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O fascínio da teoria da alienação

A compreensão inovadora de Marx da alienação do trabalho é parte inestimável de seu pensamento. Para Marx, a alienação era fundamental para a compreensão do capitalismo e sua superação.

A alienação foi uma das questões mais importantes e debatidas do século XX e a teoria do fenômeno proposta por Karl Marx teve um papel fundamental na construção do conceito. No entanto, ao contrário do que se possa imaginar, a própria teoria da alienação não se desenvolveu de forma linear e a publicação de textos inéditos em que Marx analisou o conceito, marcou um momento significativo na transformação de sua teoria e na sua disseminação no uma escala global.

Nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844, com a categoria de “trabalho alienado”, Marx não apenas estendeu o escopo do problema da alienação da esfera filosófica, religiosa e política para a esfera econômica da produção material, mas também converteu este último em condição indispensável para compreender e superar o primeiro. No entanto, essa primeira elaboração, escrita aos 26 anos, foi apenas o esboço inicial de sua teoria. Embora muitas das teorias marxistas posteriores de alienação tenham sido erroneamente fundadas nas observações incompletas dos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844 – que superestimam o conceito de “auto-alienação” (Selbst-Entfremdung) – não devemos esquecer que duas décadas ou mais de pesquisas que Marx fez antes de publicar O Capital produziram uma evolução considerável em seus conceitos.

Nos escritos econômicos das décadas de 1850 e 1860, Marx aprofundou seu pensamento sobre a alienação. As ideias que Marx apresenta nesses textos se destacam por combinar a crítica da alienação na sociedade burguesa com a descrição de uma possível alternativa ao capitalismo.

A longa marcha do conceito de alienação
Em A Fenomenologia do Espírito (1807), Georg W. F. Hegel propôs a primeira elaboração sistemática do problema da alienação. Para descrever o processo pelo qual o Espírito se torna outro na esfera da objetividade, ele adotou os termos Entausserung (estranhamento), Entfremdung (alienação) e Vergegenständlichung (literalmente: “transformar-se em objeto”, normalmente traduzido como “objetificação”). O conceito de alienação desempenhou um papel proeminente nos escritos da esquerda hegeliana. Uma contribuição importante nesse sentido foi a teoria da alienação religiosa proposta por Ludwig Feuerbach em A essência do Cristianismo (1841), ou seja, a ideia de que a religião surge da projeção da própria essência do homem em uma divindade imaginária. Mais tarde, porém, ele desapareceu da reflexão filosófica e nenhum dos pensadores importantes da segunda metade do século XIX considerou o problema. Em suas obras publicadas, Marx raramente usa o termo e a discussão da alienação estava completamente ausente no marxismo da Segunda Internacional (1889-1914).

No entanto, deve-se destacar que durante o período muitos intelectuais desenvolveram outros conceitos, posteriormente associados à alienação. Em A divisão do trabalho social (1893) e O suicídio (1897), Émile Durkheim introduziu o termo “anomia” para designar um conjunto de fenômenos que ocorrem quando as normas que garantem a coesão social entram em crise após uma expansão considerável da divisão do trabalho. As tendências sociais concomitantes às grandes transformações do processo de produção também foram o eixo do pensamento dos sociólogos alemães.

Em A filosofia do dinheiro (1900), Georg Simmel estudou a dominação dos indivíduos por instituições sociais e a crescente impessoalidade das relações humanas. Por sua vez, Max Weber, em Economia e Sociedade(1922), abordou os fenômenos da “burocratização” no plano social e do “cálculo racional” no plano das relações humanas, que definiu como a essência do capitalismo. Mas esses autores pensaram que estavam descrevendo tendências incontroláveis nas relações humanas e suas reflexões foram guiadas pelo desejo de melhorar a ordem política e social existente (e não a substituir por outra).

Devemos a redescoberta da alienação a Georg Lukács, que em História e consciência de classe (1923) introduziu o termo “reificação” (Versachlichung) para descrever o fenômeno do trabalho que opõe o ser humano como algo independente e objetivo e que os domina mediante leis externas e autônomas. Em 1932, o aparecimento dos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844, uma obra até então inédita da juventude de Marx, foi um evento decisivo. No âmbito deste trabalho, o conceito de alienação refere-se ao fenômeno pelo qual o produto do trabalho se opõe ao trabalho como algo estranho, como um poder independente do produtor.

Marx definiu quatro formas de alienação do trabalhador na sociedade burguesa: (1) pelo produto de seu trabalho, que se torna um objeto estranho que exerce poder sobre ele; (2) em sua atividade de trabalho, que ele percebe como dirigida contra si mesmo e como se não lhe pertencesse; (3) pela “essência genérica” do homem que se transforma em um ser estranho; e (4) por outros seres humanos e em relação ao seu trabalho e ao objeto do seu trabalho. Ao contrário de Hegel, Marx argumenta que a alienação não coincide com a objetificação em si, mas com um fenômeno particular que ocorre em uma forma precisa de economia: isto é, trabalho assalariado e a transformação dos produtos do trabalho em objetos. Enquanto Hegel apresentava a alienação como uma manifestação ontológica do trabalho, Marx estava convencido de que era a característica de uma época específica de produção: o capitalismo.

Ao contrário, no início do século XX, quase todos os autores que abordaram o problema consideravam que a alienação era um aspecto universal da vida. Em Ser e Tempo(1927), Martin Heidegger tratou a alienação em termos puramente filosóficos. Nesse tipo de fenomenologia da alienação, ele cunhou a categoria “queda” [Verfallen] para se referir à tendência da existência humana de se perder na inautenticidade do mundo circundante. Heidegger não considerou esta queda como uma propriedade negativa e deplorável da qual, “talvez, fases mais avançadas da cultura humana sejam capazes de se desprender”, mas sim como uma “forma existencial de estar-no-mundo”, isto é, como uma realidade que faz parte da dimensão fundamental da história.

Após a Segunda Guerra Mundial, sob a influência do existencialismo francês, a alienação tornou-se um tema recorrente na filosofia e na literatura. Mas foi identificada com um mal-estar difuso do homem na sociedade e uma divisão entre a individualidade humana e o mundo da experiência: uma condição humana intransponível.

Os filósofos existencialistas não propunham uma origem social para a alienação, mas a concebiam como algo inevitavelmente ligado à “facticidade” – perspectiva reforçada, sem dúvida, pelo fracasso da experiência soviética – e à alteridade humana. Marx tentou desenvolver uma crítica da dominação buscando um ponto de apoio em sua oposição às relações capitalistas de produção. Os existencialistas seguiram o caminho inverso: tentaram absorver as partes da obra de Marx que consideravam úteis para suas próprias abordagens, no quadro de um debate puramente filosófico, esvaziado de qualquer crítica histórica específica.

Outro caso foi Herbert Marcuse, que também identificou alienação com objetificação e não com sua manifestação no quadro das relações de produção capitalistas. Em Eros e Civilização (1955), ele se distanciou de Marx e argumentou que a emancipação só poderia ser alcançada por meio da abolição – e não da liberação – do trabalho e da afirmação da libido e do jogo nas relações sociais. Marcuse acabou se opondo à dominação tecnológica em geral, de modo que sua crítica à alienação deixou de visar as relações capitalistas de produção e suas reflexões sobre a mudança social tornaram-se tão pessimistas que muitas vezes incluiu a classe trabalhadora entre eles.

O fascínio irresistível da teoria da alienação
Uma década depois, o termo entrou sociologia americana. A sociologia “mainstream” tratou o problema como referente ao ser humano individual – e não às relações sociais. Focou a pesquisa na busca de soluções sobre a capacidade dos indivíduos de se adaptar à ordem existente – e não em práticas coletivas que visam transformar a sociedade. Esse deslocamento acabou por degradar a análise dos fatores sócio-históricos. Enquanto, na tradição marxista, o conceito de alienação havia contribuído para algumas das mais afiadas críticas ao modo de produção capitalista, a sua institucionalização na esfera da sociologia reduziu a um fenômeno de desajuste indivíduo a normas coletivas. Essas interpretações contribuíram para o empobrecimento teórico do discurso sobre a alienação que, afastando-se esse fenômeno complexo ligado à atividade laboral humana, tornou-se mesmo um fenômeno positivo, um meio de expressar a criatividade. Assim, acabou desaparecendo ao ponto de se tornar praticamente insignificante.

No mesmo período, o conceito de alienação também fez seu caminho para a psicanálise, onde Erich Fromm o utilizou para construir uma ponte com o marxismo. Porém, o filósofo alemão acabou colocando toda a ênfase na subjetividade. A sua noção, sintetizada em Psicanálise da sociedade contemporânea (1955), via a alienação como um modo de experiência em que o indivíduo se percebe como estranho. Ora, isso definia a alienação como vocação. Fromm baseou-se exclusivamente na concepção apresentada por Marx nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844 e mostrou que não compreendia a especificidade e a centralidade do trabalho alienado no pensamento de Marx. Essa lacuna o impedia de dar o devido peso à alienação objetiva (isto é, aquela que afeta o trabalhador no processo de produção e define sua relação com o produto do trabalho).

Na década de 1960, as teorias de alienação entraram em voga e o conceito parecia expressar perfeitamente o espírito da época. Em A sociedade do espetáculo (1967), Guy Debord relacionou a teoria da alienação com a crítica da produção imaterial. Ele argumentou que com a “segunda revolução industrial”, o consumo alienado se tornou, na mesma medida que a produção alienada, um dever das massas. Em A sociedade do consumo (1970), Jean Baudrillard se distanciou da abordagem marxista, ou seja, da centralidade da produção e, assim, também identificou o consumo como o fator fundamental da sociedade moderna.

Então, a era do consumo, em que a publicidade e as pesquisas criam necessidades espúrias e consenso de massa, tornou-se a “era da alienação radical”. No entanto, a popularidade do termo e sua aplicação indiscriminada criaram uma profunda ambiguidade conceitual. Em poucos anos, a alienação tornou-se uma fórmula vazia que cruzou todo o espectro da infelicidade humana e sua amplitude gerou a crença de que se referia a uma situação imutável. Centenas de livros e artigos foram escritos e publicados em todo o mundo.

Foi a época da alienação tout court. Autores de diferentes origens políticas e acadêmicas propuseram diferentes causas para explicar o fenômeno: comercialização, superespecialização, anomia, burocratização, conformidade, consumismo, perda de significado gerado por novas tecnologias, incluindo isolamento pessoal, apatia, marginalização étnica ou social e contaminação ambiental. O debate atingiu um limite paradoxal no contexto acadêmico americano, onde o conceito de alienação sofreu uma distorção real e acabou sendo utilizado pelos defensores daquelas classes contra as quais havia sido elaborado em primeira instância.

Alienação de acordo com Karl Marx
A difusão dos Grundrisse, um manuscrito escrito entre 1857 e 1858 que ganhou popularidade na década de 1970, evidenciou o conceito de alienação que Marx trabalhou em seus escritos maduros. O seu estudo recolheu as observações dos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, mas os enriqueceram com uma compreensão muito mais ampla de categorias econômicas e uma análise social mais rigorosa. Nos Grundrisse, Marx usou o termo “alienação” mais de uma vez e argumentou que no capitalismo: “O intercâmbio geral de atividades e produtos, que se tornou a condição de vida de cada indivíduo em particular e é sua condição de reciprocidade [com outros], apresenta-se a si mesmos como estranho, algo independente, como uma coisa. No valor de troca, o vínculo social entre as pessoas é transformado em uma relação social de coisas; a capacidade pessoal, em uma capacidade de coisas”.

Os Grundrisse não foram o único texto maduro incompleto em que Marx abordou a alienação. Cinco anos depois, o esboço da parte VI do primeiro livro de O Capital (1863-1864) estabeleceu uma ligação mais estreita entre a análise econômica e política e o conceito de alienação. Marx então argumentou que “o domínio do capitalista sobre o trabalhador é o domínio das coisas sobre os seres humanos, do trabalho morto sobre o trabalho vivo e do produto sobre o produtor. Na sociedade capitalista, a transposição da produtividade social do trabalho para os atributos materiais do capital promove uma verdadeira personificação das coisas e uma reificação das pessoas, e cria a aparência de que as condições materiais de trabalho não estão sujeitas ao trabalhador, ao contrário, é aquele que está sujeito a eles.

O progresso que essa concepção representa em comparação com os primeiros escritos também é evidente na famosa seção de O Capital (1867), intitulada “O fetichismo das mercadorias”. Segundo Marx, na sociedade capitalista, as relações entre as pessoas não são apresentadas como relações sociais, mas como “relações sociais entre coisas”. Este fenômeno é o que ele chamou de “o fetichismo que se liga aos produtos do trabalho assim que são produzidos como mercadorias, e que é inseparável da produção de mercadorias”. Em qualquer caso, o fetichismo da mercadoria não substituiu a alienação dos escritos da juventude. Marx continuou a argumentar que na sociedade burguesa, as qualidades e relações humanas tornam-se qualidades e relações das coisas. Essa teoria – que antecipa o que Lukács chamaria de reificação – ilustra o fenômeno do ponto de vista das relações sociais, enquanto o conceito de fetichismo aborda a mesma questão do ponto de vista das mercadorias.

A difusão de todos esses escritos de Marx abriu caminho para uma concepção de alienação diferente de todas aquelas que se tornaram hegemônicas na sociologia e na psicologia. É uma concepção voltada para a superação da alienação na prática; ou seja, para a ação política dos movimentos sociais, partidos e sindicatos que se mobilizam para transformar as condições de vida e de trabalho da classe trabalhadora. A publicação desses textos, que – após a edição dos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844 em 1930 – poderíamos chamar de “segunda geração” dos escritos de Marx sobre a alienação, não apenas forneceu uma base teórica coerente para os novos estudos do fenômeno, mas também uma plataforma ideológica anticapitalista a serviço do extraordinário movimento social e político que então varreu o mundo. A alienação deixou os livros de filósofos e salas de conferências universitárias, tomou conta das ruas e locais de trabalho e tornou-se uma crítica geral da sociedade burguesa.

Nas últimas décadas, o mundo do trabalho sofreu uma derrota histórica e a esquerda ainda enfrenta uma crise profunda. Com o neoliberalismo, voltamos a um sistema de exploração que em muitos aspectos é semelhante ao do século XIX. Claro, Marx não tem uma resposta para todos os nossos problemas, mas ele fez as perguntas essenciais. Em uma sociedade dominada pelo mercado e pela competição entre os indivíduos, a redescoberta do conceito de alienação de Marx fornece uma ferramenta crítica indispensável, tanto para compreender o passado quanto para criticar o capitalismo contemporâneo.

 

Tradução: Eleutério Prado

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Novas caracterizações de Marx após a Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA2)

O ressurgimento de Marx
Há mais de uma década, jornais e periódicos prestigiosos que contam com um amplo público leitor têm descrito Karl Marx como um teórico previdente, cuja atualidade é constantemente confirmada. Muitos autores com visões progressistas sustentam que suas ideias continuam indispensáveis para qualquer um que acredita ser necessário construir uma alternativa ao capitalismo. Em quase todo lugar, ele é tema de cursos universitários e de conferências internacionais. Seus escritos, reimpressos ou publicados em novas edições, têm reaparecido nas prateleiras das livrarias, e o estudo de sua obra, após vinte anos ou mais de negligência, tem ganhado impulso crescente. Os anos de 2017 e 2018 trouxeram maior intensidade a esse “ressurgimento de Marx”[1], graças a muitas iniciativas ao redor do mundo ligadas ao 150° aniversário da publicação de O capital e o bicentenário do nascimento de Marx.

As ideias de Marx têm mudado o mundo. Apesar da ratificação de suas teorias, tornadas ideologias dominantes e doutrinas de Estado para uma parte considerável da humanidade no século XX, não existe edição completa de todas as suas obras e manuscritos. O principal motivo para isso está no caráter incompleto dos trabalhos de Marx: as obras que ele publicou somam consideravelmente menos que o número total de projetos deixados inacabados, para não falar do imenso Nachlass [espólio] de notas relativas a suas infinitas pesquisas. Marx deixou, então, muito mais manuscritos que aqueles enviados aos tipógrafos. A incompletude foi uma parte inseparável de sua vida: a pobreza por vezes opressiva na qual ele viveu, assim como seus constantes problemas de saúde, se somaram às suas aflições diárias; seu método rigoroso e sua autocrítica impiedosa aumentaram as dificuldades de muitos de seus empreendimentos. Além disso, sua paixão pelo conhecimento permaneceu inalterada ao longo do tempo e sempre o levou a novos estudos. No entanto, seus incessantes trabalhos teriam as consequências teóricas mais extraordinárias para o futuro.

A retomada da publicação da Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA2), a edição histórico-crítica das obras completas de Marx e Friedrich Engels, em 1998, foi de particular relevância para a reavaliação das realizações de Marx. Já vieram a lume mais vinte e oito volumes (quarenta[2] foram publicados entre 1975 e 1989) e outros estão em preparação. A MEGA2 está organizada em quatro seções: (1) todas as obras, artigos e esboços escritos por Marx e Engels (com exceção de O capital); (2) O capital e todos seus materiais preparatórios; (3) a correspondência, que consiste em 4.000 cartas escritas por Marx e Engels e 10.000 escritas a eles por outros, um grande número das quais publicado pela primeira vez na MEGA2; e (4) os excertos, anotações e notas marginais. Essa quarta seção atesta os trabalhos verdadeiramente enciclopédicos de Marx: desde seu tempo na universidade, era seu hábito compilar estratos dos livros que lia[3], entremeando-os frequentemente com reflexões que esses estratos lhe sugeriam. O legado literário de Marx contém cerca de duzentos cadernos de notas. Eles são essenciais para a compreensão da gênese de sua teoria e daqueles elementos que fora incapaz de desenvolver do modo que gostaria. Os excertos preservados, que cobrem o longo intervalo de tempo entre 1838 e 1882, estão escritos em oito idiomas (alemão, grego antigo, latim, francês, inglês, italiano, espanhol e russo) e se referem às mais variadas disciplinas. Eles foram tomados de obras de filosofia, história da arte, religião, política, direito, literatura, história, economia política, relações internacionais, tecnologia, matemática, fisiologia, geologia, mineralogia, agronomia, antropologia, química e física – incluindo não apenas livros, jornais e artigos de periódicos, mas também atas parlamentares, bem como estatísticas governamentais e relatórios. Essa imensa reserva de conhecimento, da qual muito foi publicado em anos recentes ou ainda aguarda ser impresso, foi o canteiro de obras para a teoria crítica de Marx e a MEGA2 deu acesso inédito a ele[4].

Esses materiais inestimáveis – muitos disponíveis apenas em alemão e, portanto, confinados em pequenos círculos de pesquisadores – nos mostram um autor muito diferente daquele que vários críticos, ou autodenominados discípulos, apresentaram por tanto tempo. De fato, as novas aquisições textuais presentes na MEGA2 possibilitam dizer que, dos clássicos do pensamento político, econômico e filosófico, Marx é o autor cujo perfil mais mudou nas décadas iniciais do século XXI. A nova configuração política decorrente da implosão da União Soviética também contribuiu para essa nova percepção, pois o fim do marxismo-leninismo finalmente libertou a obra de Marx dos grilhões de uma ideologia que dista anos-luz de sua concepção de sociedade.

Pesquisas recentes têm refutado as várias abordagens que reduzem a concepção marxiana de sociedade comunista ao desenvolvimento superior das forças produtivas. Por exemplo, tem sido mostrada a importância que Marx atribuiu à questão ecológica: ele denunciou repetidas vezes o fato de que a expansão do modo capitalista de produção aumenta não apenas o roubo do trabalho dos trabalhadores, mas também a pilhagem dos recursos naturais. Marx se aprofundou em várias outras questões que, embora frequentemente subestimadas, ou até mesmo ignoradas, por estudiosos de sua obra, estão ganhando importância crucial para a agenda política de nosso tempo. Entre essas questões estão a liberdade individual nas esferas econômica e política, emancipação de gênero, a crítica do nacionalismo, o potencial emancipatório da tecnologia, e formas de propriedade coletiva não controladas pelo Estado. Assim, trinta anos após a queda do muro de Berlim, tornou-se possível ler um Marx muito diferente do teórico dogmático, economicista e eurocêntrico que circulou por tanto tempo entre nós.

Novas descobertas sobre a gênese da concepção materialista da história
Em fevereiro de 1845, após intensos 15 meses em Paris que foram cruciais para sua formação política, Marx foi obrigado a mudar para Bruxelas, onde foi autorizado a residir sob a condição de que ele “não publique nada sobre a política atual”[5]. Durante os três anos que passou na capital belga, ele prosseguiu de modo profícuo com seus estudos de economia política e concebeu a ideia de escrever, junto com Engels, Joseph Weydemeyer e Moses Hess, uma “crítica da moderna filosofia alemã, tal como exposta pelos seus representantes Ludwig Feuerbach, Bruno Bauer e Max Stirner, e do socialismo alemão, tal como exposto por seus vários profetas”[6]. O texto resultante, postumamente publicado sob o título A ideologia alemã, tinha um duplo objetivo: combater as últimas formas do neo-hegelianismo na Alemanha, e então, como escreveu Marx ao editor Carl Wilhelm Julius Leske, “preparar o público para o ponto de vista adotado em minha Economia, que é diametralmente oposto à ciência alemã, passada e presente”[7]. Esse manuscrito, sobre o qual ele trabalhou até junho de 1846, nunca foi terminado, mas o auxiliou a elaborar de modo mais nítido, ainda que não em uma forma definitiva, aquilo que, quarenta anos depois, Engels definiu para o público mais amplo como “a concepção materialista da história”[8].

A primeira edição de A ideologia alemã, publicada em 1932, bem como todas as versões posteriores que apenas incorporaram pequenas modificações, foram enviadas às gráficas com a aparência de um livro completo. Em particular, os editores desse manuscrito de fato inacabado criaram a falsa impressão de que A ideologia alemã incluía um capítulo inicial essencial sobre Feuerbach, no qual Marx e Engels expunham exaustivamente as leis do “materialismo histórico” (um termo nunca usado por Marx). De acordo com Althusser, esse foi o lugar onde eles conceituaram “uma inequívoca ruptura epistemológica” com seus escritos anteriores (Althusser, s/d, p. 33). A ideologia alemã logo se tornou um dos mais importantes textos filosóficos do século XX. De acordo com Henri Lefebvre, ele expôs as “teses fundamentais do materialismo histórico” (Lefebvre, 1968, p. 71). Maximilien Rubel defendia que esse “manuscrito contém a demonstração mais elaborada do conceito crítico e materialista de história” (Rubel, 1980, p. 13). David McLellan foi igualmente incisivo em sustentar que ele “continha a mais detalhada consideração de Marx acerca de sua concepção materialista da história” (McLellan, 1975, p. 37).

Graças ao volume I/5 da MEGA2, “Karl Marx – Friedrich Engels, Deutsche Ideologie. Manuskripte und Drucke (1845-1847)”[9], muitas dessas reivindicações podem agora ser suavizadas e A ideologia alemã, restituída à sua incompletude original. Essa edição – que compreende 17 manuscritos com um total de 700 páginas mais o aparato crítico de 1200 páginas, fornecendo variações e correções autorais e indicando a paternidade de cada seção – estabelece de uma vez por todas o caráter fragmentário do texto[10]. A falácia do “comunismo  científico” característica do século XX e todas as instrumentalizações de A ideologia alemã recordam um trecho a ser encontrado no próprio texto, pois que a sua crítica convincente da filosofia alemã dos tempos de Marx ressoa, também, uma advertência amarga contra futuras tendências exegéticas: “Havia uma mistificação não apenas em suas respostas, mas também em suas perguntas”[11].

No mesmo período, o jovem revolucionário nascido em Trier expandiu os estudos que havia iniciado em Paris. Ele passou os meses de julho e agosto de 1845 em Manchester a mergulhar na vasta literatura econômica de língua inglesa e a compilar nove cadernos de estratos (os assim chamados Cadernos de Manchester), majoritariamente a partir de manuais de economia política e livros sobre história econômica. O volume IV/4 da MEGA2, publicado em 1988, contém os cinco primeiros desses cadernos, junto com três cadernos de anotações de Engels do mesmo período em Manchester[12]. O volume IV/5, “Karl Marx – Friedrich Engels, Exzerpte und Notizen. Juli 1845 bis Dezember 1850”[13], completa essa série de textos e disponibiliza aos pesquisadores suas partes antes não publicadas. Ele inclui os cadernos 6, 7, 8 e 9, que contém os excertos marxianos de 16 obras de economia política. O mais considerável desse grupo adveio de Labour’s wrong and Labour’s Remedy [Os males do trabalho e seu remédio] (1839), de John Francis Bray, e de quatro textos de Robert Owen, em particular de seu Book of the New Moral World [Livro do novo mundo moral] (1840-1844), todos os quais evidenciam o grande interesse de Marx à época pelo socialismo inglês e seu profundo respeito por Owen, um autor que muitos marxistas têm precipitadamente descartado como “utópico”. O volume termina com cerca de vinte páginas escritas por Marx entre 1846 e 1850, além de algumas notas de estudo de Engels do mesmo período.

Esses estudos sobre teoria socialista e economia política não eram um entrave para o habitual engajamento político de Marx e Engels. As mais de 800 páginas do recentemente publicado volume I/7, “Karl Marx – Friedrich Engels, Werke, Artikel, Entwürfe. Februar bis Oktober 1848”[14], permite-nos estimar a escala disso em 1848, um dos anos mais desgastantes em termos de atividade política e jornalística das vidas dos autores do Manifesto do partido comunista. Após um movimento revolucionário de extensão e intensidade inéditas mergulhar a ordem política e social da Europa continental em uma crise, os governos vigentes tomaram todas as contramedidas possíveis para pôr um fim às insurreições. O próprio Marx sofreu as consequências e foi expulso da Bélgica em março daquele ano. Contudo, uma república acabara de ser proclamada na França, e Ferdinand Flocon, um ministro do governo provisório, convidou Marx a retornar a Paris: “Caro e bravo Marx, (…) a tirania o baniu, mas a França livre reabrirá suas portas para ti”. Naturalmente, Marx colocou de lado seus estudos sobre economia política e assumiu a atividade jornalística em apoio à revolução, ajudando, assim, no traçado de um rumo político apropriado. Depois de um breve período em Paris, ele mudou, em abril, para a Renânia e, dois meses mais tarde, começou a editar a Neue Rheinische Zeitung [Nova Gazeta Renana], que, nesse meio tempo, havia sido fundada em Colônia. Uma campanha intensa em suas colunas deu suporte à causa dos insurgentes e incitou o proletariado a promover “a revolução social e republicana”[15].

Quase todos os artigos presentes na Neue Rheinische Zeitung foram publicados de modo anônimo. Um dos méritos desse volume é ter atribuído corretamente a autoria de 36 textos a Marx ou a Engels, enquanto coletâneas anteriores haviam nos deixado em dúvida quanto a quem escreveu qual peça. De um total de 275 artigos, 125 são integralmente impressos aqui pela primeira vez em uma edição das obras de Marx e Engels. Um apêndice apresenta, ainda, 16 documentos interessantes, contendo relatos de algumas de suas intervenções nas conferências da Liga dos Comunistas, nas assembleias da Sociedade Democrática de Colônia e na Associação de Viena. Quem tiver interesse pela atividade política e jornalística de Marx durante 1848, o “ano da revolução”, encontrará aqui um material muito valioso para aprofundar seu conhecimento.

O capital: a crítica inacabada
O movimento revolucionário que se ergueu por toda a Europa em 1848 foi derrotado dentro de um curto espaço de tempo e, em 1849, após duas ordens de expulsão da Prússia e da França, Marx não teve outra opção além de atravessar o Canal da Mancha. Ele permaneceria na Inglaterra como uma pessoa exilada e apátrida pelo resto de sua vida, mas a reação europeia não poderia tê-lo confinado em um lugar melhor para escrever sua crítica da economia política. Àquela época, Londres era o principal centro econômico e financeiro do mundo, o “demiurgo do cosmo burguês”[16], e, portanto, o lugar mais favorável a partir do qual se podia observar os últimos desenvolvimentos econômicos da sociedade capitalista. Ele também se tornou correspondente do New-York Tribune, o jornal com maior circulação nos Estados Unidos da América.

Marx esperou por muitos anos a eclosão de uma nova crise e, quando ela se materializou em 1857, dedicou muito do seu tempo à análise de suas características principais. O volume I/16, “Karl Marx – Friedrich Engels, Artikel Oktober 1857 bis Dezember 1858”[17], inclui 84 artigos que ele publicou entre o outono de 1857 e o fim de 1858 no New-York Tribune, dentre os quais aqueles em que expressa suas primeiras reações ao público financeiro de 1857. Não obstante o fato de que o diário americano publicava frequentemente editoriais não assinados, a pesquisa para esse novo volume da MEGA2 possibilitou atribuir mais dois artigos a Marx, bem como incluir quatro artigos que foram substancialmente modificados pelos editores e outros três cuja origem permanece incerta.

Movido por uma desesperada necessidade de melhorar sua situação econômica, Marx também ingressou no comitê editorial do The New American Cyclopædia e concordou em redigir uma certa quantidade de verbetes para esse projeto (o volume I/16 contém 39 deles). Mesmo que o pagamento de dois dólares por página fosse muito baixo, ainda assim era uma receita que ingressava em suas desastrosas finanças. Além disso, ele confiou a maioria do trabalho a Engels, de modo que pudesse dedicar mais tempo aos seus escritos econômicos.

Nesse período, o trabalho de Marx foi notável e abrangente. Paralelamente a seu compromisso jornalístico, ele preencheu, entre agosto de 1857 e maio de 1858, os oito cadernos celebremente conhecidos como Grundrisse. Mas ele também colocou a si mesmo a extenuante tarefa de um estudo analítico da primeira crise econômica mundial. O volume IV/4, “Karl Marx, Exzerpte, Zeitungsausschnitte und Notizen zur Weltwirtschaftskrise (Krisenhefte). November 1857 bis Februar 1858”[18], contribui de modo decisivo para nosso conhecimento acerca de um dos intervalos mais profícuos da produção teórica de Marx. Ele descreveu seu surto febril de atividade em uma carta a Engels de dezembro de 1857:

Tenho trabalhado demais, geralmente até às 4 da manhã. O trabalho é duplo: 1. A elaboração das linhas fundamentais [Grundrisse] da economia política. (Em favor do público, é absolutamente essencial adentrar a matéria até o fundo, assim como para mim, individualmente, é absolutamente essencial se livrar desse pesadelo.) 2. A presente crise. Além dos artigos para a [New-York] Tribune, o que faço é apenas registrá-la, o que, entretanto, toma um tempo considerável. Penso que em algum momento da primavera devemos escrever juntos um panfleto sobre o caso, como um lembrete ao público alemão de que continuamos lá como sempre, e sempre os mesmos[19].

Portanto, o plano de Marx era trabalhar simultaneamente em dois projetos: um trabalho teórico sobre a crítica do modo de produção capitalista, e um livro mais estritamente atual sobre as vicissitudes da crise em curso. Essa é a razão pela qual Marx, diferentemente do que ocorre em volumes anteriores similares, não compila, nos assim chamados Cadernos sobre a Crise, estratos de obras de outros economistas; antes, coletou uma grande quantidade de boletins de notícias sobre os maiores colapsos bancários, sobre as variações nos preços do mercado acionário, mudanças nos padrões dos fluxos comerciais, taxas de desemprego e produção industrial. A atenção particular dispensada a essa última distinguiu sua análise em relação àquela de muitos outros que atribuíam às crises a concessão deficiente de crédito e o aumento nos fenômenos especulativos. Marx dividiu suas notas em três cadernos distintos. No primeiro e mais curto caderno, intitulado “1857 France”, ele coletou dados sobre a situação do comércio francês e as principais medidas tomadas pelo Banco da França. O segundo, o “Livro sobre a Crise de 1857”, tinha quase o dobro do tamanho do primeiro e lidava principalmente com o Reino Unido e o mercado monetário. Temas similares foram tratados no terceiro caderno, o “Livro sobre a Crise Comercial”. Pouco maior que o segundo, Marx anotara nesse caderno dados e notícias sobre relações industriais, a produção de matérias-primas e o mercado de trabalho.

O trabalho de Marx foi, como sempre, rigoroso: ele copiou de mais de uma dúzia de periódicos e jornais, em ordem cronológica, as partes mais interessantes de vários artigos e qualquer outra informação que ele pudesse usar para condensar aquilo que estava acontecendo. Sua principal fonte foi o semanário The Economist, de onde extraiu cerca de metade de suas notas, embora também consultasse frequentemente a Morning Star, The Manchester Guardian e The Times. Todos os estratos foram compilados em inglês. Nesses cadernos, Marx não se deteve na transcrição dos principais boletins de notícias a respeito dos Estados Unidos e do Reino Unido. Ele também rastreou os eventos mais significantes em outros países europeus – em particular França, Alemanha, Áustria, Itália e Espanha – e interessou-se vigorosamente por outras partes do mundo, em especial Índia e China, o Extremo Oriente, Egito e, até mesmo, Brasil e Austrália.

Com o passar das semanas, Marx desistiu da ideia de publicar um livro sobre a crise e concentrou todas as suas energias em seu trabalho teórico, a crítica da economia política, que, do seu ponto de vista, não poderia admitir mais nenhum atraso. Ainda assim, os Cadernos sobre a crise permanecem particularmente úteis para a refutação de uma falsa ideia sobre os principais interesses de Marx nesse período. Em uma carta a Engels do começo de 1858, ele escreveu que, “quanto ao método”, lançar mão da “Lógica de Hegel foi de grande utilidade” para seu trabalho, e que, além disso, queria destacar seu “aspecto racional”[20]. Com base nisso, alguns intérpretes da obra de Marx têm concluído que, ao escrever os Grundrisse, ele gastou um tempo considerável estudando a filosofia hegeliana. Mas a publicação do volume IV/14 deixa muito claro que sua principal preocupação à época era com a análise empírica dos eventos ligados à grande crise econômica que há tanto tempo estava prevendo.

Os esforços infatigáveis de Marx para completar sua “crítica da economia política” são, ainda, o tema principal do volume III/12, “Karl Marx – Friedrich Engels, Briefwechsel. Januar 1862 bis September 1864”[21], que contém sua correspondência do começo de 1862 até a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores. Das 425 cartas preservadas, 112 são correspondências entre Marx e Engels, enquanto 35 foram escritas por eles para terceiros, e 278 remetidas a eles por terceiros (sendo 227 cartas desse grupo publicadas aqui pela primeira vez). A inclusão das últimas – a diferença mais significante em relação a todas as edições anteriores – constitui um verdadeiro tesouro para o leitor interessado, dado que fornece uma gama de novas informações sobre eventos e teorias que Marx e Engels aprenderam com mulheres e homens com quem compartilhavam um compromisso político.

Como todos os outros volumes de correspondência da MEGA2, esse também termina com um registro de cartas escritas por - ou endereçadas a - Marx e Engels que não deixaram mais do que vestígios atestando sua existência. Elas chegam a um total de 125 cartas, quase um quarto do número que sobreviveu, e incluem 57 escritas por Marx. Nesses casos, mesmo o pesquisador mais exigente nada pode fazer além de especular sobre várias hipóteses conjecturais.

Entre os principais pontos de discussão presentes na correspondência de Marx no começo dos anos 1860 estavam a guerra civil norte-americana, a revolta polonesa contra a ocupação russa, e o nascimento do Partido Social-Democrata da Alemanha inspirado pelos princípios de Ferdinand Lassalle. No entanto, um tema constantemente recorrente era sua luta para progredir na escrita de O capital.

Nesse período, Marx se lançou em uma nova área de pesquisa: as Teorias sobre o mais-valor. Em mais de dez cadernos, ele dissecou minuciosamente a abordagem dos maiores economistas que lhe precederam, sendo sua ideia básica a de que “todos os economistas compartilham o erro de examinar o mais-valor não como tal, não em sua forma pura, mas nas formas particulares do lucro e da renda”[22]. Entrementes, a situação econômica de Marx continuava desesperadora. Em junho de 1862 escreveu a Engels: “Todo dia minha esposa diz desejar que ela e as crianças estivessem seguras em seus túmulos, e realmente não posso culpá-la, pois as humilhações, tormentos e inquietações que se passa em tal situação são, de fato, indescritíveis”. A situação era tão extrema que Jenny decidiu vender alguns livros da biblioteca pessoal de seu marido – ainda que ela não tenha conseguido encontrar ninguém que quisesse comprá-los. Contudo, Marx conseguiu “trabalhar duro” e expressou uma nota de satisfação a Engels: “estranho dizer, mas minha massa cinzenta está funcionando melhor em meio à pobreza circundante do que funcionava há anos”[23]. Em setembro, Marx escreveu a Engels que poderia conseguir um emprego “em um escritório ferroviário” no ano novo[24]. Em dezembro, repetiu a seu amigo Ludwig Kugelmann que as coisas haviam se tornado tão desesperadoras que ele tinha “decidido se tornar um ‘homem prático’”; nada deu certo, no entanto. Marx relatou com seu típico sarcasmo: “Felizmente – ou talvez teria que dizer infelizmente? – não consegui o cargo por conta da minha caligrafia ruim”[25].

Paralelamente às tensões financeiras, Marx sofreu por demais com problemas de saúde. Não obstante, do verão de 1863 a dezembro de 1865, ele embarcou na continuidade da edição das várias partes nas quais ele havia decidido subdividir O capital. Ao fim e ao cabo, ele conseguiu elaborar o primeiro esboço do Livro I; o único manuscrito do Livro III, no qual redigira sua única consideração acerca do processo completo da produção capitalista; e uma versão inicial do Livro II, contendo a primeira apresentação geral do processo de circulação do capital.

O volume II/11 da MEGA2, “Karl Marx, Manuskripte zum zweiten Buch des ‘Kapitals’ 1868 bis 1881”[26], contém todos os manuscritos finais relativos ao Livro II de O capital que Marx esboçou entre 1868 e 1881. Nove desses dez manuscritos não haviam sido publicados até então. Em outubro de 1867, Marx retomou o Livro II de O capital, mas vários problemas de saúde forçaram-no a outra súbita interrupção. Alguns meses depois, quando foi capaz de prosseguir com o trabalho, já haviam se passado cerca de três anos desde a última versão que ele escrevera. Marx finalizou os primeiros dois capítulos durante a primavera de 1868, além de um grupo de manuscritos preparatórios – sobre a relação entre mais-valor e taxa de lucro, a lei da taxa de lucro, e as metamorfoses do capital – que o ocuparam até o fim do ano. A nova versão do terceiro capítulo foi terminada no decurso dos dois anos seguintes. O volume II/11 se encerra com uma série de textos curtos que o já envelhecido Marx escreveu entre fevereiro de 1877 e a primavera de 1881.

Os esboços do Livro II de O capital, que foram deixados inconclusivos, apresentam uma série de problemas teóricos. No entanto, a versão final do Livro II foi publicada por Engels em 1885 e aparece, agora, no volume II/13 da MEGA2 intitulado “Karl Marx, Das Kapital. Kritik der politischen Ökonomie. Zweiter Band. Herausgegeben von Friedrich Engels. Hamburg 1885”[27].

Por fim, o volume II/4.3, “Karl Marx, Ökonomische Manuskripte 1863-1868. Teil 3”[28], completa a segunda seção da MEGA². Esse volume, que dá sequência aos prévios II/4.1 e II/4.2[29], contém 15 manuscritos concebidos entre o outono de 1867 e o fim de 1868, os quais permaneceram inéditos até então. Sete desses manuscritos são fragmentos de esboços do Livro III de O capital; apresentam um caráter altamente fragmentário e Marx nunca conseguiu atualizá-los de modo a refletir o progresso de sua pesquisa. Outros três manuscritos correspondem ao Livro II, enquanto os cinco remanescentes lidam com questões concernentes à interdependência entre os Livros II e III e incluem excertos comentados retirados das obras de Adam Smith e Thomas Malthus. Os últimos são particularmente instigantes para aqueles economistas interessados na teoria marxiana da taxa de lucro e em suas ideias sobre a teoria do preço. Estudos filológicos ligados à preparação desse volume também mostraram que o manuscrito original do Livro I de O capital (do qual o “Capítulo seis. Resultados do processo imediato de produção” era considerado a única parte preservada) data, na verdade, do período de 1863-1864, e que Marx o cortou e colou na cópia que ele preparava para publicação[30].

Com a publicação do volume II/4.3 da MEGA2 todos os textos complementares relacionados a O capital se tornaram disponíveis: da famosa “Introdução”, escrita em julho de 1857 durante uma das maiores quebras na história do capitalismo, até os últimos fragmentos redigidos na primavera de 1881. Estamos falando de 15 volumes, mais outros tantos tomos vultosos que constituem um formidável aparato crítico para o texto principal. Eles incluem todos os manuscritos do fim dos anos 1850 e início dos 1860, a primeira versão de O capital publicada em 1867 (partes das quais seriam modificadas em edições subsequentes), a tradução francesa revisada por Marx que apareceu entre 1872 e 1875, e todas as alterações feitas por Engels nos manuscritos dos Livros II e III. Junto a isso, a coleção clássica dos três livros de O capital aparece positivamente diminuta. Não é exagero dizer que só agora podemos compreender completamente os méritos, limites e incompletudes da magnum opus de Marx.

O trabalho editorial que Engels levou a cabo após a morte de seu amigo, isto é, o de preparar as partes não terminadas de O capital para publicação, foi extremamente complexo. Os vários manuscritos, esboços e fragmentos dos Livros II e III, escritos entre 1864 e 1881, correspondem a aproximadamente 2.350 páginas da MEGA2. Engels publicou com êxito o Livro II em 1885 e o III, em 1894. Contudo, é preciso ter em mente que esses dois livros surgiram da reconstrução de textos incompletos, frequentemente formados por material heterogêneo. Eles foram escritos em momentos distintos e, assim, incluem versões diferentes, e por vezes contraditórias, das ideias de Marx.

A Internacional, as pesquisas de Marx após O capital, e os trabalhos finais de Engels
Imediatamente após a publicação de O capital, Marx retomou a atividade militante e assumiu um compromisso permanente com o trabalho da Associação Internacional dos Trabalhadores. Essa fase de sua biografia política está documentada no volume I/21, “Karl Marx – Friedrich Engels, Werke, Artikel, Entwürfe. September 1867 bis März 1871”[31], que contém mais de 150 textos e documentos do período de 1867-1871, bem como as atas de 169 reuniões do Conselho Geral em Londres nas quais Marx interveio, atas essas que foram omitidas por todas as edições anteriores dos trabalhos de Marx e Engels[32]. Enquanto tal, esse volume provê material de pesquisa para anos cruciais da vida da Internacional.

Desde os primeiros dias de 1864 as ideias de Proudhon eram hegemônicas na França, na Suíça francófona e na Bélgica e os mutualistas – nome pelo qual seus seguidores eram conhecidos – eram a ala mais moderada da Internacional. Resolutamente hostis à intervenção estatal em qualquer campo, eles se opunham à socialização da terra e dos meios de produção, bem como a qualquer uso do instrumento de greve. Os textos publicados nesse volume mostram como Marx teve um papel central na longa luta para reduzir a influência de Proudhon na Internacional. Eles incluem documentos relacionados à preparação dos congressos de Bruxelas (1868) e da Basileia (1869), onde a Internacional fez seu primeiro pronunciamento explícito sobre a socialização dos meios de produção por autoridades estatais e a favor do direito de abolir a propriedade individual sobre a terra. Isso marcou uma vitória importante para Marx e a primeira aparição de princípios socialistas no programa político de uma importante organização de trabalhadores.

Além do programa político da Associação Internacional dos Trabalhadores, o fim dos anos 1860 e início dos 1870 foram ricos em conflitos sociais. Muitos trabalhadores que participavam de ações de protesto decidiram contactar a Internacional, cuja reputação se espalhava cada vez mais, a fim de pedir apoio a suas lutas. Nesse período surgiram, ainda, algumas seções de trabalhadores irlandeses na Inglaterra. Marx estava preocupado com a divisão que o nacionalismo brutal havia produzido nas fileiras do proletariado e, em um documento que veio a ser conhecido como “Confidential Communication”, ele enfatizou que “a burguesia inglesa não apenas explorou a miséria irlandesa para deteriorar a situação da classe trabalhadora na Inglaterra por meio da imigração forçada de irlandeses pobres”; ela também se provou capaz de dividir os trabalhadores “em dois campos hostis”[33]. No seu modo de entender, “uma nação que escraviza outra forja suas próprias correntes”[34] e a luta de classes não poderia ignorar um assunto tão decisivo. Outro tema importante no volume, tratado com particular atenção nos escritos de Engels para The Pall Mall Gazette, foi a oposição à Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871.

O trabalho de Marx na Associação Internacional dos Trabalhadores perdurou entre 1864 e 1872, e o novíssimo volume IV/18, “Karl Marx – Friedrich Engels, Exzerpte und Notizen. Februar 1864 bis Oktober 1868, November 1869, März, April, Juni 1870, Dezember 1872”[35], fornece a parte até então desconhecida dos estudos que ele realizara durante esses anos. A pesquisa de Marx ocorreu tanto próximo à impressão do Livro I de O capital quanto após 1867, enquanto preparava os livros II e III para publicação. Esse volume da MEGA² consiste em cinco livros de excertos e quatro cadernos com resumos de mais de uma centena de obras publicadas, relatórios de debates parlamentares e artigos jornalísticos. A parte mais considerável e teoricamente importante desses materiais envolve a pesquisa de Marx sobre agricultura, sendo, aqui, seus principais interesses a renda da terra, as ciências naturais, as condições agrárias em vários países europeus e nos Estados Unidos, Rússia, Japão e Índia, e os sistemas de posse da terra em sociedades pré-capitalistas.

Marx leu atentamente Die Chemie in ihrer Anwendung auf Agricultur und Physiologie (1843) [A química em sua aplicação na agricultura e fisiologia], um livro escrito pelo cientista alemão Justus von Liebig e que ele considerava essencial, uma vez que permitiu-lhe modificar sua crença de que as descobertas científicas da agricultura moderna haviam resolvido o problema da regeneração do solo. Desde então, ele apresentou um interesse cada vez mais vivo naquilo que hoje chamaríamos de “ecologia”, em particular na erosão do solo e no desmatamento. Dentre os outros livros que impressionaram Marx fortemente nesse período, também deveria ser atribuído um lugar especial à Einleitung zur Geschichte der Mark-, Hof-, Dorf-, und Stadt-Verfassung und der öffentlichen Gewalt (1854) [Introdução à história da constituição da marca, sítio, povoado e cidade e da autoridade pública], escrito pelo teórico político e historiador jurídico Georg Ludwig von Maurer. Em uma carta a Engels, ele disse que achou os livros de Maurer “extremamente relevantes”, uma vez que eles abordaram de um jeito completamente diferente “não apenas a era primitiva, mas também todo o desenvolvimento posterior das cidades imperiais livres, do privilégio da posse dos proprietários rurais, da autoridade pública, e a luta entre o campesinato livre e a servidão”[36]. Ademais, Marx endossou a demonstração de Maurer de que a propriedade privada da terra pertencia a um período histórico preciso e não poderia ser considerada como uma característica natural da civilização humana. Por fim, Marx estudou em profundidade três obras alemãs escritas por Karl Fraas: Klima und Pflanzenwelt in der Zeit. Ein Beitrag zur Geschichte beider (1847) [Clima e reino vegetal no tempo. Uma contribuição para a história de ambas], Geschichte der Landwirtschaft (1852) [História da agricultura] e Die Natur der Landwirtschaft (1857) [A natureza da agricultura]. Ele achou a primeira dessas obras “muito interessante”, especialmente ao se referir à parte em que Fraas demonstra que o “clima e a flora mudam historicamente”. Marx o descreveu como um “darwinista antes de Darwin”, que admitiu que “mesmo as espécies têm se desenvolvido historicamente”. Ele foi surpreendido, ainda, pelas considerações ecológicas de Fraas e sua preocupação correlata de que “o cultivo – quando prossegue em crescimento natural e não é controlado conscientemente (como um burguês, naturalmente ele não alcança esse ponto) – deixa desertos atrás de si”. Marx poderia detectar nisso tudo “uma tendência socialista inconsciente”[37].

Após a publicação dos assim chamados Cadernos sobre agricultura, pode-se argumentar com maior grau de certeza que, se Marx tivesse tido forças para finalizar os últimos dois livros de O capital, a ecologia teria tido um papel muito mais importante em seu pensamento[38]. Evidentemente, a crítica ecológica de Marx era anticapitalista em seu enfoque e, para além das esperanças que ele colocava no progresso científico, envolvia o questionamento do modo de produção como um todo.

A magnitude dos estudos marxianos sobre as ciências naturais se tornou completamente visível desde a publicação do volume IV/26, “Karl Marx, Exzerpte und Notizen zur Geologie, Mineralogie und Agrikulturchemie. März bis September 1878”[39]. Na primavera e no verão de 1878, a geologia, mineralogia e agroquímica eram mais centrais para os estudos de Marx do que a economia política. Ele compilou estratos de uma série de livros, incluindo The natural history of the raw materials of commerce (1872) [A história natural das matérias-primas do comércio], de John Yeats; Das Buch der Natur (1848) [O livro da natureza], do químico Friedrich Schoedler; e Elements of agricultural chemistry and geology (1858) [Elementos de química agrária e geologia], do químico e mineralogista James Johnston. Entre junho e início de setembro, atracou-se com The student’s manual of geology (1857) [Manual do estudante de geologia] de Joseph Jukes[40], do qual copiou o maior número de estratos. O foco principal desses estratos são questões de metodologia científica, os estágios do desenvolvimento da geologia como disciplina, e sua utilidade para a produção industrial e agrária.

A assimilação de tais questões despertou em Marx a necessidade de desenvolver suas ideias a respeito do lucro, algo com o qual havia se ocupado contínua e intensivamente em meados dos anos 1860, quando escreveu o esboço da parte sobre “A transformação do excedente do lucro em renda da terra”, constituinte do Livro III de O capital. Alguns dos resumos de textos sobre ciências naturais tinham o objetivo de lançar uma luz mais intensa sobre o material em estudo. Mas outros excertos, mais voltados a aspectos teóricos, eram destinados à conclusão do Livro III. Engels recordou mais tarde que Marx “vasculhou (…) a pré-história, agronomia, propriedade russa e americana da terra, geologia etc., para desenvolver a seção sobre a renda da terra no Livro III de O capital em uma profundidade (…) nunca tentada”[41]. Esses volumes da MEGA2 são ainda mais importantes porque servem para desacreditar o mito, repetido em uma série de biografias e estudos sobre Marx, de que após O capital ele havia satisfeito sua curiosidade intelectual e desistido completamente de novos estudos e pesquisas[42].

Por fim, três livros da MEGA2 publicados na última década dizem respeito ao último Engels. O volume I/30, “Friedrich Engels, Werke, Artikel, Entwürfe. Mai 1883 bis September 1886”[43], contém 43 textos escritos por ele nos três anos que se passaram após a morte de Marx. Dos 29 textos mais importantes dentre esses, 17 consistem em peças jornalísticas que apareceram em alguns dos principais jornais da imprensa proletária europeia. Embora nesse período estivesse especialmente absorvido pela edição dos manuscritos incompletos de O capital deixados por Marx, Engels não se furtou de intervir em uma série de questões políticas e teóricas candentes. Lançou, ainda, uma obra polêmica que mirava o reaparecimento do idealismo nos círculos acadêmicos alemães, a saber, Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã (1886). Os outros 14 textos, publicados nesse volume como um apêndice, são algumas das traduções do próprio Engels e uma série de artigos assinados por outros autores em colaboração com ele.

A MEGA2 também publicou um novo conjunto de correspondências de Engels. O volume III/30, “Friedrich Engels, Briefwechsel. Oktober 1889 bis November 1890”[44], apresenta 406 cartas preservadas do total de 500 ou mais que ele escreveu entre outubro de 1889 e novembro de 1890. Além do mais, a inclusão inédita de cartas de outros correspondentes possibilita apreciar de modo mais profundo a contribuição de Engels para o crescimento dos partidos proletários na Alemanha, na França e no Reino Unido, no que diz respeito a toda uma gama de questões teóricas e organizacionais. Alguns dos itens em questão se referem ao nascimento da Segunda Internacional, cujo congresso de fundação ocorreu em 14 de julho de 1889, e aos muitos debates nela em curso.

Finalmente, o volume I/32, “Friedrich Engels, Werke, Artikel, Entwürfe. März 1891 bis August 1895”[45], reúne escritos dos últimos quatro anos e meio da vida de Engels. Há uma série de peças jornalísticas escritas para os maiores jornais socialistas da época, incluindo Die Neue Zeit, Le Socialiste e Critica Sociale, bem como prefácios e posfácios a várias reimpressões das obras de Marx e Engels, transcrições de discursos, entrevistas e saudações a congressos partidários, relatos de conversas, documentos esboçados por Engels em colaboração com outros, e uma série de traduções.

Portanto, esses três volumes se revelarão extremamente úteis para um estudo aprofundado das contribuições teóricas e políticas tardias de Engels. As numerosas publicações e conferências internacionais programadas para o bicentenário de seu nascimento (1820-2020) certamente não falharão em sondar esses vinte anos que se passaram após a morte de Marx, período em que dedicou suas energias para a difusão do marxismo.

Outro Marx?
Que Marx emerge da nova edição histórico-crítica de seus trabalhos? Em certos aspectos, ele difere do pensador que muitos discípulos e oponentes apresentaram ao longo dos anos – sem falar das estátuas de pedra encontradas em praças públicas sob regimes não-livres da Europa Oriental, estátuas essas que o representavam apontando para o futuro com imperiosa certeza. Por outro lado, poderia ser enganoso trazer à baila a ideia – como fazem aqueles que, de modo muito entusiástico, saúdam um “Marx desconhecido” após cada novo texto que pela primeira vez surge – de que a pesquisa recente virou do avesso tudo aquilo que já se conhecia sobre ele. O que a MEGA2 fornece é, antes, a base textual para repensar um Marx diferente: diferente não porque a luta de classes abandona seu pensamento (como alguns acadêmicos desejariam, em uma variação do antigo bordão do “Marx economista” contra o “Marx político” que busca, em vão, apresentá-lo como um clássico inócuo); mas radicalmente diferente do autor que foi dogmaticamente convertido em fons et origo [fonte e origem] do “socialismo realmente existente” e supostamente fixado apenas no conflito classista.

Os novos avanços alcançados no âmbito dos estudos marxianos sugerem que a exegese da obra de Marx está novamente se tornando, assim como muitas outras vezes no passado, cada vez mais refinada. Por muito tempo, vários marxistas colocaram os escritos do jovem Marx em primeiro plano, principalmente os Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 e A ideologia alemã, enquanto o Manifesto do partido comunista permanecia seu texto mais amplamente lido e citado. Naqueles primeiros escritos, no entanto, são encontradas muitas ideias que foram suplantadas em sua obra tardia. Por muito tempo, a dificuldade em examinar a pesquisa de Marx realizada nas duas últimas décadas de sua vida obstruiu nosso conhecimento acerca de importantes ganhos que ele obteve. Mas é sobretudo em O capital e seus esboços preliminares, bem como nas pesquisas de seus últimos anos, que encontramos as reflexões mais preciosas sobre a crítica da sociedade burguesa. Elas representam as últimas conclusões a que Marx chegou, embora não as definitivas. Se examinadas criticamente à luz das mudanças que o mundo sofreu desde a sua morte, elas ainda podem se mostrar úteis à tarefa de teorizar, após os fracassos do século XX, um modelo socioeconômico alternativo ao capitalismo.

A edição MEGA2 tem desmentido todas as alegações de que Marx seja um pensador sobre quem tudo já foi escrito e dito. Ainda há muito para se aprender com Marx. Hoje, é possível fazer isso estudando não apenas aquilo que ele escreveu em seus trabalhos publicados, mas estudando também as questões e dúvidas contidas em seus manuscritos inacabados.

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Resumo

O artigo apresenta as novas descobertas e possibilidades de interpretações da obra de Marx a partir da retomada da publicação da MEGA2. Argumenta que a nova edição histórico-crítica não revela um Marx desconhecido, mas indica a existência de facetas diferentes em sua obra. O exame das notas e do material não publicado por Marx permite chamar a atenção para seu interesse naquilo que hoje denominamos ecologia e para aspectos de sua crítica à sociedade burguesa que podem nos auxiliar no desenvolvimento de uma perspectiva anticapitalista própria ao século XXI.

Palavras-chave: MEGA2, Marx, materialismo histórico, Internacional

 

Abstract

The article presents the new discoveries and possibilities of interpretations of Marx’s work from the resumption of the publication of MEGA2. He argues that the new historical-critical edition does not reveal an unknown Marx, but indicates the existence of different facets in his work. The examination of notes and material not published by Marx himself allows to draw attention to his interest in what we now call ecology and to aspects of his criticism of bourgeois society that can assist us in the development of an anti-capitalist perspective proper to the 21st century.

Keywords: MEGA2, Marx, historical materialism, International

[1] Os tomos II/4.1 e II/4.2 foram publicados antes da interrupção da MEGA2, enquanto o II/4.3 saiu em 2012. Esse livro em três partes leva a 67 o número total de volumes da MEGA2 publicados desde 1975. No futuro, alguns dos demais volumes serão publicados apenas na forma digital. NT: Os tomos II/4.1 e II/4.2 da MEGA2 se referem aos Manuscritos Econômicos de 1863-1867; o II/4.3, por sua vez, aumenta o recorte temporal anterior em um ano e apresenta os Manuscritos Econômicos de 1863-1868.

[2] A publicação do volume IV/32 da MEGA2, Karl Marx – Friedrich Engels, Die Bibliotheken von Karl Marx und Friedrich Engels, editado por Hans-Peter Harstick, Richard Sperl e Hanno Strauß, Akademie, Berlin, 1999, foi de particular relevância para o conhecimento do conteúdo da biblioteca de Marx. Ela consiste em um index de 1.450 livros (em 2.100 tomos) – dois terços dos quais pertencentes a Marx e Engels. Essa compilação indica todas as páginas de cada volume nas quais Marx e Engels deixaram anotações e marginálias.

[3] Para uma resenha de todos os 13 volumes da MEGA2 publicados de 1998 – o ano da retomada dessa edição – até 2007, cf.  Musto (2007). Essa resenha crítica cobre os 15 volumes – que somam o total de 20.508 páginas – publicados entre 2008 e 2019.

[4] Karl Marx, “Marx’s Undertaking Not to Publish Anything in Belgium on Current Politics”, Marx-Engels Collected Works [doravante MECW], vol. 4, p. 677. N.T. Para facilitar a leitura, todas as referências a publicações extraídas da MECW e da MEGA2 serão feitas em nota de rodapé.

[5] Karl Marx, “Declaration against Karl Grün”, MECW, vol. 6, p. 72.

[6] Karl Marx para Carl Wilhelm Julius Leske, 1 de agosto de 1846, MECW, vol. 38, p. 50.

[7] Friedrich Engels, Ludwig Feuerbach and the End of Classical German Philosophy, MECW, vol. 26, p. 519. Na verdade, Engels já usara essa expressão em 1859 em sua resenha de Para a crítica da economia política de Marx, mas o artigo não teve ressonância e o termo só começou a circular após a publicação de seu Ludwig Feuerbach.

[8] MEGA2, vol. I/5, editado por Ulrich Pagel, Gerald Hubmann e Christine Weckwerth, Berlim: De Gruyter, 2017, p. 1.893.

[9] Alguns anos antes da publicação do volume I/5 da MEGA2 e com base na edição alemã de Karl Marx, Friedrich Engels, Joseph Weydemeyer, Die Deutsche Ideologie. Artikel, Druckvorlagen, Entwürfe, Reinschriftenfragmente und Notizen zu ”I. Feuerbach” und “II Sankt Bruno”, que apareceu como uma edição especial do periódico Marx-Engels Jahrbuch em 2003, Terrell Carver e Daniel Blank forneceram uma nova edição no idioma inglês do assim chamado “Capítulo sobre Feuerbach”: Marx and Engels’s “German Ideology” Manuscripts: Presentation and Analysis of the “Feuerbach Chapter”, New York: Palgrave, 2014. Os dois autores defenderam a fidelidade máxima aos originais, criticando, além disso, a edição do Marx-Engels Jahrbuch (agora incorporada ao volume I/5) pelo fato de que ela, alinhada com antigos editores do século XX, organizara os distintos manuscritos como se eles formassem o esboço de uma obra totalmente coesa, ainda que nunca completada.

[10] Karl Marx – Friedrich Engels, The German Ideology, MECW, vol. 5, p. 28.

[11] Karl Marx – Friedrich Engels, Exzerpte und Notizen Juli bis August 1845, MEGA2, vol. IV/4, editado pelo Instituto de Marxismo-Leninismo, Berlim: Dietz, 1988.

[12] MEGA2, vol. IV/5, editado por Georgij Bagaturija, Timm Graßmann, Aleksandr Syrov and Ljudmila Vasina, Berlim: De Gruyter, 2015, p. 650.

[13] MEGA2, vol. I/7, editado por Jürgen Herren and François Melis, Berlim: De Gruyter, 2016, p. 1.774.

[14] Karl Marx, “The Bourgeoisie and the Counter-Revolution”, MECW, vol. 8, p. 178.

[15] Karl Marx, The Class Struggles in France, 1848 to 1850, MECW, vol. 10, p. 134.

[16] MEGA2, I/16, editado por Claudia Rechel e Hanno Strauß, Berlim: De Gruyter, 2018, p. 1.181.

[17] MEGA2, vol. IV/14, editado por Kenji Mori, Rolf Hecker, Izumi Omura e Atsushi Tamaoka, Berlim: De Gruyter, 2017, p. 680.

[18] Karl Marx a Friedrich Engels, 18 de dezembro de 1857, MECW, vol. 40, p. 224.

[19] Karl Marx a Friedrich Engels, 16 de janeiro de 1858, MECW, vol. 40, p. 249.

[20] MEGA2, vol. III/12, editado por Galina Golovina, Tat’jana Gioeva e Rolf Dlubek, Berlim: Akademie, 2013, p. 1.529.

[21] Karl Marx, Theories of Surplus-Value, vol. I, MECW, vol. 30, p. 348.

[22] Karl Marx a Friedrich Engels, 18 de junho de 1862, MECW, vol. 41, p. 380.

[23] Karl Marx a Friedrich Engels, 10 de setembro de 1862, MECW, vol. 41, p. 417.

[24] Karl Marx a Ludwig Kugelmann, 28 de dezembro de 1862, MECW, vol. 41, p. 436.

[25] MEGA2, vol. II/11, editado por Teinosuke Otani, Ljudmila Vasina e Carl-Erich Vollgraf, Berlim: Akademie, 2008, p. 1.850.

[26] MEGA22, vol. II/13, Berlim: Akademie, 2008, p. 800.

[27] MEGA2, vol. II/4.3, editado por Carl-Erich Vollgraf, Berlim: Akademie, 2012, p. 1.065. Uma pequena parte desse texto foi traduzida recentemente para o inglês: Marx (2019).

[28] O volume II/4.2 foi traduzido recentemente para o inglês em Moseley (2015).

[29] Veja Carl-Erich Vollgraf, “Einführung”, em MEGA2, vol. II/4.3, cit., p. 421-74.

[30] MEGA2, vol. I/21, editado por Jürgen Herres, Berlim: Akademie, 2009, p. 2.432.

[31] Algumas delas – como os discursos e resoluções apresentados nos congressos da Internacional – foram, em vez disso, incluídas em uma antologia publicada por ocasião do 150° aniversário dessa organização:  cf. Musto (2014).

[32] Karl Marx, “Confidential Communication”, MECW, vol. 21, p. 120.

[33] Ibid.

[34] MEGA2, vol. IV/18, editado por Teinosuke Otani, Kohei Saito e Timm Graßmann, Berlim: De Gruyter, 2019, p. 1.294.

[35] Karl Marx a Friedrich Engels, 25 de março de 1868, MECW, vol. 42, p. 557.

[36] Ibid., p. 558-559.

[37] Sobre essas questões, veja também o trabalho de um dos editores do volume IV/8 da MEGA2: Saito (2017).

[38] MEGA2, vol. IV/26, editado por Anneliese Griese, Peter Krüger e Richard Sperl, Berlim: Akademie, 2011, p. 1.104.

[39] Ibid., p. 139-679.

[40] Friedrich Engels, “Marx, Heinrich Karl”, MECW, vol. 27, p. 341. O grande interesse de Marx nas ciências naturais, interesse esse que ficou praticamente desconhecido por muito tempo, é evidente também no volume IV/31 da MEGA2, a saber, Karl Marx – Friedrich Engels. Naturwissenschaftliche Exzerpte und Notizen. Mitte 1877 bis Anfang 1883, editado por Annalise Griese, Friederun Fessen, Peter Jäckel e Gerd Pawelzig, Berlim: Akademie, 1999, que apresenta as notas sobre química orgânica e inorgânica tomadas por Marx após 1877.

[41] Veja Musto (2020). Um marco importante para esse tema será a publicação do livro editado por David Smith, pela Yale University Press em 2021, “Marx’s World: Global Society and Capital Accumulation in Marx’s Late Manuscripts”.

[42] MEGA2, vol. I/30, editado por Renate Merkel-Melis, Berlim: Akademie, 2011, p. 1.154.

[43] MEGA2, vol. III/30, editado por Gerd Callesen e Svetlana Gavril’čenko, Berlim: Akademie, 2013, p. 1.512.

[44] MEGA2, vol. I/32, editado por Peer Kösling, Berlim: Akademie, 2010, p. 1.590.

[45] MEGA2, vol. I/32, editado por Peer Kösling, Berlim: Akademie, 2010, p. 1.590.

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A atualidade do velho Marx

O trabalho de Karl Marx durante seus últimos anos de vida, entre 1881 e 1883, é uma das áreas menos desenvolvidas nos estudos marxistas.

Essa negligência é parcialmente devido ao fato de que as enfermidades de Marx em seus anos finais o impediram de sustentar sua atividade regular de redação – virtualmente não há trabalhos publicados do período.

Ausentes das obras que marcaram o trabalho anterior de Marx, desde seus primeiros escritos filosóficos até seus estudos posteriores de economia política, os biógrafos de Marx há muito consideram seus últimos anos como um capítulo menor, marcado pelo declínio da saúde e diminuição das capacidades intelectuais.

No entanto, há um crescente acumulo de pesquisas que sugere que esta não é a história completa e que os anos finais de Marx podem realmente ser uma mina de ouro cheia de novos insights sobre seu pensamento. Em grande parte contidos em cartas, cadernos e outros “rascunhos”, os últimos escritos de Marx retratam um homem que, longe das histórias de decadência, continuou a lutar com suas próprias ideias contra o capitalismo como um modo de produção global. Como sugerido por sua pesquisa tardia nas chamadas “sociedades primitivas”, a comuna agrária russa do século XIX e a “questão nacional” nas colônias europeias, os escritos de Marx do período na verdade revelam uma mente voltada para as implicações do mundo real e complexidades de seu próprio pensamento, particularmente no que se refere à expansão do capitalismo além das fronteiras europeias.

O pensamento tardio de Marx é o tema da publicação recentemente publicada de Marcello Musto, O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1883). Lá, Musto tece, magistralmente, ricos detalhes biográficos e um envolvimento sofisticado com a escrita madura, muitas vezes auto-questionadora de Marx.

O editor contribuinte de Jacobin, Nicolas Allen, conversou com Musto sobre as complexidades de estudar os últimos anos de vida de Marx e sobre por que algumas das dúvidas e apreensões tardias de Marx são de fato mais úteis para nós hoje do que algumas de suas primeiras afirmações mais confiantes.


Nicolas Allen: O “falecido Marx” sobre o qual você escreve, cobrindo aproximadamente os três anos finais de sua vida na década de 1880, é frequentemente tratado como uma reflexão tardia por marxistas e estudiosos de Marx. Além do fato de que Marx não publicou nenhuma obra importante em seus últimos anos, por que você acha que o período recebeu consideravelmente menos atenção?

Marcello Musto: Todas as biografias intelectuais de Marx publicadas até hoje prestaram muito pouca atenção à última década de sua vida, normalmente dedicando não mais do que algumas páginas à sua atividade após a dissolução da International Working Men’s Association em 1872. Não por acaso, esses estudiosos quase sempre usam o título genérico “a última década” para essas partes (muito curtas) de seus livros. Embora esse interesse limitado seja compreensível para estudiosos como Franz Mehring (1846-1919), Karl Vorländer (1860-1928) e David Riazanov (1870-1938), que escreveram biografias de Marx entre duas guerras mundiais e só puderam se concentrar em um número limitado de manuscritos não publicados, para aqueles que vieram depois daquela época turbulenta, o assunto é mais complexo.

Dois dos escritos mais conhecidos de Marx – os Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844 e A Ideologia Alemã (1845-46), ambos muito longe de estar concluídos – foram publicados em 1932 e começaram a circular apenas na segunda metade da década de 1940. À medida que a Segunda Guerra Mundial dava lugar a um sentimento de profunda angústia decorrente das barbáries do nazismo, em um clima em que filosofias como o existencialismo ganhavam popularidade, o tema da condição do indivíduo na sociedade ganhava grande destaque e criava condições perfeitas para um interesse crescente nas idéias filosóficas de Marx, como a alienação. As biografias de Marx publicadas neste período, assim como a maioria dos volumes acadêmicos, refletiram esse zeitgeist e deram peso indevido a seus escritos juvenis.

Muitos dos livros que pretendiam apresentar aos leitores o pensamento de Marx como um todo, nas décadas de 1960 e 1970, concentravam-se principalmente no período de 1843-48, quando Marx, na época da publicação do Manifesto do Partido Comunista (1848), tinha apenas 30 anos.

Nesse contexto, não foi apenas a última década da vida de Marx tratada como uma reflexão tardia, mas o próprio Capital foi relegado a uma posição secundária. O sociólogo liberal Raymond Aron descreveu perfeitamente essa atitude no livro D’une Sainte Famille à l’autre: Essais sur les marxismes imaginaires (1969), onde zombou dos marxistas parisienses que passaram superficialmente pelo Capital, sua obra-prima e fruto de muitos anos de trabalho, publicado em 1867, e permaneceu cativado pela obscuridade e incompletude dos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844.

Podemos dizer que o mito do “Jovem Marx” – alimentado também por Louis Althusser e por aqueles que argumentaram que a juventude de Marx não poderia ser considerada parte do marxismo – tem sido um dos principais mal-entendidos na história dos estudos marxistas. Marx não publicou nenhuma obra que considerasse “maior” na primeira metade da década de 1840. Por exemplo, deve-se ler as cartas e resoluções de Marx para a Working Men’s Association, se quisermos entender seu pensamento político, não os artigos de jornais de 1844 que apareceram no German-French Yearbook. E mesmo se analisarmos seus manuscritos incompletos, os Grundrisse (1857-58) ou as Teorias da mais-valia (1862-63), estes foram muito mais significativos para ele do que a crítica do neo-hegelianismo na Alemanha, “abandonado ao crítica mordaz aos ratos” em 1846. A tendência de enfatizar demais seus primeiros escritos não mudou muito desde a queda do Muro de Berlim. As biografias mais recentes – apesar da publicação de novos manuscritos pela Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA), a edição histórico-crítica das obras completas de Marx e Friedrich Engels (1820-1895) – negligenciam esse período anterior.

Outra razão para esse descaso é a alta complexidade da maioria dos estudos realizados por Marx na fase final de sua vida. Escrever sobre o jovem estudante da esquerda hegeliana é muito mais fácil do que tentar superar o intrincado emaranhado de manuscritos em várias línguas e interesses intelectuais do início da década de 1880, e isso pode ter dificultado uma compreensão mais rigorosa dos importantes acúmulos alcançados por Marx. Pensando erroneamente que havia desistido de continuar seu trabalho e representar os últimos 10 anos de sua vida como “uma lenta agonia”, muitos biógrafos e estudiosos de Marx falharam em olhar mais profundamente para o que ele realmente fez durante aquele período.


No recente filme Miss Marx, há uma cena após o funeral de Marx que mostra Friedrich Engels e Eleanor, a filha mais nova de Marx, vasculhando papéis e manuscritos do pai. Engels examina um artigo e faz uma observação sobre o interesse tardio de Marx em equações diferenciais e matemática. Os últimos anos de Karl Marx parecem dar a impressão de que, em seus últimos anos, o leque de interesses de Marx foi particularmente amplo. Havia algum fio condutor que sustentasse essa preocupação com tópicos tão diversos como antropologia, matemática, história antiga e gênero?

Pouco antes de sua morte, Marx pediu a sua filha Eleanor que lembrasse a Engels de “fazer algo” com seus manuscritos inacabados. Como é bem sabido, durante os 12 anos em que sobreviveu, Engels empreendeu a hercúlea tarefa de enviar para imprimir os volumes II e III do Capital, nos quais seu amigo havia trabalhado continuamente de meados da década de 1860 a 1881, mas não havia concluído. Outros textos escritos pelo próprio Engels após a morte de Marx em 1883 estavam cumprindo indiretamente sua vontade e estavam estritamente relacionados às investigações que havia conduzido durante os últimos anos de sua vida. Por exemplo, Origens da Família, da Propriedade Privada e do Estado (1884) foi denominado por seu autor como “a execução de um legado”, inspirado nas pesquisas de Marx sobre antropologia, em particular nas passagens que copiou, em 1881, da Sociedade Antiga de Lewis Henry Morgan (1877) e pelos comentários que ele adicionou aos resumos deste livro.

Não há apenas um fio condutor nos últimos anos de pesquisa de Marx. Alguns de seus estudos surgiram de descobertas científicas recentes sobre as quais desejava se manter atualizado, ou de acontecimentos políticos que considerava significativos. Marx já havia aprendido antes que o nível geral de emancipação em uma sociedade dependia do nível de emancipação das mulheres, mas os estudos antropológicos realizados na década de 1880 lhe deram a oportunidade de analisar a opressão de gênero em maior profundidade. Marx gastou muito menos tempo com questões ecológicas do que nas duas décadas anteriores, mas, por outro lado, ele mergulhou mais uma vez em temas históricos. Entre o outono de 1879 e o verão de 1880, ele preencheu um caderno intitulado Notes on Indian History (664-1858), e entre o outono de 1881 e o inverno de 1882, ele trabalhou intensamente nos chamados Extratos cronológicos, uma linha do tempo anotada ano a ano de 550 páginas escritas com uma caligrafia ainda menor do que o normal. Estes incluíram resumos de eventos mundiais, desde o primeiro século A.C até a Guerra dos Trinta Anos em 1648, resumindo suas causas e características mais marcantes.

É possível que Marx quisesse testar se suas concepções eram bem fundamentadas à luz dos principais desenvolvimentos políticos, militares, econômicos e tecnológicos do passado. Em todo caso, é preciso ter em mente que, quando Marx empreendeu este trabalho, tinha plena consciência de que seu estado de saúde frágil o impedia de fazer uma última tentativa de concluir o volume II do Capital. Sua esperança era fazer todas as correções necessárias para preparar uma terceira edição revisada em alemão do volume I, mas, no final, ele não teve nem forças para fazer isso.

Eu não diria que a pesquisa que ele conduziu em seus últimos anos de vida foi mais ampla do que o normal. Talvez a amplitude de suas investigações seja mais evidente neste período porque não foram conduzidas em paralelo com a escrita de quaisquer livros ou manuscritos significativos. Mas as milhares de páginas escritas por Marx em oito línguas, desde que ele era um estudante universitário, de obras de filosofia, arte, história, religião, política, direito, literatura, história, economia política, relações internacionais, tecnologia, matemática, fisiologia, geologia, mineralogia, agronomia, antropologia, química e física, atestam sua fome perpétua por conhecimento em uma variedade muito grande de disciplinas. O que pode ser surpreendente é que Marx não foi capaz de abandonar esse hábito, mesmo quando sua força física diminuiu consideravelmente. Sua curiosidade intelectual, junto com seu espírito autocrítico, conquistou uma gestão mais focada e “criteriosa” de seu trabalho.

Mas essas idéias sobre “o que Marx deveria ter feito” são geralmente fruto do desejo distorcido daqueles que gostariam que ele fosse um indivíduo que não fizesse nada além de escrever O Capital – nem mesmo para se defender das controvérsias políticas em que foi envolvido. Mesmo se ele uma vez se definiu como “uma máquina, condenada a devorar livros e depois jogá-los, de forma modificada, no depósito da história”, Marx era um ser humano. Seu interesse pela matemática e pelo cálculo diferencial, por exemplo, começou como um estímulo intelectual em sua busca por um método de análise social, mas se tornou um espaço lúdico, um refúgio em momentos de grande dificuldade pessoal, “uma ocupação para manter a quietude da mente”, como costumava dizer a Engels.


Os estudos dos últimos escritos de Marx mostram um interesse na pesquisa de sociedades não europeias. Ao reconhecer, como ele faz, que existem caminhos para o desenvolvimento diferentes do “modelo ocidental”, é justo dizer, como alguns afirmam, que se tratava de Marx virando uma nova página, ou seja, um Marx “não eurocêntrico”? Ou é mais correto dizer que essa foi a admissão de Marx de que sua obra nunca foi destinada a ser aplicada sem primeiro atender à realidade concreta de diferentes sociedades históricas?

A primeira e mais importante chave para compreender a ampla variedade de interesses geográficos na pesquisa de Marx, durante a última década de sua vida, está em seu plano para fornecer um relato mais amplo da dinâmica do modo de produção capitalista em escala global. A Inglaterra foi o principal campo de observação do Capital, volume I; após sua publicação, ele queria expandir as investigações socioeconômicas para os dois volumes do Capital que ainda estavam por escrever. Foi por essa razão que decidiu aprender russo em 1870 e, então, exigia constantemente livros e estatísticas sobre a Rússia e os Estados Unidos. Ele acreditava que a análise das transformações econômicas desses países teria sido muito útil para a compreensão das possíveis formas nas quais o capitalismo pode se desenvolver em diferentes períodos e contextos. Este elemento crucial é subestimado na literatura secundária sobre o tema, que está na moda hoje em dia, de “Marx e Eurocentrismo”.

Outra questão chave para a pesquisa de Marx em sociedades não europeias era se o capitalismo era um pré-requisito necessário para o nascimento da sociedade comunista e em que nível ela deveria se desenvolver internacionalmente. A concepção multilinear que Marx assumiu em seus últimos anos o levou a olhar mais atentamente para as especificidades históricas e os desníveis do desenvolvimento econômico e político em diferentes países e contextos sociais.

Marx tornou-se altamente cético quanto à transferência de categorias interpretativas entre contextos históricos e geográficos completamente diferentes e, como ele escreveu, também percebeu que “eventos de notável semelhança, ocorrendo em contextos históricos diferentes, levam a resultados totalmente díspares”. Essa abordagem certamente aumentou as dificuldades que ele enfrentou no curso já acidentado dos volumes inacabados do Capital e contribuiu para a lenta aceitação de que sua obra principal permaneceria incompleta. Mas certamente abriu novas esperanças revolucionárias.

Ao contrário do que alguns autores ingenuamente acreditam, Marx não descobriu repentinamente que tinha sido eurocêntrico e dedicou sua atenção a novos temas de estudo porque sentiu a necessidade de corrigir seus pontos de vista políticos. Ele sempre foi um “cidadão do mundo”, como costumava se chamar, e sempre tentou analisar as mudanças econômicas e sociais em suas implicações globais. Como já foi argumentado, como qualquer outro pensador do seu nível, Marx tinha consciência da superioridade da Europa moderna sobre os demais continentes do mundo, em termos de produção industrial e organização social, mas nunca considerou esse fato como necessário ou fator permanente. E, claro, ele sempre foi um inimigo feroz do colonialismo. Essas considerações são muito óbvias para quem leu Marx.


Um dos capítulos centrais do seu livro trata da relação de Marx com a Rússia. Como você mostra, Marx travou um diálogo muito intenso com diferentes partes da esquerda russa, especificamente em torno da recepção do primeiro volume do Capital. Quais foram os principais pontos desses debates?

Por muitos anos, Marx identificou a Rússia como um dos principais obstáculos à emancipação da classe trabalhadora. Ele enfatizou várias vezes que seu lento desenvolvimento econômico e seu regime político despótico ajudaram a fazer do império czarista o posto avançado da contra-revolução. Mas em seus últimos anos, ele começou a olhar de forma bem diferente para a Rússia.

Ele reconheceu algumas condições possíveis para uma grande transformação social após a abolição da servidão em 1861. A Rússia parecia mais propensa a produzir uma revolução do que a Grã-Bretanha, onde o capitalismo havia criado o número proporcionalmente maior de operários de fábrica no mundo, mas onde o movimento operário, desfrutando de melhores condições de vida em parte baseadas na exploração colonial, enfraqueceu e sofreu a influência negativa do reformismo sindical.

Os diálogos travados por Marx com os revolucionários russos foram com intelectuais e políticos. Na primeira metade da década de 1870, ele adquiriu familiaridade com a principal literatura crítica sobre a sociedade russa e dedicou atenção especial à obra do filósofo socialista Nikolai Chernyshevsky (1828-1889). Ele acreditava que um dado fenômeno social que havia alcançado um alto nível de desenvolvimento nas nações mais avançadas poderia se espalhar muito rapidamente entre os outros povos e subir de um nível inferior direto para outro superior, passando pelos momentos intermediários. Isso deu a Marx muito que pensar ao reconsiderar sua concepção materialista da história.

Por muito tempo, ele sabia que o esquema de progressão linear através dos modos de produção asiáticos, antigos, feudais e modernos da burguesia, que ele havia desenhado no prefácio de Uma contribuição para a crítica da economia política (1859), era completamente inadequado para uma compreensão do movimento da história, e que era realmente aconselhável evitar qualquer filosofia da história. Ele não conseguia mais conceber a sucessão de modos de produção no curso da história como uma sequência fixa de estágios predefinidos.

Marx também aproveitou a oportunidade para discutir com militantes de várias tendências revolucionárias na Rússia. Ele considerava o caráter realista da atividade política do populismo russo – que na época era um movimento da esquerda anticapitalista – porque não recorreu a floreios ultrarevolucionários sem sentido ou a generalizações contraproducentes. Marx avaliou a relevância das organizações socialistas existentes na Rússia por seu caráter pragmático, não por declaração de lealdade às suas próprias teorias. Na verdade, ele observou que muitas vezes aqueles que se diziam “marxistas” são os mais doutrinários. Sua exposição às teorias e à atividade política dos populistas russos – como os comunardos de Paris uma década antes – ajudou-o a ser mais flexível na análise da irrupção dos acontecimentos revolucionários e das forças subjetivas que os moldaram. Isso o aproximou de um verdadeiro internacionalismo em escala global.

O tema central dos diálogos e trocas que Marx teve com muitas figuras da esquerda russa foi a questão muito complexa do desenvolvimento do capitalismo, que teve implicações políticas e teóricas cruciais. A dificuldade dessa discussão também é evidenciada pela escolha final de Marx de não enviar uma carta perspicaz na qual ele havia criticado algumas interpretações errôneas do Capital para o jornal Otechestvennye Zapiski, ou para responder à “questão de vida e morte” de Vera Zasulich sobre o futuro do comuna rural (a obshchina) com apenas uma carta curta e cautelosa, e não com um texto mais longo que ele escreveu e reescreveu em três rascunhos preparatórios.


A correspondência de Marx com a socialista russa Vera Zasulich é o assunto de muito interesse hoje. Lá, Marx sugeriu que a comuna rural russa poderia se apropriar dos últimos avanços da sociedade capitalista – tecnologia, em particular – sem ter que passar pelas convulsões sociais que foram tão destrutivas para o campesinato da Europa Ocidental. Você pode explicar com um pouco mais de detalhes o pensamento que inspirou essas conclusões de Marx?

Por coincidência fortuita, a carta de Zasulich chegou a Marx, assim como seu interesse por formas arcaicas de comunidade, já aprofundado em 1879 pelo estudo da obra do sociólogo Maksim Kovalevsky, o levava a prestar mais atenção às descobertas mais recentes feitas por antropólogos de seu tempo. Teoria e prática o levaram ao mesmo lugar. Com base nas ideias sugeridas pelo antropólogo Morgan, ele escreveu que o capitalismo poderia ser substituído por uma forma superior de produção coletiva arcaica.

Esta declaração ambígua requer pelo menos dois esclarecimentos. Em primeiro lugar, graças ao que aprendera com Chernyshevsky, Marx argumentou que a Rússia não poderia repetir servilmente todos os estágios históricos da Inglaterra e de outros países da Europa Ocidental. Em princípio, a transformação socialista da obshchina poderia acontecer sem uma passagem necessária pelo capitalismo. Mas isso não significa que Marx mudou seu julgamento crítico da comuna rural na Rússia, ou que ele acreditava que os países onde o capitalismo ainda estava subdesenvolvido estavam mais próximos da revolução do que outros com um desenvolvimento produtivo mais avançado. Ele não se convenceu subitamente de que as comunas rurais arcaicas eram um alavanca à emancipação mais avançado para o indivíduo do que as relações sociais existentes no capitalismo.

Em segundo lugar, sua análise da possível transformação progressiva da obshchina não pretendia ser elevada a um modelo mais geral. Foi uma análise específica de uma determinada produção coletiva em um momento histórico preciso. Em outras palavras, Marx revelou a flexibilidade teórica e a falta de método que muitos marxistas depois dele não conseguiram demonstrar. No final da vida, Marx revelou uma abertura teórica cada vez maior, o que lhe permitiu considerar outros caminhos possíveis para o socialismo que ele nunca havia levado a sério ou antes considerado como inatingíveis.

A dúvida de Marx foi substituída pela convicção de que o capitalismo era um estágio inevitável para o desenvolvimento econômico em todos os países e condições históricas. O novo interesse que ressurge hoje pelas considerações que Marx nunca enviou a Zasulich, e por outras ideias semelhantes expressas mais claramente em seus últimos anos de vida, está em uma concepção de sociedade pós-capitalista que está distantes da equação do socialismo com as forças produtivas – uma concepção envolvendo nuances nacionalistas e simpatia pelo colonialismo, que se afirmou dentro da Segunda Internacional e dos partidos social-democratas. As ideias de Marx também diferem profundamente do suposto “método científico” de análise social preponderante na União Soviética e seus satélites.


Mesmo que a luta pela saúde de Marx sejam bem conhecidas, ainda é doloroso ler o capítulo final de seu livro, onde você faz uma crônica de sua condição deteriorada. As biografias intelectuais de Marx apontam corretamente que uma apreciação completa de Marx precisa conectar sua vida e atividades políticas com seu pensamento; como Marx estava inativo devido a enfermidades? Como alguém que está escrevendo uma biografia intelectual, como você aborda esse período?

Um dos melhores estudiosos de Marx de todos os tempos, Maximilien Rubel (1905-1996), autor do livro Karl Marx: essai de biographie intellectuelle (1957), argumentou que, para escrever sobre Marx, é preciso ser um pouco filósofo, um pouco historiador, um pouco economista e um pouco sociólogo ao mesmo tempo. Eu acrescentaria que, ao escrever a biografia de Marx, também se aprende muito sobre a medicina. Marx lidou durante toda a sua vida madura com uma série de questões de saúde. O mais longo deles foi uma infecção desagradável da pele que o acompanhou durante toda a redação do Capital e se manifestou em furúnculos graves e debilitantes em várias partes do corpo. Foi por essa razão que, quando Marx terminou sua magnum opus, ele escreveu: “Espero que a burguesia se lembre dos meus carbúnculos até o dia da morte!”

Os últimos dois anos de sua vida foram particularmente difíceis. Marx sofreu uma dor terrível pela perda de sua esposa e filha mais velha, e ele teve uma bronquite crônica que frequentemente evoluía para uma pleurisia severa. Lutou, em vão, para encontrar o clima que lhe proporcionasse as melhores condições para melhorar, e viajou, sozinho, pela Inglaterra, França e até Argélia, onde embarcou num longo período de complicado tratamento. O aspecto mais interessante dessa parte da biografia de Marx é a sagacidade, sempre acompanhada de auto-ironia, que ele demonstrou para lidar com a fragilidade de seu corpo. As cartas que escreveu às filhas e a Engels, quando sentiu que estava perto do fim, deixam mais evidente o seu lado mais íntimo. Elas revelam a importância do que ele chamou de “mundo microscópico”, começando com a paixão vital que sentia pelos netos. Elas incluem as considerações de um homem que passou por uma existência longa e intensa e passou a avaliar todos os aspectos da vida.

Os biógrafos devem relatar os sofrimentos da esfera privada, especialmente quando eles são relevantes para melhor compreender as dificuldades subjacentes à escrita de um livro, ou as razões pelas quais um manuscrito permaneceu inacabado. Mas também devem saber onde parar e evitar lançar um olhar indiscreto aos assuntos exclusivamente privados.


Muito do pensamento tardio de Marx está contido em cartas e cadernos. Devemos conceder a esses escritos o mesmo status de seus escritos mais consagrados? Quando você argumenta que a escrita de Marx é “essencialmente incompleta”, você tem algo assim em mente?

O Capital permaneceu inacabado por causa da pobreza opressora em que Marx viveu por duas décadas e por causa de seus constantes problemas de saúde ligados às preocupações diárias. Desnecessário dizer que a tarefa que ele se propôs – compreender o modo de produção capitalista em sua média ideal e descrever suas tendências gerais de desenvolvimento – era extraordinariamente difícil de realizar. Mas o Capital não foi o único projeto que permaneceu incompleto. A autocrítica impiedosa de Marx aumentou as dificuldades de mais de um de seus empreendimentos, e a grande quantidade de tempo que ele gastou em muitos projetos que queria publicar se deveu ao extremo rigor a que submeteu todo o seu pensamento.

Quando Marx era jovem, ele era conhecido entre seus amigos da universidade por sua meticulosidade. Há histórias que o retratam como alguém que se recusou a escrever uma frase se não pudesse provar de dez maneiras diferentes. É por isso que o jovem estudioso mais prolífico da esquerda hegeliana ainda publicou menos do que muitos dos outros. A crença de Marx de que suas informações eram insuficientes e seus julgamentos imaturos o impediram de publicar escritos que permaneceram na forma de fragmentos. Mas é também por isso que suas notas são extremamente úteis e devem ser consideradas parte integrante de sua obra. Muitos de seus trabalhos incessantes tiveram consequências teóricas extraordinárias para o futuro.

Isso não significa que seus textos incompletos possam receber o mesmo peso daqueles que foram publicados. Eu distinguiria cinco tipos de escritos: trabalhos publicados, seus manuscritos preparatórios, artigos jornalísticos, cartas e cadernos de trechos. Mas também devem ser feitas distinções dentro dessas categorias. Alguns dos textos publicados de Marx não devem ser considerados sua palavra final sobre algumas questões. Por exemplo, o Manifesto do Partido Comunista foi considerado por Engels e Marx como um documento histórico da juventude e não como o texto definitivo em que suas principais concepções políticas se manifestavam. Ou deve-se ter em mente que escritos de propaganda política e escritos científicos muitas vezes não são combináveis.

Infelizmente, esses tipos de erros são muito frequentes na literatura secundária sobre Marx. Isso sem falar na ausência da dimensão cronológica em muitas reconstruções de seu pensamento. Os textos da década de 1840 não podem ser citados indiscriminadamente ao lado dos das décadas de 1860 e 1870, pois não carregam o mesmo peso de conhecimento científico e experiência política. Alguns manuscritos foram escritos por Marx apenas para ele mesmo, enquanto outros eram materiais preparatórios para livros a serem publicados. Alguns foram revisados ​​e muitas vezes atualizados por Marx, enquanto outros foram abandonados por ele sem a possibilidade de atualizá-los (nesta categoria, há o volume III do Capital). Alguns artigos jornalísticos contêm considerações que podem ser consideradas uma conclusão das obras de Marx. Outros, porém, foram escritos rapidamente a fim de levantar dinheiro para pagar o aluguel. Algumas cartas incluem opiniões autênticas de Marx sobre as questões discutidas. Outros contêm apenas uma versão suavizada, porque se dirigiam a pessoas fora do círculo de Marx, com quem às vezes era necessário se expressar diplomaticamente.

Por todas essas razões, é claro que um bom conhecimento da vida de Marx é indispensável para uma compreensão correta de suas idéias. Finalmente, existem os mais de 200 cadernos contendo resumos (e às vezes comentários) de todos os livros mais importantes lidos por Marx durante o período de 1838 a 1882. Eles são essenciais para uma compreensão da gênese de sua teoria e de elementos que ele não foi capaz de desenvolver como gostaria.

As ideias concebidas por Marx durante os últimos anos de sua vida foram coletadas principalmente nesses cadernos. Certamente são muito difíceis de ler, mas nos dão acesso a um tesouro muito precioso: não apenas a pesquisa que Marx fez antes de sua morte, mas também as perguntas que ele se fez durante a vida. Algumas de suas dúvidas podem ser mais úteis para nós hoje do que algumas de suas certezas.

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Marx, bakunin e a associação internacional dos trabalhadores (Talk)

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A alternativa possível da Comuna de Paris

Os burgueses sempre tinham conseguido tudo. Desde a revolução de 1789, tinham sido os únicos que tinham enriquecido com os tempos de prosperidade, enquanto que a classe trabalhadora tinha tido que suportar regularmente o custo das crises.

A proclamação da Terceira República abriu novos cenários e ofereceu a oportunidade de inverter este rumo. Napoleão III tinha sido derrotado e capturado pelos alemães, em Sedán, a 4 de setembro de 1870. Em janeiro do ano seguinte, Paris, que tinha estado sitiada durante mais de quatro meses, rendia-se, o que obrigou os franceses a aceitar as condições impostas por Otto von Bismarck.

Assinou-se um armistício que permitiu a celebração de eleições e a posterior nomeação de Adolphe Thiers como chefe do poder executivo, com o apoio de uma ampla maioria legitimista e orleanista. Na capital, contudo, diferentemente do resto do país, a conjunção progressista-republicano obteve sucesso com uma maioria esmagadora e o descontentamento popular foi mais generalizado do que noutros lugares. A perspetiva de um executivo que deixasse imutáveis todas as injustiçs sociais, que queria desarmar a cidade e estava disposto a fazer recair o preço da guerra sobre os mais desfavorecidos, despoletou a rebelião. A 18 de março estalou uma nova revolução; Thiers e o seu exército tiveram que refugiar-se em Versailles.

De luta e de governo

Os insurgentes decidiram realizar imediatamente eleições livres para garantir a legitimidade democrática da insurreição. A 26 de março, uma esmagadora maioria (190.000 contra 40.000 votos) aprovou as razões da revolta e 70 dos 85 membros eleitos declararam-se a favor da revolução. Os 15 representantes moderados do chamado Parti de Maires (partido dos presidentes de Câmara), grupo formado por ex-presidentes de alguns bairros, demitiram-se imediatamente e não se incorporaram no conselho da Comuna. Pouco depois foram seguidos por quatro radicais.

Os 66 membros restantes, que nem sempre facilmente distinguíveis devido a filiações políticas duplicadas, representavam posições muito variadas. Entre eles havia duas dezenas de republicanos neo-jacobinos (incluindo os influentes Charles Delescluze e Felix Pyat), uma dezena de prosélitos de Auguste Blanqui, 17 membros da Associação Internacional de Trabalhadores (incluindo os mutualistas seguidores de Pierre-Joseph Proudhon, que estavam frequentemente em desacordo com os coletivistas ligados a Karl Marx) e um par de independentes. A maioria dos membros da Comuna eram trabalhadores ou representantes reconhecidos da classe trabalhadora. Entre eles, 14 eram provenientes da Guarda Nacional. Foi precisamente o comité central desta que depositou o poder nas mãos da Comuna, ainda que este ato tenha sido o início de uma longa série de contradições e conflitos entre as duas entidades.

A 28 de março, uma grande massa de cidadãos reuniu-se perto do Hôtel de Ville e celebrou alegremente a inauguração da nova assembleia que oficialmente tomou o nome de Comuna de Paris. Ainda que apenas tenha durado 72 dias, foi o evento político mais importante da história do movimento operário do século XIX. A Comuna fez reviver a esperança de uma população esgotada por meses de penúrias. Nos bairros surgiram comités e grupos de apoio. Em cada canto da metrópole multiplicaram-se iniciativas de solidariedade e planos para a construção de um mundo novo. Montmartre passou a chamar-se “a cidadela da liberdade”. Um dos sentimentos predominantes foi o desejo de partilhar. Militantes como Louise Michel deram o exemplo com o seu espírito de abnegação. Victor Hugo escreveu sobre ela: “Fizeste o que fazem as grandes almas loucas. Deste glória aos que estão esmagados e subjugados”. Contudo, a Comuna não viveu devido ao impulso de um dirigente ou de um punhado de figuras carismáticas. De facto, a sua principal característica foi a sua dimensão claramente coletiva.

Mulheres e homens ofereceram-se como voluntários para um projeto de libertação comum. A autogestão deixou de ser considerada uma utopia. A auto-emancipação tornou-se algo essencial.

A transformação do poder político

Entre os primeiros decretos de emergência proclamados para travar a pobreza galopante estava o congelamento das rendas (era considerado justo que “a propriedade fizesse a sua parte de sacrifício”) e a suspensão de venda de objetos que tivessem um valor inferior a 20 francos que estavam nas casas de penhores. Também se criaram nove comissões colegiais para substituir os ministérios existentes: guerra, finanças, segurança, educação, subsistência, justiça, trabalho e comércio, relações externas e serviços públicos. Posteriormente nomeou-se um delegado para gerir cada uma delas.

A 19 de abril, três dias depois das eleições pariciais depois das quais foi possível substituir os 31 lugares que ficaram livres quase de imediato, a Comuna redigiu a Declaração ao Povo Francês, na qual se assegurava “a garantia absoluta da liberdade individual, da liberdade de consciência e da liberdade de trabalho” e “a intervenção permanente da cidadania nos assuntos comuns”. Afirmava-se que o conflito entre Paris e Versailles “não podia terminar com compromissos ilusórios” e que o povo tinha “o dever de lutar e vencer”. Muito mais significativos do que o conteúdo deste texto, síntese algo ambígua para evitar tensões entre as distintas tendências políticas, foi através de atos concretos que os militantes da Comuna lutaram por uma transformação total do poder político.

Iniciaram uma série de reformas que tinham como objetivo mudar profundamente não apenas forma de administrar a política mas também a sua própria natureza. A democracia direta da Comuna previa a revogação dos mandatos mandatos dos representantes eleitos e o controlo do seu trabalho através de mandatos vinculativos (medida insuficiente para resolver a complexa questão da representação política). Os magistrados e outros cargos públicos, também sujeitos a controlo permanente e à possibilidade de revogação de mandato, não seriam nomeados arbitrariamente, como no passado, mas mediante concurso aberto ou eleições transparentes. Havia que impedir a profissionalização da esfera pública. As decisões políticas não deviam estar nas mãos de pequenos grupos de funcionários e técnicos mas ser tomadas pelo povo. Os exércitos e as forças policiais já não seriam instituições separadas do corpo da sociedade. A separação entre Estado e Igreja era uma necessidade indispensável.

Porém, a mudança política não se esgotava na adoção destas medidas. Devia ir muito mais à raiz. A burocracia tinha de ser reduzida drasticamente, transferindo o exercício do poder para as mãos do povo. O âmbito social tinha que prevalecer sobre o político e este último – como já tinha argumentado Henri de Saint-Simon – deixaria de existir como função especializada, já que seria assimilado progressivamente pelas atividades da sociedade civil. O corpo social recuperaria assim as funções que tinham sido transferidas para o Estado. Derrubar a dominação de classe existente não era suficiente; havia que extinguir toda a dominação de classe. Tudo isto teria permitido a realização do plano desenhado pelos Communards: uma república constituída pela união de associações livres verdadeiramente democráticas que se converteriam em impulsionadoras da emancipação de todos os seus componentes. Era o auto-governo dos produtores.

A prioridade das reformas sociais

A Comuna acreditava que as reformas sociais eram até mais relevantes que as transformações na ordem política. Representavam a sua razão de ser, o termómetro através do qual se devia medir a fidelidade aos princípios com que tinha sido criada, o elemento de diferenciação definitivo face às revoluções que a haviam precedido em 1789 e 1848.

A Comuna ratificou várias medidas com uma clara conotação de classe. Os prazos para pagamento de dívidas foram adiados três anos, sem pagamento de juros. Suspenderam-se os desalojamentos por falta de pagamento de rendas e adotaram-se medidas para que as casas desocupadas fossem requisitadas em benefício das pessoas sem domicílio. Fizeram-se projetos para limitar a duração da jornada laboral (das dez horas iniciais às oito previstas no futuro), proibiu-se a prática generalizada de impor multas arbitrárias com o único propósito de reduzir os salários. Decretaram-se salários mínimos decentes. Adotou-se a proibição da acumulação de múltiplos postos de trabalho e estabeleceu-se um limite máximo para os salários dos cargos públicos. Fez-se todo o possível para aumentar o abastecimento de alimentos e reduzir os seus preços. Proibiu-se o trabalho noturno nas padarias e abriram-se alguns talhos municipais. Implementaram-se diversas medidas de assistência social para os mais vulneráveis, incluindo a entrega de alimentos a mulheres e a crianças abandonadas e aprovou-se o fim da discriminação entre crianças legítimas e naturais.

Todos os communards acreditavam que a educação era um fator indispensável para a libertação dos indivíduos, estando sinceramente convictos de que representava o requisito prévio de qualquer mudança social e política séria e duradoura. Assim, animaram múltiplos e relevantes debates em torno das propostas de reforma do sistema educativo. A escola seria obrigatória e gratuita para todos, meninos e meninas. O ensino religioso seria substituído pelo ensino laico, inspirado no pensamento racional e científico e os custos do culto já não recairiam no imposto estatal. Nas comissões especialmente criadas e na imprensa produziram-se numerosas tomadas de posição destacando quão fundamental era a decisão de investir na educação feminina. Para se converter verdadeiramente num “serviço público”, a escola tinha que oferecer as mesmas oportunidades às “crianças de ambos os sexos”. Por último, deveria proibir “as distinções de raça, nacionalidade, fé ou posição social”.

Os avanços de caráter teórico foram acompanhados das primeiras iniciativas práticas e, em mais de um distrito, milhares de crianças da classe trabalhadora receberam material didático gratuito e entraram, pela primeira vez, num edifício escolar.

A Comuna também legislou medidas de carácter socialista. Decidiu-se que as oficianas abandonadas pelos proprietários que tinham fugido da cidade, aos quais se garantia uma indemnização no seu regresso, seriam entregues a associações cooperativas de trabalhadores. Os teatros e museus – que estariam abertos a todos e seriam gratuitos – foram coletivizados e a sua direção confiada a quem tinha aderido à “Federação dos Artistas de Paris”, presidida pelo pintor e militante incansável Gustave Courbet. Nela participavam cerca de 300 escultores, arquitetos, litógrafos e pintores (entre os quais também Édouard Manet). Seguiu-se a esta iniciativa o nascimento da “Federação Artística” que agrupou os atores e o mundo da ópera.

Todas estas ações e medidas foram levadas a cabo surpreendentemente em apenas 54 dias, numa cidade ainda atormentada pelos efeito da guerra franco-prussiana. A Comuna só pôde funcionar entre 29 de março e 21 de maio e, para além disso, no meio de uma resistência heroica aos ataques de Versailles, com uma defesa que requeria um grande gasto de energia humana e de recursos económicos. Para além disso, a Comuna não tinha nenhum meio de coerção, muitas das decisões tomadas não se aplicaram de maneira uniforme no amplo território da cidade. Contudo, constituíram uma tentativa notável de reforma social e mostraram o caminho de uma possível transformação.

Um luta coletiva e feminista

A Comuna foi muito mais do que as medidas aprovadas pela sua assembleia legislativa. Aspirou mesmo a alterar substancialmente o espaço urbano, como o demonstra a decisão de demolir a Coluna Vendôme, considerada um monumento à barbárie e símbolo repreensível da guerra, e secularizar alguns locais de culto, destinando o seu uso à comunidade.

A Comuna viveu graças a uma extraordinária participação massiva e um sólido espírito de ajuda mútua. Neste levantamento contra a autoridade desempenharam um papel destacado os clubes revolucionários que surgiram com incrível rapidez em quase todos os distritos. Foram estabelecidos 28 e representaram um dos exemplos mais importantes da mobilização espontânea que acompanhou a Comuna. Abertos todas as noites, ofereceram à cidadania a oportunidade de reunir-se, depois do trabalho, para discutir livremente a situação social e política, verificar o que que tinham conseguido fazer os seus representantes e sugerir alternativas para a solução dos problemas quotidianos. Tratavam-se de associações horizontais que favoreciam a formação e expressão da soberania popular mas também espaços de sororidade e de fraternidade. Eram espaços onde todos podiam respirar a embriagante possibilidade de se tornarem donos do seu próprio destino.

Nesta via de emancipação não existia discriminação nacional. O título de cidadão da Comuna estava garantido a todos os que trabalhavam para o seu desenvolvimento e os estrangeiros tinham garantidos os mesmos direitos social que os franceses. Prova deste princípio de igualdade foi o papel predominante que assumiram vários estrangeiros (uns três mil no total). O húngaro, membro da Associação Internacional de Trabalhadores, Léo Frankel, não apenas foi um dos funcionários eleitos da Comuna mas também o responsável pela comissão de trabalho, um dos “ministérios” mais importantes de Paris. Os polacos Jaroslaw Dombrowski e Walery Wroblewski, foram nomeados generais da Guarda Nacional e desempenharam um papel igualmente importante.

Neste contexto, as mulheres, ainda privadas do direito ao voto e consequentemente também de se sentar entre os representantes do Conselho da Comuna, desempenharam um papel fundamental na crítica da ordem social existente. Transgrediram as normas da sociedade burguesa e afirmaram a sua nova identidade em oposição aos valores da família patriarcal. Saíram da dimensão privada e ocuparam-se da esfera pública. Formaram a “União de Mulheres pela Defesa de Paris e para o Cuidado aos Feridos” (nascida graças à incessante atividade de Élisabeth Dmitrieff, militante da Associação Internacional de Trabalhadores) e desempenharam um papel central na identificação de batalhas sociais estratégicas. Conseguiram o encerramento dos bordéis, conseguiram igualdade salarial com os professores homens, cunharam o lema “trabalho igual, salário igual”, reclamaram igualdade de direitos no matrimónio, exigiram o reconhecimento das uniões livres, promoveram a criação de câmaras sindicais exclusivamente femininas.

Quando, em meados de maio, a situação militar piorou, quando as tropas de Versailles chegaram às portas de Paris, as mulheres pegaram em armas e formaram até o seu próprio batalhão. Muitas deram o seu último suspiro nas barricadas. A propaganda burguesa converteu-as em objeto dos ataques mais desapiedados, acusando-as de ter incendiado a cidade durante os confrontos e atribuindo-lhe o nome depreciativo les pétroleuses.

Centralizar ou descentralizar?

A Comuna queria estabelecer uma autêntica democracia. Era um projeto ambicioso e difícil. A soberania popular a que aspiravam os revolucionários implicava a participação do maior número possível de cidadãos.

Em finais de março surgiram em Paris uma miríade de comissões centrais, sub-comités de bairro, clubes revolucionários e batalhões de soldados que flanqueavam o duopólio já complexo composto pelo Conselho da Comuna e pelo Comité Central da Guarda Nacional. Este último, de facto, tinha conservado o controlo do poder militar, operando amiúde como um verdadeiro contrapoder do primeiro. Se o compromisso direto de uma grande parte da população constituía uma garantia democrática vital, a multiplicidade de autoridades no terreno complicava o processo de tomada de decisões e tornava tortuosa a aplicação dos decretos.

O problema da relação entre a autoridade central e os organismos locais produziu vários curto-circuitos, o que resultou numa situação caótica e muitas vezes paralisante. O já precário equilíbrio entrou em colapso quando, face à emergência da guerra, à indisciplina presente nas fileiras da Guarda nacional e a uma crescente ineficácia da ação governamental, Jules Miot propôs a criação de um Comité de Salvação Pública de cinco membros – uma solução inspirada no modelo ditatorial de Maximilien Robespierre de 1793. A medida foi aprovada a um de maio por 45 votos a favor e 23 contra. Foi um erro dramático que decretou o princípio do fim de uma experiência política inédita e dividiu a Comuna em dois blocos opostos. Ao primeiro pertenciam os neo-jacobinos e blanquistas, partidários da concentração do poder e, em última instância, da primazia da dimensão política sobre a social. O segundo incluía a maioria dos membros da AIT para os quais o âmbito social era mais importante do que o político. Consideravam necessária a separação de poderes e acreditavam que a república nunca devia por em causa as liberdades políticas. Coordenados pelo infatigável Eugène Varlin, tornaram pública a sua clara rejeição das derivas autoritárias e não participaram na eleição do Comité de Salvação Pública. Para eles, o poder centralizado nas mãos de um punhado de indivíduos contradizia os postulados da Comuna. Os eleitos não eram detentores de soberania – esta pertencia ao povo – e portanto não tinham direito de aliená-la. A 21 de maio, quando a minoria participou novamente numa sessão do Conselho da Comuna, fez-se uma nova tentativa de reestabelecer a unidade no seu seio. Mas já era demasiado tarde.

A Comuna, sinónimo de revolução

A Comuna de Paris foi reprimida com violência brutal pelos exércitos de Versailles. Durante a chamada “semana sangrenta” (de 21 a 28 de maio) foram mortos entre 17.000 e 25.000 cidadãos. Os últimos confrontos tiveram lugar junto aos muros do cemitério de Père-Lachaise. O jovem Arthur Rimbaud descreveu a capital francesa como uma “cidade dolorosa, quase morta”. Foi o massacre mais violento da história de França. Apenas 6.000 comunnards conseguiram escapar e refugiar-se no exílio na Inglaterra, Bélgica e Suíça. Foram feitos 43.522 prisioneros. Uma centena deles foram condenados à morte depois de julgamentos sumaríssimos dos Conselhos de Guerra, enquanto outros 13.500 foram enviados para a prisão, condenados a trabalhos forçados ou deportados (em boa parte especialmente na remota Nova Caledónia). Alguns deles solidarizaram-se e compartilharam a mesma sorte que os insurgentes argelinos que tinham liderado a revolta anti-colonial de Mokrani, que aconteceu ao mesmo tempo que a Comuna e que também foi esmagada violentamente pelas tropas francesas.

O espetro da Comuna intensificou a repressão anti-socialista em toda a Europa. Justificando a violência estatal sem precedentes exercida por Thiers, a imprensa conservadora e liberal acusou os communards dos piores crimes e expressou grande alívio pela restauração da “ordem natural” e da legalidade burguesa, assim como satisfação pelo triunfo da “civilização” sobre a “anarquia”.

Aqueles que se tinham atrevido a questionar a autoridade e a atacar os privilégios da classe dominante foram castigados de maneira exemplar. As mulheres voltaram a ser consideradas seres inferiores e os trabalhadores, com as suas mãos sujas e cheias de calos, que se tinham atrevido a pensar que podiam governar, foram devolvidos aos lugares que lhe eram destinados na sociedade.

Contudo, a revolução parisiense deu força às lutas dos trabalhadores e empurrou-as para posições mais radicais. No seguimento da sua derrota, Eugène Pottier escreveu uma canção destinada a converter-se na mais famosa do movimento operário. Os seus dizem “Groupons-nous, et demain, L’Internationale sera le genre humain!” Paris tinha demonstrado que era necessário perseguir o objetivo de construir uma sociedade radicalmente diferente da capitalista. A partir desse momento, ainda que “o tempo das cerejas” nunca tenha chegado para os seus protagonistas (segundo o título da célebre canção composta pelo communard Jean Baptiste Clément), a Comuna encarnou a ideia abstrata e a transformação concreta ao mesmo tempo. Converteu-se em sinónimo do próprio conceito de revolução, foi uma experiência ontológica da classe trabalhadora. Em “A Guerra Civil em França”, Marx afirmou que esta “vanguarda do proletariado moderno” conseguiu “aproximar os trabalhadores de todo o mundo à França”. A Comuna de Paris mudou a consciência dos trabalhadores e a sua perceção coletiva. Depois de 150 anos, a sua bandeira vermelha continua desfraldada e recorda-nos que é sempre possível uma alternativa. Vive la Commune!

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Por Rosa Luxemburgo

Quando o seu nome foi mencionado, em agosto de 1893, para a presidência da assembleia, no Congresso da Segunda Internacional em Zurique, Rosa Luxemburgo ocupou o seu lugar sem demora, face ao público de delegados e militantes que enchia o abarrotado salão.

Era uma das poucas mulheres presentes na assembleia, ainda muito jovem, de estatura pequena e com uma deformação na anca que a obrigava a coxear desde os cinco anos. A sua aparência pareceu despertar entre os presentes a impressão de estar face a uma pessoa frágil.

A questão nacional

Sem dúvida, surpreendeu toda a gente quando, depois de subir a uma cadeira para se fazer ouvir melhor, conseguiu chamar a atenção de todo o público, surpreendido com a mestria da sua dialética e fascinado com a originalidade das suas teses.

Para Luxemburgo, de facto, a reivindicação central do movimento operário polaco não deveria ser a construção de uma Polónia independente, como se vinha repetindo unanimemente. A Polónia continuava dividida em três, entre os impérios alemão, austro-húngaro e russo; a sua reunificação era difícil de alcançar mas dever-se-ia apresentar objetivos realistas aos trabalhadores que pudessem gerar lutas práticas em nome de necessidades concretas.

Com um raciocínio que desenvolveu nos anos seguintes, admoestou quem enfatizava o tema nacional, convencida de que a retórica do patriotismo seria utilizada de forma perigosa para debilitar a luta de classes e relegar a questão social para segundo plano. Às muitas opressões sofridas pelo proletariado, não era necessário acrescentar “a sua escravatura à nacionalidade polaca”. Para fazer frente a este obstáculo, Luxemburgo esperava que nascessem auto-governos locais e o fortalecimento da autonomia cultural que, uma vez estabelecido o modo de produção socialista, atuariam como uma barreira para o possível ressurgimento de regurgitações chauvinistas e outras novas discriminações. Através destas reflexões, diferenciou a questão nacional da do Estado nacional.

Uma existência a contra-corrente

O episódio do Congresso de Zurique simboliza toda a biografia intelectual daquela que foi um dos expoentes mais significativos do socialismo do século XX. Nascida há 150 anos, a cinco de março de 1871, em Zamość, na Polónia sob ocupação tzarista, Luxemburgo passou toda a sua vida nas margens, lutando contra numerosas adversidades e sempre a contra-corrente. De origem judaica, com uma disfunção permanente, mudou-se aos 26 anos para a Alemanha, onde apenas conseguiu obter a cidadania através de um casamento combinado.

Pacifista convicta na época da Primeira Guerra Mundial, foi encarcerada várias vezes por causa das suas ideias. Foi uma inimiga ardente do imperialismo numa nova e violenta época colonial. Lutou contra a pena de morte no meio da barbárie. Sobretudo, era mulher e viveu em mundos habitados exclusivamente por homens. Amiúde era a única presença feminina tanto na Universidade de Zurique, onde obteve o seu doutoramento em 1897 com uma tese sobre o desenvolvimento industrial da Polónia, como entre os líderes do Partido Social-Democrata Alemão. Foi a primeira mulher a ser professora da escola central para a formação de quadros do partido, cargo ocupou entre 1907 e 1914, período durante o qual elaborou o projeto que deixou por concluir de escrever uma Introdução à Economia Política (1925) e publicou A Acumulação do Capital (1913).

A estas dificuldades somava-se o seu espírito independente e a sua autonomia, virtude que frequentemente penaliza, até nos partidos políticos de esquerda. Com a sua viva inteligência, Luxemburgo teve a capacidade de elaborar novas ideias e da saber defendê-las, sem reverências submissas e, de facto, com uma franqueza desarmante, em presença de figuras do calibre de August Bebel ou de Karl Kautsky, que tinham tido o privilégio de se formar em contacto direto com Engels. O seu objetivo não era repetir as palavras de Marx mas interpretá-las historicamente e, quando fosse necessário, desenvolver a sua análise. Expressar livremente a sua opinião e exercer o direito a expressar posições críticas dentro do partido eram requisitos indispensáveis para ela. O partido tinha de ser um espaço onde pudessem conviver diferentes posições, sempre que os seus filiados compartilhassem os seus princípios fundamentais.

Partido, greve, revolução

Conseguiu superar os numerosos obstáculos que foi encontrando e, devido à viragem reformista de Eduard Bernstein e ao acalorado debate que se seguiu, converteu-se numa figura conhecida na principal organização do movimento operário europeu. Se no famoso texto Os pressupostos do socialismo e as tarefas da social-democracia (1897-99), Bernstein tinha convidado o partido a romper as pontes com o passado e a transformar-se em mera força gradualista, no escrito Reforma Social ou Revolução? (1898-99), Luxemburgo respondeu com firmeza que, em todos os períodos da historia, “a obra de reforma social move-se apenas na direção e durante o tempo que corresponde ao empurrão que lhe deu a última revolução”. Aqueles que acreditavam que podiam conseguir no “galinheiro do parlamentarismo burguês” as mesmas mudanças que a conquista revolucionária do poder político teria tornado possíveis, não tinha escolhido “um caminho mais tranquilo e seguro em direção ao mesmo objetivo, mas outro caminho diferente”. Tinham aceitado o mundo burguês e a sua ideologia.

Não se tratava de melhorar a ordem social existente, mas de construir uma completamente diferente. O papel dos sindicatos – que apenas podiam arrancar aos patrões condições mais favoráveis dentro do modo de produção capitalista – e a Revolução Russa de 1905 deram-lhe a oportunidade de meditar sobre quais podiam ser os sujeitos e as ações capazes de produzir uma transformação radical da sociedade. No seu livro Greve Geral, Partido e Sindicatos (1906), ao analisar os principais acontecimentos que tiveram lugar em vastas áreas do Império Russo, enfatizou a importância fundamental dos estratos mais amplos do proletariado, geralmente desorganizados. Para ela, as massas eram as verdadeiras protagonistas da história. Observou que na Rússia “o elemento da espontaneidade” (conceito pelo qual é acusada de ter sobrestimado a consciência de classe presente nas massas) tinha sido relevante e, portanto, o papel do partido não devia ser preparar a greve mas sim tomar a “direção política de todo o movimento”.

Para Luxemburgo, a greve de massas é “o pulsar vivo da revolução e, ao mesmo tempo, a sua roda motriz mais potente”. É a verdadeira “forma de manifestação da luta proletária na revolução”. Não é uma ação única, mas o momento decisivo de um longo período de luta de classes. Para além disso, não se pode esquecer que “na agitação do período revolucionário, o proletariado muda, de forma que até o bem mais elevado, a vida, para não dizer o bem-estar material, tem um valor mínimo em comparação com o ideal pelo qual se luta”. Os trabalhadores adquiriam consciência e maturidade. Assim o testemunhavam as greves de massas na Rússia que “sem dar-se conta passaram do terreno económico ao político, de maneira que era quase impossível traçar uma linha divisória entre os dois”.

Comunismo significa liberdade e democracia

No tema das formas de organização política e, mais especificamente, do papel do partido, por essa altura, Luxemburgo foi protagonista de outro conflito violento, desta vez com Lenine. No texto Um passo à frente, dois atrás (1904), o líder bolchevique defendeu as decisões tomadas no segundo congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo e concebeu o partido como o núcleo compacto de revolucionários profissionais, uma vanguarda que devia liderar as massas. Luxemburgo objetou a esta ideia, em Problemas organizativos da Social-Democracia Russa (1904), que um partido centralizado de forma extremada gerava uma dinâmica muito perigosa: “a obediência cega dos militantes à autoridade central”. O partido devia desenvolver a participação social, não reprimi-la, “manter viva a apreciação justa das formas de luta”. Marx escreveu que “cada passo do movimento real é mais importante do que uma dezena de programas”. Luxemburgo ampliou este postulado e afirmou que “os passos em falso do movimento operário real são, historicamente, incomensuravelmente mais frutíferos e mais preciosos do que a infalibilidade do melhor comité central”.

Esta controvérsia adquiriu ainda maior importância depois da revolução soviética de 1917, à qual Luxemburgo deu o seu apoio incondicional. Preocupada pelos acontecimentos russos (a partir da forma como se iniciou a reforma agrária), Luxemburgo foi a primeira, no campo comunista, a observar que “um regime de estado de sítio prolongado” tinha exercido “uma influência degradante na sociedade”. No seu artigo póstumo A Revolução Russa (1918), reiterou que a missão histórica do “proletariado que chegou ao poder” é “criar uma democracia socialista no lugar da democracia burguesa, não destruir toda a forma de democracia”.

Para ela, o comunismo significava “uma participação mais ativa e mais livre das massas populares numa democracia sem limites” que não contava com líderes infalíveis que as guiassem. Um horizonte político e social verdadeiramente diferente apenas podia ser alcançado através deste complicado processo e sem que o exercício da liberdade estivesse “reservado exclusivamente aos partidários do governo e aos membros de um partido único”.

Estava firmemente convencida de que “o socialismo, pela sua natureza, não se pode decretar a partir de cima”. Este era “território virgem” e apenas “a partir da experiência se poderia corrigir e abrir novos caminhos”. A Liga Espartaquista – nascida em 1914, depois da ruptura com o Partido Social-Democrata Alemão, que logo se iria converter em Partido Comunista Alemão – apenas tomaria o poder “medidante a vontade clara e inquestionável da grande maioria das massas proletárias de toda a Alemanha”.

A partir da prática de opções políticas opostas, os social-democratas e os bolcheviques tinham concebido erroneamente a democracia e a revolução como dois processos mutuamente alternativos. Pelo contrário, o coração da teoria política de Luxemburgo centrou-se na sua unidade indissolúvel. O seu legado ficou esmagado precisamente entre estas duas forças: os social-democratas, cúmplices do seu brutal assassinato, ocorrido aos 47 às mãos das milícias paramilitares, combateram-na sem piedade devido ao tom revolucionário das suas reflexões; enquanto os estalinistas não difundiram o seu legado devido ao carácter crítico e libertário do seu pensamento.

Contra o militarismo, a guerra e o imperialismo

A outra pedra angular das suas convicções e militância foi a combinação da oposição à guerra com a agitação antimilitarista. Nestes temas, Luxemburgo pôde modernizar a bagagem teórica da esquerda e fazer com que nos congressos da Segunda Internacional fossem aprovadas resoluções clarividentes que, se não tivessem sido ignoradas, teriam entorpecido os planos tramados pelos partidários da Primeira Guerra Mundial.

A função dos exércitos, o constante rearmamento e a repetição de guerras que não deviam ser entendidas apenas mediante as categorias clássicas do século XIX. Tratava-se, como se tinha afirmado repetidamente, de forças que reprimiam as lutas operárias, ferramentas úteis para os interesses da reação e que, para além disso, produziam divisões no proletariado, mas que também respondiam a uma finalidade económica precisa da época. O capitalismo necessitava do imperialismo e da guerra, até em tempos de paz, para aumentar a produção, bem como para conquistar, enquanto as condições fossem adequadas, novos mercados nas periferias coloniais fora da Europa. Como escreveu em A Acumulação do Capital, “a violência política é apenas o veículo do processo económico”. A esta afirmação seguiu-se uma das teses mais controversas da sua obra, a saber, que o rearmamento era fundamental para lidar com a expansão produtiva do capitalismo.

Era um cenário muito diferente das representações otimistas dos reformistas e, para descrevê-lo melhor, Luxemburgo utilizou um slogan destinado a ter muito êxito: “socialismo ou barbárie”. Explicou que esta apenas podia evitar-se graças à luta consciente das massas e, dado que a oposição ao militarismo requeria uma forte consciência política, estava entre os mais acérrimos partidários da greve geral contra a guerra – uma arma que muitos na esquerda, Marx incluído, tinham subestimado. O tema da defesa nacional devia ser utilizado contra os novos cenários bélicos e o lema “guerra contra a guerra” converter-se-ia no “núcleo da política proletária”.

Como escreveu em A crise da social-democracia (1916), também conhecido como Juniusbroschüre, a Segunda Internacional tinha implodido por não poder “levar a cabo uma tática e uma ação comum do proletariado em todos os países”. Assim, a partir desse momento, o proletariado devia ter como “objetivo principal”, mesmo em tempos de paz, “lutar contra o imperialismo e prevenir as guerras”.

Sem perder a ternura

Cosmopolita, cidadã “do que virá”, assegurou sentir-se como em casa “em todo o mundo, onde quer que haja nuvens e pássaros e lágrimas humanas”. Apaixonada da botânica e amante dos animais, como se depreende da leitura da sua correspondência, foi uma mulher de extraordinária sensibilidade, que conservou intacta apesar das amargas experiências que a vida lhe reservou. Para a co-fundadora da Liga Espartaquista, a luta de classes não acabava com o aumento dos salários. Luxemburgo não queria ser um mero epígono e o seu socialismo nunca foi economicista.

Imersa nos dramas do seu tempo, procurou inovar o marxismo sem questionar os seus fundamentos. A sua tentativa é uma advertência constante para as forças da esquerda para que não limitem a sua ação política à consecução de paliativos suaves e não renunciem às ideias de mudar o estado de coisas existente. A forma como viveu, a habilidade com a qual conseguiu levar a cabo em paralelo a sua elaboração teórica e a agitação social, são uma lição extraordinária, inalterada pelo tempo, que fala a uma nova geração de militantes que optou por continuar as múltiplas batalhas que Luxemburgo empreendeu.

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O maior contributo de Marx hoje? ‘É ajudar-nos a fazer as perguntas certas’

Após a pandemia, repetiu-se até à exaustão: “Nada voltará a ser o mesmo”.

Depois, com o tempo, apercebemo-nos de que as mudanças que estão a ocorrer são numerosas e profundas, sim, mas também o são as constâncias. Hoje diz-se que a pandemia atua como revelador, ou até como acelerador de processos pré-existentes. Um deles é o crescimento das desigualdades. Será Marx ainda indispensável para compreender os seus fatores, a sua forma, o seu possível contraste? Giulio Azzolini, Investigador de Filosofia Política na Universidade Ca’ Foscari em Veneza, fala sobre isto com Marcello Musto, Professor de Sociologia na Universidade de York em Toronto e protagonista reconhecido de uma recente renovação nos estudos marxistas, para a qual contribuiu, entre outras coisas, como autor do recente Os últimos anos de Marx. Uma biografia intelectual (Parsifal, 2020) e Another Marx: Early Manuscripts to the International (Bloomsbury, 2018); e, como editor, Marx’s Capital after 150 Years: Critique and Alternative to Capitalism, (Routledge, 2019), The Marx Revival: Key Concepts and New Interpretations (Cambridge University Press, 2020). Os seus escritos estão disponíveis no website www.marcellomusto.org.

 

Giulio Azzolini: Professor Musto, o que podemos aprender com Marx nesta época de crise pandémica?

A pandemia agravou o conflito, que amadureceu ao longo dos anos, entre os Estados Unidos e a China e, na UE, entre os vários Estados Membros. Será um choque entre diferentes formas de capitalismo organizado?

É uma tendência destinada a continuar e noto que entre os países mais afetados pela Covid-19 estão, como esperado, os Estados Unidos e a Inglaterra, as nações que lideraram a cruzada para a privatização e cujo modelo de capitalismo impediu o desenvolvimento do Estado-Providência ou o desmantelou ferozmente. Se olharmos para além da superfície, existe um conflito ainda mais importante. Refiro-me à luta para impedir a redistribuição da riqueza que, nas últimas décadas, tem sido ganha pelo capital.

 

Marx não previu o empobrecimento do proletariado, mas o aumento das desigualdades de classe. Estará a história a provar que ele tem razão?

Sim, e de forma ainda mais impressionante se analisarmos o enorme fosso, não só económico, que existe à escala global. Marx, por exemplo, compreendeu que o colonialismo britânico na Índia implicaria principalmente a pilhagem dos seus recursos naturais e novas formas de escravatura, e não o progresso anunciado pelos seus apologistas. Por outro lado, enganou-se sobre o papel revolucionário da classe trabalhadora europeia. Ele percebeu isto nos últimos anos da sua vida, quando afirmou amargamente que os proletários britânicos tinham preferido tornar-se “a cauda dos seus próprios escravizadores”.

 

O impacto económico da pandemia varia muito de país para país. Muitas empresas entraram em colapso, os gigantes da web não. Os trabalhadores precários perderam os seus empregos, os trabalhadores permanentes não. Alguns comerciantes fecharam, outros não. Poderá Marx ajudar a decifrar uma sociedade cada vez mais complexa e caótica?

A sua análise das classes sociais precisa de ser atualizada e a sua teoria da crise, entre outras coisas incompleta, é filha de um outro tempo. Se as respostas a muitos dos problemas contemporâneos não podem ser encontradas em Marx, no entanto, ele assinala as perguntas essenciais. Penso que esta é hoje a sua maior contribuição: ele ajuda-nos a fazer as perguntas certas, a identificar as principais contradições. Penso que isto não é insignificante.

 

A crise atual reabriu a questão da desigualdade de género. Será que Marx tem algo a ensinar-nos sobre o assunto?

Mais do que ensinar, acredito que sobre este assunto estaria hoje empenhado em aprender, em particular com o novo movimento feminista na América Latina, que é o protagonista de importantes mobilizações sociais. Certamente não era, como por vezes erradamente se afirma, indiferente a este respeito. Entre os estudos que realizou antes da sua morte, focou precisamente a importância da igualdade de género, e nos seus programas políticos repetiu várias vezes que a libertação da classe produtiva era a de “todos os seres humanos, sem distinção de sexo e raça”. Tinha aprendido quando jovem, com os livros dos primeiros socialistas franceses, que o nível de emancipação geral de uma sociedade pode ser avaliado pelo da emancipação das mulheres.

 

No meio da crise sanitária, a batalha pela igualdade étnica também rebentou nos Estados Unidos. Uma coincidência fortuita?

Sim, mas é muito útil e revela outra ferida terrível que existe naquele país. O #BlackLivesMatter não é um fenómeno passageiro, mas um movimento que continuará a lutar resolutamente contra o racismo e a violência nas instituições americanas.

 

Passemos agora à questão da ligação entre as lutas de classe e as lutas ambientais. Do seu ponto de vista, são alternativas, complementares, são hierárquicas?

São complementares e mutuamente indispensáveis. Elas precisam uma da outra. As críticas à exploração do trabalho e à devastação ambiental são agora indissolúveis. Qualquer luta que esqueça qualquer um destes termos será incompleta e menos eficaz. Refiro-me às posições produtivistas do movimento operário do século XX e aos movimentos ambientais que muitas vezes ignoram o fator determinante do “modo de produção”. O quê, como e para quem é produzido são questões estritamente ligadas ao fator determinante da propriedade dos meios de produção.

 

Como sublinha nos seus estudos, Marx não foi apenas o filósofo da revolução comunista, mas também o político capaz de fornecer ao movimento operário uma organização internacional. Em que medida é esta lição da sua ainda relevante?

É uma ideia sem a qual estamos condenados à derrota, especialmente numa fase de recrudescimento nacionalista. O internacionalismo também significa solidariedade entre trabalhadores nativos e migrantes e Marx, que estudou cuidadosamente as migrações forçadas geradas pelo capitalismo, mostrou que a divisão da classe trabalhadora é o eixo da dominação burguesa. O internacionalismo deve voltar a ser um dos pilares da esquerda para que seja capaz de liderar a batalha das ideias a longo prazo e não apenas em função do imediato.

 

Em 2018, a China celebrou o bicentenário de Marx com grande pompa e circunstância. No Ocidente, está o filósofo de Trier destinado a sobreviver como mero objeto de estudo ou ainda é potencialmente capaz de mover as massas?

A China utiliza a efígie de Marx, ignorando alguns dos seus avisos mais relevantes e frequentemente evitando a leitura do conteúdo dos seus textos. Estaline também o fez, quando no tempo do gulag ele próprio se fez fotografar, com um rosto tranquilizador, sob o retrato de Marx. No Ocidente, Marx reapareceu nas aulas da universidade, mas não terá a influência política que teve na época dos partidos “marxistas”. As novas subjetividades políticas que no futuro terão a ambição de repensar uma sociedade alternativa não poderão, no entanto, ignorar as suas teorias.

 

Hoje a esquerda italiana está a pagar o preço por ter defendido o marxismo para além da sua data de validade ou por tê-lo abandonado?

Paga o preço por cometer ambos os erros. Primeiro foi demasiado lenta a identificar as mudanças necessárias para enfrentar a metamorfose do capitalismo e para responder às questões colocadas pelos novos movimentos sociais. E depois foi míope ao abandonar, em vez de rever e modernizar criticamente, uma interpretação ainda muito válida da sociedade. Basta pensar em Gramsci, abandonado no sótão justamente quando foi protagonista de uma extraordinária redescoberta no mundo. Contudo, as contradições geradas pelo capitalismo não eram há muito tão dramáticas e evidentes como são hoje. A história da esquerda não acabou.

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Friedrich Engels foi mais do que um segundo violino para Karl Marx

Friedrich Engels comemora hoje seu aniversário de 200 anos. Devemos lembrar a profunda influência exercida por ele sobre seu camarada, Karl Marx, bem como suas próprias contribuições jornalísticas e teóricas para formular a estratégia da revolução socialista pelas ruas e urnas ao mesmo tempo.

Friedrich Engels compreendeu, antes mesmo de Karl Marx, a centralidade da crítica da economia-política. Na verdade, quando os dois radicais começaram a se conhecer, Engels havia publicado muito mais artigos sobre este assunto do que seu amigo.

Nascido há 200 anos, no dia 28 de novembro de 1820, em Barmen, Alemanha (hoje um subúrbio de Wuppertal), Friedrich Engels era um jovem promissor. Seu pai, um industrial têxtil, negou-lhe a oportunidade de estudar na universidade. Em vez disso, orientou seu filho no meio de sua empresa. Engels, um ateu, era autodidata e tinha um apetite voraz por conhecimento. Ele assinava seus artigos com um pseudônimo para evitar conflitos com sua família conservadora e fortemente religiosa.

Os dois anos que passou na Inglaterra – para onde foi encaminhado aos 22 anos de idade para trabalhar em Manchester nos escritórios da algodoeira Ermen & Engels –, foram decisivos para o amadurecimento de suas convicções políticas. Foi lá que ele observou pessoalmente os efeitos da exploração capitalista sobre o proletariado, da propriedade privada e da competição entre indivíduos. Ele fez contato com o movimento cartista e se apaixonou pela trabalhadora irlandesa, Mary Burns, que desempenhou um papel fundamental em seu desenvolvimento. Engels era um jornalista brilhante. Ele publicou relatos na Alemanha sobre as lutas sociais inglesas, além de escrever para a imprensa de língua inglesa sobre os avanços sociais em curso no continente. O artigo “Esboços de uma crítica à economia política”, publicado nos Anuários franco-alemães em 1844, despertou grande interesse em Marx, que na época decidira dedicar todas as suas energias ao mesmo assunto. Os dois iniciaram uma colaboração teórica e política que duraria o resto de suas vidas.

A influência de Engels
Em 1845, Engels publicou seu primeiro livro em alemão, The Condition of the Working Class in England (A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra). Como enfatizava o subtítulo, esse trabalho se baseava “na observação direta e em fontes genuínas”. Engels escreveu no prefácio que o conhecimento real das condições de trabalho e de vida do proletariado era “absolutamente necessário, pois será capaz de fornecer uma base sólida para as teorias socialistas”. Em sua dedicatória introdutória, “Para a classe trabalhadora da Inglaterra”, Engels destacou ainda que seu trabalho “no campo” deu a ele de modo direto e não abstrato, “conhecimento da vida real dos trabalhadores”. Nunca foi discriminado ou “tratado por eles (trabalhadores) como estrangeiro” e ficou feliz ao ver que estavam livres da “terrível maldição da estreiteza e arrogância nacional”.

No mesmo ano em que o governo francês expulsou Marx por causa de suas atividades comunistas, Engels o seguiu até Bruxelas. Lá, eles publicaram seu primeiro livro juntos, The Holy Family or Critique of Critical Criticism. Against Bruno Bauer and Company (A sagrada família: ou a crítica da Crítica crítica: contra Bruno Bauer e consortes) além de também produziram um volumoso manuscrito não publicado – The German Ideology (A Ideologia Alemã) – que foi deixado para a “crítica corrosiva de ratos ”. No mesmo período, Engels foi à Inglaterra com seu amigo e mostrou a Marx em primeira mão o que ele havia visto e compreendido anteriormente sobre o modo de produção capitalista. Foi então que Marx desistiu da crítica à filosofia pós-hegeliana e deu início à longa jornada que conduziu, vinte anos depois, ao primeiro volume de O capital. Os dois amigos também escreveram em 1848 o Manifesto of the Communist Party (Manifesto do Partido Comunista) e participaram das atividades revolucionárias no mesmo ano.

Em 1849, após a derrota da revolução, Marx foi forçado a se mudar para a Inglaterra, e Engels logo cruzou o canal atrás dele. Marx alojou-se em Londres, enquanto Engels foi cuidar dos negócios da família em Manchester, a cerca de trezentos quilômetros de distância. Ele havia se tornado, como ele disse, o “segundo violino” para Marx, e para sustentar e ajudar seu amigo (que frequentemente estava sem renda), ele concordou em gerenciar a fábrica de seu pai em Manchester, até 1870.

As correspondências de Marx e Engels
Durante essas duas décadas, os dois homens viveram o período mais intenso de suas vidas, trocando textos sobre os principais acontecimentos políticos e econômicos da época. A maioria das 2.500 cartas trocadas datam de 1849 a 1870, período em que também enviaram cerca de 1.500 correspondências para ativistas e intelectuais em quase 20 países. A este total imponente deveriam ser acrescentadas umas boas 10.000 cartas de terceiros a Engels e Marx, e outras 6.000 que, embora não sejam mais rastreáveis, são conhecidas como tendo existido. Essa correspondência é um tesouro, contendo ideias que, em alguns casos, nem Marx nem Engels conseguiram desenvolver plenamente em seus escritos.

Poucas correspondências do século XIX podem ostentar referências tão eruditas quanto aquelas que fluíram das canetas dos dois revolucionários comunistas. Marx lia nove línguas e Engels dominava até doze. Suas cartas são impressionantes por sua constante troca de línguas e pelo número de citações eruditas, incluindo o latim e o grego. Os dois humanistas também eram grandes amantes da literatura. Marx sabia de cor passagens de Shakespeare e nunca se cansava de folhear seus volumes de Ésquilo, Dante e Balzac. Engels foi por muito tempo presidente do Instituto Schiller em Manchester e adorava Aristoteles, Goethe e Lessing. Junto com a discussão constante sobre acontecimentos internacionais e possibilidades revolucionárias, muitos de seus intercâmbios concernentes aos principais avanços contemporâneos em tecnologia, geologia, química, física, matemática e antropologia. Marx sempre considerou Engels um interlocutor indispensável, consultando seu espírito crítico sempre que precisava se posicionar sobre um assunto polêmico.

Além de grandes companheiros intelectuais, a relação sentimental entre os dois homens era ainda mais extraordinária. Marx confiou a Engels todas as suas dificuldades pessoais, a começar pelas terríveis privações materiais e os numerosos problemas de saúde que o atormentaram durante décadas. Engels demonstrou total abnegação em ajudar Marx e sua família, sempre fazendo tudo ao seu alcance para garantir-lhes uma existência digna e para facilitar a realização do O Capital. Marx sempre foi grato por essa ajuda financeira, como podemos ver pelo que ele escreveu uma noite em agosto de 1867, poucos minutos depois de ter terminado de corrigir as provas do Volume I: “Eu só devo a você que isso tenha sido possível”.

As contribuições teóricas de Engels
Durante esses 20 anos, porém, Engels nunca parou de escrever. Em 1850, ele publicou A Guerra do Camponês na Alemanha, uma história das revoltas em 1524-25. Lá, Engels procurou mostrar como o comportamento da classe média da época era semelhante ao da pequena burguesia durante a revolução de 1848-49, e quão responsável tinha sido pelas derrotas sofridas.

Para permitir que Marx dedicasse mais tempo à conclusão de seus estudos econômicos, entre 1851 e 1862, Engels também escreveu quase metade dos quinhentos artigos que Marx contribuiu para o New-York Tribune (o jornal com maior circulação nos EUA). Ele informou ao público norte-americano sobre o curso e os possíveis resultados das muitas guerras que ocorreram na Europa. Em mais de uma ocasião conseguiu antever desenvolvimentos e antecipar as estratégias militares utilizadas nas diversas frentes, ganhando para si o apelido com que era conhecido entre seus camaradas: “o General”. Sua atividade jornalística continuou por um longo tempo, e em 1870-71 ele publicou suas “Notas sobre a Guerra Franco-Prussiana”, uma série de 60 artigos para o diário inglês Pall Mall Gazette analisando os eventos militares anteriores à Comuna de Paris. Estes foram bem recebidos e testemunharam sua perspicácia em assuntos militares.

Nos quinze anos seguintes, Engels fez suas principais contribuições teóricas em uma série de escritos dirigidos contra oponentes políticos do movimento operário. Entre 1872 e 1873, ele escreveu uma série de três artigos para o Volksstaat que também foram lançados, como um panfleto, com o título The Housing Question (A questão da habitação). A intenção de Engels era se opor à disseminação das ideias de Pierre-Joseph Proudhon na Alemanha e deixar claro aos trabalhadores que as políticas reformistas não poderiam substituir uma revolução proletária. O Anti-Dühring, publicado em 1878, que ele descreveu como “uma exposição mais ou menos conectada do método dialético e da visão de mundo comunista”, tornou-se um ponto de referência crucial para a formação da doutrina marxista.

Embora os esforços de Engels para popularizar Marx – polemizando com outras leituras simplistas – devam ser distinguidos das vulgarizações da geração posterior da social-democracia alemã, seu recurso às ciências naturais abriu o caminho para uma concepção evolucionária dos fenômenos sociais que diminuiu as nuances das análises de Marx. Socialism: Utopian and Scientific (1880) (Do socialismo utópico ao cientifico), uma reformulação de três capítulos do Anti-Dühring, teve um impacto ainda maior do que o texto original. Mas, apesar de seus méritos, e do fato de ter circulado quase tão amplamente quanto o Manifesto do Partido Comunista, as definições de Engels de “ciência” e “socialismo científico” seriam posteriormente usadas pela vulgata marxista-leninista para impedir qualquer discussão crítica sobre as teses dos “fundadores do comunismo”.

A Dialética da Natureza, fragmentos de um projeto em que Engels trabalhou esporadicamente entre 1873 e 1883, tem sido objeto de grande polêmica. Para alguns, foi a pedra angular do marxismo, enquanto para outros foi o principal culpado pelo nascimento do dogmatismo soviético. Hoje deve ser lido como uma obra incompleta, revelando as limitações de Engel, mas também o potencial contido em sua crítica ecológica. Embora o uso da dialética ali certamente tenha reduzido a complexidade teórica e metodológica do pensamento de Marx, seria incorreto responsabilizá-lo –como muitos fizeram – por tudo o que acham desagradável nos escritos de Marx, ou culpar Engels somente por erros teóricos ou mesmo derrotas políticas.

Em 1884, Engels publicou Origens da Família, da Propriedade Privada e do Estado, uma análise dos estudos antropológicos realizados pelo norte-americano Lewis Morgan. Morgan havia descoberto que as relações matriarcais precediam historicamente as relações patriarcais. Para Engels, esta foi uma revelação tão importante sobre as origens da humanidade quanto “a teoria de Darwin era para a biologia e a teoria da mais-valia de Marx para a economia política”. A família já continha os antagonismos que mais tarde se desenvolveriam na sociedade e no Estado. A primeira classe de opressão a aparecer na história da humanidade “coincidiu com a opressão do sexo feminino pelo masculino”. No que diz respeito à igualdade de gênero, assim como às lutas anticoloniais, Engels nunca hesitou em defender a causa da emancipação. Finalmente, em 1886, ele publicou uma obra polêmica que visava o ressurgimento do idealismo nos círculos acadêmicos alemães, Ludwig Feuerbach e O Fim da Filosofia Alemã Clássica (1886).

Lendo Engels em 2020
Engels sobreviveu a Marx por doze anos. Durante esse tempo, ele se dedicou ao patrimônio literário de seu amigo e à liderança do movimento internacional dos trabalhadores. Sua enorme contribuição para o crescimento dos partidos operários na Alemanha, França e Grã-Bretanha é evidente em uma série de artigos jornalísticos que escreveu para os principais jornais socialistas da época, incluindo Die Neue Zeit, Le Socialiste e Critica Sociale, em saudações aos congressos do partido, bem como as centenas de cartas que escreveu neste período. Engels escreveu extensivamente sobre o nascimento e os debates em andamento a respeito da Segunda Internacional, cujo congresso de fundação ocorreu em 14 de julho de 1889. Ainda mais importante, ele dedicou suas energias à difusão do marxismo.

Engels foi encarregado da tarefa extremamente difícil de preparar para publicação os rascunhos dos Volumes II e III do Capital que Marx não conseguiu concluir. Ele também supervisionou novas edições de obras publicadas anteriormente, uma série de traduções e escreveu prefácios e posfácios para várias republicações das obras de Marx. Em uma nova introdução às Lutas de Classe na França (1850), composta alguns meses antes de sua morte, Engels elaborou uma teoria da revolução que tentou se adaptar ao novo cenário político na Europa. O proletariado tornou-se a maioria social, argumentou, e a perspectiva de tomar o poder por meios eleitorais – com sufrágio universal – tornava possível defender a revolução e a legalidade ao mesmo tempo.

Diferente dos sociais-democratas alemães, que manipulavam seu texto em um sentido legalista e reformista, Engels insistia que a “luta nas ruas” ainda tinha seu lugar na revolução. A revolução, continuou Engels, não poderia ser concebida sem a participação ativa das massas, e isso exigia “um longo e paciente trabalho”. Ler Engels hoje, 200 anos depois de seu nascimento, nos enche com o desejo de trilhar o caminho que ele abriu.