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I Internacional deixa mensagem para crises no Brasil e Europa

Jornal GGN – Centenas de anos se passaram desde que pipocaram as primeiras teorias sobre o futuro do capitalismo. O sistema atravessou séculos, entrou na era da globalização e arrumou seu próprio meio de sobrevivência, mas não sem despertar inúmeras contradições e tensões entre agentes sociais.

A crise internacional de 2008 e seus desdobramentos – mais visíveis nas principais economias do mundo – colocou em pauta a necessidade de repensar a forma como os trabalhadores se organizam por demandas nesse sistema, a exemplo do que a classe operária fez nos idos de 1860, com ajuda de pensadores como Karl Marx, um dos grandes responsáveis pela formação da primeira Associação Internacional de Trabalhadores.

Em entrevista ao Jornal GGN, o cientista político italiano Marcello Musto – que organizou um livro lançado recentemente por ocasião dos 150 anos da I Internacional (leia mais no link abaixo) – avaliou que a crise de representatividade que o Brasil e a Europa vivem hoje passa por mudanças na forma de organização política e social. O assunto, na visão dele, poderia ser discutido de maneira mais aprofundada se a geração atual tivesse memória do que foi a I Internacional.

Ao contrário disso, o que o especialista destacou é que há um esvaziamento do papel dos partidos políticos (todos, de direita à esquerda, são colocados no mesmo bolo, de modo que a sociedade não acha que vale a pena aderir a um lado), ao mesmo passo em que os movimentos sociais estão divididos, embora a tecnologia da informação (principalmente a internet) dê a ilusão de que tudo pode ser conquistado se a massa se organizar. Ele também disparou contra a pouca capacidade crítica da população, que não busca ativamente alternativas ao sistema vigente ou a outros problemas atuais.

Apesar de o Brasil ter assistido em junho de 2013 a uma série de protestos por mais direitos sociais, Marcello Musto acredita que nem este ato e tampouco outros que aconteceram ao redor do mundo – inclusive na Europa, em função dos altos índices de desemprego – são sinais de que as massas se conscientizaram e podem ser unificadas, como aconteceu na Internacional.

“Essa não é uma herança da Internacional, porque nos últimos 30 anos, sobretudo com a geração dos que agora estão na universidade, foi cortada a memória [do que foi aquela luta contra o capitalismo explorador, pela emancipação dos trabalhadores e mais direitos]. Não há memória”, ponderou. “[Essas manifestações] Surgem porque hoje as contradições do capitalismo existem. (…) O capitalismo é global e mais agressivo com a crise. E essas contradições produziram algumas manifestações.”

“As mais interessantes e positivas foram as manifestações onde havia uma clara plataforma de justiça social de esquerda. Em outros países, essa condição antipolitica – direita e esquerda não têm diferença – abriu a porta para grupos políticos de extrema direita, em toda a Europa. E isso cria uma condição de perigo enorme. Porque numa sociedade que tem a tecnocracia burocrática dirigindo a economia, a austeridade é o segundo modelo. A cada semana a Europa está em condições piores.”

O legado da I Internacional

Questionado sobre qual é o legado que a I Internacional deixa para a sociedade atual, Musto afirmou que seria, primeiro, a discussão sobre a perspectiva transnacional de organização. “Entender que sua vida não vai melhorar se está fechado em seu Facebook ou em seu jardim. E teu país, se tem um crescimento, mas está acontecendo uma guerra no Mediterrâneo, (…) hoje está bem, mas amanhã o problema vai tocá-lo também. Como aconteceu com a crise de 2008.”

“A outra questão é essa da participação [social ativa], que é fundamental, e essa é a mensagem central da Internacional. Os trabalhadores têm que se preocupar, tem que fazer política, os jovens tem que observar o mundo e questioná-lo criticamente. E nesses documentos [da antologia sobre a I Internacional] há muitas coisas que ajudam nesse sentido, porque atuam radicalmente contra essa sociedade.”

A mensagem central, entretanto, é que o capitalismo, “mais do que a 150 anos atrás”, merece avaliação. “Porque lutar por algumas reformas na sociedade é muito importante, mas se sua posição na sociedade não muda… A mensagem forte da Internacional é que os trabalhadores tem que lutar contra o capitalismo, contra esse sistema de exploração de homens sobre outros. Essa é a mensagem de emancipação que está atual e sempre será atual até que a sociedade se organize com o modo de produção capitalista.”

A internet e a ilusão dos partidos horizontais

Indagado sobre a função da internet como propulsora ou canalizadora de insatisfações e demandas que movimentam as massas, Marcello Musto ressaltou que não gostaria de falar contra a militância na rede, mas observou que talvez a crise de representatividade que muitos países vivem hoje passe pelas mudanças na forma de organização social e política.

Ele argumentou que nos últimos anos os partidos políticos, por exemplo, foram atacados principalmente pelo excesso de burocratização. E a solução apresentada para isso seria tornar a direção das legendas mais horizontais, para garantir melhor acesso e participação a todos. Em tese, era isso, e a internet seria um canal de comunicação providencial. Mas na prática, segundo Musto, a Itália foi um dos países que assistiram à criação de partidos “horizontais” que, por trás dos panos, eram capitaneados por uns poucos endinheirados. Ou seja, o que existe, na prática, é manipulação das massas.

Musto avaliou que o poder de organização da I Internacional aparentemente supera esse modo atual de ver e fazer política nas redes. O diferencial, no caso da Internacional, era justamente a existência (e não negação) de diretrizes pré-estabelecidas e cabeças que fizessem o organismo caminhar no sentido indicado pelos diversos movimentos sociais.

” Na Internacional, existia uma participação autêntica. E essa é a forma que penso, ou seja, não precisamos retomar ao que existia antigamente, mas sim voltar a uma ideia de organização politica complexa. Não como na web, onde ‘somos todos iguais’, mas depois são sempre 5, 6 mil pessoas que votam e tomam decisões, e as tomam porque o chefe que tem milhões de euros para organizar a publicidade disse para tomar.”

“A Internacional teve mais de 150 mil trabalhadores que construíram as lutas. E esse modelo de participação política é uma mensagem para a crise que temos hoje, no Brasil e na Europa, uma crise de participação política. Isso me parece de uma atualidade enorme, extrema!”

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Os 150 anos da I Internacional e as discussões não superadas

Jornal GGN – A Associação Internacional dos Trabalhadores, referência histórica para o movimento operário, completou em setembro passado 150 anos. As entidades que fundaram a AIT diferiam muito entre si, mas se reconheciam em teorias e tendências que brotaram da cabeça de figuras como o comunista Karl Marx e o anarquista Mikhail Bakunin.

Os frutos dos anos de trabalho da I Internacional ficaram registrados em milhares de páginas que foram analisadas e reunidas no livro “Trabalhadores uni-vos! Antologia política da I Internacional”, lançado em meados de outubro em diversas línguas, inclusive em português.

O cientista político italiano Marcello Musto, organizador do livro e professor de Teoria Sociológica da York University (Canadá), falou com exclusividade ao GGN sobre a obra publicada pela editora Boitempo. Segundo ele, sua particularidade reside na opção por uma antologia inteligível até para jovens apenas interessados em aprimorar a própria formação política, mas principalmente pela relação que o conteúdo produzido nos idos de 1860 ainda guarda com o mundo atual.

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Morgana Gomes, Boitempo

Entrevista de Marcello Musto a Morgana Gomes

O slogan que finaliza a mensagem inaugural da I Internacional e que fora escrito por Karl Marx, 150 anos depois, mantém-se atual no que refere as reivindicações dos trabalhadores inseridos no processo de globalização em todas as partes do mundo

No dia 28 de setembro de 1864, cerca de duas mil pessoas se reuniram no salão do St. Martin’s Hall, em Londres, para assistir a um comício de dirigentes sindicais ingleses que, em parceria com um pequeno grupo de franceses, fundaram a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT).

Estabelecia-se, assim, a primeira tentativa de organizar os trabalhadores de todas as partes do mundo e a Inglaterra tinha um contexto próprio para sediar tal evento, pois havia sido o berço da Revolução Industrial e as condições de vida de seus trabalhadores eram péssimas, tanto que, além da exploração de mão de obra, inclusive infantil, famílias inteiras aglomeravam-se em lugares lúgubres, onde conviviam com a pobreza extrema e doenças contagiosas que minavam as forças dos operários, que ainda tinham que enfrentar uma jornada de trabalho que, ao dia, extrapolava mais que 14 horas em troca de um salário ínfimo.

Em virtude de tais condições, os trabalhadores que, na ocasião, encontravam-se na capital inglesa, não tinham a pretensão de construir um fórum internacional de debates sobre os problemas que os atingiam, muito menos de criar uma organização que coordenasse a luta política de toda a classe. Mas a convergência dos fatos possibilitou o surgimento da I Internacional que, apesar do curto período de existência, passado 150 anos de sua fundação, ainda é capaz de inspirar e até direcionar os trabalhadores atuais em sua luta diária, dessa vez, em meio a um cenário que, agora, também conta com a globalização, processo que modifica de modo intensivo tanto das formas de trabalho quanto de produção em benefício único do capitalismo e das classes dominantes.

Mas, para entender todo esse processo que começou em setembro de 1864 e, ainda hoje, graças as suas próprias características, mantém-se atual, entrevistamos o cientista político Marcello Musto, que se dedica a estudos de marxismo, história do pensamento político, filosofia moderna e história do movimento trabalhista. Como organizador do livro “Trabalhadores, uni-nos! Antologia Política da I Internacional”, recém lançado no Brasil e que, entre seus 80 textos, traz 69 que são inéditos em português, ele esmiúça detatas e anarquistas, todas com seus respectivos representantes mesmo que em diferentes graus de atuação. No entanto, as concepções de cada grupo e o espaço ocupado por eles na organização foram mudando com o passar dos anos. A greve como instrumento de pressão, por exemplo, de início, dividiu a associação, pois os franceses e os alemães do Partido Social-Democrata eram contra essa alternativa. Mas, a partir de 1866, com a multiplicação das paralisações em diversos países europeus e o sucesso alcançado por elas, todas as tendências da Internacional se convenceram de que se tratava de um recurso fundamental.

“Além disso, ele [Karl Marx] também previu a natureza da economia mundial no início do século 21, com base na sociedade burguesa de 150 anos atrás, fato que explica porque ele vem sendo redescoberto pelos estudiosos e capitalistas”

O envolvimento dos trabalhadores no jogo político, ao longo do tempo, também sofreu mudanças significativas, apesar de muitas correntes serem contra, devido à crença que a batalha deveria se restringir a melhorias das condições econômicas e sociais. Contudo, devido a Comuna de Paris em 1871 e o ensaio de uma democracia operária que durou 40 dias, houve um consenso sobre a necessidade de se encontrar formas de organização política. Em todo esse processo Karl Marx teve um papel central. Embora nunca tenha sido um mobilizador das massas, ele fundamentou teoricamente a I Internacional, mesmo participando de apenas um dos seus vários congressos. Quanto ao pouco tempo de duração da AIT, apesar de muitos acreditarem que seu fim teve uma relação com a rixa pessoal de Marx e Mikhail Bakunin, há diversos outros fatores. Entre eles destaco a repressão à Comuna de Paris em 1871, que deixou cerca de 20 mil mortos; o fortalecimento do Estado-nação com a unificação da Alemanha e da Itália; o próprio congresso da associação realizado em Haia, em 1872, que é descrito como um verdadeiro caos; a transferência, após o congresso da Holanda, da sede da AIT para Nova Iorque em 1872, fato que inquestionavelmente provocou seu esvaziamento; o afastamento de Marx; e a expansão da Internacional para a Espanha e outros países cuja estrutura econômica e social era muito diferente da Inglaterra e da França. Tudo isso, desestabilizou a organização que, desde o início, vivia um equilíbrio delicado, em decorrência das disputas políticas. De qualquer forma, seus poucos anos de existência, serviram de modelo e inspiração para as principais organizações operárias que surgiram depois, já com um programa socialista, que se espalharam pela Europa e, em seguida, pelos mais diversos cantos do mundo para, então, construir novas formas de coordenação supranacionais, com base nos ensinamentos da AIT.

“No momento em que o mundo do trabalho voltou a sofrer explorações semelhantes às do século 19, o projeto da I Internacional retorna com uma extraordinária atualidade, pois ele se tornou mais indispensável que nunca”

LH – O senhor citou a importância de Karl Marx para a I Internacional, mas tanto ele quanto a sua respectiva obra, foram relegados a um segundo plano por um bom tempo. Contudo, com a proximidade dos 150 anos da AIT, ambos voltaram a despertar o interesse, principalmente no meio acadêmico. Por quê?

Musto – Porque, no caso da AIT, formada por diferentes entidades, como sindicatos ingleses, mutualistas franceses, comunistas, exilados democráticos, inúmeros grupos de trabalhadores que se reconheciam em teorias utópicas e anarquistas de Bakunin, Karl Marx teve o dom de conciliar aquilo que parecia inconciliável, com um programa político não excludente, embora firmemente classista, como garantia de um movimento que ambicionava ser de massas, e não sectário. No entanto, eu gostaria de ressaltar que Marx não foi fundador da AIT, como muitos acreditam. Ele esteve na Assembleia realizada no St. Martin’s Hall, mas como personagem mudo. Contudo, reconheceu a potencialidade do evento e pôs-se a trabalhar para o êxito da associação, após ser nomeado, graças ao prestigio que tinha, entre os 34 membros do Comitê Diretor Provisório. Coube-lhe, então, redigir a Mensagem Inaugural e os Estatutos provisórios da Internacional. A partir daí, enquanto valorizava as melhores ideias dos membros da associação, ele ainda eliminava inclinações corporativas e acentos sectários, para consolidar tanto a luta econômica e política quanto a escolha do pensar e do agir em escala internacional. Por conseguinte, a AIT tornou-se um órgão de síntese política presente nos diversos contextos nacionais. Durante esse processo, Marx foi impulsionado a ir além da política econômica, desenvolver ideias e revisá-las, questionar velhas certezas, explorar novas questões e elaborar, de forma mais concreta, sua própria crítica ao capitalismo em termos de definições de sociedade comunista. Além disso, ele também previu a natureza da economia mundial no início do século 21, com base na sociedade burguesa de 150 anos atrás, fato que explica porque ele vem sendo redescoberto pelos estudiosos e capitalistas do setor financeiro globalizado, que lidam com as constantes instabilidades da economia.

“Em todas as situações em que se comete uma injustiça no trabalho e cada vez que um direito é ferido, germina a semente da nova Internacional”

LH – Hoje, o trabalhador de um modo geral tem consciência que a legislação e a exploração de sua mão de obra são semelhantes àquelas praticadas no século 19?

Musto – Alguns sim, mas as demandas são mais sociais. Porém, Marx já dizia que a emancipação da classe operária exigia um processo longo e fatigante. Embora a AIT tenha imprimido na consciência dos proletários a convicção de que a emancipação do trabalho do jugo do capital não podia ser obtida nos limites de um único país, pois era uma questão global, ela ainda conseguiu difundir entre os trabalhadores a consciência de que sua escravidão só teria fim com a superação do modo de produção capitalista e do trabalho assalariado, uma vez que as melhorias no interior do sistema vigente, ainda que devessem ser almejadas, não modificariam sua condição estrutural. Hoje a situação é outra, pois, ao mesmo tempo em que a globalização neoliberal enfraqueceu os movimentos dos trabalhadores, ela também abriu novas possibilidades de comunicação, facilitando a cooperação e a solidariedade. Com a recente crise do capitalismo, que aprofundou ainda mais a divisão entre capital e trabalho, o legado da I Internacional se mostra bem relevante, principalmente na América do Sul, onde o povo se uni em nome da solidariedade que, por sua vez, mostra-se contra a barbárie mundial, os desastres ecológicos resultantes do modo de produção atual, o abismo que separa as riquezas de um minoria de exploradores dos extremos enfrentados pela grande maioria da população mundial, a opressão de gêneros, previsões de guerra, racismo etc. Todos esses fatores impõem ao movimento operário contemporâneo a reorganização urgencial, que se apoia em duas características da Internacional, que são a radicalidade dos objetivos a perseguir e a forma poliédrica de sua estrutura.

“Uma das principais características da associação [AIT] foi a capacidade de aglutinar correntes políticas distintas e até antagônicas, que abrangiam desde reformistas a revolucionários, até social-democratas, mutualistas e anarquistas”

LH – Quais são suas considerações finais sobre o tema e a situação atual, incluindo a vivenciada no Brasil, de um modo geral?

Musto – Há 150 anos, a primeira tentativa de união dos trabalhadores do mundo, levou os operários a compreender que sua emancipação só podia ser conquistada por eles mesmos e por sua capacidade de organizar-se. Portanto, ela nunca poderia ser transferida a terceiros. Porém, hoje, existe um grande abismo que separa as esperanças daquele tempo e a desesperança atual, a determinação antissistêmicas daquelas lutas e a servidão ideológica contemporânea, a solidariedade construída por aquele movimento esporádico e o individualismo do nosso tempo, produto da competição de mercado e das privatizações, a paixão pela política dos trabalhadores que se reuniam em Londres, em 1864, e a resignação e a apatia imperantes na atualidade. Contudo, diante dessas contradições, no momento em que o mundo do trabalho voltou a sofrer explorações semelhantes ao do século 19, o projeto da I Internacional retorna com uma extraordinária atualidade, pois ele se tornou mais indispensável que nunca. Mas para estar à altura do presente, a nova Internacional ainda deverá atender a dois requisitos básicos: a pluralidade e o anticapitalismo.

Trabalhadores, uni-nos! Antologia política da I Internacional

A obra organizada pelo cientista político Marcello Musto, além de celebrar os 150 anos da fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), símbolo inquestionável da luta de classes que, por sua vez, influenciou as ideias de milhões de trabalhadores ao redor do planeta, ainda oferece uma importante oportunidade de compreender suas resoluções e aprender com as experiências de seus protagonistas, para repensar os problemas do presente.

Com textos inéditos, cuidadosamente selecionados e traduzidos, ela configura um arquivo de valor inestimável para a história e a teoria do movimento dos trabalhadores, bem como para a crítica do capitalismo. Dividida em três eixos fundamentais – desenho econômico e político organizativo da futura sociedade projetado pelos protagonistas da AIT; questões internacionais no conturbado contexto europeu das décadas de 1860 e 1870, marcado por guerras de libertação nacional e movimentos insurrecionais (Irlanda e Polônia), de guerra civil (Estados Unidos), de guerra entre nações (franco-prussiana) e da primeira revolução proletária (Comuna de Paris); e a questão política, das suas formas, do debate entre a luta política versus abstencionismo, e do fim do Estado –, além de uma extensa introdução crítica do organizador, que apresenta e contextualiza as diferentes vertentes e resoluções que estavam em jogo, a obra ainda aborda outros temas de relevância, como as questões de organização e forma da luta sindical, crédito, cooperativismo, propriedade coletiva, a questão fundiária, sobre o direito ou abolição de herança, internacionalismo e nacionalismo, enquanto desintoxica, oxigena e municia corações e mentes para a compreensão e o enfrentamento das mazelas do presente e dos desafios futuros do mundo do trabalho.

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Internacional dos trabalhadores ontem e hoje

O slogan que finaliza a mensagem inaugural da I Internacional e que fora escrito por Karl Marx, 150 anos depois, mantém-se atual no que refere as reivindicações dos trabalhadores inseridos no processo de globalização em todas as partes do mundo.

No dia 28 de setembro de 1864, cerca de duas mil pessoas se reuniram no salão do St. Martin’s Hall, em Londres, para assistir a um comício de dirigentes sindicais ingleses que, em parceria com um pequeno grupo de franceses, fundaram a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT).

Estabelecia-se, assim, a primeira tentativa de organizar os trabalhadores de todas as partes do mundo e a Inglaterra tinha um contexto próprio para sediar tal evento, pois havia sido o berço da Revolução Industrial e as condições de vida de seus trabalhadores eram péssimas, tanto que, além da exploração de mão de obra, inclusive infantil, famílias inteiras aglomeravam-se em lugares lúgubres, onde conviviam com a pobreza extrema e doenças contagiosas que minavam as forças dos operários, que ainda tinham que enfrentar uma jornada de trabalho que, ao dia, extrapolava mais que 14 horas em troca de um salário ínfimo.

Em virtude de tais condições, os trabalhadores que, na ocasião, encontravam-se na capital inglesa, não tinham a pretensão de construir um fórum internacional de debates sobre os problemas que os atingiam, muito menos de criar uma organização que coordenasse a luta política de toda a classe. Mas a convergência dos fatos possibilitou o surgimento da I Internacional que, apesar do curto período de existência, passado 150 anos de sua fundação, ainda é capaz de inspirar e até direcionar os trabalhadores atuais em sua luta diária, dessa vez, em meio a um cenário que, agora, também conta com a globalização, processo que modifica de modo intensivo tanto das formas de trabalho quanto de produção em benefício único do capitalismo e das classes dominantes.

Mas, para entender todo esse processo que começou em setembro de 1864 e, ainda hoje, graças as suas próprias características, mantém-se atual, entrevistamos o cientista político Marcello Musto, que se dedica a estudos de marxismo, história do pensamento político, filosofia moderna e história do movimento trabalhista. Como organizador do livro “Trabalhadores, uni-nos! Antologia Política da I Internacional”, recém lançado no Brasil e que, entre seus 80 textos, traz 69 que são inéditos em português, ele esmiúça detatas e anarquistas, todas com seus respectivos representantes mesmo que em diferentes graus de atuação. No entanto, as concepções de cada grupo e o espaço ocupado por eles na organização foram mudando com o passar dos anos. A greve como instrumento de pressão, por exemplo, de início, dividiu a associação, pois os franceses e os alemães do Partido Social-Democrata eram contra essa alternativa. Mas, a partir de 1866, com a multiplicação das paralisações em diversos países europeus e o sucesso alcançado por elas, todas as tendências da Internacional se convenceram de que se tratava de um recurso fundamental.

“Além disso, ele [Karl Marx] também previu a natureza da economia mundial no início do século 21, com base na sociedade burguesa de 150 anos atrás, fato que explica porque ele vem sendo redescoberto pelos estudiosos e capitalistas”

O envolvimento dos trabalhadores no jogo político, ao longo do tempo, também sofreu mudanças significativas, apesar de muitas correntes serem contra, devido à crença que a batalha deveria se restringir a melhorias das condições econômicas e sociais. Contudo, devido a Comuna de Paris em 1871 e o ensaio de uma democracia operária que durou 40 dias, houve um consenso sobre a necessidade de se encontrar formas de organização política. Em todo esse processo Karl Marx teve um papel central. Embora nunca tenha sido um mobilizador das massas, ele fundamentou teoricamente a I Internacional, mesmo participando de apenas um dos seus vários congressos. Quanto ao pouco tempo de duração da AIT, apesar de muitos acreditarem que seu fim teve uma relação com a rixa pessoal de Marx e Mikhail Bakunin, há diversos outros fatores. Entre eles destaco a repressão à Comuna de Paris em 1871, que deixou cerca de 20 mil mortos; o fortalecimento do Estado-nação com a unificação da Alemanha e da Itália; o próprio congresso da associação realizado em Haia, em 1872, que é descrito como um verdadeiro caos; a transferência, após o congresso da Holanda, da sede da AIT para Nova Iorque em 1872, fato que inquestionavelmente provocou seu esvaziamento; o afastamento de Marx; e a expansão da Internacional para a Espanha e outros países cuja estrutura econômica e social era muito diferente da Inglaterra e da França. Tudo isso, desestabilizou a organização que, desde o início, vivia um equilíbrio delicado, em decorrência das disputas políticas. De qualquer forma, seus poucos anos de existência, serviram de modelo e inspiração para as principais organizações operárias que surgiram depois, já com um programa socialista, que se espalharam pela Europa e, em seguida, pelos mais diversos cantos do mundo para, então, construir novas formas de coordenação supranacionais, com base nos ensinamentos da AIT.

“No momento em que o mundo do trabalho voltou a sofrer explorações semelhantes às do século 19, o projeto da I Internacional retorna com uma extraordinária atualidade, pois ele se tornou mais indispensável que nunca”

LH – O senhor citou a importância de Karl Marx para a I Internacional, mas tanto ele quanto a sua respectiva obra, foram relegados a um segundo plano por um bom tempo. Contudo, com a proximidade dos 150 anos da AIT, ambos voltaram a despertar o interesse, principalmente no meio acadêmico. Por quê?

Musto – Porque, no caso da AIT, formada por diferentes entidades, como sindicatos ingleses, mutualistas franceses, comunistas, exilados democráticos, inúmeros grupos de trabalhadores que se reconheciam em teorias utópicas e anarquistas de Bakunin, Karl Marx teve o dom de conciliar aquilo que parecia inconciliável, com um programa político não excludente, embora firmemente classista, como garantia de um movimento que ambicionava ser de massas, e não sectário. No entanto, eu gostaria de ressaltar que Marx não foi fundador da AIT, como muitos acreditam. Ele esteve na Assembleia realizada no St. Martin’s Hall, mas como personagem mudo. Contudo, reconheceu a potencialidade do evento e pôs-se a trabalhar para o êxito da associação, após ser nomeado, graças ao prestigio que tinha, entre os 34 membros do Comitê Diretor Provisório. Coube-lhe, então, redigir a Mensagem Inaugural e os Estatutos provisórios da Internacional. A partir daí, enquanto valorizava as melhores ideias dos membros da associação, ele ainda eliminava inclinações corporativas e acentos sectários, para consolidar tanto a luta econômica e política quanto a escolha do pensar e do agir em escala internacional. Por conseguinte, a AIT tornou-se um órgão de síntese política presente nos diversos contextos nacionais. Durante esse processo, Marx foi impulsionado a ir além da política econômica, desenvolver ideias e revisá-las, questionar velhas certezas, explorar novas questões e elaborar, de forma mais concreta, sua própria crítica ao capitalismo em termos de definições de sociedade comunista. Além disso, ele também previu a natureza da economia mundial no início do século 21, com base na sociedade burguesa de 150 anos atrás, fato que explica porque ele vem sendo redescoberto pelos estudiosos e capitalistas do setor financeiro globalizado, que lidam com as constantes instabilidades da economia.

“Em todas as situações em que se comete uma injustiça no trabalho e cada vez que um direito é ferido, germina a semente da nova Internacional”

LH – Hoje, o trabalhador de um modo geral tem consciência que a legislação e a exploração de sua mão de obra são semelhantes àquelas praticadas no século 19?

Musto – Alguns sim, mas as demandas são mais sociais. Porém, Marx já dizia que a emancipação da classe operária exigia um processo longo e fatigante. Embora a AIT tenha imprimido na consciência dos proletários a convicção de que a emancipação do trabalho do jugo do capital não podia ser obtida nos limites de um único país, pois era uma questão global, ela ainda conseguiu difundir entre os trabalhadores a consciência de que sua escravidão só teria fim com a superação do modo de produção capitalista e do trabalho assalariado, uma vez que as melhorias no interior do sistema vigente, ainda que devessem ser almejadas, não modificariam sua condição estrutural. Hoje a situação é outra, pois, ao mesmo tempo em que a globalização neoliberal enfraqueceu os movimentos dos trabalhadores, ela também abriu novas possibilidades de comunicação, facilitando a cooperação e a solidariedade. Com a recente crise do capitalismo, que aprofundou ainda mais a divisão entre capital e trabalho, o legado da I Internacional se mostra bem relevante, principalmente na América do Sul, onde o povo se uni em nome da solidariedade que, por sua vez, mostra-se contra a barbárie mundial, os desastres ecológicos resultantes do modo de produção atual, o abismo que separa as riquezas de um minoria de exploradores dos extremos enfrentados pela grande maioria da população mundial, a opressão de gêneros, previsões de guerra, racismo etc. Todos esses fatores impõem ao movimento operário contemporâneo a reorganização urgencial, que se apoia em duas características da Internacional, que são a radicalidade dos objetivos a perseguir e a forma poliédrica de sua estrutura.

“Uma das principais características da associação [AIT] foi a capacidade de aglutinar correntes políticas distintas e até antagônicas, que abrangiam desde reformistas a revolucionários, até social-democratas, mutualistas e anarquistas”

LH – Quais são suas considerações finais sobre o tema e a situação atual, incluindo a vivenciada no Brasil, de um modo geral?

Musto – Há 150 anos, a primeira tentativa de união dos trabalhadores do mundo, levou os operários a compreender que sua emancipação só podia ser conquistada por eles mesmos e por sua capacidade de organizar-se. Portanto, ela nunca poderia ser transferida a terceiros. Porém, hoje, existe um grande abismo que separa as esperanças daquele tempo e a desesperança atual, a determinação antissistêmicas daquelas lutas e a servidão ideológica contemporânea, a solidariedade construída por aquele movimento esporádico e o individualismo do nosso tempo, produto da competição de mercado e das privatizações, a paixão pela política dos trabalhadores que se reuniam em Londres, em 1864, e a resignação e a apatia imperantes na atualidade. Contudo, diante dessas contradições, no momento em que o mundo do trabalho voltou a sofrer explorações semelhantes ao do século 19, o projeto da I Internacional retorna com uma extraordinária atualidade, pois ele se tornou mais indispensável que nunca. Mas para estar à altura do presente, a nova Internacional ainda deverá atender a dois requisitos básicos: a pluralidade e o anticapitalismo.

Trabalhadores, uni-nos! Antologia política da I Internacional

A obra organizada pelo cientista político Marcello Musto, além de celebrar os 150 anos da fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), símbolo inquestionável da luta de classes que, por sua vez, influenciou as ideias de milhões de trabalhadores ao redor do planeta, ainda oferece uma importante oportunidade de compreender suas resoluções e aprender com as experiências de seus protagonistas, para repensar os problemas do presente.

Com textos inéditos, cuidadosamente selecionados e traduzidos, ela configura um arquivo de valor inestimável para a história e a teoria do movimento dos trabalhadores, bem como para a crítica do capitalismo. Dividida em três eixos fundamentais – desenho econômico e político organizativo da futura sociedade projetado pelos protagonistas da AIT; questões internacionais no conturbado contexto europeu das décadas de 1860 e 1870, marcado por guerras de libertação nacional e movimentos insurrecionais (Irlanda e Polônia), de guerra civil (Estados Unidos), de guerra entre nações (franco-prussiana) e da primeira revolução proletária (Comuna de Paris); e a questão política, das suas formas, do debate entre a luta política versus abstencionismo, e do fim do Estado –, além de uma extensa introdução crítica do organizador, que apresenta e contextualiza as diferentes vertentes e resoluções que estavam em jogo, a obra ainda aborda outros temas de relevância, como as questões de organização e forma da luta sindical, crédito, cooperativismo, propriedade coletiva, a questão fundiária, sobre o direito ou abolição de herança, internacionalismo e nacionalismo, enquanto desintoxica, oxigena e municia corações e mentes para a compreensão e o enfrentamento das mazelas do presente e dos desafios futuros do mundo do trabalho.

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Gilberto Cruvinel, GGN

I Internacional foi palco de disputas políticas e modelo para organizações futuras, diz cientista polìtico italiano

RIO – Os bairros operários de Liverpool e Manchester aparecem nos jornais do século XIX como lugares lúgubres e paupérrimos, onde famílias inteiras dormiam no mesmo cômodo, uns sobre os outros.

Não surpreende, portanto, que tenha nascido na Inglaterra, berço da Revolução Industrial, a tentativa pioneira de organização dos trabalhadores a nível mundial. No dia 28 de setembro de 1864, cerca de 2 mil pessoas se reuniram no salão do St. Martin’s Hall, em Londres, para assistir a um comício de dirigentes sindicais ingleses que contaria com a participação de um pequeno grupo de colegas franceses. Ali seria fundada a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), modelo e inspiração para as principais organizações operárias surgidas depois.

A AIT teve vida curta, sendo esvaziada com a transferência de sua sede para Nova York em 1872 e dissolvida quatro anos depois, mas um século e meio após sua fundação ainda é capaz de provocar controvérsias, como as disputas entre comunistas e anarquistas. Organizador do livro “Trabalhadores, uni-vos! Antologia política da I Internacional” (Boitempo, tradução de Rubens Enderle), o cientista político italiano e professor da Universidade York, no Canadá, Marcello Musto, explica que nenhum dos dois grupos eram hegemônicos no seu início e não se pode creditar o seu fim a uma rixa pessoal entre Karl Marx e Mikhail Bakunin, como costuma se fazer. A obra, recém-lançada no Brasil, traz 80 textos, sendo que 69 inéditos em português. Na segunda-feira, ele participa do encontro “A I Internacional, 150 anos depois” na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

— Quando os milhares de trabalhadores se encontraram em Londres há 150 anos, a ideia era construir um fórum internacional de debates sobre os problemas que os atingiam. Inicialmente, ninguém pensava em criar uma organização que coordenasse a luta política de toda a classe. Os sindicatos britânicos, que eram o principal grupo da Internacional, estavam interessados em questões econômicas e viam a associação como um meio de atingir os seus objetivos, como impedir a importação de mão de obra estrangeira — explica o professor.

Uma das principais características da associação foi a capacidade de aglutinar correntes políticas antagônicas. De reformistas a revolucionários, de social-democratas e mutualistas a anarquistas, todos estavam representados, mesmo que em diferentes graus. No entanto, as concepções de cada grupo e o espaço ocupado por eles na organização foi mudando com o passar dos anos. Musto cita o caso da utilização da greve como instrumento de pressão. A maioria dos franceses e os fundadores do Partido Social-Democrata Alemão eram contra. Só que, a partir de 1866, com a multiplicação das paralisações em diversos países europeus e o sucesso alcançado por elas, todas as tendências se convenceram de que se tratava de um recurso fundamental.

Outro ponto que sofreu mudanças significativas foi o envolvimento dos trabalhadores no jogo político. Muitas correntes se opunham, pois acreditavam que a batalha deveria se restringir a melhorias das condições econômicas e sociais. Foi graças à Comuna de Paris, em 1871, o ensaio de uma democracia operária que durou 40 dias, que se chegou ao consenso sobre a necessidade de se encontrar formas de organização política. Neste processo, assim como em toda a existência da I Internacional, Karl Marx teve um papel central. Musto argumenta que sua importância foi principalmente teórica, já que o pensador alemão nunca atuou como mobilizador das massas e participou de apenas um dos seus vários congressos.

— Seus dotes políticos permitiram a Marx conciliar aquilo que parecia inconciliável e asseguraram um futuro à Internacional. Sem o seu protagonismo, ela seguramente teria caído no esquecimento na mesma velocidade que muitas outras iniciativas semelhantes que a precederam. Foi Marx quem realizou um programa político não excludente, embora firmemente classista, como garantia de uma organização que ambicionava ser de massas, não sectária.

O protagonismo de Marx a que Musto se refere se tornou numa espécie de lugar-comum sobre as razões do fim da associação, em especial a disputa com Bakunin e os anarquistas. Na introdução da antologia, o cientista político recupera essa história em detalhes. Realmente as discussões entre os dois não eram nada amistosas. Muitas vezes o pensador alemão preferiu ridicularizar as posições do exilado russo, que respondia com acusações e insultos pessoais, salvo raras exceções. O fato é que os caminhos defendidos por cada um para a sociedade socialista, onde não haveria mais classes, eram diametralmente opostos.

Musto ressalta, entretanto, que muito mais profundas eram as transformações da Europa no período. O próprio congresso da associação realizado em Haia, em 1872, é descrito como um verdadeiro caos. A repressão à Comuna de Paris, no ano anterior, que deixara cerca de 20 mil mortos, o fortalecimento do Estado-nação com a unificação da Alemanha e da Itália, a expansão da Internacional para a Espanha e outros países cuja estrutura econômica e social era muito diferente da Inglaterra e da França — tudo isso serviu para desestabilizar a organização que vivera desde o início num equilíbrio delicado. A transferência da sua sede para Nova York após o encontro na Holanda, junto com o afastamento de Marx, foi uma espécie de epílogo, apesar de a associação demonstrar força em alguns países europeus nos quatro anos seguintes.

— Se a globalização neoliberal enfraqueceu os movimentos dos trabalhadores, ela também abriu novas possibilidade de comunicação, facilitando a cooperação e a solidariedade. Com esta recente crise do capitalismo, que aprofundou mais do que nunca a divisão entre capital e trabalho, o legado da I Internacional se mostra ainda mais relevante e atual — argumenta o professor.

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Há 150 anos, a primeira tentativa de união dos trabalhadores do mundo

RIO – Os bairros operários de Liverpool e Manchester aparecem nos jornais do século XIX como lugares lúgubres e paupérrimos, onde famílias inteiras dormiam no mesmo cômodo, uns sobre os outros. Não surpreende, portanto, que tenha nascido na Inglaterra, berço da Revolução Industrial, a tentativa pioneira de organização dos trabalhadores a nível mundial.

No dia 28 de setembro de 1864, cerca de 2 mil pessoas se reuniram no salão do St. Martin’s Hall, em Londres, para assistir a um comício de dirigentes sindicais ingleses que contaria com a participação de um pequeno grupo de colegas franceses. Ali seria fundada a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), modelo e inspiração para as principais organizações operárias surgidas depois.

A AIT teve vida curta, sendo esvaziada com a transferência de sua sede para Nova York em 1872 e dissolvida quatro anos depois, mas um século e meio após sua fundação ainda é capaz de provocar controvérsias, como as disputas entre comunistas e anarquistas. Organizador do livro “Trabalhadores, uni-vos! Antologia política da I Internacional” (Boitempo, tradução de Rubens Enderle), o cientista político italiano e professor da Universidade York, no Canadá, Marcello Musto, explica que nenhum dos dois grupos eram hegemônicos no seu início e não se pode creditar o seu fim a uma rixa pessoal entre Karl Marx e Mikhail Bakunin, como costuma se fazer. A obra, recém-lançada no Brasil, traz 80 textos, sendo que 69 inéditos em português. Na segunda-feira, ele participa do encontro “A I Internacional, 150 anos depois” na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

— Quando os milhares de trabalhadores se encontraram em Londres há 150 anos, a ideia era construir um fórum internacional de debates sobre os problemas que os atingiam. Inicialmente, ninguém pensava em criar uma organização que coordenasse a luta política de toda a classe. Os sindicatos britânicos, que eram o principal grupo da Internacional, estavam interessados em questões econômicas e viam a associação como um meio de atingir os seus objetivos, como impedir a importação de mão de obra estrangeira — explica o professor.

Uma das principais características da associação foi a capacidade de aglutinar correntes políticas antagônicas. De reformistas a revolucionários, de social-democratas e mutualistas a anarquistas, todos estavam representados, mesmo que em diferentes graus. No entanto, as concepções de cada grupo e o espaço ocupado por eles na organização foi mudando com o passar dos anos. Musto cita o caso da utilização da greve como instrumento de pressão. A maioria dos franceses e os fundadores do Partido Social-Democrata Alemão eram contra. Só que, a partir de 1866, com a multiplicação das paralisações em diversos países europeus e o sucesso alcançado por elas, todas as tendências se convenceram de que se tratava de um recurso fundamental.

Outro ponto que sofreu mudanças significativas foi o envolvimento dos trabalhadores no jogo político. Muitas correntes se opunham, pois acreditavam que a batalha deveria se restringir a melhorias das condições econômicas e sociais. Foi graças à Comuna de Paris, em 1871, o ensaio de uma democracia operária que durou 40 dias, que se chegou ao consenso sobre a necessidade de se encontrar formas de organização política. Neste processo, assim como em toda a existência da I Internacional, Karl Marx teve um papel central. Musto argumenta que sua importância foi principalmente teórica, já que o pensador alemão nunca atuou como mobilizador das massas e participou de apenas um dos seus vários congressos.

— Seus dotes políticos permitiram a Marx conciliar aquilo que parecia inconciliável e asseguraram um futuro à Internacional. Sem o seu protagonismo, ela seguramente teria caído no esquecimento na mesma velocidade que muitas outras iniciativas semelhantes que a precederam. Foi Marx quem realizou um programa político não excludente, embora firmemente classista, como garantia de uma organização que ambicionava ser de massas, não sectária.

O protagonismo de Marx a que Musto se refere se tornou numa espécie de lugar-comum sobre as razões do fim da associação, em especial a disputa com Bakunin e os anarquistas. Na introdução da antologia, o cientista político recupera essa história em detalhes. Realmente as discussões entre os dois não eram nada amistosas. Muitas vezes o pensador alemão preferiu ridicularizar as posições do exilado russo, que respondia com acusações e insultos pessoais, salvo raras exceções. O fato é que os caminhos defendidos por cada um para a sociedade socialista, onde não haveria mais classes, eram diametralmente opostos.

Musto ressalta, entretanto, que muito mais profundas eram as transformações da Europa no período. O próprio congresso da associação realizado em Haia, em 1872, é descrito como um verdadeiro caos. A repressão à Comuna de Paris, no ano anterior, que deixara cerca de 20 mil mortos, o fortalecimento do Estado-nação com a unificação da Alemanha e da Itália, a expansão da Internacional para a Espanha e outros países cuja estrutura econômica e social era muito diferente da Inglaterra e da França — tudo isso serviu para desestabilizar a organização que vivera desde o início num equilíbrio delicado. A transferência da sua sede para Nova York após o encontro na Holanda, junto com o afastamento de Marx, foi uma espécie de epílogo, apesar de a associação demonstrar força em alguns países europeus nos quatro anos seguintes.

— Se a globalização neoliberal enfraqueceu os movimentos dos trabalhadores, ela também abriu novas possibilidade de comunicação, facilitando a cooperação e a solidariedade. Com esta recente crise do capitalismo, que aprofundou mais do que nunca a divisão entre capital e trabalho, o legado da I Internacional se mostra ainda mais relevante e atual — argumenta o professor.

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Leonardo Cazes, O Globo

Quando os trabalhadores do mundo se uniram

Os bairros operários de Liverpool e Manchester aparecem nos jornais do século XIX como lugares lúgubres e paupérrimos, onde famílias inteiras dormiam no mesmo cômodo, uns sobre os outros.

Não surpreende, portanto, que tenha nascido na Inglaterra, berço da Revolução Industrial, a tentativa pioneira de organização dos trabalhadores a nível mundial.

No dia 28 de setembro de 1864, cerca de 2 mil pessoas se reuniram no salão do St. Martin’s Hall, em Londres, para assistir a um comício de dirigentes sindicais ingleses que contaria com a participação de um pequeno grupo de colegas franceses. Ali seria fundada a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), modelo e inspiração para as principais organizações operárias surgidas depois.

A AIT teve vida curta, sendo esvaziada com a transferência de sua sede para Nova York em 1872 e dissolvida quatro anos depois, mas um século e meio após sua fundação ainda é capaz de provocar controvérsias, como as disputas entre comunistas e anarquistas. Organizador do livro Trabalhadores, uni-vos! Antologia política da I Internacional (Boitempo, tradução de Rubens Enderle), o cientista político italiano e professor da Universidade York, no Canadá, Marcello Musto, explica que nenhum dos dois grupos eram hegemônicos no seu início e não se pode creditar o seu fim a uma rixa pessoal entre Karl Marx e Mikhail Bakunin, como costuma se fazer. A obra, recém-lançada no Brasil, traz 80 textos, sendo que 69 inéditos em português. Na segunda-feira, ele participa do encontro “A I Internacional, 150 anos depois” na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

— Quando os milhares de trabalhadores se encontraram em Londres há 150 anos, a ideia era construir um fórum internacional de debates sobre os problemas que os atingiam. Inicialmente, ninguém pensava em criar uma organização que coordenasse a luta política de toda a classe. Os sindicatos britânicos, que eram o principal grupo da Internacional, estavam interessados em questões econômicas e viam a associação como um meio de atingir os seus objetivos, como impedir a importação de mão de obra estrangeira — explica o professor.

Uma das principais características da associação foi a capacidade de aglutinar correntes políticas antagônicas. De reformistas a revolucionários, de social-democratas e mutualistas a anarquistas, todos estavam representados, mesmo que em diferentes graus. No entanto, as concepções de cada grupo e o espaço ocupado por eles na organização foi mudando com o passar dos anos. Musto cita o caso da utilização da greve como instrumento de pressão. A maioria dos franceses e os fundadores do Partido Social-Democrata Alemão eram contra. Só que, a partir de 1866, com a multiplicação das paralisações em diversos países europeus e o sucesso alcançado por elas, todas as tendências se convenceram de que se tratava de um recurso fundamental.

Outro ponto que sofreu mudanças significativas foi o envolvimento dos trabalhadores no jogo político. Muitas correntes se opunham, pois acreditavam que a batalha deveria se restringir a melhorias das condições econômicas e sociais. Foi graças à Comuna de Paris, em 1871, o ensaio de uma democracia operária que durou 40 dias, que se chegou ao consenso sobre a necessidade de se encontrar formas de organização política. Neste processo, assim como em toda a existência da I Internacional, Karl Marx teve um papel central. Musto argumenta que sua importância foi principalmente teórica, já que o pensador alemão nunca atuou como mobilizador das massas e participou de apenas um dos seus vários congressos.

— Seus dotes políticos permitiram a Marx conciliar aquilo que parecia inconciliável e asseguraram um futuro à Internacional. Sem o seu protagonismo, ela seguramente teria caído no esquecimento na mesma velocidade que muitas outras iniciativas semelhantes que a precederam. Foi Marx quem realizou um programa político não excludente, embora firmemente classista, como garantia de uma organização que ambicionava ser de massas, não sectária.

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O protagonismo de Marx a que Musto se refere se tornou numa espécie de lugar-comum sobre as razões do fim da associação, em especial a disputa com Bakunin e os anarquistas. Na introdução da antologia, o cientista político recupera essa história em detalhes. Realmente as discussões entre os dois não eram nada amistosas. Muitas vezes o pensador alemão preferiu ridicularizar as posições do exilado russo, que respondia com acusações e insultos pessoais, salvo raras exceções. O fato é que os caminhos defendidos por cada um para a sociedade socialista, onde não haveria mais classes, eram diametralmente opostos.

Musto ressalta, entretanto, que muito mais profundas eram as transformações da Europa no período. O próprio congresso da associação realizado em Haia, em 1872, é descrito como um verdadeiro caos. A repressão à Comuna de Paris, no ano anterior, que deixara cerca de 20 mil mortos, o fortalecimento do Estado-nação com a unificação da Alemanha e da Itália, a expansão da Internacional para a Espanha e outros países cuja estrutura econômica e social era muito diferente da Inglaterra e da França — tudo isso serviu para desestabilizar a organização que vivera desde o início num equilíbrio delicado. A transferência da sua sede para Nova York após o encontro na Holanda, junto com o afastamento de Marx, foi uma espécie de epílogo, apesar de a associação demonstrar força em alguns países europeus nos quatro anos seguintes.

— Se a globalização neoliberal enfraqueceu os movimentos dos trabalhadores, ela também abriu novas possibilidade de comunicação, facilitando a cooperação e a solidariedade. Com esta recente crise do capitalismo, que aprofundou mais do que nunca a divisão entre capital e trabalho, o legado da I Internacional se mostra ainda mais relevante e atual — argumenta o professor.

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Paulo Barsotti, Boitempo

Esta preciosa antologia política organizada por Marcello Musto, de manifestos, documentos e intervenções da AIT – Associação Internacional dos Trabalhadores (1864-1872), a “primeira” Internacional –, é uma excelente maneira de brindar aos seus 150 anos de fundação.

É bem-vinda e oportuna porque repõe um dos episódios de maior vitalidade da práxis histórica dos trabalhadores do século XIX nestes dias de profunda desorganização, depressão ideológica e submissão do trabalho ao capital.

Reproduzindo o debate das diversas correntes ideológicas do movimento dos trabalhadores, esta publicação desintoxica, oxigena e municia corações e mentes para a compreensão e o enfrentamento das mazelas do presente e dos desafios futuros do mundo do trabalho.

A escolha dos textos – grande parte inédita no Brasil – que compõem o volume apresenta pelo menos três eixos fundamentais.

O primeiro recai no desenho econômico e político organizativo da futura sociedade projetado pelos protagonistas da AIT. O segundo trata das questões internacionais no conturbado contexto europeu das décadas de 1860 e 1870 do século XIX, marcado por guerras de libertação nacional e movimentos insurrecionais (Irlanda e Polônia), de guerra civil (Estados Unidos), de guerra entre nações (franco-prussiana) e da primeira revolução proletária (Comuna de Paris). E, finalmente, o terceiro eixo, a questão política, das suas formas, do debate entre a luta política versus abstencionismo, do fim do Estado.

Surgem ainda outros temas de relevância, como as questões de organização e forma da luta sindical, crédito, cooperativismo, propriedade coletiva, a questão fundiária, sobre o direito ou abolição de herança, internacionalismo e nacionalismo.

Diante dessa extensa pauta, expressando seu caráter de federações de organizações e movimentos, tomam postos na tribuna da AIT e animam o debate tradeunionistas, owenistas, marxistas, bakuninistas, blanquistas, mazzinistas, proudhonianos, entre outros.

Nesse ponto, expondo as manifestações de um leque amplo de militantes, esta antologia se diferencia daquelas vinculadas a uma certa ortodoxia, que viam a AIT não como trabalho coletivo, mas como exclusivamente restrita à figura e à participação de Marx, interrompida em 1872.

Ainda que o Doutor Vermelho – como os jornais burgueses da época se referiam a Marx após a Comuna de Paris – tenha escrito os documentos mais importantes de seu Conselho Geral e tenha sido sua alma, obviamente a AIT, um dos mais importantes feitos da humanidade, não pode ser reduzida à sua personalidade ou à de qualquer outro protagonista.

Um destaque final à competente introdução de Marcello Musto, que muito contribui para tornar esta antologia política leitura indispensável para estudiosos, militantes do movimento dos trabalhadores e para todos aqueles que se interessam pela ciência da história.

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