerrilhas, provocadas continuamente pelos abusos incessantes do capital ou pelas flutuações do mercado. Elas devem entender que o sistema atual, mesmo com todas as misérias que lhes impõe, engendra simultaneamente as condições materiais e as formas sociais necessárias para uma reconstrução econômica da sociedade. Em vez do lema conservador: “Um salário justo por uma jornada de trabalho justa!”, devem inscrever em sua bandeira a divisa revolucionária: “Abolição do sistema de trabalho assalariado!”.32
V. Greves e expansão
A partir do fim de 1866, as greves se intensificaram em muitos países europeus. Organizadas por grandes massas de trabalhadores, elas contribuíram para a tomada de consciência das condições em que essas massas eram forçadas a viver e foram o coração pulsante de um novo e importante período de lutas.
Apesar da tese defendida por alguns governos da época, que atribuía a responsabilidade das greves à propaganda da Internacional, a maior parte dos operários que delas participavam nem sequer sabia de sua existência. Os protestos foram motivados pelas dramáticas condições de trabalho e de vida a que estavam submetidos. Essas mobilizações representaram o primeiro momento de confluência e de coordenação com a Internacional, que os apoiou com proclamações e apelos de solidariedade, organizou a coleta de dinheiro em favor dos grevistas e promoveu encontros para bloquear as tentativas dos patrões de enfraquecer a resistência dos trabalhadores.
Foi justamente graças ao papel concreto desempenhado nessa fase pela Internacional que os trabalhadores começaram a reconhecê-la como lugar de defesa de seus interesses comuns e a solicitar sua filiação33. A primeira grande luta vencida com seu apoio foi aquela dos bronzistas de Paris, cuja greve durou de fevereiro a março de 1867. Resultado vitorioso também obtiveram as greves dos trabalhadores de ferro de Marchienne, em fevereiro de 1867; dos operários da bacia mineral de Provence, de abril de 1867 a fevereiro de 1868; dos mineiros de carvão de Charleroi e dos pedreiros de Genebra, ambas na primavera de 1868. Em cada um desses acontecimentos, o cenário foi idêntico: uma coleta de dinheiro em apoio aos grevistas da parte dos trabalhadores de outros países, que também se comprometiam a não aceitar qualquer trabalho como substitutos dos grevistas, sob pena de se degradarem à condição de mercenários. Foram esses os fatores que forçaram os patrões a buscar um compromisso e a aceitar muitas das reivindicações dos operários. Logo após o sucesso dessas lutas, centenas de novos trabalhadores aderiram à Internacional nas cidades onde haviam ocorrido as greves. Como afirmou o membro do Conselho Geral Eugène Dupont (1831-1881): “não é a Associação Internacional dos Trabalhadores que conduz [os operários] à greve, mas [é] a greve que conduz os operários aos braços da Associação Internacional dos Trabalhadores”34.
Assim, apesar das dificuldades derivadas da heterogeneidade dos países, línguas e culturas políticas, a Internacional conseguiu reunir e coordenar muitas organizações e lutas nascidas espontaneamente. Seu maior mérito foi o de ter sabido indicar a absoluta necessidade da solidariedade de classe e da cooperação internacional, superando irreversivelmente o caráter parcial dos objetivos e das estratégias do movimento operário.
A partir de 1867, reforçada pelo sucesso na obtenção desses resultados, pelo aumento no número de militantes e por uma eficiente estrutura organizacional, a Internacional avançou em todo o continente. Esse ano foi marcado por seu notável progresso, sobretudo na França. A greve dos bronzistas parisienses teve um efeito avassalador, semelhante àquele obtido na Inglaterra pelos alfaiates de Londres. Em Paris, o número de associados chegou a mil e em Lyon e Viena, superou os quinhentos. Além disso, foram inauguradas sete novas seções, uma das quais na outra margem do Mediterrâneo, na Argélia, mas que contava apenas com operários franceses. As adesões se multiplicaram também na Bélgica, em resultado das greves, e na Suíça, onde ligas operárias, cooperativas e sociedades políticas aderiram com entusiasmo à Internacional. Neste último país, a organização possuía 25 seções apenas na cidade de Genebra, inclusive uma de língua alemã, que também servia de base para a propaganda dos operários da Confederação Alemã.
Mas a Inglaterra continuou a ser o país onde a Internacional conquistara maior presença. No decurso de 1867, a filiação de outra dezena de organizações elevou o número de seus membros para 50 mil – cifra impressionante, considerando-se que foi alcançada em apenas dois anos e que, à época, o total de trabalhadores ingleses sindicalizados era cerca de 800 mil35. Essa cifra corresponde ao mais elevado número de inscritos já atingido pela Internacional – em termos absolutos, ainda que não em proporção à totalidade da população – num único país. Todavia, se na Inglaterra o período de 1864-1867 caracterizara-se pela obtenção de grandes progressos, os anos sucessivos foram marcados por certa estagnação. A essa inversão de tendência contribuíram diversos fatores. Antes de mais nada, como dissemos, a Internacional não conseguiu atrair dois segmentos fundamentais do mundo do trabalho: os operários da indústria e os trabalhadores não especializados. Entre estes últimos, a única exceção foi representada pelos Escavadores Unidos (United Excavators), que aderiram à organização logo após a greve de agosto de 1866. Exígua foi também a presença da Internacional entre os operários das grandes fábricas do norte e das midlands da Inglaterra (com raras exceções, como a dos Trabalhadores da Fundição [Malleable Ironworkers]). Sua voz não conseguiu atingir os trabalhadores do carvão, nem os do algodão, tampouco os operários da indústria mecânica, que, graças a suas competências técnicas, jamais se sentiram ameaçados pela concorrência estrangeira. Aqueles que aderiram em maior medida à Internacional foram os trabalhadores da construção. A Sociedade Unificada dos Carpinteiros e dos Marceneiros (Amalgamated Society of Carpenters and Joiners), representada no Conselho Geral por seu secretário, Robert Applegarth (1834-1924), equivalia, com seus 9 mil membros, a quase um quinto dos filiados. A seguir vinham os alfaiates, sapateiros, marceneiros, encadernadores, tecelões, seleiros e charuteiros – ou seja, todas aquelas profissões que se mantiveram inalteradas pela Revolução Industrial. Em janeiro de 1867, o Conselho Sindical de Londres (London Trades Council), organização que unia todos os sindicados londrinos, decidiu cooperar com a Internacional, mas votou contra a adesão à organização. Esse episódio fez com que o Conselho Geral tomasse consciência da impossibilidade de expandir-se para além de sua esfera de influência.
A essa fase de freagem no avanço da Internacional na Inglaterra contribuiu, em grau ainda maior, o processo de institucionalização do movimento operário. O Reform Act, que resultou da batalha travada pela Reform League, estendeu o direito de voto a mais de 1 milhão de trabalhadores ingleses. A sucessiva legalização das organizações sindicais, que pôs fim ao risco de perseguições e repressões, permitiu que o Quarto Estado se tornasse presença real na sociedade. Desse momento em diante, portanto, os pragmáticos governantes do país privilegiaram o caminho das reformas do sistema burguês. Os trabalhadores ingleses, diferentemente dos franceses, começaram a se sentir parte integrante da sociedade e colocaram as esperanças de um futuro melhor não mais no conflito social, mas na mudança pacífica36. Nos outros países europeus, a situação foi completamente distinta. Na Confederação Alemã, a contratação coletiva era quase inexistente. Na Bélgica, as greves eram reprimidas pelo governo, quase como se fossem atos de guerra, enquanto na Suíça ainda eram uma anomalia mal tolerada pela ordem constituída. Na França, enfim, a greve foi declarada legal em 1864, mas as primeiras organizações sindicais ainda operavam sob severas restrições.
Foi esse o cenário que precedeu ao congresso de 1867, no qual a Internacional se reuniu com nova força, resultante de uma expansão difusa e constante. Uma prova disso está no interesse demonstrado por diversos periódicos burgueses, entre eles o The Times, que enviaram seus correspondentes para acompanhar os trabalhos. Novamente uma cidade suíça, dessa vez Lausanne, de 2 a 8 de setembro, serviu de sede ao evento, recebendo os 64 delegados37 provenientes de seis países (que agora incluíam um representante da Bélgica e um da Itália). Entre eles, houve uma consistente presença dos mutualistas, que impuseram à agenda do congresso temas tipicamente proudhonianos, tais como a discussão sobre o movimento cooperativo e sobre o uso alternativo do crédito. A ausência de Marx nesse congresso38 e no Conselho Geral durante as semanas em que foram redigidos os documentos preparatórios, devida a sua dedicação à revisão das últimas provas de impressão de O capital, repercutiram negativamente nos participantes, cujos trabalhos permaneceram circunscritos aos relatos dos progressos obtidos pela organização nos vários países e aos debates sobre os temas preferidos pelos mutualistas.
Entre as outras questões discutidas, estava aquela relativa à guerra e ao militarismo, solicitada pela concomitante fundação da Liga pela Paz e Liberdade. No curso dos debates, o delegado de Bruxelas, César de Paepe (1841-1890), um dos militantes mais ativos e brilhantes no plano teórico da Internacional, formulou pela primeira vez a ideia – que mais tarde se tornaria a posição clássica do movimento operário – segundo a qual as guerras são inevitáveis num regime de produção capitalista:
Se tivesse de expressar meus sentimentos ao Congresso [da Paz] de Genebra, eu diria: queremos a paz tanto quanto vocês, mas sabemos que enquanto existir o que se chama princípio de nacionalidade ou o patriotismo, haverá a guerra; enquanto houver classes distintas, haverá a guerra. A guerra não é apenas fruto da ambição de um monarca; […] a verdadeira causa da guerra são os interesses de alguns capitalistas; a guerra é o resultado da falta de equilíbrio no mundo econômico e no mundo político.39
Finalmente, houve uma discussão sobre a emancipação das mulheres40, e o congresso votou a favor de um relatório declarando que “os esforços das nações devem visar à propriedade estatal dos meios de transporte e de circulação”41. Essa foi a primeira declaração coletivista aprovada num congresso da Internacional. Todavia, a oposição dos mutualistas à socialização da propriedade obteve a maioria dos votos, e uma discussão mais aprofundada sobre o tema foi adiada até o congresso seguinte.
VI. A derrota dos mutualistas
Na Internacional, desde o tempo de seu nascimento, as ideias de Proudhon haviam sido hegemônicas na França e em outras regiões de língua francesa, como a Suíça romanda, a Valônia e a cidade de Bruxelas. Seus discípulos, particularmente Tolain e Ernest Édouard Fribourg, conseguiram deixar uma marca na reunião de fundação, em 1864, na Conferência de Londres de 1865, e nos congressos de Genebra e Lausanne.
Por quatro anos, os mutualistas eram a ala mais moderada da Internacional. Os sindicatos ingleses, que constituíam a maioria da organização, não compartilhavam do anticapitalismo de Marx, mas também não tinham sobre as políticas da organização a mesma influência negativa exercida pelos seguidores de Proudhon. A partir das concepções do anarquista francês, os mutualistas defendiam que a emancipação econômica dos trabalhadores seria alcançada por meio da fundação de cooperativas de produção, financiadas por um banco popular central. Firmemente contrários à intervenção do Estado em qualquer campo, opunham-se à socialização da terra e dos meios de produção e eram contrários à prática de greves. Em 1868, por exemplo, ainda havia muitas seções da Internacional de tendência mutualista, que atribuíam um caráter negativo e antieconômico a esse método de luta. O “Relatório da seção de Liège sobre as greves” é emblemático a esse respeito: “A greve é uma luta. Portanto, ela aumenta os fermentos de ódios lançados entre o povo e a burguesia e separa cada vez mais duas classes que, em vez disso, deveriam fundir-se e se unir uma com a outra”42. A distância entre esse ponto de vista e as teses do Conselho Geral não poderia ser mais profunda.
Marx desempenhou, sem dúvida alguma, um papel central no curso da longa luta para reduzir a influência de Proudhon no interior da Internacional. A ideias do primeiro foram de fundamental importância para o amadurecimento teórico dos dirigentes da organização, e foi notável sua capacidade política de afirmá-las, vencendo todos os principais confrontos internos. Com respeito à cooperação, por exemplo, ele já havia declarado, em 1866, nas “Instruções para os delegados do Conselho Central provisório”:
Para converter a produção social num sistema amplo e harmonioso de trabalho livre e cooperativo são necessárias mudanças sociais gerais, mudanças das condições gerais da sociedade, que jamais podem ser realizadas a não ser pela transferência das forças organizadas da sociedade, isto é, do poder estatal, dos capitalistas e proprietários fundiários aos próprios produtores.
Recomendando aos trabalhadores, além disso, “que se empenhem na produção cooperativa, em vez de em lojas cooperativas. Estas últimas atingem apenas a superfície do atual sistema econômico, ao passo que a primeira ataca seus alicerces”43. Em grau ainda maior que Marx, porém, os que permaneceram distante da doutrina proudhoniana na Internacional foram os próprios operários. A proliferação das greves convenceu especialmente os mutualistas de quão equivocadas eram suas concepções, e as lutas proletárias lhes indicaram que a greve era a resposta imediata e necessária não só para melhorar as condições existentes, mas também para reforçar a consciência de classe indispensável para construir a sociedade do futuro. Foram mulheres e homens de carne e osso que interromperam a produção capitalista para reivindicar seus direitos e justiça social, alterando assim o equilíbrio de forças na Internacional e, mais importante ainda, na sociedade como um todo. Foram os bronzistas de Paris, os tecelões de Rouen e de Lyon, os mineiros de carvão de Saint-Étienne, quem, com uma força superior a qualquer discussão teórica, convenceram os líderes franceses da Internacional da necessidade de socializar o solo e a indústria. Coube, em suma, ao movimento operário demonstrar, desmentindo Proudhon, que era impossível separar a questão econômico-social da questão política44.
O Congresso de Bruxelas, realizado entre 6 e 13 de setembro de 1868, na presença de 99 delegados provenientes da França, da Inglaterra, da Suíça, da Alemanha, da Espanha (um único delegado) e da Bélgica (com 55 representantes)45, consolidou o redimensionamento dos mutualistas. Em seu apogeu, houve o pronunciamento dos delegados favoráveis à proposta, apresentada por César de Paepe, de socialização dos meios de produção. A resolução votada – entre aquelas que tiveram o maior relevo em toda a vida da Internacional – representou um decisivo passo adiante no percurso das definições das bases econômicas do socialismo, questão que agora era tratada não mais somente nos escritos dos intelectuais singulares, mas no programa de uma organização transnacional. No que tangia às mineiras e aos transportes, o congresso declarou:
(a) Que, numa situação normal de sociedade, as pedreiras, as minas de carvão e outras minas, assim como as ferrovias, devem pertencer à comunidade representada pelo Estado, um Estado submetido ele mesmo às leis da justiça.
(b) Que as pedreiras, minas de carvão e outras minas, além das ferrovias, sejam concedidas pelo Estado, não a companhias de capitalistas, como ocorre no presente, mas a companhias de trabalhadores vinculados por contrato, a fim de garantir à sociedade a operação racional e científica das ferrovias etc. a um preço o mais próximo possível da despesa do trabalhador. O mesmo contrato deve reservar ao Estado o direito de verificar a contabilidade das companhias, de modo a prevenir a possibilidade de qualquer reconstituição de monopólios. Um segundo contrato deve garantir o direito mútuo de cada membro das companhias em relação a seus colegas trabalhadores.
Em relação à propriedade fundiária, foi resolvido que:
o desenvolvimento econômico da sociedade moderna criará a necessidade social de converter a terra arável em propriedade comum da sociedade, fazendo com que o Estado conceda o solo a companhias agrícolas sob condições análogas àquelas expostas em relação a minas e ferrovias.
E considerações similares foram aplicadas aos canais, estradas e telégrafos:
Considerando que as estradas e outros meios de comunicação requerem uma direção social comum, o congresso acredita que devem permanecer como propriedade comum da sociedade.
Finalmente, considerações interessantes foram feitas com relação ao meio ambiente:
Considerando que o abandono das florestas a indivíduos privados causa a destruição das matas necessárias à conservação das fontes e, evidentemente, das boas qualidades do solo, assim como da saúde e da vida da população, o congresso acredita que as florestas devem permanecer como propriedade da sociedade.46
Em Bruxelas, portanto, a Internacional fez seu primeiro pronunciamento explícito sobre a necessidade da socialização dos meios de produção mediante a utilização do poder público47. Foi uma importante vitória do Conselho Geral, e a primeira manifestação dos princípios socialistas no programa político de uma vasta organização do movimento operário.
Além disso, foi novamente discutida a questão da guerra. Uma moção apresentada por Becker – e mais tarde retomada por Marx na elaboração para publicação das resoluções do congresso – dizia:
os trabalhadores são os únicos que têm um interesse evidente e lógico na abolição definitiva de qualquer guerra, tanto econômica como política, tanto individual como nacional, porque são eles, no fim das contas, que devem sempre pagar com seu sangue e seu trabalho o acerto de contas entre os beligerantes, não importando se estão no lado dos vencedores ou no dos vencidos.48
Os operários, portanto, deveriam considerar toda guerra “como uma guerra civil”49. Contra esta última, César de Paepe sugeriu também a utilização da greve geral50, uma proposta que Marx desprezou como “tolice”51, mas que, ao contrário, tendia ao desenvolvimento de uma consciência de classe capaz de ir além das batalhas meramente econômicas.
Se o Congresso de Bruxelas marcou o momento a partir do qual teve início a viagem coletivista da Internacional, o do ano seguinte, realizado entre 5 e 12 de setembro, na Basileia, consumou esse processo, erradicando o proudhonismo até mesmo de sua terra natal, a França. Dele participaram 78 delegados, provenientes não só da França, da Suíça, da Alemanha, da Inglaterra e da Bélgica, mas, numa demonstração da expansão da organização, também da Espanha, da Itália e da Áustria, além de um representante do Sindicato Nacional do Trabalho dos Estados Unidos. A presença deste último e a de Wilhelm Liebknecht, representante da segunda força política organizada da classe operária, o Partido Socialdemocrata dos Trabalhadores da Alemanha, fundado havia poucas semanas em Eisenach, contribuiu para tornar o congresso mais solene e carregá-lo de esperanças. Os explorados viram estender-se concretamente os confins de sua associação, condição essencial para desafiarem o domínio do capital, e as transcrições dos debates, assim como as reconstruções daquelas jornadas, transmitem o entusiasmo dos trabalhadores reunidos em Lausanne.
As resoluções sobre a propriedade fundiária, aprovadas em Bruxelas no ano anterior, foram confirmadas numa nova votação, aprovada por 54 delegados, com apenas 4 contrários e 13 abstenções. O novo texto, no qual é declarado “que a sociedade tem o direito de abolir a propriedade individual do solo e de dá-lo à comunidade”52, foi acolhido também pelos delegados franceses. Onze deles votaram a favor – entre eles, Eugène Varlin (1839-1871), que, em seguida, seria uma figura de primeiro plano da Comuna de Paris –, dez se abstiveram e quatro, entre os quais Tolain, votaram contra. Depois de Basileia, a Internacional na França deixou de ser mutualista.
O Congresso da Basileia também foi interessante por outro motivo: a participação do delegado Mikhail Bakunin. Não tendo conseguido conquistar a direção da Liga da Paz, em setembro de 1868 ele havia fundado, em Genebra, a Aliança da Democracia Socialista, uma organização que, em dezembro, apresentou um pedido de adesão à Internacional – inicialmente rejeitado pelo Conselho Geral. A Internacional não podia aceitar, em seu interior, organizações que continuassem afiliadas a uma estrutura transnacional paralela; além disso, um dos objetivos do programa da Aliança da Democracia Socialista – “a igualdade das classes53” – era radicalmente distinto de um dos pilares centrais da Internacional: a abolição das classes. Pouco depois, no entanto, a Aliança da Democracia Socialista modificou a parte de seu programa criticada pelo Conselho Geral e aceitou reduzir a rede de suas seções – muitas das quais, na realidade, existiam apenas na imaginação de Bakunin54. Assim, em 28 de julho de 1869, a seção de Genebra, composta por 104 membros, foi admitida na Internacional55. O célebre revolucionário russo conquistou rapidamente notável influência em várias seções suíças, espanholas e francesas (e, depois da Comuna de Paris, italianas), e já na Basileia, graças a sua personalidade carismática e a seus dons da oratória, conseguiu influir sobre o êxito do congresso, como demonstra o voto sobre o direito de herança56, primeiro caso em que os delegados rejeitaram uma proposta do Conselho Geral.
Depois de ter finalmente derrotado os mutualistas e o espectro de Proudhon, Marx se viu, a partir daquele momento, na necessidade de enfrentar um rival ainda mais hostil, um desafiante que formou uma nova tendência no interior da organização e que visava a conquistá-la: o anarquismo coletivista.
VII. O desenvolvimento em toda a Europa e a oposição à Guerra Franco-Prussiana
O período entre o fim dos anos 1860 e o início dos anos 1870 foi rico em conflitos sociais. Nesse ínterim, muitos dos trabalhadores que tomaram parte nos protestos resolveram dirigir-se à Internacional, cuja fama difundia-se cada vez mais, solicitando a ela a intervenção em favor de sua luta. Apesar de seus recursos limitados, o Conselho Geral jamais deixou de responder às instâncias que o procuraram, manifestando-se por meio da redação de apelos de solidariedade endereçados a todas as suas seções europeias e organizando coletas de fundos. Em março de 1869, por exemplo, ele interveio em resposta aos oitocentos tecelões e tingidores da Basileia que haviam recorrido à Internacional solicitando apoio a sua greve. O Conselho Geral não pôde enviar-lhes mais do que £ 4, porém, graças a uma circular, conseguiu recolher mais £ 300 entre diversos grupos de operários em muitos países. Ainda mais significativo foi o papel desempenhado pela Internacional na luta dos operários da indústria mecânica de Newcastle pela redução da jornada de trabalho para nove horas. Nessa circunstância, de fato, foi determinante a mediação política de dois de seus emissários, James Cohen e Eccarius, que conseguiram debelar a tentativa dos patrões de substituir os grevistas ingleses por trabalhadores de outros países europeus. O sucesso dessa luta, que se tornou um caso de dimensões nacionais, representou uma advertência para os capitalistas ingleses, que, a partir de então, desistiram de recrutar trabalhadores do outro lado do Canal da Mancha57.
Em 1869, a Internacional obteve significativa expansão em toda a Europa. A Inglaterra foi, no entanto, uma exceção. O congresso dos sindicatos ingleses, reunidos em Birmingham em agosto, enviou uma recomendação a todas as suas organizações afiliadas para que aderissem à Internacional. Porém, o apelo não foi atendido, e o número de adesões permaneceu mais ou menos igual àquele atingido em 1867. Também os dirigentes sindicais ingleses, moderados e poucos propensos a questões teóricas58, mostraram um interesse limitado nos confrontos da organização. Sem hesitar, apoiaram Marx na luta contra os mutualistas, mas faltava-lhes espírito revolucionário. Por essa razão, Marx se opôs por longo tempo ao nascimento de uma federação inglesa independente do Conselho Geral.
Em todos os países europeus em que a Internacional obteve alguma força, seus militantes deram vida a organizações independentes daquelas já existentes. De acordo com sua grandeza, estas assumiram a forma de seções locais e/ou de federações nacionais. Na Inglaterra, ao contrário, a Internacional teve uma configuração distinta. Antes de mais nada, era constituída de sindicatos, que, naturalmente, jamais desmantelaram suas estruturas. Além disso, o Conselho Geral, com sede em Londres, desempenhava a dupla função de quartel-general mundial e de centro de liderança para a Inglaterra. De qualquer modo, as filiações sindicais na Inglaterra mantiveram cerca de 50 mil trabalhadores em sua órbita de influência, de modo que, no fim da década de 1860, a Internacional encontrava-se reforçada em toda a Europa.
Devido à dura repressão imperial, o ano de 1868 na França ficou caracterizado por uma fortíssima crise da Internacional, que, com a única exceção de Rouen, vira desaparecer todas as suas seções. O ano seguinte tornou-se, ao contrário, o de seu renascimento. Após o Congresso de Basileia, Tolain deixou de representar a figura de ponta da organização, e surgiram novos dirigentes, entre eles, por exemplo, Varlin, que abandonara suas anteriores convicções mutualistas. O ano de 1870 foi o momento de expansão máxima da Internacional. As estimativas do número de filiados divergem muito daquelas difundidas de modo fantasioso por alguns estudiosos e depois consolidadas no senso comum. Ademais, não se pode esquecer que a organização jamais conseguiu se estabelecer em 38 dos 90 departamentos à época existentes na França. Todavia, os inscritos aumentaram nitidamente em relação ao passado. É possível conjeturar que em Paris seu número fosse de cerca de 10 mil membros, muitos dos quais aderiram à Internacional por meio de sociedades cooperativas, câmaras sindicais e sociedades de resistência. Na cidade de Lyon, onde em setembro de 1870, após uma sublevação, uma comuna havia sido proclamada e violentamente reprimida, as estimativas mais rigorosas seriam de 3 mil trabalhadores, o mesmo número de Roen, ao passo que em Marselha eram mais de 4 mil. No entanto, estima-se que o total de filiados em todo o território nacional estava entre 3 e 4 mil trabalhadores59.
Portanto, embora uma rigorosa pesquisa historiográfica ateste que, na França, a Internacional ainda não havia se tornado uma verdadeira organização de massa, ela havia certamente se expandido e despertava um interesse difuso, como mostra o pedido de adesão encaminhado ao Conselho Geral também por parte de grupos como os Proletários Positivistas de Paris60. A partir de 1870, mesmo alguns discípulos de Blanqui superaram suas antigas precauções diante de uma organização inspirada pela moderação proudhoniana e, testemunhando sua popularidade crescente entre os operários, começaram a aderir a ela. Decerto, essa Internacional era muito diferente daquela fundada em 1865 por Tolain e Fribourg61, cujas seções eram quase meramente um tipo de “grupo de estudos”62. Em 1870, muita água havia passado por debaixo da ponte, e as linhas diretoras da organização na França eram a promoção do conflito social e a atividade política.
Na Bélgica, o período que se seguiu ao congresso de 1868, realizado em sua capital, distinguiu-se pela ascensão do sindicalismo, o êxito vitorioso das greves e a adesão à Internacional de inúmeras sociedades operárias. O número de inscritos atingiu seu máximo no começo dos anos 1870, quando chegou a algumas dezenas de milhares, superando provavelmente também o número total obtido na França. Na Bélgica, a Internacional atingiu seu apogeu, tanto pela proporção entre população e número de filiados como pelo peso que a organização exerceu na sociedade.
Nesse período, o progresso da Internacional manifestou-se também na Suíça. Em 1870, o número total de seus militantes chegou a 6 mil (com uma população total de cerca de 700 mil trabalhadores). Na cidade de Genebra, existiam 34 seções, para um total de 2 mil filiados; enquanto na região do Jura eles eram cerca de oitocentos. Porém, não tardou até que as teorias de Bakunin dividissem a organização em dois grupos de igual grandeza. Ambos se confrontaram no Congresso da Federação Romanda, realizado em abril de 1870, propriamente para deliberar sobre a decisão de acolher no interior da federação a Aliança da Democracia Socialista63. A impossibilidade de conciliar a disputa entre os dois partidos determinou a realização de dois congressos paralelos, e somente após a intervenção do Conselho Geral conseguiu-se uma trégua. O grupo que se alinhava às posições de Londres, levemente minoritário no congresso, conservou o nome de Federação Romanda, enquanto aquele ligado a Bakunin assumiu o nome de Federação do Jura, embora seu pertencimento à organização tenha sido novamente reconhecido.
No primeiro grupo distinguiram-se Nikolai Utin (1845-1883), fundador da primeira seção russa da Internacional64, na cidade de Genebra, e, uma vez mais, Becker, que, apesar de sua colaboração com Bakunin de meados de 1868 a fevereiro de 1870, conseguiu evitar – depois de mudar de opinião sobre o anarquista russo – que na Suíça a organização caísse inteiramente em suas mãos. A consolidação da Federação do Jura representou, de qualquer modo, uma etapa importante na construção de uma corrente anárquico-federalista no interior da Internacional. Sua figura de destaque foi o jovem James Guillaume (1844-1916), que desempenhou um papel fundamental no confronto com Londres.
Nessa fase, as ideias de Bakunin começaram a difundir-se em muitas cidades, sobretudo do sul da Europa. O país em que obtiveram o consenso mais rapidamente foi a Espanha. Na Península Ibérica, com efeito, a Internacional nasceu graças à iniciativa do anarquista napolitano Giuseppe Fanelli (1827-1877), que, entre outubro de 1868 e a primavera de 1869, a convite de Bakunin, viajou a Barcelona e a Madri para fundar seções da Internacional e grupos da Aliança da Democracia Socialista, na qual o italiano militava. A viagem obteve resultados positivos, mas gerou também uma enorme confusão. Fanelli, de fato, difundiu tanto os documentos da Internacional quanto os princípios da Aliança da Democracia Socialista (e, ainda por cima, às mesmas pessoas), o que fez com que – caso exemplar da babel bakuniniana e do ecletismo teórico da época – os operários espanhóis fundassem a Internacional com os princípios da Aliança da Democracia Socialista. Apesar disso, sua propaganda mostrou-se útil, uma vez que favoreceu a formação de dirigentes importantes – entre os quais Anselmo Lorenzo (1841-1914) –, que haviam se aproximado dos textos de Proudhon, traduzidos em espanhol por aquele que se tornaria o futuro presidente da Espanha, Francisco Pi y Margall (1824-1901). Além disso, ainda que contaminadas e confusas, as ideias da Internacional encontraram um movimento operário recém-nascido e disposto a organizar-se e a lutar. Já no tempo do Congresso de Basileia, de fato, o delegado Rafael Farga Pellicer (1840-1890) pôde referir-se à existência de muitas dezenas de seções.
Na Confederação Alemã do Norte, as coisas tomaram um rumo totalmente diverso. Apesar de o movimento operário daquele país já contar com duas organizações políticas – a Associação Geral dos Trabalhadores Alemães, de tendência lassalliana, e o Partido Socialdemocrata dos Trabalhadores da Alemanha, de orientação marxista –, seu entusiasmo pela Internacional foi mínimo, assim como foram escassos os pedidos de adesão. Pelo temor de possíveis perseguições da parte do governo, durante os três primeiros anos de vida da Internacional os militantes alemães quase ignoraram a existência da organização. A partir de 1868, paralelamente à fama e aos sucessos que a Internacional começou a obter em outros países europeus, esse cenário se alterou, e os dois partidos alemães, em concorrência recíproca, ambicionaram representar a ala nacional. Na luta contra os lassallianos – cujo líder, Johann Baptist von Schweitzer, jamais pretendeu que sua Associação Geral aderisse à Internacional –, Liebknecht tentou usar a proximidade de sua organização com as posições de Marx, mas a adesão do Partido Socialdemocrata dos Trabalhadores da Alemanha à Internacional foi, na verdade, mais formal (ou “puramente platônica”65, como diz Engels) do que real. Dos cerca de 10 mil membros que estavam registrados nesse partido apenas um ano após sua fundação, aqueles que se filiaram à Internacional – procedimento consentido pelas “Leis Prussianas de Associação” – foram apenas algumas centenas66. Mais que quaisquer aspectos legais, pesou muito, portanto, o fraco senso de internacionalismo dos alemães, o qual diminuiu ainda mais na segunda metade da década de 1870, à medida que o movimento tornou-se mais preocupado com questões internas67.
A compensar os decepcionantes resultados alemães, houve duas novidades positivas. Em maio de 1869, algumas seções da Internacional foram fundadas em um novo país, a Holanda, onde a organização começou lentamente a se desenvolver, em Amsterdã e na Frísia. Pouco mais tarde, ela renasceu também na Itália, nação na qual só estivera presente, até então, com alguns núcleos esparsos e sem relação entre si.
Ainda mais significativa, pelo menos pelo caráter simbólico e as esperanças que despertou, foi a expansão da Internacional no outro lado do Atlântico. A partir de 1869, por iniciativa de alguns imigrantes chegados nos Estados Unidos no ano precedente, foram constituídas as primeiras seções. Todavia, a organização foi comprometida, desde seu nascimento, por duas limitações que jamais foram superadas. Apesar das repetidas exortações vindas de Londres, ela não conseguiu aplacar o caráter nacionalista dos vários grupos que a ela aderiram, tampouco atrair os operários nativos. Quando, em dezembro de 1870, as seções alemãs, francesas e tcheca fundaram o Comitê Central da AIT para a América do Norte, todos os seus membros eram nascidos no estrangeiro, um caso sem precedentes na história da organização. A prova mais clamorosa dessa anomalia foi representada pelo fato de que, nos Estados Unidos, a Internacional jamais dispôs de um órgão de imprensa em língua inglesa.
Nesse cenário de dimensão universal, ainda que marcado por evidentes contradições e pela marcha desigual de seu desenvolvimento nos diversos países, a Internacional se preparava para celebrar seu quinto congresso, em setembro de 1870. Embora, a princípio, estivesse previsto para ser sediado em Paris, a repressão exercida pelo governo francês fez com que o Conselho Geral cogitasse transferi-lo para a cidade de Mainz, onde Marx provavelmente vislumbrava a participação de um número maior de delegados alemães, mais próximos de sua posição, para contrastar com maior eficácia ao avanço de Bakunin. Todavia, a Guerra Franco-Prussiana, deflagrada a 19 de julho de 1870, forçou a suspensão do congresso.
O estouro de uma guerra no centro da Europa impôs à Internacional definir uma prioridade absoluta: ajudar o movimento operário a exprimir uma posição independente e distante da retórica nacionalista da época. Na Primeira Mensagem do Conselho Geral sobre a Guerra Franco-Prussiana, Marx convidou os operários franceses a derrubarem Luís Bonaparte (1808-1873) e o império por ele instaurado dezoito anos antes. Ao mesmo tempo, porém, os trabalhadores alemães deveriam impedir que a derrota de Bonaparte se convertesse num ataque ao povo francês:
em contraste com a velha sociedade, com suas misérias econômicas e seu delírio político, uma nova sociedade está desabrochando, uma sociedade cuja regra internacional será a paz, porque em cada nação governará o mesmo princípio – o trabalho! A pioneira dessa nova sociedade é a Associação Internacional dos Trabalhadores.68
Esse texto, impresso em Genebra com tiragem de 30 mil cópias (15 mil para a Alemanha e 15 mil para a França), foi a primeira grande declaração de política exterior da Internacional. Um dos muitos que manifestaram entusiasticamente seu apoio a esse documento foi John Stuart Mill (1806-1873): “não há uma única palavra fora do lugar e não poderia ter sido escrito de modo mais sucinto”69.
Os líderes do Partido Social-Democrata dos Trabalhadores da Alemanha, Wilhelm Liebknecht e August Bebel (1840-1913), foram os dois únicos membros do parlamento na Confederação da Alemanha do Norte que se recusaram a votar a favor do orçamento de guerra70, e também várias seções da Internacional na França difundiram mensagens de amizade e solidariedade aos trabalhadores alemães. Todavia, a derrota francesa marcou o nascimento de uma mais potente era de Estados nacionais e do chauvinismo ideológico que a acompanhou em toda a Europa.
VIII. A Internacional e a Comuna de Paris
Depois da queda de Bonaparte, derrotado em Sedan pelos alemães em 4 de setembro de 1870, foi proclamada na França a Terceira República. Em janeiro do ano seguinte, a tomada de Paris, que sofrera um assédio por mais de quatro meses, forçou os franceses a aceitarem as condições impostas por Bismarck. A isso se seguiu um armistício, que permitiu a realização de eleições e a sucessiva nomeação de Adolphe Thiers (1797-1877) como chefe do poder executivo, sustentada por uma vasta maioria legitimista e orleanista. Na capital, porém, à diferença do restante da França, o descontentamento popular era mais intenso que em outros lugares, e as forças republicano-progressistas venceram por esmagadora maioria. A clara perspectiva de um governo que não realizaria nenhuma reforma social e que pretendia desarmar a cidade animou a sublevação dos parisienses. Esta se concluiu com a derrubada de Thiers e a fundação, em 18 de março, da Comuna de Paris, o mais importante evento político da história do movimento operário do século XIX.
A Bakunin, que havia conclamado os operários a transformar a guerra patriótica em guerra revolucionária71, o Conselho Geral respondeu, num primeiro momento, com o silêncio. Marx foi encarregado de redigir um texto em nome da Internacional, mas retardou sua publicação. As razões dessa espera foram complexas e difíceis. Conhecendo bem as relações reais de força em campo e as fraquezas da Comuna, Marx sabia desde o início que ela estava condenada à derrota. Ele até mesmo tentara advertir a classe operária francesa, já em setembro de 1870. Na Segunda mensagem do Conselho Geral sobre a Guerra Franco-Prussiana, afirmara:
Qualquer tentativa de prejudicar o novo governo na presente crise, quando o inimigo está quase batendo às portas de Paris, seria uma loucura desesperada. Os operários franceses […] não se devem deixar balançar pelas souvenirs [reminiscências] nacionais de 1792 […]. Eles não têm de recapitular o passado, mas sim edificar o futuro. Que eles aperfeiçoem calma e decididamente as oportunidades da liberdade republicana para a obra de sua própria organização de classe. Isso lhes dará novos poderes hercúleos para a regeneração da França e para nossa tarefa comum – a emancipação do trabalho. De seus esforços e sabedoria depende o destino da República.72
Uma declaração plena de fervor sobre a vitória da Comuna poderia gerar falsas expectativas entre os trabalhadores de toda e Europa e, assim, contribuir para sua desmoralização e perda de confiança. Marx decidiu, portanto, retardar a entrega do documento e ausentou-se por várias semanas das reuniões do Conselho Geral. Suas amargas previsões se confirmaram rapidamente, e em 28 de maio, pouco mais de dois meses depois de proclamada, a Comuna de Paris foi reprimida de modo sangrento. Dois dias mais tarde, Marx retornou ao Conselho Geral, trazendo consigo um manuscrito intitulado A guerra civil na França. Lido e aprovado por unanimidade, foi publicado com o nome de todos os componentes (como era hábito nos documentos do Conselho Geral). E poucas semanas, o texto produziu grande impacto, maior que qualquer outro documento do movimento operário no século XIX. Três edições inglesas em rápida sucessão foram aclamadas entre os trabalhadores e causaram escândalo nos ambientes burgueses. Em breve tempo, foi traduzido, integral ou parcialmente, para uma dezena de línguas e apareceu em jornais, revistas e opúsculos de diversos países da Europa e nos Estados Unidos. Até então, jamais um texto de uma organização operária conhecera semelhante difusão.
Apesar da defesa apaixonada e convicta de Marx, está absolutamente excluída a possibilidade de que a Internacional possa ter impulsionado os parisienses à insurreição ou tenha exercido uma influência decisiva sobre a Comuna de Paris, como afirmaram tanto os reacionários da época, ansiosos por condená-la, como os sucessivos marxistas dogmáticos, demasiadamente desejosos de enaltecê-la73. Embora reconhecendo o papel desempenhado pelos dirigentes da Internacional – entre eles, Leo Frankel (1844-1896), delegado para o trabalho, a indústria e o comércio da Comuna de Paris, apesar de sua nacionalidade húngara –, a liderança da Comuna de Paris esteve nas mãos da ala radical-jacobina. Nas eleições municipais de 26 de março, foram eleitos 85 representantes da Comuna74. Destes, 15 moderados (o assim chamado parti de maires, grupo composto de ex-presidentes de algumas circunscrições) e 4 radicais que renunciaram imediatamente e não participaram do Conselho da Comuna. Dos 66 restantes, 11, embora revolucionários, não tinham clara conotação política; 14 provinham do Comitê da Guarda Nacional; 15 eram radicais-republicanos e socialistas; 9, blanquistas; e 17 eram membros da Internacional75. Entre estes, estavam Édouard Vaillant (1840-1915), Benoît Malon (1841-1893), Auguste Serrailler (1840-1872), Jean-Louis Pindy (1840-1917), Albert Theisz (1839-1881), Charles Longuet (1839-1903) e os já mencionados Varlin e Frankel. Todavia, provenientes de diversas experiências e culturas políticas, não constituíram um grupo monolítico e, com frequência, votaram de modo diferente. Também esse fator contribuiu para a hegemonia do grupo radical-jacobino, que, em maio, com a aprovação de dois terços da assembleia (incluindo os blanquistas), constituiu um Comitê de Salvação Pública, de inspiração montanhesa*. Além disso, o próprio Marx declarou que “a maioria da Comuna não foi de modo algum socialista, nem poderia ter sido”76.
A Comuna de Paris foi reprimida com violência brutal pelo exército de Versalhes. Durante a “semana sangrenta” (de 21 a 28 de maio), cerca de 10 mil communards foram mortos em combate ou sumariamente justiçados. Foi o massacre mais violento da história da França. Os prisioneiros capturados superaram 43 mil e, destes, 13.500 foram condenados à prisão, a trabalhos forçados ou à pena de morte, ou foram deportados (em grande parte, para a longínqua colônia de Nova Caledônia). Por fim, cerca de 7 mil presos conseguiram fugir e exilar-se na Inglaterra, na Bélgica ou na Suíça. A imprensa conservadora e liberal europeia completou a obra dos soldados de Thiers. Seus articulistas acusaram os communards dos piores crimes, e a vitória da “civilidade” sobre a insolente causa dos trabalhadores foi saudada com grande contentamento.
A partir desse momento, a Internacional esteve no olho do furacão, e a ela foi atribuída a responsabilidade por todo ato contra a ordem constituída, a tal ponto que Marx perguntou ironicamente por que não lhe atribuíam também a culpa pelas calamidades naturais: “depois do grande incêndio de Chicago, o telégrafo espalhou pelo mundo que se tratava de um ato da Internacional; e é realmente surpreendente que ela não tenha sido culpada também pelo furacão que devastou as Índias Ocidentais”77.
Marx precisou dedicar dias inteiros para responder às falsificações sobre a Internacional e sobre sua pessoa publicadas nos jornais: “neste momento, tenho a honra de ser o homem mais caluniado e mais ameaçado de Londres”78. Enquanto isso, os governos de toda a Europa, preocupados que, depois de Paris, pudessem surgir outras sublevações, intensificaram ainda mais suas medidas repressivas. Thiers pôs rapidamente a Internacional na ilegalidade e solicitou ao primeiro-ministro inglês William Ewart Gladstone (1809-1898) a adoção do mesmo procedimento. Foi a primeira nota diplomática tendo como objeto uma organização dos trabalhadores. Pressões semelhantes foram dirigidas ao governo suíço pelo papa Pio IX (1792-1878), que considerava um erro gravíssimo continuar a “tolerar essa seita da Internacional, que pretende tratar a Europa inteira como tratou Paris. Esses senhores da Internacional devem ser temidos, porquanto trabalham em nome dos eternos inimigos de Deus e da humanidade”79. Às palavras do representante do Vaticano seguiu-se um acordo entre a França e a Espanha para a extradição dos communards refugiados além dos Pireneus, medida que se somou àquelas tomadas contra a Internacional na Bélgica e na Dinamarca. Enquanto Londres permaneceu imóvel, resistindo a violar seus princípios de asilo, representantes da Alemanha e do Império Austro-Húngaro reuniram-se em Berlim, em novembro de 1872, e emitiram uma declaração conjunta sobre a “questão social”:
1) que os objetivos da Internacional estão em absoluto contraste – e em antagonismo – com os princípios da sociedade burguesa; eles devem, portanto, ser vigorosamente repelidos;
2) que a Internacional constitui um perigoso abuso da liberdade de reunião e que, seguindo sua própria prática e princípio, a ação estatal contra ela deve ter um raio de ação internacional e, assim, basear-se na solidariedade de todos os governos;
3) que mesmo que alguns governos não pretendam aprovar alguma lei especial [contra a Internacional], como o fez a França, é preciso precaver-se contra a Associação Internacional dos Trabalhadores e suas atividades danosas.80
Tampouco na Itália a Internacional foi poupada de condenações decisivas. Aquela de maior peso veio de Giuseppe Mazzini, que desaprovou firmemente a organização na qual durante um tempo chegara a depositar esperanças, mas cujos princípios haviam se tornado “a negação de Deus, […] da pátria […] e de toda propriedade individual”81.
A crítica da Comuna também foi feita pelos setores mais moderados do movimento operário. Em seguida à publicação de A guerra civil na França, os dirigentes sindicais reformistas Benjamin Lucraft (1809-1897) e George Odger, também eles intimidados pela campanha de imprensa criada contra os operários parisienses, desligaram-se da Internacional. Todavia, nenhum sindicato desfiliou-se da organização após a declaração de apoio à Comuna, demonstrando uma vez mais que a ausência de expansão da Internacional na Inglaterra deveu-se substancialmente à apatia política de seus trabalhadores82.
Não obstante os dramáticos eventos de Paris e o furor da repressão brutal posta em ação por todos os governos europeus, a força da Internacional aumentou após os acontecimentos da Comuna de Paris. Apesar de frequentemente cercada pelas mentiras escritas contra ela por seus adversários, a expressão “A Internacional” tornou-se, nesse período, conhecida de todos. Para os capitalistas e a classe burguesa, foi sinônimo de ameaça da ordem constituída, mas para os operários significou a esperança num mundo sem exploração e injustiças83. A confiança de que isso fosse realizável aumentou depois da Comuna. A insurreição parisiense deu força ao movimento operário, impulsionando-o a assumir posições mais radicais e a intensificar a militância. Paris mostrou que a revolução era possível, que o objetivo podia e devia ser a construção de uma sociedade radicalmente diferente da capitalista, mas também que, para alcançá-lo, os trabalhadores deviam criar formas de associação política estáveis e bem organizadas84.
Essa enorme vitalidade se manifestou por toda parte. O número dos participantes das reuniões do Conselho Geral foi duplicado, e os jornais ligados à Internacional aumentaram tanto em número como em exemplares vendidos. Entre os periódicos que deram uma importante contribuição à divulgação dos princípios socialistas, os principais foram: L’Egalité, de Genebra, inicialmente bakuniniano, e mais tarde, após a mudança da redação ocorrida em 1870, transformado no principal órgão da Internacional na Suíça francesa; Der Volksstaat, de Leipzig, órgão do Partido Social-Democrata dos Trabalhadores da Alemanha; La emancipation, de Madri, jornal oficial da federação espanhola; Il Gazzettino Rosa, de Milão, que aderiu à Internacional sob a influência dos eventos da Comuna de Paris; o Socialisten, primeira folha operária dinamarquesa; e, provavelmente o mais eficaz de todos, La Réforme Sociale, de Rouen85.
Por fim, e isso foi o mais importante, a Internacional prosseguiu com sua expansão em nível local. Continuou a aumentar na Bélgica e na Espanha, onde já antes da Comuna havia alcançado um nível de participação considerável, e teve sua fundação propriamente dita também na Itália. Muitos ex-mazzinianos, desiludidos com as tomadas de posição daquele que até pouco antes fora seu incontestado líder, decidiram unir-se à organização e se converteram rapidamente em seus principais dirigentes locais. Ainda mais importante foi o apoio recebido de Giuseppe Garibaldi (1807-1882). Embora tendo apenas uma vaga ideia do que fosse realmente aquela associação com sede central em Londres, “o herói dos dois mundos” decidiu apoiá-la com ímpeto, e sua carta de adesão – que contém uma frase tornada célebre: “A Internacional é o sol do futuro”86 – foi estampada em dezenas de folhas operárias, um divisor de águas para convencer muitos indecisos a unir-se às fileiras da organização.
Além disso, a Internacional abriu novas seções em Portugal, onde foi fundada em outubro de 1871, e na Dinamarca, onde a partir desse mesmo mês conseguiu rapidamente unificar grande parte das recém-criadas organizações sindicais de Copenhague e da Jutlândia. Muito significativo foi também o surgimento de seções de trabalhadores irlandeses na Inglaterra, assim como a nomeação do dirigente operário John MacDonnell como secretário correspondente para a Irlanda junto ao Conselho Geral. Por fim, chegaram também inesperados pedidos de adesão de várias partes do mundo, incluindo de alguns operários ingleses de Calcutá, de grupos de trabalhadores de Victoria, na Austrália, de Christchurch, na Nova Zelância, e de alguns artesãos de Buenos Aires.
IX. A Conferência de Londres de 1871
Nesse cenário, que não permitia a convocação de um novo congresso e a quase dois anos de distância do último, o Conselho Geral decidiu promover uma conferência em Londres. Realizou-se de 17 a 23 de setembro com a presença de 22 delegados87 vindos da Inglaterra (pela primeira vez, também a Irlanda se fez representar), da Bélgica, da Suíça e da Espanha, além dos exilados franceses. Apesar dos esforços para torná-la a mais representativa possível, tratou-se, de fato, de uma reunião ampliada do Conselho Geral.
Desde sua convocação, Marx anunciara que “nas presentes circunstâncias a questão da organização era a mais importante”, razão pela qual a conferência se concentraria “exclusivamente em questões organizacionais e políticas”, deixando de lado as discussões teóricas88. Ele expressou essa decisão durante a primeira sessão dos trabalhos:
O Conselho Geral convocou uma conferência para discutir com os delegados de vários países as medidas a serem tomadas contra os perigos que ameaçam a Associação em muitos países, e para avançar em direção a uma nova organização, que corresponda às necessidades da situação. Em segundo lugar, para elaborar uma resposta aos governos, que trabalham ininterruptamente para destruir a Associação com todos os meios de que dispõem. E, por fim, para resolver de uma vez por todas o conflito suíço.89
Reorganizar a Internacional, defendê-la da ofensiva das forças inimigas e obstaculizar a crescente influência de Bakunin: foram essas as prioridades da conferência de Londres. Para realizar tais objetivos, Marx empenhou todas as suas energias. Foi ele, de longe, o delegado mais ativo da conferência, tomando a palavra por 102 vezes; refutou com sucesso as propostas que não correspondiam a seus planos e conseguiu persuadir os indecisos90. Em Londres, foi confirmada sua estatura no interior da organização. Ele era não apenas seu cérebro, aquele que elaborava a linha política, mas também um de seus militantes mais combativos e capazes.
A decisão de maior relevo tomada durante a conferência, e pela qual ela seria depois lembrada, foi a aprovação da Resolução IX, proposta por Vaillant. O líder das remanescentes forças blanquistas, que haviam aderido à Internacional depois do fim da Comuna, propôs a transformação da Associação num partido internacional centralizado e disciplinado, sob a liderança do Conselho Geral. Apesar de algumas profundas divergências – a separar Marx e as forças blanquistas estava sobretudo a tese deste grupo segundo a qual, para fazer a revolução, bastaria contar com um núcleo bem organizado de militantes –, Marx não hesitou em estabelecer uma aliança com o grupo de Vaillant. Com seu apoio, de fato, ele poderia não só confrontar com maior força o anarquismo político que se fortalecia no interior da organização, mas – o que era ainda mais importante – construir um consenso mais amplo para as mudanças tidas como necessárias na nova fase da luta de classes. A resolução aprovada em Londres dizia:
Em presença de uma reação desabrida, que esmaga violentamente todo esforço de emancipação da parte dos trabalhadores e pretende manter pela força bruta a distinção entre as classes e a consequente dominação política das classes proprietárias;
que essa constituição da classe trabalhadora num partido político é indispensável para assegurar o triunfo da revolução social e seu fim último – a abolição das classes;
que a combinação de forças que a classe trabalhadora já efetuou por meio de suas lutas econômicas deve ao mesmo tempo servir como alavanca para suas lutas contra o poder político dos senhores rurais e capitalistas.
A conclusão era clara: “na luta da classe trabalhadora, seu movimento econômico e sua ação política estão indissoluvelmente unidos”91. Se o Congresso de Genebra de 1866 havia confirmado a importância do sindicato, a Conferência de Londres de 1871 definiu o outro instrumento fundamental de luta do movimento operário: o partido político92. Sublinhe-se que, àquela época, a noção de partido político tinha um significado bem mais amplo do que aquele que se afirmaria no século XX e que a concepção de Marx era radicalmente distinta tanto da concepção blanquista, com a qual acabou por confrontar-se, quanto daquela leninista, que depois da Revolução de Outubro se consolidaria em inúmeras organizações comunistas.
Para Marx, a autoemancipação da classe operária exigia um processo longo e fatigante. Exatamente o contrário da ideia defendida no Catecismo do revolucionário, o manual niilista escrito em 1869 por Serguei Netchaev (1847-1882), e cujas teorias e práticas de sociedade secreta – censuradas pelos delegados de Londres93 – eram entusiasticamente apoiadas por Bakunin.
Apenas quatro delegados se opuseram à Resolução IX da Conferência de Londres, defendendo a necessidade de se adotar uma posição “abstencionista” de não engajamento na ação política; mas a vitória de Marx logo se mostrou efêmera. A deliberação aprovada em Londres, conclamando a criação de organizações políticas em cada país e a transferência de poderes mais amplos ao Conselho Geral, teve graves repercussões na vida da Associação, que ainda não estava pronta para suportar tal aceleração e transitar de um modelo flexível a outro, politicamente uniforme94.
Em Londres, por fim, foi também aprovada a criação do Conselho Federal Inglês. Na visão de Marx, uma vez que as condições para a revolução no continente haviam diminuído com a derrota da Comuna de Paris, não era mais necessário exercer um controle rígido das iniciativas inglesas95.
Após a conferência, Marx estava convicto de que as resoluções aprovadas em Londres receberiam o apoio de quase todas as principais federações e seções locais. Mas pouco tempo depois ele precisou reavaliar a situação. Os militantes da Federação do Jura convocaram para 12 de novembro seu congresso, no pequeno município de Sonvilier. A iniciativa, da qual Bakunin não pôde participar, foi importante, pois com ela nasceu oficialmente a oposição no interior da Internacional. Na Circular a todas as federações da Associação Internacional dos Trabalhadores, redigida ao final dos trabalhos, Guillaume e os outros participantes do congresso acusaram o Conselho Geral de ter introduzido na organização “o princípio de autoridade” e de haver alterado a estrutura originária, transformando-a “numa organização hierárquica, dirigida e governada por um comitê”. Os suíços se declararam “contra toda autoridade diretora, ainda que tal autoridade fosse eleita e aprovada pelos trabalhadores”, e destacaram que na Internacional devia ser conservado o “princípio da autonomia das seções”, também através do redimensionamento do Conselho Geral num “simples escritório de correspondência e de estatística”96. Por fim, convocaram um congresso a ser realizado o mais breve possível.
Embora a posição da Federação do Jura já fosse prevista, Marx foi provavelmente surpreendido quando, em 1872, sinais de insurgência e rebelião em relação a sua linha política surgiram de várias partes. Em muitos países, as decisões tomadas em Londres foram recebidas como uma forte ingerência na autonomia política local e, portanto, como uma imposição inaceitável. A Federação Belga, que durante a conferência havia tentado construir uma mediação entre as partes, começou a assumir uma posição bastante crítica em relação a Londres.
Em seguida, também os holandeses assumiram uma posição de distanciamento crítico. Ainda mais duras foram as reações na Europa meridional, onde a oposição rapidamente obteve notáveis consensos. A grande maioria dos internacionalistas ibéricos voltou-se decididamente contra o Conselho Geral e acolheu as ideias de Bakunin, também porque mais adequadas a um país em que o proletariado industrial só estava presente nos principais centros, e onde o movimento dos trabalhadores ainda era muito fraco e interessado principalmente em reivindicações de caráter econômico. Igualmente na Itália os resultados da Conferência de Londres só geraram reações negativas. Aqueles que não seguiram Mazzini – que de 1o a 6 de novembro de 1871 reuniu em Roma o bloco mais moderado dos trabalhadores italianos no Congresso Geral da Sociedade Operária Italiana – aderiram às posições de Bakunin. Os participantes da conferência de fundação da Federação Italiana da Internacional, realizada em Rimini de 4 a 6 de agosto de 1872, assumiram a posição mais radical contra o Conselho Geral: não participariam do próximo congresso da Internacional, mas estariam presentes em Neuchâtel, na Suíça, onde propuseram a realização de um “congresso geral antiautoritário”97. De fato, esse foi o primeiro ato da iminente cisão.
Também do outro lado do oceano, embora por razões diferentes, a organização viu explodir um sério conflito interno. No decorrer de 1871, a Internacional havia crescido em várias cidades dos Estados Unidos, alcançando um total de cerca de 2.700 militantes, divididos em 50 seções98. No ano seguinte, seu contingente aumentou ainda mais, ainda que o número total (provavelmente cerca de 4 mil) constituísse uma parte minúscula da população trabalhadora americana, que à época ultrapassava 2 milhões. A organização não conseguiu atrair os trabalhadores nascidos nos Estados Unidos e, assim, ultrapassar os confins da comunidade dos imigrantes. A seus limites originários se somaram os danos provocados pelos conflitos internos. Em dezembro de 1871, de fato, os internacionalistas americanos se dividiram em dois grupos, ambos com base em Nova York, onde se encontrava grande parte dos militantes. Cada um deles reivindicava ser o representante legítimo da Internacional nos Estados Unidos.
O primeiro grupo, inicialmente mais numeroso e conhecido pelo nome de Spring Street Council, propunha uma aliança com os setores mais liberais da sociedade americana, contava como apoio de Eccarius, secretário correspondente junto ao Conselho Geral, e tinha na Seção 12 sua parte mais ativa99. O segundo, cujo quartel-general era sediado no Tenth Ward Hotel, defendia o caráter operário da Associação e tinha como expoente mais significativo Friedrich Adolph Sorge (1828-1906). Em março de 1872, o Conselho Geral tentou uma reconciliação entre as partes e sugeriu a realização de um congresso unitário para o mês de julho. Mas a tentativa de pacificação fracassou e, em maio, a cisão foi oficial. Os conflitos causaram uma hemorragia dos filiados. O grupo do Tenth Ward Hotel realizou seu congresso entre 6 e 8 de julho de 1872. Nele foi fundada a Federação Americana, que contava com 950 filiados divididos em 22 seções (12 alemãs, 4 francesas, 1 irlandesa, 1 italiana, 1 para trabalhadores escandinavos e apenas 3 de língua inglesa). O Spring Street Council contava com a maior parte dos outros militantes residentes em Nova York. Porém, em maio de 1872, alguns de seus membros aderiram à convenção do Partido por Direitos Iguais (Equal Rights Party), que lançou a candidatura de Victoria Woodhull (1838-1927) à presidência dos Estados Unidos. A ausência de uma plataforma de classe no seu programa – que continha apenas promessas genéricas de regulação das condições laborais e criação de postos de trabalho para os desocupados – convenceu diversas seções a abandonar esse partido, que ficou com apenas 1.500 militantes. Quando, em julho, em seu congresso, foi fundada a Confederação Americana, não havia restado mais que 13 seções com menos de 500 militantes, sobretudo artesãos e intelectuais. Essas seções se uniram a outras federações que, na Europa, contestavam a linha do Conselho Geral.
As desavenças do outro lado do Atlântico danificaram também as relações entre os militantes de Londres. John Hales (1839-?), secretário do Conselho Geral entre 1871 e 1872, ocupou o posto de Eccarius como secretário correspondente dos Estados Unidos, porém deu continuidade à mesma política. As relações pessoais de ambos com Marx rapidamente se deterioraram, e também na Inglaterra começaram a surgir os primeiros conflitos internos. Ao lado dos ingleses, a apoiar o Conselho Geral, havia permanecido a maioria dos suíços, dos franceses (naquele momento, sobretudo blanquistas) e as fracas tropas alemãs, além das seções recém-criadas na Dinamarca, na Irlanda, em Portugal e, no Leste Europeu, na Hungria e na Boêmia. Muito menos do que Marx esperava obter ao término da Conferência de Londres.
A oposição ao Conselho Geral foi de diversos tipos e muitas vezes baseou-se em motivos pessoais. Formou-se, assim, uma estranha alquimia, que tornou a direção da organização ainda mais problemática. No entanto, além do fascínio exercido pelas teorias de Bakunin em alguns países e da capacidade política de Guillaume de congregar os vários opositores, o principal adversário da virada ocorrida com a resolução sobre a “ação política da classe operária” foi um ambiente ainda imaturo para receber o salto de qualidade proposto por Marx. Apesar das declarações de utilidade que a acompanharam, a virada iniciada em Londres foi percebida por muitos como forte imposição. O princípio de autonomia das várias realidades das quais se compunha a Internacional era considerado uma das pedras basilares da Associação, não só pelo grupo mais ligado a Bakunin, mas por grande parte das federações e seções locais. Esse foi o erro de avaliação cometido por Marx, erro que acelerou a crise da Internacional100.
X. A crise da Internacional
A batalha final ocorreu no fim do outono de 1872. Depois dos terríveis eventos dos três anos anteriores – a Guerra Franco-Prussiana, a onda de repressão que se seguiu à Comuna de Paris e os inúmeros conflitos internos –, a Internacional pôde finalmente voltar a reunir-se num congresso. Nos países em que havia se firmado mais recentemente, ela se expandiu graças ao entusiasmo dos dirigentes sindicais e dos operários mais ativos, rapidamente conquistados e motivados por suas palavras de ordem. O ano de 1872 foi, de fato, aquele em que a organização conheceu o momento de maior expansão na Itália, na Dinamarca, em Portugal e na Holanda. Inversamente, porém, ela fora desmantelada na França, na Alemanha e no Império Austro-Húngaro. Enquanto isso, a maior parte de seus militantes ignorava a gravidade dos conflitos que acirravam os ânimos no grupo dirigente101.
O V Congresso Geral da Internacional realizou-se em Haia, entre 2 e 7 de setembro. Dele participaram 65 delegados, representando 14 países. A maioria era composta de franceses e alemães, com respectivamente dezoito (muitos dos quais eram membros do Conselho Geral, que havia cooptado quatro blanquistas) e quinze delegados, seguidos de sete delegados belgas, cinco ingleses, cinco espanhóis, quatro suíços, quatro holandeses, dois austríacos e um único delegado de Dinamarca, Irlanda, Hungria, Polônia e Austrália (W. E. Harcourt, da seção de Victoria). O francês Paul Lafargue foi nomeado pela Federação de Lisboa e pela Federação de Madri. Apesar de os internacionalistas italianos não terem enviado seus sete delegados, o congresso de 1872 foi certamente a reunião mais representativa da história da Internacional.
A importância decisiva do evento fez com que Marx tomasse parte nele pessoalmente102, acompanhado de Engels. Foi o único congresso da Internacional de que Marx participou. Não estiveram presentes, ao contrário, nem César de Paepe (talvez por estar consciente de que não poderia exercer o papel de mediação entre as partes que havia desempenhado no ano anterior, em Londres) nem Bakunin. O componente “autonomista”, isto é, a posição de todos aqueles que se opunham às escolhas do Conselho Geral, foi representado por 25 delegados (todos os provenientes da Bélgica, da Espanha e da Holanda, a metade dos suíços e alguns da Inglaterra, da França e dos Estados Unidos).
A ironia do destino quis que o congresso se realizasse no Concordia Hall, mas nele houve pouquíssima concórdia. Todas as sessões foram marcadas por irredutível antagonismo entre as duas posições contrapostas. Os debates foram muito mais pobres do que aqueles dos dois congressos precedentes, dominados a tal ponto pelos conflitos que os três primeiros dias de trabalhos foram consumidos na resolução de problemas relativos à verificação das credenciais dos presentes. A representatividade dos delegados foi absolutamente parcial. Ela não espelhava as verdadeiras relações de força no interior da organização. Na Alemanha, por exemplo, não existiam propriamente seções da Internacional, enquanto na França elas eram clandestinas, o que tornava muito discutível a verificação dos mandatos de seus delegados. Outros participantes eram delegados enquanto membros do Conselho Geral e não representavam nenhuma seção.
A aprovação das resoluções do Congresso de Haia só foi possível graças a uma composição imprópria de sua plateia. Apesar de espúria e, em muitos aspectos, mantida unida por objetivos instrumentais, a coalizão dos delegados que em Haia formavam uma minoria representava, na realidade, a parte mais consistente da Internacional103.
A decisão de maior relevo tomada em Haia foi a introdução da principal deliberação política da conferência de 1871 nos estatutos da Associação. A esses foi adicionado um artigo, o “7a”, no qual é retomada a Resolução IX aprovada em Londres. Se nos Estatutos provisórios de 1864 constava que “a emancipação econômica da classe operária é o grande escopo ao qual todo movimento político está subordinado como meio”, o artigo inserido em 1872 espelhava as novas relações de força no interior da organização. A luta política não era mais considerada um tabu, mas, antes, o instrumento necessário para a transformação da sociedade:
Porque os senhores da terra e do capital se servem de seus privilégios políticos para proteger e perpetuar seus monopólios econômicos, assim como para escravizar o trabalho, a conquista do poder político converte-se numa grande obrigação do proletariado.104
A Internacional era então muito diferente do que havia sido no tempo de sua fundação. Os componentes democrático-radicais haviam abandonado a Associação, depois de terem sido marginalizados; os mutualistas haviam sido derrotados e suas forças, drasticamente reduzidas; os reformistas não constituíam mais a parte dominante da organização (exceto na Inglaterra) e o anticapitalismo tornara-se a linha política de toda a Internacional, inclusive das tendências – como a anárquico-coletivista – que se haviam formado no curso dos últimos anos. Ainda que durante a existência da Internacional a Europa atravessasse uma fase de grande prosperidade econômica, que, em alguns casos, havia tornado menos difíceis suas condições, os operários haviam compreendido que sua situação só mudaria verdadeiramente com o fim da exploração do homem sobre o homem, e não por meio de reivindicações econômicas voltadas à obtenção de meros paliativos às condições existentes. Além disso, eles haviam começado a organizar suas lutas cada vez mais a partir das próprias necessidades materiais, e não, como antes, com base nas iniciativas dos vários grupos a que pertenciam.
Ademais, o cenário havia mudado radicalmente também no exterior da organização. A unificação da Alemanha, ocorrida em 1871, marcou o início de uma nova era, em que o Estado-nação se afirmou definitivamente como forma de identidade política, jurídica e territorial. O novo contexto tornava pouco plausível a continuidade de um organismo supranacional ao qual as organizações dos vários países, ainda que munidas de autonomia, deviam ceder uma parte consistente da direção política e uma cota das contribuições dos próprios filiados. Além disso, a diferença ente os movimentos e as organizações existentes nos vários países havia aumentado, tornando extremamente difícil ao Conselho Geral a realização de uma síntese política capaz de satisfazer as exigências dos grupos que operavam nos contextos nacionais singulares. É verdade que a Internacional havia sido, desde o início, um aglomerado de forças sindicais e associações políticas pouco compatíveis entre si, e que estas representavam sensibilidades e tendências políticas, mais do que organizações propriamente ditas. Em 1872, no entanto, os vários componentes da Associação – e as lutas operárias em geral – haviam se definido e estruturado muito mais claramente. A legalização dos sindicatos ingleses os convertera oficialmente em parte da vida política nacional; a Federação Belga da Internacional era uma organização ramificada, com uma direção central capaz de dar contribuições teóricas autônomas e importantes; a Alemanha tinha dois partidos operários, o Partido Social-Democrata dos Trabalhadores da Alemanha e a Associação Geral dos Trabalhadores Alemães, ambos com representação no parlamento; os trabalhadores franceses, de Lyon a Paris, já haviam tentado “assaltar os céus”; e a Federação Espanhola se expandira a ponto de se tornar uma organização de massa. Mudanças análogas se haviam produzido em outros países.
A configuração inicial da Internacional estava, portanto, superada, e sua missão originária havia sido concluída. Não se tratava mais de conceber e coordenar iniciativas de solidariedade em escala europeia para a sustentação das greves, nem de realizar congressos para discutir a utilidade das organizações sindicais ou a necessidade de socializar a terra e os meios de produção. Esses temas haviam se tornado patrimônio coletivo de todos os componentes da organização. Depois da Comuna de Paris, o verdadeiro desafio colocado ao movimento operário era a revolução, isto é, o de como organizar-se para pôr fim ao modo de produção capitalista e derrubar as instituições do mundo burguês. Não mais a questão da reforma da sociedade existente, mas da construção de uma nova105. Para avançar por esse novo caminho da luta de classes, Marx pensava ser inadiável a construção, em cada país, de partidos políticos da classe operária. O documento Ao conselho federal da região espanhola da Associação Internacional dos Trabalhadores, redigido por Engels em fevereiro de 1871, foi uma das declarações do Conselho Geral mais explícitas nessa direção. De fato, nesse documento afirmou-se que:
a experiência mostrou que a melhor maneira de emancipar os trabalhadores dessa dominação dos velhos partidos é formar, em cada país, um partido proletário com uma política própria, manifestamente distinta daquela dos outros partidos, porquanto tem de expressar as condições necessárias para a emancipação da classe trabalhadora. Essa política pode variar em detalhes, de acordo com as circunstâncias específicas de cada país; mas enquanto as relações fundamentais entre o trabalho e o capital forem as mesmas em toda parte, e a dominação política das classes possuidoras sobre as classes exploradas for um fator universalmente existente, os princípios e objetivos da política proletária serão idênticos, ao menos em todos os países ocidentais. As classes possuidoras – a aristocracia rural e a burguesia – mantêm a população trabalhadora na servidão, não só mediante o poder de sua riqueza, pela simples exploração do trabalho pelo capital, mas também pelo poder do Estado – pelo Exército, a burocracia, os tribunais. Deixar de combater nossos adversários no campo político significaria abandonar uma das armas mais poderosas, particularmente na esfera da organização e da propaganda.106
Daquele momento em diante, portanto, o partido passou a ser considerado um instrumento essencial para a luta do proletariado. Ele devia ser independente das outras forças políticas existentes e construído, tanto do ponto de vista programático como organizacional, em função do contexto nacional singular. Na sessão do Conselho Geral de 23 de julho de 1872, Marx criticou não só os abstencionistas (que atacavam a Resolução IX da Conferência de Londres), mas a posição igualmente perigosa das “classes trabalhadoras da Inglaterra e da América, que se haviam deixado usar pela burguesia para seus objetivos políticos”107.
Essa segunda questão foi repetida por Marx em várias ocasiões. Durante a Conferência de Londres, ele havia declarado: “é preciso que a política seja feita adequando-se às condições de cada país”108. No ano seguinte, num discurso proferido em Amsterdã logo após o fim do congresso de 1872, ele retornou à questão da forma da luta política:
Um dia o trabalhador deverá tomar o poder político para construir a nova organização do trabalho; ele terá de derrubar a velha política que sustenta as velhas instituições, se não quiser privar-se do paraíso neste mundo, como os antigos cristãos, que negligenciaram e desprezaram a política. Mas isso não significa dizer que os meios para atingir essa meta são os mesmos em todos os lugares. […] Não negamos que há países […] onde os trabalhadores podem atingir sua meta por meios pacíficos. Apesar disso, também temos de reconhecer o fato de que na maior parte dos países do continente a alavanca de nossa revolução deve ser a força; é à força que um dia deveremos apelar para erigir o reino do trabalho.109
Os partidos políticos operários, independentemente do modo como estavam constituídos em seus diversos contextos, não deviam submeter-se aos interesses nacionais110. A batalha pelo socialismo não podia permanecer confinada num âmbito tão estreito, e o internacionalismo, especialmente no novo contexto histórico, devia continuar a ser o farol do proletariado, assim como sua vacina contra o abraço mortal do Estado e do sistema capitalista.
Durante o Congresso de Haia, as votações foram precedidas de acirradas polêmicas. A primeira delas foi em relação ao artigo 7a. Em seguida à sua aprovação, a meta da conquista do poder político foi oficialmente inserida no estatuto da Associação, juntamente com a indicação de que o partido operário era um instrumento essencial para alcançá-la.
A decisão seguinte, de conferir poderes mais amplos ao Conselho Geral, aprovada com 32 votos a favor, 6 contra e 12 abstenções, tornou a situação ainda mais intolerável para a minoria. A partir daquele momento, o Conselho tinha a tarefa de garantir em cada país a “rígida observação dos princípios, estatutos e regras gerais da Internacional”, e a ele se atribuía “o direito de suspender ramos, seções, conselhos ou comitês federais e federações da Internacional até o próximo congresso”111.
Pela primeira vez na história da Internacional, seu mais alto congresso aprovou também (por 47 votos a favor e 9 abstenções) a decisão do Conselho Geral de expulsar uma organização: a Seção 12 de Nova York. Sua motivação foi a seguinte: “A Associação Internacional dos Trabalhadores baseia-se no princípio da abolição das classes e não pode admitir nenhuma seção burguesa”112. As expulsões de Bakunin (25 votos a favor, 6 contra, 7 abstenções) e Guillaume (25 votos a favor, 9 contra, 8 abstenções) também causaram grande celeuma, tendo sido propostas por uma comissão de inquérito que descreveu a Aliança da Democracia Socialista como “uma organização secreta, com estatutos completamente opostos aos da Internacional”113. Por outro lado, rejeitou-se (15 votos a favor, 17 contra e 7 abstenções) a proposta de expulsão de Adhémar Schwitzguébel (1844-1895), um dos fundadores e membros mais ativos da Federação do Jura114, sobre o qual recaíram as mesmas acusações formuladas contra Guillaume. Por fim, o congresso estabeleceu também a publicação de um longo relatório, intitulado A Aliança da Democracia Socialista e a Associação Internacional dos Trabalhadores, que reconstrói a história da organização liderada por Bakunin e apresenta uma análise de suas atividades pública e secreta em cada país. O texto, redigido por Engels, Lafargue e Marx, foi publicado em francês em julho de 1873.
Durante todas as votações do congresso, a oposição adotou uma linha de conduta não unitária: uma parte dela se absteve, a outra votou contra. No último dia do evento, porém, a minoria apresentou uma declaração comum, lida pelo operário Victor Dave (1845-1922), delegado da seção de Haia, e na qual se dizia que:
1. Nós, os […] partidários da autonomia e da federação de grupos de operários, devemos dar continuidade a nossas relações administrativas com o Conselho Geral […].
2. As federações que representamos estabelecerão relações diretas e permanentes com todos os ramos regulares da Associação. […]
4. Conclamamos todas as federações e seções a prepararem, de hoje até o próximo congresso geral, as bases para o triunfo, no interior da Internacional, dos princípios da autonomia federativa como a base da organização do trabalho.115
Essa declaração foi um hábil expediente da oposição para não assumir a responsabilidade por uma cisão que já se previa como inevitável. Juntamente com as medidas votadas pela maioria em relação aos novos poderes conferidos ao Conselho Geral, as propostas expressas nessa comunicação constituíam mais medidas táticas para fins internos do que um sério empenho político para dar novo impulso à organização. De fato, na sessão matutina de 6 de setembro, consumou-se o último ato da Internacional tal como havia sido concebida e constituída no curso dos últimos anos. Foi o momento mais dramático de todo o Congresso de Haia. Engels tomou a palavra e, para a surpresa dos presentes, propôs “que a sede do Conselho Geral fosse transferida para Nova York para o ano de 1872-1873 e que ele fosse formado por membros do Conselho Federal Americano”116. Poucas palavras abalaram certezas consolidadas. O Conselho Geral se trasladaria para além-mar, a uma enorme distância das federações europeias; Marx e outros “fundadores” da Internacional não fariam mais parte de seu órgão central; este se constituiria de companheiros cujos nomes eram desconhecidos de todos (Engels propôs o número de sete membros, com a possibilidade de expandi-lo a um máximo de quinze). O delegado Maltman Barry (1842-1909), membro do Conselho Geral e defensor das posições de Marx, foi quem melhor descreveu a reação da plateia:
Podia-se ver a consternação e a decepção estampadas nas faces do partido opositor quando [Engels] pronunciou as últimas palavras. […] Levou um tempo até que alguém se levantasse para tomar a palavra. Foi um coup d’état, e todos se entreolhavam, na esperança de que alguém quebrasse o feitiço.117
Engels defendeu essa proposta dizendo que “em Londres os conflitos entre os grupos haviam atingido um tal nível que [o Conselho Geral] tinha de ser transferido para outro lugar”118 e que Nova York era a melhor escolha em tempos de repressão. Mas os blanquistas opunham-se violentamente à mudança, argumentando que “a Internacional deveria, antes de mais nada, ser a organização insurrecional do proletariado”119 e que “quando um partido se une para a luta […] sua ação é maior na medida em que seu comitê de liderança é ativo, bem armado e poderoso”. Assim, Vaillant e outros seguidores de Blanqui presentes em Haia sentiram-se traídos quando viram “a cabeça” da organização ser transferida “para o outro lado do Atlântico [enquanto] o corpo armado estava lutando na [Europa]”120. Partindo do suposto de que “a Internacional tivera uma papel pioneiro na luta econômica”, eles queriam que ela desempenhasse “um papel similar com respeito à luta política” e sua transformação num “partido operário revolucionário internacional”121. Percebendo que não seria mais possível exercer o controle sobre o Conselho Geral, eles abandonaram o congresso e, pouco tempo depois, a Internacional.
Muitos membros, mesmo entre as fileiras da maioria, votaram contra a mudança para Nova York, por entender que isso equivalia ao fim da Internacional como estrutura operacional. A decisão, aprovada por apenas três votos (26 a favor, 23 contra), acabou dependendo de nove abstenções e do fato de que a alguns membros da minoria agradava ver o Conselho Geral ser transferido para longe de seus próprios centros de atividade.
Outro fator para a mudança foi certamente a visão de Marx de que era melhor desativar a Internacional do que vê-la transformar-se numa organização sectária nas mãos de seus oponentes. A morte da Internacional, que certamente se seguiria à transferência do Conselho Geral para Nova York, era infinitamente preferível do que uma longa e inútil sucessão de lutas fratricidas. Porém, não parece convincente argumentar – como muitos o fizeram122 – que a principal razão para o declínio da Internacional era o conflito entre seus dois concorrentes, ou mesmo entre dois indivíduos, Marx e Bakunin, por maior que sejam suas estaturas. Na verdade, foram as mudanças ocorridas no mundo ao redor da Internacional que a tornaram obsoleta. O crescimento e a transformação das organizações do movimento operário, o fortalecimento dos Estados-nação, causado pela unificação nacional da Itália e da Alemanha, a expansão da Internacional em países como a Espanha e a Itália, com condições econômicas e sociais profundamente diferentes daquelas da Inglaterra e da França, onde a Associação havia nascido, a definitiva virada moderada do sindicalismo inglês e a repressão que se seguiu à queda da Comuna de Paris agiram, de modo concomitante, para tornar a configuração originária da Internacional inapropriada para as condições históricas modificadas.
Na complexidade desse cenário, no qual prevaleceram as tendências centrífugas, também pesaram, obviamente, tanto os acontecimentos internos quanto aqueles pessoais de seus protagonistas. A Conferência de Londres, por exemplo, longe de produzir o efeito salvífico que Marx imaginara, agravou significativamente a crise da organização, porquanto foi conduzida de modo rígido, sem avaliar adequadamente os humores existentes em seu interior e sem as precauções necessárias para evitar o fortalecimento do grupo dirigido por Bakunin123. Foi, de fato, uma vitória de Pirro para Marx, que, ao pôr em ação uma tentativa de resolver os conflitos internos, Trabalhadores, uni-vos!
terminou, ao invés disso, por acentuá-los. Todavia, as decisões tomadas em Londres produziram apenas uma aceleração de um processo já em curso e inevitável.
Por fim, às considerações de caráter histórico e àquelas relativas à dialética interna da organização acrescentam-se outras, não menos importantes, acerca de seu principal protagonista. Numa sessão da Conferência de Londres de 1871, Marx havia recordado aos delegados como “o trabalho do Conselho tornara-se imenso. Era obrigado a enfrentar questões gerais e questões nacionais”124. Além disso, a Internacional havia se expandido demasiadamente. Não era mais a organização de 1864, que se firmava sobre duas pernas, uma na Inglaterra e outra na França. Agora ela estava presente em todos os países da Europa, cada um dos quais com problemas próprios e características específicas. A organização estava não apenas dividida por conflitos internos, mas a chegada dos exilados da Comuna de Paris à capital britânica, trazendo consigo novas preocupações e uma bagagem variegada de ideias, tornou ainda mais difícil para o Conselho Geral a obtenção de uma síntese política.
Depois de oito anos intensamente dedicados à Internacional, Marx passara por inúmeras provas125. Consciente da retirada das forças operárias que se seguiria à Comuna de Paris – a primeira entre todas as suas preocupações –, ele decidiu dedicar seus anos futuros à tentativa de completar O capital. Quando cruzou o Mar do Norte em direção à Holanda, ele deve ter sentido que a batalha que o esperava seria a última que travaria como protagonista direto.
Do espectador silencioso daquele primeiro encontro, realizado em 1864 no St. Martin’s Hall, Marx tornara-se, em 1872, o líder da Internacional, reconhecido como tal não só pelos delegados dos vários congressos e pelos dirigentes do Conselho Geral, mas pela própria opinião pública. Se, portanto, a Internacional devia muitíssimo a Marx, também a existência deste último havia se transformado profundamente graças àquela organização. Antes da Internacional, Marx só era conhecido num círculo restrito de militantes, ao passo que, depois da Comuna de Paris – certamente também graças à publicação de seu magnum opus, em 1867 –, a fama de seu nome começara a difundir-se entre os revolucionários de muitos países europeus, ao ponto de a imprensa apelidá-lo de “doutor do terror vermelho”. Além disso, a responsabilidade derivada de seu papel na Internacional, que lhe dera a oportunidade de analisar mais diretamente tantas lutas econômicas e políticas, serviu como mais um estímulo para suas reflexões sobre o comunismo e enriqueceu profundamente o conjunto de sua teoria anticapitalista.
XI. Marx versus Bakunin
A batalha entre os dois campos intensificou-se nos meses seguintes ao Congresso de Haia, mas apenas em alguns casos o conflito se desenvolveu em torno das diferenças entre suas teorias e ideologias políticas. Com frequência, Marx preferiu ridicularizar as posições de Bakunin, descrevendo-o como um defensor da “equalização das classes”126 (com base nos princípios programáticos da Aliança da Democracia Socialista, formulados em 1869) ou do abstencionismo político tout court. Já o anarquista russo, que carecia das qualidades teóricas de seu adversário, escolheu o terreno das acusações e insultos pessoais. A única exceção foi a “Carta ao jornal La Liberté de Bruxelas”, redigida no início de outubro de 1872, na qual Bakunin expôs de modo positivo sua concepção. Desse escrito – que ficou incompleto e, por isso, não pôde ser utilizado por seus seguidores nas discussões que dominaram aqueles anos – emerge claramente a verdadeira posição política dos “autonomistas”:
Há apenas uma lei vinculando todos os membros […], seções e federações da Internacional […]. É a solidariedade internacional dos trabalhadores de todas as categorias profissionais e de todos os países na luta econômica contra os exploradores do trabalho. É a organização real dessa solidariedade mediante a ação espontânea das classes trabalhadoras e a federação absolutamente livre […] que constitui a unidade real e viva da Internacional. Quem pode duvidar que é dessa organização cada vez mais ampla da solidariedade militante do proletariado contra a exploração burguesa que a luta política do proletariado contra a burguesia tem de surgir e crescer? Os marxistas e nós somos unânimes sobre esse ponto. Mas agora vem a questão que nos distingue tão profundamente dos marxistas. Pensamos que a política do proletariado deve ser uma política revolucionária, voltada direta e unicamente à destruição dos Estados. Não vemos como seja possível falar de solidariedade internacional e, no entanto, querer preservar os Estados […] porque o Estado, por sua própria natureza, é uma ruptura daquela solidariedade e, portanto, uma permanente causa de guerras. Tampouco podemos conceber como seja possível falar de liberdade do proletariado ou de emancipação real das massas no interior e por intermédio do Estado. Estado significa domínio, e todo domínio envolve a subjugação das massas e, por conseguinte, sua exploração por uma mesma minoria dominante. Não aceitamos, mesmo no processo de transição revolucionária, quaisquer formas de assembleias constituintes, governos provinciais ou das assim chamadas ditaduras revolucionárias, pois estamos convencidos de que a revolução só é sincera, honesta e real nas mãos das massas e que, ao se concentrar nas mãos de uns poucos indivíduos governantes, ela se converte inevitavelmente em reação.127
Assim, embora Bakunin tivesse em comum com Proudhon uma oposição intransigente a qualquer forma de autoridade política, especialmente na forma direta do Estado, seria errado equiparar sua posição com a dos mutualistas. Enquanto estes últimos exercitaram seu abstencionismo de modo passivo, renunciando de fato a toda atividade política, os autonomistas, ao contrário – como sublinhou Guillaume numa das últimas intervenções no Congresso de Haia –, eram defensores de “uma certa política, de revolução social, da destruição da política burguesa e do Estado”128. Dever-se-ia reconhecer que eles estavam entre os componentes revolucionários da Internacional e que ofereceram uma interessante contribuição crítica a questões relativas ao poder político, o Estado e a burocracia.
Qual foi, portanto, a diferença entre a “política positiva”, considerada indispensável pelos centralistas, e a “política negativa”, concebida pelos autonomistas como única forma possível de ação? Nas resoluções adotadas no Congresso Internacional de Saint-Imier, realizado entre 15 e 16 de setembro, em seguida à proposta da Federação Italiana e na presença de outros delegados que retornavam de Haia, declarou-se que: “toda organização política não pode ser outra coisa senão a organização e dominação para o benefício de uma classe em detrimento das massas, e que se o proletariado escolhesse exercer o poder, ele se converteria a si mesmo numa classe dominante e exploradora”.
Portanto – e foi esta a afirmação que engendrou o conceito de “política negativa” –, “a destruição de todo poder político é a primeira obrigação do proletariado”129. Segundo Bakunin, “toda organização de um poder político, por mais que possa proclamar-se provisória e revolucionária para efetuar essa destruição, não pode ser senão um engano ulterior, e para o proletariado seria tão perigosa quanto todos os governos hoje existentes”. Como Bakunin destacou em outro texto inacabado, a Internacional, cuja missão era a de conduzir o proletariado “para fora da política do Estado e do mundo burguês”, deveria pôr na base de seu programa “a organização da solidariedade internacional para a luta econômica do trabalho contra o capital”130; uma declaração de princípios que, embora levasse em conta as mudanças ocorridas no tempo, era muito próxima das tentativas originárias da organização e diametralmente oposta à direção tomada por Marx e pelo Conselho Geral após a Conferência de Londres de 1871 131.
Em Haia, os autonomistas optaram por aquilo que definiram como uma “política negativa”, ou seja, a destruição do poder político; em contrapartida, a maioria dos delegados defendeu sua forma oposta, “positiva”, que apontava para a conquista do poder político132. Num clima de profunda divergência sobre princípios e objetivos, o partido político foi considerado como um instrumento necessariamente subalterno às instituições burguesas, e o comunismo de Marx foi grotescamente comparado ao Volksstaat (Estado popular) lassalliano, que o revolucionário de Trier havia incansavelmente combatido133. No entanto, nos poucos momentos em que o antagonismo deixou espaço para a razão, Bakunin e Guillaume reconheceram que os dois lados compartilhavam das mesmas aspirações134. Em The Fictitious Splits in the International [Cisões fictícias na Internacional], que redigiu juntamente com Engels entre o fim de janeiro e o início de março de 1872, Marx esclarecia que uma das precondições da sociedade socialista era a supressão do poder do Estado:
Todos os socialistas veem a anarquia como o seguinte programa: uma vez atingido o objetivo do movimento proletário – isto é, a abolição das classes –, desaparece o poder do Estado, que serve para manter a grande maioria dos produtores submetidos a uma pequena minoria de exploradores, e as funções do governo se tornam simples funções administrativas.135
A diferença irreconciliável consistia no fato de que os autonomistas colocavam o problema como uma questão de realização imediata. Porque consideravam a Internacional não como um instrumento político para a luta política, mas como o modelo ideal da sociedade do futuro, na qual não deveria existir nenhum tipo de autoridade, eles proclamavam:
a anarquia nas fileiras proletárias como o meio mais infalível de quebrar a poderosa concentração das forças sociais e políticas nas mãos dos exploradores. Sob esse pretexto, ela pede à Internacional, num momento em que o Velho Mundo busca uma maneira de esmagá-la, a substituição de sua organização pela anarquia.136
Assim, apesar de sua convergência quanto à necessidade de abolir as classes e o poder político do Estado na sociedade socialista, os dois lados divergiam radicalmente sobre as questões cruciais do caminho a tomar e das forças sociais requeridas para efetuar a transformação. Sobre esses temas fundamentais, Marx e Bakunin tinham concepções radicalmente distintas. Enquanto para Marx o sujeito revolucionário por excelência era uma classe particular, o proletariado fabril, Bakunin voltava-se à massa em geral, à “grande ralé popular” (o Lumpenproletariat), que, sendo “quase impoluta pela civilização burguesa, carrega em seu interior e em suas aspirações, em todas as necessidades e misérias de sua vida coletiva, todas as sementes do socialismo do futuro”137. Se o comunista aprendera que a transformação social precisava ser acompanhada de determinadas condições históricas, de uma organização eficiente e de um longo processo para chegar à formação da consciência de classe entre as massas138, o anarquista estava convencido de que a “grande ralé popular” era dotada de “um instinto, tão invencível quanto justo”, por si só suficiente “para inaugurar e fazer triunfar a revolução social”139.
O dissenso entre Bakunin e Marx se manifestou também na identificação dos instrumentos mais adequados para a realização do socialismo. O primeiro passou uma parte significativa da sua atividade militante criando (ou imaginando criar) sociedades secretas, ou organizações compostas por um grupo restrito de pessoas, sobretudo intelectuais: um “Estado-maior revolucionário, composto de indivíduos dedicados, enérgicos, inteligentes e, acima de tudo, amigos sinceros do povo”140, que prepararão a insurreição e farão a revolução. O segundo, ao contrário, defendeu a autoemancipação da classe operária, estando convencido de que as sociedades secretas “contrastam com o desenvolvimento do movimento operário”, porquanto, “em vez de educar os operários, submetem-nos a leis autoritárias e místicas, que obstaculizam sua autonomia e conduzem sua consciência numa direção equivocada”141. O exilado russo opôs-se a toda ação política da classe operária que não visasse diretamente à revolução, inclusive a mobilização por reformas sociais e a participação em eleições, enquanto o cosmopolita com residência em Londres não desprezava a luta por reformas e objetivos parciais, embora com a absoluta convicção de que estes deveriam servir para reforçar a classe operária na luta para derrubar o modo de produção capitalista, e não para integrá-la no sistema.
A diferença não teria diminuído nem depois de realizada a revolução. Para Bakunin, “a abolição do Estado [era] a precondição ou o acompanhamento necessário da emancipação econômica do proletariado”142; para Marx, o Estado não podia nem devia desaparecer de um dia para o outro. No artigo “A indiferença em matéria política”, publicado em dezembro de 1873 no jornal italiano Almanacco Repubblicano para contrastar a hegemonia dos anarquistas no movimento operário daquele país, ele afirmara polemicamente:
se a luta política da classe operária assume formas violentas, se os operários substituem sua ditadura revolucionária à ditadura da classe burguesa, então [de acordo com Bakunin] eles cometem o terrível delito de lèse-principe [leso-princípio]; pois, para satisfazer suas miseráveis necessidades cotidianas, para quebrar a resistência da classe burguesa, em vez de abaixar as armas e abolir o Estado, eles lhe dão uma forma revolucionária e transitória.143
É preciso reconhecer, no entanto, que Bakunin, apesar de sua recusa em distinguir entre o poder burguês e o proletário, soube prever os perigos da assim chamada “fase de transição” do capitalismo para o socialismo e a degeneração burocrática pós-revolucionária. Em O Império knut-germânico e a revolução social, um escrito incompleto, redigido entre 1870 e 1871, ele afirmou:
Mas no Estado Popular de Marx, como nos é dito, não haverá nenhuma classe privilegiada. Todos serão iguais, não apenas do ponto de vista jurídico e político, mas também econômico. […] Não haverá mais, portanto, nenhuma classe privilegiada, mas haverá um governo e, notem bem, um governo extremamente complexo, que não se contentará com governar e administrar as massas politicamente, como o fazem todos os governos atualmente, mas que também as administrará economicamente, concentrando nas suas mãos a produção e a justa repartição das riquezas, o cultivo da terra, o estabelecimento e desenvolvimento das fábricas, a organização e a direção do comércio e, por fim, a aplicação do capital à produção da parte de um único banqueiro: o Estado. […] Será o reino da inteligência científica, o mais aristocrático, o mais despótico, o mais arrogante e o mais odiado de todos os regimes. Haverá uma nova classe, uma nova hierarquia de cientistas e eruditos reais e fictícios, e o mundo será dividido numa minoria governando em nome do saber e uma imensa maioria ignorante. […] Todo Estado, mesmo o mais republicano e mais democrático […], é, em sua essência, uma mera máquina a governar as massas de cima, mediante uma minoria inteligente e, portanto, privilegiada, supostamente conhecedora dos interesses genuínos do povo mais do que o próprio povo.144
Em parte devido a seu escasso conhecimento de economia, a via federalista indicada por Bakunin não ofereceu nenhuma indicação rigorosamente útil sobre a realização do socialismo. À sua crítica, no entanto, deve-se reconhecer o mérito de ter previsto alguns dos dramas que caracterizariam o século XX.
XII. Depois de Marx: a Internacional “centralista” e a Internacional “autonomista”
Em 1872, a Internacional nascida em 1864 deixou de existir. A grande organização, que por oito anos sustentara com sucesso inúmeras greves e lutas, adotara um programa teórico anticapitalista e ramificara-se em todos os países europeus, implodiu após o Congresso de Haia. Apesar disso, sua história não acabou com o abandono de Marx. Ela foi substituída por dois reagrupamentos de forças, muito mais reduzidos e privados de sua capacidade e ambição políticas. O primeiro foi composto pelos “centralistas”, ou seja, pela parte que resultara majoritária no último congresso e favorável a uma organização dirigida politicamente por um Conselho Geral. O segundo foi formado pelos “autonomistas” – ou também “federalistas”145 –, isto é, a minoria que reconhecia às seções a absoluta autonomia de decisão.
Durante o ano de 1872, a força da Internacional não havia diminuído. Confirmando o desenvolvimento desigual que caracterizara sua existência, sua expansão em alguns países (sobretudo na Espanha e na Itália) havia compensado a retração em outros (como, por exemplo, na Inglaterra). O dramático resultado em Haia havia implodido a organização, fazendo com que muitos militantes, especialmente no campo “centralista”, percebessem que ali se encerrara um importante capítulo na história do movimento operário. , Pouquíssimas forças na Europa se alinharam com a Federação Americana em apoio ao novo Conselho Geral, sediado em Nova York: a Federação Romanda e algumas seções de língua alemã na Suíça, ambas sustentadas pela incessante iniciativa de Becker; o apoio – incondicional, mas de pouco peso – do Partido Socialdemocrata dos Trabalhadores da Alemanha; as recém-criadas seções austríacas, que, diferentemente dos alemães, foram capazes de enviar ao Conselho Geral um pouco de dinheiro recolhido entre seus membros; e as longínquas federações de Portugal e Dinamarca.
Na Espanha, Itália e Holanda, no entanto, poucos seguiram as diretrizes de Marx; na Irlanda, a organização não se firmara, e na França, em 1873, não existia nenhuma seção da Internacional. Restava, naturalmente, a Inglaterra, mas em novembro de 1872, em razão de conflitos pessoais iniciados muito antes do Congresso de Haia, o Conselho Federal Inglês se dividiu em dois grupos, hostis entre si, que reivindicavam representar a Internacional na Grã-Bretanha. O líder dos opositores foi Hales, que, em nome de dezesseis seções, e com a adesão de importantes dirigentes da Internacional, como Hermann Jung (1830-1901) e Thomas Mottershead (1825-1884), esconjurou o Conselho Geral de Nova York e convocou um novo congresso da federação inglesa para janeiro de 1873. Hales e Eccarius protagonizaram algumas surpreendentes acrobacias políticas, pois, embora fossem reformistas por convicção e defendessem a participação em eleições – sua ideia era converter a Internacional num partido político, com apoio de sindicatos e aliado à ala liberal da burguesia –, alinharam-se oficialmente com os abstencionistas liderados por Guillaume e Bakunin. Engels respondeu com duas circulares – subscritas por importantes dirigentes de Manchester e do Conselho Federal Inglês, além dos conhecidos Dupont e Friedrich Lessner (1825-1910) –, nas quais foram reconhecidas as decisões tomadas em Haia. O congresso “oficial” do Conselho Federal Inglês realizou-se em junho, mas os participantes tiveram de constatar uma dura verdade: com a transferência do Conselho Geral para Nova York, percebido por todos – também pela imprensa – como o fim da organização, os sindicatos ingleses não se sentiram mais como parte integrante daquilo que havia restado da Internacional146. Assim, os dois grupos tinham em comum uma única coisa: o rápido declínio.
O congresso geral dos centralistas foi realizado na mesma cidade que havia sediado o primeiro encontro da Internacional: Genebra. Graças ao incansável Becker, dele participaram trinta delegados, entre os quais, pela primeira vez, duas mulheres. Porém, quinze desses delegados eram de Genebra, e a participação de representantes de seções de outros países reduziu-se a um alemão, um belga e um austríaco. Tendo percebido o clima de desmobilização na Europa, o Conselho Geral decidiu não enviar nenhum representante de Nova York, e até mesmo Serrailler, designado pela federação inglesa, renunciou à viagem. De fato, foi o fim da Internacional centralista.
Do outro lado do oceano, não obstante os esforços efetuados por Sorge para manter viva a chama da Internacional, a Federação Americana estava a um passo do colapso. Sua situação financeira, agravada pelo declínio de seus filiados a menos de mil (poucos dos quais pagavam contribuições), tornava difícil até mesmo a compra de selos. Também a qualidade de seus documentos oficiais, contendo frequentes erros de ortografia, era miserável, pois faltavam dirigentes capazes de escrever adequadamente em inglês e francês. Reduzida a ocupar-se exclusivamente de questões relativas aos Estados Unidos, ela não conseguiu, no entanto, mobilizar os trabalhadores nativos, que alternaram sentimentos de hostilidade e indiferença em relação à organização, uma realidade que nem mesmo o lançamento do Manifesto ao povo trabalhador da América do Norte conseguiu alterar147. Após uma perda ulterior de filiados, Sorge demitiu-se do cargo de secretário-geral e, daquele momento em diante, por mais dois anos e meio, a vida da organização reduziu-se à crônica de uma morte anunciada. Sua dissolução final se deu em 15 de julho de 1876, quando 10 delegados, representando 635 membros148, reuniram-se na Filadélfia, antes de dirigirem-se ao congresso do Partido Operário dos Estados Unidos, programado pra coincidir com a Centennial Exhibition, primeira exposição internacional realizada nos Estados Unidos.
Se a organização “centralista” operou em apenas alguns poucos países, por um breve tempo, e não deu nenhuma contribuição significativa ao desenvolvimento da teoria, os autonomistas, ao contrário, continuaram a ser, por alguns anos, uma realidade concreta e decisivamente mais ativa. No congresso de Saint-Imier, no qual tomaram parte não apenas os suíços, mas também os italianos, espanhóis e franceses, foi estabelecido que “ninguém tem o direito de privar as federações e seções autônomas do incontestável direito de determinar a si mesmas e seguir a linha de conduta política que elas creem ser a melhor”149. Essa declaração reuniu numa ampla frente todos os opositores de Marx, que propuseram um “pacto de amizade, solidariedade e defesa mútua” entre todas as federações que defendiam a autonomia federalista no seio da Internacional. A tomada de posição foi obra de Guillaume.
Diferentemente de Bakunin, que teria preferido um documento mais intransigente, o jovem – porém mais prudente – militante suíço fixara como meta estender o consenso para além do Jura, da Espanha e da Itália, conquistando todas as outras federações que se opunham à linha de Londres150. Sua tática foi bem-sucedida. O nascimento de uma nova Internacional fora cuidadosamente preparado, mas sem forçar a nota com declarações altissonantes.
Nos meses sucessivos, a organização recebeu numerosas adesões. O baluarte dos autonomistas continuou a ser a Espanha. As perseguições à Internacional promovidas por Práxedes Mateo Sagasta (1825-1903) não impediram seu desenvolvimento. O congresso federal, realizado em Córdoba entre dezembro de 1872 e janeiro de 1873, mostrou uma organização em plena expansão. Estava formada por mais cinquenta federações, compostas de mais de trezentas seções, que reuniam um total de mais de 25 mil membros (7.500 dos quais em Barcelona)151. A partir do fim de 1872, os autonomistas expandiram seu apoio em novos países. Em dezembro, a federação belga, reunida em Bruxelas, depois de haver declarado nulas as resoluções adotadas em Haia, recusou-se a reconhecer o Conselho Geral de Nova York e subscreveu o pacto de Saint-Imier152. Em janeiro de 1873, aderiram à organização os rebeldes ingleses, liderados por Hales e Eccarius, seguidos, no mês seguinte, da federação holandesa153.
Embora os autonomistas – que também haviam conservado contatos na França, na Áustria e nos Estados Unidos – formassem a maioria de uma Internacional renovada, a coalizão a que deram vida foi um confuso conglomerado das mais diversas doutrinas. Nessa aliança espúria tomavam parte: os coletivistas anárquicos suíços, encabeçados por Guillaume e Schwitzguébel (Bakunin retirou-se à vida privada a partir de 1873 e morreu em 1876); a Federação Belga, guiada por De Paepe, que passou a defender um tipo de socialismo no qual o Estado popular (Volksstaat) deveria ter maiores poderes e competências, a começar pela gestão de todos os serviços públicos; os italianos, que radicalizaram cada vez mais as próprias posições, chegando a defender teses insurrecionais (“a propaganda mediante fatos”) destinadas ao fracasso; e os ingleses, favoráveis não só à participação nas eleições, mas também à aliança com as forças burguesas mais progressistas. Em 1874, foram estabelecidos contatos até mesmo com os lassallianos da Associação Geral dos Trabalhadores Alemães.
O cenário até aqui descrito atesta que a causa primária da ruptura consumada em Haia não estava na antinomia entre um componente inclinado a avançar gradualmente no interior do Estado e uma outra posição intransigente e mais revolucionária, tampouco entre defensores e opositores da ação política. O fator determinante de uma oposição tão ampla e radical ao Conselho Geral foi, em vez disso, a reviravolta demasiadamente brusca ocorrida durante Conferência de Londres de 1871. As federações do Jura, a espanhola e também a italiana jamais aceitariam a solicitação de Marx de construir partidos políticos da classe trabalhadora, e as razões disso estavam nas condições socioeconômicas desses países. Uma tática política mais prudente teria permitido conservar o apoio da Bélgica – desde muitos anos, fundamental nos equilíbrios internos da Associação – e de outras jovens federações, como a holandesa. Além disso, relações internas menos conflituosas teriam evitado a cisão na Inglaterra, ocorrida mais por razões pessoais do que por dissensos significativos em relação à linha política. A transferência do Conselho Geral para Nova York, como haviam previsto alguns autonomistas, deixou aberto a estes últimos um grande espaço político e contribuiu para sua afirmação a partir de 1872. Segundo Marx, porém, a “primeira” Internacional havia cumprido sua missão histórica e era chegada a hora de baixar a cortina.
Os autonomistas realizaram seu “primeiro” congresso – por eles definido como o sexto, pois se consideravam os legítimos continuadores da organização – em Genebra. Os 32 delegados (provenientes da Bélgica, da Espanha, da França, da Itália, da Inglaterra, da Holanda e da Suíça) se reuniram na cidade suíça de 1o a 6 de setembro de 1873, uma semana antes do congresso dos centralistas, e declararam que sua reunião abria “uma nova era na Internacional”154. Aboliram, em votação unânime, o Conselho Geral e, pela primeira vez numa reunião da Internacional, houve um debate sobre a sociedade anarquista155. Além disso, o arsenal teórico-político dos internacionalistas foi enriquecido por uma nova ideia: a da greve geral como arma para realizar a revolução social. Assim foram esboçados os lineamentos da concepção anarcossindicalista156.
O congresso seguinte foi realizado em Bruxelas, de 7 a 13 de setembro de 1874. Dele participaram dezesseis delegados, entre os quais um proveniente da Inglaterra (Eccarius), um da Espanha e o restante da Bélgica. Entre esses catorze delegados belgas, dois possuíam o mandato de uma seção francesa (Paris) e de uma italiana (Palermo), enquanto dois outros eram alemães, à época residentes na Bélgica. Estes últimos eram lassallianos, e um deles, Karl Frohme (1850-1933), representava a Associação Geral dos Trabalhadores Alemães. No entanto, embora anarquistas e lassallianos fossem polos opostos no mapa do socialismo, Guillaume motivou sua presença referindo-se às novas regras aprovadas pelo Congresso de Genebra de 1873, segundo as quais os trabalhadores de cada país podiam escolher livremente o modo que julgavam o mais justo para obter sua própria emancipação157. Essa Internacional, porém, tornara-se, em grande medida, um lugar de debate abstrato, onde um número cada vez menor de dirigentes operários – e pouco representativos – discutiam cada vez menos sobre as condições materiais dos trabalhadores e as ações necessárias para modificá-las. O debate de 1874 concentrou-se na escolha entre anarquia e Estado popular, e seu principal protagonista foi De Paepe, que depois de três anos retomara seu posto na Internacional. Numa de suas intervenções, afirmou que “na Espanha, numa parte da Itália e no Jura havia partidários da anarquia; enquanto na Alemanha, na Holanda, na Inglaterra e na América havia partidários do Estado operário (a Bélgica flutuava ainda entre as duas tendências)”158. Tampouco nesse caso foi tomada qualquer decisão coletiva, e no fim do congresso sancionou-se por unanimidade que cabia “a cada federação e partido democrático socialista de cada país determinar a linha de conduta política que pensava ser a mais adequada”159.
No curso do oitavo congresso, realizado em Berna de 26 a 30 de outubro de 1876, a discussão prosseguiu na mesma linha da reunião precedente. Dela participaram 28 delegados, dos quais 19 suíços (17 da Federação do Jura), 4 da federação italiana, 2 da espanhola e 2 da francesa, além de De Paepe, como representante da Bélgica e da Holanda. O debate demonstrou de modo irrefutável a total irreconciliabilidade entre as posições de De Paepe e Guillaume160. Em todo caso, a reunião concluiu-se acolhendo uma proposta da federação belga, que convocava para o ano seguinte um congresso socialista universal, ao qual seriam chamadas “todas as frações dos partidos socialistas da Europa”161.
Esse evento foi antecipado pelo último congresso da Internacional, realizado em Verviers de 6 a 8 de setembro de 1877. Dele participaram 22 delegados: 13 da Bélgica, 2 da Espanha, 2 da Itália, 2 da França e 2 da Alemanha, além de Guillaume, representante da Federação do Jura, aos quais se juntaram três enviados de grupos socialistas, presentes à reunião com função meramente consultiva. Um deles era o russo Piotr Kropotkin (1842-1921), futuro pai do anarco-comunismo. Desse encontro participaram, porém, apenas militantes de tendência anarquistas, e, entre eles, alguns – como o italiano Andrea Costa (1851-1910) – que pouco tempo depois passariam ao socialismo. Assim, também a Internacional autonomista, que apenas na Espanha tivera um enraizamento nas massas, havia exaurido seu ciclo. Ela acabou superada pela tomada de consciência, difundida em quase todo o movimento operário europeu, da absoluta importância de se tomar parte na luta política por meio de organizações políticas. O fim da experiência autonomista significou também o ocaso das relações entre anarquistas e socialistas, que, a partir daquele momento, viram seus caminhos definitivamente separados.
XIII. A nova Internacional
De 9 a 16 de setembro de 1877, a cidade de Gent, na Béligica, sediou o Congresso Socialista Universal, maior encontro já realizado entre as organizações do movimento operário. Dele participaram, acolhidos por 3 mil trabalhadores, delegados de nove países (França, Alemanha, Suíça, Inglaterra, Espanha, Itália, Hungria, Rússia e, naturalmente, Bélgica) e também representantes da Dinamarca, dos Estados Unidos e, pela primeira vez, de agrupamentos operários da Grécia e do Egito. Os promotores do congresso foram líderes históricos da Internacional, como De Paepe e Liebknecht (Frankel, Guillaume, Hales e outros também estavam presentes), testemunhas da importância que a organização tivera na formação, em toda a Europa, de uma geração de dirigentes do movimento dos trabalhadores.
No documento conclusivo do congresso, o Manifesto às organizações operárias e sociedades de todos os países, redigido por De Paepe e pelo jovem Louis Bertrand (1856-1943), que se tornaria em seguida um dos principais socialistas belgas, afirmou-se a exigência de instituir “uma União Geral do Partido Socialista”. A grande maioria dos presentes subscreveu um pacto, no qual se declarava:
considerando que a emancipação social é inseparável da emancipação política; considerando que o proletariado, organizado como partido distinto e oposto a todos os partidos formados pelas classes proprietárias, deve utilizar todos os meios políticos voltados à emancipação social de todos os seus membros; considerando que a luta contra todo domínio de classe não é nem local nem nacional, mas universal, e que o processo depende do acordo e da cooperação das organizações dos diversos países; os subscritos, delegados no Congresso Socialista Universal de Gent, decidiram que as organizações por eles representadas devem ajudar umas às outras, moral e materialmente, em todas as reivindicações econômicas e políticas.
Seis anos depois da Conferência de Londres de 1871, as teses aprovadas em Gent confirmaram as previsões de Marx. No mesmo documento, afirmava-se:
Preconizamos a necessidade da ação política como um poderoso meio de agitação, propaganda, educação popular e associação. A presente organização da sociedade deve ser combatida simultaneamente por todos os lados e com todos os meios à nossa disposição. […] O socialismo não deve ser apenas especulação teórica sobre a organização provável da sociedade futura; ele deve ser real e vivo, envolvido nas aspirações efetivas, necessidades imediatas e lutas diárias da classe proletária contra aqueles que controlam o capital social, assim como o poder social.
Para arrancar um direito político da burguesia, para organizar numa associação trabalhadores até então isolados, para obter uma redução nas horas de trabalho por meio de greves ou sociedades de resistência: tudo isso significa tanto trabalhar para a edificação de uma sociedade nova quanto investigar as possibilidades de configurações sociais do futuro.
Que os trabalhadores até então desorganizados se organizem e formem associações! Que aqueles que estão organizados apenas no plano da economia desçam até a arena política; lá eles encontrarão os mesmos adversários e a mesma batalha, e toda vitória obtida num desses níveis sinalizará o triunfo no outro!
Que a classe despossuída em cada nação se constitua num grande partido distinto de todos os partidos burgueses, e que esse partido social marche de mãos dadas com aqueles dos outros países!
Para reivindicar todos os seus direitos, para abolir todos os privilégios, trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!162
Nas décadas sucessivas, o movimento operário adotou um programa socialista, expandiu-se primeiro em toda a Europa, e depois em cada ângulo do mundo, e construiu novas estruturas de coordenação supranacionais. Cada uma destas, além de repetir seu nome (a exemplo da Segunda Internacional, de 1889-1916, ou da Terceira Internacional, de 1919-1943), referiu-se constantemente aos valores e ao ensinamento da “primeira” Internacional. Desse modo, sua mensagem revolucionária se revelou de extrema fecundidade, produzindo, com o passar do tempo, resultados ainda maiores que aqueles obtidos no curso de sua própria existência.
A Internacional imprimiu na consciência dos proletários a convicção de que a emancipação do trabalho do jugo do capital não podia ser obtida no interior dos limites de um único país; ao contrário, era uma questão global. Do mesmo modo, graças à Internacional os operários compreenderam que sua emancipação só podia ser conquistada por eles mesmos, por sua capacidade de organizar-se, não podendo ser transferida a outrem. Por fim, a Internacional – e nesse ponto a contribuição teórica de Marx foi fundamental – difundiu entre os trabalhadores a consciência de que sua escravidão só teria fim com a superação do modo de produção capitalista e do trabalho assalariado, uma vez que as melhorias internas do sistema vigente, ainda que importantes, não modificariam por si só sua dependência econômica das oligarquias patronais.
Existe um verdadeiro abismo a separar as esperanças daquele tempo e a desesperança do presente, a determinação antissistêmica daquelas lutas e a servidão ideológica contemporânea, a solidariedade construída por aquele movimento operário e o individualismo de nossos dias, produto da competição do mercado e das privatizações, a paixão pela política dos trabalhadores que se reuniram em Londres em 1864 e a resignação e apatia hoje imperantes.
No entanto, numa época em que o mundo do trabalho voltou a sofrer condições de exploração semelhantes àquelas do século XIX, o projeto da Internacional retorna com extraordinária atualidade. Sob cada injustiça social, em todo lugar em que trabalhadoras e trabalhadores se veem privados de seus direitos, germina a semente da nova Internacional.
A barbárie da “ordem mundial” vigente, os desastres ecológicos produzidos pelo presente modo de produção, o inaceitável abismo que separa as riquezas de uma minoria de exploradores e o estado de indigência de extratos cada vez mais vastos da população mundial, a opressão de gênero, os novos ventos da guerra, do racismo e do chauvinismo, impõem ao movimento operário contemporâneo reorganizar-se, com urgência, a partir de duas características da Internacional: a radicalidade dos objetivos a perseguir e a forma poliédrica de sua estrutura. Os objetivos da organização nascida em Londres há 150 anos são hoje mais atuais e indispensáveis que nunca. Mas, para estar à altura do presente, a nova Internacional não poderá prescindir de dois requisitos fundamentais: deverá ser plural e anticapitalista.
Apêndice
Cronologia e membros da Associação Internacional dos Trabalhadores
Na primeira parte deste Apêndice são elencados, em ordem cronológica, todas as conferências e congressos da Internacional, divididos em dois blocos: as reuniões realizadas entre 1864 e 1872, ou seja, desde sua fundação até a ruptura consumada no Congresso de Haia, e aquelas realizadas separadamente por “autonomistas” e “centralistas”, a partir de 1873.
A segunda parte é constituída de uma tabela contendo alguns dados relativos aos membros da Internacional em diversos países. As informações sobre a consistência real da Associação são muito incertas, pelas seguintes razões: 1) apenas uma parte mínima das organizações – como os sindicatos ingleses e os partidos alemães – possuia um registro exato dos próprios escritos; 2) o fato de a maior parte dos trabalhadores ter ingressado na organização não por meio de inscrições individuais mas sobretudo mediante adesões de associações coletivas (como, por exemplo, as sociedades de resistência) torna quase impossível uma contagem precisa de seus membros; 3) em diversos países, a Internacional foi ilegal por alguns anos, e a clandestinidade de seus membros não permite avaliar acuradamente seu número.
É talvez por essa razão que – com exceção do volume coletivo La Première Internationale: l’institute, l’implantation, le rayonnement163 – a tentativa de calcular o número completo dos membros da Internacional não tenha sido realizada em nenhum dos muitos livros a ela dedicados. Se me pareceu útil tentar realizar tal cálculo aqui, apesar do risco de alguma imprecisão, é sobretudo porque a maior parte das publicações apresentaram números excessivos, criando assim uma imagem distorcida da realidade.
A primeira coluna da tabela lista, em ordem cronológica de fundação, os países em que a Internacional foi estabelecida; ela não inclui, por exemplo, a Austrália, a Nova Zelândia ou a Índia, onde ocorreram apenas contatos esporádicos com pequenos grupos de trabalhadores. Tampouco cobre a Rússia, uma vez que a Internacional jamais conseguiu penetrar naquele país (embora alguns exilados tenham fundado um círculo na Suíça). A segunda coluna apresenta os anos em que a organização atingiu seu pico nos respectivos países, e a terceira oferece uma cifra aproximada para o número de seus membros. Esses totais foram calculados com base nos estudos contidos em La Première Internationale: l’institute, l’implantation, le rayonnement e outras monografias listadas na Bibliografia no fim deste volume.
Cronologia
Conferências e congressos (1864-1872)
Conferência de Londres: 25-29 de setembro de 1865
I Congresso: Genebra, 3-8 de setembro de 1866
II Congresso: Lausanne, 2-8 de setembro de 1867
III Congresso: Bruxelas, 6-13 de setembro de 1868
IV Congresso: Basileia, 6-12 de setembro de 1869
Conferência dos delegados de Londres: 17-23 de setembro de 1871 V Congresso: Haia, 2-7 de setembro de 1872
A Internacional “autonomista”
VI Congresso: Genebra, 1o-6 de setembro de 1873 VII Congresso: Bruxelas, 7-13 de setembro de 1874 VIII Congresso: Berna, 26-30 de outubro de 1876 IX Congresso: Verviers, 6-8 de setembro de 1877
A Internacional “centralista”
VI Congresso: Genebra, 7-13 de setembro de 1873 Conferência dos delegados da Filadélfia: 15 de julho de 1876
Número de membros
| País | Ano de pico | Número de membros |
| Inglaterra | 1867 | 50 mil |
| Suíça | 1870 | 6 mil |
| França | 1871 | Mais de 30 mil |
| Bélgica | 1871 | Mais de 30 mil |
| Estados Unidos | 1872 | 4 mil |
| Alemanha | 1870 | Mais de 10 mil (inclusive membros do Partido Socialdemocrata dos Trabalhadores da Alemanha) |
| Espanha | 1873 | Cerca de 30 mil |
| Itália | 1873 | Cerca de 25 mil |
| Holanda | 1872 | Menos de mil |
| Dinamarca | 1872 | Menos de 2 mil |
| Portugal | 1872 | Menos de mil |
| Irlanda | 1872 | Menos de mil |
| Império Áustro-Húngaro | 1872 | Menos de 2 mil |
1. As origens do conceito de alienação
A alienação pode ser incluída entre as teorias mais relevantes e debatidas do século XX. Esta concepção elaborada por Marx assumiu um papel determinante no âmbito das discussões desenvolvidas sobre o tema. No entanto, diferente do que se poderia imaginar, o caminho da sua afirmação não foi absolutamente linear e as publicações de algumas obras inéditas de Marx, contendo reflexões sobre a alienação, representaram significativos pontos de viragem para a transformação e a difusão desta teoria.
Ao longo dos séculos, o termo alienação foi utilizado muitas vezes e com significados mutáveis. Na reflexão teológica ele designou o afastamento do homem em relação a deus, nas teorias do contrato social serviu para indicar a perda da liberdade original do indivíduo, enquanto na economia política inglesa foi empregado para descrever a transferência de propriedade de terras e de bens. A primeira exposição filosófica sistemática de alienação, entretanto, ocorre somente no início do século XIX com Georg W. F. Hegel. Na Fenomenologia do Espírito ele a tornou de fato a categoria central do mundo moderno e empregou os termos Entäusserung (renúncia) e Entfremdung (estranhamento, cisão) para representar o fenômeno mediante o qual o espírito vem a ser o outro de si mesmo na objetividade. Tal problemática teve grande importância também junto a autores da Esquerda hegeliana e a concepção de alienação religiosa elaborada por Ludwig Feuerbach em A Essência do Cristianismo, isto é, a crítica do processo mediante o qual o homem se convence da existência de uma divindade imaginária e se submete a ela, contribuiu de modo significativo para o desenvolvimento do conceito.
Subsequentemente, a alienação desaparece da reflexão filosófica e nenhum dentre os mais importantes autores da segunda metade do século XIX lhe dedicou particular atenção. O próprio Marx, nas obras publicadas ao longo de sua vida, empregou o termo em raríssimas ocasiões e este tema resultou totalmente ausente também no marxismo da Segunda Internacional (1889-1914) [1].
Neste período, entretanto, alguns pensadores elaboraram conceitos que, sucessivamente, foram associados àquele de alienação. Nos livros Divisão do Trabalho e Suicídio, por exemplo, Émile Durkheim formulou a noção de “anomia”, com a qual pretendia indicar aquele conjunto de fenômenos que se manifestavam nas sociedades nas quais as normas que garantem a coesão social entram em crise após o grande desenvolvimento da divisão do trabalho. As mudanças sociais ocorridas no século XIX, com enormes transformações no processo produtivo, constituíram também o pano de fundo das reflexões dos sociólogos alemães.
Em A filosofia do dinheiro, Georg Simmel dedicou grande atenção ao predomínio das instituições sociais sobre os indivíduos e à impessoalidade das relações humanas. Ao passo que, em Economia e sociedade, Max Weber se deteve sobre os conceitos de “burocratização” e de “cálculo racional” nas relações humanas, consideradas a essência do capitalismo. Estes autores, porém, interpretaram tais fenômenos como eventos inevitáveis e as suas considerações foram sempre guiadas pela vontade de tornar melhor a ordem social e política existente, e não certamente pela vontade de subvertê-la em outra diferente.
2. A redescoberta da alienação
A redescoberta da teoria da alienação ocorreu graças a György Lukács que, em História e Consciência de Classe, referindo-se a algumas passagens de O Capital de Marx, em particular ao parágrafo dedicado ao “caráter fetichista da mercadoria” (Der Fetischcharakter der Ware), elaborou o conceito de reificação (Verdinglichung o Versachlichung), ou seja, o fenômeno através do qual a atividade de trabalho se contrapõe ao homem como algo objetivo e independente e o domina mediante leis autônomas e estranhas a ele. Nos traços fundamentais, porém, a teoria de Lukács era ainda muito semelhante à de Hegel, uma vez que ele também concebeu a reificação como um “fato estrutural fundamental.” (LUKÁCS, 1971, p. 112). Assim, quando na década de Sessenta, sobretudo após o aparecimento da tradução francesa do seu livro [2] , este texto voltou a exercer uma grande influência entre os estudiosos e militantes de esquerda, Lukács decide republicá-lo em uma nova edição introduzida por um longo prefácio autocrítico, no qual, para esclarecer a sua posição, ele afirmou: “História e Consciência de Classe segue Hegel na medida em que, também neste livro, o estranhamento é colocado sobre o mesmo plano da objetivação.” (LUKÁCS, 1971, p. XXV).
Outro autor que durante os anos Vinte dispensou grande atenção a estas temáticas foi Isaak Ilijč Rubin. No seu Ensaio sobre a teoria do valor de Marx, ele sustenta que a teoria do fetichismo constituía “a base de todo o sistema econômico de Marx e, em particular, da sua teoria do valor.” (RUBIN, 1976, p. 5). Para o autor russo, a reificação das relações sociais representava “um fato real do capitalismo” (RUBIN, 1972, p. 23), isto é, consistia em “uma verdadeira e própria ‘materialização’ das relações de produção, e não de uma simples ‘mistificação’ ou de uma ilusão ideológica. Trata[va]-se de uma das características estruturais da economia na sociedade atual. […] O fetichismo não [era] somente um fenômeno da consciência social, mas do próprio ser social.” (RUBIN, 1972, p.49). Não obstante estas intuições, perspicazes se se considera o período no qual foram escritas, a obra de Rubin não consegue contribuir com o conhecimento da teoria da alienação, uma vez que, tendo sido traduzida em inglês (e depois desta língua em outras ainda) somente em 1972, conheceu uma tardia recepção no Ocidente.
O evento decisivo que interferiu para revolucionar de maneira definitiva a difusão do conceito de alienação foi a publicação, em 1932, dos [Manuscritos Econômico Filosóficos de 1844], uma obra inédita da produção juvenil de Marx. A partir deste texto emerge o papel de destaque conferido por Marx à teoria da alienação durante uma importante fase da formação de sua concepção: a descoberta da economia política [3] . Marx, na realidade, mediante a categoria de trabalho alienado (entfremdete Arbeit) [4] não somente transportou a problemática da alianação da esfera filosófica, religiosa e política para a esfera econômica da produção material, como também fez desta última o pressuposto para compreender e superar as primeiras [5] . Nos [Manuscritos econômico-filosóficos de 1844], a alienação foi descrita como o fenômeno através do qual o produto do trabalho “surge frente ao trabalho como um ente estranho, como uma potência independente do produtor.” (MARX, [1844]1976, p. 298).. Para Marx [1844]1976, p 299,
A expropriação do trabalhador em seu produto tem o significado não somente de que seu trabalho se torna um objeto, uma existência externa, mas, bem além disso, que existe fora dele, independente dele e estranha a ele, tornando-se uma potência autônoma diante dele, que a vida que ele concedeu ao objeto se lhe defronta hostil e estranha.
Ao lado desta definição geral, Marx elencou quatro diferentes tipos de alienação que indicavam como na sociedade burguesa o trabalhador seria alienado: 1) do produto de seu trabalho, que se torna um “objeto estranho e possuidor de um domínio sobre ele”; 2) na atividade de trabalho, que é percebida como “voltada contra ele mesmo [… e] a ele não pertencente”; 3) do gênero humano, uma vez que a “essência específica do homem” é transformada em “uma essência estranha a ele”; e 4) dos outros homens, isto é, em relação “ao trabalho e ao objeto de trabalho” (MARX, [1844]1976, p. 301, 304), [6] realizados pelos seus semelhates.
Para Marx, diferente de Hegel, a alienação não coincidia com a objetivação enquanto tal, mas com uma realidade econômica precisa e com um fenômeno específico: o trabalho assalariado e a transformação dos produtos do trabalho em objetos que se contrapõem aos seus produtores. A diversidade política entre as duas interpretações é enorme. Ao contrário de Hegel, que havia representado a alienação como manifestação ontológica do trabalho, Marx concebeu este fenômeno como característica de um determinado período da produção, o capitalista, considerando possível sua superação mediante “a emancipação da sociedade da propriedade privada.” (MARX, [1844] 1976, p. 307). Considerações análogas foram desenvolvidas nos cadernos de notas que continham estratos da obra Elementi di economia politica de James Mill:
O […] trabalho seria livre manifestação da vida e portanto gozo da vida. Mas nas condições da propriedade privada ele é alienação da vida; de fato eu trabalho para viver, para obter os meios de vida. O meu trabalho não é vida. Em segundo lugar: no trabalho seria, portanto, afirmada a peculiaridade da minha individualidade, já que nele seria afirmada a minha vida individual. O trabalho seria portanto verdadeira e ativa propriedade. Mas nas condições da propriedade privada a minha individualidade está alienada ao ponto desta atividade me ser odiosa, e; para mim um tormento e só a aparência de uma atividade, e é portanto também somente uma atividade de extorção e imposta somente por uma acidental necessidade exterior, e não por uma necessidade interior. (RUBIN, 1972, p. 247-248).
Portanto, mesmo nestas fragmentárias e, às vezes, incertas formulações juvenis, Marx tratou sempre a alienação de um ponto de vista histórico e nunca natural.
3. As concepções não marxistas de alienação
Levaria ainda muito tempo, entretanto, antes que uma concepção histórica, e não ontológica, de alienação pudesse afirmar-se. De fato, a maior parte dos autores que, nas primeiras décadas do século XX, se ocupou desta problemática o fez sempre a considerando um aspecto universal da existência humana. Em Ser e tempo, Martin Heidegger tratou do problema da alienação no aspecto meramente filosófico e considerou esta realidade como uma dimensão fundamental da história. A categoria utilizada por ele para descrever a fenomenologia da alienação foi a “decadência” (Verfallen) [7] , isto é, a tendência do Ser-aí (Dasein) – que na filosofia heideggeriana indica a constituição ontológica da vida humana – que se perde na falta de autenticidade e no conformismo do mundo que o circunda.
Para Heidegger (2005, p. 215), “este estar no ‘mundo’ significa a identificação no ser-junto dominado pelo falatório, pela curiosidade e pelo equívoco.” Um território, portanto, completamente diverso da fábrica e da condição operária que estavam no centro das preocupações e das elaborações de Marx. Além disto, esta condição de “decadência” não foi considerada por Heidegger como uma condição “negativa e deplorável, que o progresso da civilização humana pudesse um dia anular” (HEIDEGGER, 2005, p. 215-216), mas como uma característica ontológica, “um modo existencial do ser-no-mundo.” (HEIDEGGER, 2005, p. 218). [8]
Também Herbert Marcuse, que, diferente de Heidegger, conhecia bem a obra de Marx [9] , identificou a alienação com a objetivação em geral e não com a sua manifestação nas relações de produção capitalistas. No ensaio Sobre os fundamentos filosóficos do conceito de trabalho na ciência econômica, ele sustenta que o “caráter de peso do trabalho” não podia ser reduzido meramente a “determinadas condições presentes na execução do trabalho, a sua organização técnico-social”, mas devia ser considerado como um dos seus traços fundamentais:
trabalhando, o trabalhador está “junto da coisa”, seja estando atrás de uma máquina, ou projetando planos técnicos, ou tomando medidas organizativas, ou estudando problemas científicos, ou instuindo os homens, etc. No seu fazer se deixa guiar pela coisa, se sujeita e obedece as suas leis, também quando domina o seu objeto “[…]. Em todo caso não está ‘junto de si’ […], está junto ao ‘diferente de si’, também quando este fazer realiza a própria vida livremente escolhida. Esta alienação e estranhamento da existência […] é, por princípio, ineliminável.” (MARCUSE, 1969, p. 170).
Para Marcuse, portanto, existia uma “negatividade originária do fazer laboral” (MARCUSE, 1969, p. 171), que ele reputava pertencer à “essência da existência humana.” (MARCUSE, 1969, p. 171). A crítica da alienação tornou-se, assim, uma crítica da tecnologia e do trabalho em geral. E a superação da alienação foi considerada possível somente através do jogo, momento no qual o homem podia alcançar a liberdade que lhe foi negada durante a atividade produtiva: “um único lance de bola de um jogador representa um triunfo da liberdade humana sobre a objetividade que é infinitamente maior que a conquista mais clamorosa do trabalho técnico.” (MARCUSE, 1969, p. 155).
Em Eros e civilização, Marcuse se distanciou da concepção marxiana de modo bastante nítido. Ele afirmou que a emancipação do homem podia realizar-se somente mediante a libertação do trabalho (abolition of labor) [10] e através da afirmação da libido e do jogo nas relações sociais. A possibilidade de superar a exploração, mediante o nascimento de uma sociedade baseada na propriedade comum dos meios de produção, foi definitivamente afastada, já que o trabalho em geral, não apenas o assalariado, foi considerado como:
trabalho para um aparelho que eles [a grande maioria da população] não controlam, que opera como um poder independente. A este poder os indivíduos, se desejam viver, devem submeter-se, e ele torna-se tanto mais estranho quanto mais se especializa a divisão do trabalho. […] Trabalham em um estado de alienação […] [em] ausência de satisfação [e] negação do princípio do prazer. (MARCUSE, 1969, p. 88).
A norma cardinal contra a qual os homens deveriam rebelar-se era o princípio do desempenho (performance) imposto pela sociedade. Segundo Marcuse (1969, p.89), de fato:
o conflito entre sexualidade e civilização se acirra com o desenvolvimento do domínio. Sob a lei do princípio do desempenho, corpo e alma são reduzidos a instumentos de trabalho alienado; como tais podem funcionar somente se renunciam à liberdade daquele sujeito-objeto libidinal que originalmente o organismo humano é, e deseja ser. […] O homem existe como instrumento de desempenho alienado [11].
Ele conclui, portanto, que a produção material, ainda que tivesse sido organizada de maneira justa e racional, “nunca poderá representar um reino de civilização e de satisfação […]. É a esfera exterior ao trabalho que determina a liberdade e a realização.” (MARCUSE, 2001, p. 181). A alternativa proposta por Marcuse foi o abandono do mito de Prometeu tão caro a Marx, para alcançar um horizonte dionisíaco: a “libertação do eros.” (MARCUSE, 2001, p. 180). Diferente de Sigmund Freud, que em Il disagio della civiltà havia sustentado que uma organização social não repressiva teria comportado uma perigosa regressão de nível de civilização alcançado nas relações humanas (FREUD, 1971, p. 226, 231), Marcuse estava convencido que se a libertação dos instintos tivesse ocorrido em uma “sociedade livre”, altamente tecnológica e a serviço do homem, ela teria favorecido não somente “um desenvolvimento do progresso” (MARCUSE, 2001, p. 216), mas também criado “novas e duradouras relações de trabalho.” (MARCUSE, 2001, p. 180). [12]
As indicações sobre como poderia tomar corpo esta nova sociedade foram, porém muito vagas e utópicas. Marcuse acabou defendendo uma oposição ao domínio tecnológico em geral, para a qual a crítica da alienação não era mais utilizada para contrastar as relações de produção capitalistas, e chega a desenvolver uma reflexão tão pessimista sobre a mudança social a ponto de incluir também a classe operária entre os sujeitos que agiam em defesa do sistema.
A descrição de um estranhamento generalizado, produzido por um controle social invasivo e pela manipulação das necessidades, criada pela capacidade de influência dos mass-media (STANZIALE , 1995, p. 70-73), foi teorizada também por outros dois exponentes de ponta da escola de Frankfurt: Max Horkheimer e Theodor Adorno. Em Dialética do iluminismo, eles afirmaram que “a racionalidade técnica de hoje não é nada mais que a racionalidade do domínio. É o caráter coagido […] da sociedade estranhada de si mesma.” (HORKHEIMER; ADORNO, 2010, p. 127). Deste modo, eles haviam posto em evidência como no capitalismo conterporâneo até mesmo a esfera da diversão, ao mesmo tempo livre e alternativa ao trabalho, tinha sido absorvida nas engrenagens da reprodução do consenso.
Depois da Segunda guerra mundial, o conceito de alienação atracou também na psicanálise. Aqueles que se ocuparam dele partiram da teoria de Freud (1971), pela qual, na sociedade burguesa, o homem é posto diante da decisão de escolher entre natureza e cultura e, para poder gozar das seguranças garantidas pela civilização [13] , deve necessariamente renunciar às próprias pulsões. Os psicólogos ligaram a alienação às psicoses que se manifestam, em alguns indivíduos, propriamente em consequência desta escolha conflitual. Consequentemente, a vastidão da problemática da alienação foi reduzida a um mero fenômeno subjetivo.
O expoente que mais se ocupou do tema da alienação nesta disciplina foi Erich Fromm. Diferente da maioria dos seus colegas, ele nunca separou as manifestações da alienação do contexto histórico capitalista e em seu texto Psicanálise da sociedade contemporânea e o homem segundo Marx usou este conceito para tentar construir uma ponte entre a psicanálise e o marxismo. Todavia, também Fromm enfrentou esta problemática privilegiando sempre a análise subjetiva e a concepção de alienação, que resume como “uma forma de experiência pela qual a pessoa conhece a si mesma como a um estranho” (FROMM, 1981, p. 127) [14], permaneceu excessivamente circunscrita ao indivíduo.
Além disto, a sua interpretação da concepção de alienação em Marx se baseou somente nos [Manuscritos econômico-filosóficos de 1844] e se caracterizou por uma profunda incompreensão da especificidade e da centralidade do conceito de trabalho alienado no pensamento de Marx. Esta lacuna impediu Fromm de conferir a devida importância à alienação objetiva, isto é, aquela do operário na atividade de trabalho e em relação ao produto do seu trabalho, e o levou a sustentar, justamente por ter negligenciado a importância das relações de produção, teses que parecem até mesmo ingênuas:
Marx acreditava que a classe operária fosse a mais estranhada […], não previu até que ponto a alienação devia tornar-se o destino da grande maioria da população […]. O empregado, o vendedor, o gerente, são hoje mais alienados que o trabalhador manual especializado. A atividade deste último depende ainda da expressão de certas qualidades pessoais como a habilidade específica, a confiabilidade, etc., e ele não é constrangido a vender a sua “personalidade”, o seu sorriso, as suas opiniões em um negócio. (FROMM , 1973, p. 128). [15]
Entre as principais elaborações não marxistas de alienação deve ser mencionada, enfim, aquela que remonta a Jean-Paul Sartre e aos existencialistas franceses [16] . A partir dos anos Quarenta, em um período caracterizado pelos horrores da guerra, pela consequente crise das consciências e, na cena francesa, pelo neo-hegelianismo de Alexandre Kojeve (1986), o fenômeno da alienação foi assumido como referência recorrente seja na filosofia ou na literatura (SARTRE, 1977; CAMUS, 2001). Todavia, também nesta circunstância, a noção de alienação assume um perfil muito mais genérico em relação ao exposto por Marx.
A alienação foi identificada com um indistinto mal-estar do homem na sociedade, como uma separação entre a personalidade humana e o mundo da experiência e, significativamente, como condition humaine não suprimível. Os filósofos existencialistas não forneceram uma origem social específica à alienação, mas, tornando a assimilá-la a toda faticidade (a falência da experiência socialista na União Soviética favorece certamente a afirmação dessa posição) conceberam a alienação com um sentido genérico de alteridade humana [17] . Em uma das obras mais significativas desta tendência filosófica, os Ensaios sobre Marx e Hegel, Jean Hyppolite expôs esta posição do segunte modo:
[a alienação] não nos parece imediatamente redutível ao conceito de alienação do homem no capital exclusivamente, como entende Marx. Este é somente um caso particular de um problema mais universal, que é o da autoconsciência humana, que, incapaz de pensar a si mesma como um “cogito” separado, se encontra somente no mundo que edifica, nos outros eus que reconhece e que, as vezes, desconhece. Mas este modo de encontrar-se no outro, esta objetivação, é sempre mais ou menos uma alienação, uma perda de si e ao mesmo tempo um reencontrar-se. Assim, objetivação e alienação são inseparáveis e a sua unidade não pode ser outra coisa senão a expressão de uma tensão dialética que se vê no movimento mesmo da história. (HYPPOLITE, 1965, p. 105-106).
Marx havia contribuído para desenvolver uma crítica da sujeição humana baseada na oposição das relações de produção capitalistas [18] . Os existencialistas, ao contrário, tomaram um caminho diferente, isto é, tentaram absorver o pensamento de Marx, por meio daquelas partes de sua obra juvenil que podiam ser mais úteis as suas teses, em uma discussão privada de uma crítica histórica específica e por vezes meramente filosófica (FARACOVI, 1972, p. 28; MÉSZÁROS, 1976, p. 301-302).
4. O debate sobre o conceito de alienação nos escritos de juventude de Marx
Na discussão sobre alienação que se desenvolveu na França, o recurso às teorias de Marx foi muito frequente. Neste debate, no entanto, repetidamente foram examinados somente os [Manuscritos econômico-filosóficos de 1844] e não foram levadas em consideração nem mesmo as partes de O Capital a partir das quais Lukács havia construído a sua teoria da reificação nos anos Vinte. Além disto, algumas frases dos [Manuscritos econômico-filosóficos de 1844] foram completamente separadas do seu contexto e transformadas em citações sensacionalistas com o objetivo de demonstrar a suposta existência de um “novo Marx”, radicalmente diferente daquele que até então era conhecido, mergulhado na teoria filosófica e ainda privado do determinismo econômico que alguns de seus comentadores atribuíam a O Capital, texto, para dizer a verdade, muito pouco lido por aqueles que sustentaram esta tese.
Ainda a respeito aos manuscritos de 1844, os existencialistas franceses privilegiaram grandemente a noção de autoalienação (Selbstentfremdung), isto é, o fenômeno por meio do qual o trabalhador é alienado do gênero humano e dos seus semelhantes, o que Marx havia tratado no seu escrito de juventude, mas sempre em relação à alienação objetiva.
O mesmo clamoroso erro foi cometido por um importante expoente do pensamento filosófico-político do pós-guerra. Na obra Vida Ativa, de fato, Hannah Arendt construiu sua interpretação do conceito de alienação em Marx baseando-se somente nos [Manuscritos econômico-filosóficos de 1844]. E, além disto, privilegiando, entre as tantas tipologias de alienação indicadas por Marx, exclusivamente aquela subjetiva:
a expropriação e a alienação do mundo coincidem; e a idade moderna, contra as mesmas intenções dos seus protagonistas, começou com o alienar do mundo certos estratos da população. […] A alienação do mundo, portanto, e não a alienação de si, como pensava Marx, foi a característica distintiva da idade moderna. (HARENDT, 2009, p. 187).
Mostra de sua escassa familiaridade com as obras de maturidade de Marx é que, para assinalar os “passos pelos quais se vê como [Marx] tinha uma certa consciência das indicações no sentido da alienação mundana na economia capitalista”, Arendt indicou o artigo jornalístico de juventude. Debates sobre a lei contra os furtos de lenha, e não as dezenas de páginas a propósito, certamente muito mais significativas, de O Capital e dos seus manuscritos preparatórios. A sua surpreendente conclusão foi que: “no conjunto da obra de Marx estas considerações [tinham] um papel secundário, enquanto uma parte do primeiro plano [era] ocupada pelo extremo subjetivismo moderno.” (HARENDT, 2009, p. 274-275). Onde e de que modo, na sua análise da sociedade capitalista, Marx tenha privilegiado “a alienação de si” (HARENDT, 2009, p. 187) permanece um mistério para o qual Harendt não forneceu explicações em sua obra.
Nos anos Sessenta, a exegese da teoria da alienação contida nos [Manuscritos econômico-filosóficos de 1844] tornou-se o pomo da discórdia da interpretação geral de Marx. Neste período foi concebida a distinção entre dois supostos Marx: o “jovem Marx” e o “Marx maduro”. Esta arbitrária e artificial contraposição foi alimentada tanto por aqueles que preferiram o Marx das obras de juventude e as obras filosóficas (por exempo, a grande parte dos existencialistas), como por aqueles (entre estes Louis Althusser e quase todos os marxistas soviéticos) que afirmavam que o verdadeiro Marx seria somente aquele de O Capital.
Aqueles que aderiram à primeira tese consideraram a teoria da alienação contida nos [Manuscritos econômico-filosóficos de 1844] o ponto mais significativo da crítica marxiana da sociedade; enquanto aqueles que abraçaram a segunda hipótese mostraram, frequentemente, uma verdadeira e própria “fobia da alienação”; tentando, em um primeiro momento, minimizar a sua importância e, quando isto não foi mais possível, considerando o tema da alienação como “um pecado de juventude, um resíduo de hegelianismo” (SCHAFF, 1979, p. 27, 53), mais tarde abandonado por Marx. Os primeiros suprimiram o fato de que a concepção de alienação contida nos [Manuscritos econômico-filosóficos de 1844] tinha sido escrita por um autor de vinte e seis anos e ainda no princípio de seus estudos principais; os segundos, ao contrário, não quiseram reconhecer a importância da teoria da alienação em Marx mesmo quando, com a publicação de novas obras inéditas, tornou-se evidente que ele nunca deixou de se ocupar dela no curso de sua existência e que esta, ainda que mudada, havia conservado um lugar de relevo nas principais etapas de elaboração de seu pensamento [19].
Sustentar, como muitos fizeram, que a teoria da alienação contida nos [Manuscritos econômico-filosóficos de 1844] fosse o tema central do pensamento de Marx é uma falsicação que denota somente a escassa familiaridade com a sua obra da parte daqueles que propuseram esta tese [20] . Por outro lado, quando Marx voltou a ser o autor mais discutido e citado na literatura filosófica mundial justamente por suas páginas inéditas sobre alienação, o silêncio da União Soviética sobre este tema, e sobre as controvérisas ligadas a ele, oferece um exemplo da utilização instrumental dos seus escritos feita naquele País. De fato, a existência da alienação na União Soviética, e nos seus Países satélites, foi simplesmente negada [21] e todos os textos que tratavam desta problemática foram considerados suspeitos. Segundo Lefebvre (1977, p. 62): “na sociedade soviética não podia, não devia nunca ser questão de alienação. O conceito devia desaparecer, por ordem superior, por razão de Estado”. E, assim, até os anos Setenta, foram pouquíssimos os autores que, no chamado “campo socialista”, escreveram obras a este respeito.
Enfim, reconhecidos autores europeus também subestimaram a complexidade do fenômeno. É o caso de Lucien Goldmann que se iludiu sobre a possibilidade de superação da alienação nas condições econômico-sociais da época e declarou, no seu livro Ricerche dialettiche, que esta desapareceria, ou regrediria, graças ao simples efeito da planificação. Segundo Goldmann (1969, p. 158): “a reificação é na verdade um fenômeno estreitamente ligado à ausência de planificação e à produção para o mercado”; o socialismo soviético do Leste e as políticas keynesianas no ocidente levariam “à supressão da reificação no primeiro caso, [e] a um enfraquecimento progressivo no segundo”. A história mostrou a falácia das suas previsões.
5. O fascínio irresistível da teoria da alienação
A partir dos anos Sessenta explodiu uma verdadeira moda da teoria da alienação e, no mundo inteiro, apareceram centenas de livros e artigos sobre o tema (RIESER, 1965, p. 167). Foi o tempo da lienação tout-court. O período no qual autores, diferentes entre si por formação política e competência disciplinar, atribuíram as causas deste fenômeno à mercantilização, à excessiva especialização do trabalho, à anomia, à burocratização, ao conformismo, ao consumismo, à perda do sentido de si que se manifesta na relação com novas tecnologias; e até mesmo ao isolamento do indivíduo, à apatia, à marginalização social e étnica, e à poluição ambiental. [22]
O conceito de alienação pareceu refletir perfeitamente o espírito da época e constituiu também o terreno de encontro, na elaboração da crítica à sociedade capitalista, entre o marxismo filosófico e antissoviético e o catolicismo mais democrático e progressista. A popularidade do conceito e a sua aplicação indiscriminada, porém, criaram uma profunda ambiguidade terminológica [23]. Asim, no decorrer de poucos anos, a alienação torna-se uma fórmula vazia que englobava todas as manifestações de infelicidade humana e a despropositada ampliação da noção gerou a convicção da existência de um fenômeno tão amplo a ponto de parecer imutável [24].
Com o livro A sociedade do espetáculo de Guy Debord, que se tornou pouco tempo depois de sua publicação, em 1967, um verdadeiro manifesto de crítica social para a geração de estudantes que se revoltavam contra o sistema, a teoria da alienação alcançou a crítica da produção imaterial. Retomando as teses já avançadas por Horkheimer e Adorno, segundo as quais na sociedade contemporânea mesmo a diversão fora subsumida na esfera da produção do consenso pela ordem social existente, Debord (2008) afirmou que, nas circunstâncias presentes, o não-trabalho não podia mais ser considerado como uma esfera diferente da atividade produtiva:
Enquanto na fase primitiva de acumulação capitalista “a economia política não vê no proletário mais que o operário” que deve receber o mínimo indispensável para a conservação de sua força de trabalho, sem nunca considerá-lo “nos seus entretenimentos, na sua humanidade”; esta posição das ideias da classe dominante se reverte assim que o grau de abundância alcançado na produção de mercadorias exije um excedente na colaboração do operário. Este operário, repentinamente despojado do desprezo total que lhe é claramente expresso por todas as modalidades de organização e de supervisão da produção, encontra-se a cada dia mais fora dela, tratado aparentemente como uma grande pessoa, com uma solícita cortesia, travestido de consumidor. Agora o humanismo da mercadoria se encarrega dos “entretenimentos e da humanidade” do trabalhador, simplesmente porque a economia política pode e deve agora dominar estas esferas (DEBORD, 2008, p. 71-72; MARX, 1844/1976) [25].
Para Debord, se o domínio da economia sobre a vida social foi inicialmente manifesto através de uma “degradação do ser em ter”, na “presente fase” verificou-se um “desvio generalizado do ter em aparecer.” (DEBORD, 2008, p. 57). Tal reflexão levou-o a colocar no centro da sua análise o mundo do espetáculo: “na sociedade o espetáculo corresponde a uma fabricação concreta de alienação” (DEBORD, 2008, p. 63), O fenômeno mediante o qual “o princípio do fetichismo da mercadora […] é realizado em grau absoluto.” (DEBORD, 2008, p. 67). Nestas circunstâncias, a alienação se afirmava a ponto de tornar-se até mesmo uma experiência entuasiasmante para os indivíduos, que, levados por este novo ópio do povo ao consumo e a “reconhecer-se nas imagens dominantes” (DEBORD, 2008, p. 63), se distanciavam sempre mais, ao mesmo tempo, dos próprios desejos e existências reais:
o espetáculo é o momento no qual a mercadoria alcançou a ocupação total da vida social. […] A produção econômica moderna alarga a sua ditadura extensivamente e intensivamente. […] Neste ponto, a “segunda revolução industrial”, o consumo alienado torna-se para as massas um dever suplementar que se junta àquele da produção alienada. (DEBORD, 2008, p. 70).
Seguindo o caminho de Debord, Jean Baudrillard também utilizou o conceito de alienação para interpretar criticamente as mutações sociais que ocorreram com o advento do capitalismo maduro. Em A sociedade de consumo (1970), ele identificou no consumo o principal fator da sociedade moderna, distanciando-se assim da concepção marxiana ancorada na centralidade da produção. Segundo Baudrillard (2010, p. 234) “a era do consumo”, na qual a publicidade e as pesquisas de opinião criam necessidades fictícias e consenso de massa, transformou-se também na “era da alienação radical”:
a lógica da mercadoria se generalizou, de modo que hoje não somente regula os processos de trabalho e os produtos materiais, mas também toda a cultura, a sexualidade, as relações humanas, até os fantasmas e as pulsações individuais. […] Tudo é espetacularizado, isto é, evocado, provocado, orquestrado em imagens, sinais e modelos consumíveis. (BAUDRILLARD, 2010, p. 234).
Suas conclusões políticas, contudo, foram bastante confusas e pessimistas. Diante de um grande período de agitação social, ele acusou “os manifestantes do maio francês” de terem caído na armadilha de “super-reificar os objetos e o consumo dando-lhes um valor diabólico”; e criticou “os discursos sobre a alienação; toda a zombaria feita pelo Pop e pela antiarte”, por haver criado “uma acusação [que] faz parte do jogo: é a miragem crítica, a antifábula que coroa a fábula” (BAUDRILLARD, 2010, p. 239). Portanto, longe do marxismo, que via na classe operária o sujeito social de referência para mudar o mundo, Baudrillard encerra o seu livro com um apelo messiânico, tão genérico quanto efêmero: “aguardaremos as irrupções brutais e as desagregações repentinas que, de modo imprevisíviel, mas certo, como em maio de 1968, virão interromper esta missa branca.” (BAUDRILLARD, 2010, p. 240).
6. A teoria da alienação na sociologia norteamericana
Nos anos Cinquenta, o conceito de alienação foi assimilado também no vocabulário norteamericano. A abordagem a partir da qual este tema foi tratado, porém, era completamente diferente daquela que prevalecia na Europa. De fato, na sociologia convencional voltou-se a tratar a alienação como problemática inerente ao ser humano singular (CLARK, 1959), não às relações sociais, e a pesquisa de soluções para uma superação foi dirigida para as capacidades de adaptação dos indivíduos à ordem existente, e não às práticas coletivas que visam mudar a sociedade (SCHWEITZER, 1982).
Também nesta disciplina reinou por muito tempo uma profunda incerteza sobre uma clara e consensual definição de alienação. Alguns autores avaliaram este fenômeno como um processo positivo, como um meio de expressão da criatividade do homem, e inerente à condição humana em geral [26] . Outra característica difusa entre os sociólogos norteamericanos foi a de considerar a alienação como algo que nascia da cisão entre o indivíduo e a sociedade (SCHACHT, 1970, p. 155). Seymour Melman (1958, p. 18, 165-166), de fato, identificou a alienação na separação entre a formulação e a execução das decisões e a considerou um fenômeno que afetava tanto os trabalhadores quanto os gestores.
No artigo Uma medida da alienação, que inaugurou um debate sobre este conceito na revista American Sociological Review [Revista sociológica americana], Gwynn Nettler desenvolveu uma pesquisa com o objetivo de estabelecer uma definição. Todavia, muito longe da tradição das rigorosas investigações sobre as condições trabalhistas conduzidas pelas organizações do movimento operário, o questionário formulado por ele parecia inspirar-se mais nos cânones do macartismo da época que em uma pesquisa científica [27] . Nettler (1973), de fato, representando as pessoas alienadas como sujeitos guiados por “uma coerente manutenção de atitudes hostis e impopulares diante dos valores da família, dos meios de comunicação de massa, dos gostos da massa, da atualidade, da instrução popular, da religião convencional, da visão teleológica da vida, do nacionalismo e do sistema eleitoral” (NESTTLER, 1973, p. 229), identificou a alienação com a rejeição dos princípios conservadores da sociedade norte-americana [28].
A limitação conceitual presente no panorama sociológico norte-americano mudou após a publicação do ensaio Sobre o significado de alienação, de Melvin Seeman. Neste breve artigo, que se tornou rapidamente uma referência obrigatória para todos os estudiosos da alienação, ele catalogou aquelas que considerava suas cinco formas principais: a falta de poder; a falta de significado (isto é, a dificuldade do indivíduo em compreender os eventos nos quais está inserido); a falta de normas; o isolamento; e o estranhamento de si (SEEMAN, 1959) [29] . Este elenco mostra como também Seeman considerava a alienação sob um aspecto primeiramente subjetivo. Robert Blauner, no livro Alienação e liberdade, adotou o mesmo ponto de vista. O autor norte-americano definiu a alienação como uma “qualidade da experiência pessoal que resulta de tipos específicos de disposições sociais” (BLAUNER, 1971, p.58), ainda que o esforço dispensado na sua pesquisa o tenha levado a rastrear as causas no “processo de trabalho em organismos gigantescos e nas burocracias impessoais que saturam todas as sociedades industriais.” (BLAUNER, 1971, p. 33).
No âmbito da sociologia norte-americana, portanto, a alienação foi concebida como uma manifestação relativa ao sistema de produção industrial, independentemente se este fosse capitalista ou socialista, e, sobretudo, como uma problemática inerente à consciência humana (HEINZ, 1992, p. 217). Esta abordagem acaba por tornar marginal, ou mesmo excluir, a análise dos fatores histórico-sociais que determinam a alienação, produzindo uma espécie de hiper-psicologização da análise deste conceito, que foi assumida também por esta disciplina, bem como na psicologia, não mais como uma questão social, mas como uma patologia individual que se referia aos indivíduos singulares (GEYER, 1982, p. 141) [30].
Isto provocou uma profunda mudança da concepção de alienação. Se na tradição marxista ela representava um dos conceitos críticos mais incisivos do modo de produção capitalista, na sociologia passa por um processo de institucionalização e acaba sendo considerada um fenômeno relativo à falta de adaptação dos indivíduos às normas sociais. Do mesmo modo, a noção de alienação perde o caráter normativo que possuía na filosofia (também nos autores que consideravam a alienação como um horizonte insuperável) e se transformou em um conceito avaliativo, do qual foi removido o conteúdo originalmente crítico (GEYER; SCHWEITZER, 1981, p. XX-XXI) [31].
Outro efeito desta metamorfose da alienação foi o seu empobrecimento teórico. De fenômeno abrangente, relativo às condições de trabalho, social e intelectual do homem, ele foi reduzido a uma categoria limitada, parcelada em função das pesquisas acadêmicas (SCHWEITZER, 1996, p. 23). Os sociólogos americanos afirmaram que esta escolha metodológica tornou possível libertar a pesquisa sobre alienação das suas conotações políticas e conferir objetividade científica a ela. Na realidade, esta suposta reviravolta apolítica possuía fortes e evidentes implicações ideológicas, uma vez que por trás da bandeira da des-ideologização e da suposta neutralidade dos valores se escondia o suporte dos valores e da ordem dominante [32].
A diferença entre a concepção marxista de alienação e a dos sociólogos norte-americanos não consistia, portanto, no fato de que a primeira era política e a segunda científica, mas no fato de que os teóricos marxistas eram portadores de valores completamente diferentes dos hegemônicos, enquanto os sociólogos norte-americanos sustentavam valores da ordem social existente, habilmente mascarados como valores eternos do gênero humano (HORTON, 1973, p. 318-320). Nesta disciplina, portanto, o conceito de alienação conheceu uma verdadeira e própria distorção e começa a ser utilizado justamente pelos defensores daquelas classes sociais contra as quais tinha se chocado por muito tempo (HORTON, 1973, p. 304-305) [33].
7. O conceito de alienação em O capital e nos manuscritos preparatórios
Os escritos de Marx tiveram, obviamente, um papel fundamental para aqueles que resistiram às tendências, que surgiram no âmbito das ciências sociais, de mudança no sentido do conceito de alienação. A atenção dirigida à teoria da alienação em Marx, inicialmente concentrada nos [Manuscritos econômico-filosóficos de 1844], deslocou-se, depois da publicação de posteriores inéditos, sobre novos textos e por meio deles foi possível reconstruir o percurso de elaboração dos escritos de juventude aos de O Capital.
Até a segunda metade dos anos 1840, Marx não havia utilizado frequentemente a palavra alienação. Com exceção de A sagrada família e de O manifesto do partido comunista, escritos com a colaboração de Engels, onde o termo foi utilizado em diversas polêmicas contra alguns exponentes da esquerda hegeliana [34] , referências a este conceito se encontram somente em um longo período de [A ideologia alemã], também escrita em conjunto com Engels:
A divisão do trabalho oferece […] o primeiro exemplo do fato que […] a ação própria do homem torna-se uma potência a ele estranha, acima dele, que o subjuga, ao invés de ser dominada por ele. […] Este fixar-se da atividade social, este consolidar-se do nosso próprio produto em um poder objetivo que nos subjuga, que cresce até fugir do nosso controle, que contradiz nossas expectativas, que aniquila os nossos cálculos, foi até hoje um dos momentos principais do desenvolvimento histórico. O poder social, isto é, a força produtiva multiplicada que se originou através da cooperação de vários indivíduos, determinada na divisão do trabalho, aparece a estes indivíduos, já que a cooperação mesma não é voluntária mas natural, não como o seu próprio poder unificado, mas como uma potência estranha, que está fora deles, que eles não sabem de onde vem e para onde vai, que portanto não podem mais dominar e que ao contrário segue sua própria sucessão de fases e de graus de desenvolvimento que é independente do querer e do agir dos homens e de fato dirige este querer e agir. Este “estranhamento”, para usar um termo compreensível aos filósofos, naturalmente somente pode ser superado sob duas condições práticas. Para que ele se torne um poder “insustentável”, isto é, um poder contra o qual se age pela via revolucionária, é necessário que ele tenha tornado a massa da humanidade de fato “privada de propriedade” e a tenha posto também em contradição com um mundo existente da riqueza e da cultura, duas condições que pressupõem um grande incremento da força produtiva, um alto grau do seu desenvolvimento. (MARX; ENGELS, 1972, p. 32-33).
Abandonado o projeto de publicar [A ideologia alemã], em Trabalho assalariado e capital, um conjunto de artigos redigidos com base nas anotações utilizadas em uma série de conferências na Liga operária alemã de Bruxelas em 1847, publicadas em 1849, Marx reapresentou a teoria da alienação, mas, não podendo dirigir-se ao movimento operário com uma noção que teria aparecido excessivamente abstrata, fez menos uso desta palavra. Ele afirmou que o trabalho assalariado não fazia parte da “atividade vital” do operário, mas representava, ao contrário, um momento de “sacrifício da sua vida”. A força de trabalho consistiria em uma mercadoria que o trabalhador seria constringido a vender “para poder viver” e “o produto da sua atividade não [seria] a finalidade da sua atividade” (MARX, 1984, p.208-209):
O operário que por doze horas tece, fia, torneia, perfura, constrói, escava, quebra as pedras, as transporta, etc., talvez considere este tecer, fiar, perfurar, tornear, construir, escavar, quebrar pedras por doze horas como manifestações da sua vida, como vida? Ao contrário. A vida começa para ele a partir do momento que esta atividade cessa, à mesa, no balcão da taberna, na cama. O significado das doze horas de trabalho não está para ele no tecer, fiar, perfurar, etc., mas somente no ganhar aquilo que lhe permite estar à mesa, no balcão da taberna, na cama. Se o bixo da seda devesse tecer para sustentar a sua existência como lagarta, seria um assalariado perfeito. (MARX, 1984, p. 209).
Até o fim dos anos Cinquenta, não existiram outras referências na obra de Marx à teoria da alienação. Após a derrota das revoluções de 1848, ele foi forçado a exilar-se em Londres e durante este período, para concentrar todas as suas energias nos estudos de economia política, com exceção de alguns breves trabalhos de caráter histórico, não publicou nenhum livro. Quando voltou a escrever sobre economia, nos [Linhas fundamentais da crítica da economia política], mais conhecidos com o nome de [Grundrisse], Marx tornou a utilizar o conceito de alienação repetidamente. Isto lembrava, em muito aspectos, o exposto nos [Manuscritos econômico-filosóficos de 1844], embora, graças aos estudos efetuados neste intervalo, a sua análise acabou sendo muito mais aprofundada:
O caráter social da atividade, assim como a forma social do produto e a participação do indivíduo na produção, se apresentam como qualquer coisa de estranho e de objetivo frente aos indivíduos; não como sua relação recíproca, mas como sua subordinação à relações que subsistem independentemente deles e nascem do choque dos indivíduos reciprocamente indiferentes. A troca geral das atividades e dos produtos, que se tornou condição de vida para cada indivíduo singular, o nexo que une um ao outro, se apresenta estranho a eles mesmos, independente, como uma coisa. No valor de troca a relação social entre as pessoas se transforma em relação entre coisas; a capacidade pessoal em uma capacidade das coisas. (MARX, 1997, p. 97-98) [35].
Nos [Grundrisse], portanto, a descrição de alienação adquiriu maior densidade em relação à pordução dos anos de juventude, uma vez que foi enriquecida pela compreensão de importantes categorias econômicas e de uma análise social mais rigorosa. Ao lado do nexo entre alienação e valor de troca, entre as passagens mais brilhantes que delinearam as características deste fenômeno da sociedade moderna figuram também aquelas nas quais a alienação foi relacionada à contraposição entre capital e “força de trabalho viva”:
As condições objetivas do trabalho vivo se apresentam como valores separados, autonomizados frente à força de trabalho viva como existência subjetiva […], são pressupostas como uma existência autônoma frente a ela, como a objetividade de um sujeito que se distingue da força de trabalho vivo e se contrapõe a ela autonomamente; a reprodução e a valorização, ou seja, o alargamento destas condições objetivas é por isso ao mesmo tempo a reprodução e a nova produção deste enquanto riqueza de um sujeito que é estranho, indiferente e se contrapõe automamente à força de trabalho. O que é reproduzido e novamente produzido não é somente a existência destas condições objetivas do trabalho vivo, mas a existência de valores autônomos, ou seja, pertencentes a um sujeito estranho, oposto a esta força de trabalho viva. As condições objetivas do trabalho adquirem uma existência subjetiva frente à força de trabalho viva – do capital nasce o capitalista. (MARX, 1997, p. 22-23).
Os [Grundrisse] não foram o único texto da maturidade de Marx no qual a descrição da problemática da alienação ocorre com frequência. De fato, cinco anos após sua composição ela retornou em [O Capital: Livro I, capítulo VI inédito], manuscrito no qual a análise econômica e a análise política da alienação estão mais relacionadas entre si: “o domínio dos capitalistas sobre os operários não é senão o domínio das condições de trabalho autonomizadas contra e frente ao trabalhador.” (MARX, 1969, p. 20).
Nestes esboços preparatórios de O capital, Marx colocou em evidência que na sociedade capitalista, mediante “a transposição das forças produtivas sociais de trabalho em propriedades materiais de capital” (MARX, 1969, p. 94), realiza-se uma verdadeira e própria “personificação das coisas e reificação das pessoas”, ou seja, cria-se uma aparência a partir da qual “não os meios de produção, as condições materiais de trabalho, que aparecem submissas ao trabalhador, mas ele àquelas” (MARX, 1969, p. 90) [36] . Na realidade, a seu ver:
O capital não é uma coisa do mesmo modo que o dinheiro não o é. Em um como no outro, determinadas relações sociais de produção entre pessoas aparecem como relações entre coisas e pessoas, ou seja, determinadas relações sociais aparecem como propriedades sociais naturais de coisas. Sem trabalho assalariado, não há produção de mais-valia uma vez que os indivíduos se enfrentam como pessoas livres; sem produção de mais-valia, não há produção capitalista; portanto não há capital e não há capitalistas! Capital e trabalho assalariado (como nós chamamos o trabalho do operário que vende a própria capacidade de trabalho) exprimem dois fatores da mesma relação. O dinheiro não pode tornar-se capital se não é intercambiável pela força de trabalho que o operário vende como mercadoria; por outro lado pode aparecer como trabalho assalariado somente no momento em que as suas próprias condições objetivas se lhe opõem como potências autônomas, propriedade estranha, valor existente para si e preso a si mesmo; em suma, como capital. (MARX, 1969, p. 37).
No modo de produção capitalista o trabalho humano tornou-se um instrumento do processo de valorização do capital, que “ao incorporar a força de trabalho viva às suas partes componentes objetivas […] torna-se um monstro animado, e começa a agir como se tivesse amor dentro do corpo.”(MARX, 1969, p 39). Este mecanismo se expande em escala sempre maior, até que a cooperação no processo produtivo, as descobertas científicas e o emprego da maquinaria, ou seja, os progressos sociais gerais criados pela coletividade tornam-se forças do capital que aparecem como propriedades pertencentes naturalmente a ele e se tornam estranhas frente aos trabalhadores como ordem capitalista:
as forças produtivas […] desenvolvidas pelo trabalho social […] se reapresentam como forças produtivas do capital. […] A unidade coletiva na cooperação, a combinação na divisão do trabalho, o emprego das energias naturais e das ciências, dos produtos do trabalho como maquinário – tudo isto se contrapõe aos operários individuais, de modo autônomo, como qualquer coisa de estrangeira, de objetiva, de preexistente, sem e frequentemente contra a sua contribuição ativa, como pura forma de existência dos meios de trabalho independentes deles e que exercitam sobre eles o próprio domínio; e a inteligência e a vontade da oficina coletiva encarnada no capitalista e nos seus subalternos, na medida em que a oficina coletiva se baseia sobre a sua combinação, se lhe contrapõem como funções do capital que vive no capitalista. (MARX, 1969, p 90).
É mediante este processo, portanto, que, segundo Marx, o capital torna-se qualquer coisa de “terrivelmente misterioso”. E ocorre deste modo que “as condições de trabalho se acumulam como forças sociais que se elevam diante do operário e, desta forma, são capitalizadas.” (MARX, 1969, p. 96).
A difusão, a partir dos anos Sessenta do século passado, de [O Capital: Livro I, capítulo VI inédito] e, sobretudo, dos [Grundrisse] abre caminho para uma concepção de alienação diferente da noção hegemônica na sociologia e na psicologia, cuja compreensão estava voltada para sua superação prática, ou seja, para a ação política dos movimentos sociais, partidos e sindicatos, direcionada para mudar radicalmente as condições trabalhistas e de vida da classe operária. A publicação daquela que, depois dos [Manuscritos econômico-filosóficos de 1844] nos anos Trinta, pode ser considerada a “segunda geração” dos escritos de Marx sobre alienação forneceu não apenas uma base teórica coerente para uma nova temporada de estudos sobre a alienação, mas, sobretudo, uma plataforma ideológica anticapitalista ao extraordinário movimento político e social que explodiu no mundo naquele período. Com a difusão de O Capital e dos seus manuscritos preparatórios, a teoria da alienação saiu dos trabalhos dos filósofos e das aulas universitárias para irromper, através das lutas operárias, nas praças e tornar-se crítica social.
8. Fetichismo das mercadorias e desalienação
Uma das melhores descrições de alienação feita por Marx é aquela contida no cérebre parágrafo O caráter fetichista da mercadoria e o seu mistério em O capital. Neste parágrafo ele coloca em evidência que, na sociedade capitalista, os homens são dominados pelos produtos que criaram e vivem em um mundo no qual as relações recíprocas aparecem “não como relações imediatamente sociais entre pessoas […] mas como, relações de coisas entre pessoas e relações sociais entre coisas.” (MARX, 1969, p. 105). Mais precisamente:
O misterioso da forma mercadoria consiste […] no fato de que tal forma, como um espelho, reflete aos homens a imagem das características sociais de seu próprio trabalho, como propriedades sociais naturais daquelas coisas e, por isso, também reflete a relação social dos produtores com o trabalho total como uma relação social existente fora deles, entre objetos. Por meio desse quid pro quo os produtos do trabalho se tornam mercadorias, coisas físicas metafísicas ou sociais. […] que para eles aqui assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas. Por isso, para encontrar uma analogia, temos de nos deslocar à região nebulosa do mundo da religião. Aqui, os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria, figuras autônomas, que mantêm relações entre si e com os homens. Assim, no mundo das mercadorias, acontece com os produtos da mão humana. Isso eu chamo o fetichismo que adere aos produtos de trabalho, tão logo são produzidos como mercadorias, e que, por isso, é enseparável da produção de mercadorias. (MARX, 1969, p. 104-105).
Desta definição emergem características precisas que traçam uma clara linha divisória entre a concepção de alienação em Marx e aquela presente em grande parte dos autores examinados neste ensaio. O fetichismo, de fato, não foi concebido por Marx como uma problemática individual, ao contrário, sempre foi considerado um fenômeno social. Não é uma manifestação da alma, mas um poder real, uma dominação concreta, que se realiza, na economia de mercado, depois da transformação do objeto em sujeito. Por este motivo, ele não limitou a própria análise da alienação ao desconforto do ser humano individual, mas analisou os processos sociais que estavam na sua base, em primeiro lugar a atividade produtiva. Para Marx, além disso, o fetichismo se manifesta em uma realidade histórica precisa da produção, aquela do trabalho assalariado, e não está vinculado à relação entre a coisa em geral e o homem, mas àquilo que se verifica entre este e um determinado tipo de objetividade: a mercadoria.
Na sociedade burguesa as propriedades e as relações humanas se transformam em propriedades e relações entre coisas. A teoria que, depois da formulação de Lukács, foi designada com o nome de reificação ilustrava este fenômeno do ponto de vista das relações humanas, enquanto o conceito de fetichismo tratava do ponto de vista das mercadorias. Ao contrário do que foi sustentado por aqueles que negam a presença de reflexões sobre a alienação na obra madura de Marx, a concepção de alienação não foi substituída pelo fetichismo das mercadorias, porque este representa somente um aspecto particular dela (SCHAFF, 1979, p. 149-150).
O avanço teórico de Marx com relação à concepção de alienação a partir dos [Manuscritos econômico-filosóficos de 1844] até O capital não consiste, porém, somente em uma descrição mais precisa, mas também em uma elaboração diferente e mais completa das medidas consideradas necessárias para sua superação. Se em 1844 Marx havia considerado que os seres humanos eliminariam a alienação mediante a abolição da produção privada e da divisão do trabalho, em O capital, e nos seus manuscritos preparatórios, o percurso indicado para construir uma sociedade livre da alienação torna-se muito mais complexo.
Marx considerava o capitalismo como um sistema no qual os trabalhadores são subjugados pelo capital e pelas suas condições, mas ele estava também convencido do fato de que este havia criado as bases para uma sociedade mais avançada e que a humanidade poderia prosseguir no caminho do desenvolvimento social generalizando os produtos benéficos deste novo modo de produção. Segundo Marx, um sistema que produz um enorme acúmulo de riqueza para poucos e espoliação e exploração para a massa de trabalhadores, deve ser substituído por “uma associação de homens livres que trabalhem com meios de produção comuns e gastem conscientemente as suas muitas forças de trabalho individuais como uma só força de trabalho social.” (MARX, 1969, p. 110).
Este tipo diverso de produção se diferenciaria daquele baseado sobre o trabalho assalariado, uma vez que colocaria os seus fatores determinantes sob o governo coletivo, assumindo um caráter imediatamente geral e transformando o trabalho em uma verdadeira atividade social. É uma concepção de sociedade nos antípodas do bellum omnium contra omnes de Thomas Hobbes. E a sua criação não é um processo meramente político, mas envolve necessariamente a transformação radical da esfera da produção. Como Marx escreveu nos manuscritos que depois se tornaram [O capital. Livro III]:
de fato, o reino da liberdade começa somente quando cessa o trabalho determinado pela necessidade e pela finalidade externa; se encontra portanto, por sua natureza, além da esfera da verdadeira e própria produção material. Como o selvagem deve lutar com a natureza para satisfazer as suas necessidades, para conservar e para reproduzir a sua vida, assim deve fazer também o homem civil, deve fazê-lo em todas as formas da sociedade e sob todos os possíveis modos de produção. Na medida em que ele se desenvolve, o reino das necessidades naturais se expande, porque se expandem as suas necessidades, mas ao mesmo tempo se expandem as forças produtivas que satisfazem estas necessidades. A liberdade neste campo somente pode consistir nisto: que o homem socializado, isto é, os produtores associados, regulam racionalmente este seu inter câmbio orgânico com a natureza, conduzindo-o sob seu controle comum, ao contrário de serem por ele dominados como uma força cega; que eles executam a sua tarefa com o menor emprego possível de energia e nas condições mais adequadas a sua natureza humana e mais digna dela. MARX, 1965, p. 933). [37]
Esta produção de caráter social, juntamente com os progressos tecnológicos e científicos e a consequente redução da jornada de trabalho, cria as possibilidades para o nascimento de uma nova formação social, na qual o trabalho coercitivo e alienado, imposto pelo capital e subsumido pelas suas leis, é progressivamente substituído por uma atividade criativa e consciente, não imposta pela necessidade; e na qual as relações sociais tomam o lugar da troca indiferente e acidental em função das mercadorias e do dinheiro. Não é mais o reino da liberdade do capital, mas aquele da autêntica liberdade humana do indivíduo social.
Tradução: Luciana Aliaga
Referências
1. Na introdução ao livro de Richard Schacht, Alienation, Walter Kaufmann (1970, p. XVII) notou como poderia revelar-se realmente “pouco crível que a moda da alienação tivesse derivado de um início tão pouco promissor.”
2. Ele foi traduzido por Kostas Axelos e Jacqueline Bois com o título Histoire et conscience de classe, Minuit, Paris 1960.
3. Na realidade, Marx já havia utilizado o conceito de alienação no ensaio, Para a crítica da filosofia do direito de Hegel, publicado nos Deutsch-Französische Jahrbücher [Anais franco-alemães] alguns meses antes da escrita dos [Manoscritti economico-filosofici del 1844]. Naquele texto, ele havia justificado a necessidade de passar da crítica da religião aquela do mundo real: “a tarefa da história, depois que o outro mundo da verdade se desvaneceu, é estabelecer a verdade deste mundo. A tarefa imediata da filosofia, que está a serviço da história, é desmascarar a auto-alienação humana nas suas formas não sagradas, agora que ela foi desmascaradana sua forma sagrada. A crítica do céu transforma-se deste modo em crítica da terra, a crítica da religião em crítica do direito, e a crítica da teologia em crítica da política.” (MARX, [1844] 1976, p. 191).
4. Nos escritos de Marx aparece tanto o termo Entfremdung como Entäusserung. As duas noções, que em Hegel tinham significados diferentes, foram utilizadas por Marx como sinônimos. (D’ABBIERO, 1970, p. 25-7).
5. Esta elaboração amadureceu também graças à influência do pensamento de Moses Hess. De fato, no artigo A essência do dinheiro ele argumentou que a alienação religiosa tinha sua explicação no mundo econômico e social. Cfr. Hess (1988, p. 209): “deus é somente o capital idealizado, o céu é somente o mundo dos comerciantes idealizado”, (HESS, 1988, p. 212)e: “Aquilo que deus representa para a vida teórica, o dinheiro representa para a vida prática do mundo invertido: a faculdade alienada do homem, a sua atividade vital mercantilizada.”(HESS, 1988, p. 209).
6. Sobre isto consultar o estudo de Ollman (1971, p. 136-52).
7. A partir da versão de Ser e tempo de Pietro Chiodi, em língua italiana este termo foi quase sempre traduzido com a palavra deiezione.
8. No Prefácio de 1967 a História e consciência de classe, Lukács observou que em Heidegger a alienação tornara-se um conceito politicamente inofensivo que “sublima[va] a crítica social em uma crítica puramente filosófica”(LUKÁCS, 197, p. XXV). Heidegger tentou também alterar o próprio significado da concepção marxiana de alienação. Na Carta sobre o Humanismo (Lettera sull’“umanismo” Adelphi, Milano 1995), de fato, ele elogiou Marx porque nele a “alienação alcança uma dimensão essencial da história”, p. 336, posição que acaba por ser uma falsificação clamorosa já que não está presente em nenhum dos escritos de Marx.
9. Consultar, por exemplo, o seu texto Nuove fonti per la fondazione del materialismo storico (1975), que apareceu logo após a publicação dos [Manuscritos econômico-filosóficos de 1844].
10. Com esta expressão Marcuse se referia ao trabalho físico e ao esforço penoso*, não ao trabalho tout court. A propósito consultar Jervis (2001, p. 28).
* O autor utiliza aqui o termo “travaglio” que não tem paralelo no português (N. do T.)
11. Da mesma opinião foi Georges Friedmann (1956), para o qual a superação da alienação somente é possível depois da libertação do trabalho. Do mesmo autor consultar também Problemi umani del macchinismo industriale (1971).
12. Neste mesmo sentido faz a seguinte afirmação: a “racionalidade libidinal não somente [é] compatível com o progresso em direção a formas superiores de liberdade civil, mas também [está] apta a promover estas últimas”, (MARCUSE, 2001, p. 216-7). Sobre a relação entre técnica e progresso indica-se também o trabalho de Kostas Axelos (1963). O autor defendeu esta tese: “tudo o que aliena o homem era, e é, devido seja ao não desenvolvimento das forças produtivas […], seja ao subdesenvolvimento da técnica”, (Kostas Axelos, 1963 p. 352-3. Enfim, sobre estes temas indica-se o magistral livro de Harry Braverman Lavoro e capitale monopolístico (1978), no qual o autor segue os princípios “daquela visão marxista que combate não a ciência e a tecnologia enquanto tais, mas somente o modo pelo qual são utilizadas e reduzidas a instrumentos de domínio, com a criação, a manutenção e o aprofundamento de um abismo entre as classes sociais.” (BRAVERMAN, 1978, p. 6).
13. “de fato o homem primordial estava melhor, uma vez que ignorava quaisquer restrições pulsionais. Em compensação a sua segurança de gozar a longo prazo de tal felicidade era muito exígua. O homem civil trocou uma parte de sua possibilidade de felicidade por um pouco de segurança.” (FREUD, 1971, p. 250).
14. Sobre este ponto consultar Alberto Izzo (1973, p. 37-38).
15. A este respeito deve se fazer referência também a Richard Schacht , que evidenciou como Fromm se referiu “a quase tudo que desaprova[va] como um exemplo de alienação”, Schacht (1970, p. 139): “Sempre que ele [Fromm] sent[ia] que qualquer coisa não é como deveria ser, ele a descrevia como alienação”, Schacht, (1970, p. 116). A aplicação indiscriminada deste termo “a qualquer esfera da vida contemporânea”, Schacht, (1970, p. 118, fez desaparecer o seu “conteúdo conceitual específico” e o transformou em qualquer coisa que indicasse uma mera “insatisfação”, Schacht, 1970, p. 140. A incapacidade de compreender o caráter específico do trabalho alienado se manifestou também quando Fromm voltou a escrever sobre alienação em um ensaio de 1965. Ele, de fato, afirmou: “deve-se analisar o fenômeno da alienação na sua relação com o narcisismo, a depressão, o fanatismo, a idolatria para compreendê-lo completamente”, Fromm, (1965, p. 221).
16. Sebbene i filosofi esistenzialisti si servirono spesso di questo concetto, esso non è presente nei loro testi così diffusamente ed uniformemente come generalmente ritenuto. (SCHACHT, 1970, p. 232).
17. Para uma comparação entre as diferentes concepções de alienação em Hegel, Marx e nos filósofos existencialistas indica-se Pietro Chiodi (1963).
18. Cfr. George Lichtheim (1968, p. 266), que escreveu: “[a] alienação (que os pensadores românticos atribuíram ao aumento da racionalidade e à especialização da existência) foi atribuída por Marx à sociedade e especificamente à exploração do trabalhador por parte do não-trabalhador, ou seja, o capitalista. […]. Diferente dos pensadores românticos e dos seus predecessores iluministas do século XVIII, Marx atribuiu esta desumanização não à divisão do trabalho em si, mas à forma histórica que havia tomado sob o capitalismo”.
19. Criticando a posição de Althusser, Pier Aldo Rovatti notou que o problema do célebre marxista francês a respeito do debate sobre alienação em Marx era simplesmente “textual”, já que: “todos os althusserianos ignoram ou querem ignorar a existência dos Grundrisse [… onde] a alienação reaparece como o fundamento da relação de produção capitalista, a origem do fetichismo”. A seu ver, portanto, “já não basta[va] o álibe do jovem Marx […], diante daquele tratado sobre alienação (desenvolvida e historicizada em comparação aos Manuscritos de 1844) que são os Grundrisse”. (ROVATTI, 1973, p. 13, 17-18).
20. Sobre isto cfr. Daniel Bell (1973, p. 89), que afirmou “atribuir este conceito a Marx como seu tema central é somente criar mais um mito”.
21. Exceção relevante desta atitude foi a do estudioso polonês Adam Schaff, que no livro Il marxismo e la persona umana, Feltrinelli, Milano 1965, põe em evidência como a abolição da propriedade privada dos meios de produção não comportava o desaparecimento automático da alienação, uma vez que nas sociedades “socialistas” o trabalho conservava o caráter de mercadoria.
22. Neste contexto alienação torna-se também “uma mercadoria intelectual no mercado acadêmico”, um tema muito em voga sobre o qual escrever livros e, portanto, um instrumento eficaz e funcional para fazer carreira no mundo universitário (SCHWEITZER, 1996, p. 26).
23. Cfr. Joachim Israel, (1971, p. 258) e Schacht, (1970, p. LIX) que notou que “não existia quase nenhum aspecto da vida contemporânea que não tivesse sido discutido em termos de ‘alienação’”. Também Peter C. Ludz, Alienation as a Concept in the Social Sciences, no ensaio publicado em (1973),e depois reeditado em Felix Geyer e David Schweitzer (Ed.). Theories of Alienation (1976), observou que “a popularidade do conceito serv[iu] para incrementar a existente ambiguidade terminológica”, (LUDZ, 1976, p. 3). A pluralidade de temáticas que foi associada a alienação é presumível também pelas numerosas problemáticas enfrentadas pelos autores do livro de Joseph Gabel, Bernard Rousset eTrinh van Thao (Ed.). L’alienation aujourd’hui (1974).
24. Cfr. David Schweitzer, (1982, p. 57), para o qual “o verdadeiro significado de alienação é frequentemente diluído até o ponto de uma ausência virtual de significado”. Na primeira metade dos anos Sessenta, dois autores haviam denunciado esta situação e propuseram não utilizar mais este conceito: cfr. Naville (1964, p. 161-4) e Arnold Kaufmann (1965, 143, 162), segundo o qual esta noção tornara-se “fonte de supérflua confusão sociológica” e deveria ser “substituída por qualquer coisa mais claramente específica e empiricamente relevante”.
25. As palavras entre aspas foram tiradas dos [Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844] de Marx.
26. Expressão exemplar desta posição é o texto de Walter Kaufmann, The inevitability of alienation (1970, p. XVII): “uma vida sem estranhamento é quase inútil; o que importa é aumentar a capacidade de suportar a alienação.”
27. Entre as questões formuladas pelo autor a uma amostra de sujeitos considerados propensos a “orientações alienadas”, estavam os seguintes quesitos: “você gosta de assistir televisão? O que você acha dos novos modelos dos automóveis americanos? Você lê Reader’s Digest? […] Participa de livre e espontanea vontade das atividades da igreja? Os esportes nacionais te interessam (futebol, basebol)?”, (NESTTLER, 1973, p. 231). Nettler considera, convencido de que uma resposta negativa a tais perguntas constituissem uma prova da alienação, “que deviam deixar poucas dúvidas sobre o fato de que esta escala [os seus quesitos – MM] meçam uma dimensão do estranhamento da nossa sociedade.” (NESTTLER, 1973, p. 231).
28. Para provar tal argumentação, Nettler notou que “à pergunta: ‘gostaria de viver sob uma forma de governo diversa da atual?’, todos responderam de modo probabilístico e nenhum com aberta rejeição”, p. 229. Ele foi ainda mais longe nas conclusões do seu ensaio, no qual afirmou “que a alienação [estava] ligada à criatividade. Supõe-se que os cientistas e os artistas […] são indivíduos alienados. […] Que a alienação está relacionada ao altruísmo [… e] que o […] estranhamento conduza ao comportamento criminal.” (NETTLER, 1973, p. 232-3).
29. Em 1972 Seeman revê a sua classificação e lhe acrescenta um sexto ponto: o “estranhamento cultural”. O artigo de Seeman, no entanto, certamente não resolve o problema da indefinição do termo. Joachim Israel (1971, p. 259), de fato, observou sarcasticamente: “acho difícil compreender porque se define alienação como falta de poder, falta de normas, falta de significado, etc. Não seria mais simples usar diretamente o termo falta de poder, falta de normas, etc.?”
30. Para uma crítica das consequências políticas desta abordagem cfr. Schweitzer e Geyer (1981, p. 12): “realocando o problema da alienação no indivíduo, a solução do problema também tende a ser posta sobre o indivíduo: ou seja, devem ser feitas adaptações e ajustes individuais em conformidade às estruturas e valores dominantes”; e Schweitzer (1996, p. 28). A mesma matriz cultural possuem todas as supostas estratégias de desalienação, promovidas pelas administrações empresariais, existentes sob o nome de “relações humanas”. No livro de James W. Rinehart, The tiranny of work: alienation and the labour process (1987), chama a atenção para como estas estratégias, longe de humanizar a atividade de trabalho, são funcionais para as exigências patronais e visam exclusivamente intensificar o trabalho e reduzir os custos para sua empresa.
31. A este respeito consultar também Arthur Fischer (1970, p. 13 e seguintes)
32. Segundo Marcuse, com esta escolha de campo “a sociologia renuncia[va] ao seu ponto de vista. A sociedade tornou-se uma realidade a ser estudada como qualquer outro campo de investigação científica […], as mais amplas visões dos conceitos filosóficos deveriam ser deixadas de lado”. A seu ver, além disto, esta era uma posição claramente política, uma vez que: “ a aceitação do princípio da invariabilidade das leis sociais educará os homens na disciplina e na obediência à ordem social existente, e tornará mais fácil a sua resignação diante de tal ordem”. (MARCUSE, 1969, p. 381).
33. Tal abordagem foi orgulhosamente exibida por Irving Louis Horowitz no artigo The strange career of alienation: how a concept is transformed without permission of its founders (1996) na qual o autor norte-americano sustenta que “a alienação é agora parte da tradição das ciências sociais mais que dos protestos sociais. […] Termos como ‘ser alienado’ não são mais, nem menos, carregados de valores que termos como ‘ser integrado’”. Segundo Horowitz, o conceito de alienação se tornou “um todo unificado com as noções de condição humana [… e] hoje [existe um] uso de alienação como força positiva, não negativa. Ao invés de ver a alienação como um estranhamento da essência natural do ser humano, como resultado de um conjunto cruel de exigências industriais-capitalistas, a alienação torna-se um direito inalienável, uma fonte de energia criativa para alguns e uma expressão de excentricidade pessoal para outros.” (HOROWITZ, 1996, p. 18).
34. As passagens de A sagrada família, em Opere, vol. IV, Editori Riuniti, Roma 1972, nas quais Marx (e Engels) trataram o tema da alienação foram três: “a classe proprietária e a classe do proletariado apresentam a mesma autoalienação humana. Todavia, a primeira classe, nesta autoalienação, se sente à vontade e confirmada, sabe que a alienação consiste no seu próprio poder e possui nesta a aparência de uma existência humana; a segunda classe, na alienação, se sente aniquilada, vê nela a sua impotência e a realidade de uma existência desumana, (MARX; ENGELS, 1972, p. 37); os “trabalhadores […das] oficinas de Manchester e de Lyon […] sabem que propriedade, capital, dinheiro, trabalho assalariado e similares, não são de fato quimeras; mas produtos muito práticos, muito objetivos, da sua autoalienação, e que, portanto, devem necessariamente ser removidos de um modo prático, objetivo”, (MARX; ENGELS, 1972, p. 57); “a massa se volta contra a própria penúria voltando-se contra os produtos autonomamente existentes da sua autodegradação, assim como o homem, voltando-se contra a existência de deus, se volta contra a sua própria religiosidade. Mas, desde que aqueles autoestranhamentos práticos da massa existem no mundo real de modo externo, ela deve necessariamente combater as mesmas de maneira externa. Ela não pode de fato considerar que estes produtos do seu estranhamento são apenas fantasmagorias ideais, simples estranhamentos da autoconsciência, e não pode querer aniquilar a alienação material com uma ação puramente interior, espirituralista”, (MARX; ENGELS, 1972, p. 91). No Manifesto do partido comunista, Marx (1973, p. 510) utilizou o termo em um único caso “os literatos alemães escreveram os seus absurdos filosóficos sob os originais franceses. Por exemplo, sob acrítica francesa das relações monetárias escreveram “alienação da essência humana.”
35. Karl Marx, 1997, p. 97-8). In un altro passaggio dei [Grundrisse] dedicato alla descrizione del fenomeno dell’alienazione si legge: «strappate alla cosa questo potere sociale e dovrete darlo alle persone sulle persone».
36. Sobre este manuscrito de Marx indica-se Camatte (1976); e também Napoleoni (1972).
37. É intenção do autor desenvolver em um outro ensaio algumas observações críticas sobre o caráter incompleto, e parcialmente contraditório, do processo de desalienação dos trabalhadores na obra de Marx.
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Na década de 1996-2006, as salas do Palácio Nacional de Quito assistiram a alternância brusca de sete presidentes diferentes.
Contrariando esse curso dos acontecimentos, Rafael Correa, desde que surgiu no cenário político, foi reeleito ao governo do país, pela terceira vez consecutiva e com 56% dos votos, fazendo com que o Equador viva um período de estabilidade inédito. Na verdade, ninguém, desde a segunda metade dos anos 80 do século passado, governou o país tanto tempo como ele.
A incerteza política era acompanhada pela crise econômica. Descontrolada desde o fim dos anos 90, essa crise causou uma inflação recorde (acima dos 60%) e provocou uma forte desvalorização do Sucre, moeda esta que foi posteriormente substituída (no ano 2000) pelo dólar, que continua sendo até hoje a moeda oficial do país. Estas hoje são lembranças longínquas. A pequena república andina transformou-se em um país de economia dinâmica, com uma taxa anual de crescimento superior a 7% e uma taxa de desemprego situada no ponto mais baixo da sua história. Para avaliar o que isto significa, basta lembrar que, apesar de ser um tempo de crise econômica global, quinze mil emigrantes que tinham trocado o país pela Espanha regressaram para tentar a sorte na pátria.
Essa mudança foi favorecida, entre outros fatores, pela decisão de Correa, de recusar o pagamento de uma parcela da dívida pública, que de 241 milhões de dólares em 1970 havia atingido mais de 17 bilhões em 2006. A eliminação dessa parte, classificada de ilegítima, seja por ter sido contratada fraudulentamente, seja por não haver trazido benefício algum ao povo equatoriano, possibilitou uma economia de 7 bilhões de dólares, incluídos os juros nesse total. Soma esta que, não somente evitou a adoção de uma política de austeridade fiscal e de (controle de) reformas estruturais (veja-se o caso da Grécia), mas que tornou possível o aumento do investimento social, o qual, com Correa, passou dos 12% aos 25% do orçamento público.
A mudança atingiu até mesmo um outro dogma do neoliberalismo: as privatizações. Nos últimos anos, a nacionalização de algumas empresas petrolíferas e a redefinição dos tributos das que continuam privadas, mas devem pagar ao Estado, gerou um ingresso de 2 bilhões a mais no orçamento. Fundos estes que permitiram a criação de um bônus contra a pobreza e a sustentação do programa de subsídio a pessoas pobres para pagamento de aluguel de casas populares (entre 35 e 50 dólares por mês). Numerosos equatorianos valem-se desse subsídio.
Estes resultados constituem a base da elevada participação eleitoral e do sucesso da Aliança País, partido fundado em 2006 e que detém hoje a maioria das 137 cadeiras do Parlamento equatoriano. Do outro lado, os opositores de Correa foram claramente derrotados. Guillermo Lasso, membro da Opus Dei e ex-presidente do Banco de Guayaquil (capital comercial do Equador), recebeu magros 23% dos votos e não conseguiu penetração alguma no eleitorado popular. Enquanto Alberto Acosta, no passado uma figura de proa da Aliança País, ministro de Minas e Energia em 2007, e que como presidente da Assembléia Nacional promulgou a nova Constituição da República, não foi além de 3,2%. A coalizão Unidade Plurinacional das Esquerdas, liderada por Correa, e da qual um dos participantes principais é o partido indigenista Pachakutik, não conseguiu explicar de que modo sua proposta de política econômica sustentaria o investimento social do governo, se, como pretendia, pusesse fim na política extrativista de Correa.
No entremeio, a Revolução Cidadã prossegue e o recém-eleito presidente venceu sua batalha pessoal contra a mídia conservadora, toda ela fortemente voltada contra ele. Além disso, o sucesso nas eleições dá novo estímulo vital à Aliança Bolivariana pela América (ALBA), projeto de colaboração política e econômica que abrange Venezuela, Cuba, Equador, Bolívia, Nicarágua e mais um grupo de pequenos países caribenhos. Este projeto surgiu em 2004 para se opor ao Tratado de Livre Comércio das Américas (ALCA) promovido pelos Estados Unidos. Em razão da morte de Hugo Chávez, Correa vem se afirmando como o próximo líder desse bloco e sua visibilidade internacional está aumentando, como ficou demonstrado recentemente, por ocasião do asilo político oferecido a Julian Assange, o fundador do Wikileaks, ainda hoje refugiado na embaixada equatoriana em Londres.
Apesar de propor o “Socialismo do século XXI”, Correa certamente não é um perigoso revolucionário. Sua política continuará no rumo da independência de Washington e seguirá a orientação “desenvolvimentista” dos demais governos progressistas da América Latina, dando particular atenção à redistribuição de renda. Não é pouco, nestes tempos.
Traduzido por Correio da Cidadania.
Viagem a Detroit, a cidade fantasma
Um garoto solitário avança ao longo da margem da estrada que liga o aeroporto ao centro da cidade.
Veste a típica jaqueta esporte norte-americana, dessas que na parte de trás geralmente leva-se vistosamente o nome de um time de basquete ou as estrelas e listras da bandeira. No entanto, sua jaqueta continha uma palavra de cinco letras: black.
Eu me aproximo para falar e perguntar notícias sobre o lugar onde estou. Ele responde, lacônico, que vive aqui desde que nasceu, já está acostumado. O cenário onde acontece nossa conversa é surreal. Eu jamais havia visto nada igual. Eu continuo olhando ao meu redor e percebo o quanto são verdadeiras as coisas que li sobre este lugar. Estou rodeado de uma série de prédios abandonados. Velhas fábricas, abandonadas durante décadas, com a aparência de gigantescas ruínas, corroídas pelo tempo e intempéries. Prédios destripados, cacos de vidro espalhados por toda parte, máquinas cobertas por gelo e neve. Um deserto habitado apenas por cães vadios, dependentes de drogas sem abrigo e outras pessoas marginalizadas na sociedade. Estou em Detroit: a cidade fantasma. Um dos exemplos mais impactantes da outra América, aquela que nunca aparece nas aveludadas séries televisivas ambientadas em Manhattan ou nos filmes tridimensionais produzidos em Hollywood.
Chamavam-na de Cidade Motor
Se a arqueologia industrial era uma ciência, então Detroit seria sua prova irrefutável. E, no entanto, a sua história inclui o desenvolvimento e o esplendor. Conhecida como a Cidade Motor – a partir de onde surgiu a marcaMotown, tomada da famosa discografia de soul e rhythm and blues –, Detroit foi durante décadas o principal centro automotivo do mundo. Em 1902, a cidade deu à luz o Cadillac. E aqui, um ano mais tarde, Henry Ford abriu fábricas onde, em 1908, veio a primeira edição do Modelo T, o primeiro carro produzido em linha de montagem. A General Motors abriu nesse ano e a Chrysler logo depois, em 1925. Em suma, tudo sobre a indústria automobilística nos Estados Unidos começou em Detroit.
Nas asas do progresso, a cidade cresceu consideravelmente. Na segunda década do século XX, a população dobrou e Detroit tornou-se a quarta maior aglomeração urbana do país. Uma parte importante dos seus novos habitantes veio dos estados do sul. Constituía um setor que era um grupo de afro-americanos à procura de trabalho (só neste período Detroit atingiu mais de 120.000 habitantes), que esteve envolvido no fenômeno conhecido como a “primeira grande migração”.
A expansão não tem a ver só com o mundo das quatro rodas. Com a explosão da Segunda Guerra Mundial, o principal centro de Michigan foi transformado, de acordo com o slogan cunhado por Franklin Roosevelt, no “grande arsenal da democracia”. Detroit desenvolveu-se rapidamente devido à produção de armas e sabe-se que contribuiu com a guerra mais do que qualquer outra cidade norte-americana (após o ataque a Pearl Harbor, foram deslocados muitos trabalhadores de ambos os sexos). Graças a essa expansão, na década seguinte, o número de habitantes atingiu o seu máximo: 1.865.000, em 1956. Ilustres professores e os principais jornalistas da época a glorificaram como o melhor exemplo do fim da luta de classes; símbolo da meta alcançada, por grandes massas de trabalhadores, de entrar nas filas da classe média e se beneficiar dos prazeres do aburguesamento.
Muita coisa aconteceu desde então! Com os anos 60, começou o declínio, que se acelerou após as crises do petróleo de 1973 e 1979. Detroit tem agora apenas 700.000 habitantes, o menor número nos últimos cem anos. A espiral descendente parece não ter fim. De fato, na primeira década do século XXI, a cidade perdeu um quarto de sua população total, que continua a diminuir progressivamente: a cada 20 minutos uma família reúne seus pertences, se manda para um novo destino e deixa Detroit para trás.
100.000 terrenos vazios
Eu continuo minha jornada pelos bairros e é como estar em um lugar habitado por fantasmas. Em seu perímetro, existem mais de 100 mil terrenos baldios e casas abandonadas. Estas últimas em ruínas ou em uma situação instável. Nos próximos quatro anos teriam de ser demolidas dez mil casas, mas faltam recursos para fazê-lo. O sentimento que permeia toda a cidade é desolador, pois, muitas vezes, em todo um bloco de casas, há apenas uma ainda habitada. Detroit é totalmente deserta e seus espaços vazios caberiam todos em Boston ou San Francisco. Para contrariar este estado de extrema desolação, a administração local está tentando concentrar a população em determinadas áreas e transformar outras em fazendas. Na verdade, a crise expôs esse cenário ainda mais sombrio. A cidade está à beira da falência e do colapso econômico, e recentemente aboliu os últimos serviços públicos, incluindo o ônibus, que é o único meio de transporte para os menos favorecidos, e a iluminação noturna nas áreas periféricas.
A situação social não é melhor do que a ambiental. Em Detroit, uma em cada três pessoas é pobre, uma condição que afeta mais da metade das crianças. O grau de segregação racial ainda é muito elevado. Mais de 80% da população é afro-americana e vive no centro, enquanto os trabalhadores ‘brancos’, ou melhor, a última parte deles, os que ainda não conseguiram sair, se mudaram para os subúrbios protegidos por lojas de departamento. A prova de que, com uma diferença correspondente no tempo, o racismo que fez desta cidade o teatro de guerra da revolta violenta de julho 1967 – quando Lyndon Johnson enviou tanques que causaram 43 mortes, 7.200 prisões e a destruição de mais de 2.000 edifícios – ainda não foi erradicado.
A taxa de criminalidade é uma das mais altas do país e, ironicamente, mesmo que o carro tenha nascido exatamente nestas ruas, não há na América um lugar mais caro para comprar o seguro. O desemprego real atinge 50% e o dinheiro investido no grande cassino, que ocupa a principal artéria do centro, tem produzido uma única transformação: a de criar uma legião de desesperados que, a cada dia ou noite, apegados à amarga ilusão de salvação pessoal, fazem fila nas máquinas caça-níqueis para jogar suas últimas esperanças e as poucas poupanças ainda disponíveis.
Sucata para a China
Em 2009, golpeadas pela crise, a General Motors e a Chrysler declararam falência, enquanto a Ford padece de uma dura recessão. As ajudas às Big Three, por parte da administração de Bush e também de Obama, no final da década passada, totalizaram 80 bilhões de dólares. Tais ajudas foram acompanhadas por drástica “reestruturação”, ou seja, demissões, cortes de salários e mais precarização. Em outras palavras, têm servido para ampliar ainda mais o modelo desenvolvido por empresas como a American Axle & Manufacturing, fundada em 1994 com o objetivo de fornecer, a baixo custo, componentes automotivos para a General Motors e a Chrysler.
Apesar de a empresa registrar lucros enormes, muitos de seus funcionários, contratados por hora, têm visto, como em fevereiro do ano passado, como se rescindem seus contratos. Depois de uma greve contra o corte salarial de 28 a 14 dólares por hora, uma outra fábrica de Detroit demitiu todos os seus trabalhadores e fechou as portas. Assim, com instituições abertas nos últimos anos pela American Axle & Manufacturing no México, no Brasil e na Polônia, em uma recente declaração, supostamente filantrópica, um de seus futuros presidentes nos ilumina o futuro: “construir a Ásia é a nossa prioridade”. O próximo capítulo dessa história será escrito na China, onde, de fato, a empresa opera com duas novas fábricas desde 2009.
No fundo, Detroit nos fala não só do século XX, mas das mudanças de hoje e do que o futuro reserva. O epílogo da história nos conta que o desemprego e a pobreza são o resultado das ordens econômicas que impediram conquistas e melhorias tecnológicas de serem postas a serviço da comunidade. Isso mostra que as fábricas estão vazias, não porque não há trabalho, mas porque a produção foi transferida para locais onde os custos trabalhistas são mais baixos e a luta pelo reconhecimento dos direitos sociais é mais fraca.
A noite cai rapidamente no inverno de Detroit. Perto da saída da estrada, algumas pessoas pedem esmolas. Mais tarde, no coração do que foi outrora a zona industrial, pode ser visto um incêndio. Um grupo de jovens que busca desmantelar os restos de uma fábrica para depois enviá-los, por via marítima, ao Oriente. Por estes restos são pagos dois dólares e meio por quilo e são os últimos objetos úteis de que se pode conseguir algo para chegar ao fim do mês. Eles representam um dos principais produtos de exportação norte-americanos para a China, e Detroit é a cidade que mais os oferece. Eles servem para construir em outro lugar o que antes estava aqui. Para criar a infraestrutura que permitirá um maior lucro aos patrões. A exploração gerada por uma maior parcela da mais-valia, para usar as palavras de outro tempo. No entanto, não há ilusões. Com as novas fábricas, surgirão novos conflitos e novas esperanças.
Traduzido por Daniela Mouro.
Antonino Infranca, Margem Esquerda
É indubitável que a atual crise do sistema capitalista fez renascer o interesse pelo maior e mais radical inimigo do capitalismo, Karl Marx. Esse interesse, depois da queda dos regimes do socialismo real, é agora mais livre e mais objetivo, uma vez que a pesquisa sobre a obra de Marx não é mais ligada a defesa preconceituosa e extremistas daqueles odiosos sistemas políticos.
Também na Itália o interesse por Marx é fortemente cultivado por estudiosos de grande mérito. Um deste é Marcello Musto que, não por acaso, como tantos outros eméritos pesquisadores italianos, foi impelido a emigrar; hoje, é professor de Teoria política da York University em Toronto. Seu último livro Ripensare Marx e i marxismi (Roma, Carocci, 2011, pp. 373) é uma coletânea de parte de seus artigos esparso e antecipa uma espécie de biografia intelectual de Marx.
Como preconizavam Lukács e Dussel, e como afirma o próprio Musto «a pesquisa sobre Marx contém ainda tantas veredas inexploradas e, diferentemente do que sempre se afirmou, nem tudo sobre a sua obra foi dito e escrito» (p. 15), ainda porque nem tudo foi publicado. Existe ainda centenas de páginas inéditas, que foi frequentemente censuradas pelo regime soviético, que podem ainda revelar surpresas seja para os estudiosos de Marx, seja para os seus críticos. A nova edição da Marx Engels Gesamtausgabe, ainda não concluída, conta até agora somente com 58 volumes dos 114 previstos; essa questão, inclusive, é um dos argumentos do livro de Musto (cfr. pp. 189-224). O autor reconstrói a história das publicações de Marx com alto rigor e precisão, ao mesmo tempo em que utiliza uma linguagem apaixonada, quase como uma narração romanceada, revelando, assim, uma notável clareza de estilo não comum a um filósofo.
Por motivo de espaço, limito-me a tecer observações sobre dois dos tantos e interessantes argumentos contidos no livro de Musto. Antes de tudo, o autor sublinha o modo incansável próprio do estilo intelectual de Marx e de sua incapacidade de colocar limites as suas pesquisas. Como um obstinado perfeccionista e mesmo sendo dotado de um modo claro e brilhante de se exprimir, Marx, que seguia incessantemente todos os noticiários mais recentes e todas as mais avançadas reflexões de sua época, muitas vezes deixou de elaborar uma síntese definitiva de muito de seu arsenal de material de pesquisas. Na prática, publicou em vida pouquíssimo das milhares de páginas que correspondiam ao seus apontamentos sobre as reflexões e teorias que colhia. Este é um dos motivos, junto ao aspecto da complexidade de seus escritos, pelo qual a obra de Marx é ainda hoje efetivamente pouco conhecida. Um outro motivo, é o da diversidade de suas reflexões e previsões, no que diz respeito ao que já havia realizado, e que não correspondia diretamente com as aspirações do regime soviético, que acaba retendo como mais conveniente tornar vagarosa e até mesmo, por um certo período, interromper a publicação de suas obras inéditas. Paradoxalmente, a queda daquele regime e a atual crise relançam o interesse por Marx. Ainda porque uma das características de seu método de estudo «tinha fornido a Marx instrumentos úteis não somente para colher as diferenças entre os diversos modos com a qual a produção se manifestou no curso da história, mas também para distinguir no presente as tendências que pressupõe o desenvolvimento de um novo modo de produção, contrastando, consequentemente, com aqueles que haviam postulado a insuperabilidade histórica do capitalismo» (p. 143). Se então o método de Marx permite de colher nas suas análises os desenvolvimentos futuros do modo de produção capitalista, hoje se consegue prefigurar através daquelas mesmas análises as características típicas da atual crise. Para dar um rápido exemplo, as análises marxiana da finança mundial e da, então incipiente, globalização são hoje confirmadas.
O método de Marx de apoderar-se das idéias alheias reescrevendo-as, fazendo-as suas com a pena, transferindo-as sempre sob o plano concreto da história, permitia de colher a complexidade dos fenômenos sociais e, ao mesmo tempo, a simplicidade de sua estrutura lógica, podemos dizer que ia do fenômeno último até o princípio dominante, presente em toda dinâmica sócio-econômica. Para dizer com as palavras de Musto: «A abstração devia ser constantemente confrontada com os diversos aspectos próprios da realidades histórica, sendo possível assim distinguir as determinações lógicas gerais daquelas das relações históricas concretas» (p. 142). Tal método é a exata inversão do método hegeliano, que possuindo uma estrutura lógica, assumia nesta todas as relações históricas concretas. Através deste aspecto que podemos ver o quanto Marx inverteu a dialética hegeliana, dando-a uma base histórica que em Hegel era rarefeita.
«Com o utilizo do conceito hegeliano de totalidade, Marx tinha afinado um eficaz instrumento teórico – mais sólido que os limitados processos abstratos utilizado pelos economistas – que capacitava mostrar, ao evidenciar a ação recíproca operante entre as várias partes, que o concreto era uma unidade diferenciada por muitas determinações e relações sócio-econômicas e a separação das mesmas, concebidas pelos economistas em seus reincidentes e difusos textos, resultava tanto arbitrária quanto deletéria para compreender as relações econômicas reais» (p. 129). Na prática era a filosofia a fornecer a Marx uma maior compreensão da realidade econômica em relação aos economistas. Esta conclusão de Musto permite entender quanto encoberta foi a interpretação do marxismo-leninismo soviético. O dano consistia no fato que «foi expelido da teoria de Marx a sua vocacional função de guiar uma ação, uma vez que esta foi transformada, no seu contrário, ou seja, na justificativa de uma ação a posteriori [a justificação que dava uma base “legítima” ao próprio sistema soviético]» (p. 195). Podemos então nos contentarmos pela queda do regime soviético, pelo fim do modo devastante e esclerosado que foi tratada a obra do autor de O capital pelos stalinistas e seus consortes e pela boa nova de que dos arquivos soviéticos veio fora os manuscritos de um Marx do vigésimo primeiro século que nos reserva ainda tanta surpresa.
Tradução de Tatiana Fonseca Oliveira
Aqueles que, visitando a África do Sul, desejem compreender os acontecimentos que distinguiram a dramática história deste país não podem prescindir do museu do apartheid.
Situado a poucos quilômetros do centro de Johanesburgo, representa um dos lugares mais significativos para empreender uma viagem ao passado de um dos piores casos de colonialismo europeu e, ao mesmo tempo, de racismo do século XX.
A atmosfera festiva que se respira no exterior, pela presença de estudantes que, entre doces cânticos e doces sorrisos, antes de entrar se disponibilizam numa fila de indumentárias e mochilas coloridas, cessa bruscamente na porta de acesso. Ao museu não se vai em grupo. Os visitantes, estudantes ou membros de famílias são separados um por um em função do número do bilhete comprado e antes de se reagruparem junto a uma fotografia de Nelson Mandela reviverão a tragédia da segregação. Os visitantes com números pares entram pelo acesso reservado aos “brancos”, daqueles de quem são recordados os inúmeros privilégios gozados e as atrocidades cometidas no curso da visita; enquanto isso, os ímpares, no corredor contíguo, recorrem o trajeto da brutalidade sofrida pelos negros e mestiços. Na parte inicial do museu, todos seguem o mesmo percurso, sendo possível se olhar e caminhar juntos algumas vezes, mas estão sempre separados por uma grelha fria de metal; não se tocam nunca e atravessam relatos, documentos e experiências de vida completamente distintas.
Racismo e apartheid
A colonização européia começou em 1486, ano em que o navegante português Bartolomeu Dias superou o extremo meridional da África. Em 1652, alguns pioneiros holandeses de doutrina calvinista, dedicados à agricultura e por isso chamados de Boers (camponeses), construíram um primeiro assentamento como escala dos navios da Companhia Holandesa das Índias Orientais, que futuramente se tornaria a Cidade do Cabo, ou Capetown.
No início do século XVIII, começaram a se chamar de Afrikaners para se distinguirem dos colonizadores ingleses chegados depois deles; mas o acontecimento que sacudiu a história desta terra foi o descobrimento, em 1887, das incríveis riquezas de seu subsolo. E em poucos anos, tudo mudou: antes de acabar o século XIX, se produzia na África do Sul um quarto do ouro de todo o mundo e a fama dos seus diamantes preciosos não era menor. O racismo foi um elemento essencial da cultura da população de origem européia e até o Partido Comunista (CPSA), em 1922, chamou os mineiros à luta “por uma África do Sul branca e socialista”.
Em abril de 1994, as televisões do mundo todo mostraram intermináveis fileiras de sul-africanos que, durante horas, com paciência e orgulho, esperavam um momento largamente aguardado: o primeiro voto e o fim da segregação racial. Passados vinte anos pode-se afirmar que as expectativas daqueles milhões de mulheres e homens foram descumpridas. A luta por um país verdadeiramente democrático foi truncada pelas políticas neoliberais adotadas pelo African National Congress (ANC). O massacre brutal de Marikana, em agosto de 2012, tão similar às matanças dos tempos de apartheid, onde perderam a vida 47 mineiros em greve pelo aumento salarial (apenas 250 euros por mês depois de 18 anos de democracia) representa perfeitamente os paradoxos desta nação.
Frente à extraordinária concentração de riqueza existente – um estudo recente da Citigroup afirma que a África do Sul possui ainda hoje o subsolo mais rico do planeta, estimando o valor das suas reservas minerais em mais de 2,5 trilhões de dólares – no período pós-guerra este país se destacava, excluindo a população de origem européia, pelo índice de mortalidade mais alto do mundo. Mais da metade da população de origem africana vivia confinada nos Bantustan (que cobriam apenas 13% da superfície), onde o poder branco relegou – e às vezes deportou – as populações locais segundo sua etnia de procedência; a outra metade habitava os township, aglomerações de barracas que faziam fronteira com as cidades dos “brancos”, onde se amontoava, sem qualquer direito civil, a força de trabalho negra que sustentava a economia nacional. Nestas zonas, a miséria extrema. Sapatos somente chegaram em 1979, e graças à ajuda da Cruz Vermelha.
Apesar da resolução que condena as políticas do apartheid, votada na ONU em 1962, o veto imposto à moção de 1974 por Inglaterra, França e Estados Unidos, potências que se beneficiavam das exportações na África do Sul, impediu a expulsão do país das Nações Unidas. Deste modo, pela rota do Cabo da Boa Esperança, seguiram transportando mais de 20% do petróleo consumido nos EUA e 70% das matérias-primas estratégicas (especialmente platina, cromo e manganês) para a Europa ocidental, seguiram navegando mais de 2000 barcos por ano e as débeis sanções econômicas aplicadas não melaram em absoluto a economia e o regime do Partido Nacional (National Party).
Pobreza e neoliberalismo
No momento dos acordos de paz que seguiram a extraordinária luta de libertação, a África do Sul era um país profundamente dividido. A renda per capita da população de origem européia era a sétima mais alta do mundo, enquanto que a da gente africana a centésima vigésima. Com a massificação das cidades por parte da multidão de africanos liberados dos sórdidos guetos da segregação, os “brancos” começaram a transferir-se a bairros residenciais longe dos centros das cidades, onde ainda hoje vivem entrincheirados em luxuosíssimas casas, uma mescla de vilas de estilo hollywoodiano e fortalezas rodeadas de arame farpado, cercas elétricas e guardas privados armados.
Nos primeiros quinze anos de liberdade, junto à figura carismática e internacionalmente conhecida de Mandela, destacou-se a de Thabo Mbeki. Vice-presidente do primeiro quinquênio e depois à frente da “nação arco-íris” até 2008, foi Mbeki quem definiu os desígnios econômicos do país.
Em 1994, a Alliance, coalizão eleitoral composta pelo ANC, CPSA e o COSATU, a principal e mais combativa federação sindical sul-africana com mais de 1,8 milhão de inscritos, pôs em marcha o Programa de Reconstrução e Desenvolvimento (RDP), um conjunto de medidas com a finalidade de criar serviços básicos, ocupação, moradia e reforma da propriedade de terra. Entretanto, dois anos depois o RDP foi substituído por um novo plano estratégico para o Crescimento, Emprego e Redistribuição (GEAR) que deveria permitir, segundo promessas de Mandela e Mbeki, a chegada de investimentos estrangeiros e, portanto, o bem-estar geral. Na realidade, com o GEAR, na África do Sul chegaram o neoliberalismo e seus efeitos devastadores.
Após haver aceitado pagar a dívida pública (25 bilhões de dólares) acumulada durante a era do apartheid, para o que foi necessário solicitar um crédito ao Fundo Monetário Internacional e, portanto, submeter-se às suas receitas econômicas, com o GEAR, a África do Sul iniciou uma temporada de privatizações massivas, de liberalização dos intercâmbios para facilitar a importação de mercadorias a baixíssimo custo; de grandes cortes de gastos públicos, acompanhados de enormes reduções fiscais a todas as grandes empresas (cujas cargas fiscais descenderam de 48% em 1994 aos atuais 30%); e da desregulamentação do mercado.
Apesar das promessas de maior eficiência, de criação de novos postos de trabalho e conseguinte redução da pobreza, estas medidas comportaram o aumento dos preços da eletricidade, água e transporte; o barateamento dos salários e a flexibilização laboral; os cortes no setor público, sobretudo saneamento básico, educação e moradia; e a deterioração da situação ambiental, com a enorme emissão de CO2 devido à quantidade de eletricidade fornecida às multinacionais pelo preço mais baixo do mundo; e, em definitiva, a financeirização da economia com um crescimento sem criação de postos de trabalho (segundo o Economist, a África do Sul é o mercado emergente mais vulnerável). Qualquer análise séria da atual situação socioeconômica da África do Sul não pode prescindir de uma rigorosa reflexão a respeito do GEAR e das suas nefastas consequências.
Junto a esta “primeira economia”, cada vez mais integrada no mercado global e vinculada aos setores mineiros e financeiros, se desenvolveu uma “segunda”, marginal e similar às receitas econômicas do Nobel Muhammad Yunnus. Mediante a “milagrosa” transformação dos pobres em pequenos empreendedores e mediante a sedutora ilusão de que os microcréditos eram a possível panacéia de todos os males, esta “segunda” economia contribuiu, também na África do Sul, a uma despolitização da pobreza e permitiu a penetração do mercado em âmbitos de relações sociais até então não mercantilizados. Por outro lado, a “tecnocratização” da questão social é a anulação das suas causas econômicas e políticas, um fenômeno hoje cada vez mais difundido.
Mbeki guiou esta transformação utilizando uma retórica de esquerda com pitadas de nacionalismo africano. Não por acaso, sua política foi definida como “Talk left, walk right”, isto é, falar como a esquerda e caminhar em direção à direita. Abordagem que não se distanciou do dito por Jacob Zuma, o atual presidente da África do Sul que, apesar de haver sido eleito em 2009 por sua ênfase em estar situado à esquerda do ANC, traiu as expectativas de mudança auspiciadas pelo COSATU e se distinguiu por uma clara continuidade do que havia sido feito antes.
Uma advertência para a esquerda
A conquista dos direitos políticos foi um resultado importantíssimo que não pode ser subestimado, menos ainda em um país com a história dramática da África do Sul. Contudo, a mudança prometida pela Alliance não abordou a questão social. De fato, o ANC retirou o tema da redistribuição da riqueza de sua agenda e, a respeito de 1994, as desigualdades só aumentaram (naquele tempo, o salário de um trabalhador negro correspondia a 13,5% do salário de um trabalhador branco; hoje a relação caiu para 13%). O aumento do descontentamento social nas áreas urbanas indica que a “guerra à pobreza”, declarada pelo governo em 2008, também foi perdida.
O número de desempregados é superior a um quarto da força de trabalho do país – maior que durante os tempos do apartheid – e a porcentagem de desemprego seria superior a 30% se na estimativa forem inclusos os discouraged workers, aqueles que deixaram de buscar trabalho. Meio milhão de postos de trabalho foram precarizados e tiveram seus salários reduzidos, enquanto que muitos dos novos postos estão pagando menos de 20 euros por mês. Este dramático quadro piorou com os efeitos da crise, causada pela bolha imobiliária (diz respeito ao final do século passado em que os preços haviam aumentado 389%); pelo decrescimento no setores mineiros e manufatureiros, devido à forte redução da demanda global; pela queda dos investimentos; e pela perda de um milhão de postos de trabalho só durante o ano de 2009.
Na “nova África do Sul”, as injustiças herdadas do regime segregacionista só aumentaram. O nascimento de uma burguesia “negra” politicamente influente, mas economicamente frágil, em suma, de outra elite predatória junto à já existente, enriqueceu um grupo de homens ligados ao ANC, mas certamente não mudou as condições do povo sul-africano. O apartheid racial se transformou em apartheid de classe, termo hoje em dia fora de moda, mas sempre atual, e o fracasso da Alliance é uma advertência para todas as esquerdas do mundo. Explica que também os partidos políticos de grande tradição, especialmente quando são forças governantes, acabam traindo os princípios reformistas, se extraviam de sua própria raiz social e deixam de ser sustentados por movimentos de massa. Uma vez mais, é daqui, e também aprendendo com a África do Sul, de onde devemos voltar a começar.
Traduzido por Raphael Sanz
Marx e o caso Vogt
No último volume da Marx-Engels Gesamtausgabe (MEGA2) está publicada a correspondência completa de Karl Marx entre 1860-61: um capítulo pouco explorado de sua biografia intelectual. Este período abrange a redação do polêmico escrito O Senhor Vogt, os esboços de O Capital, os artigos jornalísticos para o “New York Tribune” e para o “Die Presse”, além de estudos realizados através de minuciosas leituras, as vicissitudes de sua saúde e a incerteza de sua existência decorrente da profunda miséria que o acometia.
I. As vicissitudes editoriais da obra de Marx e Engels
Apesar da grande difusão dos escritos e da ampla afirmação de suas teorias, Marx e Engels ainda não dispõem de uma edição integral e científica de sua própria obra. A primeira razão deste paradoxo decorre do caráter fragmentário e incompleto da obra de Marx, da qual, excluindo os artigos jornalísticos editados entre 1848-1862, os trabalhos publicados foram relativamente poucos se comparados aos inúmeros trabalhos parcialmente concluídos ou ao imponente conjunto de investigações desenvolvidas. O próprio Marx confirma tal fato, quando em 1881, um de seus últimos anos de vida, ao ser consultado por Karl Kautsky sobre a possibilidade de uma edição completa de suas obras, responde: ”antes de tudo, estas deveriam primeiro ser escritas”. Em segundo lugar, as vicissitudes do movimento operário influenciaram a publicação dos trabalhos dos dois autores, que com muita freqüência, mais dificultaram do que favoreceram a edição de seus textos.
A primeira tentativa de publicação de todos os escritos de Marx e Engels remonta aos anos vinte, quando David Borissovitch Riazanov, reconhecido estudioso e conhecedor da obra de Marx, além de diretor do Instituto Marx-Engels da recém-criada república dos Soviets, iniciou a publicação em língua original através da Marx-Engels Gesamtausgabe (Mega). No entanto, em decorrência dos expurgos estalinistas exercidos sobre os estudiosos do Instituto – o próprio Riazanov foi destituído e condenado à deportação em 1931 – o projeto foi interrompido em 1935, e dos 42 volumes inicialmente previstos só foram publicados 12 volumes (em 13 tomos). Ainda na União Soviética, de 1928 a 1946, foi publicada a primeira edição em russo: a Sochineniya (Obras Completas). Apesar do nome, essa reproduzia apenas um número parcial de escritos; mas, com os seus 28 volumes (em 33 tomos), constituiu para a época a coleção quantitativamente mais consistente da obra dos dois autores. A segunda Sochineniya, por outro lado, apareceu entre 1955 e 1966 em 39 volumes (42 tomos).
De 1956 a 1968, na República Democrática Alemã, por iniciativa do Comitê Central do SED, foram impressos os 41 volumes (em 43 tomos) da Marx Engels Werke (Mew). Tal edição, porém, longe de ser completa, era ainda tediosa em decorrência das introduções e notas que, concebidas sob o modelo da edição soviética, orientavam a leitura segundo a concepção do “marxismo-leninismo”. Apesar disto, ela constituiu a base de numerosas edições análogas em outras línguas, entre as quais também se inclui a edição italiana das Opere, que não foi publicada na íntegra, aparecendo apenas em 32 dos 50 volumes previstos.
O projeto de uma “segunda” MEGA, que se propunha a reproduzir de maneira fiel e com um amplo aparato crítico todos os escritos dos dois pensadores, renasceu durante os anos sessenta. No entanto, as publicações, iniciadas em 1975, foram também interrompidas, desta feita em decorrência da queda do bloco dos “países socialistas”.
Em 1990, com o objetivo de completar a edição histórico-crítica, diversos institutos na Holanda, Alemanha e Rússia constituíram a “ Internationale Marx-Engels-Stiftung” (IMES). Após uma meticulosa fase de reorganização, na qual se estabeleceu novos princípios editoriais e após a substituição da editora Dietz Verlag pela Akademie Verlag, a partir de 1998 é retomada a publicação da Marx-Engels Gesamtausgabe, denominada MEGA2. Esta iniciativa se reveste de grande importância já que uma parte considerável dos manuscritos, da imponente correspondência e da imensa quantidade de resumos e anotações elaborados por Marx de suas leituras continua ainda inédita. O projeto integral, do qual participam estudiosos que trabalham na Alemanha, Rússia, Japão, Estados Unidos, Holanda, França e Dinamarca se divide em quatro seções: a primeira compreende todas as obras, artigos e esboços, excluído O Capital; a segunda O Capital e todos os seus trabalhos preparatórios a partir de 1857; a terceira o epistolário; a quarta os resumos, as anotações e as notas à margem. Até hoje, dos 114 volumes previstos já foram publicados 52 (12 dos quais após a retomada do projeto em 1998), cada um dos quais consta de dois tomos: o texto e o aparato crítico, que contém os índices e muitos outros dados adicionais (informações detalhadas em www.bbaw.de/vs/mega).
II. A correspondência de Marx e Engels
O volume que aqui se apresenta – Marx-Engels Gesamtausgabe (MEGA2), Dritte Abteilung, Band 11: Briefwechsel Juni 1860 bis Dezember 1861, organizado por Rolf Dlubek e Vera Morozova, com a participação de Galina Golovina e Elena Vassenko, Akademie Verlag, Berlin 2005, 02 volumes, 1467 pp. – é o último publicado. Este inclui uma parte da correspondência trocada entre Marx e Engels no curso de suas vidas e ainda aquela que mantiveram com numerosos correspondentes com os quais estiveram em contato. O número total das cartas deste epistolário é enorme. De fato, foram encontradas mais de 4000 cartas escritas por Marx e Engels, das quais 2500 foram trocadas entre si e 10000 endereçadas por eles a terceiros. Alem destas, outras 6000 cartas, mesmo não sendo efetivamente enviadas aos seus destinatários, deixaram testemunho concreto de sua existência. Em consonância com a nova linha editorial adotada na MEGA2, todas as cartas seguem rigorosamente o critério de sucessão cronológica e os volumes não são mais divididos, como no passado, em duas partes distintas, umas das quais continha as cartas enviadas por Marx e Engels e a outra, aquelas recebidas por eles.
O texto em exame apresenta a correspondência mantida entre junho de 1860 e dezembro de 1861, período que, em essência, abarca as vicissitudes relativas à publicação de O Senhor Vogt e ao violento confronto estabelecido entre este e Marx. Das 386 cartas conservadas, 133 foram escritas por Marx e Engels e 253 recebidas por eles – entre as quais 204 são publicadas pela primeira vez. Das primeiras 133 cartas, 95 foram trocadas entre si (73 foram escritas por Marx a Engels e 22 por Engels a Marx – porém, através da reconstrução da correspondência entre ambos, fica evidente que pelo menos 17 das cartas escritas por Engels a Marx não foram enviadas). Finalmente, 11 cartas foram escritas por Ferdinand Lassalle a Marx.
III. O Senhor Vogt
Representante da esquerda na Assembléia nacional de Frankfurt entre 1848-1849, Carl Vogt era, além disto, professor de ciências naturais em Genebra, onde vivia exilado. Na primavera de 1859, publicou o panfleto Studien zur gegenwärtige Large Europas, no qual defende o ponto de vista bonapartista em política externa. Em junho do mesmo ano, apareceu em Londres um folheto anônimo que denunciava as intrigas de Vogt em favor de Napoleão III, especialmente as tentativas feitas para corromper alguns jornalistas no sentido de produzir versões pró-bonapartistas sobre os acontecimentos políticos em curso. A acusação – que como logo se demonstrou foi obra de Karl Blind, jornalista e escritor alemão emigrado em Londres – foi retomada pelo semanário “Das Volk”, no qual colaboravam também Marx e Engels, e pela “Allgemeine Zeitung” de Augusta.
Isto levou Vogt a entrar com uma ação legal contra o periódico alemão, que não pôde refutar a denúncia em função do anonimato exigido por Blind. Embora a queixa tenha sido judicialmente rejeitada, Vogt apareceu como o vencedor moral de toda aquela querela. Assim, ao publicar a sua versão dos acontecimentos ( Mein Prozess gegen die Allgemeine Zeitung), acusou Marx de ser o inspirador de um complô contra ele, além de ser o chefe de um bando que chantageava os participantes dos movimentos revolucionários de 1848, em particular ameaçando revelar os nomes daqueles que não estivessem dispostos a pagar o preço do silêncio [2].
Além de ter eco na França e Inglaterra, o escrito de Vogt teve um significativo sucesso na Alemanha, causando grande clamor nos jornais liberais: ”naturalmente o júbilo da imprensa burguesa não tem limites” [3]. Em janeiro de 1860 o “National-Zeitung” de Berlim publicou um resumo em dois longos artigos de fundo e, em conseqüência, Marx processou o jornal por difamação. Porém, o “Supremo Tribunal Real Prussiano” rejeitou a petição, alegando que os artigos não ultrapassavam os limites permitidos da crítica e não tinham a intenção de ofender. O sarcástico comentário de Marx à sentença foi: “é como aquele turco que feriu a cabeça de um grego, porém sem ter a intenção de lhe fazer mal” [4].
O texto de Vogt misturava, com hábil maestria, acontecimentos verdadeiros e outros inteiramente inventados, procurando levantar dúvidas sobre a história real da emigração entre aqueles que não estavam a par dos fatos. Assim, para salvaguardar a sua reputação, Marx se sente obrigado a organizar a sua defesa e, em função disto, em fins de fevereiro de 1860, começou a recolher material para um livro contra Vogt. Isto é feito através de duas formas. Antes de tudo, escreveu dezenas de cartas aos militantes com os quais havia mantido relações políticas durante e depois de 1848, a fim de obter deles todos os documentos possíveis referentes à Vogt [5]. Além disto, para ilustrar da melhor maneira possível a política dos principais Estados europeus e revelar o papel reacionário de Bonaparte, ele desenvolveu vastos estudos sobre a história política e diplomática dos séculos XVII, XVIII e XIX [6]. Sem dúvida, esta última parte é a mais interessante do escrito, além de que – juntamente com aquela que contém a reconstrução da história da “Liga dos Comunistas” – é a única a conservar valor para o leitor contemporâneo.
De qualquer maneira, como sempre acontecia com Marx, o seus estudos aumentaram muito as dimensões do livro, que lhe “crescia sob as mãos” [7]. E o prazo para o término do trabalho era constantemente postergado. Na realidade, apesar da exortação de Engels – “seja, pois, pelo menos uma vez um pouco superficial para cumprir o prazo estabelecido” [8] – e de ter escrito a Jenny Marx: “fazemos sempre as coisas mais estupendas, mas fazemos sempre de modo que não fiquem prontas no tempo adequado, e assim todas se perdem (…) lhe peço fazer o possível para que algo seja feito, mas imediatamente, para encontrar o editor e para que o opúsculo fique finalmente pronto” [9], Marx só se decidiu a terminá-lo em novembro. Ele quis intitular o livro “Da-Da-Vogt” [10], para evocar a semelhança de opinião entre Vogt e o jornalista bonapartista árabe contemporâneo a ele, Da-Da-Roschaid. Este, ao traduzir o panfleto bonapartista para o árabe por ordem das autoridades da Argélia, havia definido o imperador Napoleão III como “o sol de beneficência, a glória do firmamento” [11], e a Marx nada parecia mais apropriado para Vogt do que o epíteto de “Da-Da alemão” [12]. Todavia, Engels o convenceu a optar por um mais compreensível Herr Vogt (O Senhor Vogt).
Problemas posteriores surgiram com relação ao local de publicação do livro. A propósito, Engels recomendou veementemente a publicação do livro na Alemanha: “é preciso evitar a todo custo imprimir seu opúsculo em Londres (…). Já fizemos centenas de experiências com a literatura da emigração, sempre sem nenhum resultado, sempre dinheiro e trabalho jogados fora, sem contar a raiva” [13]. Porém, já que nenhum editor alemão se disponibilizou, Marx publicou o livro em Londres com o editor Petsch e assim mesmo, graças a uma coleta de dinheiro feita para bancar as despesas. Engels comentou que teria sido “preferível imprimir na Alemanha e era absolutamente necessário providenciar tal impressão [:] um editor alemão (…) tem melhores condições para romper a conspiração do silêncio” [14].
A refutação das acusações de Vogt manteve Marx ocupado durante um ano inteiro, obrigando-o a abandonar completamente os seus estudos econômicos que, segundo o contrato firmado com o editor berlinense Duncker, deveria aprofundar as investigações presentes em Para a crítica da economia política, publicada em 1859. Aparentemente, o frenesi que o invadiu durante este episódio acabou contagiando também aqueles que lhe eram mais próximos. A esposa Jenny achava O Senhor Vogt uma fonte de “prazer e deleite sem fim”; Engels afirmou que a obra era “certamente o melhor trabalho polêmico que [ele tinha] escrito até agora” [15]; Lassalle saudou o texto como “algo magistral em todos os sentidos” [16]; Wilhelm Wolff, em suma, disse: “é uma obra-prima do início ao fim” [17].
Na realidade, para ser compreendido hoje em todas as suas referências e alusões, O Senhor Vogt requereria um amplo comentário. Além disto, todos os principais biógrafos de Marx têm sido unânimes em considerar esta obra como uma notável perda de tempo e energia. Ao recordar como diversos conhecidos de Marx tentaram dissuadi-lo de empreender esta tarefa, Franz Mehring afirmou como “seria tentador desejar que ele tivesse dado ouvido a estes conselhos [uma vez que] esta obstaculizou (…) a grande obra de sua vida (…) em função do precioso dispêndio de força e tempo gastos sem qualquer ganho real” [18]. Com parecer semelhante, Karl Vorländer escreveu em 1929: “hoje, depois de duas gerações, se pode com razão duvidar se valia à pena desperdiçar nesta desprezível contenda, que durou quase um ano, tanto trabalho espiritual e tantas despesas financeiras para escrever um opúsculo de 191 páginas, redigido com brilhante argúcia, com máximas e citações de toda a literatura mundial (Fischart, Calderon, Shakespeare, Dante, Pope, Cícero, Boiardo, Sterne e da literatura médio-alta alemã), no qual ele se arremetia contra o odiado adversário” [19]. Nikolaevsky e Maenchen-Helfen também condenaram o fato de que “Marx tenha gasto mais de um ano se defendendo contra a tentativa de acabar com sua vida política com as denúncias [e que] somente a partir da metade de 1861 pôde retomar a sua obra de economia” [20].
Ainda, segundo David MacLellan, a polêmica contra Carl Vogt “foi um claro exemplo da singular capacidade [de Marx] em direcionar uma grande quantidade de energia para questões absolutamente insignificantes e de seu talento para a invectiva” [21]. Em suma, Francis Wheen se interroga da seguinte forma: “para responder às calúnias publicadas na imprensa suíça por um obscuro político chamado Carl Vogt, era realmente necessário escrever um livro de duzentas páginas?”. E, em seguida, assinala que: “os cadernos de economia permaneceram fechados sobre sua escrivaninha, enquanto o seu proprietário se distraía com uma disputa, tão espetacular quanto supérflua (…) uma violenta réplica que, seja pela sua prolixidade, seja pelo seu tom furibundo, superava em grande medida o panfleto originário ao qual buscava responder” [22].
O que mais surpreende neste escrito é o uso excessivo de referências literárias na argumentação de Marx. Além dos autores já mencionados por Vorländer, comparecem sobre o palco desta obra, entre outros, Virgílio, vários personagens da Bíblia na tradução feita por Lutero, Schiller, Byron, Hugo e, naturalmente, os apreciadíssimos Cervantes, Voltaire, Goethe, Heine e Balzac [23]. No entanto, estas citações – e, pois, o precioso tempo gasto para inseri-las no texto – não respondiam somente ao desejo de Marx de demonstrar a superioridade de sua cultura diante de Vogt ou de tornar o panfleto mais agradável através da utilização de comentários satíricos. Elas refletem duas características essenciais da personalidade de Marx. A primeira é a grande importância que ele atribuiu, ao longo de toda a sua existência, ao estilo e à estrutura de suas obras, mesmo aquelas menores ou meramente polêmicas como O Senhor Vogt. A forma vulgar, a construção incerta e com erros gramaticais, a falta de lógica nas formulações, a presença de erros e a mediocridade de grande parte dos escritos que, em suas inúmeras batalhas, ele combateu, sempre suscitaram grande desdém em Marx [24]. Assim, ao lado do conflito de natureza teórica, ele também se voltou contra a vulgaridade intrínseca, a falta de qualidade das obras de seus adversários e quis mostrar- lhes não só a exatidão do que escrevia, mas também a forma mais adequada de fazê-lo.
A segunda característica tipicamente marxiana, que se entrevê ao longo do imponente trabalho de preparação de O Senhor Vogt, é a agressividade e a irrefreável virulência com as quais ele se lançava contra os seus adversários diretos. Quer fossem filósofos, economistas ou militantes políticos e se chamassem Bauer, Stirner, Proudhon, Vogt, Lassalle ou Bakunin, Marx queria aniquilá-los, demonstrar de todas as formas possíveis a falta de fundamento de suas concepções, forçando-os à rendição impedindo-lhes de contestar as suas asserções. Assim, guiado por este ímpeto, tentava sepultar os seus antagonistas sob montanhas de argumentações críticas e, quando esta fúria se apoderava dele, a ponto de fazê-lo esquecer até de seu projeto de crítica da economia política, eis que não lhe bastava mais “somente” Hegel, Ricardo ou a utilização dos acontecimentos históricos, mas se utilizava também de Ésquilo, Dante, Shakespeare e Lessing. O Senhor Vogt foi como um encontro nefasto entre estes dois componentes de seu caráter. Um curto-circuito causado por um dos exemplos mais evidentes de picardia literária (tão odiada por Marx) e pela vontade de destruir o inimigo que, através da mentira, ameaçara a credibilidade e tentara manchar a sua história política.
Com este livro Marx esperava suscitar polêmica e tentou o quanto pôde atrair a atenção da imprensa alemã. No entanto, os jornais e o próprio Vogt não lhe deram nenhuma atenção: “os cães (…) querem ignorar a questão através do silêncio” [25]. Também “a publicação de uma reelaboração francesa, muito abreviada, que se encontrava em curso de impressão” [26], foi frustrada pois o volume foi censurado e incluído na lista de livros proibidos. Durante a vida de Marx e Engels não apareceu nenhuma outra edição de O Senhor Vogt e só foram reeditadas breves passagens escolhidas. Em tradução italiana o livro só foi publicado cinqüenta anos depois, em 1910, através de Luigi Mongini Editore.
IV. Contra a miséria e a doença
Os dois inimigos jurados de sempre, a miséria e a doença, contribuíram para retardar o trabalho de Marx e para complicar terrivelmente a sua situação pessoal. De fato, a situação econômica de Marx neste período foi verdadeiramente desesperante. Acuado pelas cobranças de inúmeros credores e com o espectro constante das imposições do broker (o oficial judiciário) rondando a sua casa, ele se lamentava a Engels afirmando: “não sei como me livrar desta, porque os impostos, as escolas, a casa, as drogarias, o açougueiro, deus e o diabo não querem mais me dar trégua” [27]. Em fins de 1861 a situação se torna ainda mais desesperada e para resistir, juntamente com a ajuda constante do amigo – para o qual demonstrava uma imensa gratidão “pelas extraordinárias provas de amizade” [28] -, Marx foi obrigado a empenhar “tudo exceto as paredes da casa” [29]. Sempre ao amigo, ele escreve: “de que júbilo não me acometeria o ânimo a falência do sistema financeiro dezembrista, prognosticado por mim amplamente e com freqüência no “Tribune”, se me livrasse destas mesquinharias e não visse minha família oprimida por estas angústias infames” [30]. Além disto, em fins de dezembro, ao envidar os votos de augúrio para o novo ano que se iniciava, se expressou assim: “se este tivesse que ser igual ao passado, pelo que me concerne, preferiria muito mais o inferno” [31].
Ao lado dos desanimadores problemas de ordem financeira, apareceram os problemas de saúde, que os primeiros contribuíram para determinar. O estado de profunda depressão que acometeu por muitas semanas a esposa de Marx, Jenny, acabou predispondo-a a contrair varíola, o que ocorreu em fins de 1860, colocando a sua vida seriamente em risco. Durante todo o período de enfermidade e convalescença de sua companheira, Marx esteve constantemente à sua cabeceira e só retomou a sua atividade quando Jenny estava fora de perigo. Como ele escreveu a Engels, durante o tempo transcorrido, trabalhar esteve completamente fora de questão: “a única ocupação com a qual posso conservar a tranqüilidade de ânimo necessária é a matemática” [32], uma das maiores paixões intelectuais de sua existência. Além do mais, poucos dias depois, acrescentava que uma circunstância que o havia “ajudado muito [tinha] sido uma terrível dor de dente”. Dirigindo-se ao dentista para extrair um dente, por imperícia, este deixou um fragmento, fazendo com que ficasse com a face “inchada e dolorida e a garganta obstruída”. Porém, onde está a ajuda? Bem, a ajuda era exatamente aquela. De fato, estoicamente, Marx afirmava: “este mal-estar físico estimula muito as faculdades do pensamento e, portanto, a capacidade de abstração; pois, como disse Hegel, o pensamento puro ou o puro ser ou ainda o nada são a mesma coisa” [33]. Apesar dos problemas, no curso destas semanas ele teve oportunidade de ler muitos livros, entre estes Sobre a origem das espécies através da seleção natural, de Charles Darwin, publicado no ano anterior. O comentário que Marx enviou por carta à Engels estava destinado a provocar discussões entre um grande número de estudiosos e militantes socialistas: “embora expresso grosseiramente em inglês, eis aqui o livro que contém os fundamentos histórico-naturais de nosso modo de ver” [34].
Em seguida a este período, em princípios de 1861, as condições de Marx se agravam em decorrência de uma inflamação do fígado que já o havia acometido no verão passado: “estou atribulado como Jó, embora não tão temeroso de Deus” [35]. Em particular, o fato de ficar encurvado lhe provocava enorme sofrimento e lhe impossibilitava de escrever. Assim, para superar a “repugnante condição que [o] impossibilitava de trabalhar” [36], uma vez mais ele se refugia na leitura: “à tarde, para aliviar-me [leio] as guerras civis romanas de Appiano no texto grego original. É um livro de grande valor (…), Espártaco aparece como o tipo mais inteligente de toda a história antiga. Foi um grande general (não um Garibaldi), de caráter nobre,verdadeiro representante do antigo proletariado” [37].
V. Enquanto isso, a “economia” espera…
Recuperado da doença em fins de fevereiro de 1861, Marx dirigiu-se à Zalt-Bomme, na Holanda, buscando uma solução para as suas dificuldades financeiras. Lá recebeu ajuda do tio Lion Philips, empresário e irmão do pai do futuro fundador da fábrica de lâmpadas da qual se originou uma das mais importantes fábricas de produtos eletrônicos do mundo, que concordou em lhe antecipar 160 libras esterlinas da futura herança materna. De lá, Marx dirigiu-se clandestinamente a Alemanha, ficando como hóspede de Lassalle por quatro semanas em Berlim. Este já havia lhe proposto, por diversas vezes, promoverem conjuntamente a criação de um órgão de ‘partido’ e agora, após restabelecerem a amizade em janeiro de 1861, também se apresentavam as condições para que Marx recuperasse a cidadania prussiana suspensa após a expulsão de 1849, e pudesse se transferir para Berlim. No entanto, a desconfiança de Marx em relação à Lassalle impediu que o projeto fosse realmente levado a sério [38].
Ao retornar de sua viagem, ele descreveu a Engels o intelectual e militante alemão da seguinte forma: “Lassalle, deslumbrado pela consideração de que goza em certos círculos cultos graças ao seu Heráclito e em outro círculo de aproveitadores, pelo bom vinho e pela boa comida, naturalmente desconhece que é desacreditado entre o grande público. Para completar, existe a sua prepotência, o seu encantamento com o ‘conceito especulativo’ (o jovenzinho até mesmo sonha em escrever uma nova filosofia hegeliana potencializada), a extrema influência que padece do velho liberalismo francês, a sua pena prolixa, a sua chatice, a sua falta de tato, etc. Lassalle, mantido sob uma rígida disciplina, poderia prestar serviços como um dos redatores. De outro modo, só comprometeria as coisas” [39]. A avaliação de Engels não era diferente, pois escrevia lapidarmente: “este homem não tem correção” [40]. De todo modo, o pedido de cidadania feito por Marx foi rapidamente negado e, como ele não se naturalizou na Inglaterra, permaneceu apátrida pelo resto da vida.
Desta estadia na Alemanha, a correspondência de Marx oferece relatos divertidos que facilitam a compreensão de seu caráter. Os seus hóspedes, Lassalle e a sua companheira, a condessa Sophie von Hatzfeldt, se esmeraram em organizar para ele uma série de atividades que só as suas cartas mostram o quão profundamente detestava. Em um breve relato dos primeiros dias passados na cidade, o vemos em apuros com a frivolidade mundana. Na terça-feira à tarde estava entre os espectadores de “uma comédia berlinense plena de autocomplacência prussiana: definitivamente uma coisa desagradável”. Na quarta-feira foi obrigado a assistir a três horas de balé na Ópera – “algo realmente entediante” – e, para completar, “horrível dictu” [41], “em um palco muito próximo àquele do ‘belo Guilherme’” [42], o rei em pessoa. Na quinta-feira, Lassalle ofereceu um almoço em sua honra, do qual fizeram parte algumas ‘celebridades’. No final das contas, ao invés de se alegrar com a situação, como exemplo da consideração que sentia pelos seus comensais, Marx deu esta descrição de sua vizinha de mesa, a redatora literária Ludmilla Assing: “é a criatura mais feia que já vi em minha vida, com uma fisionomia hebraica repulsiva, um nariz fino bastante saliente, com um eterno sorriso irônico, sempre utilizando uma prosa poética, num esforço contínuo de dizer algo brilhante, fingindo entusiasmo e aspergindo saliva sobre os seus ouvintes durante os espasmos de seu êxtase” [43].
Para Carl Siebel, poeta renano e parente distante de Engels, escreveu: “aqui me aborreço mortalmente. Sou tratado como uma espécie de leão de salão e sou obrigado a ver muitos senhores e senhoras ‘de engenho’. É terrível” [44]. Em seguida, escreveu a Engels: “Berlim também não é mais do que uma província”; enquanto a Lassalle não pôde negar que a cosmopolita Londres exercia sobre ele “uma atração extraordinária”, se bem que admitisse viver “como um eremita neste gigantesco buraco” [45]. E assim, após passar por Elberfeld, Bremen, Colônia, a sua Trier e depois novamente pela Holanda, retornou em 29 de abril.
Esperando por ele estava a sua “economia”. Como salientado, em junho de 1859 Marx havia publicado o primeiro fascículo de Para a crítica da economia política que, como programado, seria seguido por outro o mais rápido possível. Não obstante as constantes previsões otimistas feitas por ele a propósito – em novembro de 1860, escreveu a Lassalle: “penso que até a páscoa sairá a segunda parte” [46] -, em virtude das vicissitudes até aqui enumeradas, transcorreram em vão mais de dois anos até que ele pudesse retornar aos seus estudos. Por outro lado, estava profundamente tolhido pelas circunstâncias e em julho se lamentou com Engels: “não avanço tão rápido como pretendia porque tenho muitos problemas domésticos” [47]; e novamente em dezembro: “o meu escrito avança, porém, lentamente. De fato, não era possível resolver rapidamente tais questões teóricas em meio a semelhantes circunstâncias. E, portanto, será muito mais popular e o método muito mais dissimulado do que na primeira parte” [48].
De todo modo, em agosto de 1861 retorna a trabalhar com assiduidade em sua obra. Até junho de 1863 redige os 23 cadernos – de 1472 páginas em quarto – que compreendem as Teorias sobre a mais-valia. A primeira das três fases desta nova redação da “economia”, aquela relativa aos primeiros cinco cadernos deste grupo, se estendeu de agosto de 1861 a março de 1862. Estes abordam a transformação do dinheiro em capital – tema tratado no primeiro livro de O Capital – e constituem a primeira redação existente sobre este assunto. Diferentemente de Teorias sobre a mais-valia, publicado por Kautsky entre 1905 e 1910, se bem que numa edição modificada e frequentemente pouco conforme aos originais, estes cadernos foram ignorados por mais de cem anos. E só foram publicados pela primeira vez em 1973, na tradução russa, como suplemento (número 47) da Sochineniya. A versão em língua original só foi publicada em 1976, na ‘segunda’ MEGA [49].
VI. Jornalismo e política internacional
A última fase de 1861 é também aquela durante a qual Marx retoma a sua colaboração com o “New York Tribune” e escreve para o jornal liberal de Viena “Die Presse”. A maior parte de sua correspondência deste período foi dedicada à guerra civil nos Estados Unidos. Segundo Marx, nela “a luta era travada entre a mais alta forma de autogoverno popular jamais realizada até agora e a mais abjeta forma de escravidão humana que a história conhece” [50]. Esta avaliação evidencia, mais do que qualquer outra possível, o abismo que o separava de Garibaldi, que recusara a oferta do governo do norte de assumir um posto de comando no exército, porque considerava que esta guerra fosse apenas um conflito de poder e não concernisse à emancipação dos escravos.
Com relação a esta posição e a uma iniciativa de pacificação entre as partes proposta pelo italiano, Marx comentou com Engels: “aquele burro do Garibaldi se tornou ridículo com a carta sobre a concórdia aos yankees” [51]. Além disto, em seus artigos, Marx analisou as repercussões econômicas do conflito americano para a Inglaterra, considerando o desenvolvimento do comércio, a situação financeira e as opiniões difusas na sociedade. Com relação a este ponto, uma referência interessante também se encontra numa carta endereçada a Lassalle: “naturalmente, toda a imprensa oficial inglesa é favorável aos slave-holders (senhores de escravos). São exatamente os mesmos personagens que cansaram o mundo com o seu filantropismo contra o comércio de escravos. Todavia: algodão, algodão!” [52].
Enfim, em suas cartas a Lassalle, Marx sempre desenvolveu diversas reflexões relativas a um dos temas políticos que, naqueles anos, vinha se dedicando com mais afinco: a violenta oposição à Rússia e aos seus aliados Henry Palmerston e Luis Bonaparte. Em particular, Marx se dedicou a esclarecer a Lassalle a legitimidade da convergência nesta batalha entre seu ‘partido’ e o de David Urquhart, um político tory de perspectiva romântica. Sobre este, que no início dos anos cinqüenta teve a audácia de reeditar, com objetivos anti-russos e anti-whig, os artigos de Marx contra Palmerston publicados no órgão oficial dos cartistas ingleses, ele escreveu: “é certamente um reacionário do ponto de vista subjetivo (…) isto não impede, absolutamente, que o movimento que ele lidera em política externa seja objetivamente revolucionário (…) a questão é indiferente para mim como seria para você se, por exemplo, em uma guerra contra a Rússia, seu vizinho disparasse contra os russos por motivos nacionais ou revolucionários” [53]. E ainda: ”além do mais, é sabido que em política externa frases como ‘reacionário’ e ‘revolucionário’ não servem para nada” [54].
Finalmente, remonta também a 1861 a primeira fotografia conhecida de Marx [55]. A imagem o retrata enquanto posa de pé, com as mãos apoiadas sobre uma cadeira diante de si. Os cabelos espessos aparecem já brancos, enquanto a barba densa é de um negro intenso. O olhar decidido não deixa transparecer a amargura pelas derrotas sofridas e pelas inúmeras dificuldades que enfrentava; antes, pelo contrário, transmite a firmeza de ânimo que o distinguiu por toda a sua existência. No entanto, a inquietude e a melancolia também o atingiam, já que no mesmo período em que esta foto foi registrada, escreveu: “para mitigar o profundo mal-humor causado pela incerteza de minha situação em todos os sentidos, leio Tucídides. Pelo menos estes antigos permanecem sempre novos” [56]. Mesmo limitando-se somente à leitura de suas cartas, como não afirmar o mesmo, ainda hoje, do grande clássico da modernidade que é Karl Marx?
Traduzido por Geraldo Magella Neres
References
1. Marcello Musto é professor da Universidade de Nápoles. Para maiores informações sobre estas questões, consultar: MUSTO, M. Sulle tracce di um fantasma. L’opera di Karl Marx tra filologia e filosofia. Roma: Manifestolibri, 2006.
2. Em 1870, nas cartas dos arquivos franceses publicadas pelo governo republicano após o fim do Segundo Império, encontraram-se os documentos que comprovam que Vogt esteve à soldo de Napoleão III. De fato, em agosto de 1859, Napoleão havia lhe destinado 40.000 de seus fundos secretos. Cfr. Papiers et correspondance de la famille impériale. Édition collationnées sur le texte de l’imprimerie nationale, Vol. II, Paris, 1871, p. 161.
3. Karl Marx à Friedrich Engels, 31 de janeiro de 1860. In: MARX-ENGELS Opere, Vol. XLI. Roma: Editori Riuniti, 1973, p. 17.
4. Karl Marx, Herrr Vogt, In: MARX-ENGELS Opere. Vol. XVII, Editori Riuniti, Roma, 1986, p. 271.
5. Sobre a importância destas cartas como instrumento de comunicação política entre os militantes das revoluções de 1848-1849, e para analisar de uma perspectiva geral o conflito entre Marx e Vogt – não só do ponto de vista de Marx, como faz também o presente escrito – consultar CHRISTIAN JANSEN, Politischer Streit mit harten Bandagen. Zur brieflichen Kommunkation unter den emgrierten Achtundvierzigern – unterbesoderer Berücksichtigung der Controverse zwischen Marx und Vogt, In: JÜRGEN HERRES-MANFRED NEUHAUS (org.), Politische Netzerke durch Briefkommunikation, Akademie Verlag, Berlin 2002, pp. 49-100, que analisa as motivações políticas que teriam induzido Vogt a apoiar Bonaparte. O ensaio contém também um apêndice de cartas escritas por Vogt e outras recebidas por ele. São também interessantes, já que isentos da superada e freqüentemente doutrinária interpretação marxista, os textos de JACQUES GRANDJONC – HANS PELGER, Gengen die “Agentur Fazy/Vogt. Karl Marx’ “Herr Vogt” (1860) e GEORG LOMMELS, “Die Wahrheit über Genf” (1865). Quellen- und textgeschichtliche Anmerkungen, ambos em “Marx-Engels-Forchungs-berichte”, 1990 (Nr. 6), pp. 37-86 e ainda do mesmo LOMMELS, Les implications del’affaire Marx-Vogt, In: JEAN-CLAUDE PONT-DANIELE BUI-FRANÇOISE DUBOSSON-JAN LACKI (org.), Carl Vogt (1817-1895). Science, philosophie et politique, Georg, Chêne-Bourg 1998, pgs. 67-92.
6. Fruto destas pesquisas foram os seis cadernos de resumos de livros, revistas e jornais das mais diferentes orientações. Este material – denominado Vogtiana -, que mostra o modo como Marx utilizava os resultados de seus estudos para as obras que escrevia, encontra-se ainda inédito e será publicado no volume IV/16 da MEGA2.
7. Karl Marx a Friedrich Engels, 6 de dezembro de 1860, em MEGA2 III/11, Aksdemie Verlag, Berlin 2005, p. 250; trad. Ital. MARX-ENGELS Opere, vol. XLI, op. Cit., p. 135.
8. Friedrich Engels a Karl Marx, no mais tardar com data de 29 de junho de 1860, Ivi, p. 72; trad. Ital. Ivi, p. 83.
9. Friedrich Engels a Jenny Marx, 15 de agosto, Ivi, p. 113; trad. Ital. Ivi, p. 604.
10. Karl Marx a Friedrich Engels, 25 de setembro de 1860, Ivi, p. 180; trad. Ital. Ivi, p. 108.
11. Cfr. KARL MARX, Herr Vogt, op. cit., p. 180.
12. Ibidem.
13. Friedrich Engels a Karl Marx, 15 de setembro de 1860, In: MEGA2 III/11. op. Cit., p. 158; trad. Ital. MARX-ENGELS Opere, vol. XLI, op. cit., p. 103.
14. Friedrich Engels a Karl Marx, 5 de outubro de 1860, Ivi, p. 196; trad. Ital. Ivi, p. 114.
15. Friedrich Engels a Karl Marx, 19 de dezembro de 1860, Ivi, p. 268; trad. Ital. Ivi, p. 143.
16. Ferdinand Lassalle a Karl Marx, 19 de janeiro de 1861, Ivi, p. 321.
17. Wilhelm Wolff a Karl Marx, 27 de dezembro de 1860, Ivi, p. 283.
18. Franz mehring, Vita di Marx, Editori Riuniti, Roma 1972, p. 295.
19. Karl Vorländer, karl Marx, Sansoni, Firenze 1948, pp. 209-210.
20. BORIS NIKOLAEVSKY – OTTO MAENCHEN-HELFEN, Karl Marx. La vita e l’opera, Einaudi, Torino 1969, p. 284.
21. David MsLellan, Karl Marx, Rizzoli, Milano 1976, p. 317.
22. Francis Wheen, Marx. Vita publica e privata, Mondadori, Milano 2000, pp. 145, 204 e 207.
23. A propósito, remete-se às considerações do fundamental S. S. PRAWER, La biblioteca di Marx, Milano: Garzanti, 1978, que afirma: “em O Senhor Vogt parece que Marx seja incapaz de considerar qualquer fenômeno político ou social sem associá-lo a alguma referência da literatura mundial”, p. 263. Assinalando também que este texto pode ser estudado “como uma antologia dos vários métodos que Marx utilizava para incorporar alusões e citações literárias às suas polêmicas”, p. 260. Por outro lado, a considerável importância da influência literária nas obras de Marx e do erudito background cultural de sua teoria crítica suscitam uma atenção sempre crescente. A propósito, conferir o recente trabalho de FRANCIS WHEEN, Marx’s Das Kapital. A biography, London: Atlantic Books, 2006.
24. Sobre esta questão, conferir novamente as brilhantes considerações de S. S. PRAWER, op. cit., p. 264.
25. Karl Marx a Friedrich Engels, 22 de janeiro de 1861, em MEGA2 III/11, op. cit., p. 325; trad. ital. MARX-ENGELS Opere, vol. XLI, op. cit., p. 162.
26. Karl Marx a Friedrich Engels, 16 de maio de 1861, Ivi, p. 476; trad. ital. Ivi, p. 188.
27. Karl Marx a Friedrich Engels, 29 de janeiro de 1861, Ivi, p. 333; trad. ital. Ivi, p. 164.
28. Karl Marx a Friedrich Engels, 27 de fevereiro de 1861, Ivi, p. 380; trad. ital. Ivi, p. 177.
29. Karl Marx a Friedrich Engels, 30 de outubro de 1861, Ivi, p. 583; trad. ital. Ivi, p. 217.
30. Karl Marx a Friedrich Engels, 18 de novembro de 1861, Ivi, p. 599; trad. ital. Ivi, p. 222.
31. Karl Marx a Friedrich Engels, 27 de dezembro de 1861, Ivi, p. 636; trad. ital. Ivi, p. 237.
32. Karl Marx a Friedrich Engels, 23 de novembro de 1860, Ivi, p. 229; trad. ital. Ivi, p. 124.
33. Karl Marx a Friedrich Engels, 28 de novembro de 1860, Ivi, p. 236; trad. ital. Ivi, p. 128.
34. Karl Marx a Friedrich Engels, 19 de dezembro de 1860, Ivi, p. 271; trad. ital. Ivi, p. 145.
35. Karl Marx a Friedrich Engels, 18 de janeiro de 1861, Ivi, p. 319; trad. ital. Ivi, p. 160.
36. Karl Marx a Friedrich Engels, 22 de janeiro de 1861, Ivi, p. 325; trad. ital. Ivi, p. 162.
37. Karl Marx a Friedrich Engels, 27 de fevereiro de 1861, Ivi, p. 380; trad. ital. Ivi, p. 176.
38. Para maiores informações sobre este período que Marx permaneceu em Berlim, consultar o recente artigo de ROLF DLUBEK, Auf der Suche nach neuen politischen Wirkungsmöglichkeiten. Marx 1861 in Berlin, em “MARX-ENGELS JAHBUCH”, 2004, Akaemie Verlag, Berlin 2005, pp. 142-175.
39. Karl Marx a Friedrich Engels, 7 de maio de 1861, em MEGA2 III/11, op. cit., p. 460; trad. ital. MARX-ENGELS Opere, vol. XLI, op. cit. , pp. 180-181.
40. Friedrich Engels a Karl Marx, 6 de fevereiro de 1861, Ivi, p. 347; trad. Ital. Ivi, p. 171.
41. Karl Marx a Antoinette Philips, 24 de março de 1861, Ivi, p. 404; trad. ital. Ivi, p. 642.
42. Karl Marx a Friedrich Engels, 10 de maio de 1861, Ivi, p. 470; trad. ital. Ivi, p. 186.
43. Karl Marx a Antoinette Philips, 24 de março de 1861, Ivi, p. 404; trad. ital. Ivi, p. 642.
44. Karl Marx a Carl Siebel, 2 de abril de 1861, Ivi, p. 419; trad. ital. Ivi, p. 646.
45. Karl Marx a Ferdinand Lassalle, 8 de maio de 1861, Ivi, p. 464; trad. ital. Ivi, p. 656.
46. Karl Marx a Ferdinand Lassalle, 15 de setembro de 1860, Ivi, p. 161; trad. ital. Ivi, p. 615.
47. Karl Marx a Friedrich Engels, 20 de julho de 1861, Ivi, p. 542; trad. ital. Ivi, p. 212.
48. Karl Marx a Ferdinand Lassalle, 9 de dezembro de 1861, Ivi, p. 616; trad. ital. Ivi, p. 230.
49. MEGA2 II/3.1, Dietz Verlag, Berlim 1976. A tradução italiana aparece logo em seguida, sob a organização de Lorenzo Calabri: KARL MARX, Manoscritti del 1861-1863, Roma: Editori Riuniti, 1980, mas não chegou a ser incluída nos volumes das Opere.
50. Karl Marx, Die Londoner “Times” über die Prinzen von Orleans in Amerika, 7-XI-1861, em MEW 15, Dietz Verlag, Berlim, 1961, p. 327.
51. Karl Marx a Friedrich Engels, 10 de junho de 1861, em MEGA2 III/11, op. cit., p. 493; trad. ital. MARX-ENGELS Opere, vol. XLI, op. cit., p. 190.
52. Karl Marx a Ferdinand Lassalle, 29 de maio de 1861, Ivi, p. 480; trad. ital. Ivi, p. 658.
53. Karl Marx a Ferdinand Lassalle, 1º ou 2 de junho de 1860, Ivi, p. 19; trad. ital. Ivi, p. 596.
54. Karl Marx a Ferdinand Lassalle, 1º ou 2 de junho de 1860, Ivi, p. 20; trad. ital. Ivi, p. 597.
55. A foto é datada como sendo do mês de abril, cf. MEGA2 III/11, op. cit., p. 465.
56. Karl Marx a Ferdinand Lassalle, 29 de maio de 1861, Ivi, p. 481; trad. ital. MARX-ENGELS Opere, vol. XLI, op. cit., p. 659.
Em 1857, Marx estava convencido de que a crise financeira que se desenvolvia em nível internacional tinha criado as condições para um novo período revolucionário em toda a Europa. Ele havia esperado por esse momento desde os levantes populares de 1848 e agora, que ele parecia haver finalmente chegado, Marx não queria que os acontecimentos o apanhassem despreparado. Por isso, decidiu retomar seus estudos econômicos e dar-lhes uma forma acabada.
Por onde começar? Como principiar a crítica da economia política, aquele projeto ambicioso e árduo já tantas vezes iniciado e interrompido? Essa foi a primeira pergunta que Marx fez a si mesmo quando retomou o trabalho. Duas circunstâncias tiveram um papel crucial na formulação da resposta: a primeira foi que ele considerava que, apesar da validade de algumas teorias, a ciência econômica ainda não dispunha de um procedimento cognitivo para captar e explicar corretamente a realidade; e a segunda foi que ele sentiu a necessidade de fundamentar os argumentos e a ordem da exposição antes de iniciar a tarefa da composição. Essas considerações o levaram a aprofundar-se em problemas de método e a formular os princípios norteadores de sua pesquisa. O resultado foi um dos manuscritos mais debatidos de toda a sua obra: a chamada Introdução de 1857.
A intenção de Marx certamente não era escrever um sofisticado tratado metodológico, mas sim deixar claro para si mesmo, perante seus leitores, que orientação ele deveria seguir na longa e rica jornada crítica que tinha pela frente. Isso era também necessário para revisar a enorme massa de estudos econômicos que ele tinha acumulado desde meados da década de 1840 . Assim, juntamente com as observações sobre o emprego e a articulação de categorias teóricas, essas páginas contêm um número de formulações essenciais para seu pensamento que ele julgou indispensável resumir de novo – especialmente aquelas relativas à sua concepção da história –, bem como uma lista muito pouco sistemática de questões para as quais as soluções permaneciam problemáticas.
Essa mistura de demandas e objetivos, o curto período para sua elaboração (menos de uma semana) e, acima de tudo, o caráter provisório dessas notas as torna extremamente complexas e controvertidas. Não obstante, como contém o pronunciamento mais extenso e detalhado feito por Marx sobre questões epistemológicas, a “Introdução” é um elemento importante para a compreensão de seu pensamento e uma chave para a interpretação dos Grundisse em sua totalidade.
A história e o indivíduo social
Seguindo seu estilo habitual, Marx alterna na “Introdução” a exposição de suas próprias ideias com a crítica de seus opositores teóricos. O texto é dividido em quatro seções:
- “A produção em geral;
- A relação geral entre produção, distribuição, troca e consumo;
- O método da economia política;
- Meios (forças) de produção e relações de produção, relações de produção e relações de intercâmbio etc.” [2].
A primeira seção inicia com uma declaração de intenções, que imediatamente precisa o campo de estudo e assinala o critério histórico: “o objeto nesse caso é, primeiramente, a produção material. Indivíduos produzindo na sociedade – por isso, o ponto de partida é, naturalmente, a produção dos indivíduos socialmente determinada”. O alvo polêmico de Marx eram as robinsonadas do século XVIII [3], o mito de Robinson Crusoé como paradigma do homo oeconomicus, ou a projeção de fenômenos típicos da era burguesa sobre todas as outras sociedades que existiram desde tempos imemoriais.
Na realidade, o indivíduo em isolamento simplesmente não existiu antes da época capitalista. Conforme afirmou Marx em outra passagem dosGrundrisse: “Ele aparece originalmente como umser genérico, ser tribal, animal gregário” [4]. Essa dimensão coletiva é a condição para a apropriação da terra, “o grande laboratório, o arsenal, que fornece tanto o meio de trabalho quanto o material de trabalho, bem como a sede, a base da comunidade”[5] [ Basis der Gemeinwesens]. Na presença dessas relações primais, a atividade dos seres humanos é diretamente vinculada à terra; existe uma “unidade natural do trabalho com seus pressupostos objetivos” e o indivíduo vive em simbiose com outros como ele (seus semelhantes) [6]. A esse respeito, Marx escreve na Introdução: “quanto mais fundo voltamos na história, mais o indivíduo, e por isso também o indivíduo que produz, aparece como dependente [unselbstständig], como membro de um todo maior”[7].
Os economistas clássicos tinham invertido essa realidade, com base no que Marx considerava uma fantasia inspirada no direito natural. Adam Smith e David Ricardo descreviam um produto altamente desenvolvido da sociedade em que viviam – o indivíduo burguês isolado – como se ele fosse uma manifestação espontânea da natureza. O que surgia das páginas de seus escritos era um indivíduo mitólogico, atemporal, postulado pela natureza, cujas relações sociais eram sempre as mesmas e cujo comportamento econômico tinha um caráter antropológico desprovido de história [8]. Segundo Marx, os intérpretes de cada perído histórico têm regularmente caído na ilusão de que os aspectos mais marcantes de sua época estiveram presentes desde tempos imemoriais.
Depois de esboçar a gênese do indivíduo capitalista e demonstrar que a produção moderna se ajusta somente a “um determinado estágio de desenvolvimento social – da produção de indivíduos sociais”, Marx assinala um segundo requerimento teórico, a saber, denunciar a mistificação praticada por economistas com relação ao conceito de “produção em geral” [ Production im Allgemeinem]. Isso é uma abstração, uma categoria que não existe em qualquer estágio concreto da realidade. Entretanto, como todas as épocas de produção têm certos traços comuns, características comuns [gemeinsame Bestimmungen], Marx reconhece que “produção em geral é uma abstração, mas uma abstração razoável, na medida em que efetivamente destaca e fixa o elemento comum”, dispensando assim repetições inúteis para o acadêmico que procura reproduzir a realidade pelo pensamento [9].
Os economistas burgueses pretendiam mostrar “a eternidade e a harmonia das relações sociais existentes” [10]. Em contrapartida, Marx afirmava que eram as características específicas de cada formação socioeconômica que tornava possível distingui-la das demais, davam impulso ao seu desenvolvimento e permitiam aos acadêmicos entender as verdadeiras mudanças históricas.
Embora a definição dos elementos gerais de produção seja “cindido em diferentes determinações. Algumas determinações pertencem a todas as épocas; outras são comuns apenas a algumas”, mas certamente há entre seus componentes universais, o trabalho humano e o material fornecido pela natureza[11], uma vez que, sem um sujeito produtor e um objeto trabalhado, não poderia haver produção de qualquer tipo. Contudo, os economistas introduziram um terceiro pré-requisito da produção: “um estoque, previamente acumulado, de produtos de trabalho anterior, ou seja, capital” [12]. Para Marx, a crítica desse último elemento era essencial para revelar o que ele considerava uma limitação fundamental dos economistas. Também lhe parecia evidente que nenhuma produção seria possível sem um instrumento de trabalho, ainda que fosse apenas a mão humana, ou sem trabalho anterior acumulado, ainda que fosse apenas sob a forma dos movimentos repetitivos do homem primitivo. Embora concordando que o capital era trabalho acumulado e um instrumento de produção, diferentemente de Smith, Ricardo e John Stuart Mill, ele não concluía que tivesse sempre existido.
Interpreta “a concepção do capital simplesmente sob seu aspecto material, como instrumento de produção, prescindindo inteiramente da forma econômica [ ökonomischen Form] que faz do instrumento de produção capital, enreda os economistas em todo tipo de dificuldades” [13] e na crença de “que existe uma única relação econômica que recebe diversos nomes” [14]. Ignorar as diferenças expressas na relação social significa abstrair a diferença específica, que é o ponto nodal de tudo. Assim, na “Introdução”, Marx escreve que o capital é uma relação geral [allgemeines], eterna, da natureza, isto é, se eu puser de lado apenas a qualidade específica que por si só transforma “instrumento de produção” e trabalho acumulado em capital [15].
Para que isso fosse plausível, os economistas descreviam as circunstâncias históricas anteriores ao aparecimento do modo de produção capitalista como “resultado de sua presença”, com suas próprias características exclusivas[16]. Como Marx coloca nos Grundrisse:
Os economistas burgueses, que consideram o capital como uma forma de produção eterna e natural (não histórica), tentam então justificá-lo novamente expressando as condições de seu devir como as condições de sua efetivação atual, i.e., expressando os momentos em que o capitalista ainda se apropria como não capitalista – porque ele só está devindo capitalista – como as verdadeiras condições em que apropria como capitalista.[17]
De um ponto de vista histórico, a profunda diferença entre Marx e os economistas clássicos é que, em sua visão, “o capital não participou da criação do mundo, mas encontrou a produção e os produtos já prontos antes de submetê-los ao seu processo” [18]. Pois “as novas forças produtivas e relações de produção não se desenvolvem do nada, nem do ar nem do ventre da ideia que se põe a si mesma; mas o fazem no interior do desenvolvimento da produção existente e das relações de produção tradicionais herdadas, e em contradição com elas” [19]. De modo semelhante, as circunstâncias pelas quais sujeitos produtores são separados dos meios de produção – o que permite ao capitalista encontrar trabalhadores sem propriedade capazes de executar trabalho abstrato (o requerimento necessário para o intercâmbio entre capital e o trabalho vivo) – resultam de um processo que sobre o qual os economistas silenciam, e que “constitui a história da gênese do capital e do trabalho assalariado” [20].
Diversas passagens nos Grundrisse criticam a maneira como os economistas apresentam realidades históricas como naturais. Por exemplo, para Marx é evidente que o dinheiro é produto da história: “ser dinheiro não é uma qualidade natural do ouro e da prata”, mas apenas uma característica (determinação?) que adquirem pela primeira vez num momento preciso do desenvolvimento social [21]. Preços e trocas também existiram na antiguidade, “mas a crescente determinação dos primeiros pelos custos de produção, assim como a predominância da última sobre todas as relações de produção, só se desenvolvem completamente, e continuam a desenvolver-se cada vez mais completamente, na sociedade burguesa, a sociedade da livre concorrência”, ou “aquilo que Adam Smith, em autêntico estilo do século XVIII, situa no período pré-histórico, no período que antecede a história, é, ao contrário, um produto da história” [22]. Ademais, da mesma forma que criticava os economistas por sua falta de senso histórico, Marx ridicularizava Proudhon e todos os socialistas que pensavam que o trabalho que produzia valor de troca podia existir sem se transformar em trabalho assalariado, que o valor de troca podia existir sem se tornar capital, ou que podia haver capital sem capitalistas [23].
O principal objetivo de Marx nas páginas iniciais da “Introdução” é, portanto, afirmar a especificidade histórica do modo de produção capitalista, demonstar, como ele voltaria a afirmar no volume III de O capital, que “ele não é um modo de produção absoluto”, mas “meramernte, histórico, transitório” [24].
Esse ponto de vista implica uma maneira diferente de enfocar muitas questões, inclusive o processo do trabalho e suas várias características. Nos Grundrisse, Marx escreveu que “os economistas burgueses estão tão encerrados nas representações de um determinado nível de desenvolvimento histórico da sociedade que a necessidade da objetivação das forças sociais do trabalho aparece-lhes inseparável da necessidade do estranhamento dessas forças frente ao trabalho vivo”[25]. Marx, questionou repetidas vezes essa apresentação das formas específicas do modo de produção capitalista como se fossem constantes do processo de produção como tal. Apresentar o trabalho assalariado não como uma relação específica de uma forma de produção histórica determinada, mas como uma realidade universal da existência econômica do homem significava considerar que a exploração e a alienação sempre haviam existido e sempre continuariam a existir.
Ignorar a especificidade da produção capitalista tinha, portanto, consequências tanto epistemológicas quanto políticas. Por um lado, impedia a compreensão dos níveis históricos concretos da produção; por outro, ao definir as condições atuais como não alteradas e inalteráveis, apresentava a produção capitalista como identificada com a produção em geral e as relações sociais burguesas como relações humanas naturais. Assim, a crítica de Marx das teorias dos economistas tinha um duplo valor. Além de sublinhar que uma caracterização histórica era indispensável para a compreensão da realidade, tinha o objetivo político preciso de se opor ao dogma da imutabilidade do modo de produção capitalista. A demonstração da historicidade da ordem capitalista seria também prova de seu caráter transitório e da possibilidade de sua eliminação.
O capitalismo não é o único estágio da história da humanidade, nem é o final. Marx prevê que ele será sucedido por uma organização da sociedade baseada na “produção universal” [gemeinschaftliche Production], na qual o produto do trabalho é “posto desde o início como elemento daprodução universal” [26].
A produção como totalidade
Na segunda seção da “Introdução” Marx examina a relação geral da produção com a distribuição, a troca e o consumo. Ele reconstrói a interconexão entre os quatro itens em termos lógicos, de acordo com o esquema de Hegel de universalidade-particularidade-individualidade [27]: “produção, distribuição, troca e consumo constituem assim um autêntico silogismo; a produção é a universalidade, a distribuição e a troca, a particularidade, e o consumo, a singularidade na qual o todo se unifica” [28].
Seu primeiro objeto de investigação foi a relação entre produção e consumo, que ele explicou como sendo de imediata identidade: “produção é consumo” e “consumo é produção”. Ocorre um processo de identidade sem intermediação entre a produção e o consumo; estes também se intermedeiam um ao outro e criam um ao outro à medida que se realizam. Não obstante, Marx achava um erro considerar ambos como idênticos – como pensavam Jean Baptiste Say e Pierre-Joseph Proudhon. Pois, em última análise, “o próprio consumo, como carência vital, como necessidade, é um momento interno da atividade produtiva”.
Marx se volta então para a análise da relação entre produção e distribuição. A distribuição, ele escreve, é o vínculo entre a produção e o consumo e “por meio de leis sociais” determina que parcela dos produtos é devida aos produtores[29]. Os economistas a apresentam como uma esfera autônoma da produção, de modo que em seus tratados as categorias econômicas são sempre colocadas de uma forma dual. A terra, o trabalho e o capital figuram na produção como agentes da distribuição, enquanto na distribuição, na forma de arrendamento do solo, salários e lucro eles aparecem como fontes de ingresso. Marx se opõe a essa divisão, que considera ilusória e errônea, pois a forma de distribuição “não é um arranjo facultativo, de modo que poderia ser distinto; ao contrário, ela é posta pela própria forma da produção; é apenas um de seus próprios momentos, considerado em outra determinação” [30].
A concepção de Marx do vínculo entre produção e distribuição esclarece não apenas sua aversão ao modo como John Stuart Mill separava rigidamente os dois, mas também sua apreciação por Ricardo pelo fato de ele ter postulado a necessidade de “compreender a produção moderna em sua articulação social determinada”[31]. O economista inglês sustentava, de fato, que “determinar as leis que regulam essa distribuição é o principal problema da Economia Política” [32], e, em consequência, fez da distribuição um de seus principais temas de estudo, pois ele concebia “as formas de distribuição como a expressão mais determinada na qual se fixam os agentes de produção em uma dada sociedade” [33]. Para Marx também, a distribuição não era redutível ao ato pelo qual as parcelas do produto agregado eram distribuídas entre os membros da sociedade; era um elemento decisivo do ciclo produtivo completo.
Quando Marx, por fim, examinou a relação entre produção e troca, ele também considerou esta última como parte daquela. A troca se torna autônoma da produção somente na fase em que o produto é trocado diretamente para consumo. Ainda assim, entretanto, sua intensidade, escala e características são determinadas pelo desenvolvimento e estrutura da produção, de modo que “a troca aparece em todos os seus momentos ou diretamente contida na produção, ou determinada por ela” [34].
Ao final de sua análise sobre a relação da produção com a distribuição, a troca e o consumo, Marx chega a duas conclusões: (1) a produção deve ser considerada como uma totalidade; e (2) a produção com um ramo particular dentro da totalidade predomina sobre os outros elementos. A segunda conclusão de Marx fez da produção o “momento predominante” [ übergreifende Moment] sobre as outras partes da totalidade da produção [Totalität der Production] [35], o “ponto de partida efetivo” [Ausgangspunkt] [36], ao qual “todo o processo transcorre novamente”, e assim “uma produção determinada, portanto, determina um consumo, uma troca e uma distribuição determinados, bem como relações determinadas desses diferentes momentos entre si ”[37]. Contudo, essa predominância não cancela a importância dos outros momentos, nem sua influência sobre a produção. A dimensão do consumo, as transformações da distribuição e o tamanho do âmbito da troca – ou do mercado – eram todos fatores que em conjunto impactam e definem a produção.
Aqui mais uma vez as percepções de Marx tinham um valor tanto teórico quanto político. Em oposição a outros socialistas de seu tempo, que sustentavam que era possível revolucionar as relações de produção existentes pela transformação do instrumento de circulação, ele defendia que isso demonstrava claramente a “incompreensão” deles da “conexão interna entre as relações de produção, distribuição e circulação” [38]. Uma mudança no formato do dinheiro não só deixaria inalteradas as relações de produção e as outras relações sociais determinadas por elas, mas também resultaria em algo sem sentido, pois a circulação só poderia se modificar juntamente com uma mudança nas relações de produção. Marx estava convencido de que “o mal da sociedade burguesa não pode[ria] ser remediado por meio de ‘transformações’ dos bancos ou da fundação de um ‘sistema monetário’ racional” ou de paliativos modestos como a concessão de crédito gratuito, nem pela quimera de transformar trabalhadores em capitalistas [39]. A questão central permanecia a superação do trabalho assalariado e, acima de tudo, isso tinha a ver com a produção.
Em busca do método
Nesse ponto de sua análise, Marx tratou da principal questão metodológica: como reproduzir a realidade no pensamento? Como construir um modelo categórico abstrato capaz de representar a sociedade?
A terceira, e mais importante, seção da “Introdução” é dedicada à “relação que a apresentação científica tem com o movimento real [reellen]” [40]. Entretanto, não é um relato ou uma descrição definitiva, oferece vias insuficientemente desenvolvidas de teorizar sobre o problema e apenas esboça um número de pontos. Algumas passagens contêm afirmações obscuras, que às vezes se contradizem, e a utilização de uma linguagem influenciada pela terminologia hegeliana em certos momentos acrescenta ambiguidades ao texto. Marx estava elaborando seu método quando escreveu essas páginas e elas mostram os vestígios e trajetórias dessa pesquisa.
Como outros grandes pensadores que o precederam, Marx partiu da questão de onde começar – ou, em seu caso, o que a economia política deveria tomar como seu ponto de partida analítico. A primeira hipótese que examinou foi a de começar “pelo real e pelo concreto, pelo pressuposto efetivo […] o fundamento e o sujeito do ato social de produção como um todo”: a população [41]. Marx considerava esse caminho, tomado pelos fundadores da economia política William Petty e Pierre Boisguillebert, inadequado e errôneo. Começar com uma entidade indeterminada como a população implicaria uma imagem demasiado genérica do todo, impossibilitando a demonstração da divisão em classes, burguesia, proprietários de terras e proletariado, pois estes somente poderiam ser diferenciados com base em seus respectivos fundamentos: capital, propriedade da terra e trabalho. Com tal enfoque empírico, elementos concretos como o Estado se dissolveriam em determinações abstratas como a divisão do trabalho, moeda ou valor.
Tão logo os economistas do século XVIII terminaram de definir suas categorias abstratas, “começaram os sistemas econômicos, que se elevaram do simples, como trabalho, divisão do trabalho, necessidade, valor de troca, até o Estado, a troca entre as nações e o mercado mundial”. Esse procedimento, empregado por Smith e Ricardo em economia, bem com por Hegel em filosofia, pode ser resumido como “as determinações abstratas levam à reprodução do concreto por meio do pensamento”; isso é o que Marx descreveu como “o método cientificamente correto” [ wissenschaftlich richtige Methode]. Com as categorias corretas, era possível “dar início à viagem de retorno até que finalmente chegasse de novo à população, mas desta vez não como a representação caótica de um todo, mas como uma rica totalidade de muitas determinações e relações” [42].
Contudo, contrariamente ao que certos comentaristas da “Introdução” argumentaram, o fato de Marx ter definido “o método cientificamente correto” não significa absolutamente que ele próprio o tenha empregado [43]. Em primeiro lugar, ele não compartilhava a convicção dos economistas de que a reconstrução lógica do concreto em nível de ideias levada a efeito por eles fosse uma reprodução fiel da realidade. Em verdade, o procedimento apresentado sinteticamente na “Introdução” tomou emprestados vários elementos do método de Hegel, mas também tinha diferenças radicais. Como Hegel, Marx estava convencido de que “o método de ascender do abstrato ao concreto é […] o modo do pensamento de apropriar-se do concreto, de reproduzi-lo como um concreto mental”, a recomposição da realidade no pensamento deveria começar nas determinações mais simples e mais gerais. Ademais, para ambos o concreto era “a síntese de múltiplas determinações, portanto, unidade da diversidade. Por essa razão, o concreto aparece no pensamento como processo da síntese, como resultado, não como ponto de partida”, embora para Marx fosse sempre necessário ter em mente que o concreto era “o ponto de partida da intuição [Anschauung] e da representação” [44].
Entretanto, apesar dessa base comum, há uma diferença de concepção entre os pensadores: “Hegel caiu na ilusão de conceber o real como resultado do pensamento”, ao passo que para Marx este “de forma alguma é o processo de gênese do próprio concreto”. No idealismo hegeliano, argumenta Marx, o movimento das categorias aparece como o verdadeiro ato de produção cujo produto é o mundo; o pensar conceitual é o ser humano real e “somente o mundo conceituado enquanto tal é o mundo efetivo”, não apenas representando o mundo real nas ideias, mas também operando como seu processo constitutivo. Em contraste, para Marx as categorias econômicas existem como “relação abstrata, unilateral, de um todo vivente, concreto, já dado” [45]; elas “expressam formas de ser, determinações de existência [Daseinsformen, Existenzbestimmungen]” [46]. Marx sublinhou, várias vezes, em oposição a Hegel que “a totalidade concreta como totalidade de pensamento, como um concreto de pensamento, é de fato um produto do pensar, do conceituar; mas de forma alguma é um produto do conceito que pensa fora e acima da intuição e da representação, e gera a si próprio, sendo antes produto da elaboração da intuição e da representação em conceitos”. Pois “o sujeito real, como antes, continua a existir em sua autonomia fora da cabeça; isso, claro, enquanto a cabeça se comportar apenas de forma especulativa, apenas teoricamente. Por isso, também no método teórico o sujeito, a sociedade, tem de estar continuamente presente como pressuposto da representação” [47].
Na “Introdução”, Marx prossegue perguntando se as categorias simples poderiam existir antes e independentemente das mais concretas. Historicamente, a moeda existiu antes da existência do capital, dos bancos e do trabalho assalariado [48]. Embora o trabalho tivesse aparecido no início do processo de civilização dos seres humanos e parecesse um processo muito simples, Marx sublinhava que “concebido economicamente nessa simplicidade, o ‘trabalho’ é uma categoria tão moderna quanto as relações que geram essa simples abstração” [49].
Os expoentes do bullionismo e do mercantilismo mantinham que a fonte da riqueza se encontrava na moeda e que, portanto, ela tinha uma importância maior que o trabalho. Subsequentemente, os fisiocratas argumentaram que o trabalho era o criador último de riqueza, mas somente na forma de trabalho agrícola. A obra de Smith finalmente pôs termo a “toda determinabilidade da atividade criadora de riqueza”, de modo que agora o trabalho não mais era considerado sob uma forma particular, mas como “trabalho simplesmente, nem trabalho manufatureiro, nem comercial, nem agrícola, mas tanto um como os outros” [50]. Dessa maneira, a “expressão abstrata” foi descoberta para a mais simples e mais antiga relação na qual os seres humanos – fosse qual fosse a forma da sociedade – desempenhavam o papel de produtores. Como no caso da moeda, a categoria “trabalho” somente podia ser extraída se houvesse “o mais rico desenvolvimento concreto possível”, numa sociedade na qual algo fosse comum a muitos, comum a todos. Assim, a indiferença com relação a qualquer tipo específico de trabalho pressupõe uma totalidade altamente desenvolvida dos tipos reais de trabalho entre os quais já nenhum é predominante.
Ademais, na sociedade capitalista “o trabalho em geral” não é somente uma categoria, mas corresponde a uma forma de sociedade na qual os indivíduos podem facilmente passar de um trabalho a outro e o tipo específico é uma questão de casualidade para eles, e, portanto, de indiferença. O trabalho do trabalhador perde então o caráter corporativo, artesanal, que tinha no passado e se converte em “trabalho em geral”, “trabalho sans phrase” – “não somente enquanto categoria, mas na efetividade”[51]. Trabalho assalariado “não é esse ou aquele trabalho, mas é trabalho por excelência, trabalho abstrato: absolutamente indiferente diante de sua determinabilidade particular [Bestimmtheit], mas suscetível de qualquer determinação” [52]. Indiferença quanto ao tipo particular de trabalho é, contudo, um fenômeno comum a um número de realidades históricas. Portanto, nesse caso também, era necessário sublinhar as distinções: “há uma maldita diferença entre bárbaros com disposição para ser empregados em tudo e civilizados que empregam a si próprios em tudo”[53].
Tendo feito essa consideração, Marx se voltou para outra questão crucial. Em que ordem deveria colocar as categorias na obra que ia escrever? Diante da dúvida de se o complexo deveria fornecer os instrumentos para o entendimento do simples ou o contrário, ele optou decididamente pela primeira possibilidade.
A sociedade burguesa é a mais desenvolvida e diversificada organização histórica da produção. Por essa razão, as categorias que expressam suas relações e a compreensão de sua estrutura permitem simultaneamente compreender a organização e as relações de produção de todas as formas de sociedade desaparecidas, com cujos escombros e elementos edificou-se, parte dos quais ainda carrega consigo como resíduos não superados. [54]
É, pois, o presente que oferece as indicações para a reconstrução do passado. “A anatomia do ser humano é uma chave para a anatomia do macaco. Por outro lado, os indícios de formas superiores nas espécies animais inferiores só podem ser compreendidos quando a própria forma superior já é conhecida”[55]. Essa afirmação bem conhecida não deve, contudo, ser entendida em termos evolucionista. De fato, Marx criticou explicitamente a concepção do “chamado desenvolvimento histórico”, baseado na banalidade que “a última forma considera as formas precedentes como etapas até si mesma” [56]. Diferentemente dos teóricos do evolucionismo, que postulavam uma trajetória ingenuamente progressiva dos organismos mais simples aos mais complexos, Marx optou por um método lógico muito mais complexo e elaborou uma concepção de história marcada pela sucessão de modos de produção (antigo, asiático, feudal, capitalista), visando explicar as posições e funções que as categorias assumiam dentro desses variados modos [57]. Foi a sociedade burguesa, portanto, que forneceu as pistas para o entendimento das economias das épocas históricas anteriores – contudo, dadas as profundas diferenças entre sociedades, essas pistas deveriam ser tratadas com moderação. Marx repetiu enfaticamente que isso não poderia ser feito “de modo algum à moda dos economistas, que apagam todas as diferenças históricas e veem a sociedade burguesa em todas as formas de sociedade” [58].
Hall nota com razão que a teoria desenvolvida por Marx representou um rompimento com o historicismo, mas não com a historicidade
Na “Introdução”, Marx rejeitou o critério da sucessão cronológica para as categorias científicas em favor de um método lógico com testes histórico-empíricos. Como o presente ajudava a entender o passado, ou a estrutura do homem, a do macaco, era necessário começar a análise a partir do estágio mais maduro, a sociedade capitalista, e mais particularmente do elemento que predominava sobre todos os demais: o capital. “O capital é o poder que tudo domina na sociedade burguesa. Ele deve ser tanto o ponto de partida quanto o ponto de chegada.”
Em essência, o estabelecimento das categorias em uma ordem lógica precisa e o funcionamento da história real não coincidem um com o outro – e, ademais, como escreveu Marx nos manuscritos do terceiro volume de O capital , “toda a ciência seria supérflua se a aparência externa e a essência das coisas coincidissem diretamente/plenamente” [59].
Marx chegou então a sua própria síntese, divergindo do empiricismo dos primeiros economistas, que resultava na dissolução de elementos concretos em definições abstratas; do método dos economistas clássicos, que reduziam o pensamento sobre a realidade à própria realidade; do idealismo filosófico – inclusive, na visão de Marx, a filosofia de Hegel – que ele acusava de dar ao pensamento a capacidade de produzir o concreto com base em concepções gnoseológicas que contrapunham rigidamente formas de pensamento e a realidade objetiva; do historicismo e sua dissolução do lógico no histórico; e, finalmente, de sua própria convicção na Miséria da Filosofia, de que ele estava essencialmente seguindo “a marcha da história”[60].
Sua aversão a estabelecer uma correspondência exata entre o concreto e o pensamento o levou a separar os dois reconhecendo a especificidade deste último e atribuindo ao primeiro uma existência independente do pensamento, de modo que a ordem de exposição das categorias diferia das que se manifestavam nas relações do processo histórico real. Para evitar limitar o processo cognitivo a uma mera repetição dos estágios do que havia acontecido na história, era necessário utilizar um processo de abstração e, portanto, categorias que permitissem a interpretação da sociedade em toda a sua complexidade. Por outro lado, para ser realmente útil para esse propósito, a abstração tinha de ser constantemente comparada com as diversas realidades históricas, de tal forma que as determinações lógicas gerais pudessem ser distinguidas das relações históricas concretas. A concepção da história de Marx ganhava assim em eficácia e incisividade: uma vez que uma simetria de ordem lógica e da ordem histórica real tivesse sido rejeitada, o histórico se tornaria decisivo para o entendimento da realidade, enquanto o lógico tornaria possível conceber a história como algo além de uma simples cronologia de eventos. Para Marx não era necessário reconstruir a gênese histórica de cada relação econômica para entender a sociedade e então dar uma descrição adequada dela. Como ele assinala em uma passagem dos Grundisse:
O nosso método indica os pontos onde a análise histórica tem de ser introduzida, ou onde a economia burguesa, como simples figura histórica do processo de produção, aponta para além de si mesma, para modos de produção anteriores. Por essa razão, para desenvolver as leis da economia burguesa não é necessário escrever a história efetiva das relações de produção. Mas a sua correta observação e dedução, como relações elas próprias que devieram históricas, levam sempre a primeiras equações – como os números empíricos, p. ex., nas ciências naturais – que apontam para um passado situado detrás desse sistema. Tais indicações, juntamente com a correta apreensão do presente, fornecem igualmente a chave para a compreensão do passado – um trabalho à parte, que esperamos também poder abordar. Por outro lado, esse exame correto também leva a pontos nos quais se delineia a superação da presente configuração das relações de produção – e, assim, o movimento nascente, a prefiguração do futuro. Se as fases pré-burguesas aparecem como simplesmente históricas, i.e., como pressupostos superados, de maneira que as condições atuais da produção aparecemabolindo a si mesmas e pondo-se, consequentemente, comopressupostos históricos para um novo estado de sociedade. [61]
O método desenvolvido por Marx o equipou com ferramentas não só para entender as diferenças entre os modos pelos quais a produção se tinha manifestado na história, mas também para discernir no presente as tendências que prefiguravam um novo modo de produção e, portanto, confundindo todos aqueles que tinham proclamado a inalterabilidade do capitalismo. Sua própria pesquisa, inclusive em epistemologia, nunca teve uma motivação exclusivamente teórica, sempre foi impulsionada pela necessidade de interpretar o modo a fim de melhor se engajar na luta política.
A relação desigual entre a produção material e a produção intelectual
A última seção da “Introdução” consiste em uma breve e fragmentária lista de oito argumentos que Marx pretendia tratar em sua obra, além de algumas considerações sobre a relação entre arte grega e a sociedade moderna. Nos oito pontos, as principais notas de Marx dizem respeito a sua convicção de que as características do trabalho assalariado se manifestaram no exército antes mesmo de se manifestarem na sociedade burguesa; e o que ele chama de “desenvolvimento desigual” [ungleiche Eitwewicklung] entre as relações de produção e as relações jurídicas, particularmente na derivação do direito da sociedade burguesa nascente a partir do Direito Romano Privado. Entretanto, tudo isso aparece num memorando sem qualquer estrutura e que fornece apenas uma vaga ideia do pensamento de Marx sobre essas questões.
Suas reflexões sobre arte são um pouco mais desenvolvidas, concentrando-se na “relação desigual [ungleiche Verhaltniß] do desenvolvimento da produção material com, por exemplo, o desenvolvimento artístico”[62]. Longe de afirmar o tipo de paralelismo rígido que muitos marxistas professos mais tarde postularam, Marx salientou que não havia relação direta entre o desenvolvimento econômico-social e a produção artística. Ele também assinalou que certas formas de arte – a epopeia, por exemplo – somente são possíveis num estágio inicial de desenvolvimento artístico. Se esse é o caso na relação entre diferentes tipos de arte no campo das artes, não é surpreendente que o seja na relação entre todo o campo da arte e o desenvolvimento geral da sociedade [63].
Para Marx, então, a arte e a produção intelectual em geral têm de ser investigadas em sua relação com as condições materiais da sociedade, mas sem estabelecer uma correspondência rígida ente as duas esferas. De outra forma, cairíamos no erro de Voltaire (recordado por Marx em seus manuscritos econômicos de 1861-3) de pensar que “porque estamos mais avançados que os antigos em mecânica” também deveríamos “ser capazes de produzir um épico”[64].
O valor das afirmações de Marx sobre a estética na “Introdução” não reside nas soluções pouco elaboradas e às vezes pouco convincentes que elas oferecem, mas sim em seu enfoque antidogmático sobre como as formas de produção material se relacionam com o comportamento e as criações intelectuais. Sua consciência de seu “desenvolvimento desigual” resultava na rejeição de qualquer procedimento esquemático que postulasse uma relação uniforme entre as várias esferas da totalidade social [65]. Mesmo a bem conhecida tese incluída no “Prefácio” de Contribuição à crítica da economia política, publicado dois anos depois de Marx ter escrito a “Introdução” – “o modo de produção da vida material condiciona o processo geral da vida social, política e intelectual”[66] – não deve ser interpretada num sentido determinista [67], deve ser claramente diferenciada da leitura estreita e previsível do “marxismo-leninismo”, na qual os fenômenos superestruturais da sociedade são mero reflexo da existência material dos seres humanos [68].
Conclusão
Quando Marx começou a escrever os Grundrisse, ele pretendia prefaciar seu Economia com uma seção sobre a metodologia de sua pesquisa. A “Introdução” não foi composta simplesmente com o propósito de autoclarificação; deveria conter, como nos escritos de outros economistas, as observações preliminares do autor sobre seu tema geral. Contudo, em junho de 1859, quando Marx enviou a primeira parte de seus estudos para publicação, com o título Contribuição à crítica da economia política, ele decidiu omitir a seção que tratava de sua motivação:
Uma introdução geral, que eu havia escrito, é omitida, porque com maior análise pareceu-me confuso antecipar resultados que ainda tem de ser fundamentados e o leitor que realmente deseje me seguir terá de decidir avançar do particular para o geral [von dem Einzelnen zum Allgemeinen aufzustigen]. [69]
Assim, o objetivo norteador de 1857 “ascender do abstrato ao concreto” [70] mudou no texto de 1859 para “avançar do particular para o geral” [71]. O ponto de partida da “Introdução” – as determinações mais abstratas e universais – foi substituído por uma realidade concreta e historicamente determinada, a mercadoria, mas, como o texto de 1857 não fora publicado, nenhuma explicação foi dada para a mudança. Na verdade, já na última passagem dos Grundrisse, depois de centenas de páginas em que ele tinha escrupulosamente analisado o modo de produção capitalista e os conceitos de economia política, Marx afirma que “a primeira categoria em que se apresenta a riqueza burguesa é a da mercadoria” [72]. Ele viria a dedicar à sua investigação o primeiro capítulo tanto deContribuição à crítica da economia política quanto de O capital, no qual a mercadoria é definida como a “forma elementar”[73] da sociedade capitalista, o particular com cuja análise a pesquisa tinha de começar.
Em vez da introdução planejada, Marx abriu a obra de 1859 com um breve prefácio no qual esboçou sucintamente sua biografia intelectual e a chamada concepção materialista da história. Subsequentemente, ele não mais se engajou no discurso sobre o método, exceto em ocasiões muito raras e com umas poucas e rápidas observações. Certamente a mais importante dessas foi o posfácio de 1873 ao primeiro volume de O capital, no qual, tendo sido provocado pelas resenhas que acompanharam sua publicação, ele não pôde resistir a se expressar sobre seu método de investigação e a revisitar alguns dos temas presentes na “Introdução”. Outra razão para isso foi a necessidade que ele sentiu de ressaltar a diferença entre método de exposição e método de investigação: enquanto o primeiro podia começar com o geral, movendo-se da forma universal para fórmulas historicamente determinadas e, assim, – numa confirmação da formulação de 1857 – “partindo do abstrato para o concreto”, o último tinha de começar da realidade imediata e, como ele formulou em 1859, mover-se “do particular para o geral”:
O método de apresentação [Darstellungsweise] tem de diferenciar-se na forma daquele da pesquisa [Forschungsweise]. Este último tem de se apropriar do material em detalhe, analisar suas diferentes formas de desenvolvimento, identificar sua conexão interna. Somente depois de feito esse trabalho, pode o próprio movimento ser adequadamente descrito. [74]
Em sua obra posterior à “Introdução” de 1857, Marx não mais escreveu sobre questões de método da forma aberta e problematizadora que tinha caracterizado aquele texto, mas expressou suas ideias acabadas a respeito, sem revelar a gênese complexa por meio da qual elas tinham sido trabalhadas. Por essa razão, inclusive, as páginas da “Introdução” são extraordinariamente importantes. Num embate direto com as ideias de alguns dos maiores economistas e filósofos, Marx reafirma ali convicções profundas e chega a aquisições teóricas significativas. Acima de tudo, ele insiste novamente na especificidade histórica do modo capitalista de produção e suas relações sociais. Em segundo lugar, ele considera produção, distribuição, troca e consumo como uma totalidade, na qual a produção constitui o elemento que predomina sobre as demais partes do todo. Além disso, com relação à reprodução da realidade no pensamento, Marx não recorre a um método meramente histórico, mas faz uso da abstração e reconhece seu valor para a construção do caminho do conhecimento. Finalmente, ele sublinha a relação desigual que existe entre o desenvolvimento das relações de produção e as relações intelectuais.
Nos cem anos transcorridos desde sua publicação, as reflexões contidas na “Introdução” fizeram dela um texto teórico indispensável, bem como fascinante do ponto de vista literário, para todos os intérpretes e leitores sérios de Marx. Este será certamente o caso também para os que tomarem conhecimento de sua obra nas gerações futuras.
References
1. Este artigo é uma versão resumida do capítulo “História, produção e método na Introdução de 1857” em Marcello Musso (org.), Karl Marx’s Grundisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later (Londres/Nova York, Routledge, 2008). Traduzido por (pai pericás, ver nome) e revisado por Mário Duayer.
2. Karl Marx, Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858, esboços da crítica da economia política (São Paulo, Boitempo, 2011), p. 37.
3. Ibidem, p. 39.
4. Ibidem, p. 407.
5. Ibidem, p. 389.
6. Ibidem, p. 388.
7. Ibidem, p. 40.
8. Idem.
9. Ibidem, p. 41.
10. Idem.
11. Idem.
12. John Stuart Mill, Principles of Political Economy, v. I (Londres, Routledge & Kegan Paul, 1965).
13. Karl Marx, Grundrisse, cit., p. 491.
14. Ibidem, p. 192.
15. Ibidem, p. 41.
16. Ibidem, p.??.
17. Ibidem, p. 378.
18. Ibidem, p. 565.
19. Ibidem, p. 217.
20. Ibidem, p. 400.
21. Ibidem, p. 183.
22. Ibidem, p. 104.
23. Ver ibidem, p. 86.
24. Karl Marx, “Capital, v. III” em Marx Engels Collected Works, v. 37 (Nova York, International Publishers, 1998), p. 240. [Ed. bras.: O capital, livro 2: o processo de circulação do capital, São Paulo, Civilização Brasileira, 2000, v. 3.]
25. Idem, Grundrisse, cit. p. 706.
26. Ibidem, p. 118.
27. Ver G. F. W. Hegel, Science of Logic (Londres, George Allen & Unwin, 1969), p. 666.
28. Karl Marx, Grundrisse, cit., p. 44.
29. Ibidem, p. 47-9.
30. Ibidem, p. 494.
31. Ibidem, p. 51.
32. David Ricardo, The Principles of Political Economy and Taxation (Londres, J. M. Dent & Sons, 1973), p. 3.
33. Karl Marx, Grundrisse, cit., p. 50.
34. Ibidem, p. 53
35. Ibidem, p. 49.
36. Idem.
37. Ibidem, p. 53.
38. Ibidem, p. 74.
39. Ibidem, p. 85.
40. Ibidem, p. 41-2.
41. Ibidem, p. 54.
42. Idem.
43. Idem.
44. Idem.
45. Idem.
46. Ibidem, p. 59.
47. Ibidem, p. 55.
48. Ibidem, p. 56.
49. Ibidem, p. 57.
50. Idem.
51. Ibidem, p. 58.
52. Ibidem, p. 230.
53. Ibidem, p.58.
54. Idem.
55. Idem.
56. Ibidem, p. 59.
57. Cf. Stuart Hall, “Marx’s notes on method: A ‘reading’ of the ‘1857 Introduction’”, Cultural Studies, v. 17, n. 2, 2003, p. 133.
58. Karl Marx, Grundrisse, cit., p. 58.
59. Idem, “Capital, v. III”, cit., p. 804.
60. Idem, “The Poverty of Philosophy” em Marx Engels Collected Works, v. 6: Marx and Engels 1845-48 (Moscou, Progress Publishers, 1976), p.172. [Ed. bras.: Miséria da filosofia, São Paulo, Expressão Popular, 2009.]
61. Idem, Grundrisse, cit., p. 378-9.
62. Ibidem, p. 62.
63. Ibidem, p. 62-4.
64. Idem, “Theories of Surplus Value” em Marx Engels Collected Works, v. 31: Economic Manuscripts of 1861-63 (Moscou, Progress Publishers), p. 182-3.
65. Idem, Grundrisse, cit., p. 62.
66. Idem, “A Contribution to the Critique of Political Economy” em Marx and Engels Collected Works, v. 29: Marx 1857-61 (Moscou, Progress Publishers, 1987), p. 236. [Ed. bras.: Contribuição à crítica da economia política, São Paulo, WMF Martins Fontes, 2011.]
67. Evidência disso é o fato de que, quando Marx citou essa afirmação em uma nota à edição francesa de 1872-5 de O capital, ele preferiu usar o verbo dominer no lugar do alemãobedingen (mais comumente traduzido como déterminer ou conditionner); “Le mode de production de la vie matérielle domine [domina] en général le dévéloppement de la vie sociale, politique et intelectuelle”, ver Karl Marx, “Le Capital” em Marx Engels Gesamtausgabe (MEGA/2), v. II/7 (Berlin, Dietz, 1989), p. g2, ênfase do autor. Seu objetivo ao fazer isso era precisamente evitar o risco de postular uma relação mecânica entre os dois aspectos (cf. Maximilien Rubel, Karl Marx. Essai de biographie intellectuelle, Paris, Rivière, 1971, p. 298).
68. A pior e mais disseminada interpretação desse tipo é a de Joseph Stalin em O materialismo dialético e histórico: “o mundo material representa a realidade objetiva […] [e] a vida espiritual da sociedade é um reflexo dessa realidade objetiva”; e “qualquer que seja o ser de uma sociedade, quaisquer que sejam as condições da vida material de uma sociedade, tais são as ideias, teorias, visões políticas e instituições políticas dessa sociedade”, Joseph Stalin, Dialectical and Historical Materialism (Londres, Lawrence & Wishart), p. 15.
69. Karl Marx, “A Contribution to the Critique of Political Economy”, cit., p. 257-417.
70. Idem, Grundrisse, cit., p. 54.
71. Idem, “A Contribution to the Critique of Political Economy”, cit., p. 261.
72. Idem, Grundrisse, cit., p. 756.
73. Idem, “Capital, v. I” em Marx and Engels Collected Works, v. 35 (Nova York, International Publishers, 1996), p. 45; tradução modificada.
74. Ibidem, p. 19.