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Maurício Vieira Martins, Marxismo21

O escritor japonês Kohei Saito vendeu cerca de meio milhão de cópias em seu país com o livro O capital no antropoceno, que analisa a partir de uma perspectiva marxista as causas que promovem a aguda deterioração ambiental do planeta. Já o periódico alemão conservador Der Spiegel, na sua última edição de 2022, traz na capa um Marx de visual contemporâneo (com mangas curtas e braços tatuados…) e estampa a pergunta: “Afinal, Marx estava certo?”. Estes são apenas alguns exemplos de uma retomada do interesse pela obra de Marx que
vem ocorrendo no século XXI, a partir das evidências muito contundentes da gravidade das contradições da economia capitalista. Também no Brasil a produção de livros marxistas encontra um espaço próprio, ao qual vem se somar a recente tradução para o português do livro Repensar Marx e o Marxismo: guia para novas leituras, de autoria do pesquisador italiano Marcello Musto, professor da York University no Canadá. Dois livros de Musto já haviam sido publicados no Brasil: Trabalhadores, uni-vos!: Antologia política da I Internacional, publicado também pela Boitempo e O velho Marx: Uma biografia de seus últimos anos Boitempo (uma parceria da Boitempo e com a Fundação Perseu Abramo).

O conjunto de temas abordado por Repensar o marxismo é amplo:
dividido em dez capítulos, o livro abrange desde ensaios que se ocupam de alguns momentos determinados da biografia e do pensamento de Marx, como seus anos de juventude (capítulos 1 e 2), passando pelos estudos de economia política e jornalismo na década de 50 para o New-York Tribune (capítulo 4), chegando até o período de redação de O capital (capítulo 7). Há também dois capítulos dedicados à elaboração e posterior repercussão dos Grundrisse e de sua Introdução, famosos rascunhos preparatórios de O capital (capítulos 5 e 6). Além disso, o leitor encontrará um debate sobre a pertinência da oposição entre o chamado jovem Marx e o Marx da maturidade (capítulo 3), debate que encontra desdobramentos na investigação sobre o conceito de alienação (capítulo 8), desde sua apropriação por Marx até as repercussões na sociologia e na filosofia contemporâneas. Já o capítulo 9, “Evitar o capitalismo” discute a primeira recepção de Marx na Rússia, ainda durante sua vida. O livro se encerra no capítulo 10 com uma apresentação das novas descobertas da MEGA² -MarxEngels-Gesamtausgabe -, projeto editorial ainda em curso, responsável pela publicação da obra integral de Marx e Engels.

Dada a amplitude da investigação realizada por Musto, seria impossível comentar no presente texto cada capítulo do livro. Aqui, a opção será destacar alguns aspectos que me parecem particularmente fecundos [1], neste livro que consegue atingir tanto o leitor que tenha um conhecimento apenas inicial de Marx, como aquele que já dispõe de um trajeto na obra do pensador.

No meu entender, o primeiro aspecto a ser destacado diz respeito a uma ampliação da visão sobre qual foi o campo temático pesquisado por Marx ao longo de sua vida. Com efeito, os novos volumes publicados pelo projeto MEGA² nos apresentam um autor que inclui em seus estudos não somente a crítica da economia política e o conflito entre as classes sociais (temas classicamente associados ao nome do pensador alemão), como também outras preocupações que ingressaram com força na agenda teórica e política de homens e mulheres dos séculos XX e XXI. Dentre eles, merece destaque o interesse de Marx pela devastação ambiental levada a cabo pela produção capitalista. Nas palavras de Musto, “Marx se interessou cada vez mais pelo que hoje chamamos de ‘ecologia’, em particular pela erosão do solo e pelo desmatamento” (p. 310). [2]
Diferentemente de um elogio unilateral das forças produtivas – que supõe ingenuamente que o simples desenvolvimento tecnológico associado ao progresso da ciência seria capaz de produzir uma emancipação humana – encontramos em Marx uma preocupação com a devastação da natureza levada adiante pela racionalidade mercantil capitalista. Leitor atento das descobertas das ciências naturais de sua época – como atesta seu interesse pela obra, dentre outros, do cientista e bioquímico Justus von Liebig -, ele escreve em 1868: “o cultivo que, quando progride de maneira primitiva, não conscientemente controlada (obviamente, isso não se consegue sendo burguês), deixa desertos atrás de si” (apud p. 311). Ao invés do culto unilateral do produtivismo, encontramos em Marx a radiografia da destruição ambiental que a lógica do lucro traz em si.

O acesso a uma gama mais ampla de textos de Marx nos mostra também um pensador muito crítico à dominação colonial levada a cabo pela Europa ao redor do mundo. De modo diverso de um Edward Said que no seu célebre livro Orientalismo afirmava que Marx, excessivamente preso à ótica de sua época, não teria conseguido enxergar a alteridade de outras culturas, Musto escreve que “Entre os interesses de Marx, um lugar nada secundário foi ocupado pelo estudo
das sociedades não europeias e do papel destrutivo do colonialismo nas periferias do mundo” (p. 18). Notemos que tal alerta é oportuno tendo em vista que também alguns dos chamados estudos decoloniais mais recentes categorizam Marx como um pensador eurocêntrico, a ser sumariamente despachado para uma espécie de museu dos equívocos cometidos no passado. Todavia, quando se leva em conta principalmente os escritos tardios de Marx sobre, por exemplo, a violenta predação exercida pela Inglaterra sobre a Índia, vemos uma fisionomia bem diferente do pensador, que veicula uma crítica contundente ao próprio modo de produção vigente em sua Europa nativa. Nos Cadernos Etnológicos marxianos podemos ler: “a supressão da propriedade comum do solo não passou de um ato
de vandalismo inglês, que não impulsionou o povo indiano para frente, mas o empurrou para trás” (apud p. 266). Longe de um elogio da cultura europeia, Marx radiografa, no calor da hora, a violência estrutural e constitutiva de seu modo de produção capitalista.

Dito isso, é preciso reconhecer que descoberta de novos rascunhos, manuscritos preparatórios e cartas de Marx e Engels – missivistas contumazes – complexifica de modo considerável o trabalho dos pesquisadores que se dedicam com seriedade à obra dos autores. Basta lembrar que a MEGA² prevê a publicação de 114 volumes (cada um com dois tomos), colocando à disposição do público um material até então inédito. Esta é aliás uma dificuldade adicional para os leitores de Marx e Engels, que se veem diante de uma obra monumental, que simplesmente não cabe nos estreitos escaninhos da atual divisão do trabalho acadêmica, donde a observação: “a obra de Marx é uma gigantesca cultura de teoria crítica, que transita entre inúmeras disciplinas do conhecimento humano, cuja síntese representa uma tarefa árdua para todo leitor rigoroso.” (p.11)

Tal tarefa que se apresenta aos pesquisadores marxistas por vezes faz
pensar, acrescento, na saborosa referência do escritor argentino Jorge Luis Borges ao procedimento do Colégio de Cartógrafos de um Império fictício. Desconhecendo o princípio mais produtivo de uma cartografia – o de que o mapa deve ter uma escala significativamente diferente do objeto a ser mapeado – os cartógrafos produziram um gigantesco “Mapa do Império que tinha o tamanho do Império e coincidia ponto a ponto com ele” [3].  Mas Marcello Musto está bem longe deste perigo: ele consegue ter uma notável capacidade de síntese que lhe permite transitar por um número muito grande de temas biográficos e conceituais dentro da obra de Marx e de alguns de seus sucessores, mantendo sempre uma bússola que assegura o tônus da argumentação ao longo do livro.

Igualmente merecedor de atenção em Repensar Marx e os marxismos
vem a ser a refutação da ideia, amplamente difundida entre os críticos de Marx, de um suposto dogmatismo do autor, como alguém que veicularia certezas definitivas sobre os temas que pesquisa. Também aqui a leitura da correspondência de Marx e dos materiais preparatórios de seus livros nos mostra um pensador que, quando confrontado com limites de seu trabalho, se retifica de modo consistente. A este respeito, as sucessivas modificações que Marx imprimiu ao capítulo 1 de O capital são exemplares: ele se convence que a forma da exposição de fato não estava satisfatória. Em carta a Kugelmann de outubro de 1866, escreve abertamente: “mesmo as pessoas inteligentes não entenderam adequadamente a questão, em outras palavras, deve ter havido defeitos na primeira apresentação” (p. 204)

Mais do que isso, o próprio caráter processual do objeto de seus estudos – o modo de produção capitalista – lhe impunha a atualização permanente de suas teses. Basta lembrar o interesse com que Marx se dedica a estudar os mercados financeiros nos anos finais de sua vida, ciente das transformações que eles traziam para a acumulação capitalista: “Desde o outono de 1868 até a primavera de 1869, determinado a dar conta dos últimos desenvolvimentos do capitalismo, Marx compilou copiosos excertos de textos sobre os mercados financeiros e monetários…” (p. 209). Assim, ao invés de “vestir” a realidade com categorias previamente construídas (e aqui, a meu ver, o contraste com o tipo ideal de Weber é quase palpável), Marx se dedica a construir uma malha categorial que espelhe seu caráter processual e histórico.

Considerações adicionais sobre a disponibilidade de Marx em alterar aqueles tópicos de seu pensamento quando confrontado com questionamentos pertinentes podem ser encontradas no capítulo 9, intitulado “Evitar o capitalismo”. Nele, Musto detalha os esforços de Marx para combater uma imagem que começou a se formar já durante a sua vida, que afirmava que ele havia apresentado uma teoria universal do desenvolvimento das sociedades. O cotejamento com Nikolai Mikhailovsky e Vera Ivanovna Zasulitch sobre os possíveis desdobramentos da obshchina – comunidade rural presente numa imensa extensão territorial russa – evidencia um autor cauteloso ao lidar com questões que envolviam uma avaliação de sua própria teoria. Os longos rascunhos que precederam, por exemplo, a resposta às indagações de Zasulich sobre as transformações da obshchina mostram Marx explorando as diferentes variáveis a serem levadas em conta – sempre ligadas ao contexto histórico de cada formação social -, ao invés de pretender fornecer uma resposta pronta à sua interlocutora.
Nas palavras de Musto: “Por quase três semanas, Marx permaneceu imerso em suas cartas, ciente de que deveria fornecer uma resposta a um questionamento teórico de grande envergadura” (p. 264). Esta disponibilidade para uma atualização da teoria será reencontrada também na revisão da edição francesa de O capital, que envolve acréscimos e modificações em relação à edição alemã, a ponto de Marx atribuir à primeira “um valor científico independente do original” (apud p. 210).

Repensar Marx e os marxismos aborda também o debate em torno da
periodização da obra do pensador. Conforme é sabido, ao longo do século XX ganhou prestígio uma partição da obra que opunha o jovem Marx – que afirmava uma peculiar forma de humanismo – ao velho Marx, crítico da economia política burguesa. Por esta via, a bibliografia do século criou uma espécie de personagem que atenderia pelo nome de jovem Marx e que encontraria sua produção mais emblemática nos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844. Levando isso em conta, em mais de um capítulo de Repensar Marx e os marxismos são feitas
referências a estes Manuscritos, apresentando seus méritos, mas também seus
limites reais. O texto de 1844 enfrenta de forma original questões que não eram tradicionalmente associadas ao marxismo, como aquelas referentes tanto à alienação objetiva como subjetiva dos trabalhadores, com toda a objetificação que o fenômeno acarreta nas relações humanas. A perspectiva emancipatória subjacente aos Manuscritos – publicados em sua íntegra apenas em 1932 – opunha-se à interpretação predominante de uma ortodoxia marxista, daí ser preciso enfatizar o “efeito disruptivo gerado por um texto inédito tão diferente dos cânones do marxismo dominante” (p. 94).

Levando em conta a existência de aquisições substantivas ocorridas na
juventude de Marx, Musto afirma que elas não autorizam uma partição tão excludente da obra entre o jovem Marx e o Marx da maturidade. Aqui, algumas palavras duras são dirigidas a Louis Althusser, o autor que mais difundiu a noção de uma ruptura epistemológica que separaria radicalmente diferentes fases da obra de Marx. Ocorre que a pesquisa textual e filológica posterior não corrobora tal hipótese, sustentada por Althusser mesmo em seus Elementos de autocrítica.
Lembrando que a categoria da alienação (Entfremdung) percorre a quase totalidade da obra de Marx, Musto aponta para a impossibilidade de que o suposto corte epistemológico “tivesse acontecido no desenrolar de algumas poucas semanas e pudesse ter sido concebido como algo tão rígido” (p. 84).

Contudo, feito o registro da importância de algumas categorias
desenvolvidas nos escritos de juventude de Marx, Musto não esconde suas próprias preferências: afirma que os longos anos de estudo de economia política e outras disciplinas levaram-no a alcançar patamares de investigação compreensivelmente mais elevados do que aqueles de sua juventude. Por esta razão, não é possível endossar a hipótese que seria como que a inversa da ruptura epistemológica: aquela que supõe existir uma identidade plena no interior do pensamento marxiano, “como se a obra de Marx fosse um único escrito, indistinto
e atemporal” (p. 96). Caso adotássemos esta via, ficaria interditada a apreensão do imenso esforço teórico realizado por Marx, esforço que lhe apresentou questões novas – referentes à estruturação econômica e política do modo de produção capitalista – para as quais simplesmente não dispunha de respostas em sua juventude.

Já no que diz respeito ao capítulo 8, “A concepção de alienação segundo Marx e nos marxismos do século XX”, parece-me que uma de suas implicações mais relevantes é colocar em xeque a perspectiva que supõe existir uma progressiva evolução das Ciências Sociais como um todo ao longo do tempo.
Amplamente difundida em vários ambientes acadêmicos, tal perspectiva afirma que a ciência temporalmente mais recente é necessariamente melhor do que a anterior (daí para se erradicar dos currículos universitários os autores do século XIX será apenas um passo…). Mas, ora, durante a leitura da apropriação que, por exemplo, a sociologia estadunidense do século XX fez da categoria alienação, é
impossível não pensar que tal sociologia ficou aquém da formulação original de Marx. Pois o que era nos textos deste último uma abordagem que apontava para um fenômeno social com uma fisionomia bem definida (a alienação enraizada no modo de produção da vida de uma sociedade capitalista), acaba adquirindo os contornos de uma condição humana universal. Na pena de autores como Melvin
Seeman ou Robert Blauner (escrevendo nas décadas de 50 e 60 do século XX) ocorre uma “espécie de hiperpsicologização da análise do conceito – que foi assumida na sociologia, bem como na psicologia, não mais como uma questão social, mas como uma patologia individual” (p. 231).

Se voltarmos agora a atenção para o debate político em torno do legado de Marx, o capítulo 10 de Repensar Marx e os marxismos traz vários elementos que atestam o visível contraste entre o projeto político e societário do autor e as experiências socialistas do século XX. Não seria este o momento para analisar um tema da magnitude das distorções do pensamento de Marx ocorridas nos manuais produzidos pela União Soviética, e mais ainda no cotidiano daquela sociedade. De todo modo, Musto chama a atenção para a distância existente entre
este último e o projeto societário encontrável na obra de Marx. Basta lembrar que: “Proponente da ideia de que a condição fundamental para o amadurecimento das habilidades humanas era a redução da jornada de trabalho, ele [Marx] foi assimilado ao credo produtivista do stakhanovismo. Convicto defensor da abolição do Estado, viu-se identificado como seu baluarte” (pp. 289-290). Alerta oportuno a ser feito, principalmente tendo em vista que o pensamento conservador continua a atribuir a Marx (falecido em 1883, não custa lembrar…)
a configuração assumida pela União Soviética mais de décadas após o seu falecimento. Cabe a nós, homens e mulheres do século XXI, relançar a originalidade de um projeto que esteja à altura do sentido emancipatório de seus fundadores.

Por fim, uma menção especial ao capítulo 7, intitulado “A escrita de O
capital: a crítica inacabada”. Alternando informações biográficas com decisões conceituais de Marx, nele encontramos nosso autor mergulhado na dificílima tarefa de concluir a redação do volume 1 de O capital. Musto persegue eficazmente seu objetivo de mostrar o erro que é considerar O Capital como uma obra acabada, trazendo material que atesta o seu caráter in progress, a ser aprimorado mediante o cotejamento com a realidade. No que diz respeito ao trabalho conceitual, merece destaque a importante carta a Engels, de 24 de agosto de 1867, onde Marx anuncia, orgulhoso, aqueles que lhe pareciam ser os dois melhores aspectos do volume I: “1. (isto é fundamental para toda a compreensão dos fatos) o duplo caráter do trabalho conforme se expressa em valor de uso ou valor de troca, que é trazido logo no primeiro capítulo; 2. O tratamento do maisvalor independentemente de suas formas particulares, como lucro, juros, renda da terra etc.” (apud p. 207). Incidentalmente, menciono que caberia talvez neste capítulo 7 um desdobramento, ainda que breve, do duplo caráter do trabalho a que Marx se refere. Isso nos levaria à categoria do trabalho abstrato, apontada por estudiosos contemporâneos (como Sohn-Rethel, W. Bonefeld, A. Jappe)
como uma das contribuições mais originais da economia política marxiana. [4]

Já no que tange as dificuldades pessoais de Marx enfrentadas para
concluir a redação de O capital, Musto detalha com segurança suas diferentes facetas. Num aspecto mais biográfico, salta aos olhos a situação de extrema pobreza em que vivia o autor de O capital. Acossado por credores, colocando seus bens na loja de penhores, impossibilitado de fornecer à sua família condições adequadas de vida (“as crianças não [tinham] roupas ou sapatos para sair”, ele escreve em 1863, apud p. 191), Marx estava em tudo distante da realidade vivida,
desnecessário dizer, por acadêmicos de países do dito primeiro mundo. A estas condições objetivas, soma-se também seu nível de autoexigência muito elevado, que raramente se dava satisfeito com o que escrevia (“também possuo o hábito de encontrar falhas em qualquer coisa que escrevi”, apud p. 185), modificando constantemente o material preparatório do que viria a ser O capital.
Adicionalmente, uma consciência aguda das transformações da economia capitalista o obrigava a incluir estudos suplementares, por exemplo, sobre o crescente papel dos mercados financeiros. Tudo isso resultava numa rotina de trabalho estafante: dedicando “dez horas por dia ao trabalho sobre economia” e muitas vezes sem dormir “antes das quatro da manhã”. As pressões externas e internas estouravam em seu próprio corpo. Marx passou a ser assolado com frequência por carbúnculos infecciosos que surgiam alternadamente em todas as
partes do corpo, causando-lhe um indescritível sofrimento que é descrito em detalhes em suas cartas. Marx, o mestre da pesquisa das contradições, se vê atravessado em seu organismo por elas. Descreve-se “como um verdadeiro Lázaro […], golpeado por todos os lados ao mesmo tempo’” (apud p. 194).

Para o leitor contemporâneo que acompanhe o detalhamento do
sofrimento contundente vivido por Marx e se pergunte sobre qual foi a eficácia, afinal, do trabalho estafante demandado pela redação de sua obra magna, acredito que o próprio pensador forneça a resposta. Referindo-se ao volume 1 de O Capital, ele escreve em 1864 ao metalúrgico Carl Kings: “Espero que eu agora possa, finalmente, terminá-lo em alguns meses e dê à burguesia um golpe teórico
do qual nunca se recuperará” (apud p. 281).
Não resta dúvida: o golpe foi dado.

 

 

[1] Agradeço a João Leonardo Medeiros pela cuidadosa leitura e sugestões feitas a esta resenha.
[2] Exceto quando houver indicação em contrário, as citações desta resenha são do livro de Marcello Musto. Quando sucedidas por apud, tratam-se de referências de Marx, citadas por Musto.
[3] Jorge Luis Borges. “Del rigor en la ciencia”. In El hacedor. Obra Completa, Buenos Aires: Emecé Editores, 1974, p. 847.
[4] Por esta via, seria possível chegar também a um novo sentido do que seja abstração em Marx, afirmada não apenas como um produto do pensamento, mas como processo que transcorre no próprio real. “Essa abstração de trabalho humano geral existe…”. Marx, K. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Expressão Popular, 2008, p. 56.

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Repensando Marx e os marxismos (Book Launch)

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A guerra e a esquerda: considerações sobre uma história conturbada

As causas econômicas da guerra

Enquanto a ciência política investigou as motivações ideológicas, políticas, econômicas e até mesmo psicológicas que conduzem à guerra, a teoria socialista forneceu uma de suas contribuições mais convincentes ao destacar o nexo entre o desenvolvimento do capitalismo e a proliferação bélica. Nos debates da Associação Internacional dos Trabalhadores (1864-1872), César de Paepe, um de seus principais dirigentes, formulou aquela que viria a ser a posição clássica do movimento dos trabalhadores sobre a questão, a saber, que as guerras são inevitáveis sob o regime de produção capitalista. Na sociedade contemporânea, elas não são provocadas pelas ambições de monarcas ou de outros indivíduos, mas pelo modelo socioeconômico dominante (cf. De Paepe, 2014a; 2014b). O movimento socialista também mostrou quais setores da população eram mais atingidos por suas consequências nefastas. No congresso da Internacional realizado em 1868, os delegados aprovaram uma moção que conclamava os tra-balhadores a buscar “a abolição final de todas as guerras” (cf. Freymond, 1962, p.402) [1] pois seriam eles que pagariam – economicamente ou com seu próprio sangue, estivessem entre os vencedores ou os derrotados – pelas decisões de suas classes dominantes e dos governos que as representam. Para o movimento dos trabalhadores, a lição civilizatória veio da crença de que qualquer guerra deve ser considerada “uma guerra civil” (Freymond, 1962, p.403; cf. Musto, 2014b, p.49), um confronto brutal entre trabalhadores que os privava dos meios necessários para sua sobrevivência. Eles precisavam agir de forma resoluta contra qualquer guerra por meio da resistência ao recrutamento e de greves. O internacionalismo tornou–se assim um ponto cardeal da sociedade futura, que, com o fim do capitalismo e da rivalidade entre os Estados burgueses no mercado mundial, teria eliminado as principais causas subjacentes da guerra.Entre os precursores do socialismo, Claude Henri de Saint-Simon adotou uma posição categórica contrária tanto à guerra quanto ao conflito social, considerando ambos obstáculos ao progresso fundamental da produção industrial. Karl Marx não desenvolveu, em nenhum de seus escritos, suas visões – fragmentárias e às vezes contraditórias – sobre a guerra, nem apresentou diretrizes para o posiciona-mento correto a ser adotado em relação a ela. Ao escolher entre campos opostos, sua única constante era a oposição à Rússia czarista, vista por ele como o posto avançado da contrarrevolução e uma das principais barreiras à emancipação da classe trabalhadora. Em O capital (1867), argumentou que a violência era uma força econômica, “a parteira de toda velha sociedade grávida de uma nova” (Marx, 1996, p.739). Mas não pensava na guerra como um atalho crucial para a transfor-mação revolucionária da sociedade, e um dos principais objetivos de sua atividade política era engajar os trabalhadores no princípio da solidariedade internacional. Conforme também argumentou Friedrich Engels, eles deveriam agir de modo resoluto em países individuais contra o amortecimento da luta de classes que a invenção propagandística de um inimigo externo ameaçava provocar na eclosão de qualquer guerra. Em diversas cartas endereçadas aos líderes do movimento dos trabalhadores, Engels destacou o poder ideológico da armadilha patriótica e o atraso da revolução proletária resultante de ondas de chauvinismo. Além disso, em Anti-Dühring (1878), após uma análise dos efeitos de armamentos cada vez mais mortíferos, ele declarou que a tarefa do socialismo era “explodir o militarismo e todos os exércitos permanentes” (Engels, 1987, p.158).A guerra era uma questão tão importante para Engels que ele dedicou um de seus últimos escritos a ela. Em “A Europa pode se desarmar?” (1893), observou que, nos 25 anos prévios, todas as grandes potências tentaram superar seus rivais militarmente e em termos de preparativos de guerra. Isto havia envolvido níveis sem precedentes de produção de armas e aproximou o Velho Continente de “uma guerra de destruição como o mundo nunca viu” (Engels, 1990, p.372). Segundo o coautor do Manifesto do Partido Comunista (1848), “o sistema de exércitos permanentes foi levado a tais extremos em toda a Europa que deve trazer a ruína econômica dos povos por causa do fardo militar, ou então degenerar em uma guerra geral de extermínio”. Em sua análise, Engels não se esqueceu de sublinhar que os exércitos permanentes eram mantidos principalmente para fins políticos internos, assim como para militares externos. Seu propósito era “fornecer proteção antes contra o inimigo interno do que contra o externo”, consolidando as forças para reprimir o proletariado e as lutas dos trabalhadores. Uma vez que as camadas populares, por meio de impostos e do fornecimento de tropas ao Estado, pagavam mais do que ninguém os custos da guerra, o movimento dos trabalhadores deveria lutar pela “redução gradual do tempo de serviço [militar] por tratado internacional” e pelo desarmamento como a única “garantia de paz” (Engels, 1990, p.371) eficaz.

Testes e colapso
Não tardou muito para que um debate teórico travado em tempos de paz se transformasse na principal questão política da época, quando o movimento dos trabalhadores teve que enfrentar situações reais. Inicialmente, seus representan-tes foram contrários a qualquer apoio à guerra. No conflito franco-prussiano de 1870 (que precedeu a Comuna de Paris), os delegados social-democratas Wilhelm Liebknecht e August Bebel condenaram os objetivos anexionistas da Alemanha de Bismarck e votaram contra os créditos de guerra. Sua decisão de “rejeitar o projeto de lei de financiamento suplementar para estender a guerra” (apud Pelz, 2016, p.50) rendeu-lhes uma sentença de dois anos de prisão por alta traição, mas ajudou a mostrar à classe trabalhadora uma maneira alternativa de responder à crise.À medida que as grandes potências europeias mantinham sua expansão impe-rialista, a controvérsia sobre a guerra adquiria um peso cada vez maior nos debates da Segunda Internacional (1889-1916). Uma resolução adotada em seu congresso de fundação consagrou a paz como “condição indispensável de toda e qualquer emancipação dos trabalhadores” (apud Dominick, 1982, p.343). A suposta política de paz da burguesia foi ridicularizada e caracterizada como uma política de “paz armada” e, em 1895, Jean Jaurès, líder do Partido Socialista Francês (SFIO), fez um discurso no parlamento no qual notabilizou resumidamente as apreensões da esquerda: “sua sociedade violenta e caótica, mesmo quando quer a paz, mesmo quando está em estado de aparente repouso, ainda carrega em si a guerra, assim como uma nuvem adormecida carrega uma tempestade” (Jaurès, 1982, p.32).À medida que a Weltpolitik – a política agressiva da Alemanha Imperial para ampliar seu poder na arena internacional – mudou o cenário geopolítico, os princípios antimilitaristas deitaram raízes mais profundas no movimento dos trabalhadores e influenciaram as discussões sobre os conflitos armados. A guerra não era mais vista somente como uma abertura para oportunidades revolucionárias e uma aceleração do colapso do sistema (uma ideia da esquerda desde a Guerra Revolucionária de 1792) [2] Ela era vista agora como um perigo em razão de suas graves consequências para o proletariado na forma de fome, penúria e desemprego. Ela representava assim uma séria ameaça para as forças progressistas; conforme escreveu Karl Kautsky em A Revolução Social (1902), em caso de guerra, estas seriam “encarregadas de pesadas tarefas que não lhes são essenciais” (Kautsky, 1903, p.77), tarefas que levariam a vitória final a ficar mais distante, em vez de aproximá-la.A resolução “Sobre Militarismo e Conflitos Internacionais”, adotada pela Segunda Internacional em seu Congresso de Stuttgart em 1907, recapitulou todos os pontos principais que se haviam tornado patrimônio comum do movimento dos trabalhadores, entre eles: um voto contrário aos orçamentos que aumentavam os gastos militares, antipatia por exércitos permanentes e preferência por um siste-ma de milícias populares e apoio ao plano de criar tribunais de arbitragem para resolver pacificamente os conflitos internacionais. Isso excluiu o recurso a greves gerais contra qualquer tipo de guerra, conforme proposto por Gustave Hervé, uma vez que a maioria dos presentes considerou a ideia muito radical e maniqueísta. A resolução terminou com uma emenda redigida por Rosa Luxemburgo, Vladimir Lênin e Yulii Martov. Ela afirmava que, “no caso de eclosão de uma guerra […], é dever [dos socialistas] intervir em favor de seu término célere e, por meio de todos os seus poderes, valer-se da crise econômica e política criada pela guerra, incitar as massas e, assim, acelerar o declínio do domínio de classe capitalista” (apud Lênin et al., 1972, p.80). No entanto, como isso não obrigava o Partido Social-democrata da Alemanha (SPD) a fazer qualquer mudança em sua linha política, seus representantes também votaram a favor dela. O texto, conforme alterado, foi o último documento sobre a guerra que obteve o apoio unânime da Segunda Internacional.Uma competição mais intensa entre os Estados capitalistas no mercado mundial, juntamente com a eclosão de diversos conflitos internacionais, tornou o quadro geral ainda mais alarmante. A publicação de O Novo Exército (1911), de Jaurès, estimulou a discussão de outro tema central do período: a distinção entre guerras ofensivas e defensivas e a posição a ser adotada em relação a estas, inclusive nos casos em que a independência de um país estivesse ameaçada. Para Jaurès, a única tarefa do exército deveria ser defender a nação contra qualquer agressão ofensiva ou qualquer agressor que não aceitasse a resolução da disputa por mediação. Toda ação militar que se enquadra nesta categoria deveria ser considerada legítima. A crítica perspicaz de Luxemburgo a essa posição apontou que “fenômenos históricos como as guerras modernas não podem ser medidos com o critério de ‘justiça’, ou por meio de um esquema sobre o papel da defesa e da agressão” (Luxemburgo, 1911). Em sua visão, era necessário ter em mente a dificuldade de se estabelecer se uma guerra era realmente ofensiva ou defensiva, ou se o Estado que a iniciou havia deliberadamente decidido atacar ou se havia sido forçado a fazê-lo por causa dos estratagemas adotados pelo país antagônico. Luxemburgo pensava, portanto, que a distinção deveria ser descartada e criticou ainda a ideia da “nação armada” de Jaurès, com o argumento de que, no limite, ela tendia a fomentar a militarização crescente da sociedade.À medida que os anos passaram, a Segunda Internacional comprometeu-se cada vez menos com uma política de ação em prol da paz. Sua oposição ao rear-mamento e aos preparativos de guerra era deveras débil e uma ala cada vez mais moderada e legalista do SPD trocou seu apoio a créditos de guerra – e depois até mesmo à expansão colonial – em troca da concessão de maiores liberdades políti-cas na Alemanha. Líderes importantes e teóricos eminentes como Gustav Noske, Henry Hyndman e Arturo Labriola foram os primeiros a adotar estas posições. Posteriormente, a maioria dos social-democratas alemães, socialistas franceses, líderes do Partido Trabalhista britânico e de outros reformistas europeus acabaria por apoiar a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Este rumo teve consequên-cias desastrosas. Com a ideia de que os “benefícios do progresso” não deveriam ser monopolizados pelos capitalistas, o movimento dos trabalhadores passou a partilhar dos objetivos expansionistas das classes dominantes e foi inundado pela ideologia nacionalista. A Segunda Internacional mostrou-se completamente impotente diante da guerra, fracassando em um de seus principais objetivos: a preservação da paz.Lênin e outros delegados da conferência de Zimmerwald (1915) – incluindo Leon Trotsky, que redigiu o manifesto final – previram que “por décadas, os gastos com a guerra absorverão as melhores energias dos povos, solapando as melho-rias sociais e impedindo qualquer progresso”. Em sua visão, a guerra revelava a “forma nua do capitalismo moderno, que se tornou irreconciliável não apenas com os interesses das massas trabalhadoras […], mas também com as condições básicas da existência comunal humana” (Trotsky, 1915). Apenas uma minoria no movimento dos trabalhadores prestou atenção na advertência, assim como ocorreu com o chamado a todos os trabalhadores europeus na Conferência de Kienthal (1916): “Seus governos e seus jornais dizem que a guerra deve continuar para matar o militarismo. Eles estão enganando vocês! A guerra nunca matou a guerra. Na verdade, ela desperta sentimentos e desejos de vingança. Desta forma, marcando-te para o sacrifício, eles te encerram em um círculo infernal”. Finalmente rompendo com a abordagem do Congresso de Stuttgart, que havia reivindicado tribunais internacionais de arbitragem, o documento final de Kienthal declarava que “as ilusões do pacifismo burguês” (Lênin, 1977, p.371) não interromperiam a espiral da guerra, mas ajudariam a preservar o sistema socioeconômico exis-tente. A única maneira de prevenir conflitos militares futuros era pela conquista do poder político e deposição da propriedade capitalista pelas massas populares.Rosa Luxemburgo e Vladimir Lênin foram os dois mais vigorosos opositores da guerra. Luxemburgo ampliou a compreensão teórica da esquerda e mostrou como o militarismo era uma vértebra central do Estado. [3] Demonstrando uma convicção e eficácia com poucos paralelos entre outros líderes comunistas, ela defendeu que o mote “guerra contra a guerra!” deveria tornar-se “a pedra angular da política da classe trabalhadora”. Conforme escreveu em Teses sobre as tarefas da social-democracia (1915), a Segunda Internacional havia implodido porque fracassou em “estabelecer uma tática e ação comum do proletariado em todos os países”. A partir de então, o “objetivo principal” do proletariado deveria ser, portanto, “combater o imperialismo e prevenir as guerras, tanto na paz quanto em guerra” (Luxemburgo, 1915).Em Socialismo e Guerra (1915) e muitos outros escritos durante a Primeira Guerra Mundial, o grande mérito de Lênin foi identificar duas questões funda-mentais. A primeira dizia respeito à “falsificação histórica” em curso sempre que a burguesia tentava atribuir um “senso progressista de libertação nacional” ao que, na realidade, eram guerras de “pilhagem” (Lênin, 1971, p.299-300), travadas com o objetivo único de decidir quais dos beligerantes oprimiriam desta vez a maior parte dos povos estrangeiros e ampliariam as desigualdades do capitalismo. A se-gunda, ao mascaramento das contradições realizado pelos reformistas sociais – ou “social-chauvinistas” (Lênin, 1971, p.306), como ele os chamava – que acabaram endossando as justificativas para a guerra a despeito de a terem definido como uma atividade “criminosa” nas resoluções adotadas pela Segunda Internacional. Por trás de sua pretensão de “defender a pátria” estava o direito que certas grandes potências haviam outorgado a si mesmas de “pilhar as colônias e oprimir os povos estrangei-ros”. As guerras não foram travadas para salvaguardar “a existência das nações”, mas “para defender os privilégios, a dominação, a pilhagem e a violência” das várias “burguesias imperialistas” (Lênin, 1971, p.307). Os socialistas que haviam capitulado ao patriotismo tinham substituído a luta de classes por uma reivindicação das “migalhas dos lucros obtidos por sua burguesia nacional por meio da pilhagem de outros países”. Por conseguinte, Lênin era a favor de “guerras defensivas” – não a defesa nacional dos países europeus à Jaurès, mas as “guerras justas” de “povos oprimidos e subjugados” que haviam sido “saqueados e privados de seus direitos” pelas “grandes potências escravistas” (Lênin, 1971, p.314). A tese mais celebrada deste panfleto – a de que os revolucionários deveriam procurar “transformar a guerra imperialista em guerra civil” (Lênin, 1971, p.315) [4] – implicava que aqueles que realmente desejavam uma “paz democrática duradoura” deveriam travar uma “guerra civil contra seus governos e a burguesia” (Lênin, 1971, p.316). [5] Lênin estava convencido de algo que a história posterior mostraria ser impreciso, a saber, de que qualquer luta de classes travada consistentemente em tempos de guerra criaria “inevitavelmente” um espírito revolucionário entre as massas.

Linhas de demarcação

A Primeira Guerra Mundial produziu fissuras não apenas no interior da Se-gunda Internacional, mas também no movimento anarquista. Em artigo publicado pouco após a eclosão do conflito, Kropotkin escreveu que “a tarefa de qualquer pessoa que tenha apreço pela ideia de progresso humano é esmagar a invasão alemã na Europa Ocidental” (Kropotkin, 1914, p.76-77). Esta declaração, vista por muitos como um abandono dos princípios pelos quais lutou sua vida toda, foi uma tentativa de ir além do slogan “greve geral contra a guerra” – que havia passado desapercebido pelas massas trabalhadoras – e de evitar a regressão geral da política europeia que resultaria de uma vitória alemã. Na visão de Kropotkin, se os antimilitaristas ficassem inertes, eles beneficiariam indiretamente os planos de conquista dos invasores e o obstáculo resultante seria ainda mais difícil de ser superado por aqueles que lutavam por uma revolução social.Em uma réplica a Kropotkin, o anarquista italiano Errico Malatesta argumentou que, embora não fosse um pacifista e considerasse legítimo pegar em armas em uma guerra de libertação, o mundo não era – conforme declarava a propaganda burguesa – uma luta “pelo bem geral contra o inimigo comum” da democracia e sim outro exemplo de subjugação das massas trabalhadoras pela classe dominante. Ele estava ciente de que “uma vitória alemã certamente representaria o triunfo do militarismo, mas também que um triunfo dos aliados significaria a dominação russo-britânica na Europa e na Ásia” (Malatesta, 1993, p.230).No Manifesto dos Dezesseis (1916), Kropotkin sustentou a necessidade de “resistir a um agressor que representa a destruição de todas as nossas esperanças de libertação” (Kropotkin et al., 1916). Uma vitória da Tríplice Entente contra a Alemanha seria o mal menor, solapando em menor grau as liberdades existentes. De outro lado, Malatesta e seus companheiros signatários do Manifesto antibélico da Internacional Anarquista (1915) declararam: “Não é possível distinguir entre guerras ofensivas e guerras defensivas”. Além disso, eles acrescentaram que “nenhum dos beligerantes têm direito a reivindicar a civilização, assim como nenhum deles têm o direito de alegar legítima autodefesa” (Malatesta et al., 1998, p.388). A Primeira Guerra Mundial, insistiram eles, era mais um episódio do conflito entre capitalistas de várias potências imperialistas, travado às custas da classe trabalhadora. Malatesta, Emma Goldman, Ferdinand Nieuwenhuis e a grande maioria do movimento anarquista estavam convencidos de que apoiar os governos burgueses seria um erro imperdoável. Ao contrário, sem hesitações, eles se ativeram ao slogan “nenhum homem e nenhum centavo para o exército”, rejeitando decididamente até mesmo um apoio indireto à guerra.As posições em relação à guerra também suscitaram debates no movimento feminista. A necessidade de substituir os homens recrutados em empregos que há muito haviam sido monopólio masculino – por um salário muito inferior, em condições de superexploração – incentivou o espraiamento de uma ideologia chauvinista em parcela considerável do movimento sufragista recém-nascido. Algumas de suas líderes chegaram a ponto de realizar petições de leis permitindo o alistamento de mulheres nas forças armadas. A exposição de governos fraudu-lentos – que, ao evocar o inimigo às portas, usavam a guerra para reverter reformas sociais fundamentais – foi uma das conquistas mais importantes das principais lideranças comunistas femininas da época. Clara Zetkin, Alexandra Kollontai, Syl-via Pankhurst e, claro, Rosa Luxemburgo foram algumas das primeiras a embarcar com lucidez e coragem no caminho que mostraria às gerações futuras como a luta contra o militarismo era essencial à luta contra o patriarcado. Posteriormente, a rejeição da guerra tornou-se elemento característico do Dia Internacional da Mu-lher e a oposição aos orçamentos de guerra na eclosão de qualquer novo conflito figurou com destaque em muitas campanhas do movimento feminista internacional.

O fim não justifica os meios e os meios errados prejudicam o fim

A profunda cisão entre revolucionários e reformistas, que se ampliou a um abismo estratégico após o nascimento da União Soviética, [6] e o crescimento do dogmatismo ideológico nos anos 1920 e 1930 eliminaram qualquer aliança possível contra o militarismo entre a Internacional Comunista (1919-1943) e os partidos social-democratas e socialistas europeus. [7] Tendo apoiado a guerra, os partidos que compunham a Internacional dos Trabalhadores e a Internacional Socialista (1923-1940) perderam todo o crédito aos olhos dos comunistas. A ideia leninista de “transformar a guerra imperialista em guerra civil” ainda tinha força em Mos-cou, onde as lideranças políticas e teóricas pensavam que um “novo 1914” era inevitável. Em ambos os lados, então, falava-se mais sobre o que fazer se uma nova guerra eclodisse e como prevenir seu início. Os slogans e declarações de princípios diferiam substantivamente daquilo que se esperava ocorrer e daquilo que se tornou então ação política. Entre as vozes críticas no campo comunista estavam Nikolai Bukharin, defensor da palavra de ordem “luta pela paz” e, entre os líderes russos, um dos mais convictos de que se tratava “de um dos assuntos centrais do mundo contemporâneo”; e Georgi Dimitrov, que argumentava que nem todas as grandes potências eram igualmente responsáveis pela ameaça de guerra e que era favorável a uma aproximação com os partidos reformistas para construir uma frente popular ampla contra os conflitos bélicos. Ambas as visões contrastavam com a ladainha da ortodoxia soviética, que, longe de atualizar a análise teórica, repetia que o perigo da guerra era inerente, de modo equânime e sem distinção, a todas as potências imperialistas.A visão de Mao Tsé-Tung sobre o assunto era muito distinta. À frente do movimento de libertação contra a invasão japonesa, escreveu, em A guerra prolongada (1938), que “guerras justas” (Tsé-Tung, 1966, p.15) – das quais os comunistas deveriam participar ativamente – “são dotadas de poder tremendo, que pode transformar muitas coisas ou abrir o caminho para sua transformação” (Tsé-Tung, 1966, p.26-27). A estratégia proposta por Mao, portanto, era “contra-por guerra justa à guerra injusta” (Tsé-Tung, 1966, p.53), e, além disso, “insistir na guerra até que seu objetivo político [seja] atingido”. Argumentos a favor da “onipotência da guerra revolucionária” são recorrentes em Problemas da guerra e da estratégia (1938), livro no qual argumenta que “apenas com armas pode o mundo inteiro ser transformado” (Tsé-Tung, 1965, p.219) e que “a tomada de poder pela força armada, a resolução do problema pela guerra, é a tarefa central e a forma mais elevada de revolução” (Tsé-Tung, 1965, p.225).Na Europa, a escalada de violência na frente nazifascista, tanto no âmbito doméstico como no exterior, e a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) criaram um cenário ainda mais nefasto do que a guerra de 1914-18. Após o ataque das tropas de Hitler à União Soviética em 1941, a Grande Guerra Patriótica, que terminou com a derrota do nazismo, tornou-se um elemento tão central na unidade nacional russa que sobreviveu à queda do Muro de Berlim e dura até nossos dias.Com a divisão do mundo em dois blocos no pós-guerra, Joseph Stálin ensinou que a principal tarefa do movimento comunista internacional era salvaguardar a União Soviética. A criação de uma zona tampão de oito países da Europa do Leste 18 • Crítica Marxista, n.55, p.9-25, 2022.(sete, após a saída da Iugoslávia) foi um pilar central desta política. No mesmo período, a Doutrina Truman marcou o advento de um novo tipo de guerra: a Guerra Fria. Em seu apoio às forças anticomunistas na Grécia, no Plano Marshall (1948) e na criação da Otan (1949), os Estados Unidos da América contribuíram para evitar o avanço das forças progressistas na Europa Ocidental. A União Soviética respondeu com o Pacto de Varsóvia (1955). Essa configuração levou a uma enorme corrida armamentista, que, a despeito da memória recente de Hiroshima e Naga-saki, também envolveu a proliferação de testes de bombas nucleares.A partir de 1961, sob a liderança de Nikita Khrushchev, a União Soviética iniciou um novo curso político que veio a ser conhecido como “coexistência pa-cífica”. Esta guinada, com ênfase na não interferência e no respeito à soberania nacional, bem como na cooperação econômica com países capitalistas, suposta-mente evitaria o perigo de uma terceira guerra mundial (que a crise dos mísseis cubana mostrou ser uma possibilidade real em 1962) e sustentaria o argumento de que a guerra não era inevitável. No entanto, esta tentativa de cooperação cons-trutiva foi direcionada apenas para os EUA, não para os países do “socialismo realmente existente”. Em 1956, a União Soviética já havia esmagado uma revolta na Hungria, e os partidos comunistas da Europa Ocidental não condenaram a intervenção militar; ao contrário, justificaram-na em nome da proteção do bloco socialista. Palmiro Togliatti, por exemplo, o secretário do Partido Comunista Ita-liano, declarou: “Nós estamos do nosso lado mesmo quando ele comete um erro” (Togliatti apud Vittoria, 2015, p.219). A maioria daqueles que partilhava dessa posição arrependeu-se amargamente nos anos futuros, quando compreendeu os efeitos devastadores da operação soviética.Eventos semelhantes ocorreram no auge da coexistência pacífica, em 1968, na Tchecoslováquia. Confrontado com as demandas de democratização e des-centralização econômica durante a Primavera de Praga, o Politburo do Partido Comunista da União Soviética decidiu por unanimidade enviar meio milhão de soldados e milhares de tanques ao país. No congresso do Partido Operário Uni-ficado Polonês em 1968, Leonid Brezhnev explicou a ação referindo-se ao que chamou de “soberania limitada” dos países do Pacto de Varsóvia: “Quando forças hostis ao socialismo tentam direcionar o desenvolvimento de algum país socialista para o capitalismo, isto se torna não apenas um problema do país em questão, mas um problema e uma preocupação comum a todos os países socialistas”. De acordo com essa lógica antidemocrática, a definição do que era “socialismo” ou não, naturalmente, cabia à decisão arbitrária dos líderes soviéticos. Mas, desta vez, os críticos da esquerda foram mais enérgicos e chegaram a representar a maioria. Embora a desaprovação em relação à ação soviética tenha sido expressa não apenas pelos movimentos da Nova Esquerda, como também pela maioria dos partidos comunistas, incluindo o chinês, os russos não recuaram e levaram a cabo um processo que chamaram de “normalização”. A União Soviética continuou a destinar uma parte considerável de seus recursos econômicos para gastos militares, o que ajudou a reforçar uma cultura autoritária na sociedade. Deste modo, ela perdeu para sempre a boa vontade do movimento pacifista, que se tornara ainda maior com as extraordinárias mobilizações contra a guerra do Vietnã.Uma das guerras mais importantes da década seguinte começou com a invasão soviética do Afeganistão. Em 1979, o Exército Vermelho voltou a ser um instru-mento importante da política externa de Moscou, que continuava a reivindicar o direito de intervir no que descreveu como sua própria “zona de segurança”. A decisão infeliz transformou-se em uma aventura exaustiva que se estendeu por mais de dez anos, gerando um grande número de mortes e criando milhões de refugiados. Nessa ocasião, o movimento comunista internacional foi muito menos hesitante do que em relação às invasões soviéticas da Hungria e da Tchecoslová-quia. No entanto, esta nova guerra revelou ainda mais claramente à opinião pública internacional a cisão entre o “socialismo realmente existente” e uma alternativa política baseada na paz e na oposição ao militarismo.Tomadas como um todo, essas intervenções militares não apenas dificultaram uma redução geral das armas, mas serviram para desacreditar e enfraquecer o socialismo globalmente. A União Soviética era cada vez mais vista como uma potência imperial agindo de maneira não muito diferente dos Estados Unidos, que, desde o início da Guerra Fria, apoiaram golpes de Estado de modo mais ou menos secreto e ajudaram a depor governos democraticamente eleitos em mais de vinte países ao redor do mundo. Por fim, as “guerras socialistas” de 1977-1979 entre Camboja e Vietnã e China e Vietnã, tendo o conflito sino-soviético como pano de fundo, dissiparam qualquer prerrogativa da ideologia “marxista-leninista” (já distante das fundações originais erigidas por Marx e Engels) ao atribuir a guerra exclusivamente aos desequilíbrios econômicos do capitalismo.

Ser de esquerda é ser contra a guerra

O fim da Guerra Fria não atenuou a quantidade de interferência nos assuntos de outros países, nem aumentou a liberdade de cada povo escolher o regime político sob o qual vive. As inúmeras guerras – mesmo sem mandato da ONU e definidas, absurdamente, como “humanitárias” – realizadas pelos EUA nos últimos 25 anos, às quais se devem somar novas formas de conflito, sanções ilegais e doutrinação política, econômica e midiática, demonstram que a divisão bipolar do mundo entre duas superpotências não deu lugar à era de liberdade e progresso prometida pelo mantra neoliberal da “Nova Ordem Mundial”. Neste contexto, muitas forças políticas que antes reivindicavam os valores da esquerda envolveram-se em di-versas guerras. Do Kosovo ao Iraque e ao Afeganistão – para mencionar apenas as principais guerras travadas pela Otan desde a queda do Muro de Berlim –, estas forças expressaram seu apoio à intervenção armada e tornaram-se cada vez menos distinguíveis da direita.A guerra russo-ucraniana voltou a colocar a esquerda diante do dilema de como reagir quando a soberania de um país está sob ataque. A ausência de condenação da invasão da Ucrânia pela Rússia é um erro político do governo da Venezuela e torna menos críveis as denúncias de possíveis atos futuros de agressão cometi-dos pelos Estados Unidos. É verdade que, conforme escreveu Marx a Ferdinand Lassalle em 1860, “em política externa, há pouca vantagem em se usar palavras de ordem como ‘reacionário’ e ‘revolucionário’” – aquilo que é “subjetivamente reacionário [pode revelar-se] objetivamente revolucionário na política externa”. Mas as forças de esquerda deveriam ter aprendido com o século XX que as alianças “com o inimigo do meu inimigo” (Marx; Engels, 1985, p.154; cf. Musto, 2018, p.132) levam muitas vezes a acordos contraproducentes, especialmente quando a frente progressista é politicamente fraca e teoricamente confusa e carece do apoio de mobilizações de massa, como em nossos tempos.Recordando as palavras de Lênin em A revolução socialista e o direito das nações à autodeterminação: “o fato de que a luta pela libertação nacional contra uma potência imperialista pode, sob certas circunstâncias, ser utilizada por outra “grande” potência em seus interesses igualmente imperialistas não deveria ter mais peso em induzir a social-democracia a renunciar ao reconhecimento do direito das nações à autodeterminação” (Lênin, 1964b, p.148). Para além dos interesses e intrigas geopolíticos que geralmente também estão em jogo, as forças da esquerda historicamente apoiaram o princípio da autodeterminação nacional e defenderam o direito dos Estados individuais de estabelecer suas fronteiras com base na vontade expressa da população. A esquerda lutou contra guerras e “anexações” porque está ciente de que elas levam a conflitos dramáticos entre os trabalhadores da nação dominante e da nação oprimida, criando as condições para que estes se unam à sua própria burguesia, considerando aqueles seus inimigos. Em Balanço da discussão sobre a autodeterminação (1916), Lênin escreveu: “Se a revolução socialista fosse vitoriosa em Petrogrado, Berlim e Varsóvia, o governo socialista polonês, assim como os governos socialistas russo e alemão, renunciaria à ‘retenção forçada’, digamos, dos ucranianos dentro das fronteiras do Estado polonês” (Lênin, 1964a, p.329-330). Por que sugerir, então, que algo distinto seja admitido no governo nacionalista liderado por Vladimir Putin?Por outro lado, um número excessivo de pessoas de esquerda cedeu à tentação de se tornar – direta ou indiretamente – cobeligerantes, alimentando uma nova union sacrée (expressão cunhada em 1914 para saudar a abjuração das forças da esquerda francesa que, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, decidiu endossar as esco-lhas bélicas do governo). Tal posição hoje serve cada vez mais para borrar a distinção entre atlantismo e pacifismo. A história mostra que, quando não se opõem à guerra, as forças progressistas perdem uma parte essencial de sua razão de ser e acabam por engolir a ideologia do campo oposto. Isto acontece sempre que os partidos de esquerda fazem de sua presença no governo a forma fundamental de mensurar sua ação política – como fizeram os comunistas italianos ao apoiar as intervenções da Otan no Kosovo e no Afeganistão, ou a maioria do Unidas Podemos hoje, que une sua voz ao coro unânime de todo o arco parlamentar espanhol a favor do envio de armas ao exército ucraniano. Tal conduta subalterna foi punida muitas vezes no passado, inclusive nas urnas, assim que a ocasião surgiu.

Bonaparte não é democracia

Na década de 1850, Marx redigiu uma série brilhante de artigos sobre a Guerra da Crimeia que contém muitos paralelos interessantes e úteis com os dias atuais. Em Revelações da história diplomática do século XVIII (1857), falando sobre o grande monarca moscovita do século XV – considerado como aquele que unificou a Rússia e lançou as bases para sua autocracia –, Marx afirmou: “Basta substituir uma série de nomes e datas por outros e fica claro que as políticas de Ivan III […] e as da Rússia de hoje não são apenas semelhantes, mas idênticas” (Marx, 1986,p.86). Em um artigo para o New-York Daily Tribune, no entanto, em oposição aos democratas liberais que exaltavam a coalizão anti-Rússia, ele escreveu: “É um equívoco descrever a guerra contra a Rússia como uma guerra entre liberdade e despotismo. Afora o fato de que, se este fosse o caso, a liberdade seria representada nesta ocasião por um Bonaparte, todo o objetivo declarado da guerra é a manu-tenção […] dos Tratados de Viena – os mesmos tratados que anulam a liberdade e independência das nações” (Marx, 1980, p.228). Se substituirmos Bonaparte por Estados Unidos da América e os Tratados de Viena por Otan, estas observações parecem ter sido escritas hoje.O pensamento daqueles que se opõem tanto ao nacionalismo russo e ucraniano quanto à expansão da Otan não mostra prova de indecisão política ou ambigui-dade teórica. Nas semanas recentes, vários especialistas forneceram explicações sobre as raízes do conflito (que em nada reduzem a barbárie da invasão russa), e a posição daqueles que propõem uma política de não alinhamento é a forma mais eficaz de acabar com a guerra o mais rápido possível e garantir o menor número de vítimas. Não se trata de se comportar como as “belas almas” embebidas em idealismo abstrato, que Hegel julgava incapazes de abordar a realidade concreta das contradições terrenas. Pelo contrário: a questão é chamar a atenção para o único antídoto verdadeiro contra uma expansão ilimitada da guerra. Não há fim para as vozes que clamam por mais gastos militares e recrutamento, ou para aqueles que, como o Alto Representante da União Europeia para Relações Exteriores e Política de Segurança, pensam que é tarefa da Europa fornecer aos ucranianos “as armas necessárias para a guerra”(Borrell, 2022). Mas, em contraste com essas posições, é necessário buscar a atividade diplomática incessante com base em dois pontos firmes: a desescalada do conflito e a neutralidade da Ucrânia independente.A despeito do aumento de apoio à Otan após os movimentos russos, é ne-cessário trabalhar de modo mais árduo para garantir que a opinião pública não enxergue na maior e mais agressiva máquina de guerra do mundo – a Otan – a solução para os problemas de segurança global. Deve-se mostrar que ela é uma organização perigosa e ineficaz, que, em seu ímpeto de expansão e dominação unipolar, serve para alimentar as tensões que levam à guerra no mundo. Em O socialismo e a guerra, Lênin argumentou que os marxistas diferem dos pacifistas e anarquistas na medida em que “consideram ser necessário historica-mente (do ponto de vista do materialismo dialético de Marx) estudar cada guerra de modo individual”. Continuando, afirmou que: “Na história, houve inúmeras guerras que, apesar de todos os horrores, atrocidades, angústias e sofrimentos que inevitavelmente acompanham todas as guerras, foram progressistas, ou seja, beneficiaram o desenvolvimento da humanidade” (Lênin, 1971, p.299). Se isto foi verdade no passado, seria míope simplesmente repeti-lo nas sociedades con-temporâneas, nas quais as armas de destruição em massa estão continuamente espalhando-se. Raramente as guerras – que não devem ser confundidas com revo-luções – tiveram o efeito democratizante que os teóricos do socialismo esperavam. Na verdade, muitas vezes elas provaram ser a pior maneira de levar a cabo uma revolução, tanto pelo custo em termos de vidas humanas quanto pela destruição das forças produtivas que acarretam. De fato, as guerras disseminam uma ideo-logia de violência, frequentemente associada aos sentimentos nacionalistas que dilaceraram o movimento dos trabalhadores. Raramente favorecendo práticas de autogestão e democracia direta, elas ampliam o poder das instituições autoritárias. Trata-se de uma lição que também a esquerda moderada nunca deve esquecer.Em uma das passagens mais férteis de Reflexões sobre a Guerra (de 1933), Simone Weil indaga se é possível que “uma revolução evite a guerra”. Para ela, essa é a única “possibilidade débil” que temos se não quisermos “abandonar toda a esperança” (Weil, 2021, p.101). A guerra revolucionária frequentemente transforma-se no “túmulo da revolução”, já que “os cidadãos armados não têm os meios para fazer a guerra sem um aparato de controle, sem pressão policial, sem tribunal especial, sem punição por deserção”. Mais do que qualquer outro fenômeno social, a guerra incha o aparato militar, burocrático e policial. “Ela leva ao apagamento total do indivíduo perante a burocracia estatal”. Logo, “se a guerra não terminar imediata e permanentemente […], o resultado será meramente uma daquelas revoluções que, nas palavras de Marx, aperfeiçoam o aparelho de Estado em vez de destruí-lo” ou, de modo ainda mais claro, “ela significaria até mesmo estender, sob outra forma, o regime que queremos suprimir”. Em caso de guerra, então, “devemos escolher entre obstruir o funcionamento da máquina militar na qual nós mesmos constituímos as engrenagens, ou ajudar essa máquina a esmagar cegamente vidas humanas” (ibid., p.101-2). [8] Para a esquerda, a guerra não pode ser “a continuação da política por outros meios”, para citar a famosa frase de Clausewitz. Na realidade, ela apenas certifica o fracasso da política. Se a esquerda deseja retomar a hegemonia e mostrar-se capaz de se valer de sua história para as tarefas de hoje, ela precisa escrever inde-levelmente em seus estandartes as palavras “antimilitarismo” e “não à guerra!”.

* Artigo originalmente publicado com o título “War and the Left: Considerations on a Chequered History”, Critical Sociology, v.48, n.5, 2022. Tradução de Eduardo Altheman.
** Marcello Musto é professor de Sociologia na York University (Toronto, Canadá) e especialista no pensamento socialista e na história do movimento operário. Seus escritos – disponíveis em www.marcellomusto.org – foram publicados mundialmente em 25 idiomas.

[1] “Nossas instituições sociais, bem como a centralização do poder político, são uma causa perma-nente de guerra, que só pode ser eliminada por uma reforma social completa”. Um texto anterior apresentado pela Associação Internacional dos Trabalhadores no Congresso da Paz de Genebra, realizado em setembro de 1867, afirmava que: “para acabar com a guerra, não basta acabar com os exércitos; é preciso mudar a organização social no sentido de uma distribuição cada vez mais equitativa da produção” (apud Musto, 2014a, p.234). (Cf. Marx, 2014, p.92).

[2] Este período testemunhou o nascimento da ideia de “guerra revolucionária”. Em um ensaio breve, porém incisivo, intitulado Reflexões sobre a Guerra, Simone Weil mostrou que as ideias sobre a guerra defendidas pelas seções mais radicais da esquerda tinham muito pouco em comum com o pacifismo e eram de fato inspiradas na Revolução Francesa. Em 1792, a França declarou guerra à Áustria e tornou-se difundida a ideia de exportar princípios revolucionários para os povos submetidos às monarquias obscurantistas que governavam a Europa. Os girondinos consideraram a guerra de 1972 uma cruzada pela liberdade: “a guerra revolucionária, seja ela defensiva ou ofensiva, não apenas [era] legítima, mas uma das formas mais gloriosas de luta da classe trabalhadora contra os opressores” (Weil, 2021, p.94). Robespierre, contudo, era mais cético: ele percebeu que a guerra nunca libertara nenhum povo estrangeiro e que “a liberdade não se traz na ponta de baionetas” (Robespierre, 1974, p.129). Ele também compreendeu que a propagação da guerra favorecia o despotismo militar e minava a liberdade do povo.

[3] Alguns destes pontos podem ser comparados com as reflexões de Charles Wright Mills (1956) em A elite do poder, livro no qual o establishment militar é visto como um elemento determinante no governo burocrático.

[4] Na época da Guerra Franco-Prussiana de 1870, Mikhail Bakunin também exortou os trabalhadores a transformar a guerra patriótica em guerra revolucionária. (Cf. Musto, 2014b, p.49).

[5] Segundo Simone Weil (2021, p.96), esta terminologia foi abandonada após o término da Primeira Guerra Mundial, quando, diante de “massas castigadas pela guerra, […] os partidos que alegavam representar o proletariado [foram forçados] a usar uma linguagem puramente pacifista”.

[6] Enquanto o movimento comunista via a União Soviética como o ponto de referência para a revolu-ção proletária internacional, tomava forma em Moscou a teoria do “socialismo em um só país”. De acordo com a visão desenvolvida por Bukharin e Stálin na década de 1920, a prioridade absoluta para o movimento comunista deveria ser a consolidação do socialismo na Rússia. Em A Terceira Internacional depois de Lênin (1928), Trotsky criticou agudamente essa guinada: “A tarefa dos par-tidos na Comintern assume um caráter auxiliar; sua missão é proteger a URSS de uma intervenção e não lutar pela conquista do poder” (Trotsky, 1966, p.61).

[7] Entre as vozes que se insurgiram contra essa política estava a de Leon Trotsky. Em uma série de apelos urgentes por uma frente única antifascista dos partidos operários, ele denunciou a linha de Moscou segundo a qual “todos os partidos na Alemanha – dos nazistas aos social-democratas – eram apenas variedades do fascismo e estavam levando a cabo o mesmo programa” (Trostky, 1971, p.422).

[8] Weil concluiu seu texto com estas palavras: “não importa o nome que receba – fascismo, demo-cracia ou ditadura do proletariado –, o principal inimigo continua sendo o aparato administrativo, policial e militar; não o inimigo do outro lado da fronteira, que é nosso inimigo apenas na medida em que é inimigo de nossos irmãos e irmãs, mas aquele que alega ser nosso defensor enquanto nos transforma em seus escravos. Em qualquer circunstância, a pior traição possível sempre consiste em concordar com subordinar-se a esse aparato e, para servir-lhe, espezinhar todos os valores humanos em si mesmo e nos outros” (Weil, 2021, p.103).

 

Referências bibliográficas

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Sociedades Pré-Capitalistas, Consequências do Colonialismo e Países Não Europeus

Introdução
Apesar dos graves problemas de saúde e dos múltiplos problemas familiares que teve de enfrentar durante a última fase de sua vida, Marx continuou a ocupar seus dias incansavelmente com pesquisas, trabalhando sempre que as circunstâncias lhe permitiam. Mesmo assim − ao contrário das afirmações da maioria de seus biógrafos de que sua curiosidade intelectual e perspicácia teórica enfraqueceram em seus anos finais −, ele não apenas prosseguiu seus estudos, mas sobretudo os estendeu para novas áreas.

O último período de trabalho de Marx foi certamente difícil, muitas vezes tortuoso, mas também foi muito importante teoricamente. Sua principal esperança era terminar O capital, cujo volume dois estava em preparação desde a publicação do volume um em 1867. No entanto, como sua energia intelectual era frequentemente reduzida e os problemas teóricos a resolver para a conclusão do livro ainda eram relevantes, de 1879 a 1882, ele preencheu dezenas de novos cadernos com notas e trechos de vários volumes que leu. A mente enciclopédica de Marx sempre foi guiada por uma curiosidade insaciável, e isso o levou a continuar atualizando seus conhecimentos e a ficar a par dos mais recentes desenvolvimentos científicos, em uma série de disciplinas e em muitas línguas. Além disso, além de livros e periódicos, ele vasculhou registros parlamentares, material estatístico, relatórios e publicações do governo.

As pesquisas que ele conduziu nesses anos sobre sociedades pré-capitalistas, as consequências do colonialismo e países não europeus estão entre as partes mais inexploradas de sua obra e têm uma relevância significativa para uma reavaliação abrangente de algumas de suas ideias-chave. As considerações críticas de Marx desenvolvidas nessa fase sobre a propriedade da terra, o colonialismo europeu, o desenvolvimento do capitalismo em escala global, a concepção materialista da história e as novas possibilidades para a revolução dissipam o mito de que ele deixou de escrever em seus últimos anos, além disso, desafiam a deturpação duradoura de ser um pensador eurocêntrico e economista que se fixava apenas no conflito de classes. Elas também mostram como Marx escapou da armadilha do determinismo econômico em que muitos de seus seguidores caíram.
Ainda que totalmente absorvido por intensos estudos teóricos, Marx nunca deixou de se interessar pelos acontecimentos econômicos e políticos internacionais de sua época, tentando prever os novos cenários que estes poderiam ter produzido para a emancipação da classe trabalhadora. Além de ler os principais jornais “burgueses”, ele recebia e consultava regularmente a imprensa operária alemã e francesa. Curioso como usual, Marx sempre começava o dia lendo as notícias para ficar por dentro do que estava acontecendo no mundo. A correspondência com importantes figuras políticas e intelectuais de vários países era frequentemente outra fonte valiosa de informação, dando-lhe novos estímulos e conhecimento mais profundo sobre uma ampla gama de assuntos.

O tempo que Marx dedicou a atualizar seus conhecimentos sobre assuntos que conhecia muito bem e, ao mesmo tempo, a abrir novos campos de pesquisa foi notável também nos últimos anos de sua vida. Não evitou a dúvida, mas a confrontou abertamente, preferiu prosseguir os estudos a se refugiar na autocerteza e desfrutar da adulação acrítica dos primeiros “marxistas” (ver MUSTO, 2018).

Propriedade da terra em países colonizados
Em setembro de 1879, Marx leu com grande interesse, em russo, Common landownership: the causes, course and consequences of its decline (1879), de Maksim Kovalevsky (1851-1916), e compilou trechos das partes que tratam da propriedade de terras em países sob regra estrangeira. Marx resumiu as várias formas através das quais os espanhóis na América Latina, os britânicos na Índia e os franceses na Argélia regulamentavam os direitos de posse (ver KRADER, 1975, p. 343). Ao considerar essas três áreas geográficas, suas primeiras reflexões relacionam-se com as civilizações pré-colombianas. Ele observou que com o início dos impérios Asteca e Inca, ‘a população rural continuou, como antes, a possuir terras em comum, mas ao mesmo tempo teve que subtrair parte de sua renda na forma de pagamentos em espécie aos seus governantes’. De acordo com Kovalevsky, esse processo lançou ‘as bases para o desenvolvimento dos latifúndios, em detrimento dos interesses de propriedade dos proprietários das terras comuns. A dissolução da terra comum só foi acelerada com a chegada dos espanhóis’ (MARX, 1977, p. 28). As terríveis consequências de seu império colonial foram condenadas tanto por Kovalevsky − a ‘política original de extermínio contra os Redskins’ − como por Marx, que acrescentou, por sua própria mão, que ‘depois que os [espanhóis] saquearam o ouro que encontraram lá, os Índios [foram] condenados a trabalhar nas minas’ (MARX, 1977, p. 29).

No final dessa seção de trechos, Marx observou que ‘a sobrevivência (em grande medida) da comuna rural’ era em parte devido ao fato de que, ‘[…] ao contrário das Índias Orientais Britânicas, não havia legislação colonial estabelecendo regulamentos que daria aos membros do clã a possibilidade de vender suas propriedades’ (MARX, 1977, p. 38).
Mais da metade dos trechos de Marx retirados de Kovalevsky foram sobre a Índia sob o domínio britânico. Ele prestou atenção especial às partes do livro que reconstruíram as formas de propriedade comum da terra na Índia contemporânea, bem como nos rajás hindus. Usando o texto de Kovalevsky, ele observou que a dimensão coletiva permaneceu viva mesmo após o parcelamento introduzido pelos britânicos: ‘Entre esses átomos, certas conexões continuam a existir, reminiscentes dos antigos grupos de proprietários de terras comunais’ (MARX, 1977, p. 388).

Apesar de sua hostilidade compartilhada ao colonialismo britânico, Marx foi crítico de alguns aspectos do relato histórico de Kovalevsky que projetou erroneamente os parâmetros do contexto europeu para a Índia. Em uma série de comentários breves, mas detalhados, ele o censurou por homogeneizar dois fenômenos distintos, pois embora “a concessão (farm-out) de ofícios − de forma alguma simplesmente feudal, como Roma atesta − e commendatio [foram] encontrados na Índia”, isso não significa que o “feudalismo no sentido do termo na Europa Ocidental” se desenvolveu lá. Na opinião de Marx, Kovalevsky omitiu o fato importante de que a “servidão” essencial ao feudalismo não existia na Índia (cf. MARX, 1977, p. 383). Além disso, uma vez que “de acordo com a lei indiana, o poder governante não [estava] sujeito à divisão entre os filhos, portanto, uma grande fonte de feudalismo europeu [foi] obstruída” (MARX, 1977, p. 376). Em conclusão, Marx era altamente cético quanto à transferência de categorias interpretativas entre contextos históricos e geográficos completamente diferentes (cf. HARSTICK, 1977). As percepções mais profundas que ele obteve do texto de Kovalevsky foram posteriormente integradas por meio de seu estudo de outras obras sobre a história indiana.

Por fim, no que diz respeito à Argélia, Marx não deixou de destacar a importância da propriedade comum da terra antes da chegada dos colonos franceses, ou das mudanças por eles introduzidas. De Kovalevsky, ele copiou: “A formação da propriedade privada da terra (aos olhos da burguesia francesa) é uma condição necessária para todo o progresso na esfera política e social. A continuação da manutenção da propriedade comunal ‘como forma que apoia as tendências comunistas nas mentes é perigosa tanto para a colônia quanto para a pátria’” (MARX, 1977, p. 405). Ele também extraiu os seguintes pontos de Communal landownership: the causes, course and consequences of its decline:

[…] a distribuição das propriedades do clã é encorajada, até mesmo prescrita, primeiro, como meio de enfraquecer as tribos subjugadas que estão sempre sob o impulso de revolta; segundo, como a única forma de uma transferência posterior da propriedade da terra das mãos dos nativos para as dos colonos. A mesma política foi seguida pelos franceses sob todos os regimes. […] O objetivo é sempre o mesmo: a destruição da propriedade coletiva indígena e sua transformação em objeto de livre compra e venda, e assim a passagem final facilitada para as mãos dos colonos franceses (MARX, 1977, p. 405).

Quanto à legislação sobre a Argélia proposta pelo republicano de esquerda Jules Warnier (1826-1899) e aprovada em 1873, Marx endossou a afirmação de Kovalevsky de que seu único propósito era “[…] expropriar o solo da população nativa pelos colonos e especuladores europeus” (MARX, 1977, p. 411). A afronta dos franceses chegou ao ponto de “roubo direto” ou conversão em “propriedade do governo” (MARX, 1977, p. 412) de todas as terras não cultivadas em comum para uso nativo. Esse processo foi pensado para produzir outro resultado importante: a eliminação do perigo de resistência por parte da população local. Novamente por meio das palavras de Kovalevsky, Marx (1977, p. 408 e 412) observou: […] a fundação da propriedade privada e o assentamento de colonos europeus entre os clãs árabes seriam os meios mais poderosos para acelerar o processo de dissolução das uniões de clãs. […] A expropriação dos árabes pretendida pela lei tinha dois propósitos: 1) fornecer aos franceses o máximo de terra possível; e 2) arrancar os árabes de seus laços naturais com o solo para quebrar a última força das uniões de clãs que estão sendo dissolvidas e, portanto, qualquer perigo de rebelião.

Marx (1977, p. 412) comentou que esse tipo de ‘individualização da propriedade da terra’ não só garantiu enormes benefícios econômicos para os invasores, mas também alcançou um ‘objetivo político […]: destruir os alicerces dessa sociedade’.
A seleção de pontos de Marx, bem como as poucas, mas diretas palavras condenando as políticas coloniais europeias que ele acrescentou aos trechos do texto de Kovalevsky, demonstra sua recusa em acreditar que a sociedade indiana ou argelina estava destinada a seguir o mesmo curso de desenvolvimento da Europa (cf. KRADER, 1975, p. 343). Enquanto Kovalevsky pensava que a propriedade da terra seguiria o exemplo europeu como uma lei da natureza, passando do comum ao privado em todos os lugares, Marx sustentava que a propriedade coletiva poderia durar em alguns casos e que certamente não desapareceria como resultado de alguma inevitabilidade histórica (cf. WHITE, 2018, p. 37-40).

Tendo examinado as formas de propriedade da terra na Índia por meio de um estudo da obra de Kovalevsky, do outono de 1879 ao verão de 1880, Marx compilou uma série de Notebooks on Indian history (Cadernos de história da Índia) (664-1858). Esses compêndios, cobrindo mais de mil anos de história, foram tirados de uma série de livros, em particular de Analytic history of India (1870) (História Analítica da Índia), de Robert Sewell (1845-1925), e History of India (1841) (História da Índia), de Mountstuart Elphinstone.

Marx dividiu suas anotações em quatro períodos. O primeiro conjunto apresenta uma cronologia bastante básica, desde uma conquista muçulmana, começando com a primeira penetração árabe em 664, até o início do século XVI. Um segundo conjunto cobriu o Império Moghul, fundado em 1526 por Zahīr ud-Dīn Muhammad que durou até 1761; também continha um breve levantamento das invasões estrangeiras da Índia e um esquema de quatro páginas da atividade mercantil europeia de 1497 a 1702. Do livro de Sewell, Marx copiou alguns pontos específicos sobre Murshid Quli Khan (1660-1727), o primeiro Nawab de Bengala e arquiteto de um novo sistema tributário. Marx o descreveu como “[…] um sistema de extorsão e opressão sem escrúpulos, que criou um grande excedente [dos] impostos de Bengala que foram devidamente enviados para Delhi” (MARX, 2001, p. 58). De acordo com Quli Khan, foi essa receita que manteve todo o Império Moghul à tona.

O terceiro e mais substancial conjunto de notas, cobrindo o período de 1725 a 1822, referia-se à presença da Companhia Britânica das Índias Orientais (British East India Company). Marx não se limitou aqui à transcrição dos principais eventos, datas e nomes, mas acompanhou com mais detalhes o curso dos eventos históricos, particularmente no que diz respeito ao domínio britânico na Índia. O quarto e último conjunto de notas foi dedicado à revolta dos Sepoys, de 1857, e ao colapso da Companhia Britânica das Índias Orientais (British East India Company) no ano seguinte.

Em Notes on Indian history (664-1858), Marx deu muito pouco espaço para suas reflexões pessoais, mas suas anotações marginais fornecem pistas importantes para seus pontos de vista. Os invasores foram frequentemente descritos com termos como “cães britânicos” (MARX, 2001, p. 165, 176 e 180), “usurpadores” (MARX, 2001, p. 155-156 e 163), “hipócritas ingleses” ou “intrusos ingleses” (MARX, 2001, p. 81). Em contraste, as lutas de resistência dos indianos sempre foram acompanhadas de expressões de solidariedade. Não foi por acaso que Marx sempre substituiu o termo “amotinados” de Sewell por “insurgentes” (MARX, 2001, p. 163-164 e 184). Sua condenação direta do colonialismo europeu era inconfundível.

Marx defendeu um ponto de vista semelhante também em sua correspondência. Em uma carta escrita a Nikolai Danielson, em fevereiro de 1881, ele discutiu os principais eventos que estavam acontecendo na Índia e chegou ao ponto de prever que ‘complicações sérias, se não um surto geral, [estavam] reservadas para o governo britânico’ (MARX, 1881, p. 63). O grau de exploração tornou-se cada vez mais intolerável:

O que os ingleses tiram deles anualmente na forma de aluguel, dividendos por ferrovias inúteis para os hindus, pensões para militares e funcionários públicos, para o Afeganistão e outras guerras, etc. etc. − o que eles tiram deles sem equivalente e totalmente à parte pelo que eles se apropriam anualmente na Índia, falando apenas do valor das mercadorias que os indianos têm que gratuita e anualmente enviar para a Inglaterra, isso equivale a mais do que a soma total da renda dos 60 milhões de trabalhadores agrícolas e industriais de Índia! Este é um processo de sangramento que requer vingança! Os anos de fome pressionam-se mutuamente e em dimensões até agora desconhecidas na Europa! Existe uma conspiração real em que hindus e muçulmanos cooperam; o governo britânico está ciente de que algo está “fermentando”, mas esse povo superficial (quero dizer, os homens do governo), entorpecido por suas próprias formas parlamentares de falar e pensar, nem mesmo deseja ver com clareza, compreender toda a extensão do perigo iminente! Iludir os outros e iludi-los para iludir a si mesmo − isto é: sabedoria parlamentar em poucas palavras! Tão bem! (MARX, 1881, p. 63-64).

Finalmente, nesse período, Marx voltou sua atenção para a Austrália, mostrando particular interesse na organização social de suas comunidades aborígenes. De Some account of central Australia (1880), do etnógrafo Richard Bennett, ele adquiriu o conhecimento crítico necessário para usar contra aqueles que argumentavam que não havia leis nem cultura na sociedade aborígene. Ele também leu outros artigos na The Victorian Review sobre o estado da economia do país, incluindo “The Commercial Future of Australia” (1880) e “The Future of North-East Australia” (1880).
As investigações de Marx sobre a propriedade da terra em países colonizados foram úteis, e o ajudaram a expandir seu conhecimento sobre argumentos e áreas geográficas que eram apenas marginais em O capital, volume um, e que, portanto, geralmente não tinham sido associados a suas teorias. Esse tema não foi a única novidade em seus estudos da época, já que na década de 1880 ele mergulhou em muitos outros novos caminhos de pesquisa.

Laços familiares, gênero e relações de propriedade nas sociedades antigas
Entre dezembro de 1880 e junho de 1881, os interesses de pesquisa de Marx se concentraram na antropologia. Ele começou com Ancient society (1877), um trabalho do antropólogo americano Lewis Morgan (1818-1881). O que mais impressionou Marx foi a maneira como Morgan tratava os fatores de produção e tecnológicos como pré-condições do progresso social, e ele se sentiu motivado a reunir uma compilação de uma centena de páginas densamente compactadas. Estas constituem a maior parte do que é conhecido como The ethnological notebooks (1880-1881). Elas também contêm trechos de outras obras: Java, ou how to manage a colony (1861) por James Money (1818-1890), um advogado e especialista em Indonésia; The Aryan village in India and Ceylon (1880) por John Phear (1825-1905), presidente da Suprema Corte do Ceilão; e Lectures on the early history of institutions (1875), do historiador Henry Maine (1822-1888), totalizando mais cem folhas.

Em sua pesquisa anterior, Marx já havia examinado e comentado extensivamente sobre as formas socioeconômicas passadas − na primeira parte de A ideologia alemã (The German ideology), na longa seção de Grundrisse intitulada “Formas que precedem a produção capitalista” (“Forms which precede capitalist production”), e em O capital, volume um. Em 1879, sua leitura de Common land ownership de Kovalevsky o direcionou mais uma vez ao assunto. Mas foi somente com Os cadernos etnológicos (The ethnological notebooks) que ele se engajou em um estudo mais abrangente e atualizado.

O objetivo da nova pesquisa de Marx era ampliar seu conhecimento de períodos históricos, áreas geográficas e tópicos temáticos que ele considerava essenciais para sua crítica contínua da economia política. Isso também lhe permitiu adquirir informações específicas sobre as características sociais e instituições de um passado remoto, familiarizando-o com material que não estava em sua posse quando escreveu os manuscritos das décadas de 1850 e 1860. Finalmente, familiarizou-se com as últimas teorias apresentadas pelos mais eminentes estudiosos contemporâneos.

O objetivo teórico-político preciso por trás desses estudos era reconstruir a sequência mais provável em que os diferentes modos de produção se sucederam ao longo do tempo, focando particularmente o nascimento do capitalismo. Ele acreditava que isso daria bases históricas mais sólidas à sua teoria da possível transformação comunista da sociedade. Em Os cadernos etnológicos, Marx, portanto, reuniu compilações e notas interessantes sobre: a pré-história, o desenvolvimento dos laços familiares, a condição das mulheres, as origens das relações de propriedade, as práticas comunitárias nas sociedades pré-capitalistas, a formação e a natureza do poder do Estado, o papel do indivíduo e aspectos mais modernos, como as conotações racistas de certas abordagens antropológicas e os efeitos do colonialismo.

Sobre o tema particular da pré-história e o desenvolvimento dos laços familiares, Marx tirou uma série de indicações inestimáveis da obra de Morgan. Conforme Henry Hyndman (1842-1921) lembrou: “quando Lewis H. Morgan provou para a satisfação de Marx em sua Ancient Society que a gens e não a família era a unidade social do antigo sistema tribal e da sociedade antiga em geral, Marx imediatamente abandonou suas opiniões anteriores” (HYNDMAN, 1911, p. 253-254). Foi a pesquisa de Morgan sobre a estrutura social dos povos primitivos que lhe permitiu superar os limites das interpretações tradicionais de parentesco, incluindo aquela apresentada pelo historiador alemão Barthold Niebuhr (1786-1831) em História romana (Roman history) (1811-1812). Em contraste com todas as hipóteses anteriores, Morgan mostrou que foi um erro grave sugerir que a gens “era posterior à família monogâmica” e era o resultado de “[…] um agregado de famílias” (MORGAN, 1877, p. 515).

Seus estudos da sociedade pré-histórica e antiga o levaram à conclusão de que a família patriarcal não deveria ser vista como a unidade básica original da sociedade, mas como uma forma de organização social mais recente do que geralmente se acreditava. Era uma organização “[…] fraca demais para enfrentar sozinha as dificuldades da vida” (MORGAN, 1877, p. 472). Era muito mais plausível supor a existência de uma forma como a dos povos nativos americanos, a família sindiásmica, que praticava um “[…] comunismo no ato de viver” (MARX, [1880-1882], p. 115).

Por outro lado, Marx constantemente polemizava contra Maine, que em suas Lectures on the early history of institutions (1875) visualizou “a família privada” como “a base a partir da qual a seita e o clã se desenvolveram”. O desprezo de Marx por essa tentativa de reverter a flecha do tempo ao transpor a era vitoriana para a pré-história o levou a afirmar que esse “[…] inglês imbecil não começou na gens, mas no Patriarca, que mais tarde se tornou o chefe − que bobagens!” (MARX, [1880-1882], p. 292). Sua zombaria gradualmente cresce: “Maine, afinal, não consegue tirar a família privada inglesa de sua cabeça” (MARX, [1880-1882], p. 309); ele “[…] transporta a família ‘patriarcal’ romana para o início das coisas” (MARX, [1880-1882], p. 324). Marx também não poupou Phear, de quem disse: “O asno baseia tudo em famílias privadas!” (MARX, [1880-1882], p. 281).

Morgan deu a Marx mais matéria para reflexão com suas observações sobre o conceito de família, uma vez que em seu “significado original” a palavra família − que tem a mesma raiz de famulus ou servo – “não tinha relação com o casal ou seus filhos”, mas com o corpo de escravos e servos que trabalhavam para sua manutenção e estavam sob o poder do “pater familias” (MORGAN, 1877, p. 469). Sobre isso, Marx ([1880-1882], p. 120) observou:

A família moderna contém o germe não só do servitus (escravidão), mas também da servidão, pois contém desde o início uma relação com os serviços para a agricultura. Ela contém em miniatura todos os antagonismos dentro de si, que mais tarde se desenvolverão amplamente na sociedade e em seu Estado. […] A família monogâmica pressupunha, para ter uma existência separada das outras, uma classe doméstica que em toda parte era diretamente constituída por escravos.

Desenvolvendo suas próprias ideias em outras partes do compêndio, Marx ([1880-1882], p. 210) escreveu: “[…] a propriedade em casas, terras e rebanhos […]” estava ligada à “[…] família monogâmica”. Na verdade, como sugeria o Manifesto do Partido Comunista (Manifesto of the Communist Party), este foi o ponto de partida da história como “[…] a história da luta de classes” (MARX; ENGELS, 1845-1848, p. 482).
Em A origem da família, da propriedade privada e do Estado (The origin of the family, private property and the State) (1884) − um livro que o autor descreveu como “o cumprimento de uma ordem” e não mais do que um “substituto insuficiente” para o que seu “querido amigo” não viveu para escrever (ENGELS, 1882-1889, p. 131) −, Engels concluiu a análise de Marx em Os cadernos etnológicos (The ethnological notebooks). Monogamia, ele argumentou, representava:

[…] a sujeição de um sexo pelo outro, como a proclamação de um conflito entre os sexos até então desconhecido ao longo da história anterior. Em um antigo manuscrito não publicado, a minha obra junto com Marx em 1846, encontro o seguinte: “A primeira divisão do trabalho é entre o homem e a mulher para a criação dos filhos”. E hoje posso acrescentar: A antítese de primeira classe que aparece na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre homem e mulher no casamento monogâmico e a opressão de primeira classe com a do sexo feminino pelo masculino. A monogamia [é] a forma celular da sociedade civilizada, na qual já podemos estudar a natureza das antíteses e contradições, que se desenvolve plenamente nesta última (ENGELS, 1882-1889, p. 173-174).

A tese de Engels postulou uma relação excessivamente esquemática entre conflito econômico e opressão de gênero, que estava ausente nas fragmentárias e altamente intrincadas anotações de Marx.

Marx também prestou muita atenção às considerações de Morgan sobre a paridade entre os sexos, que argumentava que as sociedades antigas pré-gregas eram mais progressistas no que diz respeito ao tratamento e ao comportamento das mulheres. Marx copiou as partes do livro de Morgan que mostravam como, entre os gregos, “a mudança de descendência da linha feminina para a masculina era prejudicial para a posição e os direitos da esposa e da mulher”. Na verdade, Morgan tinha uma avaliação muito negativa do modelo social grego: “Os gregos permaneceram bárbaros no tratamento que dispensavam às mulheres no auge de sua civilização; sua educação superficial, […] sua inferioridade inculcada como princípio sobre elas, até que passou a ser aceita como um fato pelas próprias mulheres”. Além disso, havia “um princípio de egoísmo estudado entre os homens, tendendo a diminuir a apreciação pelas mulheres, dificilmente encontrado entre os selvagens”. Pensando no contraste com os mitos do mundo clássico, Marx acrescentou uma observação aguda: “A condição das deusas no Olimpo é uma lembrança da posição das mulheres, antes mais livres e influentes. Juno ávida por poder, a deusa da sabedoria nasce da cabeça de Zeus (MARX, [1880-1882], p. 121)” Para Marx, a memória das divindades livres do passado fornecia um exemplo para uma possível emancipação no presente.

Dos vários autores que estudou, Marx registrou muitas observações importantes sobre o papel das mulheres na sociedade antiga. Por exemplo, referindo-se à obra Matriarcado (Matriarchy) (1861) do antropólogo suíço Johann Bachofen (1815-1887), ele observou: “As mulheres eram a grande potência entre a gens e em todos os outros lugares. Elas não hesitavam, quando necessário, em ‘arrancar os chifres’, como era tecnicamente chamado, da cabeça de um chefe e mandá-lo de volta às fileiras de guerreiros. A nomeação original dos chefes também sempre ficou com elas” (MARX, [1880-1882], p. 116).

A leitura de Morgan feita por Marx também lhe deu um ângulo sobre outra questão importante: a origem das relações de propriedade, pois o célebre antropólogo estabeleceu uma relação causal entre os vários tipos de estrutura de parentesco e formas socioeconômicas. Em sua opinião, os fatores da história ocidental que explicaram a afirmação do sistema descritivo − que descrevia parentes de sangue e especificava o parentesco de todos (por exemplo, “filho do irmão para sobrinho, irmão do pai para tio, filho do irmão do pai para primo”) − e o declínio do sistema classificatório − que agrupava parentes de sangue em categorias sem especificar proximidade ou distância em relação ao Ego (por exemplo, “meu próprio irmão e os filhos do irmão de meu pai são em igual grau meus irmãos”’) − tiveram a ver com o desenvolvimento da propriedade e do Estado.

O livro de Morgan é dividido em quatro partes: (1) Crescimento da Inteligência por meio de Invenções e Descobertas; (2) Crescimento da Ideia de Governo; (3) Crescimento da Ideia da Família; e (4) Crescimento da Ideia de Propriedade. Marx mudou a ordem para (1) invenções, (2) família, (3) propriedade e (4) governo, a fim de tornar mais claro o nexo entre os dois últimos.

O livro de Morgan (1877, p. 551) argumentou que, embora “os direitos de riqueza, de posição e de posição oficial” tenham prevalecido por milhares de anos sobre “justiça e inteligência”, havia ampla evidência de que “as classes privilegiadas” eram uma influência “onerosa” da sociedade. Marx copiou quase na íntegra uma das páginas finais de Ancient society sobre as distorções que a propriedade pode gerar. Funcionava com conceitos que o impressionaram profundamente:

[…] desde o advento da civilização, o crescimento da propriedade tem sido tão imenso, suas formas tão diversificadas, seus usos tão expandidos e sua gestão tão inteligente no interesse de seus proprietários, que se tornou, por parte do povo, uma incontrolável potência. A mente humana fica perplexa na presença de sua própria criação. Chegará o tempo, entretanto, em que a inteligência humana se elevará ao domínio da propriedade e definirá as relações do Estado com a propriedade que protege, bem como as obrigações e os limites dos direitos de seus proprietários. Os interesses da sociedade são primordiais para os interesses individuais, e os dois devem ser colocados em relações justas e harmoniosas (MORGAN, 1877, p. 551-552).

Morgan se recusou a acreditar que o “destino final da humanidade” era a mera busca de riquezas. Ele emitiu um aviso severo:

A dissolução da sociedade parece ser o fim de uma carreira para a qual a propriedade é o fim e o objetivo; porque tal carreira contém os elementos de autodestruição. A democracia no governo, a fraternidade na sociedade, a igualdade de direitos e privilégios e a educação universal prenunciam o próximo plano superior da sociedade para o qual a experiência, a inteligência e o conhecimento tendem continuamente. Ele [um plano superior de sociedade ] será um renascimento, em uma forma superior [de sociedade], da liberdade, igualdade e fraternidade das antigas gentes (MORGAN, 1877, p. 551-552.

A “civilização” burguesa, então, foi ela própria uma fase transitória. Surgiu no final de duas longas épocas, o “estado selvagem” e o “estado bárbaro” (os termos correntes na época), que seguiram a abolição das formas comunais de organização social. Essas formas implodiram após o acúmulo de propriedade e riqueza e o surgimento das classes sociais e do Estado. Mas, mais cedo ou mais tarde, a pré-história e a história estavam destinadas a se juntar novamente.

Morgan considerou as sociedades antigas muito democráticas e solidárias. Por enquanto, ele se limitou a uma declaração de otimismo sobre o progresso da humanidade, sem invocar a necessidade de luta política. Marx, no entanto, não previu um renascimento socialista do “mito do nobre selvagem”. Ele nunca esperou por um retorno ao passado, mas − como ele deixou claro ao copiar o livro de Morgan − esperava o advento de uma “forma superior de sociedade” (MARX, [1880-1882], p. 139) baseada em um novo modo de produção e consumo. Isso não aconteceria por meio da evolução mecânica, mas apenas pela luta consciente da classe trabalhadora.

Toda a leitura antropológica de Marx teve uma influência sobre as origens e as funções do Estado. Os trechos retirados de Morgan resumiram seu papel na transição da barbárie para a civilização, enquanto suas notas sobre o Maine se concentraram na análise das relações entre o indivíduo e o Estado (cf. KRADER, [1880-1882], p. 19). Consistente com seus textos teóricos mais significativos sobre o assunto, desde a Crítica da filosofia do direito de Hegel (Critique of Hegel’s Philosophy of Law) (1843) até A Guerra Civil na França (The Civil War in France) (1871), Os cadernos ttnológicos (The ethnological notebooks) também apresentam o Estado como um poder que subjuga a sociedade, uma força que impede a plena emancipação do indivíduo.

Nas notas que escreveu em 1881, Marx destacou o caráter parasitário e transitório do Estado:

Maine ignora o ponto muito mais profundo: que a aparente existência suprema independente do Estado é apenas aparente e que é em todas as suas formas uma excrescência da sociedade; assim como seu próprio aparecimento surge apenas em um determinado estágio de desenvolvimento social, ele desaparece novamente assim que a sociedade atinge um estágio ainda não alcançado (MARX, [1880-1882], p. 329).

Marx seguiu com uma crítica da condição humana sob as circunstâncias históricas dadas. A formação da sociedade civilizada, com sua transição de um regime de propriedade comum para a individual, gerou uma ‘ainda unilateral […] individualidade’ (MARX, [1880-1882], p. 329). Se a “verdadeira natureza [do Estado] aparece apenas quando analisamos seu conteúdo”, ou seja, seus “interesses”, isso mostra que esses interesses “são comuns a certos grupos sociais” e são, portanto, “interesses de classe”. Para Marx, “o Estado é construído sobre classes e pressupõe classes”. Portanto, a individualidade que existe nesse tipo de sociedade é “uma individualidade de classe”, que em última análise é “baseada em pressupostos econômicos” (MARX, [1880-1882], p. 329).
Em Os cadernos etnológicos (The ethnological notebooks), Marx também fez uma série de observações sobre as conotações racistas de muitos dos relatórios antropológicos que estava estudando (cf. KRADER, [1880-1882], p. 37; e GAILEY, 2006, p. 36). Sua rejeição a tal ideologia foi categórica, e ele comentou causticamente os autores que a expressaram dessa forma. Assim, quando Maine usou epítetos discriminatórios, ele firmemente interpôs: “De novo esse absurdo!” Além disso, expressões como o “que o diabo pegue esse jargão ‘ariano’!” (MARX, [1880-1882], p. 324) continuaram recorrentes.

Referindo-se a Java ou How to manage a colony de Money e The Aryan village in India and Ceylon de Phear, Marx estudou os efeitos negativos da presença europeia na Ásia. Ele não estava nem um pouco interessado nas opiniões de Money sobre a política colonial, mas achou seu livro útil pelos detalhes que deu sobre o comércio . Ele adotou uma abordagem semelhante à do livro de Phear, focando principalmente o que ele relatou sobre o Estado em Bengala e ignorando suas fracas construções teóricas.
Os autores que Marx leu e resumiu em Os cadernos etnológicos (The ethnological notebooks) foram todos influenciados − com várias nuances − pelas concepções evolucionistas da época, e alguns também se tornaram defensores firmes da superioridade da civilização burguesa. Mas um exame de Os cadernos etnológicos (The ethnological notebooks) mostra claramente que suas afirmações ideológicas não tiveram influência sobre Marx. As teorias do progresso, hegemônicas no século XIX e amplamente compartilhadas por antropólogos e etnólogos, postularam que os eventos seguiriam um curso predeterminado por causa de fatores externos à ação humana. Uma sequência rígida de etapas teve o mundo capitalista como destino único e uniforme.

No espaço de alguns anos, uma crença ingênua no avanço automático da história também se enraizou na Segunda Internacional. A única diferença com a versão burguesa era a previsão de que um estágio final se seguiria ao inevitável “colapso” do sistema capitalista: a saber, o advento do socialismo (posteriormente definido como “marxista!”). Essa análise não era apenas cognitivamente inadequada; ela produziu uma espécie de passividade fatalista, que se tornou um fator estabilizador da ordem existente e enfraqueceu a ação social e política do proletariado. Opondo-se a essa abordagem que tantos consideravam “científica”, a qual era comum às visões burguesa e socialista de progresso, Marx rejeitou os cantos de sereia de um historicismo de mão única e preservou sua própria concepção complexa, flexível e diversificada. Considerando que, em comparação com os oráculos darwinistas, a voz de Marx pode parecer incerta e hesitante, ele realmente escapou da armadilha do determinismo econômico em que muitos de seus seguidores e continuadores ostensivos tendiam a cair − uma posição anos-luz das teorias que afirmavam tê-los inspirado, o que levaria muitos a uma das piores caracterizações do “marxismo”.

Em seus manuscritos, cadernos e cartas a camaradas e ativistas, Marx perseverou em seus esforços para reconstruir a complexa história da passagem da Antiguidade ao capitalismo. Ele valorizava as informações e os dados históricos, mas não compartilhava dos esquemas rígidos que sugeriam uma sequência inescapável de estágios na história humana.
Marx rejeitou qualquer vinculação rígida das mudanças sociais apenas às transformações econômicas. Em vez disso, ele destacou a especificidade das condições históricas, as múltiplas possibilidades que a passagem do tempo oferecia e a centralidade da intervenção humana na formação da realidade e na realização da mudança (cf. GAILEY, 2006, p. 35 e 44). Essas foram as características salientes da elaboração teórica de Marx nos anos finais de sua vida.

O caso da Rússia e a questão de se contornar o capitalismo
No final de sua vida, Marx olhou para o potencial revolucionário da classe trabalhadora de uma forma menos esquemática do que na época da fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores. Na Grã-Bretanha, o capitalismo criou o maior número proporcional de operários de fábrica do mundo (cf. MUSTO, 2015, p. 171-208), que começaram a desfrutar de melhores condições de vida, em parte com base na exploração colonial. Marx estava ciente de que o movimento dos trabalhadores britânicos havia se enfraquecido e sofrido o condicionamento negativo do reformismo sindical (cf. MUSTO, 2014). Portanto, ele acreditava que outros países pareciam mais propensos a produzir uma revolução do que a Grã-Bretanha. As investigações de Marx sobre a Rússia foram úteis para o desenvolvimento de suas ideias sobre esse assunto.

Em fevereiro de 1881, quando o crescente interesse de Marx por formas arcaicas de comunidade o levou a estudar antropólogos contemporâneos, e como suas reflexões constantemente alcançavam além da Europa, um acontecimento fortuito o encorajou a aprofundar seu estudo da Rússia. Ele recebeu uma carta breve, mas intensa e envolvente, da militante populista Vera Zasulich (1848-1919) sobre o futuro da obshchina − a comunidade camponesa russa. Grande admiradora de Marx, ela enfatizou que ele, “melhor do que ninguém”, podia entender a urgência do problema e acrescentou: “[…] até mesmo o destino pessoal de nossos socialistas revolucionários dependia” (ZASULICH, 1984, p. 98-99) de sua resposta. Zasulich, então, resumiu os dois pontos de vista diferentes que surgiram nas discussões:

A comuna rural, livre de exorbitantes cobranças de impostos, pagamento à nobreza e administração arbitrária, pode ser capaz de se desenvolver em uma direção socialista, isto é, organizar gradativamente sua produção e distribuição em bases coletivistas. Nesse caso, o socialista revolucionário deve dedicar todas as suas forças à libertação e ao desenvolvimento da comuna.

Se, no entanto, a comuna está destinada a perecer, tudo o que resta para o socialista, como tal, são cálculos mais ou menos infundados sobre quantas décadas levará para que as terras dos camponeses russos passem para as mãos da burguesia, e quantos séculos levará para o capitalismo na Rússia atingir algo parecido com o nível de desenvolvimento já alcançado na Europa Ocidental (ZASULICH, 1984, p. 98-99).

Zasulich apontou ainda que alguns dos envolvidos na discussão argumentaram que “a comuna rural é uma forma arcaica condenada a perecer pela história, pelo socialismo científico e, em suma, por tudo que está acima do debate”. Aqueles que defendiam essa visão se autodenominavam “discípulos por excelência” de Marx: “Marxistas”. Seu argumento mais forte era frequentemente: “Marx disse”.

A questão colocada por Zasulich chegou no momento certo, exatamente quando Marx estava absorvido no estudo das comunidades pré-capitalistas. Sua mensagem, portanto, o induziu a analisar um caso histórico real de grande relevância contemporânea, intimamente relacionado aos seus interesses teóricos da época. Por quase três semanas, Marx permaneceu imerso em seus papéis, bem ciente de que deveria fornecer uma resposta a uma questão teórica altamente significativa e expressar sua posição sobre uma questão política crucial. Os frutos de seu trabalho foram quatro rascunhos − três deles muito longos e às vezes contendo argumentos contraditórios − e a resposta final que ele enviou a Zasulich.

No primeiro e mais longo dos quatro rascunhos, Marx analisou o que considerou o “único argumento sério” no qual a “dissolução da comuna camponesa russa” deveria ser inevitável. “Voltando muito atrás, a propriedade comunal de um tipo mais ou menos arcaico podia ser encontrada em toda a Europa Ocidental; em todos os lugares ele desapareceu com o aumento do progresso social. Por que deveria ser capaz de escapar do mesmo destino apenas na Rússia?” (MARX, 1874-1883, p. 349). Em sua resposta, Marx repetiu que ele “[…] não levaria este argumento em consideração, exceto na medida em que é baseado em experiências europeias” (MARX, 1874-1888, p. 365). Com a relação à Rússia:

Se a produção capitalista deve estabelecer seu domínio na Rússia, a grande maioria dos camponeses, ou seja, do povo russo, deve ser convertida em assalariados e, consequentemente, expropriada pela abolição antecipada de sua propriedade comunista. Mas, em qualquer caso, o precedente ocidental não provaria absolutamente nada! (MARX, 1874-1888, p. 361).

Marx não excluiu a possibilidade de que a comuna rural se desintegrasse e encerrasse sua longa existência. Mas se isso acontecesse, não seria por causa de alguma predestinação histórica (cf. também SHANIN, 1984, p. 16). Referindo-se a seus próprios seguidores que argumentavam que o advento do capitalismo era inevitável, ele comentou com Zasulich com seu típico sarcasmo: “Os ‘marxistas’ russos de quem você fala são completamente desconhecidos para mim. Até onde sei, os russos com quem estou em contato pessoal têm pontos de vista diametralmente opostos” (MARX, 1874-1888, p. 361).

Essas constantes referências às experiências ocidentais foram acompanhadas por uma observação política de grande valor. Considerando que, no início dos anos 1850, em seu artigo do New-York Tribune, “Os resultados futuros do domínio britânico na Índia” (“The future results of British rule in India”) (1853), ele sustentou que “[…] a Inglaterra tem de cumprir uma dupla missão na Índia: uma destrutiva, a outra regenerando a aniquilação da velha sociedade asiática e lançando as bases materiais da sociedade ocidental na Ásia […]” (MARX, 1853-1854, p. 217-218), houve uma mudança evidente de perspectiva em suas reflexões sobre a Rússia.

Já em 1853, ele não tinha ilusões sobre as características básicas do capitalismo. Marx sabia muito bem que a burguesia nunca “[…] realizou um progresso sem arrastar indivíduos e povo através do sangue e da sujeira, da miséria e da degradação” (MARX, 1853-1854, p. 221). Mas ele também estava convencido de que, por meio do comércio mundial, do desenvolvimento das forças produtivas e da transformação da produção em algo cientificamente capaz de dominar as forças da natureza, “[…] a indústria e o comércio burgueses [haviam] criado as condições materiais de um novo mundo” (MARX, 1853-1854, p. 222).

Leituras limitadas e às vezes superficiais viram isso como evidência do eurocentrismo ou orientalismo de Marx, mas na realidade não refletia mais do que uma visão parcial e ingênua do colonialismo sustentada por um homem que escreveu um artigo jornalístico com apenas 35 anos de idade. Em nenhuma parte das obras de Marx há a sugestão de uma distinção essencialista entre as sociedades do Oriente e do Ocidente. Em 1881, após três décadas de profunda pesquisa teórica e observação cuidadosa das mudanças na política internacional, para não falar de suas enormes sinopses nos Os cadernos etnológicos (The ethnological notebooks), ele tinha uma visão bastante diferente da transição das formas comunais do passado para o capitalismo. Assim, referindo-se às “Índias Orientais”, ele observou: ”

Todos, exceto Sir Henry Maine e outros de sua laia, percebem que a supressão da propriedade comunal de terras não foi nada além de um ato de vandalismo inglês, empurrando o povo nativo não para a frente, mas para trás” (MARX, 1874-1888, p. 365). Tudo o que os britânicos “[…] conseguiram fazer foi arruinar a agricultura nativa e dobrar o número e a gravidade das fomes” (MARX, 1874-1888, p. 368).

Assim, a obshchina russa não estava predestinada a sofrer o mesmo destino que formas semelhantes da Europa Ocidental nos séculos anteriores, onde “[…] a transição de uma sociedade fundada na propriedade comunal para uma sociedade fundada na propriedade privada” (MARX, 1874-1888, p. 367) era mais ou menos uniforme. À pergunta se isso era inevitável na Rússia, Marx respondeu secamente: “Certamente não”. Para Marx, o campesinato “[…] pode, assim, incorporar as aquisições positivas planejadas pelo sistema capitalista sem passar por suas forcas caudinas” (MARX, 1874-1888, p. 368). Dirigindo-se àqueles que negavam a possibilidade de saltos e viam o capitalismo como um palco indispensável também para a Rússia, Marx perguntou ironicamente se a Rússia teve “[…] que passar por um longo período de incubação na indústria de engenharia […] a fim de utilizar máquinas, motores a vapor, ferrovias, etc.”. Da mesma forma, não teria sido possível “[…] introduzir num piscar de olhos todo o mecanismo de troca (bancos, instituições de crédito, etc.) que o Ocidente levou séculos para conceber?”” (MARX, 1874-1888, p. 349).

Marx criticou o “isolamento” das comunas agrícolas arcaicas, pois, fechadas em si mesmas e sem contato com o mundo exterior, eram politicamente falando a forma econômica mais condizente com o regime czarista reacionário: “A falta de conexão entre a vida de uma comuna e a das outras, este microcosmo localizado, […] sempre dá origem ao despotismo central para além das comunas” (MARX, 1874-1888, p. 353). Marx certamente não mudou seu complexo julgamento crítico sobre as comunas rurais na Rússia, e a importância do desenvolvimento individual e da produção social permaneceu intacta em sua análise. Ele não se convenceu de repente de que as comunas rurais arcaicas eram um lócus de emancipação mais avançado para o indivíduo do que as relações sociais existentes sob o capitalismo. Ambos permaneceram distantes de como ele concebia a sociedade comunista.

Os rascunhos da carta de Marx a Zasulich não mostram nenhum vislumbre da ruptura dramática com suas posições anteriores que alguns estudiosos detectaram. Marx não sugeriu, como uma questão de princípio teórico, que a Rússia ou outros países onde o capitalismo ainda estava subdesenvolvido deviam se tornar o lócus especial para o início da revolução; nem pensava que os países com um capitalismo mais atrasado estivessem mais próximos do objetivo do comunismo do que outros com um desenvolvimento produtivo mais avançado. Para ele, rebeliões esporádicas ou lutas de resistência não devem ser confundidas com o estabelecimento de uma nova ordem socioeconômica de base comunista. A possibilidade que ele considerou em um momento muito particular da história da Rússia, quando surgiram oportunidades favoráveis para uma transformação progressiva das comunas agrárias, não poderia ser elevada a um modelo mais geral. A Argélia governada pela França ou a Índia britânica, por exemplo, não exibiam as condições especiais que a Rússia tinha naquela conjuntura histórica particular, e a Rússia do início da década de 1880 não podia ser comparada com o que poderia acontecer lá no futuro. O novo elemento no pensamento de Marx foi uma abertura teórica cada vez maior, que lhe permitiu considerar outros caminhos possíveis para o socialismo que ele nunca havia levado a sério ou considerado inatingíveis.

O que Marx escreveu é muito semelhante ao que Nikolai Chernyshevsky (1828-1889) havia escrito no passado. Essa alternativa era possível e, certamente, era mais adequada ao contexto socioeconômico da Rússia do que “[…] agricultura capitalizada no modelo inglês” (MARX, 1874-1888, p. 358). Mas ela poderia sobreviver apenas se “o trabalho coletivo suplantasse o trabalho por parcela − a fonte de apropriação privada”. Para que isso acontecesse, eram necessárias duas coisas: “[…] a necessidade econômica de tal mudança e as condições materiais para realizá-la” (MARX, 1874-1888, p. 356). O fato de a comuna agrícola russa ser contemporânea do capitalismo na Europa ofereceu a ela “[…] todas as condições necessárias para o trabalho coletivo” (MARX, 1874-1888, p. 356), enquanto a familiaridade do camponês com o artel facilitaria a verdadeira transição para o “trabalho cooperativo” (MARX, 1874-1888, p. 356).

Marx voltou a temas semelhantes em 1882. Em janeiro, no “Prefácio à segunda edição russa do Manifesto do Partido Comunista”, de sua coautoria com Engels, o destino da comuna rural russa está ligado às lutas do proletariado na Europa Ocidental:

Na Rússia encontramos, face a face com a fraude capitalista em rápido desenvolvimento e a propriedade da terra burguesa, que está apenas começando a se desenvolver, mais da metade das terras possuídas em comum pelos camponeses. Agora a questão é: pode a obshchina russa, uma forma de propriedade comum primordial da terra, mesmo se muito minada, passar diretamente para a forma superior de propriedade comum comunista? Ou deve, ao contrário, primeiro passar pelo mesmo processo de dissolução que constitui o desenvolvimento histórico do Ocidente? A única resposta possível hoje é esta: se a Revolução Russa se tornar o sinal para uma revolução proletária no Ocidente, de forma que as duas se complementem, a atual propriedade comum russa da terra pode servir de ponto de partida para o desenvolvimento comunista (MARX, 1874-1888, p. 426).

A tese básica que Marx frequentemente expressara no passado permanecia a mesma, mas agora suas ideias estavam mais relacionadas com o contexto histórico e os vários cenários políticos que eles abriram.

As considerações densamente discutidas de Marx sobre o futuro da obshchina são polos distantes da equação do socialismo com as forças produtivas − uma concepção que envolve tons nacionalistas e simpatia pelo colonialismo, que se afirmou dentro da Segunda Internacional e dos partidos social-democratas. Eles também diferem profundamente do suposto “método científico” de análise social preponderante no século XX no movimento comunista internacional.

Compreendendo a história mundial e a oposição ao colonialismo no norte da África
Entre o outono de 1881 e o inverno de 1882, uma grande parte das energias intelectuais de Marx foi para os estudos históricos. Ele trabalhou intensamente nos Extratos cronológicos (Chronological extracts), uma linha do tempo anotada ano a ano de eventos mundiais a partir do primeiro século a.C., resumindo suas causas e características salientes.
Marx queria testar se suas concepções eram bem fundamentadas à luz dos principais desenvolvimentos políticos, militares, econômicos e tecnológicos do passado. Por algum tempo, ele tinha consciência de que o esquema de progressão linear através dos “modos de produção asiáticos, antigos, feudais e modernos da burguesia” (MARX, 1857-1861, p. 263), que ele havia desenhado no Prefácio a Uma contribuição para a crítica da economia política (A contribution to the critique of political economy) (1859), era completamente inadequado para uma compreensão do movimento da história, e que era realmente aconselhável evitar qualquer filosofia da história. O frágil estado de saúde o impediu de realizar outro encontro com os manuscritos inacabados de O capital. Ele provavelmente pensou que havia chegado a hora de voltar sua atenção novamente para a história mundial, particularmente a questão-chave da relação entre o desenvolvimento do capitalismo e o nascimento dos Estados modernos.

Marx baseou-se particularmente em dois textos principais para sua cronologia. O primeiro foi a História dos povos da Itália (History of the peoples of Italy) (1825), do historiador italiano Carlo Botta (1766-1837); e o segundo foi a amplamente lida e aclamada História mundial para o povo alemão (World history for the German people) (1844-1857), de Friedrich Schlosser (1776-1861), que em vida foi considerado o principal historiador alemão. Marx preencheu quatro grossos cadernos com anotações sobre essas duas obras, em uma caligrafia, quase ilegível, ainda menor do que de costume. As capas trazem os títulos que Engels lhes deu quando estava examinando a propriedade de seu amigo: “Extratos cronológicos. I: 96 a c. 1320; II: c. 1300 a c. 1470; III: c. 1470 a c. 1580; IV: c. 1580 a c. 1648”. Em alguns casos, Marx acrescentou considerações críticas sobre figuras significativas ou apresentou suas próprias interpretações de eventos históricos importantes, a partir dos quais podemos inferir sua discordância com a fé no progresso e os julgamentos morais expressos por Schlosser. Essa nova imersão na história não parou na Europa, mas se estendeu à Ásia, ao Oriente Médio, ao mundo islâmico e às Américas.

No primeiro caderno de seus Extratos cronológicos, baseando-se principalmente em Botta, Marx preencheu 143 páginas com uma cronologia de alguns dos principais eventos entre 91 a.C. e 1370 d.C. Começando com a Roma antiga, ele passou a considerar a queda do Império Romano, a ascensão da França, a importância histórica de Carlos Magno (742-814), o Império Bizantino e as várias características e desenvolvimento do feudalismo. Após a publicação de O capital, volume um, Marx já havia se ocupado várias vezes com a Idade Média, e seu conhecimento sobre ela havia aumentado consideravelmente em 1868, quando ele se interessou por questões históricas e agrícolas e compilou cadernos de trechos de obras de vários autores nesses campos. Particularmente importante para ele foi a Introdução à História constitutiva do marco, fazenda, vila, cidade e autoridade pública alemã (Introduction to the constitutive history of the German mark, farm, village, town and public authority) (1854) pelo teórico político e historiador jurídico Georg von Maurer.

Marx disse a Engels que considerou os livros de Maurer ”extremamente significativos”, uma vez que abordavam de uma forma totalmente diferente, “[…] não apenas a era primitiva, mas também todo o desenvolvimento posterior das cidades imperiais livres, dos proprietários de terras com imunidade, da autoridade pública, e da luta entre o campesinato livre e a servidão” (MARX, 1864-1868, p. 557). Marx anotou atentamente tudo o que pôde ser útil para ele na análise dos sistemas tributários em vários países e épocas. Ele também teve grande interesse no papel especial da Sicília, nas margens do mundo árabe e da Europa, e nas repúblicas marítimas italianas e sua importante contribuição para o desenvolvimento do capitalismo mercantil. Finalmente, enquanto consultava outros livros que o ajudaram a integrar as informações fornecidas por Botta, Marx escreveu muitas páginas de notas sobre a conquista islâmica na África e no Oriente, as Cruzadas e os califados de Bagdá e Mosul.

No segundo caderno, compreendendo 145 páginas no período de 1308 a 1469, Marx continuou a transcrever notas sobre as cruzadas finais na “Terra Santa”. No entanto, a parte mais extensa novamente dizia respeito às repúblicas marítimas italianas e aos avanços econômicos na Itália, que Marx pensava como o início do capitalismo moderno. Também com base em Maquiavel, ele resumiu os principais acontecimentos nas lutas políticas da República de Florença. Ao mesmo tempo, com base na História Mundial de Schlosser para o Povo Alemão, Marx se debruçou sobre a situação política e econômica alemã nos séculos XIV e XV, bem como a história do Império Mongol durante e após a vida de Gengis Khan.

No terceiro caderno, de 141 páginas, Marx tratou dos principais conflitos políticos e religiosos do período de 1470 a c. 1580. Ele teve um interesse especial no confronto entre a França e a Espanha, as lutas dinásticas tumultuadas da monarquia inglesa, e a vida e influência de Girolamo Savonarola (1452-1498). Claro, ele também refez a história da Reforma Protestante, observando o apoio dado a ela pela classe burguesa emergente.
Finalmente, no quarto caderno de 117 páginas, Marx enfocou principalmente os numerosos conflitos religiosos na Europa entre 1580 e 1648. A seção mais longa tratou da Alemanha antes da eclosão da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) e fez uma análise profunda deste período. Marx discorreu sobre os papéis do rei sueco Gustavus Adolphus (1594-1632), do cardeal Richelieu (1585-1642) e do cardeal Mazarin (1602-1661). Uma seção final é dedicada à Inglaterra após a morte de Elizabeth I (1533-1603).

Apesar de a Europa estar compreensivelmente no centro desses estudos, os quatro cadernos preenchidos durante esse período continham várias referências a países não europeus. Assim como em seus estudos econômicos, o velho continente não foi a única preocupação da pesquisa de Marx. Ele provavelmente deixou de lado o projeto de completar os Extratos cronológicos por causa dos graves problemas de saúde que estava sofrendo e, em fevereiro de 1882, foi convencido por seus amigos e médicos a visitar Argel para curar sua bronquite severa.

Nesse período, Marx também teve uma forte posição anticolonial. Na guerra de 1882, que se opôs às forças egípcias comandadas por Ahmad Urabi (1841-1911) e às tropas do Reino Unido, ele não poupou aqueles que se mostravam incapazes de manter uma posição de classe autônoma, e advertiu que isso era absolutamente necessário para os trabalhadores se oporem às instituições e à retórica do Estado. Quando Joseph Cowen (1829-1900), um MP e presidente do Congresso Cooperativo − Marx o considerava “o melhor dos parlamentares ingleses” −, justificou a invasão britânica do Egito, Marx expressou sua total desaprovação. Acima de tudo, ele criticou o governo britânico: “Muito bom! Na verdade, não poderia haver exemplo mais flagrante de hipocrisia cristã do que a ‘conquista’ do Egito − conquista no meio da paz!”

Mas Cowen, em um discurso em 8 de janeiro de 1883 em Newcastle, expressou sua admiração pela “façanha heroica dos britânicos” e pelo “deslumbramento de nossa parada militar”; ele também “não poderia deixar de sorrir com a pequena perspectiva fascinante de todas aquelas posições ofensivas fortificadas entre o Atlântico e o Oceano Índico e, na barganha, um ‘Império Africano-Britânico’ do Delta ao Cabo”. Era o “estilo inglês”, caracterizado pela “responsabilidade”, pelo “interesse doméstico”. Em política externa, concluiu Marx, Cowen era um exemplo típico dos “[…] pobres burgueses britânicos, que gemem ao assumirem cada vez mais ‘responsabilidades’ no serviço de sua missão histórica, enquanto protestam em vão contra ela” (MARX, 1880-1883a, p. 422-423).

Conclusões
Por meio de seu estudo das mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos e na Rússia, suas esperanças de um fim à opressão colonial, sua análise do capitalismo e especulações sobre a próxima crise econômica possível, Marx observou constantemente os sinais de conflito social se desenvolvendo em todas as latitudes ao redor do mundo. Ele tentou acompanhar esses sinais onde quer que surgissem. Não sem razão, poderia dizer de si mesmo: “Sou um cidadão do mundo e ajo onde quer que esteja” (LAFARGUE, 1957, p. 73). Os últimos anos de sua vida não desmentiram esse modo de existência.

Os trabalhos finais de Marx foram certamente difíceis, mas também foram importantes teoricamente. Em contraste com o autor deturpado por seus biógrafos por tanto tempo, Marx não havia exaurido sua curiosidade intelectual e parado de trabalhar. De 1879 a 1882, ele não apenas continuou suas pesquisas, mas também as estendeu a novas disciplinas. Além disso, Marx examinou novos conflitos políticos (como a luta do movimento populista na Rússia após a abolição da servidão, a oposição à opressão colonial na Argélia, Egito e Índia, ou a discriminação contra trabalhadores migrantes chineses na Califórnia); novas questões teóricas (como formas comunais de propriedade em sociedades pré-capitalistas, a possibilidade de revolução socialista em países não capitalisticamente desenvolvidos ou o nascimento do Estado moderno); e novas áreas geográficas (como Rússia, Norte da África ou Índia).

A investigação dessas questões permitiu-lhe desenvolver conceitos mais matizados, influenciados pelas particularidades de países fora da Europa Ocidental. A publicação de materiais até então desconhecidos de Marx (cf. MUSTO, 2007; 2020a). juntamente a interpretações inovadoras de sua obra, está abrindo novos horizontes de pesquisa e demonstrando, mais claramente do que no passado, sua capacidade de examinar as contradições da sociedade capitalista em escala global e em esferas além do conflito entre capital e trabalho. É também claro que Marx sempre destacou a especificidade das condições históricas e a centralidade da intervenção humana na formação da realidade e na realização da mudança e, portanto, sua diferença com muitos “marxismos” dogmáticos do século XX.

Os avanços da pesquisa, juntamente às condições políticas alteradas, sugerem que a renovação da interpretação do pensamento de Marx é um fenômeno destinado a continuar. Publicações recentes têm mostrado que Marx se aprofundou em muitos assuntos − muitas vezes subestimados, ou mesmo ignorados, pelos estudiosos de sua obra − que estão adquirindo importância crucial para a agenda política de nosso tempo. Entre eles, estão a questão ecológica, a migração, a crítica do nacionalismo, a liberdade individual na esfera econômica e política, a emancipação do gênero, o potencial emancipatório da tecnologia e as formas de propriedade coletiva não controladas pelo Estado. Ainda há muito a aprender com Marx (cf. MUSTO, 2020b). Hoje é possível fazer isso não apenas estudando o que ele escreveu em suas obras publicadas, mas também as questões e dúvidas contidas em seus manuscritos inacabados.

References
1. Uma seção das notas de Marx sobre Kovalevsky, que inclui algumas das citações fornecidas aqui, ainda não foi traduzida para o inglês.
2. Anderson (2010, p. 223-224) sugeriu que a diferença com a Índia se deve em parte ao fato de que “a Índia foi colonizada em um período posterior por uma potência capitalista avançada, a Grã-Bretanha, que ativamente tentou criar propriedade privada individual nas aldeias)”.
3. Ver Marx (1975, p. 388). As palavras adicionadas por Marx estão entre aspas simples. Kevin Anderson (2010, p. 233) oas relacionou ao significado das “formas comunais da Índia” para Marx como “locais potenciais de resistência ao colonialismo e ao capital”.
4. O ato pelo qual um homem livre se coloca em uma relação de dependência (implicando certas obrigações de serviço) de um poder superior em troca de “proteção” ou reconhecimento de sua propriedade na terra.
5. Para uma análise das posições de Kovalevsky e de certas diferenças com as de Marx, consulte o capítulo “Kovalevsky sobre a comunidade da aldeia e propriedade da terra no Oriente”, em Krader (1975, p. 190-213), e Hudis (2010, p. 84). As palavras entre colchetes são de Marx.
6. As palavras entre aspas simples são dos Annales de Assemblée Nationale, VIII, Paris, 1873, incluídos no livro de Kovalevsky.
7. De acordo com Anderson (2010, p. 216 e 218), “essas passagens indicam uma mudança da visão [Marx] de 1853 da passividade indiana em face da conquista”; ele “muitas vezes ridiculariza ou exclui […] passagens de Sewell retratando a conquista britânica da Índia como uma luta heroica contra a barbárie asiática”. Desde os artigos sobre a revolta dos Sepoys, que Marx publicou no New-York Tribune em 1857, sua “simpatia” pela resistência indiana “apenas aumentou”.
8. Marx se referia à Segunda Guerra Afegã (1878-1880) e ao conflito sangrento na África do Sul conhecido como Guerra Anglo-Zulu (1879).
9. Este título foi dado postumamente por Lawrence Krader (1919-1998), o editor desses manuscritos. No entanto, o conteúdo desses estudos está mais relacionado à antropologia.
10. As partes de Phear e Maine foram incluídas em Marx (1972, p. 243-336).
11. De acordo com Bloch (1983), Marx queria antes de tudo “reconstruir uma história geral e uma teoria da sociedade para explicar o surgimento do capitalismo”.
12. A gens era uma unidade “[…] consistindo em parentes de sangue com uma descendência comum […]”, ver Morgan (1877, p. 35).
13. Neste trabalho, Engels realmente publicou alguns dos comentários de Marx sobre o livro de Morgan.
14. Cf. Dunayevskaya (1991, p. 173): “Marx […] mostrou que os elementos de opressão em geral, e das mulheres em particular, surgiram de dentro do comunismo primitivo, e não apenas relacionados à mudança do ‘matriarcado’”.
15. Cf. Brown (2013, p. 172): “Na Grécia antiga […] as mulheres eram claramente oprimidas, mas, para Marx, sua mitologia tinha o potencial de ilustrar para elas […] o quanto elas poderiam ser mais livres”.
16. Brown (2013) compilou diligentemente muitas outras considerações que atraíram a atenção de Marx.
17. Brown (2013, p. 123, 104, 164 e 136). Id., ibid., p. 123 e 104; id., ibid., p. 164 e 136. Veja Godelier (1977a, p. 67-68 e 101-102).
18. As palavras entre colchetes foram adicionadas por Marx. Ver Marx([1880-1882], p. 139).
19. Ver Godelier (1977b, p. 124). Para uma crítica de qualquer possível “retorno a um estado original de unidade”, ver Webb (2000).
20. Engels erroneamente acreditava que as posições políticas de Morgan eram muito progressistas. Veja, por exemplo, Friedrich Engels para Friedrich Adolph Sorge, 7 de março de 1884, onde ele escreveu que a Sociedade Antiga foi “uma exposição magistral dos tempos primitivos e seu comunismo. [Morgan] redescobriu a teoria da história de Marx por conta própria, […] tirando inferências comunistas em relação aos dias atuais” (ENGELS, 1883-1886, p. 115-116). Marx nunca se expressou nesses termos. Sobre o pensamento do antropólogo americano, ver Moses (2009).
21. De acordo com Krader ([1880-1882, p. 14): “Marx deixou claro, ao contrário de Morgan, que esse processo de reconstituição ocorrerá em outro nível que o antigo, que é um esforço humano, do homem para e por si mesmo, que os antagonismos da civilização são não estáticos ou passivos, mas são constituídos por interesses sociais que se articulam a favor e contra o resultado da reconstituição, e esta será determinada de forma ativa e dinâmica”. Como Godelier (2012, p. 78) apontou, em Marx nunca houve qualquer “’ideia de um primitivo’ El Dorado”. Ele nunca se esqueceu de que nas “sociedades sem classes” primitivas havia “pelo menos três formas de desigualdade: entre homens e mulheres, entre as gerações mais velhas e mais novas, e entre autóctones e estrangeiros”.
22. Neste trabalho, Marx analisou a “oposição” entre “sociedade civil” e “o Estado”. O Estado não está “dentro” da sociedade, mas fica “contra ela”. “Na democracia, o Estado como particular é meramente particular. […] Os franceses interpretaram isso recentemente como significando de que na verdadeira democracia o Estado político é aniquilado. Isso é correto na medida em que o Estado político […] não passa mais para o todo” (MARX, 1843-1844, p. 30). Sobre o ‘jovem Marx’ ver também Musto (2019).
23. Trinta anos depois, a crítica é mais contundente: “No mesmo ritmo em que o progresso da indústria moderna se desenvolveu, se alargou, intensificou o antagonismo de classe entre capital e trabalho, o poder do Estado assumiu cada vez mais o caráter de poder nacional de capital sobre o trabalho, de uma força pública organizada para a escravidão social, de uma máquina de despotismo de classe” (MARX, 1870-1871, p. 329). Ver também Musto (2005, p. 161-178).
24. Ver Tichelman (1983, p. 18). Ver também a visão de Engels sobre o dinheiro: “Seria uma coisa boa se alguém se desse ao trabalho de lançar luz sobre a proliferação do estado socialismo, recorrendo a um exemplo extremamente florescente da prática em Java. Todo o material encontra-se em Java, How to Manage a Colony […]. Aqui se vê como os holandeses, com base no comunismo secular das comunidades, organizaram a produção para o benefício do Estado e garantiram que o povo desfrutasse do que é, em sua própria avaliação, uma existência bastante confortável; a consequência é que as pessoas são mantidas em um estado de estupidez primitiva e o tesouro holandês arrecada 70 milhões de marcos por ano“ (cf. ENGELS, 1883-1886, p. 102-103, Friedrich Engels a Karl Kautsky, 16 de fevereiro de 1884).
25. Walicki (1969, p. 192) observa corretamente que os estudos de Marx sobre a Sociedade Antiga de Morgan “permitiram-lhe olhar de novo para o populismo russo, que era então a tentativa mais significativa de encontrar o que há de mais novo no mais antigo”.
26. Ver, por exemplo, Said (1995, p. 153-156). Said (1935-2003) não apenas argumentou que “as análises econômicas de Marx são perfeitamente ajustadas […] a um empreendimento orientalista padrão”, mas também insinuou que dependiam da “distinção milenar entre Oriente e Ocidente” (SAID, 1995, p. 154). Na realidade, a leitura de Said da obra de Marx foi unilateral e superficial. O primeiro a revelar as falhas em sua interpretação foi Sadiq Jalal al-Azm (1934-2016) que, no artigo “Orientalism and orientalism”, escreveu: ‘”Este relato das visões e análises de Marx de processos e situações históricas altamente complexas é uma farsa. […] não há nada específico para a Ásia ou o Oriente no ‘corpo da obra’ de Marx” (AL-AZM, 1980, p. 14-15). No que diz respeito a “capacidades produtivas, organização social, ascendência histórica, poder militar e desenvolvimento tecnológico, […] Marx, como qualquer outra pessoa, sabia da superioridade da Europa moderna sobre o Oriente. Mas acusá-lo […] de transformar este fato contingente em uma realidade necessária para sempre é simplesmente absurdo” (AL-AZM, 1980, p. 15-16). Da mesma forma, Ahmad (1992) bem demonstrou, como Said, “citações descontextualizadas” da obra de Marx, com pouco sentido para o que a passagem em questão representava, simplesmente para encaixá-las em seu “arquivo orientalista” (AHMAD, 1992, p. 231 e 223). Sobre as limitações dos artigos jornalísticos de Marx de 1853, ver Lindner (2010, p. 27-41).
27. Para Hobsbawm (1964, p. 50): “A crescente preocupação de Marx com o comunalismo primitivo: seu ódio e desprezo crescentes pela sociedade capitalista. […] Parece provável que Marx, que antes havia saudado o impacto do capitalismo ocidental como uma força desumana, mas historicamente progressiva, nas estagnadas economias pré-capitalistas, ficou cada vez mais chocado com essa desumanidade “.
29. Veja as interpretações de Wada (1984, p. 60), nas quais é argumentado que os rascunhos mostraram uma “mudança significativa” desde a publicação de O capital em 1867. Da mesma forma, Dussel (1990) falou de uma “mudança de curso” (WADA, 1984, p. 260, 268-269). Outros autores sugeriram uma leitura “terceiro-mundista” do falecido Marx, em que os sujeitos revolucionários não são mais os trabalhadores da fábrica, mas as massas do campo e da periferia. Reflexões e várias interpretações sobre essas questões também podem ser encontradas em Melotti (1977); Mohri (1979, p. 32-43); e Tible (2018).
30. Veja Sawer (1977, p. 67): “O que aconteceu, em particular na década de 1870, não foi que Marx mudou de ideia sobre o caráter das comunidades das aldeias, ou decidiu que elas podiam servir de base para o socialismo como eram; em vez disso, ele chegou a considerar a possibilidade de que as comunidades pudessem ser revolucionadas não pelo capitalismo, mas pelo socialismo. […] Ele parece ter nutrido seriamente a esperança de que, com a intensificação da comunicação social e a modernização dos métodos de produção, o sistema de vilas pudesse ser incorporado a uma sociedade socialista. Em 1882, isso ainda parecia a Marx uma alternativa genuína para a desintegração completa da obshchina sob o impacto do capitalismo”.
31. Cf. Venturi (1972, p. XLI): “Em suma, Marx acabou aceitando as ideias de Chernyshevsky”. Isso é semelhante à visão de Walicki (1969) em Controversy over capitalismo: “O raciocínio de Marx tem muita semelhança com a Crítica dos preconceitos filosóficos contra a propriedade comunal da terra de Chernyshevsky”. Se os populistas tivessem sido capazes de ler os rascunhos preliminares da carta a Zasulich, “[…] eles sem dúvida teriam visto neles uma justificativa confiável e inestimável de suas esperanças” (VENTURI, 1972, p. 189).
32. A forma artel de associação cooperativa, de origem tártara, baseava-se em laços consanguíneos e atendia à responsabilidade coletiva de seus associados perante o Estado e terceiros.
33. Segundo Walicki (1969, p. 180), o breve texto de 1882 “reafirmou a tese de que o socialismo tem uma chance melhor nos países altamente desenvolvidos, mas ao mesmo tempo pressupõe [d] que o desenvolvimento econômico dos países atrasados pode ser essencialmente modificado sob a influência das condições internacionais”.
34. Veja, ao contrário, Musto (2008, p. 3-32).
35. Veja Krätke (2018, p. 123) que, em sua reconstrução desses quatro cadernos, argumenta que Marx concebeu o nascimento dos Estados modernos como um processo relacionado ao “[…] desenvolvimento do comércio, agricultura, mineração, fiscalismo e infraestrutura espacial”. Krätke (2018, p. 92) também argumentou que Marx compilou essas notas na crença de longa data de que ele estava “[…] dando ao movimento socialista uma base científica social sólida em vez de uma filosofia política”.
36. Em alguns casos, o conteúdo dos cadernos difere ligeiramente das datas indicadas por Engels. A única parte publicada compreende aproximadamente um sexto do total do terceiro e do quarto cadernos, sendo a maior parte das páginas retiradas deste último. Esses materiais apareceram em 1953, em uma antologia sem referências textuais preparada por Harich (1953). Oito anos depois, o título mudou para Karl Marx e Friedrich Engels, Über Deutschland und die deutsche Arbeiterbewegung. As seções extraídas dos Chronological extracts estão incluídas no Band 1: Von der Frühzeit bis zum 18. Jahrhundert. Berlim: Dietz, 1973. p. 285-516.
37. Krätke (2018, p. 104) argumentou que “Marx não deu espaço ao eurocentrismo; ele considerou a história mundial de forma alguma, sinônimo de ’história europeia’”.
38. Veja o publicado recentemente MARX, Karl. Exzerpte aus Georg Ludwig von Maurer: Einleitung zur Geschichte der Mark-, Hof-, Dorf- und Stadt-Verfassung und der öffentlichen Gewalt. MEGA2, v. IV/18, p. 542-559, p. 563-577, p. 589-600.
39. Sobre o estudo de Marx sobre a obra de Maurer, veja Saito (2017, p. 264-265).
40. Krätke (2018, p. 111) sustentou que Marx situou “[…] os primórdios do capitalismo moderno […]” no “[…] desenvolvimento econômico das cidades-repúblicas italianas no final do século XIII”.
41. Krätke (2018, p. 112) argumentou que a queda do Estado mongol “[…] convida [d] Marx a refletir sobre os limites do poder político sobre vastos territórios”.
42. As partes desses extratos publicados na edição de Harich em 1953 totalizaram mais de 90 páginas: ver Marx e Engels (1978, p. 424-516).
43. Krätke (2018, p. 6) afirmou que o quarto caderno dos Extratos cronológicos mostra “a força de Marx como um cientista social historicamente bem informado, que facilmente alterna do desenvolvimento interno de países específicos para as principais políticas europeias e internacionais sem, no entanto, perder de vista os fundamentos econômicos do todo”. Junto aos quatro cadernos de trechos de Botta e Schlosser, Marx compilou outro caderno com as mesmas características, contemporâneo dos demais e relacionado à mesma pesquisa. Ele usou a História da República de Florença (1875) de Gino Capponi (1792-1876) e a História do povo inglês (1877) de John Green (1837-1883). O estado flutuante de sua saúde não lhe permitiu avançar mais. Suas anotações pararam com as crônicas da Paz de Westfália, que pôs fim à Guerra dos Trinta Anos em 1648.
44. A guerra de 1882 terminou com a batalha de Tell al-Kebir (13 de setembro de 1882), que pôs fim à chamada revolta de Urabi, iniciada em 1879, e permitiu aos britânicos estabelecer um protetorado sobre o Egito.

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Quando Marx traduziu O Capital para francês

Passam hoje 150 anos do lançamento da tradução francesa de O Capital. Os acrescentos e alterações feitas pelo próprio Marx durante a revisão desta tradução contribuíram para a dimensão anticolonial e universal do livro.

Em Fevereiro de 1867, após mais de duas décadas de trabalho hercúleo, Marx pôde finalmente dar ao seu amigo Friedrich Engels a tão esperada notícia de que a primeira parte da sua crítica da economia política estava terminada. Posteriormente, Marx viajou de Londres para Hamburgo para entregar o manuscrito do Volume I (“O Processo de Produção do Capital”) da sua magnum opus e, de acordo com o seu editor Otto Meissner, ficou decidido que O Capital iria aparecer em três partes. Cheio de satisfação, Marx escreveu que a publicação do seu livro era, “sem dúvida, o míssil mais terrível até agora lançado às cabeças da burguesia”.

Apesar do longo trabalho de composição antes de 1867, a estrutura de O Capital seria bastante ampliada nos anos seguintes, e o Volume I também continuou a absorver energias significativas por parte de Marx, mesmo após ser publicado. Um dos exemplos mais evidentes deste compromisso foi a tradução francesa de O Capital, publicada em 44 fascículos entre 1872 e 1875. Este volume não foi uma mera tradução, mas uma versão ‘completamente revista pelo autor’, na qual Marx também aprofundou a secção sobre o processo de acumulação de capital, e desenvolveu melhor as suas ideias sobre a distinção entre ‘concentração’ e ‘centralização’ do capital (ver o próximo livro coletivo, editado por M. Musto, Marx and ‘Le Capital’: Evaluation, History, Reception, Routledge, 2022).

A Busca pela Versão Definitiva do Volume I

Após algumas interrupções devido à sua saúde frágil, e após um período de intensa atividade política para a Associação Internacional de Trabalhadores, Marx dedicou-se a trabalhar numa nova edição de O Capital, Volume I, no início da década de 1870. Insatisfeito com a forma como tinha exposto a teoria do valor, passou dezembro de 1871 e janeiro de 1872 a reescrever o que tinha publicado em 1867. Uma reimpressão de Das Kapital que incluía as alterações feitas por Marx saiu em 1872. Este ano teve uma importância fundamental para a divulgação de O Capital, uma vez que também foi o ano em que surgiram as traduções em russo e francês. Confiada a Joseph Roy, que tinha anteriormente traduzido alguns textos do filósofo alemão Ludwig Feuerbach, foi publicada em série com o editor Maurice Lachâtre. O primeiro foi publicado há 150 anos, a 17 de setembro.

Marx concordou que seria bom fazer sair uma “edição popular barata”. “Aplaudo a sua ideia de publicar a tradução […] em fascículos periódicos”, escreveu ele. Nesta forma, o livro será mais acessível à classe trabalhadora e, para mim, essa consideração prevalece sobre qualquer outra”, argumentou ele com o seu editor. Consciente, porém, de que havia um “outro lado” da moeda, ele antecipou que o “método de análise” que tinha utilizado “iria tornar a leitura mais difícil nos primeiros capítulos”, e que os leitores poderiam “desmotivar-se” quando fossem “incapazes de avançar logo de início”. Ele não achou que pudesse fazer alguma coisa acerca desta ‘desvantagem’, ‘a não ser alertar e avisar os leitores preocupados com a verdade. Não há estrada real para a ci­ência e só têm pos­si­bi­lidade de chegar aos seus cumes lu­mi­nosos aqueles que não temem fa­tigar-se a es­calar as suas ve­redas es­car­padas”.

No final, Marx teve de gastar muito mais tempo na tradução do que tinha inicialmente planeado para a correção das provas. Como escreveu ao economista russo Nikolai Danielson, Roy tinha “muitas vezes traduzido demasiado literalmente” e forçou-o a “reescrever passagens inteiras em francês, para as tornar mais palatáveis ao público francês”. No início desse mês, a sua filha Jenny tinha dito ao amigo da família Ludwig Kugelmann que o seu pai era ‘obrigado a fazer inúmeras correções’, reescrevendo ‘não apenas frases, mas páginas inteiras’. Posteriormente, Engels escreveu de forma semelhante a Kugelmann que a tradução francesa tinha sido uma ‘autêntica trabalheira’ para Marx e que ele tinha ‘tido de reescrever mais ou menos tudo desde o início’.

Além disso, ao rever a tradução, Marx decidiu introduzir alguns acrescentos e alterações. No posfácio ao Le Capital, ele não hesitou em atribuir-lhe “um valor científico independente do original” e declarou que a nova versão “deveria ser consultada mesmo por leitores familiarizados com o alemão”. O ponto mais interessante, especialmente pelo seu valor político, diz respeito à tendência histórica da produção capitalista. Se na edição anterior de O Capital Marx escreveu que “o país mais desenvolvido industrialmente apenas mostra, aos menos desenvolvidos, a imagem do seu próprio futuro”, na versão francesa as palavras em itálico foram substituídas por “aos que o seguem na escada industrial”. Esta clarificação limitou a tendência do desenvolvimento capitalista apenas aos países ocidentais que já eram industrializados.

Ele estava agora plenamente consciente de que o esquema de progressão linear através dos “modos de produção burgueses asiáticos, antigos, feudais e modernos”, que ele tinha traçado no Prefácio à Contribuição para a Crítica da Economia Política, em 1859, era inadequado para uma compreensão do movimento da história, e que era de facto aconselhável manter-se afastado de qualquer filosofia da história. Não via o desenvolvimento histórico em termos de progresso linear inabalável em direção a um fim pré-definido. A conceção multilinear mais acentuada que Marx desenvolveu nos seus últimos anos levou-o a olhar ainda mais atentamente para as especificidades históricas e as desigualdades do desenvolvimento político e económico em diferentes países e contextos sociais. Esta abordagem aumentou seguramente as dificuldades que ele enfrentou no seu caminho já acidentado para concluir o segundo e terceiro volumes de O Capital. Na última década da sua vida, Marx levou a cabo investigações exaustivas sobre sociedades fora da Europa e expressou-se inequivocamente contra a devastação do colonialismo. É um erro sugerir o contrário. Marx criticou os pensadores que, embora salientando as consequências destrutivas do colonialismo, utilizaram categorias próprias do contexto europeu na sua análise das áreas periféricas do globo. Advertiu várias vezes contra aqueles que não observaram as necessárias distinções entre fenómenos, e especialmente após os seus avanços teóricos na década de 1870, teve grande cautela em transferir categorias interpretativas através de campos históricos ou geográficos completamente diferentes. Tudo isto é mais evidente graças a Le Capital.

Numa carta de 1878, na qual Marx pesava os lados positivo e negativo da edição francesa, escreveu a Danielson que esta continha “muitas mudanças e acrescentos importantes”, mas que também tinha sido “por vezes obrigado – principalmente no primeiro capítulo – a simplificar a questão”. Engels era desta opinião e não incluiu todas as alterações feitas por Marx na quarta edição alemã de O Capital que publicou em 1890, sete anos após a morte de Marx. Marx não conseguiu terminar uma revisão final de O Capital, Volume I, que incluía as melhorias e os aditamentos que pretendia fazer para melhorar o seu livro. De facto, nem a edição francesa de 1872-75, nem a terceira edição alemã – que saiu em 1881 -, podem ser consideradas a versão definitiva que Marx teria gostado que fosse.

Marx através de Le Capital

Le Capital teve uma importância considerável para a difusão do trabalho de Marx em todo o mundo. Foi utilizado para a tradução de muitos extratos em várias línguas – o primeiro na língua inglesa, por exemplo. Mais genericamente, Le Capital representou a primeira porta de entrada da obra de Marx para os leitores de vários países. A primeira tradução italiana – publicada entre 1882 e 1884 – foi feita diretamente da edição francesa, tal como a tradução que apareceu na Grécia, em 1927. No caso do espanhol, Le Capital tornou possível algumas edições parciais e duas traduções completas: uma em Madrid, em 1967, e outra em Buenos Aires, em 1973. Como o francês era mais conhecido do que o alemão, foi graças a esta versão que a crítica de Marx à economia política conseguiu chegar mais rapidamente a muitos países da América Hispânica. O mesmo se aplicava aos países de língua portuguesa. Em Portugal, O Capital circulou apenas através do pequeno número de exemplares disponíveis em francês, até que uma versão abreviada apareceu em português pouco antes da queda da ditadura de Salazar. Em geral, os ativistas políticos e investigadores, tanto em Portugal como no Brasil, acharam mais fácil abordar o trabalho de Marx através da tradução francesa do que no original. Os poucos exemplares que conseguiram chegar aos países africanos de língua portuguesa estavam também nessa língua.

O colonialismo também moldou em parte os mecanismos através dos quais O Capital se tornou disponível no mundo árabe. Enquanto no Egito e no Iraque era o inglês que mais se destacava na difusão da cultura europeia, a edição francesa desempenhou um papel mais proeminente noutros lugares, especialmente na Argélia, que nos anos 1960 foi um centro importante para facilitar a circulação de ideias marxistas em países “não-alinhados”. O significado de Le Capital estendeu-se também à Ásia, como demonstrado pelo facto de a primeira tradução vietnamita do Volume I, publicada entre 1959 e 1960, ter sido realizada na edição francesa.

Assim, para além de ser frequentemente consultada por tradutores de todo o mundo e comparada com a edição de 1890 publicada por Engels, que se tornou a versão padrão de Das Kapital, a tradução francesa serviu de base para traduções completas de O Capital em oito línguas. Cento e cinquenta anos desde a sua primeira publicação, continua a ser uma fonte de debate estimulante entre estudiosos e ativistas interessados na crítica de Marx ao capitalismo.
Numa carta ao seu velho camarada Friedrich Adolph Sorge, o próprio Marx observou que com Le Capital ele tinha “gasto tanto tempo que não voltaria a colaborar de forma alguma numa tradução”. Foi exatamente isso que aconteceu. A trabalheira que teve para produzir a melhor versão francesa possível foi de facto extraordinária. Mas podemos dizer que foi bem recompensada. Le Capital teve uma circulação significativa, e os acrescentos e alterações feitas por Marx durante a revisão da sua tradução contribuíram para a dimensão anticolonial e universal de O Capital que se está a tornar amplamente reconhecida nos dias de hoje graças a algumas das mais recentes e lúcidas contribuições para os estudos de Marx.

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Quando Marx traduziu “O Capital” para o francês

Em fevereiro de 1867, depois de mais de duas décadas de trabalho hercúleo, Marx finalmente pôde dar a seu amigo Friedrich Engels a tão esperada notícia de que a primeira parte de sua crítica à economia política estava finalizada. A partir daí, Marx viajou de Londres a Hamburgo para entregar o manuscrito do Volume I (“O processo de produção do Capital”) de sua magnum opus e, de acordo com seu editor Otto Meissner, foi decidido que O Capital seria lançado em três partes. Cheio de satisfação, Marx escreveu que a publicação de seu livro foi “sem dúvida, o mais terrível míssil que já foi lançado contra as cabeças da burguesia”.

Apesar do longo trabalho de escrita antes de 1867, a estrutura de O Capital seria consideravelmente expandida nos anos seguintes, e o Volume I também continuou a absorver um empenho significativo por parte de Marx, mesmo após sua publicação. Um dos exemplos mais evidentes desse compromisso foi a tradução francesa de O Capital, publicada em 44 fascículos entre 1872 e 1875. Este volume não era uma mera tradução, mas uma versão “totalmente revisada pelo autor” na qual Marx também aprofundou a seção sobre o processo de acumulação de capital e desenvolveu melhor suas ideias sobre a distinção entre “concentração” e “centralização” do capital.

A busca pela versão definitiva do Volume I

Depois de algumas interrupções devido à sua saúde precária, e após um período de intensa atividade política para a Associação Internacional dos Trabalhadores, Marx passou a trabalhar em uma nova edição de O Capital, Volume I, no início da década de 1870. Insatisfeito com a maneira como havia exposto a teoria do valor, passou dezembro de 1871 e janeiro de 1872 reescrevendo o que havia publicado em 1867. Em 1872, uma reimpressão de Das Kapital foi lançada e incluía as mudanças feitas por Marx. Este ano foi de fundamental importância para a divulgação de O Capital, pois também viu nascer as traduções russa e francesa. Confiadas a Joseph Roy, que já havia traduzido alguns textos do filósofo alemão Ludwig Feuerbach, as traduções apareceram em lotes com o editor Maurice Lachâtre. O primeiro foi publicado há 150 anos, em 17 de setembro.

Marx concordou que seria bom lançar uma “edição popular e barata”. “Aplaudo sua ideia de publicar a tradução […] em parcelas periódicas”, escreveu. “Dessa forma o livro será mais acessível à classe trabalhadora e para mim essa consideração supera qualquer outra”, argumentou com seu editor. Consciente, no entanto, de que havia “outro lado reverso” da moeda, ele antecipou que o “método de análise” que ele havia usado iria “tornar uma leitura um tanto árdua nos primeiros capítulos”, e que os leitores poderiam “desanimar” quando eles fossem “incapazes de seguir em frente na leitura logo de cara”. Ele não sentia que pudesse fazer nada sobre essa “desvantagem”, “além de alertar e prevenir os leitores preocupados com a verdade. Não há estrada real para o aprendizado e os únicos com alguma chance de alcançar seus picos ensolarados são aqueles que não temem a exaustão ao subir os caminhos íngremes”.

No final, Marx teve que gastar muito mais tempo na tradução do que havia planejado inicialmente para a correção da prova. Como escreveu ao economista russo Nikolai Danielson, Roy “muitas vezes traduziu de forma muito literal” e o forçou a “reescrever passagens inteiras em francês, para torná-las mais palatáveis ​​para o público francês”. No início daquele mês, sua filha Jenny disse ao amigo da família Ludwig Kugelmann que seu pai era “obrigado a fazer inúmeras correções”, reescrevendo “não apenas frases inteiras, mas páginas inteiras”. Subsequentemente, Engels escreveu na mesma linha de Kugelmann que a tradução francesa havia se mostrado um “verdadeiro trabalho árduo” para Marx e que ele “mais ou menos teve que reescrever a coisa toda desde o início”.

Além disso, ao revisar a tradução, Marx decidiu introduzir alguns acréscimos e modificações. No posfácio de Le Capital, ele não hesitou em atribuir-lhe “um valor científico independente do original” e afirmou que a nova versão “deveria ser consultada até mesmo por leitores familiarizados com o alemão”. O ponto mais interessante, sobretudo pelo seu valor político, diz respeito à tendência histórica da produção capitalista. Se na edição anterior do Capital Marx havia escrito que “o país mais desenvolvido industrialmente só mostra, aos menos desenvolvidos, a imagem de seu próprio futuro”, na versão francesa as palavras em itálico foram substituídas por “àqueles que o seguem até a escada industrial”. Esse esclarecimento limitou a tendência do desenvolvimento capitalista apenas aos países ocidentais já industrializados.

Ele agora estava plenamente consciente de que o esquema de progressão linear através dos “modos de produção burgueses asiáticos, antigos, feudais e modernos”, que ele havia desenhado no Prefácio de Uma Contribuição à Crítica da Economia Política, em 1859, era inadequado para uma compreensão do movimento da história, e que era de fato aconselhável evitar qualquer filosofia da história. Ele não via o desenvolvimento histórico em termos de progresso linear inabalável em direção a um fim predefinido. A concepção multilinear mais pronunciada que Marx desenvolveu em seus últimos anos o levou a olhar ainda mais atentamente para as especificidades históricas e as desigualdades do desenvolvimento político e econômico em diferentes países e contextos sociais. Essa abordagem certamente aumentou as dificuldades que ele enfrentou no já acidentado percurso de conclusão do segundo e terceiro volumes de O Capital. Na última década de sua vida, Marx realizou investigações minuciosas de sociedades fora da Europa e expressou-se inequivocamente contra os estragos do colonialismo. É um erro sugerir o contrário. Marx criticou os pensadores que, ao destacar as consequências destrutivas do colonialismo, utilizaram, em suas análises das áreas periféricas do globo, categorias peculiares ao contexto europeu. Ele alertou várias vezes contra aqueles que não conseguiram observar as distinções necessárias entre os fenômenos e, especialmente após seus avanços teóricos na década de 1870, ele foi altamente cauteloso ao transferir categorias interpretativas para campos históricos ou geográficos completamente diferentes. Tudo isso fica mais claro graças a Le Capital.

Em uma carta de 1878, na qual Marx pesava os lados positivos e negativos da edição francesa, ele escreveu a Danielson que ela continha “muitas mudanças e acréscimos importantes”, mas que ele também fora “às vezes obrigado – principalmente no primeiro capítulo – a simplificar o assunto”. Engels era dessa opinião e não incluiu todas as mudanças feitas por Marx na quarta edição alemã do Capital que publicou em 1890, sete anos após a morte de Marx. Marx não conseguiu completar uma revisão final de O Capital – Volume I, que incluía as melhorias e acréscimos que pretendia aprimorar seu livro. De fato, nem a edição francesa de 1872-75, nem a terceira edição alemã – que saiu em 1881 – podem ser consideradas a versão definitiva que Marx gostaria que fosse.

Marx através de Le Capital

Le Capital teve considerável importância para a difusão da obra de Marx pelo mundo. Foi usado para a tradução de muitos extratos em vários idiomas – o primeiro em inglês, por exemplo. De maneira mais geral, Le Capital representou a primeira porta de entrada para a obra de Marx para leitores em vários países. A primeira tradução italiana – publicada entre 1882 e 1884 – foi feita diretamente da edição francesa, assim como a tradução que apareceu na Grécia, em 1927. No caso do espanhol, Le Capital possibilitou algumas edições parciais e duas traduções completas: uma em Madri, em 1967, e outra em Buenos Aires, em 1973. Como o francês era mais conhecido que o alemão, foi graças a essa versão que a crítica de Marx à economia política pôde chegar a muitos países da América hispânica mais rapidamente. O mesmo aconteceu com os países de língua portuguesa. Em Portugal mesmo, O Capital circulou apenas pelo pequeno número de exemplares disponíveis em francês, até que uma versão resumida em português apareceu pouco antes da queda da ditadura de Salazar. Em geral, ativistas políticos e pesquisadores em Portugal e no Brasil acharam mais fácil abordar a obra de Marx pela tradução francesa do que pelo original. Os poucos exemplares que chegaram aos países africanos de língua portuguesa também eram nessa língua.

O colonialismo também moldou parcialmente os mecanismos pelos quais O Capital se tornou disponível no mundo árabe. Enquanto no Egito e no Iraque foi o inglês que mais se destacou na difusão da cultura europeia, a edição francesa teve um papel mais proeminente em outros lugares, especialmente na Argélia, que na década de 1960 foi um importante centro para facilitar a circulação de ideias marxistas em países “não alinhados”. A importância de Le Capital estendeu-se também à Ásia, como demonstrado pelo fato de que a primeira tradução vietnamita do Volume I, publicada entre 1959 e 1960, foi realizada na edição francesa.

Assim, além de ser frequentemente consultada por tradutores de todo o mundo e confrontada com a edição de 1890 publicada por Engels, que se tornou a versão padrão de Das Kapital, a tradução francesa serviu de base para traduções completas de O Capital em oito idiomas. Cento e cinquenta anos desde sua primeira publicação, continua sendo fonte de debate estimulante entre estudiosos e ativistas interessados ​​na crítica de Marx ao capitalismo.

Em uma carta ao seu companheiro de longa data Friedrich Adolph Sorge, o próprio Marx observou que Le Capital “consumiu tanto [seu] tempo que [ele] não colaboraria novamente de forma alguma em uma tradução”. Isso é exatamente o que aconteceu. O trabalho e o sofrimento que ele depositou para produzir a melhor versão francesa possível foram realmente notáveis. Mas podemos dizer que foram bem recompensados. Le Capital teve uma circulação significativa, e os acréscimos e mudanças feitas por Marx, durante a revisão de sua tradução, contribuíram para a dimensão anticolonial e universal de O Capital, que hoje está se tornando amplamente reconhecida está se tornando amplamente reconhecido hoje em dia graças a algumas das contribuições mais recentes e perspicazes nos estudos de Marx.

Tradução de Marcelo Bamonte para o Blog da Boitempo.

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O fim do governo italiano explicado por Karl Marx

Poucos sabem que, entre os muitos tópicos aos quais dedicou o seu interesse, Marx também lidou com a crítica dos chamados “governos técnicos”. Enquanto autor de artigos para o New York Tribune, um dos diários de maior circulação do seu tempo, Marx observou os desenvolvimentos políticos e institucionais que levaram a um dos primeiros governos técnicos da história: o governo do Conde de Aberdeen que durou desde dezembro de 1852 a janeiro de 1855.

Os artigos de Marx destacavam-se pela sua perspicácia e sarcasmo. E o The Times celebrava os acontecimentos de 1852 como o sinal do início de um tempo “no qual o espírito partidário deve voar da terra, e o génio, a experiência, a capacidade e o patriotismo devem ser as únicas qualificações para o cargo”. O jornal londrino apelava para que “homens de todos os tipos de opinião” apoiassem o novo governo porque “os seus princípios exigem aprovação e apoio universal”. Argumentos semelhantes foram usados em fevereiro de 2021, quando Mario Draghi, antigo presidente do Banco Central Europeu, se tornou primeiro-ministro de Itália.

No artigo de 1853, A Superannuanted Administration: Prospect of the Coalition Ministry, Marx troçava do ponto de vista do The Times. Aquilo que o maior jornal britânico considerava ser tão moderno e cativante era para ele uma mera farsa. Quando o The Times anunciou um “ministério composto totalmente por figuras novas, jovens e promissoras”, Marx escreveu que “o mundo certamente não ficará nem um pouco confuso ao saber que a nova era na história da Grã-Bretanha será inaugurada por todos, exceto por octogenários esgotados”. Para além do julgamento acerca dos indivíduos havia outros, de maior interesse, sobre as suas políticas: “prometem-nos o total desaparecimento das lutas partidárias, não, até dos partidos eles próprios”, notava. “Qual o sentido do artigo do The Times?” A pergunta infelizmente é atual, num mundo em que o domínio do capital sobre o trabalho se tornou tão feroz quanto era em meados do século XIX. A separação entre economia e política, que diferencia o capitalismo dos modos de produção anteriores, alcançou um pique. A economia não apenas domina a política, marcando a sua agenda e dominando as suas decisões, mas também fica fora da sua jurisdição e controlo democrático – ao ponto em que uma mudança de governo já não muda a direção das políticas económicas e sociais. Estas devem ser imutáveis.

Nos últimos trinta anos, os poderes de decisão passaram da esfera política para a económica. As opções políticas partidárias foram transformadas em imperativos económicos que disfarçam um projeto altamente político e reacionário por detrás de uma máscara de perícia apolítica.

Este desvio de partes da esfera política para a economia, como um domínio separado e impermeável à mudança, constitui a mais grave ameaça à democracia dos nossos tempos. Parlamentos nacionais, já drenados de valor representativo por sistemas eleitorais enviesados e revisões autoritárias da relação entre poder executivo e legislativo, deparam-se com a transferência dos seus poderes para o “mercado”. Os ratings da Standard & Poor’s e as cotações de Wall Street – estes mega-fetiches sociedade contemporânea – pesam incomparavelmente mais do que a vontade do povo. Quando muito, o governo político pode “intervir” na economia (por vezes a classe dominante precisa de mitigar a anarquia destruidora do capitalismo e as suas crises violentas) mas não pode questionar as suas regras e escolhas fundamentais.

Um representante proeminente desta política era o antigo primeiro-ministro italiano Draghi, que, durante 17 meses, liderou uma coligação muito ampla que incluía o Partido Democrático, o seu inimigo de há muito Silvio Berlusconi, os populistas do Movimento Cinco Estrelas e a extrema-direita da Liga Norte. Por detrás da fachada do termo “governo técnico” – ou como dizem do “governo dos melhores” ou “governo de todos os talentos” – podemos encontrar uma suspensão da política. Em anos recentes, tem sido argumentado que não devem acontecer novas eleições após uma crise política; a politica deve ser entregue ao controlo total da economia. Num artigo de abril de 1853, Achievements of the Ministry, Marx escreveu que o governo de coligação (“técnico”) representa a impotência do poder político”. Os governos já não discutem que orientação económica tomar. Agora as orientações económicas fazem nascer governos.

Em anos recentes, na Europa, tem sido repetido o mantra neoliberal de que, para restaurar a “confiança” dos mercados, era necessário implementar rapidamente “reformas estruturais”, uma expressão agora usada como sinónimo de devastação social: por outras palavras, cortes nos salários, ataques aos direitos dos trabalhadores no que toca à contratação e despedimento, aumentos da idade da reforma e privatizações em larga escala. Os novos “governos técnicos”, liderados por indivíduos com formação em algumas das instituições económicas mais responsáveis pela crise económica, seguiram este caminho – alegando fazerem-nos “para o bem do país” e “para o bem-estar das gerações futuras”. Para além disso, o poder económico e os meios da comunicação social dominante têm tentado silenciar quem faça soar uma voz discordante.

A partir de hoje, Draghi já não é primeiro-ministro de Itália. A sua maioria implodiu devido às políticas muito diferentes dos partidos que o apoiavam e o país irá para eleições antecipadas em 25 de setembro. Para a esquerda não desaparecer, deve ter a coragem de propor as políticas radicais necessárias para lidar com os problemas contemporâneos mais urgentes, a começar com a crise ecológica. As últimas pessoas que podem implementar um programa de transformação social e de redistribuição da riqueza são os “técnicos” – na realidade muito políticos – como o banqueiro Mario Draghi. Não sentiremos a sua falta.

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A esquerda face à guerra

As causas económicas da guerra
Enquanto que a ciência da política analisou motivações ideológicas, políticas, económicas e até psicológicas para explicar as causas dos conflitos bélicos, o pensamento socialista deu a sua mais interessante contribuição para a compreensão deste fenómeno evidenciando a forte ligação entre o desenvolvimento do capitalismo e a propagação da guerra.

Nos debates da Primeira Internacional (1864-1872), César de Paepe, um dos seus principais dirigentes, formulou aquela que se tornaria a posição clássica do movimento operário sobre este tema, nomeadamente que as guerras são inevitáveis no sistema de produção capitalista. Nas sociedades contemporâneas, não são provocadas pelas ambições do monarca ou de indivíduos singulares, mas são determinadas pelo modelo sócio-económico dominante. O movimento socialista mostrou também qual era a parte da população sob a qual se abatiam, inelutavelmente, as consequências mais nefastas da guerra. No congresso da Internacional em 1868, os delegados votaram uma moção que instava os trabalhadores a lutar pela “abolição definitiva de todas as guerras”, uma vez que seriam eles a pagar – economicamente ou com o seu sangue, quer estivessem entre os vencedores ou entre os vencidos – pelas decisões da sua classe dominante e dos governos que a representam.

A lição de civilidade do movimento operário nascia da convicção de que todas as guerras deveriam ser consideradas “guerras civis”, um embate feroz entre trabalhadores que, no final de contas, não tinha outro resultado que não privá-los dos meios necessários à sua sobrevivência. Era necessário agir com determinação contra qualquer guerra, resistindo ao alistamento e recorrendo à greve. O internacionalismo torna-se assim um dos pontos cardinais da futura sociedade que, com o fim do capitalismo e da rivalidade entre estados burgueses no mercado mundial, eliminaria a principal causa subjacente a qualquer guerra.

Entre os precursores do socialismo, Claude Henri de Saint Simon tinha tomado uma posição vincada não apenas contra a guerra mas também contra o conflito social, considerando ambos como obstáculos ao progresso fundamental da produção industrial. Karl Marx não desenvolveu as suas conceções em nenhum dos seus escritos sobre a guerra – fragmentários e por vezes contraditórios – nem formulou diretrizes sobre a atitude correta para a enfrentar. Quando escolheu entre campos opostos, a sua única constante foi a oposição à Rússia Tsarista que via como o posto avançado da contra-revolução e uma das principais barreiras à emancipação da classe trabalhadora. No Capital (1867) defendeu que a violência era uma força económica, “a parteira de qualquer sociedade velha grávida de uma nova”. Mas não concebia a guerra como um atalho necessário para a transformação da sociedade e dedicou uma parte importante da sua militância política a tentar vincular a classe operária ao princípio da solidariedade internacional. Como também argumentava Friedrich Engels, esta deveria agir de forma determinada nos seus países contra o risco de mitigação da luta de classes que a invenção propagandística de um inimigo externo gerava em cada momento em que irrompia uma guerra. Em várias cartas trocadas com dirigentes do movimento operário, Engels sublinha a força ideológica da cilada do patriotismo e do atraso da revolução proletária que resulta das ondas de chauvinismo. Para além disso, no Anti-Dühring (1878), no seguimento de uma análise dos efeitos do desenvolvimento de armamento cada vez mais letal, declarou que a tarefa do socialismo era “rebentar com o militarismo e todos os exércitos permanentes”.

O tema da guerra era tão importante para Engels que lhe dedicou um dos seus últimos escritos. Em “Pode a Europa desarmar-se” (1893) assinalou que, no velho continente, nos 25 anos anteriores, cada uma das maiores potências tinha tentado suplantar os seus rivais militarmente e em termos de preparativos para a guerra. Isto tinha gerado uma produção de armamentos sem precedentes que aproximava a Europa de “uma guerra de destruição como o mundo nunca tinha conhecido”. Segundo o co-autor do Manifesto do Partido Comunista (1848), “em toda a Europa, o sistema dos exércitos permanentes foi levado a um ponto tão extremo que está condenado a arruinar economicamente os povos, por via das despesas militares, ou a degenerar numa guerra de extermínio”. Na sua análise, Engels não se esquecia de destacar que os exércitos permanentes eram mantidos não apenas por motivos militares mas também com finalidades políticas internas. Era suposto “protegerem não tanto do inimigo externo quanto do inimigo interno”, fortalecendo as forças que deveriam reprimir o proletariado e as lutas operárias. Como eram as classes populares que mais pagavam os custos da guerra, através dos impostos e da massa de soldados que forneciam ao Estado, o movimento operário deveria bater-se por uma “redução homogénea e progressiva do serviço militar” e pelo desarmamento, considerado como a única, efetiva, “garantia da paz”.

A falha face à prova dos factos
Bem cedo, de argumento teórico analisado em tempo de paz, a luta contra o militarismo passa a tornar-se um problema político premente. O movimento operário teve de se confrontar com situações reais nas quais os seus representantes se opuseram inicialmente a qualquer apoio à guerra. No conflito Franco-Prussiano de 1870 (que precedeu a Comuna de Paris), os deputados Social Democratas Wilhelm Liebknecht e August Bebel condenaram os objetivos anexacionistas da Alemanha de Bismarck e votaram contra os créditos de guerra. A sua decisão de “rejeitar a lei que atribuía fundos adicionais para continuar a guerra” valeu a cada um deles uma pena de prisão de dois anos por alta traição mas ajudou a mostrar à classe operária uma via alternativa ao aumento do vórtice do conflito.

Com a expansão imperialista por parte das principais potências europeias, a controvérsia sobre a guerra assume um peso mais relevante no debate da Segunda Internacional (1889-1916). No seu congresso de fundação foi aprovada uma moção que apresentava a paz como “a pré-condição indispensável a qualquer emancipação dos trabalhadores”. Troçava-se da suposta paz política da burguesia que era caracterizada como “paz armada” e, em 1895, Jean Jaurès, o líder do Partido Socialista Francês (SFIO), pronunciou um discurso no parlamento no qual famosamente resumiu as apreensões da esquerda: “a vossa sociedade violenta e caótica mesmo quando quer paz, mesmo quando num estado de aparente repouso, carrega em si a guerra como a nuvem carrega a tempestade”.

À medida que a Weltpolitik – a política agressiva da Alemanha Imperial para aumentar o seu poder na arena internacional – mudava o quadro geopolítico, os princípios anti-militaristas consolidaram-se no movimento operário e influenciaram a discussão sobre os conflitos armados. A guerra deixava de ser apenas uma ocasião propícia para o desenvolvimento de oportunidades revolucionárias que acelerariam a derrocada do sistema (uma tese presente na Esquerda desde os tempos da “revolução sem revolução” de Maximilien Robespierre). Era agora vista como um perigo por causa das suas consequências nefastas para o proletariado na forma de fome, miséria e desemprego. Era uma ameaça grave para as forças progressistas e, como escreveu Karl Kautsky em A Revolução Social (1902), em caso de guerra estas “seriam fortemente sobrecarregadas com tarefas adicionais” que as afastariam e não aproximariam da vitória final.

A resolução Sobre o militarismo e os Conflitos Internacionais, adotada pela Segunda Internacional no Congresso de Estugarda em 1907, recapitulava todos os pontos chave que se tinham tornado na herança comum do movimento dos trabalhadores. Entre estas teses estavam: o voto contra os orçamentos que aumentassem despesas militares, antipatia face a exércitos permanentes e preferência por um sistema de milícias populares e apoio ao plano para criar tribunais de arbitragem para resolução pacífica de conflitos internacionais. Excluiu-se o recurso a greves gerais contra todo o tipo de guerras que tinha sido proposto por Gustave Hervé, uma vez que a maioria dos presentes considerou isto demasiado radical e maniqueísta. A resolução terminava com uma emenda esboçada por Rosa Luxemburgo, Vladimir Lenine e Yulii Martov que afirmava que “caso irrompa uma guerra […] é dever [dos socialistas] intervir a favor de um fim rápido e fazer tudo o que esteja ao seu alcance para usar a crise económica e política causada pela guerra para agitar a as massas e assim acelerar a queda do domínio da classe capitalista”. Como isto não obrigava o Partido Social Democrata da Alemanha (SPD) a fazer qualquer alteração da sua linha política, os seus representantes votaram também a favor desta parte. O texto, assim emendado, foi o último documento sobre a guerra a garantir um apoio unânime na Segunda Internacional.

Uma competição mais intensa entre os estados capitalistas no mercado mundial junto com o surgimento de vários conflitos internacionais tornaram o quadro geral ainda mais alarmante. A publicação do Novo Exército (1911) de Jaurès encorajou a discussão de outro tema central para este período: a distinção entre guerras ofensivas e defensivas e a atitude a ser tomada face às últimas, incluindo nos casos em que a independência de um país estava ameaçada. Para Jaurès, a única tarefa do exército deveria ser defender a nação contra qualquer agressão ofensiva ou qualquer agressor que não aceitasse a resolução das disputas através de mediação. Qualquer ação militar nesta categoria deveria ser considerada legítima. A crítica clarividente de Luxemburgo sobre esta posição assinalava que “fenómenos históricos como as guerras modernas não podem ser medidos com a bitola da ‘justiça’, ou através de um esquema em papel de defesa e agressão”. Do seu ponto de vista, era necessário ter em mente a dificuldade em estabelecer se uma guerra seria realmente ofensiva ou defensiva ou se o Estado que a tivesse desencadeado o tivesse feito deliberadamente para atacar ou tivesse sido forçado a fazê-lo devido aos estratagemas adotados pelo país que se lhe opunha. Pensava assim que a distinção não deveria ser utilizada e criticava ainda e ideia de Jaurès de “nação armada” na base da qual, em última análise, se tendia a alimentar a crescente militarização da sociedade.

À medida em que os anos iam passando, a Segunda Internacional empenhava-se cada vez menos numa política de ação a favor da paz. A sua oposição ao rearmamento e aos preparativos para a guerra era bastante desbotada e uma ala cada vez mais moderada e legalista do SPD trocava o seu apoio aos créditos militares – e até para a expansão colonial – em benefício de ganhar mais liberdades políticas na Alemanha. Líderes importantes e teóricos eminentes como Gustav Noske, Henry Hyndman e Antonio Labriola, foram dos primeiros a chegar a estas posições. Subsequentemente, a maioria dos líderes dos Social Democratas alemães, dos Socialistas franceses, dos Trabalhistas britânicos e de outros reformistas europeus acabou por apoiar a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Este rumo teve consequências desastrosas. Com o argumento de que os “benefícios do progresso” não deveriam ser monopolizados pelos capitalistas, o movimento dos trabalhadores acabou por partilhar os objetivos expansionistas das classes dominantes e caiu no pântano da ideologia nacionalista. A Segunda Internacional mostrou-se completamente impotente face à guerra, falhando num dos seus objetivos principais: a preservação da paz.

Lenine e os outros delegados da Conferência de Zimmerwald (1915) – incluindo Lev Trotsky que esboçou o manifesto final – previam que “durante décadas os gastos militares irão absorver as melhores energias dos povos, minando as melhorias sociais e impedindo qualquer progresso”. A seus olhos, a guerra revelava “a forma nua do capitalismo moderno que se tornou irreconciliável não apenas com os interesses das massas trabalhadoras […] mas até com as condições primeiras da existência humana comum.”

O aviso foi ouvido apenas por uma minoria do movimento dos trabalhadores, assim como o apelo a todos os trabalhadores europeus na Conferência de Kienthal (1916): “os vossos governos e jornais dizem-vos que a guerra deve continuar para matar o militarismo. Enganam-vos! A guerra nunca foi morta com guerra. Na verdade alimenta sentimentos e desejos de vingança. Desta maneira, marcando-vos para o sacrifício, encerram-vos num círculo infernal”. Rompendo finalmente com a abordagem do Congresso de Estugarda, que tinha apelado a tribunais internacionais de arbitragem, o documento final de Kienthal declarava que “as ilusões do pacifismo burguês” não interromperiam a espiral da guerra mas ajudariam a preservar o sistema sócio-económico existente. A única forma de prevenir futuros conflitos militares seria que as massas populares conquistassem o poder político e derrubassem a propriedade capitalista.

Rosa Luxemburgo e Vladimir Lenine contavam-se entre os mais vigorosos opositores à guerra. Luxemburgo aprofundou a compreensão teórica da esquerda e mostrou como o militarismo era a vértebra central do Estado. Demonstrando uma convicção e eficácia que poucos outros líderes comunistas igualavam, argumentava que o slogan “guerra à guerra” deveria tornar-se “a pedra de toque da política da classe trabalhadora”. Como escreveu em A Crise da Social Democracia (1916), também conhecida como O panfleto Junius, a Segunda Internacional tinha implodido porque tinha falhado em “chegar a uma tática e ação comum do proletariado em todos os países”. Daí para diante, o “objetivo central” do proletariado deveria ser assim “lutar contra o imperialismo e prevenir guerras, tanto em tempo de paz como no de guerra”.

Em Socialismo e a Guerra (1915) e em muitos outros escritos durante a Primeira Guerra Mundial, o grande mérito de Lenine foi identificar duas questões fundamentais. A primeira dizia respeito à “falsificação histórica” da burguesia que tentava atribuir um “sentido progressista de libertação nacional” ao que eram na realidade guerras para “pilhar”, travadas com o objetivo único de decidir que beligerantes iriam desta feita oprimir mais povos estrangeiros e aumentar as desigualdades do capitalismo. A segunda era o mascarar das contradições dos social-reformistas – ou “social-chauvinistas” como ele lhes chamava – que em última instância apoiavam as justificações para a guerra apesar de a terem definido como uma atividade “criminosa” nas resoluções adotadas pela Segunda Internacionais. Por detrás da alegação de “defender a pátria” estava o direito que algumas grandes potências se tinham atribuído a si próprias a “pilhar as colónias e oprimir povos estrangeiros”. A guerra não estava a ser travada para salvaguardar a “existência das nações” mas “para defender os privilégios, a dominação, o saque e a violência” de várias “burguesias imperialistas”. Os socialistas que tinham capitulado ao patriotismo tinham substituído a luta de classes por uma reivindicação de “parcelas dos lucros obtidos pelas suas burguesias nacionais através do saque de outros países”. Consequentemente, Lenine era a favor de “guerras defensivas” – não, entenda-se, da defesa nacional dos países europeus à moda de Jaurès, mas das “guerras justas” dos povos “oprimidos e subjugados” que tinham sido “saqueados e privados dos seus direitos” pelas “grandes potências esclavagistas”. A tese mais conhecida deste panfleto – de que os revolucionários deveriam procurar “transformar a guerra imperialista em guerra civil” – implicava que quem queria “uma paz duradoura” deveria travar uma “guerra civil contra os seus governos e burguesia”. Lenine estava convencido de algo que a história mostraria mais tarde ser impreciso: de que qualquer luta de classes consistentemente travada em tempos de guerra levaria “inevitavelmente” a criar um espírito revolucionário entre as massas.

Linhas de demarcação
A Primeira Guerra Mundial produziu divisões não apenas na Segunda Internacional mas também no movimento anarquista. Num artigo publicado pouco depois do desencadear do conflito, Kropotkin escreveu que “a tarefa de qualquer pessoa a quem seja cara a ideia do progresso humano é esmagar a invasão alemã doa Europa Ocidental”. Esta afirmação, vista por muitos como uma desistência dos princípios pelos quais tinha lutado durante toda a sua vida, era uma tentativa de ir além do slogan “greve geral contra a guerra” – que tinha deixado de ser escutado pelas massas trabalhadoras – e de evitar a regressão geral da política europeia que resultaria de uma vitória alemã. Do ponto de vista de Kropotkin, se os anti-militaristas permanecessem inertes iriam ajudar indiretamente os planos de conquista dos invasores e o obstáculo daí resultante seria mais difícil de ultrapassar para quem lutava pela revolução social.

Numa resposta a Kropotkin, o anarquista italiano Enrico Malatesta defendia que, apesar de não ser pacifista e considerar ser legítimo pegar em armas numa guerra de libertação, a guerra mundial não era – como a propaganda burguesa apresentava – uma luta “pelo bem geral contra o inimigo comum” da democracia mas mais um exemplo da subjugação das massas trabalhadoras pela classe dominante. Ele estava consciente de que “uma vitória alemã seria certamente um triunfo do militarismo mas um triunfo dos aliados também significaria um domínio russo-britânico da Europa e Ásia.

No Manifesto de 16 (1916), Kropotkin defendia a necessidade de resistir a um agressor que representa a destruição de todas as esperanças de libertação. A vitória da Tripla Entente contra a Alemanha seria o mal menor e faria menos para minar as liberdades existentes. Por outro lado, Malatesta e os co-signatários do manifesto anti-guerra da Internacional Anarquista (1915) declaravam: “não há nenhuma distinção possível entre guerras ofensivas e defensivas”. Para além disso, acrescentavam que “nenhum dos beligerantes tem qualquer direito para reivindicar a civilização, tal como nenhum deles tem razão em reclamar o direito legítimo à auto-defesa”. A Primeira Guerra Mundial, insistiam, era mais um episódio de um conflito entre capitalistas de várias potências imperialistas que estava a ser travada às custas da classe trabalhadora.

Malatesta, Emma Goldman, Ferdinand Nieuwenhuis e a grande maioria do movimento anarquista estavam convencidos de que seria um erro imperdoável apoiar governos burgueses. Em vez disso, sem mas nem meios mas, mantiveram o slogan “nenhum homem e nem um centavo para o exército” rejeitando firmemente qualquer apoio indireto ao prossecução da guerra.

As atitudes face à guerra também suscitaram debate no movimento feminista. A necessidade das mulheres de substituir os homens que tinham sido alistados nos empregos que já tinham há muito deixado de ser monopólio masculino – para muitas com salário menor e em condições de sobre-exploração – encorajou a disseminação da ideologia chauvinista numa parte considerável do recém-nascido movimento sufragista. Algumas das suas líderes foram ao ponto de fazer abaixo-assinados pelo alistamento de mulheres nas forças armadas. A exposição da duplicidade dos governos – que, evocando que o inimigo está às nossas portas, usavam a guerra para fazer recuar reformas sociais fundamentais – foi um dos mais importantes feitos das mulheres que eram líderes comunistas então. Clara Zetkin, Alexandra Kollontai, Sylvia Pankhurst e, claro, Rosa Luxemburgo estavam entre as primeiras a enveredar lúcida e corajosamente pelo caminho que mostraria a sucessivas gerações como a luta contra o militarismo era essencial à luta contra o patriarcado. Depois, a rejeição da guerra tornou-se parte distintiva do Dia Internacional das Mulheres e a oposição aos orçamentos de guerra no deflagrar de qualquer novo conflito era parte proeminente de muitas das plataformas do movimento feminista internacional.

O fim não justifica os meios e os meios errados prejudicam o fim
A divisão profunda entre revolucionários e reformistas, que aumentou depois do nascimento da União Soviética e do crescimento do dogmatismo ideológico nos anos 1920 e 1930, impedia qualquer aliança contra o militarismo entre a Internacional Comunista (1919-1943) e os partidos socialistas e social-democratas europeus. Tendo apoiado a guerra, os partidos que faziam parte da Internacional Socialista e Trabalhista (1923-1940) tinham perdido todo o crédito aos olhos dos comunistas. A ideia leninista de “transformar a guerra imperialista em guerra civil” ainda era apreciada em Moscovo, onde os dirigentes políticos e teóricos pensavam que um “novo 1914” seria inevitável. Assim, de ambos os lados, o discurso era mais dedicado ao que fazer se uma nova guerra começasse do que o que fazer para prevenir uma guerra de começar. Os slogans e declarações de princípio diferiam substancialmente do que era esperado que acontecesse e do que se transformava em ação política. Entre as vozes críticas no campo comunista estava a de Nikolai Bukharin, defensor do slogan “luta pela paz” e um dos mais convictos de que esta era “uma das questões chave do mundo contemporâneo”; e a de Georgi Dimitrov que defendia que nem todas as grandes potências eram responsáveis na mesma medida pela ameaça da guerra e que favorecia uma aproximação aos partidos socialistas para construir uma ampla frente popular contra esta. Mas estas visões contrastavam com a litania da ortodoxia soviética que, longe de atualizar a análise teórica, repetia que o perigo da guerra estava inscrito, sem quaisquer distinções, em todos os poderes imperialistas.

Os pontos de vista de Mao Zedong sobre este tema eram bastante diferente. À cabeça do movimento de libertação contra a invasão japonesa escreveu, em Sobre a Guerra Prolongada (1938), que as “guerras justas” nas quais os comunistas deveriam participar ativamente são dotadas de um poder tremendo que pode transformar muitas coisas ou abrir caminho para a sua transformação”. A estratégia proposta por Mao era, assim, “opor à guerra injusta a guerra justa” e além disso “continuar a guerra até que o seu objetivo político seja alcançado”. Os argumentos para a “omnipotência da guerra revolucionária” voltam a ser apresentados em Problemas da Guerra e Estratégia (1938), onde argumenta que “apenas com as armas pode o mundo inteiro ser transformado” e que a “tomada do poder pela via armada, a resolução da questão através da guerra, é a questão central e a forma mais elevada de revolução”.

Na Europa, o escalar da violência na frente nazi-fascista, internamente mas também no estrangeiro, e o início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) criaram um cenário ainda mais nefasto do que a guerra de 1914-18. Depois das tropas de Hitler terem atacado a União Soviética em 1941, a Grande Guerra Patriótica que culminou com a derrota do nazismo tornou-se num elemento tão central da unidade nacional russa que sobreviveu à queda do muro de Berlim e permaneceu até aos nossos dias.

Com a divisão do mundo em dois blocos no pós-guerra, Estaline ensinava que a tarefa principal do movimento comunista internacional era a salvaguarda da União Soviética. A criação de uma zona tampão de oito países na Europa de Leste (sete depois da saída da Jugoslávia) era um pilar central da sua política. No mesmo período, a doutrina Truman marcava o advento de um novo tipo de guerra: a Guerra Fria. Do seu apoio às forças anti-comunistas na Grécia, ao Plano Marshall (1948) e à criação da NATO (1949), os Estados Unidos da América contribuíram para evitar o avanço das forças progressistas na Europa Ocidental. A União Soviética respondeu com o Pacto de Varsóvia (1955). Esta configuração conduziu a uma enorme corrida ao armamento que, apesar da memória fresca de Hiroshima e Nagasaki, também envolveu a proliferação dos testes de armas nucleares.

A partir de 1961, sob a liderança de Nikita Khrushchev, a União Soviética enveredou por um novo rumo político que ficou conhecido como a “coexistência pacífica”. Desta feita, com o ênfase na não interferência e no respeito da soberania nacional, bem como da cooperação económica com os países capitalistas, era suposto evitar-se o perigo de uma terceira guerra mundial (que a crise dos mísseis cubanos mostrou, em 1962, ser uma possibilidade) e apoiar o argumento de que a guerra não era inevitável. Contudo, esta tentativa de cooperação construtiva estava orientada apenas para os EUA, não para os países do “socialismo realmente existente”. Em 1956, a União Soviética tinha já esmagado a revolta na Hungria e os Partidos Comunistas da Europa Ocidental não tinham condenado, pelo contrário tinham até justificado, a intervenção militar em nome do bloco socialista. Palmiro Togliatti, o secretário do Partido Comunista Italiano, por exemplo declarou: “ficamos do nosso lado mesmo quando este comete erros”. A maior parte daqueles que partilhavam esta posição lamentaram-na amargamente nos anos posteriores quando perceberam os efeitos devastadores da operação soviética. Acontecimentos semelhantes ocorreram no auge da coexistência pacífica, em 1968, na Checoslováquia.

Confrontado com exigências de democratização e de descentralização económica durante a Primavera de Praga, o Politburo do Partido Comunista da União Soviética decidiu unanimemente enviar meio milhão de soldados e milhares de tanques. No congresso do Partido Operário Unificado polaco, em 1968, Leonid Brezhnev explicou a ação indicando aquilo que chamou a “soberania limitada” dos países do Pacto de Varsóvia: “quando forças que são hostis ao socialismo tentam virar o caminho de alguns países socialistas para o capitalismo, torna-se não apenas um problema do país em questão mas um problema comum e a preocupação de todos os países socialistas”.

De acordo com esta lógica anti-democrática, a definição do que era ou não “socialismo” recaía naturalmente na decisão arbitrária dos líderes soviéticos. Mas desta vez as críticas à esquerda foram mais diretas e até representaram a maioria. Apesar da reprovação da ação soviética ter sido exprimida não apenas pelos movimentos da Nova Esquerda mas por uma maioria dos partidos comunistas, incluindo o chinês, os russos não retiraram mas empreenderam um processo a que chamaram “normalização”. A União Soviética continuou a canalizar uma parte considerável dos seus recursos económicos para gastos militares e isto ajudou a reforçar a cultura autoritária na sociedade. Desta forma, perdeu de vez a boa vontade do movimento pela paz que se tinha tornado ainda maior devido às mobilizações extraordinárias contra a guerra no Vietname.

Uma das mais importantes guerras da próxima década começou com a invasão soviética do Afeganistão. Em 1979, o Exército Vermelho tornou-se mais uma vez um instrumento decisivo da política externa de Moscovo, que continuava a reclamar o direito de intervir naquilo que descrevia como a sua “zona de segurança”. A malfadada decisão transformou-se numa aventura esgotante que se prolongou por mais de dez anos, causando um grande número de mortes e criando milhões de refugiados. Nesta ocasião, o movimento comunista internacional foi muito menos reticente do que tinha sido em relação às invasões soviéticas da Hungria e da Checoslováquia. Contudo, esta nova guerra revelava ainda mais claramente à opinião pública internacional o fosso entre o “socialismo realmente existente” e uma política alternativa baseada na paz e na oposição ao militarismo.

Tomadas no seu conjunto, estas intervenções militares não apenas foram no sentido contrário à redução geral de armamento mas serviram para desacreditar e enfraquecer globalmente o socialismo. A União Soviética foi sendo cada vez mais vista como um poder imperial que agia de formas não muito diferentes daquelas dos Estados Unidos, que, desde o início da Guerra Fria, tinha, de forma mais ou menos secreta, apoiado secretamente golpes de Estado e ajudado a derrubar governos democraticamente eleitos em mais de vinte países em todo o mundo. Por último, as “guerras socialistas”, em 1977-1979, entre Camboja e Vietname e China e Vietname, com o pano de fundo do conflito sino-soviético, dissiparam a vantagem que a ideologia “marxista-leninista” (já distante dos fundamentos originais lançados por Marx e Engels) tinha ao atribuir a guerra exclusivamente aos desequilíbrios económicos do capitalismo.

Ser de esquerda é ser contra a guerra
O fim da Guerra Fria não diminuiu a quantidade de interferência nos assuntos de outros países nem aumentou o espaço de liberdade para que os povos escolham o regime político sob o qual vivem. As inúmeras guerras – mesmo sem mandato das Nações Unidas e definidas, absurdamente, como “humanitárias” – desencadeadas pelos EUA nos últimos 25 anos, às quais devem ser somadas novas formas de conflito, sanções ilegais, condicionamento político, económico e mediático, demonstram que a divisão bipolar do mundo entre duas super-potências não foi substituída pela era de liberdade e progresso prometida pelo mantra neoliberal da “Nova Ordem Mundial”.

Neste contexto, muitas forças políticas que antes reivindicavam valores de esquerda aderiram a várias guerras. Do Kosovo, ao Iraque e ao Afeganistão – para mencionar apenas as principais guerras travadas pela Nato desde a queda do Muro de Berlim – estas forças deram o seu apoio às intervenções armadas e tornaram-se cada vez menos diferenciáveis da direita.

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia fez a esquerda enfrentar outra vez o dilema de como reagir quando a soberania de um país está sob ataque. Não condenar a invasão russa da Ucrânia é um erro político da parte do governo da Venezuela e faz com que denúncias de possíveis futuros atos de agressão cometidos pelos Estados Unidos surjam como menos credíveis. É verdade que, como Marx escreveu a Ferdinand Lassalle em 1860, “na política externa, há pouco a ser ganho no uso de palavras de ordem como “reacionário” e “revolucionário” – e de que o que “é subjetivamente reacionário [pode vir a provar-se] objetivamente revolucionário na política externa”. Mas as forças de esquerda deveriam ter aprendido do século XX que as alianças com o “inimigo do meu inimigo” conduzem frequentemente a acordos contra-produtivos, especialmente quando como, tal como acontece na nossa época, a frente progressista é politicamente fraca e teoricamente confusa e lhe falta o apoio de mobilizações de massas.

Lembrando as palavras de Lenine em A Revolução Socialista e o Direito das Nações à Auto-determinação: “o facto de que a luta de libertação nacional contra um poder imperialista possa, sob certas circunstâncias, ser utilizada por outra “Grande” potência com os seus interesses igualmente imperialistas não deveria pesar na indução da Social Democracia para renunciar ao seu reconhecimento do direito das nações à autodeterminação”. Para além dos interesses geopolíticos e das intrigas que estão habitualmente em jogo, as forças da esquerda apoiaram historicamente o princípio da auto-determinação nacional e defenderam o direito dos estados individuais de estabelecerem as suas fronteiras com base na vontade expressa da população. A esquerda lutou contra guerras e “anexações” porque estava consciente que estas levavam a conflitos dramáticos entre os trabalhadores das nações dominante e dominada, criando as condições para os últimos se unirem com a sua burguesia e passarem a considerar os primeiros como seus inimigos. Em Resultados da Discussão sobre Auto-determinação (1916), Lenine escreveu: “se a revolução socialista fosse vitoriosa em Petrogrado, Berlim e Varsóvia, o governo socialista polaco, tal como os governos socialistas russo e alemão renunciariam à retenção pela força, digamos, dos ucranianos nas fronteiras do estado polaco”. Porquê sugerir, então, que algo diferente deve ser concedido ao governo nacionalista liderado por Vladimir Putin?

Po outro lado, muitos na esquerda cederam à tentação de se tornar – direta ou indiretamente – co-beligerantes, alimentando uma nova union sacrée (expressão cunhada em 1914, apenas para saudar a abjuração das forças da esquerda francesa que, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, decidiram apoiar as escolhas bélicas do governo). Tal posição atualmente serve cada vez mais para desvanecer a distinção entre atlanticismo e pacifismo. A história mostra que, quando não se opõem à guerra, as forças progressistas perdem uma parte essencial da sua razão de existir e acabam por engolir a ideologia do campo oposto. Isto acontece quando partidos de Esquerda fazem da sua presença no governo forma fundamental de medir a sua ação política – como os Comunistas Italianos fizeram ao apoiar as intervenções da Nato no Kosovo e no Afeganistão ou a maioria atual do Unidas Podemos, que juntou a sua voz ao coro unânime de todo o arco parlamentar espanhol a favor do envio de armas para o exército ucraniano. Uma conduta subalterna que no passado já foi muitas vezes punida, incluindo nas eleições quando a ocasião se propiciar.

Bonaparte não é democracia
Em 1853-1856, Marx escreveu uma série de artigos brilhantes para o New-York Daily Tribune que continham muitos paralelos interessantes e úteis com a atualidade. Em 1853, falando do grande monarca moscovita do século XV – aquele considerado como o unificador da Rússia e que abriu caminho para a sua autocracia – Marx afirmou: “apenas temos de substituir uma série de nomes e datas por outros e torna-se claro que as políticas de Ivan III (…) e as da Rússia de hoje não são apenas semelhantes, mas idênticas”. No ano a seguir, contudo, em oposição aos democratas liberais que exaltavam a coligação anti-russa, escreveu: “é um erro descrever a guerra contra a Rússia como uma guerra entre a liberdade e o despotismo. Para além do facto de que, se tal fosse o caso, a liberdade seria por um momento representada por um Bonaparte, todo o objetivo declarado da guerra é a manutenção dos tratados de Viena – esses mesmos tratados que anulam a liberdade e a independência das nações”. Se substituirmos Bonaparte pelos Estados Unidos da América e os tratados de Viena pela Nato, essas observações parecem escritas para hoje.

O pensamento daqueles que se opõem tanto ao nacionalismo russo quanto ao ucraniano, tal como à expansão da Nato, não mostra indecisão política ou ambiguidade teórica. Nas últimas semanas, vários peritos têm avançado com explicações para as raízes do conflito (que de forma alguma servem para reduzir a barbárie da invasão russa) e a posição de quem propõe uma política de não-alinhamento é maneira mais eficaz de acabar com a guerra tão cedo quanto possível e assegurar o número de vítimas mais baixo possível. Não é uma questão de agir como “belas almas” encharcadas de idealismo abstrato, as quais Hegel achava incapazes de abordar a realidade real das contradições terrenas. Pelo contrário: a ideia é dar realidade ao único antídoto verdadeiro para uma expansão ilimitada da guerra. Não há fim para as vozes que pedem mais recrutamentos ou para aquelas que, como o Alto Representante da União Europeia para Relações Exteriores e Política de Segurança, pensam que é tarefa da Europa fornecer aos ucranianos “as armas necessárias para a guerra”. Mas, em contraste com essas posições, é necessário buscar uma atividade diplomática incessante com base em dois pontos firmes: a desescalada e a neutralidade da Ucrânia independente.

Apesar do aumento do apoio à Nato após as jogadas russas, é necessário trabalhar mais afincadamente para garantir que a opinião pública não veja a maior e mais agressiva máquina de guerra do mundo – a Nato – como a solução para os problemas de segurança global. Deve-se mostrar que é uma organização perigosa e ineficaz, que, no seu impulso de expansão e dominação unipolar, serve para alimentar as tensões que levam à guerra no mundo.

Em O Socialismo e a Guerra, Lenine argumentava que os marxistas divergem dos pacifistas e dos anarquistas porque “consideram historicamente necessário (do ponto de vista do materialismo dialético de Marx) estudar cada guerra em separado”. Na continuação disto alegava que “na história houve muitas guerras que, apesar de todos os horrores, atrocidades, angústia e sofrimento que inevitavelmente acompanham todas as guerras, foram progressistas, i.e., beneficiaram o desenvolvimento da humanidade”, se isto terá sido verdade no passado, seria limitado repeti-lo simplesmente nas sociedades contemporâneas nas quais as armas de destruição massiva se espalham continuamente. Raramente as guerras – que não devem ser confundidas com as revoluções – tiveram o efeito democratizante que alguns teóricos do socialismo esperaram. Efetivamente, provaram ser muitas vezes a pior forma de tentar fazer uma revolução, tanto por causa do custo em vidas humanas quanto por causa da destruição das forças produtivas que implicam. É uma lição que também a esquerda moderada nunca deveria esquecer.

Para a esquerda, a guerra não pode ser “a continuação da política por outros meios”, para citar a famosa frase de Clausewitz. Na verdade, apenas certifica o falhanço da política. Se a esquerda quiser ser hegemónica e mostrar-se capaz de usar a história para as tarefas contemporâneas precisa inscrever indelevelmente nas suas faixas as palavras de ordem: “antimilitarismo” e “Não à guerra!”

 

Traduzido por Carlos Carujo

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A guerra civil nos EUA e as lutas pela independência da Polônia

A luta contra a escravidão nos EUA
Na primavera de 1861, a política mundial foi sacudida pela eclosão da Guerra Civil Americana. Ela começou rapidamente após a eleição de Abraham Lincoln como presidente dos Estados Unidos, quando sete estados escravocratas declararam sua secessão dos EUA: Carolina do Sul, Mississippi, Florida, Alabama, Geórgia, Luisiana e Texas. Somaram-se a eles Virgínia, Arkansas, Tennessee, Carolina do Norte e, posteriormente, Missouri e Kentucky (embora estes dois últimos não tenham proclamado oficialmente sua separação). O conflito sangrento que se sucedeu tomou aproximadamente 750.000 vidas entre os Confederados (que eram a favor da manutenção e expansão da escravidão) e a União (os estados leais à Lincoln, ainda que em alguns casos considerando a escravidão legal).

Marx imediatamente se pôs a estudar a situação e, no começo de julho, escreveu à Engels: “O conflito entre Sul e Norte […] finalmente chegou ao ponto culminante (se desconsideramos as novas exigências desavergonhadas da ‘cavalaria’ ) devido ao peso que o extraordinário desenvolvimento dos estados do noroeste colocou na balança.” Na visão de Marx, nenhum dos componentes do movimento separatista tinha qualquer legitimidade; esses movimentos deveriam ser considerados como “usurpações”, já que “em nenhum momento eles deixaram o povo votar em massa”. De todo modo, o que estava em questão não foi apenas a “secessão do Norte, mas também consolidar e intensificar a oligarquia dos 300.000 senhores de escravos no Sul.” (MARX, [1861c] 1985, p.300-1) Alguns dias depois, ele observou que “o assunto [foi] erroneamente representado no noticiário britânico”, já que em todo o lugar, exceto na Carolina do Sul, “havia a mais firme oposição à secessão.” (MARX, [1861d] 1985, p.305) Além do mais, em lugares nos quais a consulta eleitoral era permitida – “apenas poucos” dos estados no Golfo do México possuíam um “voto popular adequado” – ela ocorria em condições censuráveis. Na Virgínia, por exemplo, “uma enorme massa de tropas confederadas foi repentinamente posicionada no território” e “sob sua proteção legal (deveras bonapartista, isso), ela votou pela secessão” – ainda assim, “apesar do terrorismo sistemático”, houveram “50.000 votos” pela União. O Texas, que, “depois da Carolina do Sul, [possuía] o maior terrorismo e partido escravocrata”, ainda registrou “11.000 votos a favor da União”. No Alabama, não havia “voto popular nem pela secessão nem pela nova constituição”, e só foi possível a maioria de 39/61 dos delegados da convenção a favor da secessão em razão do fato de que sob a Constituição “cada escravocrata também votava por 3/5 dos seus escravos.” (MARX, [1861d] 1985, p.306-7). No caso da Luisiana, na “eleição de delegados para a convenção” foram proferidos mais votos pela União ao invés da secessão, mas um número suficiente de delegados desertou para reverter o jogo (MARX, [1861d] 1985, p.307).

Tais considerações nas cartas de Marx à Engels foram complementadas por argumentos ainda mais importantes em suas obras jornalísticas. Em adição às esporádicas contribuições com o New-York Tribune, em outubro de 1861, ele começou a escrever também para o diário liberal vienense Die Presse que, com seus 30.000 assinantes, foi o mais amplamente lido jornal na Áustria e um dos mais populares onde quer que se falasse a língua alemã. O tema central desses artigos – que também incluíam relatórios sobre a segunda invasão da França ao México – eram os efeitos econômicos da guerra norte-americana contra a Grã-Bretanha. Em particular, Marx se concentrou no desenvolvimento do comércio e da situação financeira, bem como em avaliar as tendências na opinião pública. Portanto, em Um encontro de trabalhadores londrinos (1862), ele expressou satisfação em relação às demonstrações organizadas pelos trabalhadores ingleses que, apesar de “não representados no Parlamento”, tinham conseguido exercer sua “influência política” (MARX, [1862b] 1984, p.153) e impediram uma intervenção militar da Grã-Bretanha contra a União.

Similarmente, Marx escreveu um artigo inspirado para o New-York Tribune, após o Caso Trent, quando a Marinha dos EUA prendeu de maneira ilegal dois diplomatas confederados a bordo de um navio britânico. Os Estados Unidos, escreveu Marx, não deveriam se esquecer “de que pelo menos as classes trabalhadoras da Inglaterra nunca os abandonaram”. Para elas, “a paz oscilava na balança” porque “apesar dos estímulos venenosos diariamente administrados por uma imprensa corrupta e irresponsável, não era possível realizar uma única reunião de guerra no Reino Unido durante todo o período”. (MARX, [1862a] 1984, p.137) A “atitude das classes trabalhadoras britânicas” seria ainda mais valorizada quando colocada lado a lado com “o bullying, a conduta hipócrita, covarde e estúpida da oficial e abastada figura do John Bull”; coragem e consistência de um lado, incoerência e autocontradição de outro. Em uma carta que escreveu à Lassalle em maio de 1861, ele comentou: “o todo da imprensa oficial na Inglaterra era, claro, a favor dos escravocratas. Eles são os mesmos sujeitos que fatigaram o mundo com sua filantropia comercial antiescravista. Mas algodão é algodão!” (MARX, [1861a] 1985, p.291)

Os interesses de Marx quanto à Guerra Civil vão além do possível impacto para a Grã-Bretanha; ele queria, acima de tudo, iluminar a natureza do conflito. O artigo que escreveu para o New-York Tribune alguns meses depois que a guerra eclodiu é um bom exemplo disso: “O povo da Europa sabe que uma luta pela continuidade da União é uma luta contra a continuidade da escravocracia – que nesta disputa a forma mais elevada de autogoverno popular já realizada até agora está dando embate à mais vil e vergonhosa forma de escravidão humana já registrada nos anais da história” . (MARX, [1861f] 1984, p.30)

Em alguns dos artigos para a Die Presse, Marx analisou em maior profundidade os argumentos dos dois lados opositores. Ele começou demonstrando a hipocrisia dos partidários ingleses liberais e conservadores. Em A guerra civil norte-americana (25 de outubro de 1861), ele ridicularizou a “descoberta brilhante” do The Times, então um proeminente jornal britânico, de que foi “uma mera guerra tarifária, uma guerra entre um sistema protecionista e um sistema de livre comércio” e sua conclusão de que os britânicos não tinham escolha senão declarar suporte ao “livre comércio” representado pela confederação do sul. Alguns semanais, incluindo o The Economist e o The Saturday Review, deram um passo além e insistiram que “a questão da escravidão […] não tinha absolutamente nada a ver com essa guerra”. (MARX, [1861e] 1984, p.32-33)

Ao se opor à essas interpretações, Marx chamou atenção para as razões políticas por trás do conflito. Sobre os proprietários de escravos do Sul, assinalou que seu objetivo central era manter controle do senado e, portanto, “influência política sobre os Estados Unidos”. Para isso, era necessário conquistar novas regiões (como havia acontecido em 1845 com a anexação do Texas) ou transformar partes existentes dos EUA em “estados escravistas”. (MARX, [1861e] 1984, p.33) Os defensores da escravidão na América do Norte eram “uma pequena oligarquia que sempre [foi] confrontada com muitos milhões dos assim chamados brancos pobres, cujos números haviam crescido constantemente por meio da concentração da propriedade de terra e cuja condição só se compara àquela dos plebeus romanos no período de extremo declínio da Roma”. (MARX, [1861e] 1984, p.40-41) Portanto, a “aquisição e perspectiva de aquisição de novos territórios” foi a única maneira possível de coincidir os interesses dos pobres com aqueles dos proprietários de escravos, para dar uma direção inofensiva à sua sede incansável de ação e para domá-los com a perspectiva de um dia se tornarem eles próprios donos de escravos”. Por outro lado, Lincoln perseguia o objetivo do “confinamento rigoroso da escravidão dentro de seu antigo terreno”, o que “inevitavelmente levaria, de acordo com a lei econômica, à sua extinção gradual” e, portanto, à aniquilação da “hegemonia” dos “estados escravistas”. (MARX, [1861e] 1984, p.41)

Marx usou seu artigo para argumentar o oposto: “o movimento como um todo estava e é baseado, como se vê, na questão da escravidão. Não no sentido de se os escravos nos estados escravistas devem ser completamente emancipados ou não, mas sim se os 20 milhões de homens livres do Norte deveriam continuar a se submeter a uma oligarquia de 300.000 escravocratas”. O que estava em jogo – e Marx baseava nisso o seu insight sobre o mecanismo expansivo da forma econômica – era “se os vastos territórios da república deveriam ser incubadoras para os estados livres ou para a escravidão; [e] se a política nacional da União deveria usar enquanto um dispositivo seu a disseminação armada da escravidão no México, América Central e do Sul” . (MARX, [1861e] 1984, p.41)

Essas análises realçam o abismo que separa Marx de Giuseppe Garibaldi, que havia rejeitado a oferta de um posto de comando no exército do Norte com a justificativa de que se tratava apenas de uma disputa por poder que não dizia respeito à emancipação dos escravos. Sobre a posição de Garibaldi e sua tentativa fracassada de restaurar a paz entre os dois lados, Marx comenta com Engels que: “Garibaldi, o jumento, fez a ele próprio de trouxa com sua carta aos ianques promovendo harmonia.” (MARX, [1861b] 1985, p.293). Enquanto Garibaldi falhou em entender os verdadeiros objetivos e possibilidades no processo em curso, Marx – como um não-maximalista alerta para os possíveis desenvolvimentos históricos – imediatamente percebeu que o resultado da Guerra Civil Norte-Americana seria decisivo em escala mundial para pôr em movimento o relógio da história no caminho da escravidão ou da emancipação.

Em novembro de 1864, confrontado com o rápido e dramático desenrolar dos eventos, Marx pediu a seu tio Lion Philips para refletir sobre “como, na época da eleição de Lincoln [em 1860], era apenas uma questão de não fazer mais concessões aos donos de escravos, quando agora o objetivo declarado, e que em parte já havia sido realizado, era a abolição da escravidão”. E adicionou: “deve-se admitir que nunca tamanha revolução ocorreu com tamanha rapidez. Ela terá uma influência extremamente benéfica para todo o mundo.” (MARX, [1864b] 1987, p.48).

Abraham Lincoln e Andrew Johnson
A reeleição de Lincoln em novembro de 1864 ofereceu à Marx a ocasião para expressar, em nome da Associação Internacional dos Trabalhadores, uma mensagem de felicitações contendo uma clara importância política: “se a resistência ao poder escravo era a palavra de ordem de sua primeira eleição, o triunfante grito de guerra de sua reeleição é morte à escravidão.” (MARX, [1864c] 1985, p.19)

Alguns representantes da classe dominante sulista haviam declarado que “a escravidão [era] uma instituição beneficente”, e até pregavam que era “a única solução para o grande problema da relação do trabalho com o capital” . (MARX, [1864c] 1985, p.19) Decorre daí a disposição de Marx em colocar as coisas nos seus devidos lugares:

A classe trabalhadora da Europa entendeu de uma vez, antes mesmo que o partidarismo fanático das classes superiores para com o senhorio da Confederação tivesse dado seu sombrio aviso, de que a rebelião dos donos de escravos iria soar como sinal de guerra para uma cruzada sagrada da propriedade contra o trabalho, e que para os homens do trabalho, com suas esperanças de futuro, mesmo as conquistas do passado estariam em risco naquele tremendo conflito do outro lado do Atlântico. (MARX, [1864c] 1985, p.20)

Marx então tocou em um assunto não menos importante:

Enquanto os trabalhadores, o verdadeiro poder político do Norte, permitiram que a escravidão sujasse sua própria república; enquanto diante do Negro, subjugado e vendido sem seu consentimento, eles se gabavam do mais alto privilégio do trabalhador de pele branca de vender a si mesmo e escolher seu próprio senhor; eles foram incapazes de obter a verdadeira liberdade do trabalho ou de apoiar seus irmãos europeus em sua luta por emancipação. (MARX, [1864c] 1985, p.20)

Um argumento muito similar é feito em O capital, livro I, onde Marx sublinha enfaticamente que “nos Estados Unidos da América do Norte, todo movimento operário independente ficou paralisado durante o tempo em que a escravidão desfigurou uma parte da república. O trabalho de pele branca não pode se emancipar onde o trabalho de pele negra é marcado a ferro”. Contudo, “da morte da escravidão brotou imediatamente uma vida nova e rejuvenescida. O primeiro fruto da guerra civil foi o movimento” por uma jornada diária de trabalho de oito horas. (MARX, [1867] 1976, p.414)

Marx estava bem consciente das posições políticas moderadas de Lincoln , e ele não encobriu os preconceitos raciais de alguns de seus aliados. Mas ele sempre enfatizou de maneira clara, sem nenhum sectarismo, as diferenças entre o sistema escravocrata no Sul e o sistema baseado em trabalho assalariado no Norte. Ele compreendia que, nos Estados Unidos, estavam sendo formadas as condições para demolir uma das mais infames instituições do mundo. O fim da escravidão e da opressão racial permitiria ao movimento global dos trabalhadores que operassem em uma conjuntura mais favorável à construção de uma sociedade sem classes e de um modo de produção comunista .

Com isso em mente, Marx escreveu a Mensagem da Associação Internacional dos Trabalhadores para o presidente Johnson, que havia sucedido Lincoln após seu assassinato em 14 de abril de 1865. Marx queria lembrar a Andrew Johnson que, com sua eleição presidencial, ele havia recebido “a tarefa de arrancar pela raiz a lei que havia sido cortada pela espada”: isto é, “presidir sobre o árduo trabalho de reconstrução política e regeneração social…; para iniciar uma nova era de emancipação do trabalho.” (MARX, [1865a] 1985, p.100)

Alguns anos depois, em nome da Internacional, Marx enviou uma Mensagem para a União Nacional dos Trabalhadores dos Estados Unidos (1869). Ele estava bem ciente – escreveu – que “o sofrimento das classes trabalhadoras partiu como um florete o luxo modernizado dos aristocratas financeiros … e vermes semelhantes criados pelas guerras.” (MARX [1869] apud MUSTO, 2014, p. 259) Contudo, não se deve esquecer que “a Guerra Civil Americana compensou por libertar o escravo e ímpeto moral decorrente”. “De você,” ele conclui, “depende a gloriosa tarefa de provar para o mundo que agora, finalmente, as classes trabalhadoras estão percorrendo a cena da história não mais como criados servis, mas como atores independentes, conscientes de sua própria responsabilidade.” (MARX [1869] apud MUSTO, 2014, p.260)

A questão da revolução polonesa e o papel reacionário da Rússia
Quanto às refinadas contribuições analíticas que Marx escreveu para o Die Presse, apenas uma parte delas chegou a ser publicada. Em fevereiro de 1862 ele escreveu à Engels que, “em vista do atual estado de podridão das questões na Alemanha”, o jornal vienense ainda não havia se mostrado a “vaca leiteira que ele poderia ter sido” para escorar suas finanças miseráveis. Os “companheiros” tinham impresso, talvez, “um a cada quatro”, de forma que ele não apenas havia falhado em ganhar o suficiente para atenuar as circunstâncias de sua família, mas também sofreu de “perda de tempo” e o incômodo de “ter que escrever sobre um tópico específico, quer o gracioso conselho editorial seja condescendente em concordar com o imprimatur do artigo ou não.” (MARX, [1862c] 1985, p.340) Marx repetiu a questão em abril, em um comentário sarcástico que ele enviou à Engels: “em sua Nova ciência, Vico diz que a Alemanha é o único país da Europa onde ainda se fala uma ‘lingua heróica’. Se ele tivesse tido o prazer de entrar em contato com o Presse de Viena ou o National-Zeitung de Berlin, o velho Napolitano teria abandonado essa ideia pré-concebida.” (MARX, [1862d] 1985, p.353-54) Pelo fim de 1862, Marx decidiu romper suas colaborações com o jornal austríaco. Dentro de pouco mais de um ano, ele havia conseguido publicar um total de 52 artigos, alguns deles escritos com a ajuda de Engels.

Apesar de os eventos que abalaram os Estados Unidos terem sido a principal preocupação de Marx na política internacional, ele também perseguiu com seu habitual interesse todos os principais desenvolvimentos na Rússia e no leste europeu. Em uma carta de junho de 1860 para Lassalle, Marx faz alguns argumentos a respeito de um de seus maiores enfoques políticos: sua oposição à Rússia e seus aliados Henry Palmerston e Luís Bonaparte. Ele tentou convencer Lassalle de que não havia nada de ilegítimo na convergência entre as posições de seu “partido” e aquelas de David Urquhart, um político com visões românticas partidário do Tory. A respeito de Urquhart – quem teve a audácia de republicar, para fins anti-russos e antiliberais, os artigos de Marx contra Palmerston que haviam aparecido no órgão dos cartistas ingleses no início dos anos 1850 – ele escreveu: “ele é … subjetivamente reacionário … isso de forma alguma inviabiliza o movimento da política externa, da qual ele é o líder, de ser objetivamente revolucionário. Para mim [… a posição pessoal de Urquhart] é uma questão totalmente indiferente, da mesma forma que, digamos, em uma guerra contra a Rússia também seria indiferente para você se, ao atirar nos russos, os motivos do seu vizinho na linha de tiro fossem preto, vermelho e dourado, [i. e., nacionalistas] ou revolucionários.” (MARX, [1860] 1985, p.152-53) Marx continuou: “E não é preciso dizer que, em política externa, ganha-se pouco usando slogans como ‘reacionário’ e ‘revolucionário’.” (MARX [1860] in MUSTO, 2018, p.132)

Sempre vigilante para sinais de uma revolta que pudesse limitar o papel reacionário da Rússia na política europeia, Marx escreveu para Engels no começo de 1863 (logo após a revolta polonesa de janeiro e da imediata oferta de Bismarck para ajudar a suprimi-la) que “a era da revolução est[ava] agora mais uma vez aberta na Europa.” (MARX, [1863a] 1985, p.453) E quatro dias depois, ele refletiu: “Os assuntos poloneses e a intervenção da Prússia de fato representam uma combinação que nos impele à falar.” (MARX, [1863b] 1985, p.455)

Dada a importância desses eventos, Marx não pensou que seria suficiente para eles falar apenas através de artigos publicados. Ele sugeriu, portanto, a imediata emissão de um manifesto em nome da Associação Educacional dos Trabalhadores Alemães em Londres, que se mantinha próxima de suas posições políticas. Isso o daria cobertura caso ele procedesse com a ideia de requerer a cidadania alemã e “retornar à Alemanha”. Engels deveria escrever a “parte militar” desse pequeno texto, focando nos “interesses políticos e militares da Alemanha na restauração da Polônia”, enquanto Marx assumiria a “parte diplomática.” (MARX, [1863b] 1985, p.455). Quando, em 18 de fevereiro de 1863, a câmara dos deputados condenou a política do governo e emitiu uma resolução no sentido de neutralidade, Marx disparou com entusiasmo: “devemos ter uma revolução em breve.” (MARX, [1863d] 1985, p.461). Tal como ele a via, a questão polonesa oferecia “mais uma circunstância para provar que é impossível prosseguir com os interesses alemães enquanto continuar a existir um estado próprio dos Hohenzollerns.” (MARX, [1863e] 1985, p.462). A oferta de Bismarck para apoiar o tzar Alexandre II, ou sua autorização para que “a Prússia tratasse seu território [o da Polônia] como Russo” (MARX, 1981, p.89) , deu a Marx mais motivação política para completar seu plano.

Foi nesse período, portanto, que Marx embarcou em outro de seus minuciosos projetos de pesquisa. Em uma carta que enviou à Engels no final de maio, ele reportou que nos meses anteriores – além de economia política – ele esteve estudando aspectos da questão polonesa; isso o permitiu “preencher as lacunas em [seu] conhecimento (diplomático, histórico) da questão russa-prussiana-polonesa.” (MARX, [1863f] 1985, p.474) Portanto, entre fevereiro e maio, ele havia escrito um manuscrito intitulado Polônia, Prússia e Rússia (1863), no qual documentou bem a sujeição histórica de Berlim à Moscou. Para os Hohenzollerns, “o progresso da Rússia represent[ou] a lei de desenvolvimento da Prússia”; “Não [havia] Prússia sem Rússia”. Para Marx, ao contrário, “a restauração da Polônia significa[va] a aniquilação da Rússia de hoje, o cancelamento de sua aposta de hegemonia global.” (MARX, 1981, p.7) Pela mesma razão, “a aniquilação da Polônia, sua definitiva entrega à Rússia, [significaria] o declínio certo da Alemanha, o colapso da única barragem que segura o dilúvio universal eslavo.” (MARX, 1981, p.7) O texto planejado nunca chegou a ver a luz do dia. Nessa ocasião, a responsabilidade claramente recai sobre Engels (que escreveria a parte mais substancial, sobre os aspectos militares), enquanto a “parte diplomática” de Marx, a qual ele estaria “pronto para fazer a qualquer momento”, era para ser “apenas um apêndice.” (MARX, [1863c] 1985, p.458) Em outubro, todavia, Marx conseguiu publicar uma Proclamação da Sociedade Educacional dos Trabalhadores Alemães em Londres sobre a Polônia (1963), o que o ajudou a levantar fundos para os combatentes pela liberdade polonesa. Ela começou com uma proclamação retumbante: “A questão polonesa é a questão alemã. Sem uma Polônia independente não pode haver uma Alemanha unida, nenhuma emancipação da Alemanha da dominação russa que se iniciou com a primeira repartição da Polônia”. (MARX, [1863g] 1984, p.296) Para Marx, enquanto “a burguesia alemã assistia, calada, passiva e indiferente, ao massacre da heroica nação que sozinha ainda proteg[ia] a Alemanha do dilúvio moscovita”, a “classe trabalhadora inglesa”, “que [tinha] conquistado honra histórica imortal para si própria ao frustrar as repetidas tentativas das classes dominantes de intervir em nome dos escravocratas norte-americanos”, continuaria a lutar ao lado dos insurgentes poloneses. (MARX, [1863g] 1984, p.297)

Esse conflito, que durou mais de um ano, foi o mais longo já travado contra a ocupação russa. Ele chegou ao fim apenas em abril de 1864, quando os russos, tendo executado os representantes do governo revolucionário, finalmente esmagaram a revolta. Em maio, as tropas russas também completaram a anexação do norte do Cáucaso, colocando fim a uma guerra que havia começado em 1817. Mais uma vez, Marx mostrava perspicácia, e ao contrário “do resto da Europa” – “que assistia com idiota indiferença” – ele considerava “a supressão da insurreição polonesa e a anexação do Cáucaso” como “os dois eventos mais importantes já acontecidos na Europa desde 1815.” (MARX, [1864a] 1985, p.538)

O apoio à luta polonesa durante e depois da Internacional
Marx continuou a se ocupar com a questão polonesa, que surgiu várias vezes no debate dentro da Internacional. De fato, o encontro preparatório mais importante da fundação da Internacional aconteceu em julho de 1863 e foi organizado porque um número de organizações de trabalhadores franceses e ingleses havia se encontrado em Londres especificamente para expressar solidariedade ao povo polonês contra a ocupação tzarista.

Posteriormente, três meses após o nascimento da Internacional, em uma reunião da Comissão Permanente do Conselho Geral acontecida em dezembro de 1864, o jornalista Peter Fox argumentou em sua fala sobre a Polônia que “os franceses [haviam sido] tradicionalmente mais solidários [com os polacos] do que os ingleses”. Marx então não contestou isso, mas, quando ele escreveu para Engels, já havia “desdobrado um quadro historicamente irrefutável de traições francesas constantes da Polônia, de Luís XV até Bonaparte III”. Foi nesse contexto que ele rascunhou um novo manuscrito, que mais tarde ficou conhecido como Polônia e França (1864). Escrito em inglês, ele cobria o intervalo de tempo desde a Paz de Westphalia, em 1648, até 1812.

Um ano depois, em setembro de 1865, logo após a conferência da Internacional acontecida em Londres, Marx propôs um projeto de agenda para a política externa do movimento trabalhador na Europa. Enquanto uma de suas prioridades, ele indicou “a necessidade de eliminar a influência moscovita da Europa aplicando o direito de autodeterminação das nações, e o reestabelecimento da Polônia sobre uma base democrática e social (MARX, [1865b] 1987, p.400). Levou décadas para que isso acontecesse.

Marx continuou a apoiar a causa polonesa também após a dissolução da Internacional. No outono de 1875, ele foi convidado a falar em uma reunião sobre a liberação da Polônia, mas precisou recusar em razão de seu estado de saúde precário. Na carta que enviou ao publicitário e ativista político Pyotr Lavrov, onde explica sua ausência, ele deixou claro que, se tivesse feito sua fala, poderia apenas ter reafirmado a opinião que manteve por mais de trinta anos – a de que “a emancipação da Polônia é um dos pré-requisitos da emancipação da classe trabalhadora na Europa.” (MARX, [1875] 1991, p.111).

O caso da Polônia demonstra que Marx, quando confrontado com os grandes eventos históricos em muitos lugares distantes, foi capaz de apreender o que estava acontecendo no mundo e contribuir para sua transformação. Essa perspectiva internacionalista precisa urgentemente ser revivida nos movimentos atuais de esquerda.

Tradução: Álvaro Martins

Notas
1. Professor de teoria sociológica na Universidade de York, Toronto, Canadá, e autor de inúmeros livros, capítulos de livro e artigos acadêmicos publicados em diversas línguas ao redor do mundo. No Brasil, a editora Boitempo lançou seus livros Trabalhadores, uni-vos! Antologia política da I Internacional (2014) e O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos [1881-1883] (2018). Orcid: https://orcid.org/0000-0003-0911-5907. E-mail: marcello.musto@gmail.com.
2. Doutorando em economia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Membro do Núcleo Interdisciplinar de estudos e pesquisas sobre Marx e o Marxismo (NIEP-Marx) e do Grupo de estudos e pesquisas sobre ontologia crítica (Gepoc) – http://dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/227143. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7135157368229858. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-9630-7108. E-mail: alvaromsiqueira@gmail.com.
3. Esse era o nome usado por Marx para se referir aos senhores de engenho sulistas.
4. O censo de 1860, com o qual Marx ainda não estava familiarizado no momento em que escrevia, registrou pouco mais de 394.000 senhores de escravos, ou 8 por cento das famílias norte-americanas. O número de escravos, contudo, totalizou 3.950.000. Ver Departamento do Censo dos Estados Unidos: “A população dos Estados Unidos em 1860, compilada dos resultados originais do Oitavo Censo sob a Secretaria de Interior”. Washington: Escritório governamental de imprensa, 1866.
5. Sobre o pensamento de Marx a respeito da escravidão, ver BACKHAUS (1974).
6. Sobre o caráter “inerentemente expansionista da escravidão sulista”, ver BLACKBURN (2011, p.21).
7. [M.M.] Tradução modificada.
8. Marx estava aqui citando uma fala do senhor de escravos A. Stephens in Savannah, em 21 de março de 1861, que foi publicada no New-York Daily Tribune em 27 de março de 1861.
9. [N.T.: trecho traduzido da edição brasileira: O capital, livro 1. São Paulo: Boitempo, 2013, p. 372.]
10. Sobre as diferenças entre os dois, ver também o recente trabalho: KULIKOFF (2018).
11. “Derrotar o poder escravista e libertar os escravos não destruiria o capitalismo, mas criaria condições bem mais favoráveis para organizar e elevar o trabalho, seja ele branco ou negro. Marx retratou os abastados senhores de escravos como semelhantes aos aristocratas europeus, e sua remoção enquanto uma tarefa em prol da revolução democrática que ele havia defendido no Manifesto Comunista enquanto o objetivo imediato dos revolucionários alemães.” (BLACKBURN, 2011, p.13, tradução livre)
12. Ver MARX, [1853] 1979, p.341-406.
13. Dentre os numerosos estudos dedicados às concepções políticas de Marx sobre a Rússia, ver RJASANOW (1909) e RABEHL (1977). Ver também BONGIOVANNI (1989), especialmente p.171-189.
14. Ver também MARX [1863] 1985, p.458, e ENGELS [1863] 1985, p.459.
15. Para uma coletânea tematicamente organizada dos manuscritos de Marx sobre a Polônia, ver MARX (1961). E para uma edição cronológica baseada na data de elaboração, ver MARX (1971).
16. Ver introdução de Bongiovanni (1981, p.xxv, tradução livre): “Para Marx, um observador apaixonado do grande jogo, a solução para os problemas estava em alguma medida atrelada à perigosa persistência das características arcaicas que resistiam ao progresso social […] era de certa forma preliminar à luta final, isto é, à resolução de contradições peculiares ao mundo dominado pelo modo capitalista de produção.”

Referências
BACKHAUS, Wilhelm. Marx, Engels und die Sklaverei. Düsseldorf: Schwann, 1974.
BLACKBURN, Robin. An unfinished revolution: Marx and Lincoln. London: Verso, 2011.
BONGIOVANNI, Bruno (1989). Le repliche della storia. Turim: Bollati Boringhieri, 1989.
ENGELS, Friedrich. Carta de Engels para Marx, 21 de fevereiro de 1863. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.41: Marx and Engels: 1860-64. New York: Lawrence & Wishart, 1985.
KULIKOFF, Allan. Abraham Lincoln and Karl Marx in dialogue. New York: Oxford University Press, 2018.
MARX, Karl. Lord Palmerston, 1853. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.12: Marx and Engels 1853-1854. New York: Lawrence & Wishart, 1979. p.341-406.
MARX, Karl. Carta de Marx para Lassalle, 1 ou 2 de junho de 1860. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.41: Marx and Engels: 1860-64. New York: Lawrence & Wishart, 1985.
MARX, Karl. Carta de Marx para Lassalle, 29 de maio de 1861. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.41: Marx and Engels: 1860-64. New York: Lawrence & Wishart, 1985.
MARX, Karl. Carta de Marx para Engels, 10 de junho de 1861. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.41: Marx and Engels: 1860-64. New York: Lawrence & Wishart, 1985.
MARX, Karl. Carta de Marx para Engels, 1 de julho de 1861. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.41: Marx and Engels: 1860-64. New York: Lawrence & Wishart, 1985.
MARX, Karl. Carta de Marx para Engels, 5 de julho de 1861. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.41: Marx and Engels: 1860-64. New York: Lawrence & Wishart, 1985.
MARX, Karl. The North American Civil War, Die Presse, Viena, 25 de outubro de 1861. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.19: Marx and Engels 1861-64. New York: Lawrence & Wishart, 1984. [Ed. bras.: A guerra civil americana (25/10/1861). In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Escritos sobre a guerra civil americana. Organização, notas e tradução de Felipe Vale da Silva e Muniz G. Ferreira. Londrina: Aetia; São Paulo: Peleja, 2020. p.47-57.]
MARX, Karl. The London Times on the Orleans Princes in America, New-York Daily Tribune, Nova Iorque, 7 de novembro de 1861. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.19: Marx and Engels 1861-64. New York: Lawrence & Wishart, 1984. [Ed. bras.: O Times de Londres e os princípes de Orléans na América. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Escritos sobre a guerra civil americana. Organização, notas e tradução de Felipe Vale da Silva e Muniz G. Ferreira. Londrina: Aetia; São Paulo: Peleja, 2020. p.262-265.]
MARX, Karl. English public opinion, New-York Daily Tribune, Nova Iorque, 1 de fevereiro de 1862. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.19: Marx and Engels 1861-64. New York: Lawrence & Wishart, 1984. [Ed. bras.: A opinião pública inglesa. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Escritos sobre a guerra civil americana. Organização, notas e tradução de Felipe Vale da Silva e Muniz G. Ferreira. Londrina: Aetia; São Paulo: Peleja, 2020. p.216-220.]
MARX, Karl. A London workers’ meeting, Die Presse, Viena, 2 de fevereiro de 1862. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.19: Marx and Engels 1861-64. New York: Lawrence & Wishart, 1984. [Ed. bras.: Uma reunião operária em Londres. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Escritos sobre a guerra civil americana. Organização, notas e tradução de Felipe Vale da Silva e Muniz G. Ferreira. Londrina: Aetia; São Paulo: Peleja, 2020. p.225-228.]
MARX, Karl. Carta de Marx para Engels, 25 de fevereiro de 1862. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.41: Marx and Engels: 1860-64. New York: Lawrence & Wishart, 1985.
MARX, Karl. Carta de Marx para Engels, 28 de abril de 1862. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.41: Marx and Engels: 1860-64. New York: Lawrence & Wishart, 1985.
MARX, Karl. Carta de Marx para Engels, 13 de fevereiro de 1863. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.41: Marx and Engels: 1860-64. New York: Lawrence & Wishart, 1985.
MARX, Karl. Carta de Marx para Engels, 17 de fevereiro de 1863. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.41: Marx and Engels: 1860-64. New York: Lawrence & Wishart, 1985.
MARX, Karl. Carta de Marx para Engels, 20 fevereiro de 1863. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.41: Marx and Engels: 1860-64. New York: Lawrence & Wishart, 1985.
MARX, Karl. Carta de Marx para Engels, 21 de fevereiro de 1863. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.41: Marx and Engels: 1860-64. New York: Lawrence & Wishart, 1985.
MARX, Karl. Carta de Marx para Engels, 24 de março de 1863. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.41: Marx and Engels: 1860-64. New York: Lawrence & Wishart, 1985.
MARX, Karl. Carta de Marx para Engels, 29 de maio de 1863. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.41: Marx and Engels: 1860-64. New York: Lawrence & Wishart, 1985.
MARX, Karl. Proclamation on Poland by the German Workers’ Educational Society in London (novembro de 1863). In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.19: Marx and Engels 1861-64. New York: Lawrence & Wishart, 1984.
MARX, Karl. Carta de Marx para Engels, 7 de junho de 1864. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.41: Marx and Engels: 1860-64. New York: Lawrence & Wishart, 1985.
MARX, Karl. Carta de Marx para Lion Philips, 29 de novembro de 1864. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.42: Marx and Engels: 1864-68. New York: Lawrence & Wishart, 1987.
MARX, Karl. To Abraham Lincoln, president of the United States of America, The Daily News, 23 de dezembro de 1864. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.20: Marx and Engels 1864-68. New York: Lawrence & Wishart, 1985. [Ed. bras.: A Abraham Lincoln, presidente dos Estados Unidos da América. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Escritos sobre a guerra civil americana. Organização, notas e tradução de Felipe Vale da Silva e Muniz G. Ferreira. Londrina: Aetia; São Paulo: Peleja, 2020. p.289-291.]
MARX, Karl. Address from the Working Men’s International Association to president Johnson, The Bee-Hive Newspaper, 20 de maio de 1865. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.20: Marx and Engels 1864-68. New York: Lawrence & Wishart, 1985. [Ed. bras.: Mensagem da Associação Internacional dos Trabalhadores ao presidente Johnson. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Escritos sobre a guerra civil americana. Organização, notas e tradução de Felipe Vale da Silva e Muniz G. Ferreira. Londrina: Aetia; São Paulo: Peleja, 2020. p.292-293.]
MARX, Karl. Carta de Marx para Hermann Jung, 20 de novembro de 1865. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.42: Marx and Engels: 1864-68. New York: Lawrence & Wishart, 1987.
MARX, Karl. Carta de Marx para P.L. Lavrov, 3 de dezembro de 1875. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels collected works (MECW), v.45: Marx and Engels: 1874-1879. New York: Lawrence & Wishart, 1991.
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RJASANOW, Dawid. Karl Marx über den Ursprung der Vorherrschaft Russland in Europa. Die Neue Zeit, n.5, p. 1-64, 1909.

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Juan Dal Maso, Outras Palavras. Jornalismo de profundidade e pós-capitalismo

O livro Karl Marx’s Writings on Alienation, editado e introduzido por Marcello Musto, publicado este ano pela editora britânica Palgrave Macmillan, reúne uma seleção de textos de Marx sobre a temática da alienação.

O tema parece particularmente pertinente em um contexto em que a precarização das condições de vida e a generalização do teletrabalho durante a pandemia voltaram a pôr em discussão os efeitos do processo de produção (em sentido amplo, não só industrial) tem sobre a vida da classe trabalhadora em seus múltiplos aspectos, começando pelo impacto sobre o tempo livre. O fenômeno da “great resignation” ou “Big Quit” — ou seja, a renúncia em massa aos trabalhos mal pagos e que não asseguram condições básicas de segurança e higiene, nos Estados Unidos — também é parte deste panorama, a que se soma a onda de greves conhecida como “Striketober”, e outros processos de luta da classe trabalhadora em todo o mundo.

O livro está organizado em duas partes. A primeira consiste no estudo introdutório de Marcello Musto, intitulado “Alienation Redux: Marxian perspectives”. Este texto apresenta as características principais do tratamento da questão da alienação em Marx, com as respectivas mudanças à medida que avança em sua trajetória teórica, assim como discute as diversas leituras da questão em outras tradições e em diversas vertentes do marxismo no século XX.

A segunda parte do livro é composta de um conjunto de escritos de Marx, organizados em três seções. A seção “Early Political and Philosophical Writings” (“Primeiros Escritos Políticos e Filosóficos”) contém textos de 1844 a 1856, que incluem passagens dos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, A Sagrada Família e A ideologia alemã, entre outros. Em seguida, há uma seção com textos dos Grundrisse e seu manuscrito sobre a economia política de 1861-1863, assim como Teorias da mais-valia. A última seção compõe-se de textos preparatórios d’O capital e passagens do próprio Capital, incluindo fragmentos dos manuscritos de 1863-1865 e do capítulo VI, inédito.

Através dessa seleção de textos, pode-se ter uma ideia clara do tratamento da problemática da alienação e seu lugar no pensamento de Marx. Neste artigo, repassaremos os principais argumentos apresentados por Musto na Introdução.

No princípio, Hegel
O primeiro tratamento sistemático da questão da alienação aparece em Hegel, especialmente em sua Fenomenologia do espírito. No caso de Hegel, a questão estava relacionada com uma teoria idealista do espírito que se objetiva na realidade, dando lugar a uma separação entre sujeito e objeto que logo seria superada por meio da conquista da identidade entre ambos. Mas também tinha certas margens materialistas, destacando a importância do trabalho como forma de objetivação da atividade humana. No entanto, ao não ter uma concepção suficientemente clara da especificidade do trabalho sob o capitalismo, Hegel identificou alienação e objetivação (ou seja, a atividade que produz ou modifica objetos materiais distintos do sujeito e das ideias).

Ludwig Feuerbach retomou a categoria para fazer referência ao fenômeno religioso e explicar suas bases materialistas. Marx utilizou pouco o termo nos trabalhos publicados durante sua vida e em geral o conceito foi ignorado pelo marxismo até a aparição de História e consciência de classe, de György Lukács.

Redescobertas e distorções
Em sua célebre obra de 1923, Lukács retomou o argumento da alienação, utilizando o termo “reificação”, com o qual explicava o fato de que a atividade produtiva se apresentava ao trabalhador como algo objetivo e independente de sua vontade. Essa visão se inclinava, por influência de Hegel, a assimilar a alienação com a objetivação e não é fortuito que a ideia de proletariado como “sujeito-objeto idêntico da história” tenha sido central para Lukács, dada a tendência a conceder ao tema um recorte filosófico mais amplo do que a que se podia depreender das obras de Marx publicadas até aquele momento. Mais apegado ao marxismo clássico e distante da teoria do sujeito-objeto idêntico, Isaak Ilich Rubin pôs no centro de sua explicação da teoria marxista do valor a questão do fetichismo da mercadoria, não como um problema da consciência mas sim como um processo social necessário da economia capitalista, relacionado com o caráter privado da produção para o mercado. Mas sua obra A teoria marxista do valor manteve-se praticamente desconhecida fora da URSS até os anos 1970, quando foi traduzida para o inglês.

A publicação em 1932 dos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 de Marx foi o evento que deu impulso aos debates sobre o conceito de alienação, tanto para quem investigava o pensamento de Marx como entre diversas tendências da filosofia e das ciências sociais, assim como em certos setores militantes, junto com as leituras em chave humanista do pensamento de Marx.

Nos Manuscritos, Marx definia a alienação em termos de um processo pelo qual o produto do trabalho se tornava um objeto externo para o trabalhador, mas também com um poder que se voltava contra ele como algo estranho e hostil, e assinalava quatro aspectos da alienação do trabalhador na sociedade burguesa: 1) em relação ao produto de seu trabalho; 2) em relação à sua atividade laboral, que percebe como algo direcionado contra ele; 3) em relação a seu ser genérico (de seu próprio corpo e faculdades físicas e espirituais); 4) em relação aos demais seres humanos.

Enquanto para Hegel a alienação era algo inerente à objetivação, Marx a concebia como uma característica específica do trabalho sob o capitalismo. Por essa razão, também não seria consistente reler os Manuscritos na chave de uma crítica da alienação humana em geral, independentemente da questão de classe. Aclaremos de passagem que em Hegel havia uma concepção de autoprodução do ser humano pelo trabalho, que se faz patente em sua célebre dialéctica do senhor e do escravo, questão que estava relacionada com suas leituras da economia política britânica e que Marx reivindicava em sus Manuscritos. Marx, porém, assinalava que esses acertos do pensamento de Hegel sobre a questão do trabalho permaneciam subordinados a uma concepção na qual a análise da alienação se centrava na alienação do pensamento abstrato, que se resolvia em uma superação da objetividade, razão pela qual considerava mais adequada a solução de Feuerbach na direção do materialismo, embora este tivesse uma leitura pouco sofisticada de Hegel.

Musto sintetiza bem os alcances e limitações deste texto de Marx:

Sublinhar a importância do conceito de alienação nos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 para uma melhor compreensão do desenvolvimento de Marx não pode significar colocar um véu de silêncio sobre os enormes limites deste texto juvenil. Seu autor apenas havia começado a assimilar os conceitos básicos da economia política, e sua concepção de comunismo não era mais que uma síntese confusa dos estudos filosóficos que havia realizado até então. Por mais cativantes que sejam, sobretudo pela forma em que combinam ideias filosóficas de Hegel e de Feuerbach com uma crítica da teoria econômica clássica e uma denúncia da alienação da classe trabalhadora, os Manuscritos econômico-filosóficosde 1844 são apenas uma primeira aproximação, como se depreende de sua vaguidade e ecletismo. Lançam uma luz importante sobre o curso que tomou Marx, mas uma enorme distância os separa ainda dos temas e o argumento não só da edição completa de 1867 do Primeiro Livro de O Capital, como também de seus manuscritos preparatórios, um deles publicado, que redigiu desde fins da década de 1850. À diferença de análises que ou distinguem com ênfase um rotulado “jovem Marx” ou tentam forçar a existência de uma ruptura teórica em sua obra, as leituras mais incisivas do conceito de alienação nos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 souberam tratá-los como uma etapa interessante, mas apenas inicial, na trajetória crítica de Marx. Se não tivesse continuado suas investigações, e ao invés disso tivesse ficado com os conceitos dos manuscritos de Paris, provavelmente teria sido reduzido a ocupar um lugar ao lado de Bruno Bauer (1809-1882) e Feuerbach nas seções de manuais de filosofia dedicadas à esquerda hegeliana [1].

Posteriormente, Musto reconstrói e discute outras concepções da alienação, características do século XX, entre as quais destaca a de Heidegger, com sua ideia de “estado de decadência” ligada à perda da autenticidade do ser na experiência do mundo, muito distanciada da questão tal como fora tratada por Marx. Em Marcuse, Musto assinala uma identificação de alienação e objetivação, assim como um deslocamento da questão da liberação do trabalho para a da libido; enquanto que em Adorno e Horkheimer a alienação aparece como um estranhamento relacionado com o controle social e a manipulação da cultura de massas. Outra leitura como a de Erich Fromm, influenciada pela psicanálise, retomou a questão da alienação como algo característico da experiência subjetiva individual, enquanto as releituras existencialistas e neo-hegelianas da questão, de Sartre a Jean Hippolyte, a apresentarão como algo característico da experiência da autoconsciência humana ao longo de toda a história.

As leituras existencialistas, e outras como a de Hannah Arendt, tomavam somente a questão da “autoalienação” ou alienação do indivíduo em relação aos demais seres humanos, sem levar em consideração os demais aspectos assinalados por Marx em sua crítica inicial da economia capitalista.

Entre as posições marxistas dos anos pós-Segunda Guerra que discutiram sobre os Manuscritos, Musto destaca três: 1) as que o consideravam um texto de transição sem maior importância; 2) as que separam o “Jovem Marx” do “Marx Maduro”, tomando partido por um ou outro, em leituras que contrapõem os Manuscritos a O capital; 3) as que veem uma continuidade em toda a trajetória teórica de Marx, outorgando-lhe uma espécie de unidade monográfica através da questão da alienação.

Musto assinala a unilateralidade dessas três posições, afirmando a importância de assentar terreno firme no que se refere à interpretação da obra de Marx, a partir da constatação de como se modifica a questão da alienação em sua relação com a compreensão da economia capitalista e a subsequente elaboração da crítica da economia política, diferenciando-a ainda de outras posições que surgiram nos anos 1960, como as de Guy Debord, Jean Baudrillard, ou a partir do lado conservador da sociologia norte-americana.

Entre a desalienação e a autonomia
A questão da alienação esteve presente em importantes debates do marxismo durante o século XX. Neste caso, interessa comentar dois, nos quais Musto se detém especialmente, sem que se deixe de considerar que estão contidos no percurso que traça. Um caso importante de apropriação da temática da alienação foi o dos comunistas dissidentes dos países do Leste. Buscaram apoiar-se nas leituras dos Manuscritos econômico-filosóficos, e mais em geral na crítica de Marx à alienação e ao fetichismo da mercadoria, para fazer uma crítica do estalinismo em diversos níveis, especialmente contra o sistema de governo baseado na burocracia e na vigilância policial, o produtivismo e os métodos “despóticos” nas fábricas e a promoção de uma concepção acrítica da realidade. Casos como os de Karel Kosik com sua Dialética do concreto, Mihailo Markovic com sua Dialética da práxis ou Gajo Petrovic com seu Marxismo contra stalinismo são representativos desse tipo de leitura, com suas diferenças e pontos de contato. Com a queda do estalinismo, poderia parecer que sejam reflexões anacrônicas ou demasiado específicas, mas acredito que essa visão seria um erro. Qualquer discussão sobre como tem que ser o socialismo implica um balanço e uma crítica do estalinismo e aí, além do legado teórico, programático e político de Trotsky e da Oposição de Esquerda, também podem fazer seu aporte aqueles que tiveram que enfrentar o estalinismo a partir de uma “volta a Marx” que lhes aparecia naquele momento como única alternativa próxima, diante da falta de continuidade das tradições oposicionistas em razão da repressão.

A outra grande vertente relacionada com a recusa da alienação, embora sem utilizar o conceito da mesma forma que os marxismos humanistas, é a do operaísmo, primeiro, e posteriormente a do autonomismo, que segue tendo peso nos debates atuais. Próxima em suas origens às leituras de Galvano Della Volpe, essa tradição foi sempre reativa às leituras hegelizantes do marxismo. Mas também sustentava uma concepção distinta da proposta no marxismo clássico sobre a relação entre a luta de classes e o avanço tecnológico. Para o operaísmo, como sintetizava Mario Tronti em Operários e Capital, o desenvolvimento capitalista era consequência da luta da classe operária. Essa visão relativizava de maneira sutil o caráter “estranho e hostil” do processo de produção para o trabalhador e enfatizava o desenvolvimento da conflitividade fabril contra o comando capitalista do trabalho. Posteriormente, Antonio Negri, influenciado pelo pós-estruturalismo e as teorias do “capitalismo cognitivo”, fez uma releitura desses temas, amplificando a noção de general intellect proposta por Marx em seu fragmento sobre as máquinas (do qual incluem-se passagens nessa compilação) para uma potência que se instala como trabalho afetivo, comunicativo e cognitivo. Contraditoriamente, essa posição termina em uma reivindicação da progressividade do desenvolvimento capitalista menos crítica que a de Marx, já que este assinalava a contradição entre os avanços da ciência e a técnica e o modo de produção capitalista, como expressão da contradição de classe caracterizada pela extração de mais-valor e a impossibilidade de liberar a força de trabalho sem mudar o sistema por meios revolucionários. Voltemos a Marx, para ver como pensou este problema.

Alienação e exploração capitalista
Em O capital e seus manuscritos preparatórios, assim como no capítulo VI inédito, Marx desenvolve a noção de alienação muito mais ligada a uma teoria mais clara da exploração capitalista e a extração de mais-valia.

Assinala Musto:

Até finais da década de 1850, não houve mais referências à teoria da alienação nas obras de Marx. Depois da derrota das revoluções de 1848, ele viu-se forçado a exilar-se em Londres, onde, uma vez instalado, concentrou todas as suas energias no estudo da economia política e, aparte alguns muito breves trabalhos de temas históricos, não publicou outro livro. Quando começou a escrever sobre economia outra vez, de todo modo, em seus Elementos fundamentais para a crítica da Economia Política (1857-1858), mais conhecidos como Grundrisse, mais de uma vez utilizou o termo “alienação”. Este texto retomou em vários aspectos as análises dos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, embora cerca de uma década de estudo na Biblioteca do Museu Britânico lhe tenha permitido torná-los consideravelmente mais profundos [2].

Nos Grundrisse, Marx relaciona diretamente a questão da alienação com a do intercâmbio de mercadorias, assim como no capítulo VI inédito de O capital faz referência ao processo de personificação das coisas e coisificação das pessoas. Mas avança mais ainda propondo que o capital subordina a seu próprio interesse não apenas a atividade imediata do trabalhador como também o processo de cooperação na produção, os avanços científicos e tecnológicos aplicados à produção e à melhora e desenvolvimento do maquinário. Essas questões entram também em jogo quando Marx define em O Capital o fenômeno do fetichismo da mercadoria.

Marx explica o fetichismo da mercadoria como um processo necessário da produção capitalista:

Esse caráter fetichista do mundo das mercadorias se origina, como a análise precedente demonstrou, na peculiar índole social do trabalho que produz mercadorias. Se os objetos para o uso se convertem em mercadorias, isso se deve unicamente a que são produtos de trabalhos privados exercidos independentemente uns dos outros. O complexo desses trabalhos privados é o que constitui o trabalho social global. Como os produtores não entram em contato social até que intercambiam os produtos de seu trabalho, os atributos especificamente sociais desses trabalhos privados não se manifestam exceto no marco desse intercâmbio. Em outras palavras: de fato, os trabalhos privados não alcançam realidade como partes do trabalho social em seu conjunto, exceto por meio das relações que o intercâmbio estabelece entre os produtos do trabalho e, através dos mesmos, entre os produtores. A estes, portanto, as relações sociais entre seus trabalhos privados os colocam manifestamente como o que são, vale dizer, não como relações diretamente sociais travadas entre as pessoas mesmas, em seus trabalhos, senão pelo contrário como relações próprias de coisas entre as pessoas e relações sociais entre as coisas. É apenas em seu intercâmbio em que os produtos do trabalho adquirem uma objetividade de valor, socialmente uniforme, separada de sua objetividade de uso, sensorialmente diversa. Tal divisão do produto laboral em coisa útil e coisa de valor só se efetiva, na prática, quando o intercâmbio já tenha alcançado a extensão e relevância suficientes para que se produzam coisas úteis destinadas ao intercâmbio, de modo que já em sua produção mesma se tenha em conta o caráter de valor das coisas. A partir desse momento, os trabalhos privados dos produtores adotam de maneira efetiva um duplo caráter social. Por um lado, enquanto trabalhos úteis determinados, têm que satisfazer uma necessidade social determinada e com isso provar sua eficácia como partes do trabalho global, do sistema natural caracterizado pela divisão social do trabalho. Por outro lado, apenas satisfazem as variadas necessidades de seus próprios produtores na medida em que todo trabalho privado particular, dotado de utilidade, é passível de intercâmbio por outra classe de trabalho privado útil, e portanto lhe é equivalente. A igualdade de trabalhos toto coelo [totalmente] diversos só pode consistir em uma abstração de sua desigualdade real, na redução ao caráter comum que possuem enquanto gasto de força humana de trabalho, trabalho abstratamente humano. O cérebro dos produtores privados reflete esse duplo caráter social de seus trabalhos privados somente nas formas que se manifestam no movimento prático, no intercâmbio de produtos: o caráter socialmente útil de seus trabalhos privados, pois, só o reflete sob a forma de que o produto do trabalho tem que ser útil, e precisamente sê-lo para outros; o caráter social da igualdade entre os diversos trabalhos, apenas sob a forma do caráter de valor que é comum a essas coisas materialmente diferentes, os produtos do trabalho.

A figura do fetichismo da mercadoria reúne os temas tratados por Marx em seus escritos anteriores sobre a alienação, só que os complexifica. Nos Manuscritos, o eixo estava posto no processo pelo qual o trabalho, os produtos do trabalho e as demais pessoas se tornavam para o trabalhador algo estranho e hostil, com o que Marx enfatizava a crítica da desumanização imposta pela propriedade privada. Em O capital, Marx mantém essa ideia de que o processo de trabalho e seus produtos aparecem para o trabalhador como algo alheio e independente de sua vontade, assim como sua relação com outras pessoas se estabelece através da relação mercantil, mas vinculada mais concretamente com a questão da exploração. A separação da classe trabalhadora em relação aos meio de produção, que a ele se mostram como algo alheio, é o prerrequisito da extração do mais-valor, dado que os trabalhadores “livres” devem vender sua força de trabalho aos capitalistas e nesse processo produzem o valor necessário para pagar seus próprios salários e o mais-valor que estão na base da ganância capitalista.

Voltemos ao argumento de Musto:

Dois elementos nesta definição marcam uma clara linha divisória entre a concepção de alienação de Marx e a sustentada pela maior parte dos autores sobre os quais estivemos discutindo. Primeiro, Marx concebe o fetichismo não como um problema individual mas como um fenômeno social, não como um assunto da mente mas como um poder real, uma forma particular de dominação, que se estabelece na economia capitalista como resultado da transformação dos objetos em sujeitos. Por essa razão, suas análises da alienação não se limitam ao mal-estar dos homens e das mulheres individuais, mas se estendem a todos os processos sociais e as atividades produtivas que lhes são subjacentes. Segundo, para Marx o fetichismo se manifesta em uma precisa realidade histórica da produção, a realidade do trabalho assalariado; não é parte da relação entre as pessoas e as coisas como tal, e sim mais propriamente a relação entre os seres humanos e uma forma particular de objetividade: a forma-mercadoria [3].

Tanto nos Grundrisse como em O capital, Marx já tem uma visão muito mais complexa do capitalismo e portanto uma compreensão materialista muito mais clara do fenômeno da alienação. Faz-se mais complexa sua visão da sociedade e da mudança revolucionária. Daí que, em O capital, Marx assinale que o capitalismo se apropria de conquista da ciência, da técnica e da organização do trabalho em seu próprio benefício, mas ao mesmo tempo cria condições para o comunismo, tais como a cooperação no processo de trabalho, o desenvolvimento e a aplicação de tecnologias, a apropriação das forças da natureza úteis para a produção, a criação de maquinaria que somente se pode empregar em comum por vários trabalhadores, a economização dos meios de produção e a tendência a criar um mercado mundial.

Por que é necessário o comunismo
Esse livro é uma boa contribuição para se introduzir o tema da alienação em Marx e, também, para se chegar a uma compreensão clara dos alcances e limites que tem em seu tratamento.

Musto debate contra aqueles que retiram importância da questão, assim como contra aqueles que dizem que é o tema principal da teoria de Marx, e assinala que a reflexão sobre o problema se torna muito mais clara e sólida na medida em que Marx tem uma melhor compreensão do funcionamento do capitalismo.

Mas ao mesmo tempo põe essa argumentação em função de explicar o pensamento político revolucionário de Marx. A alienação não é um problema do ser humano em geral, nem da consciência individual nem de toda forma de objetivação em abstrato. Por isso, o enfoque de Marx mostra o processo contraditório entre a criação de condições para a construção de uma sociedade comunista em base ao desenvolvimento das forças produtivas e a orientação da produção e reprodução em direção à extração de mais-valor e realização da ganância capitalista.

O capitalismo cria as condições necessárias para a luta pelo comunismo, mas não mais que isso. Deve ser subvertido através da revolução socialista, vencendo a resistência das classes exploradoras e opressoras, para estabelecer um regime social baseado na cooperação, na propriedade coletiva e na busca das mais amplas liberdades para as pessoas.

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[1] Karl Marx’s Writings on Alienation. Edited and introduced by Marcello Musto, Palgrave Macmillan, 2021, p. 21.

(Buenos Aires, 1977) Integrante do Partido dos Trabalhadores Socialistas desde 1997, é autor dos livros O marxismo de Gramsci (2016), traduzido para o português e o italiano, Hegemonía y lucha de clases (2018), traduzido para o inglês, e Althusser y Sacristán (2020), coescrito com Ariel Petruccelli.

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Marx definiu o Estado como um poder de servidão social e uma força que impede a plena emancipação do indivíduo

A publicação em espanhol do livro de Marcello Musto, Karl Marx, 1881-1883. A última viagem do mouro (México, Siglo XXI, 2020) e sua recente tradução para o catalão (L’últim Marx. Uma biografia política, Tigre de Paper, 2021) reabriram o debate sobre o último período da vida e obra de Marx. A boa recepção deste livro em vários países – publicado em italiano em 2016, já traduzido em 15 idiomas – parece mostrar um interesse renovado por novas leituras da obra do revolucionário alemão. Entrevistamos Marcello Musto, autor de vários livros sobre a obra de Marx e professor de Sociologia na York University (Toronto).

 

Qual você acha que é a razão para esse retorno à obra de Marx no início do século XXI? E por que se concentrar agora no último período de sua vida?

Nos últimos anos de sua vida, Marx mergulhou em muitas questões que, embora muitas vezes subestimadas, ou mesmo ignoradas pelos estudiosos de sua obra, são de crucial importância para a agenda política de nosso tempo. Entre elas estão a ecologia, a liberdade individual na esfera econômica e política, a emancipação de gênero, a crítica ao nacionalismo e as formas de propriedade coletiva não controladas pelo Estado.

Além disso, Marx investigou minuciosamente as sociedades extra-europeias e se manifestou inequivocamente contra os estragos do colonialismo. É errado sugerir o contrário. Isso ficou evidente graças aos manuscritos inacabados de Marx, recentemente publicados pela edição histórico-crítica de suas obras completas – o Marx-Engels Gesamtusgabe (MEGA 2) –, apesar do ceticismo que ainda está na moda em certos setores acadêmicos. Assim, trinta anos após o fim da União Soviética, é possível ler um Marx muito diferente do teórico dogmático, economicista e eurocêntrico que foi criticado, durante tantos anos, por aqueles que não leram sua obra ou fizeram então apenas superficialmente.

Quase todas as biografias intelectuais de Marx publicadas até hoje deram peso excessivo ao exame de seus primeiros escritos. Por muito tempo, a dificuldade de examinar os estudos dos últimos anos de sua vida impediu o conhecimento das importantes conquistas que alcançou. Todos os biógrafos de Marx dedicaram pouquíssimas páginas à sua atividade após a dissolução da Associação Internacional dos Trabalhadores em 1872, e quase sempre usaram o título genérico de “ultima década” para resumir essa parte de sua existência, em vez de investigar no que ele realmente fez durante esse período. Meu livro visa ajudar a preencher essa lacuna.

 

Colocando o foco no “último Marx”, o que seus cadernos contribuem sobre as sociedades pré-capitalistas e seus estudos etnológicos?

Entre 1881 e 1882, Marx fez notável progresso teórico em relação à antropologia, modos de produção pré-capitalistas, sociedades não-ocidentais, revolução socialista e concepção materialista da história. Considerou que o estudo de novos conflitos políticos e novos temas e áreas geográficas era fundamental para sua crítica ao sistema capitalista. Isso permitiu que ele se abrisse para novas especificidades nacionais e considerasse a possibilidade de desenvolvimento do movimento comunista de maneiras diferentes do que havia pensado anteriormente.

Os chamados Cadernos Antropológicos de 1881 – que são uma coleção de resumos anotados do livro Ancient Society (1877) do antropólogo americano Lewis Morgan e outros textos de história e antropologia – representam uma das investigações mais significativas do período final de sua vida. Esse trabalho permitiu a Marx adquirir informações particulares sobre as características sociais e instituições do passado mais remoto, que ainda não estavam em seu poder quando publicou O capital em 1867. Marx não se preocupava com a antropologia por mera curiosidade intelectual, embora o fizesse com uma intenção primorosamente teórico-política. Ele queria reconstruir, com base em um conhecimento histórico correto, a sequência com que, no decorrer do tempo, os diferentes modos de produção se sucederam. Isso serviu também para dar fundamentos históricos mais sólidos à possível transformação do tipo comunista de sociedade.

Perseguindo esse objetivo, Marx dedicou-se ao estudo da pré-história, o desenvolvimento dos laços familiares, a condição da mulher, a origem das relações de propriedade, as práticas comunitárias existentes nas sociedades pré-capitalistas, a formação e a natureza do poder estatal e o papel do indivíduo na sociedade. Entre as considerações mais sugestivas estão suas notas sobre a acumulação de riquezas, onde indicou que “a propriedade privada de casas, terras e rebanhos está ligada à família monogâmica”. Como já havia sido argumentado no Manifesto do Partido Comunista (1848), isso representava o ponto de partida da história como “história da luta de classes”.

Marx também prestou grande atenção às considerações de Morgan sobre a emancipação das mulheres. O antropólogo americano havia afirmado que as sociedades antigas eram mais progressistas do que as contemporâneas em termos de tratamento e comportamento em relação às mulheres. Na Grécia Antiga, a mudança de descendência de linha feminina para masculina era prejudicial à posição e direitos das mulheres e Morgan avaliou esse modelo social de forma muito negativa. Para o autor de Ancient Society, os gregos ainda eram “bárbaros, no auge de sua civilização, no tratamento do sexo feminino. A inferioridade lhes foi incutida como princípio, a ponto de ser aceita como fato pelas próprias mulheres.
Pensando em contraste com os mitos do mundo clássico, nos Cadernos Antropológicos Marx acrescentou um comentário contundente: “A situação das deusas do Olimpo mostra reminiscências de uma posição anterior das mulheres. Mais livre e influente. A sedenta de poder Juno, a deusa da sabedoria que nasceu da cabeça de Zeus.”

 

Talvez o único tópico conhecido do “último Marx” seja o debate sobre a comuna rural russa. É uma amostra do pensamento dialético e anti teleológico de Marx? Quais foram suas principais fontes teóricas nesse caso?

A partir de 1870, depois de ter aprendido a ler russo, Marx começou a estudar seriamente as mudanças socioeconômicas que ocorreram na Rússia. Assim, ocorreu um encontro fundamental com a obra de Nikolai Chernyshevski – a principal figura do populismo (expressão que, no século XIX, tinha um sentido de esquerda e anticapitalista) naquele país. Ao estudar a obra de Chernyshevsky, Marx descobriu ideias originais sobre a possibilidade de que, em algumas partes do mundo, o desenvolvimento econômico tenha contornado o modelo capitalista de produção e as terríveis consequências sociais que ele teve para a classe trabalhadora da Europa Ocidental. Chernyshevski escreveu que qualquer fenômeno social não precisa necessariamente passar por todos os momentos lógicos da vida real de todas as sociedades. Portanto, as características positivas da comuna rural (Obshchina) tinham que ser preservadas, mas só poderiam garantir o bem-estar das massas camponesas se estivessem inseridas em um contexto produtivo diferente. A obschina só poderia contribuir para um estágio incipiente de emancipação social se se tornasse o embrião de uma organização social nova e radicalmente diferente. Sem as descobertas científicas e as aquisições tecnológicas associadas à ascensão do capitalismo, a obschina jamais se transformaria em um experimento verdadeiramente moderno de cooperativismo agrícola. Com base nisso, os populistas propõem dois objetivos para seu programa: impedir o avanço do capitalismo na Rússia e usar o potencial emancipatório das comunas rurais pré-existentes.

Embora isso seja desconhecido para a maioria dos estudiosos de Marx, o trabalho de Chernyshevsky foi muito útil para o autor de O capital. Quando, em 1881, Vera Zasulich lhe perguntou se a obschina estava destinada a desaparecer ou se havia se transformado em uma forma de produção socialista, Marx tinha uma visão muito crítica dos processos de transição das formas comunais do passado para o capitalismo. Por exemplo, referindo-se à Índia, ele afirmou que a única coisa que os britânicos conseguiram foi “arruinar a agricultura nativa e dobrar o número de fomes e sua gravidade” e Marx não considerava o capitalismo uma etapa obrigatória para a Rússia. Ele não achava que a obschina estivesse destinada a ter o mesmo destino que formas semelhantes na Europa Ocidental em séculos anteriores, onde a transição de uma sociedade baseada na propriedade comunal para uma sociedade baseada na propriedade privada havia sido mais ou menos uniforme. Ao mesmo tempo, Marx não alterou seu julgamento crítico sobre as comunas rurais russas e, em sua análise, a importância do desenvolvimento individual e da produção social, para a construção de uma sociedade socialista, permaneceu intacta. Para Marx, as comunas rurais arcaicas não eram um foco mais avançado de emancipação do indivíduo do que as relações sociais que existiam dentro do capitalismo.

 

Este debate tem sido interpretado de várias maneiras. Por exemplo, a partir de uma leitura “terceiro-mundista”, foi proposto um Marx que em seus últimos anos rompe consigo mesmo e muda seu sujeito revolucionário. Qual a sua opinião sobre essas leituras?

Nos rascunhos da carta a Vera Zasulich não há indícios de uma ruptura dramática de Marx com suas posições anteriores, como alguns estudiosos como Haruki Wada e Enrique Dussel pensaram detectar. Tampouco podemos compartilhar a perspectiva dos autores que sugeriram uma leitura de “terceiro mundo” do último Marx, segundo a qual os sujeitos revolucionários não são mais os trabalhadores das fábricas, mas as massas do campo e da periferia.

De acordo com seus princípios teóricos, Marx não sugeriu que a Rússia ou outros países onde o capitalismo ainda era subdesenvolvido tivessem que se tornar o foco principal de uma explosão revolucionária. Tampouco pensava que nações com capitalismo mais atrasado estivessem mais próximas da meta do socialismo do que aquelas caracterizadas por desenvolvimento produtivo mais avançado. Em sua opinião, rebeliões esporádicas ou lutas de resistência não devem ser confundidas com o estabelecimento de uma nova ordem socioeconômica baseada no socialismo. A possibilidade que ele havia considerado em um momento muito particular da história russa, quando surgiram as condições favoráveis ​​para uma transformação progressiva das comunas agrárias, não podia ser elevada ao status de modelo geral. Nem a Argélia dominada pelos franceses nem a Índia britânica, por exemplo, tinham as condições especiais que Chernyshevsky havia identificado, e a Rússia no início da década de 1880 não era páreo para o que poderia acontecer lá na Rússia dos tempos de Lenin. O elemento novo no pensamento de Marx era uma abertura teórica cada vez maior que lhe permitia contemplar outros caminhos possíveis para o socialismo que antes ele não havia considerado seriamente, ou considerado inatingível.

As considerações de Marx sobre o futuro da obschina estão no extremo oposto da equação do socialismo com as forças produtivas, concepção marcada por conotações nacionalistas e simpatias colonialistas presentes na Segunda Internacional e nos partidos social-democratas. Eles também diferem muito do chamado “método científico” de análise social predominante no marxismo-leninismo do século XX.

A ausência de qualquer tipo de esquematismo rígido e a capacidade de desenvolver uma teoria revolucionária dúctil – e nunca separada de seu contexto histórico – é útil não só para uma melhor compreensão do pensamento de Marx, mas também para recalibrar o compasso da ação política de Marx com as forças da esquerda transformadora contemporânea.

 

No final da vida, já bastante doente, Marx fez uma viagem à Argélia, pouco conhecida em sua biografia. O que o olhar de Marx contribui a partir daí?

Em uma tentativa extrema de curar sua doença pulmonar, em busca de um clima temperado, Marx chegou à África em fevereiro de 1882. Ele se estabeleceu por 72 dias em Argel e este foi o único período de sua vida que passou fora da Europa. Quase nenhum biógrafo de Marx prestou atenção especial a essa jornada.

As terríveis condições de saúde impediram Marx de compreender plenamente a realidade argelina. Nem mesmo, como desejava, lhe foi possível estudar as características da propriedade comum entre os árabes. Ele já havia se interessado por esse assunto no curso de seus estudos sobre propriedade agrária e sociedades pré-capitalistas, iniciados em 1879. Escreveu então que a individualização da propriedade da terra, realizada ao longo do domínio francês, não apenas proporcionou um enorme benefício econômico para os invasores, mas também promoveu o objetivo político de destruir os fundamentos da sociedade argelina.

Marx estava muito angustiado por ter que abandonar à força qualquer tipo de atividade intelectual laboriosa. No entanto, apesar de suas doenças, entre as observações mais interessantes que conseguiu resumir nas cartas escritas em Argel, destacam-se as contra o colonialismo europeu. Atacou furiosamente os violentos ultrajes e repetidas provocações dos franceses diante de cada ato de rebelião da população local, sublinhando que, em relação aos danos causados ​​pelas grandes potências na história das ocupações coloniais, os britânicos e os holandeses, eles tinham sido ainda piores.

 

Para concluir: nos últimos anos, Marx continuou a se envolver em polêmica com aqueles que pensam que é possível democratizar o estado capitalista. O que você acha?

No final de sua vida, Marx voltou a estudar a origem e as funções do Estado. Através dos estudos do antropólogo Morgan e criticando o historiador britânico Henry Maine, Marx dedicou-se à análise do papel desempenhado pelo Estado na fase de transição “da barbárie à civilização” e às relações entre o indivíduo e o Estado. As últimas anotações de Marx de propósito estavam em continuidade com suas elaborações mais significativas do passado. Em Sobre a Crítica da Filosofia Hegeliana do Direito Público, de 1843, Marx havia escrito que os franceses estavam certos ao afirmar que “o Estado político deve desaparecer na verdadeira democracia” e em A Guerra Civil na França, publicado em Em 1871, ele havia representado o poder estatal como a “força pública organizada para a escravização social” ou como a “máquina do despotismo de classe”.

Da mesma forma, nos Cadernos Antropológicos de 1881, Marx definiu o Estado como um poder de servidão social e uma força que impede a emancipação plena do indivíduo. Além disso, nesses estudos pouco conhecidos, ele insistia no caráter parasitário e transitório do Estado: “a existência, supostamente suprema e independente, do Estado é apenas uma aparência. O Estado, em todas as suas formas, é uma consequência da sociedade. Mesmo sua aparência não aparece até que a sociedade tenha atingido um certo estágio de desenvolvimento e desaparecerá novamente assim que a sociedade atingir um nível até então inatingido.

Essas reflexões parecem muito distantes do nosso tempo e da necessidade de intervenção do Estado para mitigar o domínio indiscutível do mercado. No entanto, nunca devemos esquecer que a sociedade socialista teorizada por Marx nada tem a ver com o estatismo dos chamados “socialismos reais” do século XX e que Marx sempre dirigiu uma dura crítica contra a esquerda que queria governar contente com fazendo meros paliativos às diretrizes econômicas e sociais do liberalismo. Por esta razão também Marx continua indispensável a todos aqueles que lutam para reconstruir uma alternativa emancipatória, e sua crítica política do comunismo de Estado e socialismos compatíveis com o liberalismo não é menos importante do que sua crítica econômica do modo de produção capitalista.

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José Raimundo Trindade, a terra é redonda

Comentário sobre o livro de Marcello Musto

“Tenho de formar os homens que, depois de mim, possam dar continuidade à propaganda comunista” (Karl Marx).

O livro O velho Marx, de Marcello Musto, centra sua análise, contemporização e descrição nos últimos três anos de vida do “Mouro”, fazendo com enorme maestria não somente a visitação à ampla biografia anterior, mas principalmente nos fazendo visitar a intimidade do escritório de pesquisa e da sala de estar do nosso “demônio” predileto. O texto que segue busca, a partir, deste excelente trabalho visitar o “velho Nick”.

As biografias comentadas de Marx são muitas e com características bastante singulares: desde as obras mais sérias e construtivas, passando por aquelas que o tornam uma espécie de profeta e de culto racionalista e positivista, até um conjunto variado de textos duvidosos ou de desconstrução, seja da obra do autor, até a tentativa de destruição moral ou destrato da sua capacidade criadora. Esse conjunto variado e numeroso de trabalhos é o reflexo da capacidade e poder de influência que teve nos últimos dois séculos e que mantém neste XXI. Somente nesta biografia dos três últimos anos de vida de Marx, o autor Marcello Musto, faz uso de 26 biografias presentes na bibliografia utilizada.

O trabalho de Musto colabora para desfazer quatro equívocos históricos e analíticos que a vida e a obra de Marx foram submetidos ao longo dos últimos 150 anos, sendo que sua contribuição é fundamental tanto no resgate dos termos históricos verdadeiros, quanto da retomada da pesquisa mais vigorosa do aporte teórico marxiano, quais seriam esses cinco equívocos tão graves: (i) a construção e disseminação de um Marx basicamente determinista em termos econômicos, muito colaborado pelas visões simplificadoras determinadas pelo antigo “socialismo real”, quanto por construções estruturalistas; (ii) a visão de um determinismo histórico que consagrava tanto a ideia de que o “capitalismo era uma etapa inevitável” para transição ao socialismo, quanto a simplificação das formas de produção “campesinas”, especialmente as obschina russas; (iii) a visão de que a interpretação de Marx do capitalismo europeu seria uma “camisa de força” para todas as demais sociedades que se defrontassem com esse modo de produção e; (iv) que Marx manteria uma visão teleológica em termos de construção do comunismo. Vamos rapidamente tratar de cada um destes aspectos, mas antes faremos uma visita ampla à biografia do velho Marx.

Os últimos anos da vida de Marx, que falece em 14 de março de 1883, aos 65 anos, tiveram as marcas tanto de um forte sofrimento físico pessoal, quanto de perdas familiares; em somente dois anos (1881 e 1882) sua esposa (Jenny von Westphalen), e a filha mais velha (Jenny) faleceram.

A despeito dessas enormes dificuldades, sua continua sagacidade e busca por desvelar o capitalismo, tanto mantendo os estudos para encerrar a produção dos livros II e III de O capital, quanto fazendo revisão no livro I; assim como buscou desenvolver estudos antropológicos, etnológicos e de matemática superior. Tudo isso sem descurar da participação política e da assistência ao movimento de trabalhadores que se davam em diferentes países, portanto manteve uma capacidade criativa e de intervenção até o final da sua vida.

Musto segue uma análise que considera primeiramente as contribuições que o velho Marx nos legou, considerando o aprofundamento do método dialético, especialmente a crítica as diversas formas de “positivismo” que se estabelecem naquele período, espacialmente nas transformações da “economia política” burguesa ainda com traços de cientificidade em mera “economia”, totalmente convertida em estatuto ideológico do capital.

Do mesmo modo, os estudos da antropologia, sendo os estudos de Lewis Morgan e Maksim Kovalévky, foram importantes para diversas reconsiderações que Marx fez sobre o desenvolvimento das sociedades “pré-capitalistas” quanto para tratar a própria evolução posterior desse modo de produção em diferentes realidades históricas locais, como veremos. Os estudos desenvolvidos por Marx neste período constituem “a parte principal dos chamados Cadernos etnológicos”, compostos também de inúmeros outros estudos de autores como James Money e Henry Maine, entre outros.

Vale notar que neste período Marx também destinou esforços no estudo da matemática superior, especialmente cálculo diferencial e infinitesimal, baseado tanto nos estudos de autores clássicos, como Newton e Leibinz, quanto em continuadores daqueles como Alembert e Lagrange. Esse conjunto de estudos matemáticos foram desenvolvidos desde uma contestação chave: segundo Marx esses matemáticos tinham uma “fundamentação ‘mística do cálculo diferencial”, faltando uma “justificação racional” para o desenvolvimento da técnica.

Esses estudos originaram os Manuscritos matemáticos, inclusive com certo esforço do autor de aprofundar essas definições matemáticas. Marx, porém, não teve tempo, nem condições físicas, de entrar em contato com autores que, naquela altura, já buscavam aperfeiçoar as técnicas estudadas, tais como Cauchy e Weinierstrass, “o que provavelmente lhe teria permitido avançar” em seus objetivos.

Em termos do nosso interesse analítico temos que retornar para os pontos que antes consideramos como centrais da contribuição de Musto e que nos auxilia no desenvolvimento dos estudos marxianos, longe do determinismo e das influências positivistas que foram tão danosas a construção do pensamento crítico dialético nas últimas décadas do século XX.

Primeiramente a crítica ao determinismo econômico como sendo uma construção propriamente de Marx. A elaboração teórica do “último Marx” rejeitava as representações rígidas e que “ligavam as mudanças sociais unicamente às transformações econômicas”. Como bem observou Musto, seguindo autores anteriores como Dussel, Mandel, Hobsbawm, Rosdolsky, essa percepção já estava presente nos Grundrisse e somente a simplificação desenvolvida durante o período stalinista na antiga URSS e também por forte influência estruturalista, tinham levado a essa “formalização” da construção dialética de Marx.

Convém observar que ao longo da obra marxiana, especialmente em obras da juventude, como o Manifesto do partido comunista, Salário preço e lucro e, especialmente, Contribuição a critica da economia política, diversos excertos podem ter induzido continuadores da obra de Marx a equívocos dessa natureza, não sendo poucos os trabalhos de compilação e manuais diversos que convergem nesta direção. Porém, como reflete Musto, “Marx soube” se distanciar das “armadilhas do determinismo econômico”, consolidando uma visão que hoje chamaríamos de campo complexo de análise, não somente integrando bases disciplinares diversas, mas de fato interligando, mediante procedimento sistêmico, que “a especificidade das condições históricas, as múltiplas possibilidades que o curso do tempo oferecia e a centralidade da intervenção humana” estabelecia um mosaico rico e diverso “para modificar a realidade e efetuar a mudança” social de longo curso.

Com isso vamos a um segundo ponto chave no texto em análise: como se dará a transição do capitalismo ao socialismo e, principalmente: Marx teria interposto uma análise rígida histórica em termos de uma visão progressiva e linear? A resposta para ambas as questões é não. Em 1881, o autor de O capital recebe uma carta curiosa e fascinante, sua autora Vera Zasulitch era militante da organização populista Repartição Negra.

A influência da obra principal de Marx na Rússia pré-revolucionária já era expressiva, em poucos lugares, ou talvez somente ali, O capital tenha assumido um estatuto de obra muito divulgada já no final do século XIX, sendo que não poucos adeptos de diferentes organizações revolucionárias ou radicais liam e debatiam aquela obra, que tinha sido traduzida ao russo em 1872.

Zasulitch expunha que a comuna rural russa (obschina) constituía a forma social de produção predominante, sendo que sua recente liberação de pagamentos à nobreza e da administração arbitrária, possibilitava diferentes rumos, sendo que isso determinaria “até mesmo o destino pessoal dos (…) socialistas revolucionários”, indagava a militante russa sobre que avaliação Marx fazia e o que sua teoria histórica indicava quanto aquele processo.

Na questão posta tínhamos três elementos envolvidos que continuam importantes até hoje, um refere-se a uma possível obrigatoriedade de uma fase capitalista desenvolvida para transição ao comunismo. Quanto a este ponto, Marx já tinha exposto “que as circunstâncias mais favoráveis para o comunismo só teriam podido realizar-se com a expansão do capital”, porém ele também afirma que não há receitas “para o cardápio da taberna do futuro”. Assim, abria-se diferentes possibilidades, estabelecendo que ambientes históricos diversos, podem “produzir resultados totalmente distintos”, não havendo uma “chave-mestra [de] uma teoria histórico-filosófica geral, cuja virtude suprema consiste em ser supra-histórica”.[i]

Um segundo elemento importante na resposta de Marx, refere-se ao futuro da comuna rural camponesa, algo que demarca campo importante com as visões de que para Marx o capitalismo acabaria por açambarcar toda forma campesina, neste aspecto Marx foi taxativo somente considerava “esse raciocínio na medida em que ele se baseia nas experiências europeias”, sendo quer em relação a experiência russa afirma que “o precedente ocidental não provaria absolutamente nada”.

Este ponto é importante para tratarmos de outras realidades, como em partes da América Latina, por exemplo, inclusive Brasil, assim como observar que o desenvolvimento histórico não define movimentos enquanto leis inexoráveis, não havendo “predestinação histórica”. Isso nega totalmente a percepção teleológica que muitos asseveram a Marx sobre a possível inevitabilidade do comunismo, longe dessa percepção, não há história definida e sim por se escrever, sendo que os diversos ingredientes, como os culturais, econômicos, políticos, luta de classes, tecnológicos são parte desse caldeirão da história.

O ponto anterior se engrena a visão muito divulgada da ideia de etapas evolutivas baseadas no modelo de capitalismo assentado originalmente na Europa. Musto (p. 81) observa que Marx assumiu “uma posição dialética” negando que processos de transição tivessem “a necessidade histórica do desenvolvimento do modo de produção capitalista em todas as partes do mundo”. Uma leitura atenta desse velho Marx teria facilitado bastante o debate na antiga União Soviética e talvez ainda hoje nos jogue alguma luz em processos como o chinês e o cubano.

*José Raimundo Trindade é professor do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da UFPA. Autor, entre outros livros, de Crítica da Economia Política da Dívida Pública e do Sistema de Crédito Capitalista: uma abordagem marxista (CRV).