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O Encontro de Marx com a Economia Política

1. Paris: Capital do Século XIX

Paris é “um milagre descomunal, um conjunto espantoso de movimentos, máquinas e ideias, a cidade de mil romances diferentes, a cabeça do mundo”[1].
Foi assim que Balzac descreveu num dos seus contos o efeito provocado pela metrópole sobre aqueles que não a conheciam bem.

Nos anos anteriores à revolução de 1848, a cidade era habitada por artesãos e trabalhadores em constante agitação política. Das suas colónias de exilados, revolucionários, escritores e artistas, e do fermento social em geral, acumulou uma intensidade apenas vista em poucas épocas. Mulheres e homens com os mais variados dotes intelectuais publicavam livros, revistas, jornais, escreviam poesia, discursavam em sessões e discutiam interminavelmente em cafés, nas ruas e nos bancos públicos. A proximidade levava a que exercessem uma influência contínua uns sobre os outros.[2]

Mikhail Bakunin, que tinha decidido atravessar o Reno, viu-se de repente “entre aqueles elementos novos que ainda não tinham nascido na Alemanha… [num clima onde] as ideias políticas circulam entre todos os estratos da sociedade”.[3] Lorenz von Stein escreveu que “a vida do próprio povo estava a começar a criar novas ligações e a conceber novas revoluções”.[4] Arnold Ruge [1802-1880] considerava que “em Paris viveremos as nossas vitórias e as nossas derrotas”.[5] Em resumo, este era o lugar para se estar naquele momento particular da história.

Para Balzac, “as ruas de Paris têm qualidades humanas e uma fisionomia tal que nos deixam marcas a que não podemos resistir”.[6] Muitas destas marcas também atingiram Karl Marx, que aos vinte e cinco anos se tinha mudado para lá, em outubro de 1843; elas influenciaram profundamente a sua evolução intelectual, que amadureceu decisivamente ao longo do seu tempo em Paris.

Na sequência da sua experiência jornalística no Rheinische Zeitung [Gazeta Renana], o abandono de Marx do horizonte conceptual do estado racional Hegeliano, juntamente com um radicalismo democrático, significaram que ele chegara à capital francesa com uma certa abertura teórica. Mas isso era agora abalado pela visão tangível do proletariado. A incerteza criada pela atmosfera problemática da altura, que vivia a rápida consolidação de uma nova realidade económico-social, foi dissipada assim que contactou, quer teorica quer empiricamente, com a classe trabalhadora parisiense e as suas condições de vida e trabalho.

A descoberta do proletariado e, através dele, da revolução; o novo compromisso com o comunismo, ainda definido de forma pouco clara e semi-utópica; a crítica da filosofia especulativa de Georg Wilhelm Friedrich Hegel [1770-1831] e da Esquerda Hegeliana; o primeiro esboço da conceção materialista da história e o início da sua crítica da economia política: eis o conjunto dos temas fundamentais que Marx desenvolveria ao longo deste período.

2. Clássicos da Economia Política e Trabalho Alienado

A economia política não foi a primeira paixão intelectual de Karl Marx. Ela acabara de surgir enquanto disciplina na Alemanha durante a sua juventude e ele só a encontrou após muitas outras matérias. Quando trabalhava na Rheinische Zeitung, Marx já se tinha debruçado acerca de questões económicas específicas, embora apenas do ponto de vista jurídico ou político. Mas a censura atingiu o jornal e levou-o a terminar a experiência, “a retirar-me do espaço público para o meu estudo”.[7] Prosseguiu os seus estudos sobre o estado e as relações jurídicas, nos quais Hegel era a autoridade máxima, e em 1843 escreveu o manuscrito que foi publicado postumamente como Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Tendo desenvolvido a convicção de que a sociedade civil era a verdadeira base do estado político, ele formulou, pela primeira vez, a importância do fator económico nas relações sociais.

Mas foi apenas em Paris que Marx deu início ao “estudo crítico sério da economia política”[8], tendo recebido um impulso decisivo a partir das contradições na lei e na política que não podiam ser resolvidas no âmbito da sua própria esfera, e da incapacidade de ambas em fornecer soluções para os problemas sociais. O “Esboço de uma Crítica da Economia Política” de Engels — um dos seus dois artigos publicados no primeiro e único volume dos Deutsch-französische Jahrbücher [Anais franco-alemães] — também influenciou Marx nesta altura. A partir daí, os seus estudos, até então sobretudo filosóficos, políticos e históricos, voltaram-se para a nova disciplina que se tornou o fulcro das suas preocupações científicas e definiu um novo horizonte que ele nunca abandonaria.

Sob a influência do livro de Moses Hess [1812–1872], Essence of Money (1845), e da sua transposição do conceito de alienação de um plano especulativo para o plano económico-social, Marx começou por concentrar-se na crítica da mediação económica do dinheiro enquanto obstáculo para a concretização da essência humana. Numa polémica contra A Questão Judaica (1843) de Bruno Bauer, ele considerou que a questão Judaica era um problema social que representava os pressupostos filosóficos e histórico-sociais da civilização capitalista como um todo. O Judeu era a metáfora e a vanguarda histórica para as relações que produzia, uma figura mundana que se tornou sinónimo do capitalismo tout court.

Logo em seguida, Marx começou grandes leituras numa nova área de estudo e escreveu, tanto nos seus manuscritos e cadernos de excertos, muitos comentários críticos que compilou, como habitualmente, do material de leitura. O fio condutor do seu trabalho era a necessidade de revelar e confrontar a maior mistificação da economia política: a ideia de que as suas categorias eram válidas em todos os tempos e em todos os lugares. Marx estava profundamente consternado por esta cegueira e falta de noção histórica por parte dos economistas, que assim tentavam ocultar e justificar a desumanidade das condições económicas do seu tempo, apresentando-as como um facto natural. Num comentário a um texto de Say, apontou que “a propriedade privada é um facto cuja constituição não diz respeito à economia política, mas que constitui, no entanto, o seu fundamento”. […] O conjunto da economia política é portanto baseada num facto desprovido de necessidade”[9]. Observações idênticas repetem-se nos Manuscritos Economico-Filosóficos de 1844, onde Marx sublinha que “a economia política parte do facto da propriedade privada; não o explica”. “O economista afirma como facto ou acontecimento o que deveria deduzir”[10].

O seu estudo profundo e alargado da história dera-lhe uma primeira chave para ler a evolução temporal das estruturas sociais, e ele também já assumira o que considerava as melhores ideias de Pierre-Joseph Proudhon [1809-1865], incluindo a crítica da ideia de propriedade privada enquanto um direito natural. Com estes apoios, Marx conseguiu alcançar o entendimento cognitivo principal do carácter provisório da história. Os economistas burgueses apresentavam leis do modo de produção capitalista como leis eternas da sociedade humana. Marx, pelo contrário, tomou como seu único e exclusivo objeto de análise as relações específicas do seu tempo, “o lacerado mundo da indústria”[11]; ele sublinhou a sua transitoriedade enquanto etapa produzida pela história, e partiu para a investigação sobre as contradições criadas pelo capitalismo e que conduzem à sua superação.

Esta forma diferente de entender as relações sociais teve consequências importantes, das quais se destacam sem dúvida as referentes ao conceito de trabalho alienado. Ao contrário dos economistas e do próprio Hegel, para quem ele era uma condição natural e imutável da sociedade, Marx definiu o caminho que o levaria a rejeitar a dimensão antropológica da alienação em favor de uma conceção que a enraizava historicamente numa dada estrutura de produção e de relações sociais: o distanciamento do homem no meio das condições do trabalho industrial.

Nos Manuscritos Economico-Filosóficos de 1844, a alienação é apresentada como o fenómeno através do qual o produto do trabalho confronta o trabalho “como algo estranho, um poder independente do produtor”. A par desta definição geral, Marx elencou quatro formas de alienação do trabalhador na sociedade burguesa: 1) do produto do seu trabalho, que se torna “um objeto estranho que tem poder sobre ele”; 2) da sua atividade laboral, que ele entende como sendo dirigida contra si, como algo que “não lhe pertence”[12]; 3) da “pertença à espécie do homem”, que se transforma num “ser estranho a si”; e 4) dos restantes seres humanos, e da relação com o seu trabalho e com o objeto do seu trabalho[13].

Para Marx, em contraste com Hegel, a alienação não era coincidente com a objetificação enquanto tal, mas antes com um fenómeno específico no âmbito de uma forma precisa de economia: em concreto, o trabalho assalariado e a transformação dos produtos do trabalho em objetos que se opõem aos produtores. A diferença política entre estas duas posições é enorme. Enquanto Hegel apresentava a alienação como uma manifestação ontológica do trabalho, Marx entendia-a como característica de uma época específica, capitalista, da produção, e julgava que seria possível superá-la através da “emancipação da sociedade da propriedade privada”[14].

Nos Manuscritos Economico-Filosóficos de 1844, Marx também enunciava a sua ideia de comunismo. Mas como ainda não tinha alargado o seu estudo da economia nem amadurecido a sua experiência política, essa ideia de comunismo continuava a ser bastante abstrata.

O Marx Parisiense estava faminto de leituras e a elas se dedicava dia e noite. Era um homem cheio de entusiasmo e projetos, que elaborava planos de trabalho tão grandes que nunca poderia completar, e que estudava cada documento relevante para o objeto de investigação; ele foi absorvido pelo rápido avanço do seu conhecimento e pelos variados interesses que o levavam a novos horizontes, novas decisões e ainda mais áreas de investigação.

Absorvido por tão vastos interesses, Marx planeou o esboço da crítica da filosofia do direito de Hegel, iniciou estudos sobre a Revolução Francesa de forma a escrever uma história da Convenção e sugeriu uma crítica das doutrinas socialistas e comunistas existentes. Então, atirou-se como um louco à economia política, que de repente assumiu prioridade sobre a tarefa de abrir terreno na Alemanha à crítica transcendental de Bauer et al., interrompendo-a para escrever a sua primeira obra acabada: A Sagrada Família ou A crítica da Crítica crítica. Contra Bruno Bauer e consortes (1845). Ainda assim, o mais prolífico jovem da Esquerda Hegeliana tinha publicado menos do que muitos dos restantes. Havia algo incrível sobre a sua meticulosidade na sua recusa “em escrever uma frase se fosse incapaz de prová-la de dez formas diferentes”[15]. A convicção de Marx de que a sua informação era insuficiente e os seus juízos imaturos, impediu-o de publicar boa parte do trabalho a que deu início; permaneceram portanto na forma de esboços e fragmentos. As suas notas são por isso extremamente valiosas. Elas permitem-nos medir o alcance da sua investigação, contêm algumas reflexões suas, e devem ser consideradas uma componente essencial da sua obra. Isto também é válido para o período Parisiense, em que os seus manuscritos e notas de leitura testemunham o laço indissolúvel entre o que ele escreveu e os comentários que fez ao trabalho dos outros.

3. Manuscritos e Cadernos de Excertos: Os Documentos de 1844

Apesar do cariz incompleto e fragmentado dos Manuscritos Economico-Filosóficos de 1844, quase todas as suas leituras ou ignoraram ou trataram como pouco importantes os problemas filológicos que apresentam.

Também foi erradamente assumido que Marx escreveu estes textos só após ter lido e juntado excertos dos trabalhos sobre economia política, enquanto na verdade o processo de composição alternou por vários grupos de manuscritos, e os correspondentes excertos foram espaçados no tempo ao longo do seu período Parisiense, dos artigos para os Deutsch-französische Jahrbücher à Sagrada Família.

Apesar destes evidentes problemas de forma, apesar da confusão que se seguiu à publicação de diferentes versões e, acima de tudo, sabendo que boa parte do segundo manuscrito (o mais importante e também o mais disperso) não estava naquele conjunto, nenhum dos intérpretes ou compiladores relevantes reexaminou os originais. No entanto, isto era particularmente necessário para um texto tão marcante nos debates acerca das várias interpretações de Marx.

Escritos entre maio e agosto, os Manuscritos Economico-Filosóficos de 1844 não são uma obra que se desenvolve de forma sistemática ou predeterminada. Todas as referências que lhe são feitas num dado sentido — tanto as que apontam a plenitude completa do pensamento de Marx como as que veem uma conceção definitiva oposta à sua maturidade científica — são refutadas por um exame filológico cuidadoso. Sem serem homogéneos ou sequer interligados entre as suas partes, os manuscritos são a expressão evidente de uma posição em movimento. O escrutínio dos nove cadernos que chegaram até nós, com mais de 200 páginas de excertos e comentários, mostram-nos a maneira como Marx assimilava e usava o material de leitura que os alimentou.

Marx fez os seus primeiros excertos a partir do Tratado de Economia Política (1803) de Say, transcrevendo secções inteiras enquanto adquiria conhecimento sobre os fundamentos da economia. A única nota foi acrescentada depois, no lado direito da respetiva folha, que era a zona que ele guardava para esse efeito. A subsequente compilação a partir sobre Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações (1776) serviu idêntico propósito de o familiarizar com conceitos básicos da economia. De facto, embora estes sejam os excertos mais longos, praticamente não têm comentários. E no entanto o pensamento de Marx sobressai claramente a partir da sua montagem de passagens e, como acontecia muitas vezes noutros âmbitos, da sua forma de colocar lado a lado as teses divergentes de vários economistas. Isso muda, contudo, no caso dos Princípios de Economia Política e de Tributação (1817) de Ricardo, onde surgem as primeiras observações da sua autoria, em particular em relação aos conceitos de valor e preço que ainda eram entendidos como perfeitamente idênticos. Esta equação do valor e preço da mercadoria situa-se na conceção inicial de Marx, que apenas atribuía verdade ao valor de troca produzido pela concorrência e consignava o preço natural ao domínio da abstração. À medida que estes estudos avançavam, as suas notas críticas deixaram de ser esporádicas, mas pontuavam os seus resumos e aumentavam com o seu conhecimento enquanto passava de um autor para outro. Havia frases isoladas, depois notas mais longas, e finalmente — a propósito dos Elementos de Política Económica de James Mill —um comentário crítico sustentado acerca da mediação do dinheiro enquanto representação da dominação completa das coisas sobre os seres humanos; aqui, a relação entre os excertos e o próprio texto de Marx é totalmente invertida, com aqueles a surgirem espaçados ao longo deste.

Para concluir, Marx apresentou as suas ideias tanto nos Manuscritos Economico-Filosóficos de 1844 como nos cadernos de excertos das suas leituras. Os manuscritos estão cheios de citações, sendo o primeiro quase uma recolha direta, e os cadernos de compilações, embora muito centrados nos textos que lia na altura, são acompanhados dos seus comentários. Os conteúdos de ambos, a divisão formal das folhas em colunas, a paginação e o tempo da sua composição confirmam que os Manuscritos Economico-Filosóficos de 1844 não são um trabalho que sobressaia por si, mas parte da produção crítica de Marx, que consistia na altura em excertos de textos que ele estudava, reflexões críticas sobre esse material, e rascunhos que punha no papel, escritos de um jorro ou de forma mais refletida. Separar estes manuscritos do resto, extrapolá-los do seu contexto, pode levar a erros de interpretação.

Só apreciando estas notas no seu todo, juntamente com a reconstrução histórica de como elas amadureceram na mente de Marx, mostram bem o itinerário e a complexidade do seu pensamento ao longo do intenso ano de trabalho em Paris.

4. Da Filosofia à Práxis Revolucionária

O pensamento de Marx teve uma evolução decisiva no ano que passou em Paris. Estava agora seguro de que a transformação do mundo era uma questão prática, “que a filosofia não podia resolver precisamente porque ela entendia este problema como meramente teórico”[16]. Ele despediu-se para sempre da filosofia que não chegara a esta consciencialização e conseguiu a sua necessária conversão para a filosofia da práxis. A partir de agora, a sua análise tomou como ponto de partida não a categoria de trabalho alienado, mas a realidade da existência miserável dos trabalhadores. As suas conclusões não foram especulativas, mas sim dirigidas à ação revolucionária.

A sua conceção da própria política mudou profundamente. Sem adotar nenhuma das doutrinas comunistas redutoras daquele tempo, até distanciando-se delas, atingiu a consciência plena de que as relações económicas tecem a rede de ligações da sociedade e de que a “religião, família, estado, lei, moralidade, ciência, arte, etc, são apenas modos específicos de produção e estão sob a alçada da lei geral”[17]. O estado perdeu aqui a posição principal que tinha na filosofia política de Hegel; integrado na sociedade, é entendido como uma esfera determinada, ao invés de determinar, pelas relações entre seres humanos.

O quadro conceptual de Marx também se alterou substancialmente no que respeita ao sujeito revolucionário. De uma referência inicial à “humanidade em sofrimento”[18], partiu para uma identificação específica do proletariado, considerando-o primeiro como um conceito abstrato baseado em antíteses dialéticas — o “elemento passivo”[19] da teoria — e depois, na sequência das suas primeiras análises socio-económicas, como o elemento ativo da sua própria libertação, a única classe dotada de potencial revolucionário na ordem social capitalista.

Então, a crítica algo vaga da mediação política do estado e da mediação económica do dinheiro, entendidas como obstáculos à concretização da Feuerbachiana essência humana comum, deu lugar à crítica de uma relação histórica em que a produção material começa a surgir como a base para qualquer análise e transformação do presente. O que Marx propôs já não é uma reivindicação genérica pela emancipação mas uma transformação radical do verdadeiro processo de produção.

Algumas das visitas de Marx comprovaram o seu trabalho intenso durante este período. O jornalista radical Heinrich Bürgers [1820–1878] disse sobre ele em 1844: “Marx tinha iniciado investigações profundas na área da economia política e alimentava o projeto de escrever uma obra crítica que refundasse a ciência económica.”[20] Também Engels, que conheceu Marx pela primeira vez no verão de 1844 e forjou uma amizade e solidariedade teorico-política que duraria para o resto das suas vidas, foi levado pela sua esperança num levantamento social iminente para incitar Marx, na primeira carta da sua correspondência de quatro décadas, a publicar o quanto antes. A sensação de Marx sobre a insuficiência do seu conhecimento impediu-o de terminar e publicar os manuscritos. Mas ele escreve, juntamente com Engels, A Sagrada Família, um ataque polémico contra Bauer e outras figuras do movimento da  Esquerda Hegeliana, do qual Marx se distanciara em 1842, alegando que ela funcionava num isolamento especulativo e era voltada exclusivamente para batalhas conceptuais estéreis.

Enquanto trabalhava na Sagrada Família, Engels instou o seu amigo numa carta no início de 1845 a terminar a outra obra no prelo. Mas estes apelos não serviram de muito. Marx ainda sentia a necessidade de continuar os seus estudos antes de tentar dar uma forma acabada aos rascunhos que escrevera. Em qualquer caso, ele apoiou-se na convicção de que iria em breve ser capaz de publicar, e a 1 de fevereiro de 1845 — após ter recebido ordem para sair de França por causa da sua colaboração com o bissemanário dos trabalhadores em língua alemã Vorwärts! — assinou um contrato com o editor de Darmstadt Karl Wilhelm Leske [1821 – 1886] para uma obra em dois volumes que seria intitulada “Crítica da Política e Economia Política”?

Os Manuscritos Economico-Filosóficos de 1844 e os cadernos de excertos e notas marcaram o início do estudo crítico desta nova disciplina por Marx. Estão repletos de elementos teóricos com origem em predecessores e contemporâneos. Nenhum dos esboços ou obras deste período podem ser classificados sob uma única disciplina: não existem textos puramente filosóficos, essencialmente económicos ou apenas políticos. Marx tinha a capacidade de combinar experiências dos proletários Parisienses com estudos da Revolução Francesa, leituras de Smith com as perspetivas de Proudhon, a revolta dos tecelões da Silésia com a crítica da conceção do estado em Hegel, e das análises de Buret sobre a pobreza com o comunismo. As suas ideias, e em especial as observações económicas que começaram a desenvolver-se, não foram fruto de uma súbita fulminação, mas o resultado de um estudo profundo.

 

Notas
[1] Honoré de Balzac, The History of the Thirteen. Ferragus. Harmondsworth: Penguin, 1972, p. 33.
[2] Cf. Isaiah Berlin, Karl Marx. London: Oxford University Press, 1963, p. 81f.
[3] Mikhail Bakunin, Ein Briefwechsel von 1843, in MEGA•, vol. I/2, 1982, p. 482.
[4] Lorenz von Stein, Der Socialismus und Communismus des heutigen Frankreichs. Ein Beitrag zur Zeitgeschichte. Leipzig: Otto Wigand, 1848, p. 509.
[5] Arnold Ruge, Zwei Jahre in Paris. Etudien und erinnerungen. Leipzig: Zentralantiquariat der DDR, 1975, p. 59.
[6] Balzac, The History of the Thirteen. Ferragus, op. cit., p. 31.
[7] Karl Marx, A Contribution to the Critique of Political Economy, in MECW, vol. 29, p. 263.
[8] Karl Marx, Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, in MECW, vol. 3, p. 231.
[9] Karl Marx, ‘Exzerpte aus Jean Baptiste Say: Traité d’économie politique’, in MEGA•, vol. IV/2, p. 316.
[10] Marx, Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, op. cit., p. 207-1.
[11] Marx, Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, op. cit., p. 292.
[12] Marx, Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, in MECW, vol. 3, p. 274.
[13] Ibid., p. 277.
[14] Marx, Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, op. cit., p. 280.
[15] Ver Paul Lafargue, in Enzensberger (Ed.), Gespräche mit Marx und Engels, op. cit., p. 32.
[16] Marx, Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, op. cit., p. 302.
[17] Marx, Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, op. cit., p. 302.
[18] Karl Marx, ‘Letters from Deutsch-Französische Jahrbücher’, in MECW, vol. 3, p. 141.
[19] Marx, ‘Contribution to the Critique of Hegel’s Philosophy of Law. Introduction’, op. cit., p. 183.
[20] Heinrich Bürgers, in Enzensberger (ed.), Gespräche mit Marx und Engels. op. cit., p. 46.

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Marx: ontem, hoje e Amanhã

Marx pode inspirar. Ou amedrontar.  Ou apenas irritar. Depende da posição ideológica de quem o observe.

Mas também vai influir o grau de conhecimento que se tenha de sua obra, enorme, não apenas pelas complexidades de leitura, mas porque permanece envolta, em boa parte, na obscuridade das coisas guardadas e não publicadas. Some-se a isto sua incansável disposição para rever o que escrevia, e tem-se o principal traço definidor do Marx sem dúvida respeitável, seja qual for o olhar que lhe seja dirigido, por seu inaudito esforço para compreender o mundo que, nada desprentensiosamente, é verdade, pretendeu transformar.
um importante traço definidor do Marx sem dúvida respeitável, seja qual for o olhar que lhe seja dirigido, por seu inaudito esforço para compreender o mundo que, nada despretensiosamente, pretendeu transformar: ele também se questionava.
Nos 200 anos de seu nascimento, completados neste 5 de maio, crentes e descrentes da durabilidade teórico-política da obra de Marx não se furtam, ou não escapam, a uma indagação intrigante: até que ponto poderiam ter ido suas lucubrações revisionistas? Ou, no mínimo: como compreender essa particularidade de identidade intelectual para se ter noção pelo menos aproximada do espírito norteador de seu trabalho e entender, enfim, por que ele permanece inspirador, amedrontador, irritante?
Instigante, ele continua sendo, sai século, entra século. Estuda-se Marx com interminável interesse, mesmo se feita a ressalva de que na Universidade, particularmente, parece haver uma certa tendência a enquadrá-lo em categorias departamentalizadas, como disse José Paulo Netto, professor emérito da Universidade do Rio de Janeiro, em curso sobre a atualidade do Manifesto Comunista. Há quem imagine que Marx era economista, por exemplo. Outros veem nele o filósofo. Ou um bom fornecedor de referências para análises sociológicas, inclusive no campo da psicologia social. Mais adequado é dizer que Marx fez uma crítica da economia política, e terminou fundando uma teoria social da ordem burguesa, acrescentou José Paulo. Não por outra razão, o título de seu trabalho maior não é, apenas, “O Capital”. É “O Capital – Crítica da Economia Política”, do qual concluiu a primeira redação em 1865. Anos antes, porém, em 1859, publicou “Para a Crítica da Economia Política”, uma espécie de introdução ao tema.
O que ele pretendia com suas pesquisas, desde antes? Em carta de 5 de março de 1852 a Joseph Weydemeyer, Marx diz que “nenhum crédito me é devido “pela descoberta da existência de classes na sociedade moderna ou a luta entre elas”. E adiante: “Muito tempo antes de mim, historiadores burgueses descreveram o desenvolvimento histórico dessa luta de classes e economistas burgueses, a anatomia econômica de classes. O que fiz de novo foi provar: que a existência de classes está ligada às particulares fases históricas do desenvolvimento da produção; que a luta de classes necessariamente leva à ditadura do proletariado; que essa ditadura, em si mesma, constitui apenas a transição para a abolição de todas classes e para uma sociedade sem classes” (citado nos “Arquivos Marx/Engels”).
Isso, ele dizia 166 anos atrás. Mas, como afirmou um dia, em 1907, o filósofo e historiador italiano Benedetto Croce, Marx já estaria, no princípio do século passado, “definitivamente morto para a humanidade”?
Depois de Croce, os anúncios fúnebres repetiram-se sem cessar, mas, como observa Hugo da Gama Cerqueira, professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais, “o defunto teimou em levantar-se e mostrar-se absolutamente vivo e atual, uma referência incontornável para quem quer compreender o nosso tempo”. É o que ocorreu recentemente, lembra Cerqueira, após a crise econômica de 2008, quando se passou a falar em um “retorno a Marx”. Até mesmo a insuspeita revista “Time” reconheceu que estava ocorrendo uma “vingança de Marx” sobre seus adversários.
Outros críticos de Marx não hesitam em reconhecer o valor de sua obra. Mas logo em seguida ressalvam que, por se tratar de um estudo do capitalismo inglês no século XIX ou do capitalismo na sua forma concorrencial, suas hipóteses e conclusões teriam ficado datadas.
“Contudo, se é óbvio que o capitalismo contemporâneo é, em diversos aspectos, diferente daquele que havia no século XIX, não é menos verdade que “O Capital” não é um texto convencional de história econômica, não é um estudo do capitalismo inglês em um período determinado”, afirma Cerqueira. Ao contrário, o objetivo de Marx, ao formular sua teoria, era apresentar as características essenciais do capitalismo, “a organização interna do modo de produção capitalista”, os conceitos que devem fundamentar a análise de qualquer período ou tipo de capitalismo. “E o que ele mostrou de modo pioneiro e com muita lucidez foi a estrutura peculiar das economias capitalistas: sua natureza intrinsecamente expansiva, que ao mesmo tempo as torna inexoravelmente propensas a crises; a forma impessoal que a dominação política e a exploração econômica assumem nessas sociedades; a natureza histórica das relações sociais capitalistas que se esconde em uma aparente naturalidade etc.”
A conclusão, segundo Cerqueira, só pode ser uma: “O capitalismo que está aí ainda é o mesmo capitalismo examinado por Marx. E “O Capital” é a melhor análise teórica já feita sobre as estruturas fundamentais da nossa sociedade ou, como diria Marx, sobre “as leis econômicas que regem o movimento das sociedades modernas”.
Para entender as ideias de Marx é crucial lembrar que, embora ele fosse um intelectual socialista, seus argumentos foram desenvolvidos na tradição dos fisiocratas franceses, como Quesnay e Turgot, e dos autores da economia política clássica britânica, como Smith e Ricardo, lembra Matías Vernengo, professor da Bucknell University, nos Estados Unidos, e editor-chefe do “The New Palgrave Dictionary of Economics”.
Os autores clássicos enfatizavam o conflito de classes e a instabilidade do sistema capitalista. Explica Vernengo que Ricardo, o primeiro economista a estabelecer formalmente a relação negativa e conflitiva entre lucros e salários, acreditava que a Inglaterra teria rendimentos decrescentes na agricultura, que isso pressionaria a taxa de lucro para baixo e reduziria o ritmo de acumulação. Haveria, assim, uma tendência à queda da taxa de lucro.
Marx descartou a preocupação ricardiana com os rendimentos decrescentes, mas manteve a ideia da lei de tendência da taxa de lucro. Para ele, a queda da taxa de lucro estaria relacionada ao progresso técnico. Marx sugeria que o processo de desenvolvimento exigia uma maior mecanização do processo produtivo. Isso reduzia o número de trabalhadores ocupados na produção e impunha um limite à sua exploração. Do mesmo modo, ao aumentar a massa de capital sobre o qual os lucros eram obtidos, a crescente mecanização reduzia a taxa de lucro da economia.
Para Marx, o próprio funcionamento do modo de produção capitalista trazia o germe do seu colapso inexorável. “As razões pelas quais o estudo da economia se afastou dos economistas políticos clássicos e de Marx são complexas, e precedem o desenvolvimento do marxismo”, comenta Vernengo, para acrescentar: “O abandono da tradição clássica foi influenciado pela ênfase na noção de conflito de classes. Problemas lógicos para explicar a queda da taxa de lucro, que não tende a cair com o progresso técnico, que reduz os custos de produção e permite o aumento dos lucros, com os salários reais dados, também não favoreceram a tradição marxista”.
Não foram poucas as revoluções que ocorreram no século XX, além da 1917 na Rússia, conduzidas sob a bandeira de representarem uma herança do pensamento de Marx. “Isso tem a ver com o fato de que os grupos revolucionários assumidamente marxistas procuravam deixar claros seus objetivos de realizar profundas transformações na estrutura da sociedade em que ocorria a revolução e não uma simples mudança nos quadros ou nas instituições políticas”, observa Jorge Luís da Silva Grespan, professor do departamento de história da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo., “Marx havia feito essa distinção clara entre uma revolução apenas política e outra que, por intermédio da política, visasse alterar a forma e a distribuição da propriedade dos meios de produção e, assim, a organização das classes sociais”.
De todo modo, nunca seria uma questão atemporal. “As condições históricas no tempo de Marx e nos tempos de Lênin, Mao Tsé-Tung, Che Guevara e outros eram completamente distintas”, observa Grespan. “E os problemas específicos a cada processo revolucionário exigiram soluções também específicas.” Em outras palavras, “não é possível estabelecer uma conexão unívoca entre a crítica de Marx ao capitalismo e suas propostas de superação desse sistema pelo socialismo e os acontecimentos do século XX”.
Marcello Musto, professor de teoria sociológica na York University, do Canadá, faz ponderações do mesmo gênero:
“Diferentemente da tese da fatalidade histórica do modo de produção burguesa – que lhe foi erroneamente atribuída por muitos marxistas e anti-marxistas — Marx não afirmou que a sociedade humana estava destinada a percorrer o mesmo caminho em todo lugar, ao expor suas reflexões sobre o capitalismo”. Da mesma forma, não profetizava que o desenvolvimento do comunismo devesse realizar-se através de etapas determinadas e obrigatórias. Clara prova disso “é a controvérsia sobre a perspectiva do desenvolvimento capitalista na Rússia, sobre a qual ele escreveu entre 1877 e 1881”.
As concepções que Marx a respeito de especificidades de tempo e lugar desenvolveram-se num processo. Como Musto narra em seu livro “O Velho Marx – Os Últimos Anos, 1881-1883 (que a Boitempo publicará em breve), “nos últimos anos de sua vida, o contato com os populistas russos, tal como ocorrera uma década antes com os “communards” parisienses, contribuiu para o amadurecimento de uma nova convicção: além da possível sucessão dos modos de produção no curso da história, também a irrupção dos eventos revolucionários e as subjetividades que os determinam passaram a ser avaliados com mais elasticidade. Tratava-se, de fato, do ponto de chegada a um verdadeiro internacionalismo em escala global, e não mais apenas europeia”.
Essa “concepção multilinear”, segundo Musto, obrigou Marx a dedicar atenção ainda maior às especificidades históricas e ao desenvolvimento desigual das condições políticas e econômicas entre países e contextos sociais diferentes, “o que certamente contribuiu para aumentar as dificuldades ao longo do percurso, já acidentado, da finalização dos livros restantes de “O Capital”. E assim, “conduzido pela dúvida e pela hostilidade aos esquematismos do passado e a novos dogmatismos que começavam a nascer em seu nome, ele considerou possível a eclosão da revolução em condições e formas até então jamais vislumbradas”.
Haveria transições diferentes, no tempo, no lugar e na substância. “Marx soube escapar da armadilha do determinismo econômico, na qual caíram diversos de seus seguidores e pretensos continuadores. Ele rejeitou as rígidas representações que ligavam as mudanças sociais unicamente às transformações econômicas. Defendeu, em vez disso, a especificidade das condições históricas, as múltiplas possibilidades que o curso do tempo oferecia e a centralidade da intervenção humana para modificar a realidade e efetuar a mudança”, explica Musto, que conclui em sua entrevista ao Valor: “É incomensurávela distância entre Marx e a equiparação entre socialismo e forças produtivas que, com inflexões nacionalistas e simpatias pelo colonialismo, ganhou espaço tanto no seio da Segunda Internacional como entre os partidos socialdemocratas. Para Marx, o futuro estava nas mãos da classe trabalhadora e de sua capacidade de determinar profundas transformações sociais, por meio de suas próprias organizações e travando suas próprias lutas”.
Para Vernengo, é importante notar que Marx foi um dos primeiros autores a descrever os ciclos econômicos, e as recorrentes crises financeiras do capitalismo, no que ele chamava de crises de realização. É nesse contexto que sua obra se aproxima da de John Maynard Keynes, o economista e intelectual que ficou famoso por tentar salvar o capitalismo de si mesmo depois da Grande Depressão.
“Para ambos, as crises recorrentes do sistema capitalista estavam, e presumivelmente ainda estão, associadas à falta de demanda agregada”, observa Vernengo. “Marxistas tendem a enfatizar o papel da queda da taxa de lucro na demanda por bens de investimento, enquanto keynesianos sugerem que restrições financeiras num mundo dominado pelo consumo de massa na base do endividamento privado levam à queda do consumo. Em ambos os casos, bolhas especulativas, excessiva alavancagem financeira, contabilidade criativa e problemas de informação com instrumentos financeiros cada vez mais complexos exacerbam a crise.”
Entre simpatizantes, ou adeptos, do pensamento marxista, um dia haverá de dar-se a sincronia entre socialização política (não “da” política, que já se tem hoje, de certa forma), com a tomada do poder pelos trabalhadores, e socialização econômica. E então a revolução social estará concluída (o que não teria acontecido na Rússia, em 1917, onde, em suma, deu-se apenas a apropriação do poder por uma classe burocrática e a estatização da economia). Seria preciso ter paciência. Afinal, o capitalismo, por sua vez, foi sendo gestado ao longo de séculos.
No mundo de hoje, o capitalismo continua vivendo crises como a que começou em 1929 e se estendeu até a Segunda Guerra Mundial, ou como a que começou em 2008 e chega até hoje. Grespan comenta: “Crises profundas como essas deixam claro que a permanência do capitalismo custa muito caro em termos humanos e ecológicos”. Parece inegável, então, que “a questão da sobrevivência do capitalismo está posta, apesar dos que a querem negar, como nunca antes”. E a obra de Marx, “para além dos sucessos e fracassos das revoluções que reivindicaram seu nome, permanece como uma preciosa fonte de inspiração e de debate sobre a velha questão ‘do que fazer’”.

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A escrita de O Capital

1. Dos Grundrisse à análise crítica das Teorias do mais-valor
Marx somente começou a escrever O capital muitos anos depois de iniciar seus estudos rigorosos de economia política. Desde 1843, ele já trabalhava com grande intensidade em direção àquela que mais tarde ele definiria como sua própria “economia”. Foi a erupção da crise financeira de 1857 que o forçou a começar seu trabalho. Marx estava convencido de que a crise que se desenvolvia em nível internacional criava as condições para um novo período revolucionário em toda a Europa. Ele esperava por esse momento desde as insurreições populares de 1848 e, agora que finalmente parecia ter chegado, não queria que os eventos o pegassem despreparado. Então, decidiu retomar seus estudos econômicos e dar-lhes uma forma acabada.

Este período foi um dos mais fecundos da sua vida: em poucos meses, conseguiu escrever mais do que nos anos precedentes. Em dezembro de 1857, escreveu a Engels: “Estou trabalhando como louco durante toda a noite e todas as noites, reunindo meus estudos econômicos para que eu possa ao menos ter os fundamentos [Grundrisse] claros antes do dilúvio.” (MARX; ENGELS, 2010i, p. 257)3

O trabalho de Marx era agora notável e abrangente. De agosto de 1857 a maio de 1858, ele preencheu os oito cadernos conhecidos como Grundrisse, enquanto, como correspondente do New York Tribune (o jornal de maior circulação nos Estados Unidos da América, com o qual colaborou a partir de 1851), escreveu dezenas de artigos sobre, entre outras coisas, o desenvolvimento da crise na Europa. Por fim, de outubro de 1857 a fevereiro de 1858, compilou três livros de extratos, chamados de Cadernos sobre as crises4. Graças a isso, é possível mudar a imagem convencional de um Marx que estuda a Ciência da lógica de Hegel à procura de inspiração para os Manuscritos de 1857-8, pois, naquela época, ele estava muito mais preocupado com os eventos ligados à maior crise já prevista. Ao contrário dos extratos que havia produzido anteriormente, esses manuscritos não eram compêndios das obras dos economistas, mas consistiam em uma grande quantidade de notas, recolhidas de vários jornais, sobre os principais desenvolvimentos da crise, tendências do mercado de ações, flutuações cambiais e falências importantes na Europa, nos Estados Unidos da América e em outras partes do mundo. Uma carta escrita a Engels em dezembro indica a intensidade de sua atividade:

Estou trabalhando intensamente, como regra, até às quatro horas da manhã. Estou empenhado numa dupla tarefa: 1. Elaborar os fundamentos da economia política. (Para o benefício do público, é absolutamente essencial abordar o assunto a fundo, assim como é, para mim mesmo, individualmente, livrar-me desse pesadelo.) 2. A crise atual. Além dos artigos para o [New York] Tribune, tudo o que faço é manter registros dela, o que, no entanto, leva uma quantidade considerável de tempo. Eu acho que, em algum momento da primavera, devemos fazer juntos um panfleto sobre o assunto. (MARX; ENGELS, 2010i, p. 224)5

Os Grundrisse foram divididos em três partes: uma “Introdução” metodológica, um “Capítulo sobre o dinheiro”, no qual Marx se ocupou do dinheiro e do valor, e um “Capítulo sobre o capital”, centrado no processo de produção e circulação do capital, e que abordou temas-chave, como o conceito de mais-valor e as formações econômicas que precederam o modo de produção capitalista. Contudo, mesmo o imenso esforço de Marx não lhe permitiu completar o trabalho. No final de fevereiro de 1858, ele escreveu a Lassalle:

Na verdade, tenho trabalhado nas etapas finais há alguns meses. Mas a coisa está indo muito devagar porque não se consegue dispor finalmente dos assuntos aos quais se devotou anos de estudo antes que eles comecem a revelar novos aspectos e demandar que se pense mais. (…) O trabalho que atualmente me preocupa é uma Crítica das Categorias Econômicas ou, se quiser, uma exposição crítica do sistema da economia burguesa. É ao mesmo tempo uma exposição e uma crítica do sistema. Eu tenho pouquíssima ideia de a quantas folhas isso vai chegar. (…) Agora que estou finalmente preparado para trabalhar depois de 15 anos de estudo, tenho, no final das contas, uma sensação desconfortável de que os movimentos turbulentos vindos de fora provavelmente interferirão. (MARX; ENGELS, 2010i, pp. 270-1)6

Não havia sinal do tão esperado movimento revolucionário que deveria nascer juntamente com a crise. Marx também abandonou o projeto de escrever um volume sobre a crise atual. Ainda assim, ele não conseguiu terminar o trabalho com o qual lutava havia muitos anos, pois sabia que ainda estava longe de uma conceptualização definitiva dos temas abordados no manuscrito. Portanto, os Grundrisse permaneceram apenas um rascunho, do qual – depois de ter trabalhado cuidadosamente o “Capítulo do dinheiro” –, em 1859, ele publicou um pequeno livro sem repercussão pública: Contribuição para a crítica da economia política.

Em agosto de 1861, Marx voltou a dedicar-se à crítica da economia política, trabalhando com tanta intensidade que, em junho de 1863, havia preenchido 23 cadernos volumosos sobre a transformação do dinheiro em capital, sobre o capital comercial e, acima de tudo, sobre as diversas teorias por meio das quais os economistas tentaram explicar o mais-valor7. Seu objetivo era concluir a Contribuição para a crítica da economia política, que tinha sido designada como a primeira parte do seu plano de trabalho. O livro publicado em 1859 continha um breve primeiro capítulo, “A mercadoria”, diferenciando valor de uso e valor de troca, e um segundo capítulo mais longo, “Dinheiro ou circulação simples”, tratando das teorias do dinheiro como uma unidade de medida. No “Prefácio”, Marx declarou: “Examino o sistema da economia burguesa na seguinte ordem: capital, propriedade da terra, trabalho assalariado, o estado, comércio exterior, mercado mundial.” (MARX; ENGELS, 2010b, p. 261)

Dois anos depois, o plano de Marx não havia mudado: ele ainda pretendia escrever seis livros, cada um dedicado a um dos temas listados por ele em 18598. No entanto, do verão de 1861 a março de 1862, ele trabalhou em um novo capítulo, “O capital em geral”, que pretendia tornar o terceiro capítulo no seu plano de publicação. No manuscrito preparatório contido nos primeiros cinco dos 23 cadernos compilados até o final de 1863, ele se concentrou no processo de produção do capital e, mais especificamente, em: 1) transformação do dinheiro em capital; 2) mais-valor absoluto; e 3) mais-valor relativo9. Alguns desses temas, já abordados nos Grundrisse, foram agora demonstrados com maior riqueza e precisão analítica.

Um alívio momentâneo dos imensos problemas econômicos que o atormentaram por anos permitiu a Marx dedicar mais tempo aos seus estudos e fazer significativos avanços teóricos. No final de outubro de 1861, ele escreveu a Engels que “as circunstâncias [tinham] finalmente se tranquilizado ao ponto que [ele tinha] ao menos um chão firme sob os [seus] pés novamente”. Seu trabalho para a New York Tribune garantia “duas libras por semana” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 323)10. Ele também firmou um contrato com Die Presse. Ao longo do ano anterior, ele havia “penhorado tudo que não estava efetivamente empenhado”, e sua condição deixou sua mulher profundamente deprimida. Mas agora a “dupla ocupação” prometia “colocar um fim à torturante existência levada por [sua] família” e permitir a ele “terminar seu livro”.

Não obstante, em dezembro, ele contou a Engels que foi forçado a deixar notas promissórias no açougue e no armazém e que sua dívida com variados credores chegou a cem libras (MARX; ENGELS, 2010j, p. 332)11. Por conta dessas preocupações, sua pesquisa progredia devagar: “Dadas as circunstâncias, havia de fato uma possibilidade pequena de dar às questões teóricas resoluções rápidas.” Mas ele avisou a Engels que “a coisa está assumindo uma forma muito mais popular, e o método está em menor evidência que na Parte I” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 333)12.

Nesse contexto dramático, Marx tentou pedir dinheiro emprestado à sua mãe, bem como a outros parentes e ao poeta Carl Siebel (1836-68). Em uma carta a Engels do final de dezembro, explicou que estas foram tentativas de evitar “importuná-lo” constantemente. De toda forma, nenhuma surtiu efeito. Nem o contrato com Die Presse estava dando certo, pois eles estavam publicando (e pagando por) somente metade dos artigos submetidos ao jornal. Confidenciou em resposta às mensagens de feliz ano-novo enviadas por seu amigo que se o novo ano mostrasse “qualquer semelhança com o antigo” ele iria “mandar logo ao diabo” (MARX; ENGELS, 2010j, pp. 337-8)13.

As coisas voltaram a piorar quando o New York Tribune, em face das restrições financeiras associadas à Guerra Civil Americana, teve de reduzir o número de seus correspondentes estrangeiros. O último artigo de Marx para o jornal foi publicado em 10 de março de 1862. A partir de então, ele teve de se virar sem aquela que tinha sido sua principal fonte de renda desde o verão de 1851. Naquele mesmo mês, o locador de sua casa ameaçou mover uma ação para recuperar o aluguel atrasado, e em tal caso – como contou a Engels –, ele seria “processado por tudo e por todos” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 344)14. E acrescentou logo em seguida: “Eu não estou indo bem com meu livro, já que o trabalho é frequentemente interrompido, ou seja, suspenso durante semanas a fio por distúrbios domésticos.” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 352)15

Durante esse período, Marx se lançou em uma nova área de pesquisa: Teorias do mais-valor16. Esta foi planejada para ser a quinta e última parte17 do longo terceiro capítulo sobre “O capital em geral”. Em mais de dez cadernos, Marx dissecou minuciosamente a maneira como os principais economistas haviam tratado a questão do mais-valor; sua ideia fundamental era que “todos os economistas compartilham o erro de examinar o mais-valor não como tal, em sua forma pura, mas nas formas particulares do lucro e da renda” (MARX; ENGELS, 2010c, p. 348)18.

No Caderno VI, Marx iniciou pela crítica dos fisiocratas. Em primeiro lugar, ele os reconheceu como os “verdadeiros pais da economia política moderna” (MARX; ENGELS, 2010c, p. 352), já que foram eles que “assentaram as bases para as análises da produção capitalista” e buscaram a origem do mais-valor não na “esfera da circulação” – na produtividade do dinheiro, como pensavam os mercantilistas –, mas na “esfera da produção”. Eles entenderam o “princípio fundamental de que somente aquele trabalho que é produtivo cria mais-valor” (MARX; ENGELS, 2010c, p. 354). Por outro lado, estando erroneamente convencidos de que o “trabalho agrícola” era “o único trabalho produtivo”, concebiam a “renda” como “a única forma de mais-valor” (MARX; ENGELS, 2010c, p. 355). Eles limitaram sua análise à ideia que a produtividade da terra possibilitou ao homem produzir “não mais do que o suficiente para mantê-lo vivo”. De acordo com essa teoria, então, o mais-valor aparecia como “uma dádiva da natureza” (MARX; ENGELS, 2010c, p. 357).

Na segunda metade do Caderno VI, e na maior parte dos Cadernos VII, VIII e IX, Marx se concentrou em Adam Smith, que não compartilhava da falsa ideia dos fisiocratas, para quem “um só tipo definido de trabalho concreto – trabalho agrícola – cria mais-valor” (MARX; ENGELS, 2010c, p. 391). De fato, aos olhos de Marx, um dos grandes méritos de Smith foi ter compreendido que, no processo de trabalho distintivo da sociedade burguesa, o capitalista “se apropria de graça, apropria-se sem pagar por isso, de uma parte do trabalho vivo” (MARX; ENGELS, 2010c, p. 388); ou, novamente, que “mais trabalho é trocado por menos trabalho (do ponto de vista do trabalhador), menos trabalho é trocado por mais trabalho (do ponto de vista do capitalista)”(MARX; ENGELS, 2010c, p. 393). A limitação de Smith, entretanto, foi sua incapacidade de diferenciar o “mais-valor como tal” das “formas específicas que ele assume no lucro e na renda” (MARX; ENGELS, 2010c, p. 389). Ele calculou o mais-valor não em relação à parte do capital do qual se originou, mas como “um excedente sobre o valor total do capital adiantado” (MARX; ENGELS, 2010c, p. 396), incluindo a parte que o capitalista gasta na compra de matérias-primas.

Marx expressou muitos desses pensamentos por escrito durante uma estada de três semanas com Engels em Manchester, em abril de 1862. Ao retornar, relatou a Lassalle:

Quanto ao meu livro, não será concluído por mais dois meses. Durante o ano passado, para evitar morrer de fome, tive de fazer o mais desprezível trabalho por encomenda e, muitas vezes, estive por meses sem poder adicionar uma linha à “coisa”. Além disso, também possuo o hábito de encontrar falhas em qualquer coisa que escrevi e não olhei por um mês, de modo que eu tenho de revisá-la completamente. (MARX; ENGELS, 2010j, p. 356)19

Marx retomou obstinadamente o trabalho e, até o início de junho, estendeu sua pesquisa a outros economistas, como Germain Garnier (1754-1821) e Charles Ganilh (1758-1836). Então, abordou mais profundamente a questão do trabalho produtivo e improdutivo, voltando a concentrar-se, particularmente, em Smith, que, apesar da falta de clareza em alguns aspectos, delineou a distinção entre os dois conceitos. Do ponto de vista capitalista, trabalho produtivo

é um trabalho assalariado que, trocado pela parte do capital que é gasta em salários, reproduz não só esta parte do capital (ou o valor de sua própria capacidade de trabalho), mas também produz mais-valor para o capitalista. É somente assim que a mercadoria ou o dinheiro são transformados em capital, são produzidos como capital. O único trabalho assalariado que é produtivo é aquele que produz capital (MARX; ENGELS, 2010d, p. 8).

O trabalho improdutivo, por outro lado, é “trabalho que não é trocado por capital, mas diretamente por receita, isto é, por salários e lucro” (MARX; ENGELS, 2010d, p. 12). Segundo Smith, a atividade dos soberanos – e dos oficiais jurídicos e militares que os cercam – não produzia valor e, dessa forma, era comparável aos afazeres dos empregados domésticos. Isto, Marx apontou, era a linguagem de uma “burguesia ainda revolucionária”, a qual ainda não havia “subjugado a si própria toda a sociedade, o estado, etc.”,

as profissões ilustres e tradicionalmente honradas – a de soberano, juiz, oficial, sacerdote etc. –, com todas as antigas castas ideológicas a que dão origem, seus homens de letras, seus professores e sacerdotes estão de um ponto de vista econômico no mesmo nível que o enxame de seus próprios lacaios e bobos da corte mantidos pela burguesia e pela riqueza ociosa – a aristocracia fundiária e os capitalistas ociosos (MARX; ENGELS, 2010d, p. 197).

No Caderno X, Marx voltou-se a uma análise rigorosa do Tableau économique de François Quesnay (1694-1774) (MARX; ENGELS, 2010j, p. 381)20. Ele o louvou aos céus, descrevendo-o como “uma concepção extremamente brilhante, incontestavelmente a mais brilhante pela qual a economia política até então seria responsável” (MARX; ENGELS, 2010d, p. 240).

Enquanto isso, as condições econômicas de Marx continuavam desesperadoras. Em meados de junho, ele escreveu a Engels: “Todos os dias, minha esposa diz desejar que ela e as crianças estivessem seguras em seus túmulos, e eu realmente não posso culpá-la, pois as humilhações, tormentos e alarmes pelos quais têm de passar em tal situação são de fato indescritíveis”. Já em abril, a família tivera de penhorar novamente todas as posses que havia recentemente recuperado da casa de penhor. A situação era tão extrema que Jenny decidiu vender alguns livros da biblioteca pessoal do marido – embora não conseguisse encontrar alguém que quisesse comprá-los.

Marx, no entanto, conseguiu “trabalhar duro” e, em meados de junho, manifestou sua satisfação a Engels: “estranho dizer, mas minha massa cinzenta está funcionando melhor em meio à pobreza circundante do que funcionou por anos” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 380)21. Continuando sua pesquisa, ele compilou os Cadernos XI, XII e XIII no decorrer do verão; eles se concentravam na teoria da renda, que ele decidiu incluir como “um capítulo extra” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 394)22 ao texto que estava preparando para publicação. Marx examinou criticamente as ideias de Johann Rodbertus (1805-75) e então passou a uma extensa análise das doutrinas de David Ricardo (1772-1823)23. Negando a existência da renda absoluta, Ricardo admitia um lugar somente para a renda diferencial relativa à fertilidade e à localização da terra. Nessa teoria, a renda era um excesso: não poderia ser mais nada, porque isso contradiria seu “conceito de valor como sendo igual a certa quantidade de tempo de trabalho” (MARX; ENGELS, 2010d, p. 359); ele teria de admitir que o produto agrícola era constantemente vendido acima do preço de custo, o qual calculou como a soma do capital adiantado e do lucro médio (MARX; ENGELS, 2010j, p. 396)24. A concepção marxiana de renda absoluta, em contrapartida, estipulava que “sob certas circunstâncias históricas (…) a propriedade fundiária de fato aumenta os preços das matérias-primas” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 398)25.

Na mesma carta dirigida a Engels, Marx escreveu ser “um verdadeiro milagre” que ele “tenha sido capaz de continuar [seu] escrito teórico a tal ponto” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 394). Seu locador tinha novamente ameaçado enviar os oficiais de justiça, enquanto os comerciantes com quem estava em débito falavam da retenção de suas provisões na fonte e em mover ação judicial contra ele. Mais uma vez, teve de recorrer a Engels para ajudá-lo, confidenciando que, não fossem sua esposa e filhos, ele “preferiria mudar para um abrigo a estar constantemente apertando [sua] carteira” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 399)26.

Em setembro, Marx escreveu a Engels que poderia conseguir um emprego “em um escritório ferroviário” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 417)27 no ano seguinte. Em dezembro, repetiu para Ludwig Kugelmann (1828-1902) que as coisas se tornaram tão desesperadoras que “decidiu tornar-se um ‘homem prático’”; no entanto, essa ideia não vingou. Marx relatou com seu típico sarcasmo: “Por sorte – ou talvez devesse dizer azar? – não consegui o emprego por causa da minha má caligrafia.” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 436)28 Enquanto isso, no início de novembro, ele confidenciou a Ferdinand Lassalle (1825-64) que havia sido forçado a suspender o trabalho “por cerca de seis semanas”, mas que estava “progredindo (…) com interrupções”. “No entanto”, acrescentou, “isso certamente será concluído logo mais.” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 426)29

Durante esse período, Marx completou mais dois cadernos, o XIV e o XV, com extensa análise crítica de vários teóricos da economia. Ele observou que Thomas Robert Malthus (1766 -1834), para quem o mais-valor decorria “do fato de que o vendedor vende a mercadoria acima do seu valor” (MARX; ENGELS, 2010e, p. 215), representava um retorno ao passado na teoria econômica, já que ele derivava o lucro da troca de mercadorias (MARX; ENGELS, 2010e, p. 215). Marx acusou James Mill (1773-1836) de compreender mal as categorias do mais-valor e do lucro; destacou a confusão produzida por Samuel Bailey (1791-1870), que falhou em distinguir a imanente medida do valor do próprio valor da mercadoria; e argumentou que John Stuart Mill (1806-73) não percebeu que “a taxa de mais-valor e a taxa de lucro” (MARX; ENGELS, 2010e, p. 373)30 eram duas grandezas diferentes, sendo esta última determinada não somente pelo nível dos salários, mas também por outras causas não diretamente atribuíveis a ele.

Marx também prestou especial atenção em vários economistas que se opuseram à teoria ricardiana, como o socialista Thomas Hodgskin (1787-1869). Finalmente, tratou do texto apócrifo Receita e suas fontes – em sua visão, um exemplo perfeito de “economia vulgar”, que traduzia em linguagem “doutrinária”, mas “apologética”, o “ponto de vista do setor dominante, isto é, dos capitalistas” (MARX; ENGELS, 2010e, p. 450). Com o estudo deste livro, Marx concluiu sua análise das teorias do mais-valor apresentadas pelos principais economistas do passado e começou a examinar o capital comercial, ou o capital que não criou, mas distribuiu o mais-valor31. Sua polêmica contra o “capital portador de juros” talvez “desfilasse como socialismo”, contudo, Marx não tinha tempo para tal “zelo reformista”, que não “tocava na verdadeira produção capitalista”, mas “apenas atacava uma de suas consequências”. Para Marx, pelo contrário:

A completa objetivação, inversão e destruição do capital como capital portador de juros – na qual, no entanto, a natureza interior da produção capitalista, [seu] distanciamento, simplesmente aparece em sua forma mais palpável – é o capital que produz “juros compostos”. Parece com um Moloch exigindo o mundo inteiro como um sacrifício que pertence a ele por direito, cujas demandas legítimas, decorrentes de sua própria natureza, nunca são cumpridas e sempre são frustradas por um destino misterioso. (MARX; ENGELS, 2010e, p. 453)

Marx continuou, no mesmo espírito:

Assim, são os juros, não o lucro, que parecem ser a criação de valor decorrente do capital como tal [… e], consequentemente, são considerados a receita específica criada pelo capital. Esta é também a forma como são concebidos pelos economistas vulgares. (…) Todas as conexões intermediárias são obliteradas, e a face fetichista do capital, como também o conceito de capital-fetiche, está completa. Esta forma surge necessariamente porque o aspecto jurídico da propriedade é separado do seu aspecto econômico e uma parte do lucro sob o nome de juros decorre do capital por si só, o qual está completamente separado do processo de produção ou do proprietário desse capital. Para o economista vulgar que deseja representar o capital como uma fonte de valor independente, uma fonte que cria valor, esta é, naturalmente, uma dádiva de Deus, uma forma na qual a fonte de lucro não é mais reconhecível, e o resultado do processo capitalista – separado do próprio processo – adquire uma existência independente. Em D-M-D’, uma conexão intermediária ainda é mantida. Em D-D’ temos a forma incompreensível de capital, a inversão e a materialização mais extremas das relações de produção. (MARX; ENGELS, 2010e, p. 458)

Seguindo os estudos sobre o capital comercial, Marx prosseguiu para aquela que pode ser considerada uma terceira fase dos manuscritos econômicos de 1861-3. Isso começou em dezembro de 1862, com a seção sobre “capital e lucro” no Caderno XVI, que indicou como sendo o “terceiro capítulo” (MARX, 1980, pp. 1.598-1.675). Nela, apresentou um esboço da distinção entre o mais-valor e o lucro. No Caderno XVII, também compilado em dezembro, voltou à questão do capital comercial (seguindo as reflexões do Caderno XV [cf. MARX, 1980, pp. 1.682-773]) e ao refluxo do dinheiro na reprodução capitalista. No final desse ano, Marx apresentou a Kugelmann um relatório do seu progresso, informando-lhe que “a segunda parte”, ou a “continuação da primeira parcela”, um manuscrito equivalente a “cerca de 30 folhas impressas”, estava “agora finalmente terminada”. Quatro anos após o primeiro esquema, presente na Contribuição para a crítica da economia política, Marx agora revisava a estrutura do seu plano de trabalho. Ele disse a Kugelmann que havia se decidido por um novo título, utilizando O capital pela primeira vez, e que o nome com o qual operou em 1859 seria “apenas o subtítulo” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 435)32. Fora isso, continuava trabalhando de acordo com o plano original. O que pretendia escrever seria “o terceiro capítulo da primeira parte, a saber, o capital em geral”33. O volume nas últimas etapas de preparação conteria “o que os ingleses chamam de ‘princípios da economia política’”. Juntamente com o que já havia escrito na edição de 1859, esse volume compreenderia a “quintessência” de sua teoria econômica. Com base nos elementos que estava preparando para tornar públicos, ele disse a Kugelmann, uma futura “sequência (com exceção, talvez, da relação entre as várias formas de estado e as várias estruturas econômicas da sociedade) poderia ser facilmente perseguida por outros”.

Marx pensou que seria capaz de produzir uma “cópia final” do manuscrito no novo ano, em seguida, planejava levá-la pessoalmente para a Alemanha. Então ele pretendia “concluir a apresentação de capital, concorrência e crédito” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 435)34. Na mesma carta a Kugelmann, comparou os estilos de escrita no texto publicado em 1859 e no trabalho que estava então preparando: “Na primeira parte, o modo de exposição adotado estava certamente longe de ser popular. Isto se deveu em certa medida à natureza abstrata do assunto (…). A presente parte é mais fácil de entender porque trata de condições mais concretas”. Para explicar a diferença, praticamente se justificando, ele acrescentou:

As tentativas científicas de revolucionar uma ciência nunca podem ser realmente populares. Mas, uma vez que as bases científicas são assentadas, a popularização é fácil. Novamente, se os tempos se tornarem mais turbulentos, pode-se selecionar as cores e nuances exigidas para uma apresentação popular desses assuntos específicos. (MARX; ENGELS, 2010j, p. 436)35

Poucos dias depois, no início do novo ano, Marx enumerou em mais detalhes as partes que conformariam seu trabalho. Em um esquema no Caderno XVIII, indicou que a “primeira seção [Abschnitt]”, “O processo de produção do capital”, seria dividida da seguinte forma:

1) Introdução. Mercadoria. Dinheiro. 2) Transformação de dinheiro em capital. 3) Mais-valor absoluto. (…) 4) Mais-valor relativo. (…) 5) Combinação do mais-valor absoluto e relativo. (…) 6) Reconversão do mais-valor em capital. Acumulação primitiva. A teoria da colonização de Wakefield. 7) Resultado do processo de produção. (…) 8) Teorias do mais-valor. 9) Teorias do trabalho produtivo e improdutivo. (MARX; ENGELS, 2010e, p. 347)

Marx não se limitou ao primeiro volume, mas também esboçou um esquema do que se destinava a ser a “terceira seção” de seu trabalho: “Capital e lucro”. Essa parte, que já indicava temas que estariam incluídos em O capital, Volume III, foi dividida da seguinte forma:

1) Conversão do mais-valor em lucro. Taxa de lucro como distinta da taxa de mais-valor. 2) Conversão de lucro em lucro médio. (…) 3) As teorias de Adam Smith e Ricardo sobre lucro e preços de produção. 4) Renda. (…) 5) História da chamada lei ricardiana da renda. 6) Lei da queda da taxa de lucro. 7) Teorias do lucro. (…) 8) Divisão do lucro em lucro industrial e juro. (…) 9) Receita e suas fontes. (…) 10) Movimentos de refluxo de dinheiro no processo de produção capitalista como um todo. 11) Economia vulgar. 12) Conclusão. Capital e trabalho assalariado. (MARX; ENGELS, 2010e, pp. 346-7)36

No Caderno XVIII, composto em janeiro de 1863, Marx continuou sua análise do capital mercantil. Avaliando George Ramsay (1855-1935), Antoine-Elisée Cherbuliez (1797-1869) e Richard Jones (1790-1855), ele inseriu alguns adendos ao estudo do modo como vários economistas haviam explicado o mais-valor.

As dificuldades financeiras de Marx persistiram durante esse período e, em verdade, começaram a piorar no começo de 1863. Ele escreveu a Engels que suas “tentativas de levantar dinheiro na França e na Alemanha [não deram] em nada”, que ninguém lhe forneceria alimentos a crédito e que “as crianças não [tinham] roupas ou sapatos para sair” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 442)37. Duas semanas depois, ele estava à beira do abismo. Em outra carta a Engels, confidenciou que havia proposto à sua companheira de vida o que agora parecia inevitável:

Minhas duas filhas mais velhas serão empregadas como governantas pela família Cunningham. Lenchen deve começar o serviço em outro lugar, e eu, juntamente com minha esposa e o pequeno Tussy, devemos morar no mesmo abrigo municipal onde Red Wolff já residiu com sua família. (MARX; ENGELS, 2010j, p. 445)38

Ao mesmo tempo, surgiram novos problemas de saúde. Nas primeiras duas semanas de fevereiro, Marx estava “estritamente proibido de qualquer leitura, escrita e também de fumar”. Sofria de “algum tipo de inflamação ocular, combinada com a mais desagradável crise nervosa”. Ele só pôde retornar aos seus livros na metade do mês, quando confessou a Engels que, durante os longos dias ociosos, esteve tão alarmado que “se entregou a todas as formas de fantasias psicológicas sobre como seria estar cego ou demente” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 453)39. Em pouco mais de uma semana, tendo se recuperado dos problemas oculares, desenvolveu um novo distúrbio hepático destinado a persegui-lo por muito tempo. Visto que o Dr. Allen, seu médico, teria imposto um “longo tratamento”, que significaria interromper todo o seu trabalho, ele pediu a Engels que conseguisse com o Dr. Eduard Gumpert que recomendasse um “remédio caseiro” mais simples (MARX; ENGELS, 2010j, p. 460)40.

Durante esse período, afora os breves momentos em que estudou maquinaria, Marx teve de suspender seus estudos econômicos mais abrangentes. Em março, no entanto, ele resolveu “compensar o tempo perdido com trabalho duro” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 461)41. Compilou dois cadernos, o XX e o XXI, que tratavam da acumulação, da subsunção real e formal do trabalho ao capital e da produtividade do capital e do trabalho. Seus argumentos estavam correlacionados ao tema principal de sua pesquisa no momento: o mais-valor.

No final de maio, escreveu a Engels que, nas semanas anteriores, também estudou a questão polonesa42 no Museu Britânico: “O que eu fiz, por um lado, foi preencher as lacunas do meu conhecimento (diplomático e histórico) acerca do caso russo-prussiano-polonês e, por outro lado, ler e anotar excertos de todo tipo de literatura anterior sobre a parte da economia política que eu elaborei.” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 474)43 Essas notas de trabalho, escritas em maio e junho, foram reunidas em oito cadernos adicionais, que vão do A ao H, os quais continham centenas de outras páginas resumindo os estudos econômicos dos séculos XVIII e XIX44.

Marx também informou a Engels que, sentindo-se “mais ou menos capaz de trabalhar novamente”, estava determinado a “tirar o peso de seus ombros” e que, portanto, pretendia “fazer uma cópia final da economia política para impressão (e dar a ela um acabamento final)”. Contudo, continuava sofrendo com um “fígado muito inchado” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 474)45, e na metade de junho, apesar do “enxofre devastador”, ainda “não estava em forma” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 479)46. Em todo caso, voltou ao Museu Britânico e, em meados de julho, informou a Engels que estava mais uma vez dedicando “dez horas por dia ao trabalho sobre economia”. Esses foram precisamente os dias em que, ao analisar a reconversão do mais-valor em capital, ele preparou no Caderno XXII uma reformulação do Tableau économique de Quesnay (MARX; ENGELS, 2010j, p. 485)47. Em seguida, compilou o último caderno da série iniciada em 1861 – o XXIII – que consistia principalmente em notas e observações complementares.

Ao final desses dois anos de trabalho árduo e após um reexame crítico mais profundo dos principais teóricos da economia política, Marx estava mais determinado do que nunca a completar a grande obra de sua vida. Embora ainda não tivesse resolvido em definitivo muitos dos problemas conceituais e expositivos, sua conclusão da parte histórica agora o levava a retornar às questões teóricas.

2. A escrita dos três volumes
Marx rangeu os dentes e embarcou em uma nova fase de seus trabalhos. A partir do verão de 1863, começou a estrutura de fato do que se tornaria o seu magnum opus48. Até dezembro de 1865, ele se dedicou às versões mais extensas das várias subdivisões, preparando rascunhos em torno do Volume I, a maior parte do Volume III (sua única consideração do processo completo de produção capitalista [cf. MARX, 2015]) e a versão inicial do Volume II (a primeira apresentação geral do processo de circulação do capital). No que diz respeito ao plano de seis volumes, indicado, em 1859, no “Prefácio” da Contribuição para a crítica da economia política, Marx acrescentou uma série de temas relacionados à renda e aos salários que, originalmente, deveriam ser tratados nos volumes II e III. Em meados de agosto de 1863, ele atualizou Engels dos passos seguintes:

Por um lado, meu trabalho (de preparação do manuscrito para publicação) está indo bem. Na elaboração final, as coisas estão, penso eu, assumindo uma forma bastante popular. (…) Por outro lado, apesar do fato de eu escrever todos os dias, não está indo tão rápido quanto a minha própria ansiedade, há muito submetida a uma prova de paciência, talvez exija. De qualquer forma, será 100% mais compreensível do que o nº 149. (MARX; ENGELS, 2010j, p. 488)50

Marx manteve a velocidade ao longo do outono, concentrando-se na escrita do Volume I. Mas, como resultado, sua saúde rapidamente piorou e, em novembro, viu aparecer o que sua esposa chamou de “doença terrível”, contra a qual lutaria por muitos anos de sua vida. Era um caso de carbúnculos51, uma infecção desagradável que se manifestava em abscessos e feridas graves e debilitantes em várias partes do corpo.

Por causa de uma grave úlcera que sucedeu um grande carbúnculo, Marx teve de realizar uma operação e “por bastante tempo sua vida esteve em perigo”. De acordo com o relato posterior de sua esposa, a condição crítica durou “quatro semanas” e causou em Marx severas e constantes dores, juntamente com “preocupações atormentadoras e todo tipo de sofrimento mental”, dado que a situação financeira da família se manteve “à beira do abismo” (MARX, 1973, p. 288).

No início de dezembro, quando estava em vias de se recuperar, Marx disse a Engels que “tinha estado com um pé na cova” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 495)52 – dois dias depois, essa sua condição física o apanhou como “um bom tema para um conto”. De frente, ele parecia com alguém que “deleitava o seu homem interior com um vinho do porto, vermelho, forte, e um enorme pedaço de carne”. Mas, “pelas costas, no homem exterior, havia um maldito carbúnculo” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 497)53.

Neste contexto, a morte da mãe de Marx o obrigou a viajar para a Alemanha a fim de resolver questões relativas à herança. Sua condição novamente se deteriorou durante a viagem, e no caminho de volta isso o forçou a parar por alguns meses no seu tio Lion Philips, em Zaltbommel, na Holanda. Durante este tempo, um carbúnculo, maior do que todos os anteriores, apareceu na perna direita, bem como extensos furúnculos em sua garganta e costas; a dor decorrente deles era tão grande que o mantinha acordado durante a noite. Na segunda quinzena de janeiro de 1864, escreveu a Engels que se sentia “como um verdadeiro Lázaro (…), golpeado por todos os lados ao mesmo tempo” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 507)54.

Depois de voltar a Londres, todas as infecções e irritações de pele continuaram a afetar a saúde de Marx no início da primavera, e ele só conseguiu retomar seu plano de trabalho em meados de abril, após uma interrupção de mais de cinco meses. Naquele tempo, continuou a concentrar-se no Volume I, e parece provável que tenha sido precisamente então que redigiu os assim chamados “Resultados do processo de produção imediato”, a única parte da versão inicial que foi preservada.

No final de maio, novos tumores purulentos apareceram em seu corpo e provocaram tormentos indescritíveis. Com a intenção de continuar com o livro a todo custo, ele evitou novamente o Dr. Allen e suas pretensões de um “tratamento regular”, o que teria interrompido o trabalho que simplesmente “tinha de fazer”. Marx sentia o tempo todo que “havia algo errado”, e confessou suas dúvidas ao amigo em Manchester: “A tremenda energia que eu tenho de convocar antes de poder abordar assuntos mais difíceis também contribui para esse senso de inadequação. Desculpe-me o termo espinosista.” (MARX; ENGELS, 2010j, p. 530)55

A chegada do verão não mudou suas precárias circunstâncias. Nos primeiros dias de julho, ele adoeceu, caiu gripado, e não conseguiu escrever56. E, duas semanas depois, esteve imobilizado por dez dias devido a uma séria lesão pustulenta em seu pênis. Só depois de um repouso com a família em Ramsgate, entre a última semana de julho e os dez primeiros dias de agosto, foi possível forçar-se a trabalhar. Ele começou o novo período de escrita com o Volume III: Parte Dois, “A conversão do lucro em lucro médio”, posteriormente, a Parte Um, “A conversão do mais-valor em lucro” (que foi concluída, provavelmente, entre o final de outubro e o início de novembro de 1864). Durante esse período, participou assiduamente das reuniões da Associação Internacional dos Trabalhadores, para a qual escreveu em outubro o discurso inaugural e os estatutos. Também nesse mês, escreveu a Carl Klings (1828 -?), um trabalhador metalúrgico de Solingen, que tinha sido membro da Liga dos Comunistas, e contou-lhe de seus vários percalços e o motivo da sua inevitável lentidão:

Fiquei doente durante o ano passado (sendo atingido por carbúnculos e furúnculos). Se não fosse por isso, meu trabalho sobre economia política, O capital, já teria saído. Espero que eu agora possa, finalmente, terminá-lo em alguns meses e dê à burguesia um golpe teórico do qual nunca se recuperará. (…) Você pode confiar, meu sempre leal defensor da classe trabalhadora. (MARX; ENGELS, 2010k, p. 4)57

Retomando o trabalho depois de uma pausa para cumprir deveres com a Internacional, Marx escreveu a Parte Três do Volume III, intitulada “A lei da queda tendencial da taxa de lucro”. Este trabalho foi acompanhado de outro surto da sua doença. Em novembro, “outro carbúnculo apareceu abaixo de [seu] peito direito” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 12)58, deixando-o de cama por uma semana e continuando a incomodá-lo quando se “inclinava para a frente para escrever” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 22)59. No mês seguinte, temendo outro possível carbúnculo no lado direito, decidiu tratá-lo sozinho. Ele confiou a Engels que estava relutante em consultar o Dr. Allen, que não sabia sobre sua tentativa de tratamento prolongado com um remédio à base de arsênico e lhe daria uma “terrível reprimenda” por causa do “tratamento dos carbúnculos pelas suas costas” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 51)60.

De janeiro a maio de 1865, Marx se dedicou ao Volume II. Os manuscritos foram divididos em três capítulos, que eventualmente se tornaram partes na versão que Engels publicou em 1885: 1) As metamorfoses do capital; 2) A reviravolta do capital; e 3) Circulação e reprodução. Nessas páginas, Marx desenvolveu novos conceitos e conectou algumas das teorias dos volumes I e III.

Também no novo ano, contudo, o carbúnculo não parou de perseguir Marx e, em meados de fevereiro, houve outro surto da doença. Ele disse a Engels que, ao contrário do ano anterior, suas “faculdades não foram afetadas” e que estava “perfeitamente capaz de trabalhar” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 107)61. Mas tais previsões revelaram-se excessivamente otimistas: até o início de março, o “problema antigo [estava] atacando[-o] em vários lugares delicados e ‘alarmantes’, de modo que se sentar [era] difícil” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 115)62. Além dos “furúnculos”, que persistiram até meados do mês, a Internacional tomou uma “enorme quantidade de tempo”. Ainda assim, ele não parou de trabalhar no livro, mesmo que isto significasse que, às vezes, “não dormisse antes das quatro da manhã” (MARX; ENGELS, 2010k, pp. 129-30)63.

Um último estímulo para completar logo as partes que faltavam foi o contrato da editora. Graças à intervenção de Wilhelm Strohn, um antigo camarada dos tempos de Liga dos Comunistas, Otto Meissner (1819-1902), enviou-lhe uma carta de Hamburgo, em 21 de março, que incluía um acordo para publicar “a obra O capital: contribuição para a crítica da economia política”. Deveria ter “aproximadamente 50 assinaturas64 de comprimento [e ser] publicada em dois volumes” (MARX; ENGELS, 2010a, p. 361)65.

O tempo era curto e, certa vez, no final de abril, Marx escreveu a Engels que se sentia “tão mole quanto um trapo molhado (…), em parte por trabalhar até tarde da noite (…), em parte pela porcaria diabólica [que ele estava] tomando” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 148)66. Em meados de maio, “um carbúnculo horrível” apareceu no quadril esquerdo, “perto da parte inexprimível do corpo” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 158)67. Uma semana depois, os furúnculos estavam “ainda lá”, embora, felizmente, “eles apenas perturba[ssem-no] localmente e não incomoda[ssem] o juízo”. Ele usou bem o tempo em que se encontrou “apto para o trabalho” e disse a Engels que estava “trabalhando como uma mula” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 159)68.

Entre a última semana de maio e o final de junho, Marx compôs um breve texto chamado Salário, preço e lucro69. Nele, contestou a tese de John Weston de que os aumentos salariais não seriam favoráveis à classe trabalhadora e que as demandas sindicais por salários mais elevados eram na verdade prejudiciais. Marx mostrou que, pelo contrário, “um aumento geral dos salários resultaria em uma queda na taxa geral de lucro, mas não afetaria os preços médios das mercadorias, ou seus valores” (MARX; ENGELS, 2010a, p. 144).

No mesmo período, Marx também escreveu a Parte Quatro do Volume III, intitulando-a “Transformação de capital-mercadoria e de capital monetário em capital de comércio de mercadorias e capital de comércio de dinheiro”. No final de julho de 1865, ele deu a Engels outro relatório do seu progresso:

Há mais três capítulos a serem escritos para completar a parte teórica (os primeiros três livros). Depois, ainda há o quarto livro, o histórico-literário, a ser escrito, que, em termos comparativos, será a parte mais fácil para mim, já que todos os problemas teriam sido resolvidos nos primeiros três livros, de modo que este último seja algo mais próximo de uma repetição em forma histórica. Mas eu não consigo me fazer entregar nada até que tenha tudo à minha frente. Quaisquer que sejam as deficiências que possam haver, a vantagem de meus escritos é que eles são um todo artístico, e isso só pode ser alcançado através da minha prática de nunca publicar as coisas até que eu as tenha em minha frente na sua totalidade. (MARX; ENGELS, 2010k, p. 173)70

Quando desvios inevitáveis e uma série de eventos negativos o forçaram a reconsiderar seu método de trabalho, Marx se perguntou se não poderia ser mais útil primeiro produzir uma cópia acabada do Volume I, para que pudesse publicá-lo imediatamente ou, em vez disso, terminar de escrever todos os volumes que conformariam o trabalho. Em outra carta a Engels, disse que o “ponto em questão” era se deveria “fazer uma cópia final de parte do manuscrito e enviá-lo para o editor, ou terminar de escrever tudo primeiro”. Ele preferiu a última solução, mas assegurou ao amigo que seu trabalho nos outros volumes não seria desperdiçado:

[Sob as circunstâncias], o progresso foi tão rápido quanto poderia ser possível a qualquer um, mesmo sem nenhuma consideração artística. Além disso, como eu tenho um limite máximo de  60 folhas impressas 71, é absolutamente essencial que eu tenha tudo à minha frente, para saber quanto tem que ser condensado e riscado, de modo que as seções individuais sejam uniformemente equilibradas e na dimensão dos limites prescritos (MARX; ENGELS, 2010k, p. 175).72

Marx confirmou que “não pouparia nenhum esforço para completar o mais rápido possível”; aquilo era um “fardo tenebroso” para ele. Impedia-o “de fazer qualquer outra coisa” e ele estava ansioso para tirá-lo do caminho antes de uma nova agitação política: “Eu sei que esse tempo não ficará parado para sempre como está agora.” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 175)73

Embora tenha decidido avançar na conclusão do Volume I, Marx não queria abandonar o que havia feito no Volume III. Entre julho e dezembro de 1865, ele redigiu, embora de forma fragmentária, a Parte Cinco (“Divisão do lucro em ganho empresarial e juros. Capital portador de juros”), Parte Seis (“Transformação do lucro excedente em renda fundiária”) e Parte Sete (“Os rendimentos e suas fontes”)74. A estrutura que Marx deu ao Volume III, entre o verão de 1864 e o final de 1865, foi, portanto, muito semelhante ao esquema de 12 pontos de janeiro de 1863, contido no Caderno XVIII dos manuscritos sobre teorias do mais-valor.

A ausência de dificuldades financeiras que permitiu a Marx avançar em seu trabalho não duraria muito; elas reapareceram após cerca de um ano, e sua saúde tornou a piorar no decorrer do verão. Além disso, seus deveres para com a Internacional foram particularmente intensos em setembro, em razão da sua primeira conferência, em Londres. Em outubro, Marx visitou Engels em Manchester e, quando voltou a Londres, teve de enfrentar os eventos mais terríveis: sua filha Laura ficou doente, o locador ameaçava novamente despejar sua família e enviar os oficiais de justiça e “cartas ameaçadoras” começaram a “sair pelo ladrão”. Sua esposa, Jenny, estava “tão desolada” que – como relatou a Engels – “não teve a coragem de explicar o verdadeiro estado de coisas a ela” e “realmente não sab[ia] o que fazer” (MARX; ENGELS, 2010k, pp. 193-94)75. A única “boa notícia” foi a morte de uma tia de 73 anos em Frankfurt, de quem ele esperava receber uma pequena parcela da herança.

3. A conclusão do Volume I
No início de 1866, Marx lançou-se sobre o novo rascunho de O capital, Volume I. Em meados de janeiro, ele atualizou Wilhelm Liebknecht (1826-1900) sobre a situação: “Indisposição, (…) toda sorte de infelizes reveses, demandas feitas a mim pela Associação Internacional etc. têm confiscado todos os momentos livres que eu tenho para escrever a cópia final do meu manuscrito”. No entanto, pensava estar perto do fim e que seria “capaz de entregar o Volume I ao editor para publicação em março”. Ele acrescentou que seus “dois volumes aparecer[iam] simultaneamente” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 219)76. Em outra carta, enviada no mesmo dia a Kugelmann, falou sobre estar “ocupado 12 horas por dia escrevendo a cópia final” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 221)77, mas esperava levá-la ao editor em Hamburgo dentro de dois meses.

Contrariamente às suas previsões, no entanto, ele passaria o ano inteiro em luta contra os carbúnculos e seu agravado estado de saúde. No final de janeiro, sua esposa, Jenny, informou ao velho camarada de luta Johann Philipp Becker (1809-86) que seu marido havia “sido novamente derrubado pela sua antiga enfermidade, perigosa e extremamente dolorosa”. Desta vez, foi mais “angustiante” para ele, porque interrompeu “a cópia do livro que [tinha] apenas começado”. Em sua opinião, “essa nova erupção foi simples e unicamente devida ao excesso de trabalho e às longas horas sem dormir à noite” (MARX, 2010a, pp. 570-1)78.

Poucos dias depois, Marx foi atingido pelo ataque mais virulento até então, correndo o risco de perder a vida. Quando se recuperou o suficiente para começar a escrever novamente, confidenciou a Engels:

Desta vez foi por um triz. Minha família não soube o quão grave era o caso. Se o problema se repete nesta forma três ou quatro vezes mais, eu serei um homem morto. Estou extraordinariamente consumido e ainda muito fraco, não na mente, mas em meus lombos e nas minhas pernas. Os médicos têm razão ao pensar que o trabalho excessivo durante a noite foi a principal causa dessa recaída. Mas eu não posso dizer a esses senhores os motivos que me obrigam à extravagância – nem haveria propósito fazê-lo. Neste momento, tenho todos os tipos de pequenas progênies sobre meu corpo, o que é doloroso, mas ao menos não mais perigoso. (MARX; ENGELS, 2010k, p. 223)79

Apesar de tudo, os pensamentos de Marx ainda estavam dirigidos principalmente para a tarefa à frente dele:

O mais odioso para mim foi a interrupção do meu trabalho, que estava indo de modo esplêndido desde primeiro de janeiro, quando me recuperei da minha queixa hepática. Não havia nenhum problema em “sentar-me”, é claro (…). Eu era capaz de avançar, mesmo que fosse por curtos períodos do dia. Eu não poderia fazer nenhum progresso com a parte realmente teórica. Meu cérebro não estava preparado para isso. Portanto, elaborei a seção sobre a “Jornada de trabalho” do ponto de vista histórico, que não fazia parte do meu plano original. (MARX; ENGELS, 2010k, pp. 223-4)80

Marx concluiu a carta com uma frase que resumiu bem esse período de sua vida: “Meu livro requer todo o meu tempo de escrita.” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 224)81 Isso foi ainda mais verdadeiro em 1866.

A situação estava agora preocupando seriamente Engels. Temendo o pior, ele interveio firmemente para persuadir Marx de que não poderia mais seguir no mesmo caminho:

Você realmente deve, por fim, fazer agora algo sensato para se livrar dessa bobagem de carbúnculo, mesmo que o livro seja atrasado por mais três meses. A coisa está realmente se tornando muito séria, e se, como você diz, seu cérebro não está à altura da parte teórica, então dê um pouco de descanso para a teoria mais elevada. Abra mão de trabalhar durante a noite por um tempo e leve uma vida muito mais normal. (MARX; ENGELS, 2010k, pp. 225-6)82

Engels imediatamente consultou o Dr. Gumpert, que aconselhou outro ciclo de arsênico, mas também fez algumas sugestões sobre a conclusão de seu livro. Ele queria ter certeza de que Marx havia abandonado a ideia fora da realidade de escrever todo O capital antes de ser publicada qualquer parte. “Você não pode organizar as coisas”, perguntou ele, “para que pelo menos o primeiro volume seja enviado para impressão antes e o segundo alguns meses depois?”83. Levando tudo em conta, ele terminou com uma observação sábia: “Qual seria o ganho nessas circunstâncias de ter talvez alguns capítulos do final do livro completos e nem sequer o primeiro volume em condições de ser impresso, caso os eventos nos surpreendam?” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 226)

Marx respondeu a cada um dos argumentos de Engels, alternando entre tons sérios e graciosos. No que dizia respeito ao arsênico, ele escreveu: “Diga ou escreva para Gumpert que me envie a receita com instruções de uso. Ele deve isso tão somente ao bem da ‘economia política’, ignorando a etiqueta profissional e me tratando de Manchester, eu confio nele.” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 227)84 Quanto aos seus planos de trabalho, escreveu:

No que diz respeito a este “maldito” livro, a posição agora é: estava pronto no final de dezembro. O tratado sobre a renda da terra sozinho, o penúltimo capítulo, na sua forma atual, é quase o suficiente para ser um livro em si mesmo85. Eu tenho ido ao Museu durante o dia e escrito à noite. Eu tive de arar a nova química agrícola alemã, em particular Liebig e Schönbein, que é mais importante para este assunto do que todos os economistas reunidos, bem como a enorme quantidade de material que os franceses produziram desde a última vez que lidei com esse ponto. Concluí minha investigação teórica sobre a renda da terra há dois anos. E muito se avançou, especialmente, no período posterior, confirmando incidentalmente toda a minha teoria. Além da abertura do Japão (em geral, eu não leio livros de viagem se não estou profissionalmente obrigado). Então, aqui estava a “mudança de sistema”, como foi aplicada por aqueles vira-latas dos fabricantes ingleses a uma e às mesmas pessoas em 1848-50, sendo aplicado por mim para mim. (MARX; ENGELS, 2010k, p. 227)86

Estudos diurnos na biblioteca para se manter atento às últimas descobertas e trabalho noturno em seu manuscrito: esta foi a rotina punitiva a que Marx se submeteu em um esforço para usar todas as suas energias na conclusão do livro. Sobre a tarefa principal, escreveu a Engels: “Embora pronto, o manuscrito, que na sua forma atual é gigantesco, não é adequado para ser publicado por ninguém além de mim mesmo, nem sequer você.” Deu então uma ideia sobre as semanas precedentes:

Eu comecei a copiar e a polir o estilo pontualmente em primeiro de janeiro, e tudo fluiu, já que eu naturalmente me divirto em lamber o bebê para limpá-lo após as longas dores do parto. Mas então o carbúnculo interveio novamente, de modo que, desde então, não consegui fazer mais progresso, apenas preencher com mais fatos as seções que estavam, de acordo com o plano, já terminadas. (MARX; ENGELS, 2010k, p. 227)87

No final das contas, ele aceitou o conselho de Engels para desdobrar o planejamento de publicação: “Concordo com você e entrego o primeiro volume a Meissner assim que estiver pronto.” “Mas”, acrescentou, “para concluí-lo, tenho de primeiro poder me sentar.” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 227)88

Em verdade, a saúde de Marx continuava a deteriorar-se. No final de fevereiro, dois grandes carbúnculos apareceram em seu corpo, e ele tentou tratá-los sozinho. Disse a Engels que usou uma “lâmina afiada” para se livrar do “mais alto”, lancinando “o vira-lata” sozinho. “O sangue infectado (…) jorrava, ou melhor, saltava no ar”, e a partir daí pensou que o carbúnculo estivesse “sepultado”, embora precisasse de “algum cuidado”. Quanto ao “mais baixo”, escreveu: “Está se tornando maligno e ficando além do meu controle. (…) Se esse negócio diabólico avança, eu terei de mandar buscar Allen, é claro, porque, devido ao local, não posso vê-lo e curá-lo sozinho.” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 231)89

Após esse relato angustiante, Engels repreendeu seu amigo mais severamente do que nunca: “Ninguém pode suportar uma sucessão tão crônica de carbúnculos por muito tempo, além do que, você pode eventualmente obter um que se torne tão agudo que seja o seu fim. E onde estarão seu livro e sua família então?” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 233)90 Para dar um pouco de alívio a Marx, ele disse que estava preparado para fazer qualquer sacrifício financeiro. Implorando-lhe que fosse “sensato”, sugeriu um período de descanso total:

Faça o único favor de curar-se, por mim e sua família. O que seria de todo o movimento se alguma coisa acontecesse a você, e da maneira como você está procedendo, esse será o resultado inevitável. Eu realmente não terei paz nenhum dia ou noite até que o tenha convencido desse objetivo, e cada dia que passa sem que ouça notícias suas, eu me preocupo e imagino que você esteja ainda pior. Nota bene. Você nunca mais deve deixar as coisas chegarem a tal ponto que um carbúnculo que realmente deveria ser lancetado não é lancetado. Isso é extremamente perigoso. (MARX; ENGELS, 2010k, pp. 233-4)91

Finalmente, Marx se deixou persuadir a fazer uma pausa do trabalho. Em 15 de março, viajou para Margate, uma estância balneária em Kent, e no décimo dia enviou um relatório sobre si:

Não estou lendo nada, não estou escrevendo nada. O simples fato de ter de tomar o arsênico três vezes ao dia obriga a organizar o tempo para as refeições e para passear. (…) No que diz respeito à vida social aqui, ela não existe, é claro. Eu posso cantar com o Miller of the Dee92: “Não me importo com ninguém e ninguém se importa comigo.” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 249)93

No início de abril, Marx disse a seu amigo Kugelmann que estava “recuperadíssimo”. Mas se queixou que, devido à interrupção, “outros dois meses ou mais” tinham sido completamente perdidos, e a conclusão de seu livro “atrasava mais uma vez” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 262)94. Depois de retornar a Londres, permaneceu paralisado por mais algumas semanas devido a um ataque de reumatismo e outros problemas; seu corpo ainda estava exausto e vulnerável. Embora tenha relatado a Engels no início de junho que, “felizmente, não houve recorrência de nada relacionado aos carbúnculos” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 281)95, estava infeliz porque seu trabalho vinha “progredindo mal devido a fatores puramente físicos” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 282)96.

Em julho, Marx teve de enfrentar aqueles que se tornaram seus três inimigos habituais: o periculum in mora (perigo da demora) de Tito Lívio, na forma do aluguel atrasado; os carbúnculos, com uma nova ferida pronta para surgir; e um fígado enfermo. Em agosto, assegurou a Engels que, embora sua saúde “oscila[sse] de um dia para o outro”, ele se sentia em geral melhor: afinal, “a sensação de estar apto a trabalhar novamente faz muito bem para um homem” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 303)97. Estava “ameaçado por um novo carbúnculo aqui e ali”, e, embora “seguissem desaparecendo” sem a necessidade de uma intervenção de urgência, obrigavam-no a manter suas “horas de trabalho muito estritas” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 311)98. No mesmo dia, escreveu a Kugelmann: “Não acho que seja capaz de entregar o manuscrito do primeiro volume (ele agora cresceu para três volumes) em Hamburgo antes de outubro. Eu só posso trabalhar de forma produtiva por poucas horas diárias sem sentir imediatamente os efeitos físicos.” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 312)99

Também desta vez, Marx estava sendo excessivamente otimista. O fluxo constante de fenômenos negativos, aos quais estava diariamente exposto na luta para sobreviver, mais uma vez provou ser um obstáculo para a conclusão do seu texto. Além disso, ele tinha de gastar um tempo precioso procurando maneiras de extrair pequenas somas de dinheiro da casa de penhores e escapar do tortuoso ciclo de notas promissórias no qual havia caído.

Escrevendo a Kugelmann em meados de outubro, Marx expressou o temor de que, como resultado de sua longa doença e de todas as despesas que ela implicou, ele não mais pudesse “manter os credores a distância”, e o teto estava “prestes a ruir sobre [sua] cabeça” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 328)100. Nem sequer em outubro, portanto, foi possível que ele desse os toques finais ao manuscrito. Ao descrever o estado das coisas a seu amigo em Hannover, e explicando os motivos da demora, Marx definiu o plano que agora tinha em mente:

Minhas circunstâncias (intermináveis interrupções, tanto físicas como sociais) me obrigam a publicar primeiro o Volume I, não ambos os volumes juntos, como eu pretendia originalmente. E agora haverá provavelmente três volumes. O trabalho todo está dividido nas seguintes partes:

Livro I. O processo de produção do capital.
Livro II. O processo de circulação do capital.
Livro III. Estrutura do processo como um todo.
Livro IV. Sobre a história da teoria.

O primeiro volume incluirá os primeiros dois livros. O terceiro livro, creio, enche o segundo volume, o quarto o terceiro. (MARX; ENGELS, 2010k, p. 328)101

Revisando o trabalho que fez desde a Contribuição para a crítica da economia política, que foi publicado em 1859, Marx continuou:

Era, na minha opinião, necessário começar de novo desde o início o primeiro livro, ou seja, resumir o meu livro, publicado por Duncker, em um capítulo sobre mercadoria e dinheiro. Eu julguei que isso fosse necessário, não apenas por causa da completude, mas porque mesmo as pessoas inteligentes não entenderam adequadamente a questão, em outras palavras, deve ter havido defeitos na primeira apresentação, especialmente na análise da mercadoria. (MARX; ENGELS, 2010k, pp. 328-9)102

A pobreza extrema também marcou o mês de novembro. Referindo-se a um terrível cotidiano que não permitia nenhum período de descanso, Marx escreveu a Engels: “Não só o meu trabalho foi frequentemente interrompido por tudo isso, como tentando compensar à noite o tempo perdido durante o dia adquiri um belo carbúnculo próximo ao meu pênis.” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 331)103 Mas ele estava desejoso por apontar que “nesse verão e outono, não foi em verdade a teoria que causou o atraso, mas [a sua] condição física e civil”. Se tivesse estado em boa saúde, teria sido capaz de completar o trabalho. Ele lembrou a Engels que fazia três anos desde que “o primeiro carbúnculo fora removido” – anos em que ele teve “apenas curtos períodos” de alívio (MARX; ENGELS, 2010k, p. 332)104. Além disso, tendo sido forçado a gastar tanto tempo e energia na luta diária contra a pobreza, observou em dezembro: “Apenas lamento que pessoas físicas não possam apresentar suas contas ao tribunal de falências com os mesmos direitos que os homens de negócios.”

A situação não mudou durante o inverno e, no final de fevereiro de 1867, Marx escreveu a seu amigo em Manchester (que nunca deixou de mandar o que pudesse): “Um armazém enviará os oficiais de justiça no sábado (depois de amanhã) se eu não pagar pelo menos £ 5. (…) O trabalho em breve estará completo, e teria sido hoje se eu estivesse sujeito nos últimos tempos a menos assédio.” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 347)105

No final de fevereiro de 1867, Marx finalmente conseguiu dar a Engels a tão esperada notícia de que o livro estava concluído. Agora ele tinha de levá-lo para a Alemanha, e mais uma vez foi obrigado a recorrer a seu amigo para que pudesse resgatar suas “roupas e relógio da estada na casa de penhor” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 351)106; caso contrário, não poderia partir.

Tendo chegado a Hamburgo, Marx discutiu com Engels o novo plano proposto por Meissner:
Ele agora quer que o livro seja publicado em três volumes. Em particular, ele se opõe à compressão do livro final (a parte histórico-literária) como eu pretendia. Ele disse que, do ponto de vista editorial, (…) esta era a parte para a qual estava reservando maior espaço. Eu disse a ele que, no que diz respeito a isso, eu estava ao seu comando. (MARX; ENGELS, 2010k, p. 357)107

Poucos dias depois, deu um informe similar a Becker:

Todo o trabalho será publicado em três volumes. O título é O capital: crítica da economia política. O primeiro volume compreende o primeiro livro: “O processo de produção do capital”. É sem sombra de dúvida o mais terrível míssil que já foi lançado sobre as cabeças da burguesia (proprietários fundiários inclusos). (MARX; ENGELS, 2010k, p. 358)108

Depois de alguns dias em Hamburgo, Marx seguiu viagem para Hannover. Ficou lá como convidado de Kugelmann, que finalmente o conheceu depois de anos de relações puramente epistolares. Marx permaneceu lá para o caso de Meissner querer que ele ajudasse com a leitura das provas. Escreveu a Engels que sua saúde estava “extraordinariamente melhor”. Não havia “nenhum vestígio da antiga queixa” ou seu “problema do fígado”, e que “ainda por cima, [ele estava] de bom humor” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 361)109. Seu amigo respondeu de Manchester:

Eu sempre tive a sensação de que aquele maldito livro, que você carregou durante tanto tempo, era o fundamento de todo o seu infortúnio, e você nunca iria nem poderia se livrar até que o tirasse de suas costas. Resistir eternamente a concluí-lo estava levando você física, mental e financeiramente ao chão, e eu posso muito bem entender como, depois de ter acordado deste pesadelo, você agora é um homem novo. (MARX; ENGELS, 2010k, p. 362)110

Marx queria informar aos outros sobre a próxima publicação do seu trabalho. Para Sigfrid Meyer (1840-72), membro socialista alemão da Internacional que atuava na organização do movimento operário em Nova York, escreveu: “O Volume I compreende o processo de produção do capital. (…) O Volume II contém a continuação e conclusão da teoria, o Volume III, a história da economia política a partir de meados do século XVII.” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 367)111

Em meados de junho, Engels se envolveu na correção do texto para publicação. Ele pensou que, em comparação com a Contribuição para a crítica da economia política de 1859, “a dialética do argumento tinha sido muito afiada” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 381)112. Marx foi encorajado por essa aprovação: “O fato de você estar satisfeito com isso até agora é mais importante para mim do que qualquer coisa que o resto do mundo possa dizer.” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 383)113 No entanto, Engels observou que sua exposição da forma do valor era excessivamente abstrata e insuficientemente clara para o leitor médio; também lamentou que precisamente esta importante seção tivesse “as marcas dos carbúnculos mais firmemente estampadas” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 380)114. Em resposta, Marx fulminou contra a causa de seus tormentos físicos – “Espero que a burguesia se lembre dos meus carbúnculos até o dia de sua morte” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 383)115 – e se convenceu da necessidade de um apêndice que apresentasse sua concepção da forma do valor de um modo mais popular. Este complemento de 20 páginas foi concluído no final de junho.

Marx completou as correções da prova às duas horas da manhã em 1 de agosto de 1867. Poucos minutos depois, escreveu para seu amigo em Manchester: “Caro Fred, acabei de corrigir a última folha (…). Então, este volume está concluído. Eu devo apenas a você que isso tenha sido possível! (…) Eu te abraço completamente agradecido.” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 405)116 Poucos dias depois, em outra carta a Engels, ele resumiu o que considerava os dois pilares principais do livro: “1. (isto é fundamental para toda a compreensão dos fatos) o duplo caráter do trabalho conforme se expressa em valor de uso ou valor de troca, que é trazido logo no primeiro capítulo; 2. O tratamento do mais-valor independentemente de suas formas particulares, como lucro, juros, renda da terra etc.” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 407)117.

O capital foi colocado à venda em 11 de setembro de 1867 (cf. MARX, 1983, p. 674). Seguindo as modificações finais, o índice dos conteúdos foi o seguinte:

Prefácio

  1. Mercadoria e dinheiro
  2. A transformação do dinheiro em capital
  3. A produção do mais-valor absoluto
  4. A produção do mais-valor relativo
  5. Pesquisas mais aprofundadas sobre a produção do mais-valor absoluto e relativo
  6. O processo de acumulação de capital

Apêndice à Parte I, 1: A forma do valor. (MARX, 1983, pp. 9-10)
Apesar do longo processo de correção e da adição final, a estrutura do trabalho seria amplamente expandida nos próximos anos e várias modificações adicionais seriam feitas no texto. Por conseguinte, mesmo após sua publicação, o volume continuou a absorver energias significativas por parte de Marx.

4. Em busca da versão definitiva
Em outubro de 1867, Marx voltou ao Volume II. Mas isso trouxe uma repetição de suas queixas médicas: dores no fígado, insônia e florescimento de “dois pequenos carbúnculos perto do membrum”. Nem as “incursões de fora” nem os “agravamentos da vida doméstica” o deixaram; havia certa amargura em sua sábia observação a Engels de que “minha doença sempre se origina na mente” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 453)118. Como sempre, seu amigo ajudou e enviou todo o dinheiro que podia, juntamente com a esperança de que “afastasse os carbúnculos” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 457)119. Não foi o que aconteceu e, no final de novembro, Marx escreveu para dizer: “O estado da minha saúde piorou muito, e praticamente não é possível trabalhar.” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 477)120

O novo ano, 1868, começou muito parecido ao modo como o antigo terminara. Durante as primeiras semanas de janeiro, Marx nem sequer conseguia responder a sua correspondência. Sua esposa, Jenny, confiou a Becker que seu “pobre marido tinha sido novamente acamado e tinha mãos e pés atados por sua antiga, séria e dolorosa queixa, que [estava] se tornando perigosa devido à sua constante recorrência” (MARX, 2010b, p. 580)121. Alguns dias depois, sua filha Laura relatou a Engels: “o Mouro é mais uma vez vítima de seus antigos inimigos, os carbúnculos e, pela chegada do último, sente-se muito desconfortável numa postura sentada” (MARX, 2010, p. 583)122. Marx começou a escrever novamente apenas no final do mês, quando disse a Engels que “durante 2-3 semanas” ele “não faria absolutamente nenhum trabalho”. “Seria terrível”, acrescentou, “se um terceiro monstro irrompesse.” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 528)123

O estado de saúde de Marx continuou a oscilar. No final de março, ele informou a Engels que a situação era tal que deveria “realmente desistir inteiramente de trabalhar e pensar por algum tempo”. Mas acrescentou que isso seria “difícil” para ele, mesmo que tivesse “os meios para ficar à toa” (MARX; ENGELS, 2010k, p. 557)124. A nova interrupção ocorreu exatamente quando estava recomeçando o trabalho na segunda versão do Volume II – depois de um hiato de quase três anos, desde a primeira metade de 1865. Ele completou os dois primeiros capítulos no decorrer da primavera (Cf. MARX, 2008, pp. 1-339), além de um grupo de manuscritos preparatórios – sobre a relação entre o mais-valor e a taxa de lucro, a lei da taxa de lucro e as metamorfoses do capital – que o ocuparam até o final de 1868 125.

No final de abril de 1868, Marx enviou a Engels um novo esquema para seu trabalho, com particular referência ao “modo pelo qual a taxa de lucro se desenvolve”126. Na mesma carta, deixou claro que o Volume II apresentaria o “processo de circulação do capital com base nas premissas desenvolvidas” no Volume I. Ele pretendia estabelecer, de forma tão satisfatória quanto possível, as “determinações formais” do capital fixo, capital circulante e volume de negócios do capital – e, portanto, investigar “a intercalação social dos diferentes capitais, partes de capital e de receita (= d)”. O Volume III seria então “a conversão do valor excedente em suas diferentes formas e partes separadas” (MARX; ENGELS, 2010l, p. 21)127.

Em maio, no entanto, os problemas de saúde voltaram e, depois de um período de silêncio, Marx explicou a Engels que “dois carbúnculos no escroto talvez deixassem mesmo Sulla rabugento” (MARX; ENGELS, 2010l, p. 35)128. Na segunda semana de agosto, ele contou a Kugelmann da sua esperança de terminar todo o trabalho “no final de setembro de 1869” (MARX; ENGELS, 2010l, p. 82)129. Mas o outono trouxe um surto de carbúnculos e, na primavera de 1869, quando Marx ainda estava trabalhando no terceiro capítulo do Volume II130, seu fígado também piorou mais uma vez. Os seus infortúnios continuaram nos anos seguintes com uma regularidade incômoda e impediram-no para sempre de completar o Volume II.

Havia também razões teóricas para o atraso. Desde o outono de 1868 até a primavera de 1869, determinado a dar conta dos últimos desenvolvimentos do capitalismo, Marx compilou copiosos trechos de textos sobre os mercados financeiros e monetários que apareceram em The Money Market Review, The Economist e publicações similares131. Além disso, no outono de 1869, tendo tomado conhecimento de literatura nova (na realidade, insignificante) sobre mudanças na Rússia, decidiu aprender russo para que pudesse estudar o assunto por si mesmo. Ele perseguiu esse novo interesse com seu rigor habitual e, no início de 1870, Jenny disse a Engels que, “em vez de cuidar de si [ele havia começado] a estudar martelos e pinças russas, saía raramente, comia com pouca frequência e mostrou o carbúnculo sob o braço apenas quando já estava muito inchado e tinha endurecido” (MARX, 2010c, p. 551)132. Engels se apressou em escrever para o amigo, tentando convencê-lo de que “no interesse do Volume II” ele precisava de “uma mudança de estilo de vida”; caso contrário, se houvesse “repetição constante de tais suspensões”, ele nunca terminaria o livro (MARX; ENGELS, 2010l, p. 408)133.

A previsão foi certeira. No início do verão, resumindo o que aconteceu nos meses anteriores, Marx disse a Kugelmann que seu trabalho tinha sido “aguentar a doença durante todo o inverno” e que “acho[u] necessário melhorar [o seu] russo, pois, ao lidar com a questão da terra, isso se tornou essencial para estudar as relações de propriedade das terras russas a partir de fontes primárias” (MARX; ENGELS, 2010l, p. 528)134.

Depois de todas as interrupções e de um período de intensa atividade política junto da Internacional, após o nascimento da Comuna de Paris, Marx voltou-se para uma nova edição do Volume I. Insatisfeito com a maneira como expusera a teoria do valor, ele passou dezembro de 1871 e janeiro de 1872 reescrevendo o apêndice de 1867, o que levou a reescrever o primeiro capítulo em si (cf. MARX, 1983, pp. 1-55). Nesta ocasião, além de um pequeno número de adições, também modificou toda a estrutura do livro135.

Correções e reformulações também afetaram a tradução francesa. A partir de março de 1872, Marx teve de trabalhar na correção dos rascunhos que foram impressos em fascículos entre 1872 e 1875 (cf. MARX, 1989). Ao longo das revisões, ele decidiu fazer mais mudanças no texto básico, principalmente na seção sobre acumulação de capital. No postscriptum da edição francesa, não hesitou em atribuir-lhes “um valor científico independente do original” (MARX; ENGELS, 2010g, p. 24).

Embora o ritmo tenha sido menos intenso do que antes – por causa do estado precário de sua saúde e porque ele precisava ampliar seu conhecimento em algumas áreas –, Marx continuou a trabalhar em O capital durante os últimos anos de sua vida. Em 1875, escreveu outro manuscrito para o Volume III, intitulado “Relação entre taxa de valor excedente e taxa de lucro desenvolvida matematicamente” (cf. MARX, 2003, pp. 19-150) e, entre outubro de 1876 e início de 1881, preparou novos rascunhos de seções do Volume II (cf. MARX, 2008, pp. 525-828). Algumas de suas cartas indicam que, se tivesse sido capaz de alimentar os resultados de sua incessante pesquisa, ele teria atualizado o Volume I também (MARX; ENGELS, 2010m, p.161)136.

O espírito crítico com o qual Marx compôs seu magnum opus revela quão distante ele estava do autor dogmático que a maioria de seus adversários e muitos autodeclarados discípulos apresentaram ao mundo. Apesar de permanecer inacabado137, aqueles que hoje queiram usar conceitos teóricos essenciais para a crítica do modo de produção capitalista ainda não podem dispensar a leitura de O capital de Marx.

Referências
1. Artigo inédito. Traduzido por Murilo Leite Pereira Neto (professor substituto na UFJF) e Carolina Peters (graduanda em letras pela UFRJ). Revisado por Vânia Noeli Ferreira de Assunção.
2. Doutor, professor de ciência política da York University (Toronto, Canadá). No Brasil, organizou a obra Trabalhadores, uni-vos! Antologia política da I Internacional (Boitempo, 2015). Endereço eletrônico: marcello.musto@gmail.
3. Karl Marx para Friedrich Engels, 8 dez. 1857. O título posteriormente conferido a esses manuscritos foi inspirado por essa carta.
4. Cf. o recém-publicado volume MEGA2, IV/14 (MARX; ENGELS, 2017).
5. Karl Marx para Friedrich Engels, 18 dez. 1857. Poucos dias depois, Marx comunicou seus planos a Lassalle (Karl Marx para Ferdinand Lassalle, 21 dez. 1857): “A atual crise comercial me impeliu a trabalhar seriamente nos fundamentos da economia política e, também, a preparar algo sobre a presente crise.” (MARX; ENGELS, 2010i, p. 226)
6. Karl Marx para Ferdinand Lassalle, 22 fev. 1858.
7. Esses cadernos totalizam 1.472 páginas quarto [quarto pages]. Cf. Friedrich Engels, “Preface to the first German edition” (MARX; ENGELS, 2010h, p. 6).
8. Anteriormente, nos Grundrisse, Marx havia estabelecido uma “organização do material” similar, embora menos precisa, em quatro pontos distintos (MARX, 1993, pp. 108; 227-8; 264; 275). Ele também antecipou o esquema de seis partes planejado para a Contribuição para a crítica da economia política em duas cartas do primeiro semestre de 1858: uma para Ferdinand Lassalle, de 22 de fevereiro de 1858 (cf. MARX; ENGELS, 2010i, pp. 268-71), e outra para Friedrich Engels, em 2 de abril de 1858 (cf. MARX; ENGELS, 2010i, pp. 296-304). Entre fevereiro e março de 1859, ele também rascunhou um longo índice preparatório para o seu trabalho, que na edição em língua inglesa dos Grundrisse aparece como “Analytical contents list” (MARX, 1993, pp. 69-80). Sobre o plano original e suas variações, ver o agora datado, mas ainda fundamental trabalho de Roman Rosdolsky (1977, pp. 1-62). Mais limitado, contudo, é Maximilien Rubel (1974, pp. 379; 389), o qual alega que Marx não modificou o plano original concebido em 1857.
9. Esses cadernos foram ignorados por mais de 100 anos, antes que uma tradução russa fosse finalmente publicada em 1973, no volume suplementar 47 da Marx-Engels Sochinenya. Uma edição original em alemão foi publicada somente em 1976 na MEGA2, v. II/3.1 (MARX; ENGELS, 1976).
10. Karl Marx para Friedrich Engels, 30 out. 1861.
11. Karl Marx para Friedrich Engels, 9 dez. 1861.
12. Karl Marx para Friedrich Engels, 9 dez. 1861.
13. Karl Marx para Friedrich Engels, 27 dez. 1861.
14. Karl Marx para Friedrich Engels, 3 mar. 1862.
15. Karl Marx para Friedrich Engels, 15 mar. 1862.
16. Entre 1905 e 1910, Kautsky publicou os manuscritos em questão de uma forma um tanto divergente dos originais.
17. Deveria seguir: 1) A transformação do dinheiro em capital; 2) Mais-valor absoluto; 3) Mais-valor relativo; e 4) Uma seção – nunca escrita de fato – sobre como estas três deveriam ser consideradas em conjunto.
18. Em Marx and Engels collected works (MECW), esses manuscritos – Theories of surplus-value – são indicados com o título Economic manuscript of 1861-3.
19. Karl Marx para Ferdinand Lassalle, 28 abr. 1862.
20. Karl Marx para Friedrich Engels, 18 jun. 1862.
21. Karl Marx para Friedrich Engels, 18 jun. 1862.
22. Karl Marx para Friedrich Engels, 2 ago. 1862.
23. Esses cadernos são parte de Theories of surplus value v. II (MARX; ENGELS, 2010d).
24. Karl Marx para Friedrich Engels, 2 ago. 1862.
25. Karl Marx para Friedrich Engels, 2 ago. 1862.
26. Karl Marx para Friedrich Engels, 7 ago. 1862.
27. Karl Marx para Friedrich Engels, 10 set. 1862.
28. Karl Marx para Ludwig Kugelmann, 28 dez. 1862.
29. Karl Marx para Ferdinand Lassalle, 7 nov. 1862.
30. Karl Marx para Ferdinand Lassalle, 7 nov. 1862.
31. Este é o último caderno que conforma as Teorias do mais-valor v. III.
32. Karl Marx para Ludwig Kugelmann, 28 dez. 1862.
33. Cf. o esquema dos Grundrisse, escrito em junho de 1858 e contido no Caderno M (o mesmo da “Introdução de 1857”), bem como o esboço de esquema para o terceiro capítulo, escrito em 1860: MARX, “Draft plan of the chapter on Capital” (MARX; ENGELS, 2010b, pp. 511-7).
34. Karl Marx para Ludwig Kugelmann, 28 dez. 1862. Essa afirmação parece indicar que Marx percebeu o quão difícil seria completar seu projeto original em seis tomos. Cf. Michael Heinrich (2009, p. 80).
35. Karl Marx para Ludwig Kugelmann, 28 dez. 1862.
36. O primeiro capítulo já havia sido delineado no Caderno XVI dos manuscritos econômicos de 1861-3. Marx preparou um esquema do segundo no Caderno XVIII (MARX; ENGELS, 2010e, p. 299).
37. Karl Marx para Friedrich Engels, 8 jan. 1863.
38. Karl Marx para Friedrich Engels, 13 jan. 1863.
39. Karl Marx para Friedrich Engels, 13 fev. 1863.
40. Karl Marx para Friedrich Engels, 21 fev. 1863.
41. Karl Marx para Friedrich Engels, 24 mar. 1863.
42. Ver as mais de 60 páginas contidas em IISH, Marx-Engels Papers, B 98. Com base nessa pesquisa, Marx deu início a um dos seus muitos projetos inacabados, cf. Marx (1961).
43. Karl Marx para Friedrich Engels, 29 maio 1863.
44. Cf. IISH, Marx-Engels Papers, B 93, B 100, B 101, B 102, B 103, B 104 contêm cerca de 535 páginas de notas. A elas devem-se adicionar os três cadernos RGASPI f.1, d. 1397, d. 1691, d. 5583. Marx usou parte deste material para a compilação dos Cadernos XXII e XXIII.
45. Karl Marx para Friedrich Engels, 29 maio 1863.
46. Karl Marx para Friedrich Engels, 12 jun. 1863.
47. Karl Marx para Friedrich Engels, 6 jul. 1863.
48. Cf. Michael Heinrich (2011, pp. 176-9), que argumenta que os manuscritos deste período devem ser tomados não como a terceira versão do trabalho iniciado com os Grundrisse, mas como o primeiro esboço de O capital.
49. “Nº 1”: quer dizer, a Contribuição para a crítica da economia política, de 1859.
50. Karl Marx para Friedrich Engels, 15 ago. 1863.
51. Nos últimos anos, dermatologistas atualizaram a discussão sobre as causas da doença de Marx. Sam Shuster (2008, pp. 1-3) sugeriu que ele sofresse de hidradenite supurativa, enquanto Rudolf Happle e Arne Koenig (2008, pp. 255-6) alegaram, de forma ainda menos plausível, que o culpado seria o intenso fumo de charutos. Para a resposta de Shuster a essa sugestão, ver Rudolf Happle e Arne Koenig (2008, p. 256).
52. Karl Marx para Friedrich Engels, 2 dez. 1863.
53. Karl Marx para Friedrich Engels, 4 dez. 1863.
54. Karl Marx para Friedrich Engels, 20 jan. 1864.
55. Karl Marx para Friedrich Engels, 26 maio 1864.
56. Cf. Karl Marx para Friedrich Engels, 1 jul. 1864.
57. Karl Marx para Carl Klings, 4 out. 1864.
58. Karl Marx para Friedrich Engels, 4 nov. 1864.
59. Karl Marx para Friedrich Engels, 14 nov. 1864.
60. Karl Marx para Friedrich Engels, 2 dez. 1864.
61. Karl Marx para Friedrich Engels, 25 fev. 1864.
62. Karl Marx para Friedrich Engels, 4 mar. 1865.
63. Karl Marx para Friedrich Engels, 13 mar. 1865.
64. Cinquenta assinaturas eram equivalentes a 800 páginas impressas.
65. “Agreement between Mr. Karl Marx and Mr. Otto Meissner, publisher and bookseller” [Acordo entre o Sr. Karl Marx e o Sr. Otto Meissner, editor e distribuidor de livros].
66. Karl Marx para Friedrich Engels, 22 abr. 1865.
67. Karl Marx para Friedrich Engels, 13 maio 1865.
68. Karl Marx para Friedrich Engels, 20 maio 1865.
69. Esse texto foi publicado em 1898 por Eleanor Marx como Value, price and profit [Valor, preço e lucro]. O título usual serviu de base para a tradução alemã que foi publicada no mesmo ano em Die Neue Zeit [O Novo Tempo].
70. Karl Marx para Friedrich Engels, 31 jul. 1865.
71. O equivalente a 960 páginas. Posteriormente, Meissner assinalou sua abertura para modificar seu contrato com Marx. Cf. Karl Marx para Friedrich Engels, 13 abr. 1867 (MARX; ENGELS, 2010k, p. 357).
72. Karl Marx para Friedrich Engels, 5 ago. 1865.
73. Karl Marx para Friedrich Engels, 5 ago. 1865.
74. Essa divisão foi seguida por Engels quando publicou O capital, Volume III, em 1894. Cf. Carl-Erich Vollgraf, Jürgen Jungnickel e Stephen Naron (2002, pp. 35-78); e também o mais recente Carl-Erich Vollgraf (2013, pp. 113-33) e Regina Roth (2013, pp. 168-82 [Ed. bras: 2015]). Para uma avaliação crítica da edição de Engels, ver Michael Heinrich (1997, pp. 452-66). Um ponto de vista diferente está contido em: Michael R. Krätke (2017), especialmente o capítulo final “Gibt es ein Marx-Engels-Problem?”.
75. Karl Marx para Friedrich Engels, 8 nov. 1865.
76. Karl Marx para Wilhelm Liebknecht, 15 jan. 1866.
77. Karl Marx para Ludwig Kugelmann, 15 jan. 1866.
78. Jenny Marx para Johann Philipp Becker, 29 jan. 1866.
79. Karl Marx para Friedrich Engels, 10 fev. 1866.
80. Karl Marx para Friedrich Engels, 10 fev. 1866.
81. Karl Marx para Friedrich Engels, 10 fev. 1866.
82. Friedrich Engels para Karl Marx, 10 fev. 1866.
83. Friedrich Engels para Karl Marx, 10 fev. 1866.
84. Karl Marx para Friedrich Engels, 13 fev. 1866.
85. Marx depois inseriu a seção sobre renda da terra na Parte Seis do Volume III: “Transformação do lucro excedente em renda fundiária”.
86. Karl Marx para Friedrich Engels, 13 fev. 1866.
87. Karl Marx para Friedrich Engels, 13 fev. 1866.
88. Karl Marx para Friedrich Engels, 13 fev. 1866.
89. Karl Marx para Friedrich Engels, 20 fev. 1866.
90. Friedrich Engels para Karl Marx, 22 fev. 1866.
91. Friedrich Engels para Karl Marx, 22 fev. 1866.
92. Uma canção tradicional do folclore inglês.
93. Karl Marx para Friedrich Engels, 24 mar. 1866.
94. Karl Marx para Ludwig Kugelmann, 6 abr. 1866.
95. Karl Marx para Friedrich Engels, 7 jun. 1866.
96. Karl Marx para Friedrich Engels, 9 jun. 1866.
97. Karl Marx para Friedrich Engels, 7 ago. 1866.
98. Karl Marx para Friedrich Engels, 23 ago. 1866.
99. Karl Marx para Ludwig Kugelmann, 23 ago. 1866.
100. Karl Marx para Ludwig Kugelmann, 13 out. 1866.
101. Karl Marx para Ludwig Kugelmann, 13 out. 1866.
102. Karl Marx para Ludwig Kugelmann, 13 out. 1866.
103. Karl Marx para Friedrich Engels, 8 nov. 1866.
104. Karl Marx para Friedrich Engels, 10 nov. 1866.
105. Karl Marx para Friedrich Engels, 21 fev. 1867.
106. Karl Marx para Friedrich Engels, 2 abr. 1867.
107. Karl Marx para Friedrich Engels, 13 abr. 1867.
108. Karl Mark para Johann Philipp Becker, 17 abr. 1867.
109. Karl Marx para Friedrich Engels, 24 abr. 1867.
110. Friedrich Engels para Karl Marx, 27 abr. 1867.
111. Karl Marx para Sigfrid Meyer, 30 abr. 1867.
112. Friedrich Engels para Karl Marx, 16 jun. 1867.
113. Karl Marx para Friedrich Engels, 22 jun. 1867.
114. Friedrich Engels para Karl Marx, 16 jun. 1867.
115. Karl Marx para Friedrich Engels, 22 jun. 1867.
116. Karl Marx para Friedrich Engels, 24 ago. 1867.
117. Karl Marx para Friedrich Engels, 24 ago. 1867.
118. Karl Marx para Friedrich Engels, 19 out. 1867.
119. Friedrich Engels para Karl Marx, 22 out. 1867.
120. Karl Marx para Friedrich Engels, 27 nov. 1867.
121. Jenny Marx para Johann Philipp Becker, após 10 jan. 1868.
122. Laura Marx para Friedrich Engels, 13 jan. 1868.
123. Karl Marx para Friedrich Engels, 25 jan. 1868.
124. Karl Marx para Friedrich Engels, 25 mar. 1868.
125. Esses textos foram recentemente publicados (MARX, 2012, pp. 78-234; 285-363). A última parte constitui o Manuscrito IV do Volume II e contém novas versões da Parte Um, “A circulação do capital”, e Parte Dois, “As metamorfoses do capital”.
126. Karl Marx para Friedrich Engels, 30 abr. 1868.
127. Karl Marx para Friedrich Engels, 30 abr. 1868.
128. Karl Marx para Friedrich Engels, 16 maio 1868.
129. Karl Marx para Ludwig Kugelmann, 10 ago. 1868.
130. Cf. Marx (2008, pp. 340-522).
131 Ainda não publicadas, essas notas estão incluídas nos cadernos do IISH, Marx-Engels Papers, B 108, B 109, B 113 e B 114.
132. Jenny Marx para Friedrich Engels, por volta de 17 jan. 1870.
133. Friedrich Engels para Karl Marx, 19 jan. 1870.
134. Karl Marx para Ludwig Kugelmann, 27 jun. 1870.
135. Em 1867, Marx dividiu o livro em capítulos. Em 1872, eles se tornaram seções, cada uma com subdivisões muito mais detalhadas.
136. Karl Marx para Nikolai Danielson, 13 dez. 1881.
137. O trabalho editorial que Engels assumiu para preparar as partes inconclusas de O capital para a publicação após a morte de seu amigo foi extremamente complexo. Deve-se ter em mente que o texto em questão foi preparado com base em material incompleto e muitas vezes heterogêneo, escrito por Marx em distintos períodos de sua vida, alguns dos quais continham observações diferentes de outras encontradas em outras partes de O capital. Ainda assim, Engels publicou o Volume II em 1885 e o Volume III em 1894.

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Como citar:
MUSTO, Marcello. A escrita de O capital: gênese e estrutura da crítica de Marx à economia política. Trad. Murilo Leite Pereira Neto e Carolina Peters. Verinotio – Revista on-line de Filosofia e Ciências Humanas, Rio das Ostras, v. 24, n. 1, pp. 23-57, abr./2018.

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La Higuera: 50 anos depois, repensando o Che

Para visitar Vallagrande, o lugar onde Ernesto Che Guevara passou as últimas semanas da sua vida, é preciso fazer uma viagem muito longa. Primeiro temos que chegar em Santa Cruz, a cidade mais povoada da Bolívia e ali tomar um dos velhos e maltratados ônibus que percorrem uma sinuosa estrada montanhosa que se encontra em péssimo estado.

Entretanto, nestes dias, Vallagrande está cheio de militantes (especialmente jovens) que vêm de muitas cidades do país, assim como dos mais diversos países, pelo motivo do quinquagésimo aniversário da morte do revolucionário latino-americano.

Muitos se aproximam do hospital Nuestro Señor de Malta , em cuja lavanderia foi fotografado e exibido ao público pela última vez o corpo do Che, já sem vida, mas com os olhos ainda abertos. Aqui, como em outras províncias da Bolívia, trabalham grupos de médicos cubanos que atendem na Bolívia graças a um projeto solidário concebido por Fidel Castro depois da eleição de Evo Morales que tem como objetivo a criação de centros de saúde para melhorar os índices de assistência e atenção na região.

A poucos quilômetros do centro da cidade se encontra a fossa comum – recentemente convertida em um museu – onde, na noite entre o dia 10 e 11 de outubro de 1967, depois de terem amputado as suas mãos, foi enterrado em segredo junto com seis guerrilheiros de sua coluna. O lugar é distante cerca de 150 metros da pequena pista de avião e do quartel militar onde os rangers bolivianos , orientados por agentes da CIA, levaram a cabo as operações de rastreamento para capturar Guevara. Seus restos somente aparecem depois de 30 anos, graças a investigações de uma equipe cubano-argentina. Hoje se conservam em um mausoléu em Santa Clara, a cidade onde, em dezembro de 1958, o Che dirigiu a batalha decisiva que marcou o final do regime de Fulgencio Batista e o triunfo da revolução em Cuba.

Além de visitar esses dois lugares, quem estes dias chegam às ruas de Vallgrande tem participado de apresentações de livros, debates, exposições fotográficas e uma manifestação final, com a presença de uma ampla delegação cubana – incluindo a família de Che Guevara (o programa do evento pode ser consultado no site).

Demora três horas de viagem de Vallgrande até La Higuera. Somente se pode chegar de Jeep porque o caminho que se conduz a esse pequeno povoado de apenas cinquenta casas, situado a mais de 2000 metros acima do nível do mar, não está afastado e é cheio de curvas. É um lugar isolado, ainda longe do mundo de hoje.

No caminho se cruza com alguns camponeses. Eles cruzam a estrada acidentada , caminhando lentamente, tristes, com suas ferramentas de trabalho atrás deles. Não parece que tem mudado muito desde que o Che atravessou estes vales, com a intenção de derrotar a ditadura militar do general René Barrientos.

Guevara elegeu a Bolívia não porque foi guiado, como às vezes é atribuído a ele injustamente, a idéia de reproduzir mecanicamente as estratégias políticos e militares aplicadas em Cuba. Estava convencido, entretanto, da necessidade de desenvolver um processo revolucionário que afetasse todo o cone sul. Um projeto supranacional que desde a Bolívia fosse capaz de estender-se ao Perú e a Argentina, para evitar que os Estados Unidos interviessem e pudessem aniquilar um foco único, e portanto mais débil, de resistência local. No centro do continente e rodeado por cinco países, Bolívia parecia o local mais adequado onde começar a formação de um grupo de quadros a quem confiar, depois de treinados, a tarefa de organizar as diferentes frentes de luta em toda a América latina.

O Che fundou o Exército de Libertação da Bolívia com somente 45 guerrilheiros. Na introdução ao diário da Bolívia, Fidel Castro escreveu: “Impressiona profundamente a proeza realizada por este punhado de revolucionários. A solitária luta contra a natureza hostil em que desenvolviam sua ação constitui uma insuperável página de heroísmo. Nunca na história um número tão reduzido de homens empreendeu uma tarefa tão gigantesca.”

A morte atingiu muitos deles inesperadamente, 11 meses depois do início da guerrilha. No 8 de outubro de 1967, de fato, o Che, surpreendido em Yuro junto com outros 16 companheiros, foi ferido na perna esquerda e capturado depois de três horas de combate. Transportado a vizinha La Higuera, foi assassinado no dia seguinte, por ordem de Barrientos.

Depois da execução, o exército boliviano se apoderou da mochila de Che e de todos os documentos que havia dentro. Os dois cadernos com os diários da Bolívia puderam chegar rapidamente a Cuba. Pelo contrário, outro grupo de textos curtos apareceu muito mais tarde e se publicou em 1998 com o título Antes de Morrer: apontamentos e notas de leitura. Nestas páginas, Guevara copiou as passagens mais importantes de suas leituras e resumiu alguns dos estudos que estava fazendo, apesar das difíceis condições em que se encontrava. Essas notas foram escritas nos raros momentos de descanso e constituem uma prova a mais de sua extraordinária determinação. Assim, critica a falta de profundidade de análise do sociólogo Charles Wrigth Mills cujo Os Marxistas Che leu e resumiu: o definiu como “um claro exemplo da intelectualidade liberal de esquerda norte-americana”. Gyorgy Lukács, ao contrário, foi muito útil, já que o ajudou a entender a “complexidade da filosofia hegeliana”. Como guia para seus estudos de filosofia, Che utilizou o manual editado pelo cientista soviético Miguel Dynnik e o antiduring de Engels, do qual apreciou mais do que qualquer coisa “seus pensamentos inconclusos sobre a dialética”. Dedicava várias partes a História da Revolução Russa de Leon Trotsky, as vezes criticava, mas que, em sua opinião, era uma “fonte de importância essencial” sobre o nascimento do poder soviético. Por último, Guevara também se dedicou ao estudos dos autores locais e, ao comentar um livro intitulado Sobre o problema Nacional e Colonial da Bolívia assinala que defendia “uma tese interessante”, já que considerava esse país “como um estado multinacional”.

Completam esta página de notas um roteiro de um projeto de estudos dos diferentes modos de produção , desde os pré-capitalistas até o socialismo. Nele se afirma que ” Marx tinha razão” em relação a pauperização do proletariado, mas também que “não previu o fenômeno imperialista. Atualmente os trabalhadores dos países imperialistas são sócios minoritários do sistema.”

Além do estudo teórico, em suas últimas notas o Che copiou três poemas do escritor nicaraguense Rúben Dario. Nos versos finais dos últimos deles, Litania do Nosso Senhor Don Quixote, se descreve um personagem que, em muitos aspectos, é como ele: ” Cavaleiro errante entre os cavaleiros, (…) nobre peregrino entre os peregrinos, que santificaste todos os caminhos, com o passo de admiração pelo seu heroísmo, contra as certezas, contra as consciências, e contra as leis e contra as ciências, contra a mentira , contra a verdade. (…) Que força que você inspira e faz sonhar, coroada com um áureo capacete de ilusão, que ninguém ainda conseguiu vencer, ao longe, toda a fantasia e a lança em riste, coração inteiro.”

Isso é o que pensam dele todos os jovens que chegaram essa semana a La Higuera, para recordar ao Che e para deixar novas pegadas na longa e difícil rota que ele empreendeu.

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Como nasceu a obra O Capital

Eis o artigo.

A obra que, talvez mais que qualquer outra, contribuiu para mudar o mundo nos últimos 150 anos, teve uma gestação longa e muito difícil. Marx começou a escrever O Capital só muitos anos após iniciar seus estudos de economia política.

Se já a partir de 1844 havia criticado a propriedade privada e o trabalho alienado da sociedade capitalista, foi somente após o pânico financeiro de 1857 – que começou nos Estados Unidos e depois se estendeu a Europa – que se sentiu obrigado a deixar de lado sua incessante pesquisa e começar a redigir o que chamava sua “Economia”.

Crise, os Grundrisse e pobreza

Com o início da crise, Marx antecipou o nascimento de uma nova fase de convulsões sociais e considerou que o mais urgente era proporcionar ao proletariado a crítica ao modo de produção capitalista, um requisito prévio para superá-lo. Desse modo, nasceram os Grundrisse, oito cadernos nos quais examinou as formações econômicas pré-capitalistas e descreveu algumas características da sociedade comunista, ressaltando a importância da liberdade e do desenvolvimento dos indivíduos. O movimento revolucionário que surgiria por causa da crise ficou em uma ilusão e Marx não publicou seus manuscritos, consciente da distância que ainda estava do domínio total dos temas que enfrentava. A única parte publicada, após uma profunda reelaboração do capítulo sobre o dinheiro, foi a Contribuição à Crítica da Economia Política, um texto distribuído em 1859 e revisado por uma só pessoa: Engels.

O projeto de Marx era dividir sua obra em seis livros. Deveriam se dedicar ao capital, à propriedade da terra, ao trabalho assalariado, ao Estado, ao comércio exterior e ao mercado mundial. Contudo, em 1862, como resultado da guerra de secessão estadunidense, oNew York Tribune despediu seus colaboradores europeus. Marx – que trabalhou para o jornal durante mais de uma década – e sua família voltaram a viver em condições de terrível pobreza, as mesmas que haviam sofrido durante os primeiros anos de seu exílio em Londres. Só contava com a ajuda de Engels, a quem escrevia: “Todos os dias, minha esposa me diz que preferiria estar em uma sepultura com as pequenas e, na verdade, não posso culpá-la, dadas as humilhações e sofrimentos que estamos padecendo, realmente indescritíveis”. Sua condição era tão desesperadora que, nas semanas mais sombrias, faltava comida para as filhas e papel para escrever. Buscou emprego em um escritório das ferrovias. A vaga, no entanto, não lhe foi concedida por causa de sua letra ruim. Portanto, para enfrentar a indigência, a obra de Marx esteve sujeita a grandes atrasos.

A mais-valia e o carbúnculo

Neste período, em um longo manuscrito intitulado Teorias sobre a Mais-Valia, realizou uma profunda crítica ao modo como todos os grandes economistas haviam tratado erroneamente a mais-valia como lucro ou renda. Para Marx, no entanto, era a forma específica pela qual se manifesta a exploração no capitalismo. Os trabalhadores passam parte de seu dia trabalhando para o capitalista de forma gratuita. Este último busca de todas as formas possíveis gerar mais-valia por meio do trabalho excedente: “Não basta que o trabalhador produza em geral, deve produzir mais-valia”, ou seja, servir à autovalorização do capital. O roubo de inclusive alguns poucos minutos da comida ou do descanso de cada trabalhador significa transferir uma enorme quantidade de riqueza aos bolsos dos patrões. O desenvolvimento intelectual, cumprir as funções sociais e os dias festivos são para o capital “puras e simples bagatelas”.

Après moi le déluge (depois de mim, o dilúvio) era para Marx o lema dos capitalistas, ainda que pudessem, hipocritamente, se opor à legislação sobre as fábricas em nome da “liberdade plena do trabalho”. A redução da jornada de trabalho e o aumento do valor da força de trabalho foi, portanto, o primeiro terreno da luta de classes.

Em 1862, Marx escolheu o título de seu livro: O Capital. Acreditava que podia começar imediatamente a redigi-lo, no entanto, às já graves vicissitudes financeiras se somaram problemas de saúde. De fato, o que sua esposa Jenny descreveu como “a terrível enfermidade” contra a qual Marx precisaria lutar muitos anos de sua vida era o carbúnculo, uma horrível infecção que se manifesta em várias partes do corpo com uma série de abscessos cutâneos e uma extensa e debilitante furunculose. Marx foi operado e “sua vida permaneceu durante muito tempo em perigo”. Sua família estava à beira do abismo.

O Moro (este era seu apelido) se recuperou e até dezembro de 1865 se dedicou a escrever o que se converteria em sua autêntica obra magna. Além disso, a partir do outono de 1864 assistiu assiduamente as reuniões da Associação Internacional de Trabalhadores, para a qual escreveu durante oito anos seus principais documentos políticos. Estudar durante o dia na biblioteca, para se inteirar das novas descobertas, e seguir trabalhando em seu manuscrito durante toda a noite: esta foi a esgotadora rotina a qual Marx se submeteu até a exaustão de todas as suas energias e o esgotamento de seu corpo.

Um todo artístico

Ainda que havia reduzido seu projeto de seis para três volumes sobre O Capital, Marx não quis abandonar seu propósito de publicá-los juntos. De fato, escreveu a Engels: “Não posso decidir sobre o que abrir mão, antes de tudo estar diante de mim, sejam quais forem os defeitos que possam ter, este é o valor de meus livros: todos formam um todo artístico, alcançável somente graças ao meu sistema de não o entregar ao impressor antes de tê-lo completo diante de mim”.

O dilema de “corrigir uma parte do manuscrito e entregá-lo ao editor ou terminar de escrever tudo” foi resolvido pelos acontecimentos. Marx sofreu outro ataque bestial de carbúnculo, o mais virulento de todos. A Engels disse que havia “perdido a pele”. Os médicos lhe disseram que a recaída se deu em razão do excesso de trabalho e as contínuas vigílias noturnas. Marx se concentrou no livro um: O processo de produção do capital.

Os furúnculos seguiram o atormentando e, durante semanas, Marx nem sequer pôde se sentar. Tentou se operar. Procurou uma navalha e disse a Engels que tentou extirpar essa maldita coisa. Desta vez, o encerramento de sua obra não foi postergado pela “teoria”, mas, sim, por “razões físicas e burguesas”.

Em abril de 1867, o manuscrito foi finalmente concluído. Marx pediu a seu amigo de Manchester, que lhe ajudou durante 20 anos, que lhe enviasse dinheiro para poder recuperar “a roupa e o relógio que se encontram na casa de empenho”. Marx sobreviveu com o mínimo indispensável e, sem esses objetos, não podia viajar à Alemanha, onde a imprensa esperava por sua obra.

A correção do rascunho durou todo o verão e Engels lhe destacou que a exposição da forma do valor era muito abstrata e “se ressentia da perseguição dos furúnculos”. Marxrespondeu: “espero que a burguesia se recorde de meus furúnculos até o dia de sua morte”.

O Capital foi colocado à venda no dia 11 de setembro de 1867. Um século e meio depois, o texto figura entre os livros mais traduzidos, vendidos e discutidos na história da humanidade. Para aqueles que queiram entender o que realmente é o capitalismo e por que os trabalhadores devem lutar por uma “forma superior de sociedade, cujo princípio fundamental seja o desenvolvimento pleno e livre de cada indivíduo”, O Capital é hoje mais que nunca uma leitura simplesmente imprescindível”.

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Como nasceu O Capital de Marx

A obra que, talvez mais que nenhuma outra, contribuiu para mudar o mundo nos últimos 150 anos, teve uma gestação longa e muito difícil.

Marx começou a escrever O Capital somente muitos anos depois de começar seus estudos de economia política. Se já desde 1844 havia criticado a propriedade privada e o trabalho alienado da sociedade capitalista, foi somente depois do pânico financeiro de 1857 – que começou nos Estados Unidos e logo se estendeu à Europa-, quando se sentiu obrigado a deixar de lado sua incessante investigação e começou a redigir o que chamava sua “Economia”.

A crise , os Grundrisse e a pobreza
Com o início da crise, Marx previu o nascimento de uma nova fase de convulsões sociais e considerou que o mais urgente era proporcionar ao proletariado a crítica do modo de produção capitalista, um requisito prévio para superá-lo. Assim nasceram os Grundrisse, oito grossos cadernos em que, entre outras coisas, examinou as formações econômicas pré-capitalistas e descreveu algumas características da sociedade comunista, enfatizando a importância da liberdade e o desenvolvimento dos indivíduos. O movimento revolucionário que acredita que surgiria como consequência da crise foi apenas uma ilusão, e Marx não publicou seus manuscritos , consciente de que estava longe do domínio total dos temas que enfrentava. A única parte publicada, depois de uma profunda reelaboração do “Capítulo sobre o dinheiro” foi a contribuição à crítica da economia política, um texto distribuído em 1859 e que foi revisado por um só pessoa: Engels.

O projeto de Marx era dividir sua obra em seis livros. Seriam eles : o trabalho assalariado, a propriedade da terra, o trabalho assalariado, o estado, o comércio exterior e o mercado mundial. Entretanto, quando em 1862, como resultado da guerra de secessão norte-americana, o New York Tribune despediu seus colaboradores europeus, Marx- que havia trabalhado para o jornal norte-americano durante mais de uma década- e sua família voltaram a viver em condições de terrível pobreza, as mesmas que haviam padecido durante os primeiros anos de seus exílio em Londres. Somente tinha a ajuda de Engels, a quem escrevia: “Todos os dias minha esposa me diz que preferiria morrer com as crianças e, na verdade, não posso culpá-la dadas as humilhações que estamos padecendo, realmente indescritível. “Sua condição era tão desesperada que, nas semanas mais difíceis, faltava comida para as filhas e papel para escrever. Também buscou emprego em um escritório das ferrovias inglesas. O trabalho, no entanto, o foi negado devido a sua péssima letra. Portanto, devido a grande indigência, a obra de Marx esteve sujeita a grandes atrasos.

A explicação da mais-valia e o carbúnculo (Antraz)
Entretanto, neste período, em um longo manuscrito intitulado Teorias da Mais-valia, levou a cabo uma profunda crítica da maneira em que todos os grandes economistas haviam tratado erroneamente a mais-valia como lucro ou renda. Para Marx, entretanto, era a forma específica pela qual se manifesta a exploração no capitalismo. Os trabalhadores passam parte de sua jornada trabalhando para o capitalista de forma gratuita. Este último busca de todas as formas possíveis gerar mais-valia por meio de trabalho excedente: “Não basta que o trabalhador produza em geral, deve produzir mais-valia”, ou seja, auto-valorização do capital. O roubo de inclusive uns poucos minutos da comida ou do descanso de cada trabalhador significa transferir uma enorme quantidade de riqueza para os bolsos dos patrões. O desenvolvimento intelectual, o cumprimento das funções sociais, e os dias festivos são para o capital “puras e simples frustrações”. “Apres moi le déluge” ou “o problema não é meu” era também para Marx – ainda que ao tratar a questão ecológica ( que abordou como poucos autores de sua época) – o lema dos capitalistas , ainda que puderem , hipocritamente, se opor a legislação sobre as fábricas em nome da “liberdade plena do trabalho”. A redução da jornada de trabalho, junto com o aumento do valor da força de trabalho, foi, portanto, o primeiro terreno em que tinha lugar a luta de classes.

Em 1862, Marx elegeu o título de seu livro : “O Capital. Acreditava que podia começar imediatamente a redigir-lo de uma forma definitiva, mas as já graves vicissitudes financeiras se somaram a um muito grave problema de saúde. De fato, o que sua esposa Jenny descreveu como “a terrível doença, contra a qual Marx teria que lutar muitos anos de sua vida. Sofria de carbúnculo ou Antraz, uma horrível infecção que se manifesta no início em várias partes do corpo com uma série de abcessos cutâneos e uma extensa furunculose. Devido a uma pápula profunda, seguida pela aparição de uma rede de vesículas ulcerantes, Marx foi operado e “sua vida permaneceu durante muito tempo em perigo”. Sua família estava mais que nunca a beira do abismo.

O Moro ( este era seu apelido), entretanto, se recuperou e, até dezembro de 1865, se dedicou a escrever o que se converteria em sua autêntica obra magna. Ademais, desde o outono de 1864, assistiu assiduamente as reuniões da Associação Internacional dos trabalhadores( I internacional), para a quem havia escrito durante oito anos os principais documentos políticos. Estudar durante o dia na biblioteca, para se colocar em contato aos novos descobrimentos, e seguir trabalhando em seus manuscrito da noite até a manhã: esta foi a rotina a que se submeteu Marx até o esgotamento de todas as suas energias e o esgotamento do seu corpo.

Um todo artístico
Ainda que havia reduzido seu projeto inicial de seis livros a três volumes sobre O Capital, Marx não quis abandonar seu propósito de publicá-los todos juntos. De fato, escreveu a Engels: “Não posso decidir do que prescindir antes de que tudo esteja frente a mim, sejam quais sejam os defeitos que possam ter, este é o valor de meus livros: todos formam um todo artístico, alcançável somente graças a meu sistema de não entregá-lo para a impressão antes de tê-los todos diante de mim”. O dilema de Marx – “corrigir uma parte do manuscrito e entregá-lo ao editor ou terminar de escrever tudo primeiro”- foi resolvido pelos acontecimentos. Marx sofreu outro ataque bestial de carbúnculo, o mais violento de todos, e sua vida esteve em perigo. A Engels lhe contou que havia “perdido a pele”; os médicos lhe disseram que as causas de sua recaída eram o excesso de trabalho e as contínuas vigílias noturnas: “a enfermidade vem da cabeça”. Como resultado destes acontecimentos, Marx decidiu concentrar se unicamente no único livro um, o relacionado com o “Processo de Produção do Capital”.

Entretanto, os furúnculos continuaram atormentando-lo , e durante semanas. Marx nem sequer podia sentar-se. Inclusive tentou se operar sozinho. Procurou uma navalha muito afiada e disse a Engels que havia tentado tirar aquela maldita coisa. Desta vez, a culminação de sua obra não se viu postergada devido a “teoria” senão por “razões físicas e burguesas”.

Quando, em abril de 1867, o manuscrito foi finalmente terminado, Marx pediu a seu amigo de Manchester, que o havia ajudado durante vinte anos, que lhe enviasse dinheiro para poder recuperar “a roupa e o relógio que se encontravam na casa de penhor”. Marx havia sobrevivido com o mínimo indispensável e sem esses objetos não podia viajar à Alemanha , onde lhe esperavam para entregar o manuscrito a gráfica para impressão.

A correção do borrador durou todo o verão e Engels observou que a exposição da forma do valor era demasiado abstrata e “se ressentia da perseguição dos furúnculos”, Marx respondeu, “espero que a burguesia lembre dos meus furúnculos até o dia de sua morte”.

O Capital foi posto a venda no dia 11 de setembro de 1867. Um século e meio depois de sua publicação, figura entre os livros mais traduzidos, vendidos e discutidos na história da humanidade. Para aqueles que querem entender o que realmente é o capitalismo, e porque os trabalhadores devem lutar por uma “forma superior de sociedade cujo princípio fundamental seja o desenvolvimento pleno e livre de cada indivíduo”, O Capital é hoje mais que nunca uma leitura imprescindível.

 

Tradução: Rodrigo Claudio

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A última viagem do Mouro

The Moor’s last journey
Apoiando-se nas correspondências de Marx, Engels, seus familiares e amigos, o artigo descreve as circunstâncias e acontecimentos dos dois últimos anos de vida de Marx.

Destaca-se, particularmente, a viagem de Marx à Argélia, motivada por tratamento médico, cuja importância muitas vezes é negligenciada mesmo em renomadas biografias. O estudo revela preocupações de Marx com a reconstituição da história universal, com a condição dos árabes, com as possibilidades revolucionárias da Rússia e com a sequência de seu trabalho teórico (O Capital).

Based on the correspondence of Marx, Engels, their relatives and friends, the paper describes the circumstances and events of the last two years of Marx’s life. It focuses particularly on Marx’s last trip, to Algeria. Motivated by a medical treatment, the importance of this last trip is usually neglected even in famous biographies. The study discloses Marx’s concerns with the reconstitution of the World history, with the condition the Arab people, with the revolutionary possibilities of Russia and with the sequence of his theoretical work (Capital).

1. A morte da esposa e o retorno ao estudo da história
Em 2 de dezembro de 1881, perto de completar 68 anos, Jenny von Westphalen, a mulher que por toda sua existência esteve junto a Marx, dividindo penúria e paixão política, veio a falecer de câncer no fígado.

Para Marx, foi uma perda irreparável. Pela primeira vez desde 1836, quando, com apenas dezoito anos, apaixonou-se por ela, deu-se conta de que havia ficado sozinho, sem “o rosto [… que] desperta(va) as maiores e mais doces recordações da [sua] vida”1 e privado de “seu maior tesouro”2.

Para não comprometer, posteriormente, sua já frágil condição, Marx foi proibido até mesmo de ir ao funeral: “a proibição do médico de participar do enterro foi in exível” – contou, tristemente, à filha Jenny. Ele “resignou-se a [obedecer] essa ordem” pensando nas palavras que sua mulher havia dito à enfermeira antes de morrer, a propósito de lidar com as últimas formalidades: “não somos pessoas que dão valor às coisas exteriores”3. Ao funeral de Jenny von Westphalen compareceu, no entanto, Engels – de finido por Eleanor como “de uma gentileza e devoção indescritíveis” (Kapp, 1977, p. 201) –, que, em seu discurso fúnebre, prestou-se a recordar: “se houve uma mulher cuja máxima alegria era fazer os outros felizes, essa foi ela” (Engels, 1989, p. 420).

Após a perda da mulher, ao sofrimento da alma se agrega a dor do corpo. Os tratamentos aos quais teve que se submeter era dolorosíssimos, ainda que os enfrentasse com espírito estoico. Sobre esses, refere-se desta forma para Jenny4:

Ainda devo espalhar o iodo sobre o peito e as costas, e isso, quando é repetido regularmente, produz uma in amação na pele bastante enfadonha e dolorosa. Tal operação, que vem sendo executada apenas para prevenir uma recaída durante a convalescência (já finalizada, com a exceção de uma leve tosse), rende-me um grande serviço neste momento. Contra as dores da alma há apenas um antídoto eficaz: a dor física. Compare e contraste, de um lado, o fim do mundo, e do outro, um homem com uma forte dor de dente5.

Sua saúde é tão precária que, como escreve ao amigo, e economista russo, Nikolaj Danielson, em um dos momentos mais críticos esteve “muito próximo” a “voltar as costas contra esse mundo horrível”, agregando que os médicos queriam “mandá-lo para o sul da França ou a Argélia”6.

Marx, cuja convalescência foi longa e complexa, foi obrigado a ficar “pregado na cama” por várias semanas, “restrito ao confinamento domiciliar”, como escreveu ao companheiro Sorge, e bem consciente do que estava atravessando: “perde-se, definitivamente, certa quantidade de tempo para as ‘manobras’ de recuperação”7.

Apesar das ocorrências destes dramas familiares e das enfermidades, entre o outono de 1881 e o inverno de 1882, ele destinou grande parte de suas energias intelectuais aos estudos históricos. Marx preparou, de fato, uma cronologia comentada, na qual elencou, ano após ano, os principais eventos políticos, sociais e econômicos da história mundial transcorridos desde o século I d.C., recapitulando as causas e as características proeminentes. Ele adotou o mesmo método que já havia utilizado para a confecção das Notas sobre a história in­ diana (664­1858)8, apontamentos compilados, entre o outono de 1879 e o verão de 1880, a partir do livro A história analítica da Índia [1870], de Robert Sewell (1845-1925). Assim procedendo, ele desejava, mais uma vez, comparar a validade de suas re exões com os acontecimentos reais que haviam selado os destinos da humanidade. Marx não se focou apenas nas transformações produtiva, mas, renunciando a qualquer determinismo econômico, concentrou-se por longos trechos, e com grande atenção, sobre a decisiva questão do desenvolvimento do Estado moderno9.

Para realizar sua cronologia, junto a algumas fontes menores que não foram relacionadas em suas anotações, Marx utilizou, sobretudo, dois textos. O primeiro foi História dos povos da Itália (1825), de Carlo Botta (1766-1837), publicado em três volumes em francês, já que este, em 1814, teve que abandonar Turim devido à perseguição do governo de Savóia, restituído no Piemonte após a derrota de Napoleão Bonaparte. O segundo foi História mundial para o povo alemão (1844-1857), de Friedrich Schlosser (1776-1861), o qual, publicado em Frankfurt, em 18 volumes, conhece grande sucesso e uma divulgação notável. Tendo como base essas duas obras, Marx preencheu quatro cadernos. Os resumos, alguns intercalados de brevíssimos comentários críticos, foram compostos em alemão, inglês e francês10.

No primeiro desses cadernos, ele classificou, em ordem cronológica e por um total de 143 páginas, alguns dos maiores eventos transcorridos de 91 a.C. a 1370. Marx iniciou pela história da Roma antiga, para em seguida abordar a queda do Império romano, a importância histórica de Carlos Magno (742-814), o papel de Bizâncio, as Repúblicas marítimas italianas, o desenvolvimento do feudalismo, as Cruzadas e uma descrição dos califados de Bagdá e Mossul. No segundo caderno, de 145 páginas e com anotações que vão de 1308 a 1469, os principais temas tratados foram os progressos econômicos ocorridos na Itália11 e a situação política e econômica alemã entre os séculos XIV e XV; enquanto no terceiro, nas 141 páginas relativas à época 1470-1580, Marx ocupou-se do choque entre França e Espanha, da República orentina no tempo de Girolamo Savonarola (1452-1498) e da Reforma protestante de Martinho Lutero (1483-1546). Por fim, no quarto caderno, de 117 páginas, ele resumiu a grande quantidade de conflitos religiosos ocorridos na Europa de 1577 a 164812.

Junto aos quatro cadernos contendo excertos das obras de Botta e de Sch- losser, Marx redigiu ainda outro com as mesmas características; acredita-se que seja contemporâneo aos primeiros e inerente à mesma pesquisa. Nesse caderno, tendo como base o texto História da República de Florença (1875), de Gino Capponi (1792-1876), ele ampliou as informações sobre o período 1135-1433, e ex- traiu novas notas relativas á época 449-1485, tendo como baliza História do povo inglês (1877), de Jonh Green (1837-1883). O estado inconstante de sua saúde não lhe permitiu ir mais longe; suas anotações pararam nas crônicas da paz de Vestfália, em 1648, mais precisamente na assinatura dos tratados que puseram fim à Guerra dos Trinta Anos.

Quando suas condições de saúde melhoraram, tornou-se necessário fazer tudo o que fosse possível para “evitar o risco de recaídas”13. Acompanhado da filha Eleanor, em 29 de dezembro de 1881, Marx transfere-se para Ventnor, uma tranquila localidade da ilha de Wight, próxima à qual já havia ido outras vezes no passado. Foi-lhe aconselhado retornar para o “clima quente e o ar seco”, com a esperança que ambos contribuíssem para seu “completo restabelecimento”14. Antes de partir, escreveu à filha Jenny: “minha querida menina, o melhor favor que me pode fazer é cuidar de si mesma. Espero viver ainda belos dias junto a você e cumprir dignamente com minhas funções de avô”15.

Em Ventnor, Marx passa as duas primeiras semanas de 1882. Para poder passear, sem muitas preocupações. E ser “menos dependente dos caprichos do clima”, foi obrigado a usar, “em caso de necessidade”, um respirador, cujo uso ele comparou ao de “uma focinheira”16. Mesmo em circunstâncias tão difíceis, Marx nunca renunciou à sua ironia e, com a filha Laura, comentou que o grande destaque com que, na Alemanha, os jornais burgueses anunciaram sua “morte, ou, em todo caso, sua inevitável aproximação” o havia “divertido muito”17.

Nos dias que passaram juntos, a convivência entre pai e filha foi bastante complicada. Eleanor, oprimida pelo peso das suas questões existenciais pendentes, ainda era profundamente inquieta, não conseguia dormir e era atormentada pelo temor de que suas crises nervosas pudessem, de novo, piorar dramaticamente. Não obstante o enorme amor que mantinham um pelo outro, naqueles dias a comunicação entre ambos foi muito difícil – o primeiro, “zangado e ansioso”, e a segunda, “antipática e desgostosa”18.

As péssimas condições físicas de Marx e os problemas de relacionamento com a filha não lhe impediram de continuar a acompanhar os principais acontecimentos da atualidade política. Em consequência de um discurso realizado pelo chanceler alemão diante do parlamento, em que não pudera ignorar a grande desconfiança com que os trabalhadores haviam acolhido as propostas do governo19, ele escreve a Friedrich Engels: “considero uma grande vitória, não apenas diretamente para a Alemanha, mas em geral também para o exterior, que Bismarck haja admitido diante do Reichstag que os operários alemães praticamente não dão a mínima para o seu socialismo de Estado”20.

Após o retorno a Londres, a bronquite, agora crônica, obrigou-o, com o seus familiares, a consultar o doutor Donkin, por um longo tempo, sobre a esco- lha de qual poderia ser o clima mais favorável para a recuperação das suas con- dições. Para conseguir uma cura completa, impunha-se a estadia em um local quente. A ilha de Wight não havia funcionado. Gibraltar devia ser descartada pos- to que, para entrar lá, Marx deveria apresentar um passaporte e, apátrida que era, não possuía nenhum. O império de Bismarck estava coberto de neve e, para ele, sempre proibido; já a Itália não se podia tomar em consideração, pois, como afirmou Engels, “a primeira prescrição para os convalescentes é a de evitar as perseguições da polícia”21.

Com o apoio do doutor Donkin e de Paul Lafargue, genro de Marx, Engels convenceu este último a dirigir-se para Argel, a qual gozava, à época, de boa reputação entre aqueles que, na Inglaterra, para fugir do rigor dos meses mais frios do ano, podiam se permitir um refúgio (Cf. Badia, 1997, p. 17). Como depois recordou a filha Eleanor, o empurrão para Marx empreender esta insólita peregrinação foi sua antiga obsessão: completar O Capital. Ela escreve, de fato:

Seu estado geral piorava continuamente. Se tivesse sido mais egoísta, teria simplesmente deixado que as coisas andassem como queriam. Todavia, para ele havia uma coisa que estava acima de tudo: a devoção à causa. Ele procurou levar a cabo a sua grande obra e por isso concordou, ainda mais uma vez, em fazer uma viagem para ficar são22.

Marx partiu em 9 de fevereiro e, no caminho para o Mediterrâneo, parou em Argenteuil, onde morava a filha Jenny. A partir do momento em que seu estado de saúde não melhorava em nada, apenas uma semana depois decide partir sozinho para Marselha, tendo convencido Eleanor que não seria necessário que ela o acompanhasse. De fato, comentou com Engels que: “por nada no mundo queria que a menina pensasse estar sendo imolada no altar da família como ‘enfermeira’”23.

Após ter atravessado toda a França de trem, chegou à capital da Provence em 17 de fevereiro. Marx comprou imediatamente a passagem no primeiro navio partindo para a África24 e no dia seguinte, em uma ventosa tarde de inverno, põe-se em fila com outros viajantes que esperavam embarcar no cais de Marselha. Consigo havia um par de malas, nas quais carregava roupas quentes, medica- mentos e alguns livros. O navio a vapor Said zarpou às cinco da tarde para Argel25, onde Marx ficou por 72 dias, o único período de sua vida que passou longe da Europa.

2. Argel e as re exões sobre o mundo árabe
Marx chega à África em 20 de fevereiro, após uma tempestuosa travessia de 34 horas. No dia seguinte, escreve a Engels que seu “ corpus delicti desembarcou em Argel congelado até a medula”.

Ele hospedou-se no Hôtel-Pension Victoria, na zona do Mustapha superior. Seu quarto, situado em uma posição ideal, com vista para o porto de um lado e com as montanhas da Cabília como horizonte do outro, gozava de um “panorama fabuloso”, oferecendo-lhe a oportunidade de apreciar o “maravilhoso mélange entre Europa e África”26.

A única pessoa que conhecia a identidade daquele senhor poliglota, recém-chegado à cidade, era Albert Fermé (?), um juiz de paz, seguidor de Charles Fourier (1772-1837), que chegou a Argel em 1870, após um período de encarcera- mento devido à sua oposição ao Segundo Império francês. Foi a única verdadeira companhia de Marx, servindo-lhe de guia em suas excursões e respondendo às suas curiosidades sobre aquele mundo novo.

Infelizmente, com o passar dos dias, a saúde de Marx não melhorou absolutamente. Ele continuou a ser perseguido pela bronquite e por uma tosse incessante, que lhe provocava insônia. Conjuntamente, o clima excepcionalmente frio, chuvoso e úmido no qual estava envolvida Argel favoreceu um ataque de pleurite. Sobre a cidade abateu-se o pior inverno dos últimos dez anos e Marx escreveu a Engels: “a única diferença entre a vestimenta que uso em Argel e a da ilha de Wight é que substituí meu casaco de rinoceronte por um casaco mais leve”. Ele chegou mesmo a considerar a hipótese de se deslocar 400 km mais para o sul, em Biskra, um vilarejo localizado às portas do Saara, mas as péssimas condições físicas dissuadiram-no de enfrentar uma viajem tão desconfortável. Começara, portanto, um longo período de complicados tratamentos.

Marx foi levado para tratamento ao melhor médico de Argel, o doutor Charles Stéphann (1840-1906), que lhe prescreveu arseniato de sódio durante o dia e uma mistura de xarope e opiáceos à base de codeína para poder repousar à noite. Estes também o forçaram a reduzir os esforços físicos ao mínimo e de não desenvolver “qualquer tipo de trabalho intelectual, exceto uma ou outra leitura de distração”. Apesar disso, em 6 de março a tosse tornou-se ainda mais violenta, provocando-lhe sucessivas hemorragias. Marx foi, portanto, proibido de sair do hotel e mesmo de conversar: “agora paz, solidão e silêncio são para mim um dever cívico”. Pelo menos, escreveu a Engels, entre os remédios “o doutor Stéphann, como o meu querido doutor Donkin [de Londres], não se esqueceu do conhaque”.

A terapia mais dolorosa consistiu num ciclo de dez injeções. Marx conseguiu realizá-la graças à ajuda de outro paciente que, afortunadamente, era um jovem farmacêutico. Por meio de numerosas aplicações de colódio sobre o peito e as costas e com a sucessiva incisão das bexigas que se criaram, o senhor Casthelaz conseguiu drenar, um pouco de cada vez, o líquido em excesso nos pulmões.

Reduzido a condições penosas, Marx começou a se lamentar pela eleição de tal viagem. Ao genro Lafargue, queixou-se da falta de sorte, posto que “desde a [sua] partida de Marselha”, na Costa Azul, o outro destino que havia considerado para passar o inverno, “o tempo estava magnífico”27. Na segunda metade de março, confidenciou à filha Jenny: “com esta expedição, insana e mal pensada, voltei exatamente ao mesmo estado de saúde no qual me encontrava quando parti [de Londres]”. Marx lhe confessou também de ter alimentado dúvidas sobre aquela jornada em um lugar tão distante, mas que Engels e Donkin estavam in amados de furor africano, mesmo sem possuírem, nem um, nem outro, as informações adequadas28. Na sua opinião, “a coisa certa teria sido informar-se antes de se aventurar em tal ‘caçada ao ganso selvagem’”29.

Em 20 de março, Marx escreve a Lafargue que o tratamento havia sido temporariamente suspenso, pois, tanto sobre o tórax quanto sobre as costas, não lhe havia restado sequer um ponto seco. A visão de seu corpo lhe havia recordado aquela de “uma plantação de melões em miniatura”. O sono, contudo, estava “retornando, pouco a pouco”, provocando-lhe um grande alívio: “quem nunca sofreu de insônia não pode entender o bem estar que se experimenta quando o terror das noites sem repouso começa, finalmente, a diminuir”30.

Sua angústia cresce, infelizmente, em consequência da explosão noturna das bolhas, da obrigação de ficar enfaixado e da proibição absoluta de se coçar. Tendo conhecimento, por meio dos boletins meteorológicos que, subsequentemente à sua partida, o tempo na França “havia estado magnífico” e relembrando a previsão inicial de uma rápida recuperação, Marx comunicou a Engels que “um homem não deveria nunca se iludir com visões demasiado otimistas”31. Infelizmente, de fato, “para uma mente sã em um corpo são, havia ainda por fazer”32.

As dores de Marx não concerniam somente ao corpo. Ele se sentia só e à sua filha Jenny escreveu que “nada seria mais encantador do que Argel, sobretudo do que a zona rural nos arredores da cidade […] – considerando estar com boa saúde –, se tivesse ao meu redor todos os que me são caros, especialmente os netos. […] Seria como em As mil e uma noites” 33. Em uma carta seguinte, ele lhe confidenciou que gostaria de ter assistido ao encantamento de Johnny, o mais velho deles, “diante dos mouros, dos árabes, dos negros, em resumo, desta Babel, e dos costumes (em sua maior parte poéticos) deste mundo oriental, mesclado com o ‘civilizado’ francês e com o entediante britânico”34.

A Engels, companheiro com o qual dividia tudo, revelou ter “profundos ataques de melancolia, similares aos do grande Dom Quixote”. Seu pensamento voltava-se sempre para a perda de sua companheira: “você sabe que poucas pessoas são mais avessas do que eu à ostentação de sentimentos; todavia, seria uma mentira não admitir que o meu pensamento está preponderantemente absorvido na recordação da minha mulher, uma parte tão grande da melhor parte da minha vida!”35. Para distraí-lo da dor do luto havia, contudo, o espetáculo da natureza ao seu redor. Ele afirmou nunca ficar “cansado de olhar o mar em frente à [sua] varanda” e de estar encantado pelo “maravilhoso clarão da lua sobre a baía”36.

Marx estava muito a ito também devido ao forçado distanciamento de qualquer atividade intelectual diligente. Desde o início de sua peregrinação, sempre foi consciente de que aquela jornada envolveria “uma enorme perda de tempo”, mas terminara por aceitar as circunstâncias após haver compreendido que a “maldita doença [… estava] danifica[ndo] também a mente do enfermo”37.

Escreve a Jenny que, em Argel, a realização de “qualquer trabalho estava fora de questão, até mesmo a correção de O Capital” para a terceira edição alemã. Sobre a situação política da época, limitou-se a ler apenas notícias telegráficas de um modesto jornal local, Le Petit Colon, e do único jornal operário que lhe chegava do velho continente, L’Égalité, sobre o qual sublinhou, com o costumeiro sarcasmo, que aquilo “não podia ser considerado um jornal”.

As suas cartas da primavera de 1882 mostram o quanto ele era “ansioso de voltar a ser ativo e de abandonar esta estúpida profissão de inválido”38, para poder dar fim àquele tipo de “existência inútil, vazia e, ainda por cima, dispendiosa!”39. A Lafargue disse, mais tarde, estar empenhadíssimo em não fazer nada para sentir-se imbecil40. Deste testemunho parece transparecer também o temor de não se imaginar mais apto a retornar à sua existência habitual.

A progressiva pressão de todos esses acontecimentos desfavoráveis impediu Marx de compreender, a fundo, a realidade argelina; muito menos, como Engels esperava, foi-lhe possível estudar as características da “propriedade comunal entre os árabes”41. Ele já se interessava, ao longo dos estudos de história da propriedade fundiária e das sociedades pré-capitalistas, realizados a partir de 1879, sobre a questão da terra na Argélia durante a dominação francesa. Marx copiara, em um de seus cadernos de resumos, algumas partes sobre a importância da propriedade comunal antes da chegada dos colonizadores franceses, assim como as transformações introduzidas por estes, do texto do historiador russo Maksim Kovalevskij, A propriedade comunal da terra: causas, desenvolvimento de consequências de sua decomposição:
a constituição da propriedade privada da terra (aos olhos dos burgueses franceses) é uma condição necessária para qualquer progresso nas esferas política e social.

A posterior manutenção da propriedade comunal “como forma que suporta as tendências comunistas nas mentes” [Debatidos na Assembleia Nacional, 1873] é perigosa seja para a colônia, seja para a pátria. A distribuição da propriedade entre os clãs é encorajada, até mesmo prescrita; antes de tudo, como meio para enfraquecer as tribos subjugadas que, todavia, estão permanentemente sob o impulso da revolta e, em segundo lugar, como único modo para uma posterior transferência da propriedade fundiária das mãos dos nativos para as dos colonizadores. Esta mesma política foi posta em prática pelos franceses sob todos os regimes […]. O objetivo é sempre o mesmo: a destruição da propriedade coletiva dos indígenas e a sua transformação em um objeto de livre compra e venda, o que significa tonar mais simples a passagem final nas mãos dos colonizadores franceses42. (Marx, 1975, p. 405)

O projeto de lei sobre a situação argelina, apresentado no parlamento pelo deputado da esquerda republicana Jules Warnier (1826-1899) e aprovado em 1873, tinha como objetivo “a expropriação da terra das população nativas por parte dos colonizadores europeus e dos especuladores”. A desfaçatez dos franceses chegou ao “furto explícito”, isto é, à transformação em “propriedade do governo” de todas as terras não cultivadas que haviam permanecido sob o uso comum dos indígenas. Tal processo estava determinado a produzir outro importante resultado: anular o risco de resistência das populações locais. Sempre por meio das palavras de Kovalevsky, Marx sublinhou em suas anotações que:

O estabelecimento da propriedade privada e a grilagem dos colonizadores europeus […] tornar-se-á o mais potente meio para acelerar o processo de dissolução da união dos clãs. […] A expropriação dos árabes demandada pela lei [servia]: I) à obtenção de maior quantidade de terra possível para os franceses; e II) à destruição dos vínculos naturais dos árabes com a terra, desmantelando, assim, a última força de união dos clãs e, portanto, dissolvida esta, qualquer perigo de rebelião. (ibidem, pp. 408, 411-412)

Este tipo de “individualização da propriedade da terra” teria trazido, portanto, não apenas um enorme benefício econômico para os invasores, mas também favorecido um “objetivo político […]: desorganizar as bases daquela sociedade” (ibidem, p. 412).

Precisamente em 22 de fevereiro de 1882, no jornal argelino L’Akhbar, foi publicada uma matéria que documentava as injustiças do sistema que tinha sido criado. Naquela época, qualquer cidadão francês poderia adquirir, em teoria, sem deixar seu país, uma concessão de mais de 100 hectares de terra argelina, a qual podia, posteriormente, revender, por 40 mil francos para um nativo. Em média, os colonos revendiam qualquer punhado de terra, adquirido por 20 a 30 francos, a 300 francos43.

Devido à sua terrível saúde, entretanto, Marx não estava em condições de retornar a tais questões, nem lhe foi indicado esse texto. De qualquer forma, sua permanente sede de conhecimento não arrefeceu mesmo na presença das circunstâncias mais adversas. Depois de haver explorado a zona limítrofe ao seu hotel, onde estava em curso uma vasta obra de reconstrução de casas, ele notou que “embora os operários encarregados desta obra sejam homens sadios e naturais do local, após os primeiros três dias de trabalho já se encontram abatidos pela febre. Parte de seu salário é, portanto, destinada à dose diária de quinino, fornecida a eles pelos empreendedores”44.

Entre as observações mais interessantes que conseguiu resumir nas 16 cartas redigidas às margens meridionais do Mediterrâneo45, algumas também formuladas à luz de uma visão ainda em parte colonial, destacam-se aquelas sobre as relações sociais entre os muçulmanos.

Após ter ficado profundamente impressionado com o porte dos árabes – a propósito da qual escreve: “mesmo o mais pobre dos mouros supera o maior comediante europeu ‘art de se draper’ dans son cap [na arte de cobrir-se com seu manto] e de manter uma compostura natural, elegante e digna”46 – e com a mistura existente entre suas classes sociais, na metade de abril, Marx contou à filha Laura que havia visto alguns árabes jogando cartas, “vestidos de forma pretensiosa, quase opulenta”, com outros que trajavam “camisas surradas e rasgadas”. Para um “verdadeiro muçulmano”, ele comentou:

a riqueza e a pobreza não tornam os filhos de Maomé uns diferentes dos outros. A absoluta igualdade em suas relações sociais não é inuenciada por aquelas. Pelo contrário, só são notadas pelos desonestos. No que se refere ao ódio pelos cristãos e a esperança em uma vitória definitiva sobre os infiéis, seus políticos consideram, com razão, esse sentimento e essa prática de absoluta igualdade (não de riqueza e renda, mas da pessoa) como uma garantia para manter vivo um e não abandonar a outra. Ambos, no entanto, sem um movimento revolucionário, caminham para a ruína47.

Marx também ficou maravilhado com a escassíssima presença do Estado:

em nenhuma outra cidade sede do governo central, existe um tal lais­ sez­faire, laisser­passer. A polícia está reduzida ao mínimo necessário; uma insolência pública nunca vista. Na origem de tudo isso está o elemento mourisco. De fato, os muçulmanos não conhecem a subordinação. Não são “súditos”, nem “dirigidos”; nenhuma autoridade, salvo em questões políticas, mas parece que os europeus não enten- deram isso48.

Destes últimos, Marx atacou, com desdém, os violentos abusos de poder, os repetidos atos de provocação e, não menos importante, “a despudorada arrogância, a presunção e a obsessão de se vingarem como Moloch” diante de qualquer ato de rebelião da população local, sublinhando, além do mais, que relativamente aos danos produzidos pelas grandes potências na história das ocupações coloniais, “os britânicos e holandeses supera[va]m em muito os franceses”. No que concerne a Argel, ele relatou a Engels que, durante sua carreira de juiz, o amigo Fermé havia, regularmente, “visto aplicarem uma espécie de tortura […], por parte da ‘polícia’ […], para forçar os árabes a confessarem”, exatamente “como fazem os ingleses na Índia”, adiciona. Estes lhe haviam contado que

Se, por exemplo, um bando de árabes perpetra qualquer atrocidade, normalmente com o objetivo de roubar, e no passar do tempo os verdadeiros autores são devidamente presos, condenados e executados, para a família de colonizadores atingida isso não basta como punição. Essa espera que ao menos uma meia dúzia de árabes inocentes venha a ser um pouco “maltratada”. […] Quando um colonizador estabelece-se para viver, ou mesmo apenas transita por motivos de negócios, entre as “raças inferiores”, em geral considera-se ainda mais intocável do que Guilherme I, o belo49.

Marx voltou ao assunto em outra circunstância, quando quis relatar a Engels sobre uma brutalidade perpetrada pelas autoridades francesas nos debates sobre um “pobre árabe, matador de aluguel”. Antes de ser executado, descobriu-se que ele não teria sido “fuzilado, mas guilhotinado! E isso contra os acordos! Contra qualquer promessa […], apesar de ter sido acordada outra coisa”. Ademais:

seus pais esperavam a entrega do corpo e da cabeça, como os franceses sempre haviam permitido até agora, de forma a poder remendar a segunda ao primeiro e sepultar, portanto, “o todo”. Mas este não! Choro, gritos e maldições; pela primeira vez, as autoridades haviam recusado, negado! Se o corpo chega ao paraíso agora, Maomé questionará: “onde deixou a cabeça?”; ou então: “o que aconteceu para a cabeça estar separada do corpo?” [Dirá] “não é digno do paraíso. Vá-se com aqueles cães dos cristãos!”. , assim, os pais choram e se desesperam50.

Ao lado dessas observações sociais e políticas, suas cartas incluíam também relatos de costumes. À sua filha Laura, narra uma breve história que o havia divertido muito, dado a pessoa prática que era:

Sobre as águas turbulentas de um rio, encontra-se um comandante que espera, com seu pequeno barco. Chega um filósofo, que deseja chegar à outra margem, e sobe a bordo. Eis o diálogo que se segue:

Filósofo: Barqueiro, você sabe História?
Barqueiro: Não!

Filósofo: Então perdeu a metade da sua vida. E ainda o lósofo: E estudou matemática?
Barqueiro: Não!
Filósofo: Então perdeu mais da metade da sua vida.

Essas palavras apenas haviam acabado de sair da boca do lósofo e o vento virou o barco e ambos, barqueiro e lósofo, viram-se lançados à agua.

Então o barqueiro disse: Você sabe nadar?

Filósofo: Não!

E o barqueiro: Então perdeu a vida inteira51.

Marx comentou jocosamente: “isto lhe dará uma ideia básica sobre as coisas árabes”52.

Após outros dois meses de sofrimentos, as condições de Marx melhoram e o retorno para França torna-se finalmente possível. Antes de partir, compartilha com Engels uma última surpresa: “devido ao sol, tirei a barba de profeta e a peruca que tinha na cabeça, mas – posto que, segundo minhas filhas, estou melhor assim – tirei uma fotografia antes de sacrificar os cabelos a um barbeiro argelino”53. Foi nesta circunstância, portanto, que foi tirada sua última instantânea. A imagem é completamente diferente do perfil rígido de tantas estátuas erigidas nas praças das capitais do “socialismo real”, isto é, da qual o poder escolheu, portanto, para representa-lo. Seus bigodes, à maneira de suas ideias, não haviam perdido a cor da juventude, e seu rosto, apesar das grandes amarguras da vida, apresentava-se ainda benevolente, modesto e sorridente54.

3. Um republicano no principado
Mais uma vez, Marx encontrou-se atormentado pelo tempo ruim. Durante os “últimos dias africanos55, sua saúde foi posta à prova com a chegada do vento siroco, e também a viagem a Marselha, onde desembarcou em 5 de maio, dia de seu sexagésimo quarto aniversário, foi particularmente turbulenta. Como re- velou à filha Eleanor, a travessia ocorreu em péssimas condições meteorológicas: “uma violenta tempestade transformou minha cabine […] em um autêntico túnel de vento”. Chegado ao destino, o navio a vapor não atracou no píer, e os passageiros foram transportados em barcas à doca, “para depois passar, com satisfação adicional deles, várias horas em uma fria e ventosa aduana-purgatório, antes de retomar a viagem para Nice”. Estas atribulações extras foram deletérias para Marx, visto que, como escreve com seu habitual sarcasmo, “estragaram novamente minha máquina” e o obrigaram, apenas desembarcado em Monte Carlo, a voltar “às mãos de um Asclépio”56.

A pessoa a quem confiou seu tratamento foi o doutor Kunemann (1828-?), um ótimo médico originário da Alsácia, especialista em enfermidades pulmonares57. Infelizmente, descobriu que a bronquite tornara-se crônica e, para terror de Marx, “a pleurite havia voltado”58. Os deslocamentos haviam se revelado, mais uma vez, deletérios, e Marx comentou com Engels, utilizando, como soía fazer, referências literárias: “o ‘destino’ revelou-se com horrível coerência, quase como nas tragédias [… de Amandus] Müllner” (1774-1829), o dramaturgo alemão em cujas obras esse elemento exerce um papel determinante na existência humana. Fez-se indispensável, então, uma nova série de quatro tratamentos vesicantes, realizados entre 9 e 30 de maio.

Devendo, necessariamente, recuperar-se para poder novamente partir, Marx passa três semanas no principado de Mônaco. Suas descrições do ambiente que o circundava mesclam grande espírito de observação e crítica social. Ele comparou Monte Carlo a Gérolstein, o minúsculo Estado imaginário onde o compositor Jacques Offenbach (1819-1880) ambientara a ópera La Gran­-Duchessa di Gérolstein.

Durante sua estada, Marx foi muitas vezes à sala de leitura do famoso Cassino, que oferecia uma boa seleção jornais internacionais, e relatou a Engels que seus “companheiros de refeição no Hôtel de Russie” e, mais em geral, o público que se encontrava na cidade, “estavam amis interessados no que acontece nas salas de jogo do cassino”. As cartas desse período alternam a observação anedótica sobre os diálogos de algumas pessoas que conheceu – como “um filho, muito intratável, da Grã Bretanha” que estava “acerbo e nervoso” porque havia “perdido um discreto número de dobrões de ouro e absolutamente decidido a ‘afanar’ qualquer um” – com comentários sardônicos: “não compreende[u] que a deusa da Fortuna não se deixa intimidar nem mesmo pela vilania britânica”59.

O retrato mais incisivo daquela realidade, que ele tanto estranhava, ofereceu à filha Eleanor, em uma carta escrita pouco antes de partir:

À mesa de refeições e nos cafés, fala-se e sussurra-se quase exclusivamente a respeito das mesas da roleta e do Trente et quarante. Ocasionalmente alguém vence alguma coisa, como os 100 francos ganhos por uma jovem senhora, mulher de um diplomata russo […], que, pelo contrário, perdeu seis mil; às vezes um ou outro não tem mais dinheiro para a viagem de volta. Outros ainda perdem no jogo imensas fortunas de família. São pouquíssimos os jogadores que conseguem arrebatar uma parte do butim […] e estes são quase exclusivamente os ricos. Aqui não podem entrar nem a razão, nem o cálculo; ninguém pode depositar confiança em favor da sorte com o mínimo de confiabilidade, a não ser que possua uma considerável soma para arriscar60.

O frenesi que exalava no ar não se confinava aos salões de jogo e ao horário noturno, mas impregnava toda a cidade e o dia inteiro de seus visitantes. Em uma zona adjacente ao cassino, por exemplo, encontrava-se

um quiosque onde, todos os dias, destacava-se um manifesto, não impresso, mas escrito a mão, assinado com as iniciais do autor. Por 600 francos ofertavam-se, preto no branco, os segredos da ciência para vencer um milhão de francos apostando mil […]. No rastro dessa armadilha para tolos registram-se histórias de todo inverossímeis. A maior parte dos jogadores e das jogadoras acredita que nesses jogos de puro azar há algo de científico. Os senhores e as senhoras amontoam-se diante do Café de Paris, ou nos bancos de seu interior, com a cabeça pendida sobre pequenas tabelas impressas, rabiscando e calculando, enquanto um explica ao outro o seu “sistema” preferido, o motivo pelo qual é oportuno jogar em “série” etc. Parece que observo internos de um manicômio61.

Enfim, para Marx era evidente que “a base econômica de Mônaco-Gerolstein é o cassino; se fechasse amanhã, seria o fim para Mônaco-Gerolstein!”. Ele a firma que sem a existência desse último, “nem Nice, exclusiva como o mundo de aventureiros que passa[va]m ali os meses do inverno, [teria] continu[ado] a ser uma lugar de moda […]. e com tudo isso, esta casa de jogo para tão infantil em comparação com a Bolsa!”.

Após o último tratamento vesiculante, o doutor Kunemann deu alta a Marx e lhe concedeu a permissão de voltar a viajar, aconselhando-o, contudo, a “ficar uns dois dias em Cannes, porque assim o requeria a drenagem das feridas produzidas”. Na exclusiva localidade francesa, ele traçou um balanço do período transcorrido na Costa Azul:

repousei o mês inteiro nesse covil de aventureiros refinados e ociosos. A natureza é esplêndida, mas no que tange ao resto, é um cafundó enfadonho. Não há nenhuma “massa” plebeia, com exceção dos garçons do hotel e dos cafés e dos serviçais, que pertencem ao subproletariado 62.

As condições climáticas mais adversas continuaram a exacerbar-se e voltar-se contra ele. Durante os três dias transcorridos em Cannes, a pequena ci- dade foi, excepcionalmente, atingida por “um forte vento (ainda que quente) e redemoinhos de poeira”, dos quais se ocupou “toda a imprensa local da Riviera”. Marx reagiu com autoironia, brincando com Engels: “até a natureza possui certo humor filisteu (como – já humoristicamente antecipado no Antigo Testamento – o da serpente que se nutre de lama, ou mesmo como o da dieta de terra dos vermes de Darwin)”.

Por fim, na mesma carta, Marx deteve-se na descrição das últimas recomendações recebidas do médico: “comer bem e muito, ‘acostumar-se’ mesmo contra a própria natureza; ‘beber algo bom’; distrair-se com viagens […]; pensar o menos possível”. Ele teve de comentar que “seguindo estas ‘instruções’, estou bem no caminho para a estupidez, e não me livrei nem mesmo do catarro brônquico”. A modo de consolação, recordou ao amigo que o esperava em Londres que “foi a bronquite que mandou o velho Garibaldi para ‘o eterno repouso’”. De qualquer forma, ele afirmou estar convicto de que, “em uma certa idade, é completamente indiferente para o que é ‘enviado para a eternidade’”63.

Cerca de quatro meses desde sua partida, em 7 de junho, Marx estava habilitado para pegar o trem que, no dia seguinte, levá-lo-ia à casa da filha em Argenteuil. Antes de empreender a viagem, solicitou a esta última não se preocupar com sua chegada – “até hoje, sempre reconheci que para mim não há coisa pior do que alguém estar a me esperar na estação” – e de não anunciar seu retorno a nenhum de seus companheiros, nem mesmo a Lafargue. Ele ainda tinha “necessidade de tranquilidade absoluta”64 e, como comunicou também a Engels, sentia que era “ainda necessário reduzir ao máximo o trato com as pessoas”65. O gigante estava cansado, sentia estar próximo do fim de seu caminho e escreveu a Jenny palavras similares àquelas de todos os comuns mortais: “por ‘tranquilidade’ entendo ‘a vida doméstica’, a ‘balbúrdia das crianças’, aquele ‘mundo microscópico’ mais interessante do que o ‘macroscópico’”66.

Logo após a chegada à Argenteuil, Marx comparou sua existência à de um “detent[o] em liberdade condicional”, visto que, como era habitual a esse tipo de prisioneiro, também devia sempre “apresentar-se ao médico mais perto da [sua] próxima temporada turística”67. O médico da casa Longuet, Gustave Dourlen, conhecia bem Marx e aconselhou-o a “experimentar, em alguma semana, as águas sulfurosas de Enghien[-les-Bains]”68, uma localidade nos arredores onde poderia consultar o doutor Feugier (?).

O clima, ainda muito instável, não permite o início imediato da cura e concorre, além disso, para torná-lo bastante doloroso devido a “um reumatismo muscular na altura do quadril”69.

Somente nos primeiros dias de julho, Marx pôde finalmente, com certa regularidade, tomar os banhos sulfurosos, tratamento que lhe trouxe um grande benefício. Com o frequente tom sarcástico, assim descreveu, para Engels, as operações a que se submetia repetidamente:
Na sala de inalação, o ar é denso de vapores sulforosos; aqui se permanece por 30-40 minutos; a cada cinco minutos, sentados em uma mesa, aspira-se um vapor carregado de um enxofre especial pulverizado […]. Todos somos envoltos da cabeça aos pés, como múmias, em uma borracha elástica; depois disso, marcha-se, um atrás do outro, em volta da mesa: cena inocente do inferno dantesco70.

A rotina dos tratamentos termais foi acompanhada do tempo transcorrido com a família da filha, sobretudo com os netos. Na volta de Enghien-les-Bains, após haver repousado, à tarde, ia regularmente fazer “uma caminhada e umas voltas com as crianças, com consequências sobre a audição e a visão (para não falar do intelecto) ainda muito mais nocivas do que aquelas experimentadas com o Hegel da Fenomenologia [do espírito ]”.

Todavia, não obstante os esforços e seu máximo empenho, o catarro bronquial não havia ainda “dado seu último suspiro” e os médicos sugeriram a Marx prosseguir o tratamento até a metade de agosto. No geral, porém, suas condições estavam melhores e no início do mês até teve um encontro com alguns dirigentes do movimento de trabalhadores parisiense. À reunião, tomaram parte José Mesa (1840-1904), Lafargue, Gabriel Deville (1854-1940) e Jules Guesde (1845-1922), e ele relatou para Engels que, após vários meses, “era a primeira vez que [havia] consentido em uma reunião desse tipo. É sempre o discurso animado, a conversa afiada, que me cansam… post festum”71.

Marx realizou “a última peregrinação na sala de inalação” em 20 de julho do mesmo mês. Na visita de despedida do doutor Feugier, este lhe disse que “o ruído do atrito pleural continua[va] no status quo, circunstância já prevista”. De acordo com o colega Dourlen, ele aconselhou ir ao Lago de Genebra, “de onde chegam notícias meteorológicas favoráveis”, na esperança que “os últimos traços do […] catarro brônquico pudesses desaparecer sozinhos”72.

Desta vez, Marx, não podendo se expor “sozinho aos riscos de uma viagem”, foi escoltado pela filha Laura, à qual advertiu, comparando-se ironicamente ao ismaelita Rashid ad-Din Sinan (1132/1135–1192), o líder da seita dos Assassinos que assumiu uma função importante à época da Terceira Cruzada, que era seu dever “acompanhar o velho da montanha”73.

Antes de partir, Marx recebeu uma carta de um correspondente parisiense de vários “jornais teutônicos”. Este, que se declarara seu “humilde e devoto servo”, havia lhe pedido uma entrevista, argumentando como motivação “que todos os círculos da ‘sociedade’ alemã estavam ansiosos por receber notícias oficiais sobre [seu] estado de saúde”. Marx relatou a Engels que, “naturalmente, não [havia] respondido àquele escriba lambe-botas”74.

A primeira etapa da viagem, empreendida apenas durante as horas diurnas a fim de “evitar qualquer motivo para recaída”75, foi Lausanne. Marx chega com um resfriado, contraído após seu encontro, ocorrido antes da partida, com Joseph Roy (1830-1916), o tradutor de O Capital na língua francesa. A despeito das previsões favoráveis dos boletins do tempo, foi acolhido por um clima “úmido e relativamente frio”. Assim relata a Engels: “minha primeira pergunta ao garçom foi: desde quando chove aqui? Resposta: tem estado chuvoso apenas nos dois últimos dias (portanto, desde o momento da minha partida de Paris). Que estranho!”76.

O destino final da viagem foi a cidadezinha de Vevey, situada na margem nordeste do Lago de Genebra. Marx escreveu a Engels que “continu[ava] a tossir”, mas que, ao mesmo tempo, tudo procedia bem: “vivemos como no país da Cocanha”77. Sua companhia lhe fazia muita falta e tento convencer o amigo para que pudesse juntar-se a ele desde Londres. Engels, porém, estava, antes de tudo, preocupado com a gestão de todos os problemas práticos, a fim de continuar a garantir a Marx, no momento, os recorrentes tratamentos: “ficaria extremamente contente em partir para encontrá-lo, mas se me acontece qualquer coisa, ainda que temporariamente, seria um verdadeiro pandemônio para todas as nossas questões financeiras”78. Marx compreende e expressa, mais uma vez, sua gratidão: “o altruísmo que mostra nas minhas lutas é incrível e, frequentemente, envergonho-me em silêncio”79.

Após o retorno à casa de Laura, em Paris, ocorrido no fim do mês, Marx dirigiu-se novamente ao médico para obter “a permissão de atravessar o Canal da Mancha”80. Este último o considerou “muito melhor [e …] e perto de me livrar deste obstinado catarro”. Para tanto, impôs-lhe não permanecer “em Londres por mais de 15 dias ou, somente se o tempo estiver ótimo, três semanas. […] A temporada de inverno [… deveria] começar, em tempo, na ilha de Wight”. De qualquer forma, ironizou, dizendo ao amigo que o esperava na Inglaterra, “se o governo francês fosse informado de minha presença aqui, provavelmente me mandaria embora mesmo sem a permissão do doutor Dourlen”81.

4. “Tudo o que sei é que não sou marxista”
Em Londres, os dias passaram depressa. Em 9 de outubro, Marx escreve à filha Laura que sua “tosse [era] ainda cansativa” 82 e que devia tentar “livra-se de tudo, antes de voltar a estar perfeitamente e ficiente”. A chegada do outono trouxe umidade e névoa. O doutor Donkin, onde havia voltado para tratamento, recomendou-lhe transferir-se novamente para a ilha de Wight. Antes de partir, passou um dia inteiro com Engels – que escreve a Lafargue: “esteve aqui para almoçar comigo, à noite jantamos todos na casa dele e depois ficamos bebendo rum até uma da manhã”83 – e, em 30 de outubro, retornou para Ventnor.

Pouco após sua chegada, entretanto, Marx piorou novamente, desta vez por causa de um reumatismo “perto da velha área da minha recorrente pleurite”84. Foi obrigado, assim, a ver um novo médico, o doutor James Williamson, que lhe prescreveu uma medicação a base de “quinino […], morfina e clorofórmio”85. Ademais, a fim de que seus “passeios ao ar livre” não sofressem o influxo “da oscilação da temperatura, [fui] obrigado, de novo, a carregar nas costas o respirador, para utilizar em caso de necessidade”.

Em tais condições e após um “longo período de ofuscamento intelectual”86, Marx acredita ser impossível voltar a se dedicar à preparação da terceira edição alemã de O Capital e, de fato, em 10 de novembro, escreve à filha Eleanor, que foi ao seu encontro, depois de poucos dias, com o neto Johnny: “dadas as circunstâncias, ainda não comecei a trabalhar seriamente, mas tenho me ocupado com uma coisa ou outra como uma forma de preparação”87. Nesse período, retomou os estudos de antropologia e transcreveu algumas das páginas mais interessantes do livro As origens da civilização e a condição primitiva do homem [1870], de John Lubbock (1834-1913).

Engels o atualizava constantemente sobre a situação em Londres: “em sua casa está tudo bem, mas a cerveja é ruim em todos os lugares; é boa apenas aquela alemã no West End”88, mas Marx não pôde dar-lhe em troca notícias positivas. A tosse aumentara e manifestara-se também uma fastidiosa rouquidão. Por isso, foi novamente “condenado a permanecer recluso”, impossibilitado de deixar seu quarto, como lamentou com o amigo, “até que passe a in amação”89.

Em 14 de dezembro, escreve à filha Laura que “há cerca de duas semanas, devido a um catarro traqueal, estava obrigado à prisão domiciliar”. Também acrescenta que vivia “como um eremita: não vejo ninguém, salvo as visitas do doutor Williamson”90, o qual, por causa do tempo “muito úmido e chuvoso”, não havia permitido sair “até que faça um belo dia”91.

Apesar de todas as adversidades, Marx não desistiu, o quanto lhe foi possível, de comentar os acontecimentos mais atuais e as posições dos dirigentes do movimento de trabalhadores. Disse que estava “exausto” de alguns deles pelo uso de “uma certa […] fraseologia ultrarrevolucionária que sempre considerei ‘vazia’; uma especialidade que os nossos fariam bem em abandonar em favor dos chamados anarquistas, que, na verdade, são os pilares da ordem existente, não os criadores da desordem”92.

Da mesma forma, não poupou aqueles que não se mostravam capazes de conservar uma posição de classe autônoma e advertiu sobre a imperiosa necessidade, por parte dos trabalhadores, de oporem-se às instituições e à retórica do Estado. Quando, de fato, o presidente do Congresso das cooperativas e deputado Joseph Cowen – que Marx considerava “o melhor entre os parlamentares ingleses” – justificou a invasão do Egito pela Inglaterra93, ele revelou à filha Eleanor sua mais completa desaprovação.

Em primeiro lugar, lançou-se contra o governo: “que beleza! Não poderia haver um exemplo mais descarado de hipocrisia cristã do que essa ‘conquista’ do Egito, uma ocupação em pleno tempo de paz!”. Ademais, mirou Cowen, que, em um discurso público, realizado em 8 de janeiro de 1883 em Newcastle, expressara sua admiração por “esta ‘ação heroica’, [pelo] ‘esplendor da […] parada militar’” e “tinha um sorri[so], complacente, diante da encantadora cena de todos aqueles postos militares ofensivos, fortificados entre o Atlântico e o Oceano Índico e, além disso, de um império ‘afro-britânico’, que se estendia do delta do Nilo à região do Cabo”. Era o “estilo inglês”, caracterizado pelo respeito pelos “interesses da ‘pátria’”.

Para Marx, em questões de política externa, Cowen não passava do típico exemplo daqueles “pobres burgueses britânicos que, arruinando-se, assumem sempre maiores ‘responsabilidades’ para realizar sua missão histórica, ainda que reivindicando, em vão, contra ela”94. Ele interessou-se fortemente também pelo aspecto econômico do acontecimento, como demonstram as oito páginas de excertos que transcreveu da matéria Egyptian Finance, de Michael George Mulhall (1836-1900), publicado na edição de outubro da revista londrina The Contemporary Review 95.

Até o fim da vida, portanto, Marx criticou, com zelo in exível, as nações que sempre considerara as principais responsáveis pelo reacionarismo na Europa: Reino Unido e Rússia. A esta última dedicou grande atenção e, mesmo no outono de 1882, como demonstram dois dos últimos cadernos de notas redigidos por ele, interessou-se por todas as transformações ali ocorridas96. Em particular, Marx estudou algumas obras recém-publicadas, nas quais eram analisa- das as novas relações socioeconômicas surgidas após a reforma agrária de 1861, por meio da qual a servidão foi abolida. Entre os livros que sumariou, estavam Os camponeses à época da imperatriz Catarina II [1881], de Vasilii Semevskii (1848- 1916), O artel na Rússia [1881], de Andrej Isaev (1851-1924), A propriedade co­ munal rural na província de Arcanjo [1882], de Gerard Minejko (1832-1888) e O futuro do capitalismo na Rússia [1882], de Vasilij Voronkov (1847-1918); além de trabalhos mais datados, como A questão camponesa à época de Alessandro II [1862], de Aleksandr Skrebickij (1827-1915), e Na periferia e na capital [1870], de Fedor Elenev (1827-1902), que assinara sua obra sob o pseudônimo de Skaldin97.

Naquele período, alguns artigos, surgidos em São Petersburgo, relatavam “a grande disseminação das [su]as teorias naquele país”. Ele ficou vivamente contente, uma vez que, como disse à filha: “em nenhum outro lugar meu sucesso me dá tanto prazer. Dá-me a satisfação de golpear uma potência que, junto com a Inglaterra, é o verdadeiro baluarte da velha sociedade”98.

Alhures, sua crítica não poupava ninguém. Na França, por exemplo, depois do nascimento do Partido Operário, ocorrida em setembro de 1882, Marx lançou-se contra os maridos de suas filhas mais velhas, os quais designou para Engels, em um surto de ira: Longuet é o último proudhoniano e Lafargue é o último bakuninista; que vão ao inferno!”99. Da mesma maneira, desancou várias vezes aqueles que se declaravam seguidores de suas ideias sem conhecê-las e em relação a esses proferiu com ironia e presença de espírito: “tudo o que sei é que não sou marxista”100.

Marx não pôde seguir de perto o desenvolvimento do movimento proletário europeu, nem continuar com sua obra científica. Se bem houvesse tentado, de todas as maneiras e com todas as forças, se restabelecer para retomar o trabalho e tivesse pedido à filha Eleanor, que foi encontrá-lo no réveillon, para levar consigo alguns livros: “traga-me a Fisiologia, aquela de [ Johannes] Ranke [… e] também aquele horrível livreto de [Edward] Freeman (1823-1892) (A história da Eu­ropa) [1876], uma vez que substitui, para mim, a tabela cronológica”101, a instabilidade de sua saúde e a apreensão pelo estado físico da filha Jenny – nova- mente agravado após o nascimento da última filha – contribuíram para deixá-lo em condições desesperadas.

Em 6 de janeiro, reportou ao doutor Williamson, que, apenas se levantou, “foi pego, de surpresa, por uma tosse espasmódica que me fez debater-me e lutar contra o sufocamento”. Marx não tinha dúvidas acerca da verdadeira natureza de seu súbito adoecimento. Na tarde anterior, recebera uma carta com notícias terríveis sobre a saúde de sua filha primogênita: “eu estava a par da gravidade de sua doença, mas não estava preparado para o comunicado de que entrara em uma fase crítica”102. Também a Engels confessou que correra “risco de sufocar-me” e que, “no momento, a excitação nervosa” o atingia “até o pescoço”103. À filha Eleanor conta:

creio que seja consequência de uma crise nervosa, de medo pela pequena Jenny! […] Eu teria me precipitado imediatamente para Argenteuil, mas, assim, teria apenas imputado à pequena o peso de um hóspede doente! Ninguém, na verdade, pode me garantir que a viagem
100 Esta a rmação encontra-se na carta de 2-3 de novembro de 1882 de Friedrich Engels a Eduard Bernstein, com o qual, referindo-se às escaramuças trocadas entre Marx e Lafargue, lamentou-se com estas palavras: “a isso que na França dá-se o nome de ‘marxismo’ é, na realidade, um produto muito particular” (p. 279).

Essas foram repetidas em uma carta de 7 de setembro de 1890, publicada seis dias depois, endereçada à redação do Sozialdemokrat, cf. F. Engels (1963, p. 69) e em outras duas cartas privadas: a Conrad Schmidt, de 5 de agosto de 1890, e a Paul Lafargue, de 27 de agosto de 1890, cf. Marx & Engels (1991, pp. 465 e 478). A frase é trazida à tona de modo errado por Karl Kautsky, que sustenta que Marx a tivesse utilizado nos confrontos com este último, cf. B. Kautsky (1955, p. 90). Foi empregada, por m, pelo tradutor de O Capital para o russo, German Lopatin, em uma carta para Marija Nikolaevna Ošanina, de 20 de setembro de 1883: “recorda-se quando eu dizia que o próprio Marx nunca foi marxista? Engels contou que, durante a luta de Brousse, Malone e companhia contra os outros, Marx disse uma vez, rindo: “Posso dizer apenas uma coisa: que não sou marxista!” (Enzensberger, 1977, p. 456). A propósito, cf. M. Rubel (1981, pp. 60-61).

Deste modo, mais uma vez, para Marx teve início um período de “longo confinamento em casa”105, durante o qual, à “tosse quase perene, […] já bastante cansativa”, foram adicionadas “crises de vômito cotidianas”, que tornaram a situação quase insustentável. Todavia, a perspectiva de uma recuperação não parecia completamente extinta. Lamentou-se com Eleanor que seu estado insuportável o impedia “quase sempre de trabalhar”, mas lhe revelou também que “o médico acredita – ainda acredita e isso é significativo! – conseguir me libertar deste tormento […]. Quem viver, verá”106.

Infelizmente, um novo acontecimento dramático pôs fim às última esperanças de recuperação. Em 11 de janeiro, antes de completar trinta e nove anos, Jenny faleceu de câncer na vesícula. Após a partida da mulher, Marx tinha, assim, de enfrentar também a perda de uma de suas amadíssimas filhas. A notícia caiu, como uma bomba, sobre um homem já gravemente doente e marcado por uma vida de dificuldades. A narração destes momentos, realizada sucessivamente por Eleanor, testemunha, de modo dramático, as penosas circunstâncias:

Recebemos uma carta do Mouro […], na qual ele dizia que a saúde de Jenny finalmente melhorava e que nós – Helene [Demuth] e eu – não devíamos nos preocupar. Recebemos o telegrama que anunciava a morte de Jenny apenas uma hora depois dessa carta. Parti imediatamente para Ventnor. Vi muitos momentos tristes, mas nenhum como aquele. Sentia levar para meu pai sua sentença de morte. Durante as longas horas daquela viagem angustiante, continuei a torturar o meu cérebro, pensando em como lhe comunicar a notícia. Não precisei, porém, dizer nada; minha fisionomia me traiu. O Mouro disse subita- mente: “nossa pequena Jenny morreu!” – e ele queria que eu partisse imediatamente para Paris, para ajudar a cuidar das crianças. Queria ficar com ele, mas não aceitou objeções. Não estava em Ventnor nem há meia hora e já retomava, com o coração triste e confrangido, o ca- minho para Londres, para partir, então, imediatamente para Paris. Pelo bem das crianças, fiz o que desejava o Mouro107.

Em 13 de janeiro, então, Marx também pôs-se rapidamente a caminho para retornar para casa. Antes de deixar a ilha de Wight, comunicou o motivo de sua partida repentina para o doutor Williamson – “a fatal notícia da morte da minha filha mais velha” –, adicionando à despedida: “encontro um pouco de alívio em uma horrível dor de cabeça. A dor física é o único ‘torpor’ da dor mental”108. Essas foram suas últimas palavras deixadas em papel.

5. Saída de cena
A reconstrução das últimas semanas de vida de Marx foi possível graças aos testemunhos feitos por membros de sua família e, sobretudo, à correspondência de Engels.

Em uma carta deste endereçada a Eduard Bernstein, apreende-se que, após o retorno de Ventnor, Marx esteve “confinado em casa devido a uma bronquite, até o momento afortunadamente leve”109. Em fevereiro, Engels contou, sempre a Bernstein – convertido, naquele período, no dirigente do Partido Socialdemocrata alemão com quem ele mais assiduamente trocava notícias – que “há três semanas está tão rouco, que consegue falar pouco”110.

Em 16 de janeiro, Engels escreve a Laura Lafargue: “ultimamente, [Marx] passou noites insones muito duras, que lhe privaram do apetite intelectual, tanto que começou a ler catálogos de editoras em vez de romances 111. Nesse ínterim, no dia seguinte, relata à mesma “um bom sinal […:] pôs de lado o catálogo e voltou a Frédéric Soulié” (1800-1847), um dos mais populares escritores na França, que havia previsto a revolução de 1848. Todavia, a apreensão continuava altíssima, “posto que, enquanto precisa curar os problemas mais urgentes, ou seja, os órgãos da respiração, e a cada tanto deve tomar um sonífero, termina por descuidar do resto, como, por exemplo, seu estômago”112. Ainda que Marx procurasse se alimentar o máximo possível, frequentemente preferia apenas meio litro de leite, bebida que, no passado, não teria apreciado nunca, à qual adicionava rum ou brandy. Para mantê-lo aquecido, eram-lhe preparados escalda-pés de mostarda.

Ao fim do mês, Engels atualizou Bernstein mais uma vez: “Marx ainda não está apto para trabalhar, permanece em casa […] e lê romances franceses. Seu caso parece muito complicado”113. Na semana seguinte, Engels escreve a Bebel, explicando-lhe que “a saúde de M[arx] não mostra a melhora que deveria”114. Em 10 de março, por fim, Engels comunicou a Laura logo após uma avaliação clínica do doutor Donkin: “visitou o Mouro e ficou feliz em dizer que seu veredito estava muito mais favorável do que aquele de duas semanas atrás. Disse que o Mouro não piorou em nada, antes, talvez, melhorado”. Adicionou, porém, que estava “muito fraco, porque (tinha) dificuldade de engolir”, e tinham que “obrigá-lo a comer e beber”115.

Os eventos rapidamente desandaram para o pior. O definhamento do corpo de Marx foi velocíssimo e a isso se somou, por fim, um abscesso pulmonar. Engels começou a se preocupar houvesse verdadeiramente chegado o momento final para o amigo de toda uma existência: “todas as manhãs, nas últimas seis semanas, quando virava a esquina, experimentava um medo mortal de que as persianas estivessem abaixadas”. Este temor tornou-se realidade às 14h45 de 14 de março de 1883.

O relato de Engels mais completo e pleno das palavras mais comoventes sobre o que aconteceu no último dia de vida de Marx foi dirigido a Sorge, o companheiro que foi secretário da Associação Internacional dos Trabalhadores, após a transferência do Conselho Geral nos Estados Unidos da América, em 1872. A este relatou:

Cheguei às 14h30, a hora que ele preferia para a visita cotidiana. A casa estava em prantos, diziam que parecia estar perto do fim. […] Constatou-se uma pequena hemorragia, seguida de sum súbito colapso. Nossa brava e velha Lenchen, que tratou dele como nem mesmo uma mãe cuidaria do próprio filho, dirigiu-se para ao andar de cima e em seguida voltou para baixo. Disse que havia dormido e que eu podia subir. Quando entramos, ele jazia adormecido na cama, mas para nunca mais levantar-se. Não havia mais pulso, nem respiração. Em dois minutos expirara, serenamente e sem dor.

Engels compreendeu imediatamente, mesmo no imenso desconforto da perda de seu mais querido amigo, que, diante de suas irreversíveis condições de saúde, a Marx foi reservada uma morte serena. Comentou com Sorge:

Todos os eventos que ocorrem por causas naturais carregam em si a própria consolação, ainda que possam ser terríveis. Foi assim também nesse caso. Talvez, a competência dos médicos lhe pudesse ter assegurado ainda um ano de existência vegetativa; a vida de um ser impotente, que, devido ao triunfo da medicina, não morre de um só golpe, mas sucumbe pouco a pouco. Todavia, nosso Marx não o teria suportado nunca. Viver com todos aqueles trabalhos incompletos diante de si, ansiando, como Tântalo, por dar-lhes fim sem poder fazê-lo, teria sido mil vezes mais amargo do que a doce morte que o surpreendeu. “A morte não é uma desgraça para aquele que morre, mas para os que ficam”116, costuma dizer, citando Epicuro. E ver este homem genial vegetar como uma ruína pela glória maior da medicina e para o escárnio dos filisteus que ele, quando estava com todas as suas forças, tantas vezes criticara… não, mil vezes melhor assim as coisas como ocorreram. Mil vezes melhor que, depois de amanhã, o levaremos para a tumba onde repousa sua mulher. Depois de tudo o que aconteceu anteriormente, daquilo que nem mesmo os médicos sabiam mais do que, para mim não poderia ser uma escolha117.

Seja como for. A humanidade agora tem uma mente a menos, a mais importante de que poderia se gabar hoje em dia. O movimento proletário prossegue o seu próprio caminho, mas lhe veio a faltar seu ponto central, aquele para o qual, automaticamente, voltavam-se franceses, russos, americanos e alemães nos momentos decisivos, a fim de receber aquele conselho claro e irrefutável que somente o gênio e o completo conhecimento de causa poderiam lhes oferecer. Os reacionários locais, os pequenos luminares e, talvez, também os impostores acharão que têm as mãos livres. A vitória final está assegurada, mas os caminhos tortuosos, as derrotas temporárias e locais – já antes inevitáveis – aumentarão mais do que nunca118. Bem, teremos que dar início a ela. Caso contrário, que estamos fazendo? E, de qualquer forma, estamos muito longe de perder nossa coragem119.

Foi precisamente o que aconteceu. Tantos outros, após a morte de Marx, levantaram suas bandeiras. Da América Latina ao Extremo Oriente, nas sedes sindicais mais pobres da periferia ou nas aulas magnas das universidades mais prestigiadas, dezenas e dezenas de milhões de trabalhadoras e trabalhadores e de jovens estudantes leram seus escritos. Trazem a consciência de sua condição de oprimidos e formularam, com o tempo, inspirações para promover novas revoltas, organizando greves movimentos sociais e partidos políticos. Lutaram pelo pão e pelas rosas, contra a injustiça e pela liberdade e, assim fazendo, deram plena execução às teorias de Marx.

No curso deste longo processo – durante o qual, Marx foi estudado a fundo, transformado em ícone, embalsamado em manuais de regime, mal interpretado, censurado, declarado morto e, de tempos em tempos, redescoberto –, alguns distorceram suas ideias com doutrinas e práticas que, em vida, ele teria combatido irredutivelmente. Outros, por seu turno, enriqueceram-no, atualizaram-no e colocaram em evidência problemas e contradições, com espírito crítico similar ao que ele sempre empregou, e que ele teria apreciado.

Aqueles que hoje voltam a folhear as páginas de seus textos, ou os que se empenham em sua leitura pela primeira vez, não podem ficar menos do que fascinados por sua capacidade explicativa da análise econômica-social de Marx e cativados pela mensagem que transpira, incessantemente, de toda a sua obra: organizar a luta para pôr fim ao modo de produção burguês e pela completa emancipação das trabalhadoras e dos trabalhadores, de todo o mundo, do domínio do capital.

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A esquerda radical na Europa após 1989

O fim do “socialismo real”
Após 1989, como resultado de bruscas mudanças no quadro político e de relevantes transformações econômicas, iniciou-se um processo de restauração do capitalismo que provocou grandes retrocessos sociais em escala global. Também na Europa, as forças anticapitalistas observaram uma redução inexorável em seu papel de protagonista na sociedade. Na realidade, confrontaram-se com a enorme dificuldade de organizar e orientar as lutas sociais; no campo ideológico, a esquerda como um todo perdeu o papel de hegemonia conquistado após 1968 na cultura de muitos países.

Tal retrocesso também se manifestou nas eleições. A partir dos anos 1980, tanto os partidos que se agregaram em torno das ideias do eurocomunismo como aqueles ainda fortemente vinculados às diretrizes de Moscou sofreram uma grave diminuição de apoio, o que gerou, após o fim da União Soviética, um verdadeiro colapso. O mesmo destino reservou-se também aos diversos reagrupamentos da nova esquerda e aos partidos trotskistas.

Sucessivamente, iniciou-se uma fase de reconstrução, no curso da qual surgiram, muitas vezes por meio de processos confederativos entre os vários elementos anticapitalistas que continuaram vivos, novas formas políticas. Isso permitiu às forças tradicionais da esquerda abrir-se também aos movimentos ecologistas, feministas e pacifistas que surgiram nas duas décadas precedentes. A Esquerda Unida (IU) na Espanha, criada em 1986, foi a precursora desse processo. Em seguida, iniciativas análogas amadureceram em Portugal, onde em 1987 nasceu a Coligação Democrática Unitária (CDU); na Dinamarca, em 1989, a Lista Unitária – Aliança Vermelho-Verde (Enhl., Ø); na Finlândia, em 1990, a Aliança de Esquerda (VAS); e na Itália e na Grécia, em 1991, quando fundaram o Partido da Refundação Comunista (PRC) e do Synaspismos (SYN – Coalizão da Esquerda, dos Movimentos e da Ecologia).

As modalidades organizativas pelas quais se definiram as novas agremiações foram várias. Os partidos que formaram a Esquerda Unida – entre os quais o Partido Comunista da Espanha – conservaram sua existência; a Coalizão Democrática Unitária em Portugal serviu somente como panfleto eleitoral, enquanto o Partido da Refundação Comunista na Itália e do Synaspismos na Grécia constituíram-se como sujeito político novo e unitário. Em outros países, no entanto, deu-se uma tentativa de renovação, algumas vezes quase somente de fachada em relação aos partidos existentes antes da queda do Muro de Berlim. Em 1989, após a fundação da República Tcheca, nasceu o Partido Comunista da Boêmia e Morávia (KSČM); enquanto em 1990, na Alemanha, nasceu o Partido do Socialismo Democrático (PDS), herdeiro do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED), no governo da República Democrática da Alemanha desde 1949. No mesmo ano, na Suécia, o Partido da Esquerda Comunista (V) assumiu uma orientação mais moderada e eliminou a palavra “comunista” da sigla.

A falência das experiências governativas
Esses novos partidos, bem como aqueles que não haviam mudado sua denominação, conseguiram conservar uma presença política nos respectivos cenários nacionais e contribuíram, juntamente com os movimentos sociais e as forças sindicais progressistas, à luta contra as políticas neoliberais, endurecidas após a entrada em vigor do Tratado de Maastricht em 1993, em virtude do qual foram estabelecidos os parâmetros monetários para o ingresso de cada país na União Europeia.

Em 1994, criou-se o grupo da Esquerda Unitária Europeia no parlamento europeu, o qual, após um ano da adesão de alguns países escandinavos, modificou seu nome para Esquerda Unitária Europeia – Esquerda Nórdica Verde (GUE/NGL).

Além disso, na metade dos anos 1990, algumas forças políticas da esquerda radical, favorecidas pelas greves e pelas grandes manifestações em praça contra os governos de Berlusconi e Dini na Itália, Juppé na França e Gonzáles e Aznar na Espanha, obtiveram uma discreta afirmação eleitoral. A Esquerda Unida conquistou 13,4% nas eleições europeias em 1994; o Partido da Refundação Comunista alcançou 8,5% dos votos nas eleições italianas em 1996; o Partido Comunista Francês obteve quase 10% nas eleições legislativas em 1997. No mesmo ritmo, esses partidos registraram um aumento no número de filiados e a ampliação de seu enraizamento nos territórios e nos locais de atuação. Nessa fase de consolidação são exceções os países do Leste Europeu, nos quais, excluindo-se o Partido Comunista da Boêmia e Morávia, a herança das ditaduras “comunistas” do pós-guerra não possibilitou – e impede ainda hoje – o desenvolvimento de um processo de renascimento das forças de esquerda. Enquanto isso, na frente social-democrata, a chegada de Tony Blair, que liderou o Partido Trabalhista desde 1994 e foi primeiro-ministro do Reino Unido, de 1997 a 2007, preparou o caminho para uma profunda mutação ideológica e programática da Internacional Socialista.

Sua “Terceira via” adere servilmente ao mantra liberal, dissimulada com uma exaltação vazia do “novo”, sendo acolhida e apoiada, em níveis e de maneiras diversas, pelo governo Gerhard Schröder, chanceler do Partido Social-Democrata Alemão (SPD) de 1998 a 2005, por José Sócrates, primeiro-ministro do Partido Socialista Português (PS) de 2005 a 2011, e por Romano Prodi, presidente do Conselho de Ministros da República Italiana, na direção das coalizões de centro-esquerda, de 1996 a 1998 e de 2006 a 2008. Em nome do “futuro das próximas gerações”, tais membros do Executivo, inspirados pela Estratégia de Lisboa – programa econômico aprovado em 2000 pelos governos dos países da União Europeia –, colocaram em ação, quase do mesmo modo que a centro-direita, reformas econômicas que devastaram o modelo social europeu. Na realidade, deram início, de modo inflexível, a grandes cortes nas despesas públicas, tornaram as relações de trabalho precárias (limitando a tutela legislativa e piorando as condições em geral), colocaram em prática políticas de “moderação” salarial e liberalizaram os mercados e os serviços, conforme mandava a infeliz “diretriz Bolkestein” de 2006.

Em muitos países do sul da Europa, a situação foi ainda mais agravada pelo redimensionamento de algumas garantias fundamentais do welfare state – a começar pelos ataques ao sistema de aposentadoria e pensões –, por posteriores alienações em massa do patrimônio público, processos de privatização da educação, drástica redução dos fundos para pesquisa e inovação e, por fim, ausência de políticas industriais eficazes.

Nos países da Europa do Leste, as escolhas foram análogas. Os governos socialistas de Leszek Miller (2001-2004) na Polônia e de Ferenc Gyurcsány (2004-2010) na Hungria foram um dos mais fiéis seguidores do neoliberalismo e realizaram grandes cortes nos gastos públicos. Desse modo, perderam o apoio da classe trabalhadora e dos estratos mais pobres da população, a ponto de hoje as forças da Internacional Socialista ocuparem uma posição totalmente marginal em ambos os países. No que diz respeito às direções de política econômica, é difícil identificar diferenças que não sejam totalmente marginais, entre o que foi realizado pelos governantes socialistas e pelos governos conservadores quando no comando em períodos semelhantes. Aliás, em muitos casos, os partidos social-democratas, ou os políticos de centro-esquerda, foram ainda mais funcionais para o projeto neoliberal. Suas decisões na realidade angariaram mais facilmente o aval das organizações sindicais, guiadas pela velha e ilusória lógica do “governo amigo”.

Com o tempo, a escolha de adotar um modelo conciliatório e pouco conflitual fez com que os sindicatos se tornassem sempre menos representativos dos estratos sociais mais fracos. A metamorfose da social-democracia europeia, que aconteceu com a adesão acrítica ao capitalismo e a todos os princípios do liberalismo, demonstrou que os eventos de 1989 haviam causado mudanças bruscas não apenas no campo comunista, mas também em todas as forças socialistas. De fato, essas renunciaram a qualquer função reformadora, ou à característica principal por meio da qual se diferenciaram após a Segunda Guerra Mundial, quando apoiaram, por exemplo, a intervenção estatal na economia. Apesar da profunda mudança neoliberal da Internacional Socialista, muitos partidos da esquerda radical europeia, com a legítima preocupação de impedir o nascimento de governos de direita que teriam piorado ainda mais a condição de jovens, trabalhadores e aposentados, ou, em alguns momentos, para evitar o isolamento e o medo de serem punidos pela lógica do “voto útil”, aliaram-se com as forças da social-democracia. Após alguns anos, o Partido da Refundação Comunista na Itália (1996-1998 e 2006-2008), o Partido Comunista Francês na França (1997-2002), a Esquerda Unida na Espanha (2004-2008) e o Partido da Esquerda Socialista (SV) na Noruega (2005-2013) entraram na maioria parlamentar dos governos de centro-esquerda ou aceitaram também a direção de alguns ministérios.

Recentemente, também o partido Aliança de Esquerda na Finlândia (2011-2014) e o Partido Popular Socialista na Dinamarca (2011-2015) assumiram responsabilidades no governo. O vento liberal que soprava sem qualquer impedimento desde a península Ibérica até a Rússia e, especialmente, a ausência de grandes movimentos sociais, que poderiam ter condicionado as ações dos governos de orientação socialista, representavam, com toda evidência, dois avisos de caráter negativo para os partidos da esquerda radical. Além disso, chamados a presidir, com representantes próprios, ministérios de pouca relevância (como nos casos da França e da Itália), ou podendo valer-se apenas de grupos parlamentares limitados (como na Espanha), a relação de força que conseguiram estabelecer com o Executivo que defendiam foi muito fraca.

Portanto, as esquerdas anticapitalistas não conseguiram obter nenhuma conquista social significativa, a não ser algum paliativo leve com ligeira contratendência às diretrizes econômicas de fundo. Reciprocamente, em diversas ocasiões, tiveram de “engolir o sapo” e votar a favor de medidas contra as quais haviam, anteriormente, prometido fazer a mais intransigente oposição.

Os resultados eleitorais sucessivos a sua participação no governo foram, na realidade, desastrosos em todos os lugares. Nas eleições presidenciais de 2007, os comunistas franceses obtiveram menos de 2% dos votos. No ano seguinte, a Esquerda Unida espanhola caiu vertiginosamente para 3,8%, sua votação mínima histórica, e, pela primeira vez na história republicana, os comunistas foram excluídos do parlamento italiano, com a desoladora porcentagem de 3,1%, além do mais, alcançada sob a bandeira da mais ampla coalizão, denominada Esquerda Arco-Íris.

A nova geografia política da esquerda radical europeia
A crise econômica e política que atravessa a Europa provocou, contemporaneamente, o avanço das forças populistas, xenófobas e de extrema direita [1], e também grandes lutas de resistência e manifestações de protesto contra as medidas de austeridade impostas pela Comissão Europeia e colocadas em prática pelos governantes nacionais. Isso favoreceu, especialmente na parte meridional do continente, o renascimento das forças da esquerda radical, com um notável triunfo eleitoral. Grécia, Espanha, Portugal, bem como Irlanda e, em menor grau, outros países, foram palco de imponentes mobilizações de massa contra as políticas neoliberais. Na Grécia, a partir de 2010, foram declaradas mais de quarenta greves gerais. Na Espanha, em 15 de maio de 2011, teve início uma grande rebelião, da qual participaram milhões de cidadãos e da qual surgiu o movimento posteriormente definido como Indignados. Os manifestantes conseguiram ocupar, por quatro semanas, a Puerta del Sol, principal praça de Madri. Poucos dias depois, uma contestação análoga aconteceu também em Atenas, na praça Syntagma. Em ambos os países, essas lutas sociais estabeleceram as condições para a sucessiva afirmação das forças de esquerda.

Por outro lado, as organizações sindicais, mesmo favorecidas por um contexto comum – nos países europeus as medidas adotadas após a crise tinham causado os mesmos desastres sociais –, não tiveram vontade política para redigir uma plataforma única de reivindicação e articular uma série de mobilizações em escala continental. A única exceção parcial foi representada pela greve geral, proclamada em 14 de novembro de 2012, na Espanha, na Itália, em Portugal, no Chipre e em Malta, apoiada também por iniciativas de solidariedade na França, na Grécia e na Bélgica. Naquele período, no espaço político, a esquerda anticapitalista prosseguiu em seu percurso de reconstrução e de recomposição das forças em campo. De fato, nasceram novas formações inspiradas no pluralismo, capazes de unir o mais amplo leque de sujeitos políticos, garantindo, ao mesmo tempo, uma maior democracia interna por meio do princípio “uma cabeça, um voto”. Já em 1999, surgiram o Bloco de Esquerda (BE) em Portugal, no qual confluíram as forças mais significativas existentes à esquerda do Partido Comunista Português, e A Esquerda (DL) em Luxemburgo. Em 2004, foi a vez da Coalizão da Esquerda Radical (Syriza), a aliança entre Synaspismós e numerosas outras forças anticapitalistas gregas que constituíram um partido único somente em 2012.

Em maio de 2004, foi fundado também o Partido da Esquerda Europeia, no qual se associaram, inicialmente, quinze partidos, comunistas, socialistas e ecologistas, com a intenção de construir um sujeito político capaz de reunir as principais forças da esquerda antagonista em um programa comum. De tal partido fazem parte atualmente as organizações políticas de vinte países. Tal reagrupamento antecedeu, em alguns meses, a criação da Aliança da Esquerda Nórdica Verde, na qual confluíram sete partidos da Europa setentrional. Ao lado da maior coalizão do Partido da Esquerda Europeia, existia também a Esquerda Anticapitalista Europeia (EACL), uma aliança menor, nascida em 2000, na qual confluíram mais de trinta partidos trotskistas, muitas vezes de menor dimensão. Seus principais promotores foram o Bloco da Esquerda em Portugal, a Lista Unitária – Aliança Vermelho-Verde na Dinamarca e o Novo Partido Anticapitalista na França.

No parlamento europeu, os representantes dessas forças aderiam ao grupo Esquerda Unitária Europeia – Esquerda Nórdica Verde. Alguns anos mais tarde, a saída forçada, quase simultânea, dos componentes mais radicais do Partido Social-Democrata Alemão e do Partido Socialista (PS) francês – que rapidamente assumiram posições mais à esquerda em relação aos grupos dirigentes do Partido do Socialismo Democrático, na Alemanha, e do Partido Comunista Francês – favoreceu o nascimento, em 2007, do A Esquerda (DL) na Alemanha e, em 2008, da Frente de Esquerda (FdG) na França, onde a transformação, em 2009, da Liga Comunista Revolucionária (LCR) no Novo Partido Anticapitalista (NPA) pode ser reconduzida à mesma exigência, percebida por algumas forças mais tipicamente classistas do comunismo europeu, de colocar ao centro da própria iniciativa política as novas contradições, que se tornaram cada vez mais relevantes, geradas pela exclusão social e pela necessidade de abrir-se a uma geração mais jovem de militantes.

No mesmo ano, nasceram na Itália também a Esquerda, Ecologia e Liberdade (SEL), na qual o elemento moderado do Partido da Refundação Comunista fundiu-se com um grupo de dissidentes dos Democratas de Esquerda, e a Federação da Esquerda (FdS), aliança entre o Partido da Refundação Comunista e outros três movimentos políticos menores. Na Suíça, um processo semelhante ocorreu em 2010, com a fundação do Alternativa Esquerda (AL). O mesmo caminho foi tentado na Inglaterra, mas com insucesso, primeiro com o Partido do Respeito, em 2004, depois com a Esquerda Unida (LU), em 2013. Também do outro lado do Bósforo foi realizado o mesmo percurso. Em 2012, o movimento curdo associou-se com várias organizações da esquerda turca para fundar o Partido Democrático do Povo (HDP), que tornou-se rapidamente a quarta força política na Turquia, com 10,7% nas eleições de novembro em 2015 [2]. Em 2014, surgiram a Esquerda Unida (ZL) na Eslovênia e o Podemos na Espanha – caso muito particular, pois nasceu com a ambição de superar a tradicional definição de partido de esquerda. De todo modo, essa última formação, após ser apresentada pela primeira vez nas últimas eleições europeias, aderiu também ao grupo Esquerda Unitária Europeia – Esquerda Nórdica Verde.

Em outubro de 2015, finalmente, na Irlanda, foi fundada a coalizão eleitoral Aliança Antiausteridade-Pessoas antes do Lucro (AAA-PBP), que colocou fim a um longo conflito entre o Partido Socialista (PS) e a Aliança Pessoas antes do Lucro (APBP). O modelo plural – tão diverso do partido monolítico, inspirado no princípio do centralismo democrático, utilizado pelo movimento comunista no século XX – estendeu-se, rapidamente, à maioria das forças radicais da esquerda europeia. Os experimentos mais bem-sucedidos não foram tanto os processos confederativos que se limitaram a mera reunificação de pequenos grupos e de organizações já existentes, mas sim as recomposições guiadas pela necessidade de envolver aquela rede vasta e dispersa de subjetividades sociais, capazes de articular diferentes práticas de conflito. Essa escolha revelou-se bem-sucedida na medida em que conseguiu atrair novas forças, envolvendo jovens e reconquistando militantes desiludidos, e favoreceu, no final, o triunfo eleitoral dos novos partidos que surgiram. Na realidade, nas eleições alemãs em 2009, o partido A Esquerda conquistou 11,9%, o triplo do obtido pelo Partido do Socialismo Democrático sete anos antes (4%).

Em 2012, o candidato da Frente de Esquerda nas eleições presidenciais francesas, Mélenchon, alcançou 11,1% dos votos, melhor resultado pós-1981, por uma força à esquerda do Partido Socialista. No mesmo ano, iniciou-se a rápida escalada do Syriza, que obteve 16,8% nas eleições de maio e 26,9% nas de junho, antes de conquistar a maioria no governo (evento inédito, desde o pós-Segunda Guerra Mundial, para um partido anticapitalista na Europa [3]), com 36,3% em janeiro de 2015.

Excelentes resultados foram conseguidos também na península Ibérica, onde, nas eleições europeias de 2014, a Esquerda Plural espanhola (uma nova coalização eleitoral encabeçada pela Esquerda Unida) superou 10% e o Podemos chegou a quase 8%. O total dos votos obtidos pelas forças de esquerda foi ainda maior nas eleições gerais de dezembro 2015, quando o Podemos alcançou 12,6%; a Unidade Popular (a última sigla empregada pela Esquerda Unida), 3,6% e uma série de listas locais, entre as quais Em comum podemos (Catalunha – 3,7%); Compromisso-Podemos-É o momento (Comunidade Valenciana – 2,6%); Na Maré (Galícia – 1,6%), País Basco Unido (0,8%), que juntos obtiveram quase 9% dos votos. Além disso, nas eleições políticas portuguesas de outubro 2015, a Coalizão Democrática Unitária totalizou 8,3% dos votos, e o Bloco de Esquerda, com 10,2%, obteve seu melhor resultado dos últimos tempos, tornando-se a terceira maior força política lusitana. Esse resultado foi confirmado nas eleições presidenciais de janeiro 2016, na ocasião em que o partido superou novamente 10% dos votos. Experimentos de esquerda plural – sempre caracterizados por uma clara plataforma política antiliberista – foram exitosos também em algumas eleições locais.

Como demonstraram os resultados nas eleições regionais francesas de 2010 em Limousin, quando a coalizão entre a Frente da Esquerda e o Novo Partido Anticapitalista alcançaram 19,1% no segundo turno, e nas eleições municipais recentes na Espanha, onde a lista Agora Madri e Barcelona em Comum, nas quais confluíram a Esquerda Unida e o Podemos, conquistou os dois municípios mais importantes do país. Em ambos os casos, amplas alianças, nascidas do empurrão do protagonismo das bases, permitiram superar as diferenças existentes entre os grupos dirigentes em nível nacional. Entres os resultados eleitorais mais consideráveis conseguidos no último decênio da esquerda radical, devemos registrar também aqueles obtidos por partidos que decidiram não se dissolver para se fundir com outras forças políticas. Notável foi a consolidação do Partido Socialista (PS) na Holanda – 16,6% em 2006 –, no rastro da oposição ao referendo contra o Tratado sobre a Constituição Europeia, e o sucesso do Partido Progressista dos Trabalhadores (Akel) no Chipre, cujo secretário geral Demetris Christofias foi vencedor das eleições presidenciais em 2009 (33,2% no primeiro turno e 53,3% no segundo).
Seu mandato se destacou, no entanto, por uma clamorosa derrota: a incapacidade de pôr fim ao conflito que divide a ilha desde 1974 e a submissão explícita, em matéria econômica, em relação às imposições da troika.

Outro evento, imprevisível até alguns anos atrás, contribuiu para abalar a geografia da esquerda europeia. Após as eleições primárias de setembro de 2015, 59,5% dos militantes ingleses do Partido Trabalhista elegeram Jeremy Corbyn como novo líder da organização. Onde vinte anos atrás se sentava Tony Blair, hoje está um anticapitalista declarado, o secretário mais à esquerda da história do partido britânico. Essa extraordinária novidade, que alguns anos atrás seria menos previsível que a conquista do governo grego pelo Syriza, representa um exemplo significativo do despertar da esquerda.

Além dos casos dos vários partidos nacionais, o avanço geral da esquerda radical foi confirmado também por ocasião das últimas eleições europeias. O número de votos obtidos por ela foi de 12.981.378, equivalente a 8% do total, um aumento de 1.885.574 da preferência em relação a 2009. Considerando-se também somente os dados dos eleitos, o alinhamento da Esquerda Unitária Europeia – Esquerda Nórdica Verde representa a quinta força política no Parlamento Europeu (em 2009 era a sétima) com 6,9% dos deputados, o equivalente a 52 parlamentares [4]. Nele temos: Partido Popular Europeu (29,4%), Aliança Progressista dos Socialistas e dos Democratas (25,4%), Grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus (9,3%), Aliança Livre Europeia (6,6%), a Europa da Liberdade e da Democracia Direta (6,4%) e Europa das Nações e da Liberdade (5,2%). No entanto, esses resultados positivos são ofuscados por alguns elementos negativos. Em muitos países da Europa oriental, a esquerda radical exprime, na realidade, uma posição ainda marginal, quando não totalmente minoritária [5]. Está distante das lutas sociais, privada de enraizamento ao longo do território e nas organizações sindicais, sendo desconhecida pelas gerações mais jovens e permeada pontualmente por um fanatismo autodestrutivo e por divisões internas dilacerantes. Em outras palavras, não possuem, no momento, uma perspectiva de desenvolvimento.

Tal situação repetiu-se também nas ocasiões eleitorais. Em seis nações – Polônia, Romênia, Hungria, Bulgária, Bósnia Herzegovina, Estônia –, a esquerda radical obteve menos de 1% dos votos, enquanto em outras, como a Croácia, a Eslováquia, a Lituânia e a Letônia, obteve percentuais levemente superiores. Continua fraca também na Áustria, na Bélgica e na Suíça, enquanto na Sérvia a esquerda é ainda identificada com o Partido Socialista da Sérvia, liderado durante um longo período por Slobodan Milošević. Estamos na presença de uma realidade muito heterogênea. Nos países da península Ibérica e do Mediterrânio – com exceção da Itália –, nos últimos anos, a esquerda radical expandiu-se significativamente. Na Grécia, na Espanha, em Portugal e no Chipre suas forças consolidaram-se estavelmente e são reconhecíveis nos grupos dos principais atores políticos dos respectivos cenários nacionais. Na França, reconquistou também um discreto papel social e político. Na Irlanda, o nacionalismo republicano e progressista do Nós mesmos (Sinn Fein – SF), por mais moderado que seja, alcançou 22,8% dos votos nas eleições europeias em 2014, sendo uma barreira ao avanço das forças conservadoras.

No centro da Europa, a esquerda radical conseguiu conservar uma boa força eleitoral na Holanda e na Alemanha – ainda que os bons resultados nas urnas não tenham correspondido a combates sociais significantes –, mas seu peso é limitado em outros lugares do continente. Nos países nórdicos, ela manteve a força sobre a qual se situou após 1989 (eleitoralmente em torno a 10%), mas se mostrou incapaz de atrair o amplo descontentamento popular, capturado, quase inteiramente, pelos partidos de direita.

O principal problema da esquerda antagonista continua, de qualquer modo, no Leste, onde, com exceção do Partido Comunista da Boêmia e Morávia na República Tcheca e da Esquerda Unida na Eslovênia, é quase inexistente e incapaz de ir além do fantasma do “socialismo real”. Dadas essas circunstâncias, a expansão da União Europeia sobre a parte oriental fez o centro político do continente guinar definitivamente à direita, algo testemunhável pelas rígidas posições intransigentes assumidas pelos governos da Europa oriental durante a crise recente na Grécia e em relação à chegada dos refugiados dos palcos de guerra.

Além do espaço da eurozona?
A transformação dos partidos de esquerda radical em organizações mais amplas e plurais demonstrou-se uma receita útil para diminuir a fragmentação preexistente, mas certamente não resolveu os problemas de natureza política.

Na Grécia, após o nascimento do governo liderado por Alexis Tsipras, o Syriza tinha a intenção de romper com as políticas de austeridade adotadas por todos os membros do Executivo de centro-esquerda, “técnicos” ou de centro-direita, que se alternaram no poder desde 2010. Todavia, em função do enorme débito público do Estado helênico, a concretização dessa reviravolta foi imediatamente subordinada a uma negociação com os credores internacionais.
Depois de cinco meses de extenuantes negociações – durante as quais o Banco Central Europeu interrompeu também o crédito ao Banco Central de Atenas, resultando na paralisia dos guichês bancários gregos –, os líderes da Eurozona impuseram ao governo grego um novo plano de salvação, no qual foram inseridas todas as medidas econômicas contra as quais o Syriza tinha expressado anteriormente sua mais ferrenha oposição. De 2010 em diante, o arco parlamentar das forças políticas que aceitou o memorando de Bruxelas foi muito amplo. Da direita à esquerda, dobraram-se à inexorável lógica da austeridade os partidos Nova Democracia, Gregos Independentes (Anel), Potami, Esquerda Democrática, Movimento Socialista Pan-Helênico e, por fim, também o Syriza.

Nem mesmo a vigorosa resposta ao referendo consultivo sobre as propostas da troika, convocado em 5 de julho de 2015 – no qual 61,3% dos gregos haviam se manifestado contra –, serviu para determinar um resultado diverso.

Para evitar a saída da eurozona, o governo Tsipras consentiu posteriormente com sacrifícios sociais, consideráveis privatizações do patrimônio público – que será colocado à venda como mercadoria em liquidação – e, em geral, um conjunto de medidas de austeridade funcional visando apenas aos interesses dos credores internacionais, não ao desenvolvimento da economia do país.

Por outro lado, a saída da Grécia da eurozona, hipótese prevista por alguns somente na data de vencimento das negociações com o eurogrupo, teria lançado o país em uma condição de caos econômico e profunda recessão. Uma escolha de tal porte deveria ter sido preparada com antecedência, acompanhada de uma escrupulosa avaliação de todos os cenários que poderiam ocorrer e de uma rigorosa programação de todas as medidas a ser adotadas. Sobretudo, deveria ter sido apoiada pelo amplo alinhamento de forças sociais e políticas. Sem esse imprescindível pressuposto, a autarquia econômica, na qual a Grécia teria sido condenada a resistir por um tempo difícil de prever, poderia ter aberto um espaço político ainda maior aos neofacistas do partido Aurora Dourada.

O êxito das negociações entre o governo Tsipras e o eurogrupo evidenciou que, quando um partido de esquerda vence as eleições e quer realizar políticas econômicas alternativas àquelas dominantes, as instituições de Bruxelas estão prontas a impedir que isso aconteça. Se, a partir dos anos 1990, a aceitação incondicionada da crença neoliberal, por parte das forças da social-democracia europeia, teve como consequência a homologação dos programas destas últimas no lugar daqueles dos partidos de centro-direita, hoje, ao contrário, quando chega ao poder um partido da esquerda radical, é a própria troika que intervém para evitar a alternância dos membros do Executivo que alterem suas diretivas econômicas. Vencer as eleições não é mais suficiente. A União Europeia tornou-se um fundamento do capitalismo neoliberal.

Sucessivamente, retomou-se uma profunda reflexão coletiva – a partir da questão da oportunidade de manter a todo custo a moeda única – para compreender quais seriam os melhores caminhos a percorrer para pôr fim às políticas econômicas em vigor, sem abandonar, entretanto, a perspectiva de realizar uma nova e diferente união política europeia.
Atualmente, a posição majoritária dos partidos da esquerda radical continua sendo, em continuidade com as posições assumidas nos últimos anos, a de sustentar a possibilidade de modificar as políticas europeias no contexto existente, ou seja, sem romper com a união monetária alcançada em 2002, com a entrada em vigor do euro.

Na liderança desse sentido está o Syriza, que, após ter chegado ao governo, apesar de ter tido a oportunidade de elaborar e executar soluções alternativas – não obstante ter sofrido pressões indevidas das instituições europeias, para que não iniciasse qualquer mudança –, jamais considerou a opção da “Grexit”. Em setembro de 2015, obtendo 35,5% dos votos, Tsipras venceu as eleições antecipadas por ele convocadas sucessivamente ao conflito que surgiu com parte de seu partido contrária à atuação das medidas comtempladas no memorando e retornou ao governo com um grupo parlamentar coeso e não mais sujeito ao risco de dissidências internas.
O Syriza, portanto, não obstante o aumento do abstencionismo (mais de 7% em relação às eleições de oito meses antes) e a queda do número de votantes (600 mil a menos) em relação ao referendo de julho, conseguiu manter o apoio de parte significativa do povo grego. Todavia, a confiança que foi renovada será em breve colocada à prova pelos efeitos dos cortes impostos pelo eurogrupo, e não é temerário prever o surgimento de cenários ainda mais incertos do que o atual.

A estratégia do Syriza, para evitar a perda de apoio sofrida por todas as outras forças políticas que, no passado, aplicaram os precedentes “programas de salvação” da troika, aparece orientada em duas direções. O governo grego tentará renegociar uma substancial redução do débito público com o objetivo de evitar o início de um novo ciclo de deflação. Além disso, buscará introduzir uma agenda paralela àquela imposta por Bruxelas, com a qual pode realizar algumas medidas de redistribuição social capaz de limitar os efeitos do último memorando.

À luz de quando ocorreu em 2015, pode-se afirmar objetivamente que se trata de uma missão quase impossível. Em todo caso, após a experiência do governo Tsipras, ficou evidente que, diante de uma provável recusa das instituições europeias em relação à restruturação do débito, é preciso estar preparado para agir prevendo também o possível abandono da eurozona. Seria de todo modo incorreto considerar tal hipótese como a solução para todos os males.

Além do Syriza, a escolha de que seja possível reformar a União Europeia dentro do atual cenário é compartilhada pela maioria das principais forças do Partido da Esquerda Europeia, dentre as quais A Esquerda na Alemanha, Partido Comunista Francês e Esquerda Unida espanhola. Nesse bloco, situa-se também o Podemos, cujo grupo dirigente declarou-se convencido de que, se ao governo grego se juntassem outros dispostos a não aceitar as políticas de austeridade impostas pela troika, poderia abrir-se um espaço para romper com algo que hoje parece tão inalterável. O resultado das recentes eleições em Portugal – que entregaram uma aliança de todo impensável até pouco tempo atrás: um governo de minoria liderado pelo socialista Antonio Costa, com o apoio externo do Bloco de Esquerda e da Coalizão Democrática Unida – parece ter reforçado essa esperança.

Todavia, para outros, a “crise grega” – que, na realidade, é uma crise da democracia em tempos de capitalismo neoliberal – parece comprovar a impossibilidade de reformabilidade desse modelo de União Europeia. Não tanto pelas atuais correlações de força presentes em seu interior, sempre mais desfavoráveis às forças anticapitalistas após a expansão ao Leste Europeu, mas sim por sua arquitetura geral. Os inflexíveis parâmetros econômicos impostos, de maneira crescente, a partir do Tratado de Maastricht, reduziram inevitavelmente, ou em alguns casos quase anularam, as mais complexas e heterogêneas exigências da política.

Nos últimos 25 anos, as políticas neoliberais, cobertas de um véu enganador da tecnocracia e da não ideologia, triunfaram em todos os cantos na Europa, dando duros golpes em seu modelo de welfare state. Os Estados nacionais encontraram-se gradualmente privados de alguns instrumentos importantes de direção político-econômica que seriam indispensáveis para iniciar programas de investimentos públicos voltados a mudar o curso da crise. Finalmente, estabeleceu-se a praxe antidemocrática – que se consolidou a ponto de parecer já natural – de assumir decisões de grande relevo sem requerer a aprovação popular.

Portanto, nos últimos meses, o número dos que reputam ilusória a possibilidade de democratizar a eurozona, mesmo que exprimam uma posição que continua minoritária, aumentou notavelmente. Ao lado das forças da esquerda radical tradicionalmente eurocéticas, como o Partido Comunista Português, o Partido Comunista da Grécia ou, na Escandinávia, o Lista Unitária – Aliança Vermelho-Verde na Dinamarca, juntou-se o Unidade Popular (LE) na Grécia (2,8% dos votos nas últimas eleições). Além disso, muitos intelectuais e dirigentes políticos manifestaram explicitamente a posição contrária ao euro.

Ao lado dos dois posicionamentos mais claramente pró ou contra a “democratização do euro”, existe uma área, bem ampla, que hesitaria em fornecer uma clara resposta à pergunta: “O que fazer se amanhã acontecesse em outro país aquilo que aconteceu na Grécia?”. Se por um lado tornou-se uma preocupação comum a outros partidos, ou coalizões de governo, que no futuro eles possam ser submetidos à chantagem sofrida pelo Syriza, por outro lado é bastante difundido também o temor de que, ofuscando a saída da eurozona, a esquerda anticapitalista perderia o apoio de amplos setores da população, alarmados pela instabilidade econômica e pela perda do poder de aquisição de salários e aposentadorias decorrente da inflação. Típico exemplo dessa incerteza é representado pela mudança de posição, nos últimos anos, do Bloco de Esquerda em Portugal e do Partido Socialista na Holanda.

Se, nos próximos meses, outras forças sociais, partidos e intelectuais também se aglutinarem em torno desse objetivo, no futuro o pedido de saída do euro poderá deixar de ser uma bandeira somente da direita populista.

Portanto, o conflito que implodiu o Syriza poderá reproduzir-se em outros lugares. A demonstrá-lo, desde já, estão as fibrilações internas na Frente da Esquerda na França e no Partido de Esquerda na Alemanha. Para a esquerda radical europeia, portanto, poderá concretizar-se o risco de uma nova temporada de divisões. Tal condição revela o limite do pluralismo que as forças antagonistas aplicaram nos últimos anos, ou seja, a indefinição programática. De fato, a diversidade de posições e de culturas políticas existentes entre as várias organizações que deram vida a essas novas agregações requereria um difícil, mas não impossível, acordo pontual sobre as estratégias a ser seguidas.

Outras tensões também percorrem a esquerda radical europeia quanto ao conteúdo das relações a ser mantidas com as forças social-democráticas. O nó, que se apresenta também em nível municipal e regional, diz respeito à constante incerteza sobre a conveniência de ao menos participar de experiências de governo em aliança com essas forças políticas. O risco concreto é aquele de se desenvolver um papel subalterno, aceitando, como no passado, compromissos de contingenciamento que dilapidariam o apoio conquistado até o momento e que deixariam para a direita populista o monopólio da oposição social.

A hipótese de governo deve, portanto, ser levada em consideração somente se e quando estiverem presentes as condições para atuar um programa econômico em clara descontinuidade com as políticas de austeridade impostas na última década. Realizar escolhas diferentes significaria não valorizar as lições dos anos passados, quando a participação dos partidos da esquerda radical nos governos moderados, sob a liderança socialista, comprometeu sua credibilidade junto às classes trabalhadoras, aos movimentos sociais e aos extratos sociais mais fracos.

Diante de um desemprego que, em muitos países, apresenta-se com níveis jamais atingidos desde o segundo pós-guerra, torna-se prioritário o início de um grande plano para o trabalho, apoiado por investimentos públicos, que tenham como princípio o desenvolvimento sustentável. Isso deve ser acompanhado de uma clara inversão de tendência em relação à precarização dos contratos de trabalhos, que seja o oposto de todas as recentes “reformas” do mercado de trabalho, e da introdução de uma lei que indique um mínimo salarial como piso. Essas medidas restituiriam às jovens gerações uma possibilidade de organizar o próprio futuro.

Além disso, deveriam ser aplicadas a redução de horário de trabalho e a redução da idade para a aposentadoria. Por meio dessas medidas seriam reestabelecidos alguns elementos de justiça social, necessários para derrubar a ordem neoliberal que tem aumentado constantemente a desigualdade na distribuição da riqueza produzida.

Para afrontar a dramática emergência ocupacional, os partidos da esquerda radical deveriam fazer aprovar, em todos os países onde não existem, medidas para instituir uma renda cidadã e algumas formas primárias de subsidiar as faixas menos favorecidas – do direito a casa, a incentivos para a utilização dos transportes, ao direito gratuito à instrução –, de modo a combater a pobreza e a exclusão social cada vez mais difusa. Paralelamente, torna-se imprescindível inverter os processos de privatização que caracterizaram a contrarrevolução das últimas décadas, restituindo à propriedade pública e ao controle universal todos aqueles bens comuns que foram transformados de serviço em prol da coletividade em meio para gerar lucro para poucos.

No que diz respeito aos recursos necessários para financiar tais reformas, esses poderiam ser obtidos das receitas oriundas da introdução de um imposto sobre o capital e de uma taxa sobre as atividades não produtivas das grandes empresas e também sobre transações e rendimentos financeiros. É evidente que, para realizar esse projeto, impõe-se como primeiro ato necessário a promoção de um referendo abrogativo do fiscal compact, de modo a cancelar os vínculos impostos pela troika. Muito importante seria também impedir a aprovação do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento, cuja operabilidade só faria piorar a situação.

Em escala continental, uma verdadeira alternativa somente poderia ser concebida se um amplo posicionamento de forças políticas e sociais for capaz de impor uma conferência europeia para a restruturação do débito público.

Esse cenário poderá acontecer apenas se a esquerda radical desenvolver, com a mais firme determinação e maior continuidade, campanhas políticas e mobilizações transnacionais, a começar pela recusa da guerra e da xenofobia e apoiando a extensão de todos os direitos sociais e de cidadania aos migrantes que chegam ao solo europeu.

Uma política de alternativa não permite atalhos. Na realidade, não basta valer-se de um líder carismático, tampouco a fraqueza dos partidos de hoje justifica a falta de força perante às instituições do Estado. É necessário construir novas organizações – porque delas a esquerda tem tanta necessidade quanto teve no século XX – que tenham uma presença capilar em seus locais de atuação, agindo para a reunificação das lutas, que nunca estiveram tão fragmentadas quanto hoje, das classes trabalhadoras e subalternas e que, por meio de suas estruturas territoriais, sejam capazes de dar respostas imediatas, antes mesmo dos melhoramentos gerais introduzidos por lei, aos problemas dramáticos causados pela pobreza e pela exclusão social. Isso pode realizar-se também com o reaproveitamento de algumas formas de resistência e solidariedade social do movimento operário em outras épocas históricas.

Além disso, novas prioridades devem ser redefinidas, em particular a prática de uma autêntica paridade de gênero e uma cuidadosa formação política dos militantes mais jovens, tendo como norte, em uma época na qual a democracia é refém de organismos tecnocratas, a promoção da participação da base e o desenvolvimento do conflito social.

As únicas iniciativas da esquerda radical que podem verdadeiramente ambicionar mudar o curso dos eventos têm diante de si um caminho singular: o da reconstrução de um novo bloco social, capaz de dar vida a uma oposição de massa às políticas iniciadas com o Tratado de Maastricht e, consequentemente, de mudar pela raiz os direcionamentos econômicos hoje dominantes na Europa.

Tradução: Camilo Onoda Caldas e Vanessa Mastrocessário Silva

References
1. Cf. Marcello Musto, “A Europa em tempo de crise”, Critica Marxista, n. 43, 2016, na imprensa.
2. Nas eleições de junho 2015, o resultado – equivalente a 13,1% – foi ainda mais notável.
3. À exceção do pequeno Estado do Chipre, onde o Partido Progressista dos Trabalhadores (Akel) chegou ao governo em 2009.
4. A esses devem ser adicionados outros dois deputados, eleitos nas fileiras do Partido Comunista da Grécia e que, portanto, não pertencem ao grupo GUE/NGL.
5. Deve-se notar que os eleitos para o parlamento europeu do grupo GUE/NGL são apenas da metade dos 28 países que compõem a União Europeia.

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A Europa em tempo de crise

I. Em tempo de ditadura da Troika
Ao longo de 2007, os EUA sofreram uma das piores crises financeiras da história, que logo envolveu também a Europa, e que precipitou uma dura recessão. Devido ao pesado aumento da dívida pública e do consequente perigo de insolvência, muitos países tiveram de recorrer a empréstimos junto ao grupo constituído pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo Fundo Monetário Internacional, isto é a chamada Troika.

Os créditos às nações com risco de default foram concedidos em troca da introdução de inflexíveis políticas de austeridade, em relação às quais as pesadas “reestruturações” dos anos de 1990 pareceram medidas moderadas. A partir de 2008, foram implementados treze programas de resgate (bailout programs): na Hungria (2008-11), na Letônia (2008-11) [1], e três na Romênia (2009-15), na área da União Europeia, além dos três da Grécia (2010-2018), o da Irlanda (2010-2013), o de Portugal (2011-14), os dois de Chipre (2011-16) e o da Espanha (2012-13), dentro da eurozona.

A própria expressão “reformas estruturais” acabou sofrendo uma radical transformação semântica. O termo, que pertencia ao léxico do movimento operário, para indicar a lenta, mas progressiva, melhoria das condições sociais, tornou-se, ao contrário, sinônimo de destruição do welfare state. Este tipo pseudorreformas, que na verdade são verdadeiras involuções, tem cancelado numerosas conquistas do passado e tem estabelecido condições legislativas e econômicas que recordam as do capitalismo rapaz do século XIX.

Neste quadro, abriu-se um terrível ciclo recessivo, do qual a Europa, que hoje está lutando contra o espectro da deflação, ainda não saiu. A forte compressão salarial determinou a queda da demanda, com a consequente queda do produto interno bruto, e o desemprego alcançou níveis nunca registrados no segundo pós-guerra. De 2007 a 2014, o desemprego passou de 8.4% para 26.5% na Grécia, de 8.2% para 24.5% na Espanha, de 6.1% para 12.7% na Itália e de 9.1% para 14.1% em Portugal. Em 2014, a falta de trabalho para uma geração inteira de jovens alcançou níveis epidêmicos: 24.1% na França, 34.7% no Portugal, 42.7% na Itália, 52.4 na Grécia e 53.2% na Espanha. De fato, supera o milhão o número de jovens desses países – trata-se sobretudos dos mais qualificados e que possuem uma melhor instrução – que foram obrigados a emigrar[2].

Estamos diante de uma nova modalidade de luta de classes, conduzida com grande determinação pelas classes dominantes contra as subalternas, cuja resistência foi frequentemente débil, desordenada e fragmentada [3]. Isso ocorreu tanto nos centros capitalistas mais desenvolvidos, onde a redução dos direitos dos trabalhadores atingiu níveis inimagináveis trinta anos atrás, quanto nas periferias do mundo, onde as empresas, muitas vezes multinacionais, exploram de forma extrema a mão de obra e continuam a depredar o território de seus preciosos recursos naturais.

Esses processos geraram um enorme aumento das desigualdades e uma significativa redistribuição das riquezas em favor da parte mais rica do planeta. As próprias relações sociais passaram por profundas mudanças, marcadas por uma precariedade incondicional, por uma extrema concorrência entre os trabalhadores, por uma mercantilização de diversos âmbitos da existência, por uma guerra social entre as classes mais pobres e por um novo e mais invasivo capitalismo, que corrompe de forma inédita as consciências e as vidas.

A crise na Europa transferiu-se rapidamente para a dimensão política. Nos últimos vinte anos, o poder de decisão passou cada vez mais da esfera política para a esfera econômica. A economia tornou-se um campo separado e imutável onde se tomam as decisões mais importantes, cada vez mais subtraídas ao controle democrático. Essas, que não muito tempo atrás eram consideradas medidas políticas, tornaram-se hoje incontestáveis imperativos económicos que, sob a máscara ideológica da apoliticidade, ocultam, ao contrário, um sistema perigosamente autoritário e um conteúdo totalmente reacionário.

O caso mais emblemático é representado pelo Tratado sobre Estabilidade, Coordenação e Governança da União Econômica e Monetária . Entrado em vigor em 2013, o chamado fiscal compact impôs a introdução do equilíbrio orçamentário nas constituições dos países da União Europeia. Isto significa que cada nação assume a obrigação de permanecer, num período de vinte anos, dentro dos parâmetros estabelecidos pelo Tratado de Maastricht em 1993, ou seja, que a dívida pública não poderá ultrapassar o limite de 60% do PIB. Esta proporção, de acordo com as estatísticas de 2014, atualmente é de 92% na zona euro (de 74,4% na Alemanha e 89,4% no Reino Unido, o país que, como a República Checa, não assinou o acordo), com pontas máximas na Bélgica de 106,5%, em Portugal de 130,2%, na Itália de 132% e na Grécia de 177%.

Esta decisão representa um muro erguido para impedir aos diferentes parlamentos, também aos futuros, escolhas autônomas sobre o tipo de política econômica a ser implementada. Ela implica a destruição do estado de bem-estar nos países mais endividados e, nesta fase econômica, ela pode agravar ainda mais a atual recessão. Dentro desta ofensiva mais geral, assim como havia acontecido em alguns países anglo-saxões, na França desde 2007, e na Itália a partir de 2011, foram introduzidas novas figuras, responsáveis por “racionalizar” a despesa pública: os comissários para a spending review. As medidas que eles propuseram, em vez de reduzir o desperdício, como havia sido anunciado, resultaram em uma diminuição na quantidade e na qualidade dos serviços. A etapa seguinte deste projeto prevê a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (PTCI), um acordo entre a União Europeia e os EUA em torno do qual estão em curso negociações confidenciais, as quais levariam a uma maior desregulamentação do comércio, à primazia do lucro das empresas sobre o interesse geral e ao consequente aumento da concorrência, o que geraria novas reduções salariais e menos direitos para os trabalhadores.

A transferência de poder desde os parlamentos – já esvaziados de seu valor representativo pelas mudanças introduzidas nos sistemas eleitorais, assim como pelas revisões da relação entre o poder executivo e o legislativo – para as instituições oligárquicas internacionais, cujas diretivas neoliberais favorecem o domínio incondicional do mercado, constitui o ataque mais grave à ordem democrática do nosso tempo [4]. Revela o rosto de um capitalismo em grave crise de consenso e incompatível com a democracia. Por outro lado, nos poucos referendos convocados após da aprovação do Tratado de Maastricht, as decisões dos poderes tecnocráticos dominantes na Europa foram muitas vezes derrotadas pelo voto popular. Isso aconteceu na França e na Holanda em 2005, em relação aoTratado sobre a Constituição Europeia [5]; e, posteriormente, também na Irlanda em 2008, contra o Tratado de Lisbo [6]

Os índices da bolsa, as avaliações das agências de entre as taxas dos títulos de Estado, são enormes fetiches da sociedade contemporânea, que adquiriram um valor maior do que a vontade popular. As escolhas que mais prejudicam as massas são apresentadas como necessidades imprescindíveis para “restabelecer a confiança” dos mercados.

No melhor dos casos, a política é chamada a sustentar a economia, como aconteceu depois de 2008, tanto nos EUA quanto na Europa, quando foram realizados os resgates bancários. Os representantes da grande finança necessitaram da intervenção política do Estado para mitigar os estragos produzidos pela mais recente crise capitalista, mas eles recusaram-se a renegociar as regras e as escolhas econômicas gerais. Nem sequer a substituição de governos de centro-direita por governos de centro-esquerda alterou o panorama econômico-social, uma vez que é a economia que está determinando, cada vez mais, a formação, a composição e a finalidade dos executivos que assumem o poder. Se, no passado, isto se realizava através da grande quantidade de dinheiro alocada pelo poder econômico a governos ou partidos políticos a serem controlados e pelo condicionamento dos meios de comunicação, no século XXI acontece por decreto das instituições internacionais.

Este fenômeno teve sua manifestação mais evidente com a breve onda de “governos técnicos”. No espaço de uma semana – entre os dias 11 e 16 de novembro de 2011 – Lucas Papademos e Mario Monti, representantes exemplares do poder econômico dominante (o primeiro tinha sido vice-presidente do Banco Central Europeu de 2002 a 2010), foram nomeados sem escrutínio popular, primeiros-ministros da Grécia e da Itália. Papademos permaneceu no cargo por apenas sete meses, enquanto Monti, graças ao apoio determinante do Partido Democrático (PD), por um ano e meio. Campeões de austeridade, eles implementaram, contemporaneamente, drásticos cortes de gastos e ulteriores sacrifícios sociais. Suas experiências políticas revelaram-se breves, já que ambos foram drasticamente derrotados assim que a palavra foi devolvida aos eleitores, mas a atuação de seus governos foi deletéria, tanto pelas escolhas feitas no plano econômico, quanto, e talvez mais, por causa do vulnus democrático representado pelas modalidades de sua investidura.

Algumas das forças da Internacional Socialista tomaram, nos últimos anos, um caminho que teve um resultado semelhante ao dos “governos técnicos”. Armados pela convicção ideológica de que não há alternativa ao neoliberalismo – embora a crise de 2008 tivesse mostrado os desastres que esse tinha sido capaz de produzir, e a administração Obama, com o American Recovery and Reinvestment Act de 2009, tivesse realizado escolhas diferentes – elas se aliaram com as forças do Partido Popular Europeu (PPE), o grupo que reúne partidos europeus de centro-direita, aceitando acriticamente suas principais orientações econômico-sociais. O protótipo desta tendência foi a Grande Coalizão na Alemanha, o acordo através do qual o Partido Socialdemocrata Alemão, apoiando a chanceler Angela Merkel de 2005 a 2009 e de 2013 até hoje, praticamente abriu mão de sua própria autonomia.

Outros experimentos de “unidade nacional” surgiram na Europa meridional. Na Grécia, de 2012 a 2015, o Movimento Socialista Pan-helênico (PASOK), e, por um tempo, também a Esquerda Democrática (DIMAR), apoiaram o primeiro-ministro do partido Nova Democracia (ND), Antonis Samaras. Na Itália, após as eleições de 2013, o Partido Democrático assumiu o governo – chefiado pelo seu vice-secretário Enrico Letta – juntamente com a coalizão de centro-direita do Povo das Liberdades (PDL), liderada por Silvio Berlusconi. Em 2014, ele foi substituído pelo jovem neo- blairiano Matteo Renzi, que criou um governo com o Novo Centro-Direita (NCD) – formado por um grupo que havia abandonado de movimento de Berlusconi –, com o qual encontrou um acordo sobre algumas significativas “reformas” eleitorais e constitucionais. Com a eleição de Jean-Claude Juncker7 [7] como presidente da Comissão Europeia, a grande coalizão entre o Partido Popular Europeu e o grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e dos Democratas (S&D) hoje governa também as principais instituições da EU.

As medidas adotadas na política externa desses governos socialdemocratas confirmaram a descontinuidade com o passado. De fato, em 1999, o governo liderado pelos Democratas de Esquerda (DS), os herdeiros do velho Partido Comunista Italiano, autorizou a segunda intervenção militar da história italiana, após 1945: os bombardeios da OTAN no Kosovo, conhecidos também pelo uso de munições de urânio empobrecido. Em 2003, os trabalhistas ingleses juntaram-se ao republicano George W. Bush na Segunda Guerra do Golfo contra o “Estado bandido” iraquiano, falsamente acusado de possuir armas de destruição de massa [8]. Entre estes dois conflitos, nenhuma força do socialismo europeu se opôs à intervenção no Afeganistão, aos devastadores “efeitos colaterais” causados à população e, mais em geral, à campanha Enduring Freedom (“Liberdade Duradoura”) promovida pelo governo dos Estados Unidos da América.

Mesmo a questão ecológica, por fim, foi muitas vezes relegada a declarações de princípio, que raramente foram traduzidas em medidas legislativas eficazes para resolver os principais problemas ambientais. Para isso contribuiu o giro moderado da maioria dos partidos verdes que, ao decidirem formar alianças governamentais tanto com as forças de direita quanto com as de esquerda, transformaram-se em partidos “pós-ideológicos” e abandonaram a batalha contra o modo de produção existente.

II – Antipolítica, populismo e xenofobia
A substancial e nociva uniformidade dos partidos políticos em suas linhas política e econômica, confirmada, também, por escolhas realizadas na França a partir de 2012 na presidência de François Hollande e, mais em geral, a crescente hostilidade de boa parte da opinião pública em relação à tecnocracia de Bruxelas, contribuíram a produzir uma nova – a segunda depois do de 1989 – grande mudança no contexto político europeu. Ao longo dos últimos anos, em todo o “velho continente”, desenvolveu-se um sentimento de profunda aversão para tudo aquilo que tem a ver com a política, a qual se tornou sinônimo de usufruto do poder e não, ao contrário, de compromisso e de interesse coletivo para transformar a sociedade, como tinha acontecido nas décadas de 1960 e 1970. Este fenômeno afetou, em particular, mas não apenas, as gerações mais jovens e favoreceu uma apatia generalizada e uma redução dos conflitos sociais, por causa do desapego para com as organizações sindicais, percebidas cada vez mais como homologadas pelo poder. Em muitos países, essa onda de antipolítica envolveu também as forças da esquerda radical, consideradas responsáveis, especialmente por causa das medíocres experiências de governo, de terem adaptado-se ao contexto existente e terem abandonado progressivamente as propostas antagônicas das quais eram portadoras.

Significativas foram as mudanças nas relações de força preexistentes dentro da cena europeia. Bipartidarismos consolidados como os da Espanha e da Grécia – países nos quais, após o fim das ditaduras, a soma das forças socialistas e as de centro-direita haviam atingido constantemente cerca de três quartos do eleitorado – implodiram. Também os bipartidarismos italiano e francês, que nas últimas décadas haviam mostrado uma divisão constante de votos entre centro-direita e centro- esquerda, tiveram uma sorte parecida. Além disso, os três principais grupos políticos do Parlamento Europeu eleitos em 2009 – isto é, o Partido Popular Europeu, a Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas e a Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa (ALDE) – perderam mais de 13% dos seus parlamentares nas eleições de 2014.

O cenário político-eleitoral foi alterado também pelo grande aumento do abstencionismo, pelo nascimento de formações populistas, pelo significativo avanço das forças da extrema-direita e, emalguns contextos, pela consolidação de uma alternativa de esquerda às políticas neoliberais.

O primeiro destes fenômenos encontra sua principal explicação no crescente afastamento dos partidos políticos. Esta tendência manifestou-se, nos mais diversos países, por ocasião de eleições legislativas. Na França, o número de eleitores passou de 67,9% em 1997 para 57,2% em 2013 [9]; na Alemanha de 84,3% em 1987 para 71,5% em 2013; no Reino Unido de 77,7% em 1992 para 66,1% em 2015; na Itália de 87,3% em 1992 para 72,2% em 2013; em Portugal de 71,5% em 1987 para 57% em 2015, na Grécia de 76,6% em 2004 para 56,5% em 2015 e, na Polônia, por ocasião das eleições presidenciais, de 64,7% em 1995 para 48,9% em 2015. A porcentagem de cidadãos que foram às urnas diminuiu também nas eleições para o Parlamento Europeu: de 62% em 1979 para 42,6% nas últimas eleições[10]. Este dado reflete a progressiva falta de interesse para uma instituição que representa um modelo de Europa cada vez mais tecnocrático e menos político.

Cavalgando a onda antieuropeísta, nos últimos anos surgiram também novos movimentos políticos que se declararam “pós-ideológicos”, os quais tiveram como ideias guia a denúncia genérica da corrupção do sistema ou o mito da democracia online, como garantia da participação política a partir de baixo e como alternativa àquela praticada nos partidos políticos. Com base nestes princípios foi fundado, em 2006, quase simultaneamente na Suécia e na Alemanha, o Partido Pirata (PP). Três anos depois, ele atingiu 7,1% nas eleições europeias no país escandinavo e 2% nas eleições para o Bundestag. Em 2012, este partido foi criado também na Islândia, onde obteve 5,1% dos votos nas eleições de 2013. Porcentagens significativas, considerando seu programa político limitado, mas mínimas quando comparadas com aquelas do Movimento 5 Estrelas (M5S) na Itália. Ele foi criado em 2009 pelo comediante Beppe Grillo e tornou-se, nas primeiras eleições gerais em que se apresentou, a primeira força política italiana, com 25,5% dos votos. Em 2013, nasceu em Berlim, a Alternativa para a Alemanha (AFD) que, graças ao crescente euroceticismo, obteve 4,7% nas eleições federais de 2013 e 7% naquelas europeias do ano seguinte. Em 2014, foi a vez de O Rio (TP) na Grécia, que recebeu 6,6% nas eleições europeias. No mesmo ano houve o crescimento, em escala nacional, de Cidadãos (C’s) – movimento fundado na Catalunha em 2006 –, que obteve 3,2% nas eleições europeias, 6,6% nas administrativas de 2015, resultado que foi dobrado nas eleições políticas do dezembro passado (13,9%).

Nas recentes votações presidenciais na Polônia, por fim, o cantor Pawel Kukiz, populista de direita, obteve 21,3% dos votos. Seu movimento político, Kukiz’15, tornou-se a terceira força política do país, com 8,8% dos votos, nas eleições legislativas de outubro de 2015. No mesmo período, formações existentes há muito tempo tiveram resultados significativos com plataformas políticas similares às desses novos partidos. O caso mais notável é o do Partido de Independência do Reino Unido (UKIP), que combinando populismo, nacionalismo e xenofobia, tornou-se, com 26,6% dos votos, a primeira força nas últimas eleições europeias e alcançou 12,6% nas eleições políticas de 2015. No Parlamento Europeu, os eleitos do Partido de Independência do Reino Unido coligaram-se com os do Movimento 5 Estrelas, formando o grupo Europa da Liberdade e da Democracia Direta (EFDD). Também na Suíça, as eleições de outubro 2015 foram ganhas, com 29,4% dos votos – o melhor resultado até então – pela coalizão entre o Partido do Popular Suíço e a União Democrática do Centro (SVP-UDC). Embora seu nome possa enganar, trata-se de uma formação de ultradireita, xenófoba e antieuropeísta, que se distinguiu no passado por ter promovido um referendum, aprovado em 2009, sobre a proibição da construir novos minaretes no país.

Além disso, em muitos países europeus, quando os efeitos da crise econômica começaram a manifestar-se de forma evidente, os partidos xenófobos, nacionalistas ou abertamente neofascistas ganharam repentinamente muito apoio. Em alguns casos, eles mudaram seu discurso político, substituindo a clássica divisão entre esquerda e direita com a perspectiva de uma nova luta em ato na sociedade contemporânea: aquela que Marine Le Pen definiu, em 2014, como o conflito “entre os de cima e os de baixo”. Nessa nova polarização, eles se candidataram a representar essa última parte, isto é, o povo, contra o establishment, ou seja, as forças que se alternaram por um longo tempo no governo, e contra as elites que favorecem a difusão do mercado livre. Até mesmo o sistema ideológico desses movimentos políticos mudou. A componente racista foi, em muitos casos, relegada a um segundo plano, em relação às questões econômicas.

A oposição às políticas de imigração, cegas e restritivas, implementadas pela União Europeia, reforçou-se aproveitando em primeiro lugar da guerra entre os mais pobres, e em seguida da discriminação baseada na cor da pele ou na crença religiosa. Em um contexto de desemprego de massa e de grave conflito social, a xenofobia cresceu mediante uma propaganda segundo a qual os migrantes subtraem empregos aos trabalhadores locais, que deveriam, no entanto, ser privilegiados em matéria de ocupação, serviços sociais e direitos[11].

Esta mudança de rumo influiu certamente no resultado da Frente Nacional que, sob a liderança de Le Pen, alcançou 17,9% nas eleições presidenciais de 2012, antes de se tornar, com 24,8% dos votos, o primeiro partido político francês[12] nas votações europeias de 2014, nas administrativas de março de 2015 – com 25,2% – e nas regionais de dezembro de 2015, em que obteve 27,7%. Também o partido Liga Norte na Itália passou por uma metamorfose notável.

Nascido em 1989 reivindicando a independência da Padânia [13], tornou-se, nos últimos tempos, um partido nacional, cuja plataforma política “não ao euro” e anti-imigração constituiu a premissa para a aliança com as principais forças herdeiras da tradição fascista. Recentemente, seu apoio eleitoral aumentou maciçamente, até tornar-se, nas eleições administrativas de 2015, a primeira organização do centro-direita italiano, superando Força Itália, o partido de Silvio Berlusconi.

Na França e na Itália, algumas fortalezas históricas do voto operário e comunista transformaram-se em bases eleitorais estáveis destas duas forças. A recente coalizão, no nível europeu, entre a Frente Nacional e a Liga Norte permitiu, em junho de 2015, o nascimento no Parlamento Europeu do grupo Europa das Nações e das Liberdades (ENL). Pertencem a esse grupo partidos políticos consolidados que, apoiados por outras organizações menores, defendem, há algum tempo, a saída do euro, a revisão dos tratados sobre a imigração e o retorno à soberania nacional. Entre as mais representativas há Interesse Flamengo (VB); o Partido da Liberdade Austríaca (FPÖ), que obteve 20,5% dos votos nas eleições políticas de 2013, 19,7% naquelas europeias de 2014 e 30,8% nas municipais de Viena de 2015; e o Partido para a Liberdade (PVV) holandês, fundado em 2006, que obteve 13,3% nas eleições europeias.

As forças de extrema-direita entraram em vários grupos do Parlamento Europeu e, pela primeira vez após a Segunda Guerra Mundial, tiveram grandes avanços também em outras regiões da Europa. Na Escandinávia, por exemplo, elas constituem uma realidade já bem estabelecida, com uma orientação ideológica que registrou o maior sucesso eleitoral. Na pátria por excelência do “modelo nórdico”, os Democratas Suecos (SD), partido criado em 1988 através da fusão de vários grupos neonazistas existentes na época, tornou-se, com 12,8% dos votos, o terceiro partido mais votado nas eleições legislativas de 2014. Na Europa eles estão aliados com o Partido de Independência do Reino Unido.

Na Dinamarca e na Finlândia, os dois partidos membros do Grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus (ECR), historicamente liderado pelo Partido Conservador (CP) britânico, conseguiram resultados ainda mais surpreendentes, tornando-se as segundas forças políticas de seus países. Despertando o espanto geral, o Partido Popular Dinamarquês (DPP) foi, com 26,6%, o movimento político mais votado nas últimas eleições europeias. Este sucesso foi confirmado nas eleições legislativas de 2015, após as quais, com 21,1% dos votos, juntou-se à maioria governamental. Após as recentes eleições de 2015, no governo de Helsinki entrou também o Partido dos Finlandeses (PS), com 17,6% dos votos. Por fim, na Noruega, com 16,3% dos votos, chegou pela primeira vez ao governo o Partido do Progresso (FRP), de opiniões políticas igualmente reacionárias, que já tinha atingido 22,9% em 2009.

A notável e quase uniforme afirmação desses partidos, em uma região onde as organizações do movimento operário têm exercido uma hegemonia indiscutível por longo tempo, foi possível também porque os partidos de extrema direita defenderam batalhas e temáticas que no passado pertenciam à esquerda, tanto a socialdemocrata quanto a comunista. O maquillage da simbologia política (os Democratas Suecos, por exemplo, substituíram a chama, muito utilizada pelos movimentos fascistas, com um campo de flor com as cores nacionais) e o advento de líderes jovens e hábeis na comunicação, representaram outros fatores significativos, embora não essenciais.

O avanço da direita ocorreu não apenas através de campanhas reacionárias clássicas, como aquelas contra a globalização, a chegada de novos requerentes de asilo e o espectro da “islamização” da sociedade. Na base de seu sucesso houve, acima de tudo, a reivindicação de políticas, tradicionalmente de esquerda, em favor do Estado social, enquanto os socialdemocratas optavam por cortes nos gastos públicos e a esquerda radical era enfraquecida pelo apoio ou participação direta ao governo. Trata-se, no entanto, de um tipo diferente de welfare. Não mais universal, inclusivo e solidário, como o do passado, mas baseado em um princípio diferente – que alguns estudiosos têm incluído na categoria do “welfare nationalism” –, ou seja, fornecer direitos e serviços exclusivamente aos membros da já existente comunidade nacional. Ao grande apoio recebido nas áreas rurais e provinciais, muitas vezes despovoadas e com altas taxas de desemprego, a extrema direita escandinava acrescentou o apoio de uma parte significativa da classe trabalhadora, que cedeu à chantagem “imigração ou Estado social”.

Também em vários países da Europa do Leste a direita radical conseguiu reorganizar-se após o fim dos regimes pró-soviéticos. A União Nacional Ataque (ATAKA) na Bulgária, o Partido Nacional Eslovaco (SNS) e o Partido da Grande Roménia (PRM) são algumas das forças políticas que obtiveram bons resultados e elegeram seus representantes no parlamento. Na Polônia, o partido da direita populista Lei e Justiça (PIS) ganhou a eleição presidencial em maio de 2015 e, em seguida, obteve, com 37,6% dos votos nas eleições legislativas de outubro de 2015, a primeira maioria absoluta alcançada no parlamento após o fim da Guerra Fria. Ao contrário das frequentes referências ao nacionalismo e aos valores religiosos mais conservadores, o programa econômico do partido Lei e Justiça focou-se na promessa de aumentar os gastos sociais, melhorar o nível dos salários e baixar a idade da aposentadoria. Uma plataforma de esquerda, em um país onde a esquerda anticapitalista não existe e aquela socialdemocrata está confinada em um espaço minoritário.

Nesta parte da Europa, no entanto, o caso mais alarmante é o da Hungria. Após da introdução de medidas rigorosas de austeridade decretadas pelo governo do Partido Socialista Húngaro, obedecendo às imposições da Troika, e após da grave crise deflacionária desencadeada, chegou ao poder a União Cívica Húngara – Fidesz (aderente do Partido Popular Europeu). Depois de ter expurgado a magistratura e colocado sob controle os mass media, em 2012 o governo aprovou uma nova constituição com conotações autoritárias e longe dos princípios do Estado de direito. Ao lado desta perigosa realidade, desde 2010, o Movimento por uma Hungria Melhor (Jobbik) tornou-se o terceiro partido do país, atingindo 20,5% nas eleições de 2014. Ao contrário das forças presentes na Europa Ocidental e na Escandinávia, Jobbik representa o exemplo clássico – hoje dominante na Europa do Leste – de formações de extrema-direita, que continuam a utilizar o ódio contra as minorias (especialmente a cigana), o antissemitismo e o anticomunismo como principais instrumentos de propaganda e ação.

Completam, finalmente, este panorama diversas organizações neonazistas, espalhadas em várias regiões da Europa. Duas delas alcançaram bons resultados. O Partido Nacional Democrático da Alemanha (NPD), ganhou uma presença institucional em dois parlamentos regionais, atingindo 1,5% dos votos nas eleições de 2013 e elegendo um eurodeputado em 2014. Aurora Dourada (AD), na Grécia, obteve 9.4% dos votos nas eleições europeias de 2014 e 7% nas eleições de 2015, consolidando-se, em ambos os casos, como a terceira força política do país [14].

Nestes anos, portanto, os partidos políticos da direita populista, nacionalista ou neofascista têm decisivamente expandido seu apoio em quase todas as partes da Europa. Em muitas ocasiões, eles foram capazes de hegemonizar o debate político e, em alguns casos, aliando-se com as forças da direita mais moderada, conseguiram entrar no governo. Trata-se de uma epidemia muito preocupante, que é possível combater apenas destruindo o vírus que a gerou: a litania neoliberal hoje tão em voga em Bruxelas. Todavia, tanto na Grécia quanto nas regiões orientais da Alemanha, os partidos de direita obtiveram resultados abaixo de suas possibilidades. Enquanto isso, na Espanha, Portugal e República Checa, ou seja, em alguns dos lugares onde a esquerda comunista manteve um consistente enraizamento social e desenvolveu, ao longo dos anos, uma coerente política de oposição, não se formaram as condições para a revitalização das forças de direita.

III – A alternativa à esquerda
A crise econômica e política que atravessa a Europa provocou, simultaneamente ao avanço das forças populistas, xenófobas e de extrema direita, também grandes manifestações de resistência e de protesto contra as medidas de austeridade impostas pela Comissão Europeia e implementadas pelos governos nacionais. Isso favoreceu, especialmente na parte Sul do continente, o ressurgimento das forças da esquerda radical, bem como um notável sucesso eleitoral para elas. Grécia, Espanha, Portugal foram palco de impressionantes mobilizações de massa contra as políticas neoliberais.

Neste período, do ponto de vista político, a esquerda anticapitalista iniciou um percurso de reconstrução e recomposição das forças. Afirmaram-se ou nasceram, de fato, novas formações capazes de reunir a mais ampla gama de sujeitos políticos, garantindo, ao mesmo tempo, uma maior democracia interna através do princípio de “uma cabeça um voto”.

O Bloco de Esquerda (BE) em Portugal, a Coligação da Esquerda Radical (SYRIZA) na Grécia, A Esquerda (DL) na Alemanha e a Frente de Esquerda (FdG) na França são todos exemplos de um modelo de força política plural – diferente do partido monolítico, inspirado no princípio da centralização democrática, utilizado pelo movimento comunista no século XX – que se estendeu, rapidamente, à maioria das forças políticas da esquerda radical europeia. O partido Podemos na Espanha é um caso muito particular porque nasceu com a ambição de superar a tradicional definição de partido de esquerda. Outro episódio, imprevisível até poucos anos atrás, animou a geografia da esquerda europeia. Após as eleições primárias de setembro de 2015, 59,5% dos militantes ingleses do Partido Trabalhista elegeu Jeremy Corbyn como novo líder da organização. Onde vinte anos atrás estava sentado o liberal Tony Blair, hoje está um anticapitalista declarado, o secretário mais à esquerda da história do partido britânico.

Além dos casos de vários partidos nacionais, o avanço geral da esquerda radical foi confirmado também por ocasião das últimas eleições europeias. O número de votos recolhidos foi de 12.981.378, ou seja, 8% do total, com um aumento de 1.885.574 de preferências em relação ao resultado de 2009. A questo risultato è poi seguita la vittoria di Syriza alle elezioni politiche greche del gennaio 2015, con il 36,3% dei consensi, e l’elezione di Alexis Tsipras alla carica di Primo ministro.

No entanto, esses resultados positivos estão sendo ofuscados por alguns elementos negativos. Em muitos países da Europa Oriental, na verdade, a esquerda radical expressa uma posição ainda marginal, quando não inteiramente minoritária. Ela se mantém muito longe das lutas sociais, sem enraizamento nos territórios e nas organizações sindicais, permanecendo desconhecida pelas gerações maisjovens e atravessada por um sectarismo lesivo e fortes divisões internas.

Estamos diante, portanto, de uma realidade muito desigual. Nos países da Península Ibérica e do Mediterrâneo – com exceção da Itália –, a esquerda radical expandiu-se significativamente nos últimos anos; já na Europa Central, ela conseguiu manter uma boa força eleitoral na Holanda e na Alemanha – embora aos bons resultados nas urnas não tenham correspondido conflitos sociais significativos –, mas seu peso está ainda limitado em outros lugares.

Consideradas estas circunstâncias, a expansão da União Europeia em direção do Leste tem deslocado à direita o baricentro político do continente, como testemunham as posições extremistas tomadas pelos governos do Leste europeu durante a recente crise na Grécia e diante da chegada dos povos em fuga das zonas de guerra. Inoltre, la trasformazione dei partiti della sinistra radicale in organizzazioni più ampie e plurali si è dimostrata una ricetta utile per ridurre la loro preesistente frammentazione, ma non ne ha certo risolto i problemi di natura politica.

La scelta che sia possibile riformare l’Unione Europea all’interno dell’attuale scenario viene condivisa da Syriza e dalla maggioranza delle principali forze del Partito della Sinistra Europea, tra cui La Sinistra in Germania, il Partito Comunista Francese e la Sinistra Unita spagnola. In questo blocco, si situa anche Podemos, il cui gruppo dirigente si è dichiarato convinto che, se al governo greco se ne affiancassero altri disposti a rompere con le politiche di austerità imposte dalla Troika, potrebbe aprirsi uno spazio per incrinare ciò che appare, oggi, così inalterabile.

Per altri, al contrario, la “crisi greca” – che, in realtà, è una crisi della democrazia al tempo del capitalismo neoliberale – sembra comprovare, invece, l’irriformabilità di questo modello di Unione Europea. Non tanto per gli attuali rapporti di forza presenti al suo interno, quanto, invece, per la sua architettura generale. Gli inflessibili parametri economici hanno ridotto, o in alcuni casi quasi annullato, le ben più complesse e composite esigenze della politica. Pertanto, negli ultimi mesi, le fila di quanti reputano illusoria la possibilità di democratizzare l’eurozona, seppure esprimono una posizione che resta minoritaria, sono notevolmente aumentate.

Pertanto, il conflitto imploso nel 2015 dentro Syriza potrebbe riprodursi altrove. Per la sinistra radicale europea, dunque, potrebbe concretizzarsi il rischio di una nuova stagione di divisioni. Tale condizione rivela un limite della forma plurale che le forze antagoniste si sono date negli ultimi anni, ovvero l’indefinitezza programmatica. Infatti, la diversità di posizioni e di culture politiche esistente tra le varie organizzazioni che hanno dato vita a queste nuove aggregazioni richiederebbe una difficile, ma non impossibile, intesa puntuale sulle strategie da perseguire.

Al di là della necessità di proseguire questo cruciale dibattito senza reticenze, em uma escala continental, uma verdadeira alternativa só é concebível se a esquerda radical desenvolver, com maior determinação e continuidade, campanhas políticas e mobilizações transnacionais, começando com a recusa da guerra e da xenofobia, questão que se tornou ainda mais crucial após os ataques de 13 novembro 2015 em Paris, e apoiando a extensão de todos os direitos sociais e de cidadania aos imigrantes que chegam no solo europeu. As iniciativas da esquerda radical que podem realmente aspirar a mudar o curso dos eventos têm diante de si um único caminho: o da reconstrução de um novo bloco social, capaz de dar vida a uma oposição de massa às políticas iniciadas com o Tratado de Maastricht e, consequentemente, de mudar pela raiz as orientações econômicas hoje dominantes na Europa.

Tradução do italiano realizada por Gualtiero Marini

References
1. A Letónia adotou o euro desde o 1° de janeiro de 2014.
2. O Instituto Nacional de Estatística Português estimou que, de 2010 a 2014, pelo menos 200.000 pessoas com idade entre 20 e 40 anos deixaram o país. Na Espanha, o Instituto Nacional de Estatística tem contado, pelo menos, 133.000 jovens novos imigrantes entre 2008 e 2013. Na Itália foram pelo menos 136.000 os jovens que foram para o exterior entre 2010 e 2014. Na verdade, estas estimativas são muito inferiores do que os números reais. Não há, no entanto, os dados da Grécia, onde a Autoridade Estatística Helênica não registra a migração juvenil.
3. Conforme afirmou emblematicamente, em 2006, Warren Buffet, o investidor e magnata estadunidense: “Há uma luta de classes em curso – é verdade, mas é a minha classe, a classe dos ricos, que está fazendo a guerra. E estamos vencendo”. A citação de Buffet está contida em uma entrevista com Ben Stein, In Class Warfare, Guess Which Class Is Winning, publicada no The New York Times na edição do 26/11/2006.
4. Sobre a relação entre capitalismo e democracia, tema em torno do qual se tem desenvolvido nos últimos anos uma vasta literatura, ver Ellen Meiksins Wood, Democracy Against Capitalism, London: Cambridge University Press, 1995.
5. Aprovado apenas na Espanha e no Luxemburgo, o processo de ratificação deste tratado bloqueou-se logo após destes dois fracassos.
6. Também o referendo realizado na Grécia pelo governo de Alexis Tsipras, em julho de 2015, respondeu com um sonoro “não” contra as políticas de Bruxelas.
7. Ex-primeiro ministro do Luxemburgo, durante seu mandato Juncker favoreceu mais de trezentos multinacionais que aproveitaram das condições especiais do sistema de imposto de seu país.
8. No dia 18 de outubro de 2015, o quotidiano conservador The Mail on Sunday publicou um documento secreto (“Secret / Noforn”), datado 28 de março de 2002, graças ao qual foi possível verificar que o primeiro-ministro britânico conquanto, em público, declarava-se empenhado em encontrar uma solução diplomática para a crise, havia oferecido sua ajuda, já um ano antes do início do segundo conflito iraquiano, ao presidente norte-americano para convencer a opinião pública mundial de que Saddam Hussein possuía armas de destruição de massa, que nunca foram encontradas. Cf. http://www.dailymail.co.uk/news/article-3277402/Smoking-gun-emails-reveal-Blair-s-deal- blood-George-Bush-Iraq-war-forged-YEAR-invasion-started.html
9. Nas eleições presidenciais, as mais importantes do país, a participação foi muito maior, como comprovado pela afluência de 79,4% alcançada em 2012.
10. Em muitos países da Europa do Leste ocorreram marcas de comparecimento muito baixas: Eslováquia 13%, República Checa 18,2%, Eslovênia 24,5%, Croácia 25,2%, Hungria 28,9%. A estes devem ser adicionados 33,6% em Portugal e 35,6% no Reino Unido, cfr . http://www.europarl.europa.eu/pdf/elections_results/review.pdf.
11. Trata-se de um antigo slogan xenófobo de Jean-Marie Le Pen: “primeiros os franceses”, cfr. Les français d’abord, Paris: Carrère-Michel Lafon, 1984.
12. A partir das eleições políticas de 2012, a Frente Nacional apresentou-se dentro de uma coalizão mais ampla que adquiriu o nome de Rassemblement Bleu Marine (RBM).
13. Região do vale padana, no Norte da Itália, que não corresponde a nenhuma demarcação geográfica juridicamente definida.
14. Para uma investigação sobre as forças europeias de ultra-direita ver o volume Andrea Mammone/Emmanuel Godin/Brian Jenkins. Mapping the Extreme Right in Contemporary Europe, London: Routledge, 2012.

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A vida de Marx no tempo dos Grundrisse

A crise econômica de 1856-58 estimulou Marx a retomar seus estudos de economia política com vistas à dotar o movimento operário e socialista de um instrumental teórico capaz de fundamentar a ação política de superação da ordem social do capital. Numa situação pessoal de extrema dificuldade, convivendo com a pobreza, a doença e dificuldades de toda ordem, apesar da ajuda permanente de Engels, Marx elaborou neste período nada menos que os Grundrisse e Para a crítica da Economia Política, fundamentos da perspectiva teórica que mais tarde se desdobraria n’O Capital.

Namorando a revolução
Em 1848, a Europa foi sacudida por uma sucessão de numerosas insurreições populares inspiradas pelos princípios da liberdade política e da justiça social. A fraqueza de um movimento operário recém-nascido, a renúncia a estes ideais por parte da burguesia, os quais ela havia compartilhado quando do seu surgimento, a repressão militar violenta e o retorno da prosperidade econômica gerou a derrota da sublevação em todos os lugares e as forças da reação reconquistaram os dominíos do poder estatal com firmeza.

Marx apoiou as insurreições populares a partir do diário Neue Rheinische Zeitung: Organ der Demokratie, no qual, ele era fundador e editor chefe. Das colunas do jornal ele realizou intensa atividade de agitação apoiando a causa dos insurgentes e conclamando o proletariado a promover a “Revolução Social e Republicana”(Marx 1977: 178)[1]. Naquele período, ele vivia entre Bruxelas, Paris e Colônia e viajava para Berlim, Viena e Hamburgo bem como para muitas outras cidades alemãs, estabelecendo novas conexões para fortalecer e desenvolver lutas em desdobramento. Por causa desta incansável atividade militante ele foi condenado à expulsão primeiro da Bélgica, depois da Prússia e quando o novo governo da França sob a presidência de Luis Bonaparte exigiu que ele deixasse Paris, ele decidiu se mudar para a Inglaterra. Ele chegou lá no verão de 1849, aos 31 anos de idade para se fixar em Londres. Inicialmente estava convecido de que ficaria por pouco tempo, acabou vivendo lá, expatriado, pelo resto da vida.

Os primeiros anos de seu exilio inglês foram marcados pela mais profunda condição de pobreza e agravamento da saúde que contribuiu para a perda trágica de três dos seus filhos. Embora a vida de Marx nunca foi fácil, este período foi certamente seu pior estágio. Entre dezembro de 1850 e setembro de 1856 ele viveu com sua familia em uma casa conjugada de dois quartos, no numero 28 da Dean Street em Soho, uma das áreas mais pobres e deterioradas da cidade. A herença obtida por sua esposa Jenny Von Westphalen com a morte do tio e da mãe dela, inesperadamente deu a eles uma centelha de esperança e permitiu a ele quitar suas muitas dívidas, retirar suas roupas e objetos pessoais da penhora e direcionar a coisas mais prementes.

No outono de 1856, Marx, sua esposa e suas três filhas Jenny, Laura e Eleanor, juntamente com sua leal criada Helene Demuth – que era parte integral da familia – se mudaram para os subúrbios à nordeste de Londres, no número 9, Gratfton Terrace Kentish Town, onde o aluguel tinha preço mais acessível. A casa em que permaneceram até 1864, era construída em um lugar recém criado que não tinha estrada nem ligação com o centro e completamente escura à noite. Mas finalmente ele vivia em uma casa de verdade, reunia as condições mínimas para a família para manter “ao menos uma aparência de respeitabilidade”. (Jenny Marx 1970:223)[2].

Ao longo do ano de 1856, Marx negligenciou completamente o estudo da economia política, mas a aproximação de uma crise financeira internacional mudou esta situação repentinamente. Em um clima de profunda incerteza que se transformou em pânico generalizado assim contribuindo para uma quebradeira em todos lugares, Marx sentiu que mais uma vez a hora certa para a ação havia chegado e prevendo o futuro desenvolvimento da recessão escreveu a Engels “ Eu creio que não seremos capazes de ficar aqui muito tempo apenas assistindo”. (Marx para Engels, 26 de setembro de 1856, Marx e Engels1983:70). Engels, sempre com grande otimismo previu o seguinte cenário:

Desta vez haverá um dia de cólera sem precedente; a indústria da Europa inteira está em ruinas… todos os mercados saturados, toda a classe dominante na sopa, completa quebradeira da burguesia, guerra e desordem em temperatura elevada. Eu, também, acredito que de um tudo vai acontecer em 1857 (Engels para Marx, 26 de setembro 1856, Marx e Engels 1983: 72). Ao final de uma década que tinha visto o refluxo do movimento revolucionário e no curso da qual Marx e Engels foram impedidos de participar ativamente na arena política européia, os dois começaram a trocar mensagens com uma renovada confiança nas perspectivas para o futuro. A longa espera pelo envolvimento com a revolução parecia agora próximo de acabar e para Marx isto apontava para uma prioridade acima de todas: sintetizar sua “ciência econômica” e finalizar seus estudos o mais breve possível.

Lutando contra a miséria e a doença
Para conseguir se dedicar ao trabalho nessa condição Marx precisa de alguma tranquilidade, mas sua situação pessoal não permitia a ele nenhuma trégua. Depois de ter usado todos os recursos à sua disposição na relocação de uma nova casa, ele novamente estava sem dinheiro para pagar o aluguel do primeiro mês. Então ele relatou a Engels, que morava em Manchester na época, todos os infortúnios de sua situação.

(Eu estou) sem perspectivas e com muitas contas a vencer. Eu não tenho idéia sobre o que fazer e, na verdade, minha situação é mais desesperadora do que há cinco anos atrás. Eu pensei que já tivesse experimentado a quintessência dessa situação deplorável, mas ainda não acabou. (Marx para Engels, 20 de Janeiro de 1857, Marx e Engels 1983: 93).

Esse relato deixou Engels profundamente chocado, pois ele tinha certeza que depois da mudança seu amigo estaria finalmente melhor acomodado, então em janeiro de 1857, ele gastou o dinheiro recebido de seu pai no natal para comprar um cavalo e buscar sua grande paixão: a caçada à raposa. Entretanto, durante este período e por toda a sua vida, Engels nunca negou todo apóio a Marx e sua família e se preocupou com essa difícil conjuntura, ele enviava a Marx cinco libras por mês e cobrou de Marx para contar com ele sempre nos momentos difíceis.

O papel de Engels, certamente não era limitado a fornecer suporte financeiro. No profundo isolamento em que Marx viveu durante aqueles anos, mas pela larga correspondência trocada entre os dois, Engels era o único ponto de referência com quem ele podia travar um debate intelectual, “mais do que qualquer coisa eu preciso de sua opinião” (Marx para Engels, 2 de abril 1858, Marx e Engels 1983:303). Engels era o único amigo a quem confidenciar em tempos difíceis de desespero: “Escreva logo porque suas cartas são essenciais agora para ajudar a me animar. A situação está difícil” (Marx para Engels, 18 de março de 1857, Marx e Engels 1983:106). Marx era também a companhia com quem compartilhava o sarcasmo despertado pelos acontecimentos: “Eu invejo as pessoas que plantam bananeira. Deve ser uma boa maneira de montar a cabeça da burguesia raivosa e cheia de merda”. Marx e Engels, 23 de janeiro de 1857, Marx e Engels, 1983:99).

Na verdade, a incerteza logo tornou-se mais urgente. A única renda de Marx, além da ajuda dada por Engels, consistia de pagamentos recebidos do New York Tribune, o jornal em inglês de maior circulação naquele tempo. O acordo sobre suas contribuições, pelas quais receberia 2 libras por artigo, mudou com a crise econômica que também havia repercutido no diário norte-americano. Com exceção do viajante e escritor americano Bayard Taylor, Marx foi o único correspondente europeu que não foi demitido, mas suas participações diminuíram de dois artigos por semana para um, e – “contudo nos tempos de prosperidade, eles nunca me deram um centavo a mais”(Marx e Weydemeyer, 1 de fevereiro de 1859, Marx e Engels 1983: 374) – seus pagamentos eram divididos. Marx de forma sarcástica relatou o acontecimento: “Há uma certa ironia do destino no fato de eu estar envolvido por esta maldita crise”(Marx para Engels, 31 de outubro de 1857, Marx e Engels 1983: 198). Entretanto, poder testemunhar a derrocada financeira foi um entretenimento sem igual: “É interessante que os capitalistas que vociferavam contra o ‘direito ao trabalho’, estarem agora, em todos os lugares, exigindo ‘apoio público’ de seus governos e… então advogando o ‘direito de lucrar’ às custas do dinheiro público”(Marx para Engels, 8 dezembro de 1857, Marx e Engels 1983: 214). Apesar de seu estado de ansiedade, ele comunicou a Engels que “Embora minha situação financeira possa estar apertada de fato, nunca desde de 1849, me senti tão confortável como durante esta convulsão”.

O começo de um novo projeto editorial aliviou a situação de desespero. O editor do New York Tribune, Charles Dana, convidou Marx a se juntar ao comitê editorial para a Nova Enciclopédia Americana. A falta de dinheiro o levou a aceitar a oferta, mas ele confiou a maior parte do trabalho a Engels para dedicar mais tempo à sua pesquisa. Na divisão de trabalho deles, entre 1857 e 1860, Engels editou verbetes militares – a maioria dos quais haviam sido solicitados – enquanto Marx compilava vários esboços biográficos. Embora o pagamento de duas libras por página era muito baixo, ainda assim, era um complemento ao seu estado financeiro desastroso. Por esta razão Engels conclamou ele a conseguir o maior número de verbetes possíveis de Dana. “Nos podemos oferecer aquela quantidade de ‘pura’ erudição enquanto o ouro puro da Califórnia pagar por isto”(Marx para Engels, 22 de fevereiro de 1857, Marx e Engels 1883: 122). Marx seguiu o mesmo princípio para escrever seus artigos: “para ser o mais conciso quanto é possível, enquanto isto não significar idiotice” (Marx para Engels, 22 de fevereiro de 1858, Marx e Engels 1983: 272)[3]

Em que pese os esforços, sua situação financeira não melhorou de modo algum. Na realidade ficou tão insustentável que, procurado por agiotas que ele comparou a “lobos famintos”(Marx para Engels, 8 dezembro de 1857, Marx e Engels 1983:214), e na ausência de carvão para se aquecerem durante o frio inverno daquele ano, em janeiro de 1858 ele escreveu a Engels: “Se esta situação persistir, é mais provável que serei enterrado em uma cova bem funda do que continuar vegetando desta maneira. Sendo sempre um aborrecimento para os outros e, além disso, sendo constantemente atormentado por ninharias pessoais torna-se, no final das contas, insuportável.”( Marx para Engels, 28 de Janeiro 1858, Marx e Engels 1983: 255). Nestas circunstancias ele também tinha palavras amargas para o campo emocional: “Reservadamente, penso que levo a vida mais agitada possível de se imaginar… para pessoas com grandes aspirações nada é mais estúpido do que se casar e deixar se levar pelas pequenas misérias da vida doméstica e privada”(Marx para Engels, 22 de Fevereiro 1858, Marx e Engels 1983: 273).

A pobreza não era o único espectro rondando Marx. Como a parte maior de sua vida atribulada, ele também foi acometido naquele período por várias enfermidades. Em março de 1857 o trabalho excessivo feito à noite lhe deixou com uma infecção no olho; em abril ele teve dor de dente; em maio se queixava constantemente do fígado, por conta deste último, ele se afundou em remédios. Enfraquecido, ficou incapacitado, sem poder trabalhar por três semanas. Ele então, relatou a Engels: “Para não perder o tempo todo, eu, na ausência de coisas melhores, tenho estudado a língua dinamarquesa; entretanto, se as promessas do médico estiverem corretas, tenho perpectivas de me tornar um ser humano novamente já na próxima semana. Enquanto isto estou tão amarelo quanto um marmelo e muito mais irritado.”(Marx para Engels, 22 de maio de 1857, Marx e Engels 1883:132).

Logo em seguida, uma ocorrência mais grave atingiu a família Marx. No início de julho Jenny deu a luz ao último filho do casal, mas o bebê, nasceu muito fraco, morreu logo após o parto. Enlutado mais uma vez, Marx confessou a Engels: “O acontecimento em si não é uma tragédia. Mas… as circunstâncias que a causaram foram tais que fez relembrar memorias dolorosas (provalvemente a morte de Edgar (1847-55), o último filho que ele havia perdido). É impossível discutir sobre isto em uma carta”(Marx para Engels, 8 de julho 1857, Marx e Engels 1983:143). Engels ficou muito comovido com esta declaração e respondeu: “tudo deve ser muito difícil para você escrever desse modo. Você pode aceitar a morte da pequenina de modo estóico, mas sua esposa dificilmente aceitará assim também.” ( Engels para Marx, 11 de julho de 1857, Marx e Engels 1983:143).

A situação, posteriormente, complicou-se ainda mais pelo fato de que Engels ficou doente e foi seriamente afetado por uma febre nas glândulas de modo que ele não conseguiu trabalhar durante o verão inteiro. Nessa altura dos acontecimentos, Marx enfrentou sérias dificuldades. Sem os verbetes para a enciclopédia feitas por seu amigo, ele precisou ganhar tempo, portanto, fingiu ter enviado uma pilha de manuscritos à Nova York e que os mesmos tinha sido perdidos pelo correio. No entanto, a pressão não diminuiu. Quando os acontecimentos envolvendo a rebelião dos Cipaios na India tornou-se mais intensa, o New York Tribune ficou na expectativa por uma análise de seu especialista, sem saber que os artigos a respeito de assuntos militares eram, na verdade, trabalho de Engels. Marx forçado pelas circunstâncias a se encarregar temporariamente do “departamento militar” (Marx para Engels, 14 de janeiro de 1858, Marx e Engels 1983: 249)[4] se aventurou a afirmar que os Ingleses precisavam bater em retirada no início da estação chuvosa. Ele informou a Engels sobre sua escolha com as seguintes palavras: “é possível que eu venha a parecer muito ruim, mas de qualquer forma com um pouco de dialética eu poderei sair dessa. Naturalmente, eu formulei minhas palavras para acertarem de um modo ou de outro”. (Marx e Engels, 15 de agosto de 1857, Marx e Engels 1983: 152). Entretanto, Marx não subestimou este conflito e, refletindo sobre seus possíveis efeitos, disse “Com a perspectiva de que muitos homens sejam arrastados pelo conflito e os milhões que ela custará para a Inglaterra, a Índia tornou-se agora nosso melhor aliado”. (Marx para Engels 14 de janeiro de 1858, Marx e Engels 1983: 249).

Escrevendo os Grundrisse (der Kritik der Politischen Ökonomie: Rohentwurf)[5]
Pobreza, problemas de saúde e todos os tipos de privações – os Grundrisse foram escritos neste trágico contexto. Não foi o produto de um pensador no bem estar protegido pela tranqüilidade burguesa; pelo contrário, foi um trabalho de um autor que experimentou dificuldade e encontrou energia para prosseguir sustentado somente na crença de que, com o avanço da crise econômica, seu trabalho tornou-se necessário à sua época: “Eu estou trabalhando como louco, noite adentro, para reunir meus estudos de economia para que possa ao menos compreender os contornos claramente antes do dilúvio”(Marx para Engels, 8 de Dezembro 1857, Marx e Engels 1983: 217).

No outono de 1857, Engels estava avaliando os acontecimentos com otimismo: “A quebradeira americana é excelente e vai demorar a passar…. o comércio novamente vai ladeira abaixo pelos próximos três ou quatro anos. Agora temos uma chance” (Engels para Marx, 29 de Outubro de 1857, Marx e Engels 1983:195). Dessa maneira ele estava encorajando Marx: “em 1848 nós dizíamos: agora nossa hora chegou, e em certo sentido, era verdade, mas desta vez está acontecendo mesmo e é um caso de vida ou morte” (Engels para Marx, 15 de novembro de 1857, Marx e Engels 1983:200). Por outro lado, sem ter qualquer dúvida sobre a iminência da revolução, ambos esperavam que ela não entrasse em erupção antes que toda a Europa tivesse sido tomada pela crise, e portanto as perspectivas para o ‘ano de luta’ foram adiadas para 1858 (Engels para Marx, 31 de dezembro de 1857, Marx e Engels 1983:236).

Conforme relato em uma carta de Jenny von Westphalen para Conrad Schramm, um amigo da família, a crise geral teve um efeito positivo sobre Marx: “Você consegue imaginar o quão animado está o Mouro. Ele recuperou todo o seu ritual habitual e disposição para trabalhar bem como a vivacidade e espirituosidade”(Jenny Marx to scharmm, 8 de dezembro de 1857, Marx e Engels 1983:566). Na verdade, Marx começou um período de intensa atividade intelectual, dividindo seu trabalho entre os artigos para o New York Tribune, o trabalho para a Nova Enciclopédia Americana, o projeto inacabado de escrever um panfleto sobre a crise e obviamente, os Grundrisse. Entretanto, apesar de sua energia renovada, todos esses empreendimentos mostraram-se excessivos e a ajuda de Engels tornou-se mais uma vez indispensável. No início de 1858, logo em seguida a sua completa recuperação da doença que havia sofrido, Marx pediu a ele que retornasse a trabalhar nos verbetes para a enciclopédia:
às vezes, me parece que se você puder se organizar para fazer um pouco de seções a cada dois dias, isto poderia talvez funcionar como um freio para sua bebedeira que, pelo que eu sei de Manchester e no momento de excitação que estamos vivendo atualmente, parece inevitável e não te faz nenhum bem…porque eu realmente preciso terminar minhas outras tarefas que estão roubando todo o meu tempo, ainda que a casa desabe sobre a minha cabeça! (Marx para Engels, 5 de Janeiro 1858, Marx e Engels 1983: 238).

Engels aceitou a exortação entusiasmada de Marx e reafirmou que, após os feriados, ele “experimentaria uma vida mais tranquila e mais produtiva”(Engels para Marx, 6 de Janeiro 1858, Marx e Engels 1983:239). Contudo, o maior problema de Marx ainda era a falta de tempo e ele repetidamente reclamava ao seu amigo que “toda vez que eu estou no Museu (Britânico), há tanta coisa que eu preciso procurar, a hora de fechar (agora 4h da tarde) chega, antes que sequer eu tenha vasculhado o lugar. E ainda tem aquela jornada lá. Tanto tempo perdido!”(Marx para Engels, 1 de fevereiro de 1858, Marx e Engels 1983: 258). Além disso, juntamente com as dificuldades práticas, há outras de natureza teórica:

Eu tenho sido… tão desafortunadamente assaltado por erros nos cálculos que, de tanto desespero, tenho me aplicado a uma revisão da álgebra. A aritmética sempre foi minha inimiga, mas dando uma volta pela álgebra, rapidamente voltarei ao curso das coisas. (Marx para Engels, 11 de janeiro de 1858, Marx e Engels 1983: 244).

Por fim, seus escrúpulos contribuíram para diminuir o rítmo da escrita dos Grundrisse, pois ele exigia de si mesmo que mantivesse a pesquisa de novas confirmações para testar a validade de suas teses. Em fevereiro ele explicou a situação de sua pesquisa para Ferdinand Lassalle desse modo:

Agora, quero te contar como está o andamento da minha ciência econômica. O trabalho está escrito. Na verdade, tenho o texto final está em minhas mãos há alguns meses. A coisa caminha muito lentamente, porque logo que alguém começa a apresentar matérias que tem sido objeto de estudo por anos a fio, então eles começam a revelar novos aspectos e exigem ser repensados ainda mais.

Na mesma carta, Marx lamentou mais uma vez a condição a que ele tinha que se sujeitar. Estava forçado a gastar parte do dia com artigos de jornais, ele assim escreveu: “Eu não sou senhor do meu tempo, pelo contrário sou seu escravo. Tem restado apenas à noite para a minha própria pesquisa, que por sua vez é freqüentemente interrompida por ataques da bílis ou problemas recorrentes com o fígado” (Marx para Lassalle, 22 de fevereiro de 1858, Marx e Engels 1983: 268).

Na verdade, a doença tinha acometido Marx novamente. Em janeiro de 1858 ele comunicou a Engels que estava em tratamento há três semanas: “Eu exagerei trabalhando à noite – me mantendo apenas com limonada e muito tabaco”. (Marx para Engels, 14 de janeiro de 1858, Marx e Engels 1983:247). Em março ele estava “muito doente novamente” por causa do fígado: “o trabalho prolongado dia e noite, os numerosos pequenos desconfortos advindos das condições econômicas domésticas tem ultimamente sido a causa de recaídas” (Marx para Engels 1983: 296). Em abril, ele afirmou novamente: “Tenho me sentido tão doente por causa de náuseas nesta semana que estou incapaz de pensar, ler, escrever ou, de fato, fazer qualquer coisa, com exceção dos artigos para o Tribune. Estes, é óbvio, não posso me dar ao luxo de negligenciar pois, eu devo contar com esta ninharia o mais rápido possível para evitar a falência. (Marx para Engels, 2 de abril de 1858, Marx e Engels 1983: 296).

Nesse estágio de sua vida Marx tinha desistido completamente de relações com a política organizada e relações privadas, em cartas aos seus poucos amigos remanescentes ele revelou que: “ eu tenho vivido como um ermitão”(Marx para Lassalle, 21 de dezembro de 1857, Marx e Engels 1983: 225) e “raramente vejo as poucas pessoas que conheço, mas em geral, não faz muita falta também”(Marx para Schramm, 8 de dezembro de 1857, Marx e Engels 1983: 217). Além do contínuo encorajamento de Engels, a recessão e sua expansão mundial também alimentou suas esperanças e o estimulou a continuar trabalhando: “Em resumo, a crise está minando o terreno como uma boa e velha toupeira.” (Marx para Engels, 22 de fevereiro de 1858, Marx e Engels 1983: 274). A correspondência com Engels documenta que os eventos em andamento o contagiou com entusiasmo. Em janeiro, depois de ler as notícias de Paris no Manchester Guardian, ele afirmou: “tudo parece estar correndo melhor do que o esperado” (Marx para Engels, 23 de janeiro de 1858, Marx e Engels 1983:252), e no fim de março, comentando sobre os últimos desdobramentos, ele acrescentou “na França, o caos continua de forma bem satisfatória. É improvável que a paz se restabeleça após o verão” ( Marx para Engels, 29 de março de 1858, Marx e Engels 1983: 296). E em contraste, poucos meses antes ele havida declarado de forma pessimista que:

Depois do que aconteceu nos últimos 10 anos, qualquer idéia de mostrar aversão pelas massas assim como por indivíduos deve ter crescido a um grau que ‘odi profanum vulgus et arceo’[6] tornou-se quase uma máxima obrigatória. No entanto, todos esses são, eles próprios, estágios do pensamento filisteu, que irão embora com a primeira tempestade. (Marx para Lassalle, 22 de fevereiro de 1858, Marx e Engels 1983:268).

Em maio ele afirmou com satisfação que “no geral, o momento atual é bem prazeroso. A História está aparentemente, em um recomeço e os sinais de dissolução em toda parte agradam a cada um que não esteja curvado pela conservação deste estado de coisas atuais.” (Marx para Lassale, 31 de maio de 1858, Marx e Engels 1983:323).

Do mesmo modo Engels relatou a Marx com grande fervor que no dia da execução de Felice Orsini, o democrata italiano julgado pela tentativa de assassinato de Napoleão III, aconteceu em Paris um grande protesto da classe trabalhadora: “em uma época de grande distúrbio é bom ver que um grande chamado é feito e 100 mil pessoas respondem ‘presente’” (Engels para Marx, 17 de março de 1858, Marx e Engels 1983: 289-90). Em vista dos possíveis desdobramentos revolucionários, ele também estudou o tamanho das tropas francesas e avisou Marx que para vencer teria sido necessário formar sociedades secretas dentro do exército, ou como em 1848, para que a burguesia se posicione contra Bonaparte. Por fim, ele previu que a separação da Hungria e Itália e as insurreições eslavas teriam atingido a Áustria violentamente, o velho bastião reacionário, e que, somando-se a isto tudo, um contra ataque generalizado teria espalhado a crise para todas as grandes cidades e distritos industriais. Em outras palavras, ela estava certo que “afinal de contas, vai ser uma luta dura”. (Engels para Marx, 17 de março 1858, Marx e Engels 1983: 289). Levado pelo otimismo Engels diminuiu suas montarias, desta vez com um objetivo em vista; conforme ele escreveu a Marx:

Ontem, eu levei meu cavalo para um obstáculo e coloquei o mesmo a 5 pés e várias polegadas de altura: o mais alto que eu já saltei… quando voltarmos para a Alemanha, nós certamente teremos uma lição ou mais para dar à cavalaria prussiana. Aqueles senhores terão dificuldade para se igualar a mim.(Engels para Marx, 11 de fevereiro de 1858, Marx e Engels 1983: 265).
A resposta foi com dada com grande satisfação:

Eu congratulo pela sua performance com cavalos. Mas não faça muitos saltos de quebrar o pescoço. Eu não creio que a cavalaria é a especialidade da qual virá os seus maiores serviços para a Alemanha. (Marx para Engels, 14 de Fevereiro de 1858, Marx e Engels 1983: 266).

Por outro lado, a vida de Marx enfrentou mais complicações à frente. Em março, Lassalle o informou que o editor Franz Duncker de Berlim tinha concordado em publicar seu trabalho em várias etapas, mas as boas notícias paradoxalmente transformaram-se em um outro fator desestabilizador. Uma nova razão para preocupação a se juntar às outras – ansiedade – conforme descrição em uma série de boletins médicos endereçados a Engels, desta vez escritos por Jenny von Westphalen:

Seu fígado e bilis estão novamente num estado de revolta…. A piora de sua condição é em grande parte atribuída ao cansaço mental e agitação que agora, depois da conclusão do contrato com os editores estão maiores do que nunca e aumentando diariamente já que ele considera praticamente impossível concluir o trabalho (Jenny Marx para Engels, 9 de abril de 1858, Marx e Engels 1983: 569).

Durante todo o mês de abril, Marx foi atacado pela mais virulenta dor causada pela bílis que ele já sofrera e não conseguia trabalhar de maneira alguma. Ele se concentrou exclusivamente nos artigos para o New York Tribune; estes eram indispensáveis a sua sobrevivência, e ele tinha que ditá-los a sua esposa que estava “cumprindo inteiramente o papel de secretária” (Marx para Engels, 23 de abril de 1857, Marx e Engels 1983: 125). Tão logo ele foi capaz de segurar uma caneta, e informou a Engels que o motivo de seu silêncio se devia a sua “incapacidade de escrever”. Isto era visível “não apenas no sentido literário, mas literalmente falando”. Ele também afirmou que “a urgência contínua de se concentrar no trabalho combinada com a incapacidade de produzir contribuía para agravar a doença”. Sua situação ainda era muito ruim.

Eu não consigo trabalhar. Se eu escrever por duas horas tenho que me deitar com dores por dois dias. Eu espero, que esta terrível situação chegue ao fim na próxima semana. Isto não poderia ter acontecido em pior hora. Obviamente, durante o inverno, eu fiz trabalho extra à noite. Hinc illae lacrimae [7]. (Marx para Engels, 29 de abril 1858, Marx e Engels 1983: 309).

Marx tentou lutar contra a sua enfermidade, porém depois de tomar muitos remédios sem resultar em nenhum benefício oriundos deles, resignou-se a seguir o conselho do médico que pedia para mudar de ambiente por uma semana e “parar com o trabalho intelectual por um tempo” (Marx para Lassalle, 31 de maio de 1858, Marx e Engels 1983: 321). Então ele decidiu visitar Engels, a quem ele anunciou: “Deixei de lado minhas obrigações” (Marx para Engels, 1 de maio de 1858, Marx e Engels 1983: 312). Naturalmente, durante esses 20 dias em Manchester, ele continuou trabalhando: escreveu um capítulo d`O Capital e as últimas páginas dos Grundrisse.

Lutando contra a sociedade burguesa
Mais uma vez de volta a Londres Marx deveria ter finalizado o texto para enviá-lo aos editores, mas, embora ele estivesse atrasado, ele ainda atrasou o esboço. Sua natureza crítica ganhou a competição no confronto com suas necessidades. Assim, ele informou Engels:

Durante a minha ausência foi publicado em Londres um livro escrito por Maclarem cobrindo toda a história do dinheiro, o qual, de acordo com avaliação da The Economist é de alto nível. O livro não chegou à biblioteca ainda… Obviamente eu preciso lê-lo antes de escrever o meu. Por isso, enviei minha esposa até o editor na cidade, mas para nossa infelicidade, descobrimos que ele custava 9/6 libras, mais do que tudo que temos. Portanto, eu ficaria muito agradecido se você pudesse me enviar uma ordem de pagamento nesse valor. Provavelmente não haverá nada de novo para mim nesse livro, mas com o barulho que a The Economist tem feito sobre ele, e as resenhas que eu mesmo li, minha consciência teórica não me permitirá prosseguir sem antes examiná-lo (Marx para Engels, 31 de maio de 1858, Marx e Engels 1983:317).

Este resumo é muito revelador. A “periculosidade” das resenhas no The Economist para a paz familiar; enviando sua esposa ao City (o centro financeiro de Londres) em uma missão para tratar com dúvidas teóricas; o fato de que suas economias não eram suficientes para sequer comprar um livro; as solicitações freqüentes ao seu amigo em Manchester que requeria atenção imediata: o que pode melhor descrever a vida de Marx naqueles anos e particularmente do que era capaz sua consciência teórica?

Além do seu temperamento complexo, a saúde precária e a pobreza, seus “inimigos” do dia a dia, contribuíam para atrasar a conclusão de seu trabalho ainda mais. Sua condição física piorou novamente, conforme Engels foi informado: “a doença da qual eu sofria antes de deixar Manchester, novamente tornou-se crônica, persistindo por todo o verão, de modo que qualquer tanto que eu escreva me custa um esforço tremendo” (Marx para Engels, 21 de setembro de 1858, Marx e Engels 1983: 341). Além de tudo isso, aqueles meses foram marcados por uma preocupação econômica insuportável que o forçou a viver permanentemente com o “espectro de uma catástrofe definitiva” (Marx para Engels, 15 de julho de 1858, Marx e Engels 1983:328). Tomado pelo desespero novamente, em julho, Marx enviou uma carta para Engels que realmente testemunha a extrema situação na qual ele estava vivendo:

É necessário que juntemos esforços para ver se alguma coisa pode ser feito para sair dessa situação, pois ela tornou-se absolutamente insustentável. Isto já resultou na minha completa incapacidade de fazer qualquer trabalho, em parte porque eu tenho perdido a maior parte do tempo de um lado para o outro em tentativas infrutíferas para levantar dinheiro e parcialmente porque a força da minha capacidade de abstração – devido, talvez, a minha má condição física – não consegue dar conta das lamúrias domésticas. Minha esposa está tendo ataques de nervo por conta dessa miséria… Portanto, a coisa toda se resume no fato de que o pouco que entra em casa nunca é suficiente para o próximo mês, mal é o bastante para reduzir as dívidas… assim, esta miséria é apenas adiada por semanas pelas quais há que se virar de um jeito ou de outro. … nem mesmo o leilão de meus bens domésticos seria suficiente para satisfazer os credores da vizinhança e assegurar um descanso em isolamento. A manutenção de boas aparências que temos mantido tem sido o único meio de evitar o colapso. Se da minha parte eu não ligaria a mínima se vivesse em Whitechapel (área em Londres onde a maioria da classe trabalhadora vivia à época) desde que eu possa finalmente assegurar uma hora de paz na qual eu possa fazer o meu trabalho. Porém, vendo a condição de minha esposa agora, uma mudança repentina assim poderia trazer graves consequências e não seria apropriado para as meninas nessa fase de crescimento… eu não desejaria ao meu pior inimigo passar pelas dificuldades nas quais eu me encontro amarrado nas últimas oito semanas, ressentido das inúmeras frustrações que estão arruinando o meu intelecto e destruindo a minha capacidade de trabalhar” (Marx para Engels, 15 de julho de 1858, Marx e Engels 1983: 328 – 31).

Em que pese o seu estado de extrema pobreza, Marx não deixou que a precariedade de sua situação o vencesse e, no que diz respeito à sua intenção de finalizar sua obra, ele comentou com seu amigo Joseph Weydemeyer: “Eu preciso perseguir meu objetivo a qualquer custo e não deixar que a sociedade burguesa me converta em uma maquina de fazer dinheiro” (Marx para Weydemeyer, 1 de fevereiro de 1859, Marx e Engels 1983: 374).

Enquanto isto, a crise econômica cedia e em breve o mercado recuperava seu funcionamento normal. Na verdade, em agosto um Marx entristecido recorreu a Engels: “nas últimas semanas o otimismo tomou conta do mundo novamente” (Marx para Engels, 13 de agosto de 1858, Marx e Engels 1983:338); e Engels, refletindo sobre a forma na qual a superprodução de mercadorias tinha sido absorvida, afirmou: “nunca antes uma inundação assim, fora drenada dessa maneira tão rapidamente” (Engels para Marx, 7 de outubro de 1858, Marx e Engels 1983: 343). A certeza de que a revolução estava na próxima esquina, que os inspirou por todo o outono de 1856 e encorajou Marx a escrever os Grundrisse, estava dando lugar a mais amarga desilusão: “não há guerra. Tudo é burguês” (Marx para Engels, 11 de dezembro de 1858, Marx e Engels 1983:360). E enquanto Engels se punha duramente contra o “crescente aburguesamento do proletariado inglês” um fenômeno que, em sua opinião, levaria o pais líder em exploração a ter “um proletariado burguês ao lado da burguesia” (Engels para Marx, 7 de outubro de 1858, Marx e Engels 1983: 343), Marx se ateve a cada evento, até mesmo ao menos importante, até o fim: “apesar da onda otimista impulsionada pelo comércio mundial (…) ao menos serve de consolação que a Revolução tenha começado na Rússia, pois considero a convocação dos “notáveis”a São Petersburgo como sendo precisamente o início.” Suas esperanças também se voltaram para a Alemanha: “na Prússia as coisas estão piores do que estavam em 1847”, e também para a burguesia tcheca em sua luta por independência nacional: “movimentos excepcionais estão marchando entre os eslavos, especialmente na Boêmia, que embora seja contra-revolucionária, ainda produz fermento para a mobilização”. Finalmente, como se tivessem sido traídos, ele amargamente afirmou: “Não fará mal nenhum aos Franceses verem que, mesmo sem eles, o mundo se move” (Marx para Engels, 8 de outubro de 1858, Marx e Engels 1983: 345).

Porém, Marx teve que se resignar diante da evidência: a crise não provocou os efeitos sociais e políticos que ele e Engels haviam previsto com tanta certeza. Contudo, ele ainda estava fortemente convencido que era apenas uma questão de tempo antes que a revolução na Europa irrompesse e que o problema, se de fato houvesse algum, seria quais cenários a mudança econômica teria provocado. Portanto, ele escreveu para Engels fazendo um tipo de avaliação política sobre os últimos acontecimentos e uma reflexão sobre os desdobramentos futuros:

Não podemos negar que a sociedade burguesa experimentou pela segunda vez sua volta ao século XVI, um século que, eu espero, soará os dobres de finado do mesmo modo que o primeiro sucumbiu em seu tempo. A verdadeira tarefa da sociedade burguesa é a criação do mercado mundial, ou ao menos da estrutura adequada ao seu funcionamento, e da produção baseada no mercado. Já que o mundo é redondo, me parece que a colonização da Califórnia e da Austrália e abertura da China e do Japão parece ter completado esse processo. A pergunta difícil para nós respondermos é a seguinte: Ela não irá morrer nestes pequenos recantos do mundo, já que o desenvolvimento da sociedade burguesa está apenas começando nestas áreas tão vastas?” (Marx para Engels, 8 de outubro de 1858, Marx e Engels 1983:347).

Estas reflexões incluem duas das mais significativas previsões de Marx: uma delas correta o levou a intuir, melhor que a seus contemporâneos, a escala mundial do desenvolvimento do capitalismo; e uma errada, relacionada à crença de uma revolução proletária inevitável na Europa.

As cartas endereçadas a Engels contêm a crítica ferina de Marx sobre todos aqueles que eram seus adversários políticos no campo progressista. Muitos foram alvos juntamente com um de seus favoritos, Pierre-Joseph Proudhon, a principal figura do tipo de socialismo dominante na França, que Marx considerava como “falso irmão” do qual o comunismo precisava se livrar (Marx para Weydemeyer, 1 de fevereiro de 1859, Marx para Engels 1983: 374). Marx se divertia, vez ou outra, com uma relação de rivalidade com Lassalle, um exemplo disso foi quando ele recebeu o último livro de Lassalle “Heráclito, O filosófo das Trevas”, descrito por Marx como uma “mistura de tolices” (Marx para Engels, 1 de Fevereiro de 1858, Marx e Engels 1983: 258). Em setembro de 1858, Giuseppe Mazzini publicou seu novo “Manifesto” no jornal Pensiero ed Azione (Pensamento e Ação), porém Marx, que não tinha qualquer dúvida sobre ele, afirmou: “o mesmo idiota de sempre”(Marx para Engels, 8 de Outubro de 1858, Marx e Engels 1983: 346). Ao invés de analisar os motivos da derrota de 1848-9, Mazzini “ocupa-se em divulgar a panacéia para a cura da… paralisia política da migração revolucionária”(Marx 1980:37). Ele também criou uma mobilização contra Julius Frobel, um membro do Câmara de Frankfurt em 1848-9 e típico representante dos democratas alemães, que tinha ido para o exterior e se distanciado da vida política “depois que eles conquistaram o pão e o queijo, todos esses safados procuram um pretexto obscuro (blasé) para dizer adeus a luta” ( Marx para Engels, 24 de novembro 1858, Marx e Engels 1983: 356). Por último, como sempre muito irônico, ele ridicularizou a “atividade revolucionária” de Karl Blind, um dos leaders dos imigrantes alemães em Londres:

Ele arranja dois conhecidos em Hamburgo para enviar cartas (escritas por ele mesmo) para jornais ingleses nos quais é mencionado o barulho criado pelos seus panfletos anônimos. Então seus amigos relatam em jornais alemães o burburinho feito na imprensa inglesa. Isto, como você pode ver, é que significa ser um homem de ação de verdade. (Marx para Engels, 2 de novembro de 1858, Marx e Engels 1983:351).

O engajamento político de Marx tinha uma natureza diferente. Ao mesmo tempo em que nunca desistia de lutar contra a sociedade burguesa, ele também se mantinha consciente de seu papel principal nesta luta, que era o de desenvolver uma crítica do modo capitalista de produção por meio de um rigoroso estudo da economia política e uma permanente análise dos eventos econômicos. Por esta razão durante o período de “baixa” da luta de classes, ele decidiu usar seus energias da melhor forma possível mantendo distância de conspirações inúteis e das intrigas pessoais nas quais a competição política se resumia naquela período: “Desde o julgamento em Colônia (aquele contra os comunistas em 1853), eu me retirei completamente para me dedicar aos meus estudos. Meu tempo era precioso demais para ser desperdiçado em empreitadas infrutíferas e contendas inúteis” (Marx para Weydemeyer, 1 de fevereiro 1859, Marx e Engels 1983: 374).

Na verdade, em que pese estar soterrado de problemas, Marx continuou a trabalhar, e publicou seu livro Uma Contribuição à Crítica da Economia Política: Primeira Parte em 1859 pelo qual os Grundrisse havia sido o campo inicial de experimentação. Marx terminou o ano de 1858 do mesmo modo que os anos anteriores conforme sua esposa Jenny escreveu: “1858 não foi um ano bom, mas também não foi ruim, foi um ano em que os dias simplesmente passavam completamente sem novidade. Comendo e bebendo, escrevendo artigos, lendo jornais e fazendo caminhadas: a nossa vida se resumia a isto” (Jenny Marx 1970: 224). Dia após dia, mês após mês, anos após ano, Marx continuou trabalhando na sua obra pelo resto da vida. Ele elaborou os esboços dos Grundrisse e de muitos outros volumosos manuscritos trabalhando na preparação d’ O Capital com uma luta implacável e com uma certeza inabalável de que sua vida pertencia ao socialismo, um movimento pela emancipação de milhões de homens e mulheres.

Traduzido por: Ronaldo da Silva

Referencias
1. Traduções citadas no texto foram feitas pelo próprio autor
2. De acordo com a esposa de Marx, esta mudança tornara-se absolutamente necessária: pois “como todos estavam se tornando filisteus, não poderiámos continuar vivendo como boêmios (da Boêmia)” (Jenny Marx, 1970: 223).
3. Embora eles tenham feito algumas considerações interessantes, Engels definiu o trabalho para a enciclopédia como um “trabalho meramente comercial… que poderia seguramente permanecer enterrado”.
4. Na edição MECW (Marx and Engels Collected Works), esta carta está datada de forma errada como sendo de 16 de janeiro de 1858.
5. – Apesar de ainda não existir uma edição em português desta obra, publicada pela primeira vez na União Soviética em 1939-41, traduz-se por “Elementos fundamentais de crítica da economia política (Rascunhos)”. Nota do comitê editorial de Antítese.
6. Tr “Eu odeio e evito a multidão vulgar” (Horácio 1994: 127)
7. Tr “Por isto aquelas lágrimas”. (Terencio: 2002: 99)

Bibliográficas
Engels, Friedrich (2002) Marx and Engels Collected Works, vol. 49: Letters 1890–92, London: Lawrence and Wishart.
Horace (1994) Odes and Epodes, Ann Arbor: University of Michigan Press.
Marx, Jenny (1970) ‘Umrisse eines bewegten Lebens’ in Mohr und General. Erinnerungen an Marx und Engels, Berlin: Dietz Verlag.
Marx, Karl (1977 [1848]) ‘The Bourgeoisie and the Counter-Revolution’ in Marx and Engels Collected Works , vol. 8: Articles from ‘Neue Rheinische Zeitung’, London: Lawrence and Wishart.
Marx, Karl (1980 [1858]) ‘Mazzini’s New Manifesto’ in Marx and Engels Collected Works , vol. 16: Letters 1858–60, London: Lawrence and Wishart.
Marx, Karl and Engels, Friedrich (1983) Marx and Engels Collected Works, vol. 40: Letters 1856–59 , London: Lawrence and Wishart.
Terence (2002) Andria, Bristol: Bristol Classical Press.

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O avanço da extrema direitana Europa

O sexto maior país da União Europeia em número de habitantes fez uma guinada à direita. Depois de ter se afirmado nas presidenciais de maio, o partido populista Lei e Justiça venceu as eleições polonesas, obtendo não apenas 39% dos votos, mas a maioria absoluta no Parlamento.

Diferentemente dos recorrentes apelos ao nacionalismo e à palavra de ordem “primeiro aos poloneses”, as reivindicações do Lei e Justiça no campo da economia se concentraram na promessa de aumentar os gastos sociais, melhorar os salários e reduzir a idade para a aposentadoria. Um programa de esquerda, em um país onde a esquerda defendeu o neoliberalismo e ocupa, atualmente, uma posição absolutamente marginal – situação que se repete em outros lugares do continente.

Nos últimos vinte anos, o poder de decisão na Europa transitou em grande parte da esfera política àquela econômica. A economia se tornou um âmbito separado e intocável, que faz escolhas decisivas, porém fora do alcance do controle democrático. A uniformidade na essência das decisões tomadas pelos governos de muitas nações e, em geral, a crescente hostilidade de grande parte da opinião pública em relação à tecnocracia de Bruxelas contribuíram para provocar uma grande mudança no cenário europeu.

O vento populista
Os bipartidarismos instituídos, como aqueles espanhol e grego, implodiram. O mesmo rumo parece tomar a bipolaridade dos casos italiano e francês, da qual havia derivado uma nítida divisão de votos entre posicionamentos de centro-direita e de centro-esquerda.

O panorama político europeu foi modificado – sem considerar a alternativa ao neoliberalismo proposta por Syriza e Podemos, que merece uma reflexão à parte – pelo acentuado crescimento dos índices de abstenção, o surgimento de partidos populistas e o notável avanço das forças de extrema direita. O primeiro fenômeno se manifestou no momento das eleições legislativas de quase todos os Estados europeus.

O segundo, por sua vez, nasceu com a onda anti-europeísta. Nos últimos anos, surgiram novos movimentos políticos declarados “pós-ideológicos”, que se guiaram pela denúncia genérica contra a corrupção do sistema ou o euroceticismo. Em 2006, com base nesses princípios, o Partido Pirata foi fundado na Suécia e na Alemanha; em 2009, o Movimento 5 Estrelas se tornou a primeira força política na Itália, com 25,5% dos votos. Em 2013, nasceu em Berlim o Alternativa para a Alemanha. Em 2014, foi a vez do O Rio (TP) na Grécia e do crescimento em escala nacional do Ciudadanos (C’s), movimento fundado na Catalunha em 2006.

No mesmo período, organizações partidárias já há tempos existentes se afirmaram com propostas políticas parecidas. O caso mais ilustrativo é o doPartido pela Independência do Reino Unido (UKIP), que com 26,6% dos votos se tornou a primeira força nas últimas eleições europeias, acima do Manica.

A “nova” face da direita
O terceiro fenômeno aparece quando os efeitos da crise econômica começaram a ser sentidos de forma mais intensa, momento em que os partidos xenófobos, nacionalistas e neofascistas viram crescer enormemente seus votos.

Em alguns casos, mudaram seu discurso político, substituindo a clássica divisão entre a direita e a esquerda pelo conflito “entre os de cima e os de baixo”. Nessa nova polarização, esses partidos se candidataram como representantes da última parcela, o povo, contra o establishment, ou seja, as forças que se alternaram no governo favorecendo o superpoder do mercado.

O aparato ideológico desses movimentos políticos mudou. O componente racista foi, em muitos casos, colocado em segundo plano em relação às temáticas econômicas. A oposição às políticas imigratórias – já cegas e restritivas – aplicadas na União Europeia se reforçou, recorrendo antes à guerra entre os pobres que à discriminação baseada na cor da pele ou na fé religiosa. Em um contexto de desemprego de massa e de grave conflito social, a xenofobia inflou por meio da propaganda que apresentava os imigrantes como os principais responsáveis pelos problemas relativos ao emprego e aos serviços sociais.

Essa mudança de rota certamente influenciou no resultado da Frente Nacional na França, que alcançou 25,2% dos votos nas eleições municipais de 2015. Na Europa, o partido de Marine Le Pen fez alianças com outras forças políticas consolidadas que pedem, há tempos, a saída do euro, a revisão dos tratados sobre imigração e a retomada da soberania nacional. Entre elas, as mais representativas são a Liga Norte na Itália, cujos resultados eleitorais melhoraram, a ponto de ela se tornar a primeira força de centro-direita nas eleições municipais de 2015; o Partido da Liberdade austríaco, que conseguiu 20,5% dos votos nas eleições nacionais de 2013 e mais de 30% nas eleições municipais de Viena em 2015; e o Partido para Liberdade holandês, que obteve 13,3% nas eleições europeias.

Pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial, as forças de extrema direita alcançaram resultados expressivos em outras regiões da Europa. Na Suíça, as eleições recentes, de outubro de 2015, foram decididas com 29,4% dos votos para o Partido do Povo Suíço, organização da ultradireita xenófoba e promotora do referendo, aprovado em 2009, para proibir a construção de novas torres de mesquitas.

Também na Escandinávia, a extrema direita representa uma realidade bem consolidada. Na pátria por excelência do “modelo nórdico”, o Democratas Suecos, fundado em 1988 pela fusão de diversos grupos neonazistas, foi o terceiro partido mais votado nas eleições legislativas de 2014, com 12,8% dos votos.

Na Dinamarca e na Finlândia, dois partidos criados em 1995 alcançaram resultados ainda mais surpreendentes, transformando-se na segunda força política desses países. O Partido Popular Dinamarquês foi o movimento político mais votado nas últimas eleições europeias, com 26,6%. Esse sucesso foi confirmado nas eleições legislativas de 2015, que na sequência lhe proporcionaram a maioria no governo. Depois das eleições de 2015, às cadeiras do governo de Helsinki ascenderam também os Verdadeiros Finlandeses, com 17,6% dos votos.

Por fim, na Noruega, com 16,3% dos votos, o Partido do Progresso chegou pela primeira vez ao governo com posicionamentos políticos igualmente reacionários. A destacada e quase uniforme afirmação desses partidos numa região onde as organizações do movimento operário exercitaram uma indiscutível hegemonia por longos anos foi possível também porque os partidos de extrema direita se apropriaram de batalhas e temáticas que no passado eram caras à esquerda, tanto a socialdemocrata, quanto a comunista.

A ascensão da direita adveio não somente fazendo apelo às clássicas campanhas reacionárias, mas também àquelas contra a globalização, a chegada de novos refugiados ou solicitantes de refúgio e o espectro da “islamização” da sociedade. Na base de seu sucesso esteve, sobretudo, a reivindicação de políticas tradicionalmente de esquerda, a favor do Estado Social. Trata-se, entretanto, de um novo tipo de welfare. Não mais universal, inclusivo e solidário, como aquele do passado, mas fundado em um princípio diferente: o acesso a direitos e serviços exclusivamente aos membros da preexistente comunidade nacional.

Ao amplo apoio das zonas rurais e de província, despovoadas e com taxa de desemprego recorde, a extrema direita escandinava reuniu, assim, aquele da classe operária que, em grande parte, cedeu à chantagem da “imigração ou Estado Social”.

Perigo no Leste
Até mesmo em diversos países do Leste europeu, a extrema direita conseguiu se reorganizar depois do fim dos regimes pro-soviéticos. A União Nacional Ataque na Bulgária, o Partido Eslovaco Nacional e o Partido Grande Romênia são algumas das forças políticas que conseguiram bons resultados eleitorais e presença no Parlamento.

Nessa área da Europa, o caso mais alarmante é o da Hungria. Em seguida à introdução de severas medidas de austeridade aplicadas peloPartido Socialista húngaro, em acordo com as intimações da Troika, e à grave crise inflacionária derivada, subiu ao poder o Partido Fidesz. Além das medidas para purificar a magistratura e estabelecer o controle da grande mídia, em 2012, o governo húngaro introduziu uma nova constituição com viés fortemente autoritário.

Para compor essa realidade já ameaçadora, desde 2010, o Movimento por uma Hungria Melhor (Jobbik) se tornou o terceiro partido do país (com 20,5% dos votos nas eleições de 2014). Mas, diferentemente das forças presentes na Europa ocidental e escandinava, Jobbik representa o clássico exemplo – hoje dominante no Leste – de formações de extrema direita que continuam a se valer do ódio contra as minorias (em particular aquela cigana), o antissemitismo e o anticomunismo como principais instrumentos de propaganda e de ação.

Enfim, completam esse panorama as várias organizações neonazistas espalhadas em diversas áreas da Europa. Um exemplo é o Aurora Dourada, que com 9,4% nas eleições europeias de 2014 e 7% nas eleições de setembro de 2015 afirmou-se, em ambos os casos, como a terceira força política da Grécia.

Nesses anos, portanto, os partidos de extrema direita nitidamente ampliaram seu apoio em quase todas as partes da Europa. Muitas vezes, conseguiram hegemonizar o debate político e, em alguns casos, a entrar no governo. A crescente expansão da União Europeia deslocou à direita o centro de gravidade político do continente, como testemunharam as rígidas posições extremistas assumidas pelos governos da Europa oriental durante a recente crise na Grécia e diante da chegada de povos em fuga dos palcos de guerra.

Trata-se de uma epidemia muito preocupante, para a qual é impossível pensar em uma resposta sem combater o vírus que a gerou: o mantra neoliberal hoje ainda tão em voga em Bruxelas.

 

Tradução de: Patricia Villen

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O ameaçador avanço da extrema direita na Europa

O sexto maior país da União Europeia em número de habitantes fez uma guinada à direita. Depois de ter se afirmado nas presidenciais de maio, o partido populista Lei e Justiça venceu as eleições polonesas, obtendo não apenas 39% dos votos, mas a maioria absoluta no Parlamento.

Diferentemente dos recorrentes apelos ao nacionalismo e à palavra de ordem “primeiro aos poloneses”, as reivindicações do Lei e Justiça no campo da economia se concentraram na promessa de aumentar os gastos sociais, melhorar os salários e reduzir a idade para a aposentadoria. Um programa de esquerda, em um país onde a esquerda defendeu o neoliberalismo e ocupa, atualmente, uma posição absolutamente marginal – situação que se repete em outros lugares do continente.

Nos últimos vinte anos, o poder de decisão na Europa transitou em grande parte da esfera política àquela econômica. A economia se tornou um âmbito separado e intocável, que faz escolhas decisivas, porém fora do alcance do controle democrático.

A uniformidade na essência das decisões tomadas pelos governos de muitas nações e, em geral, a crescente hostilidade de grande parte da opinião pública em relação à tecnocracia de Bruxelas contribuíram para provocar uma grande mudança no cenário europeu.

O vento populista
Os bipartidarismos instituídos, como aqueles espanhol e grego, implodiram. O mesmo rumo parece tomar a bipolaridade dos casos italiano e francês, da qual havia derivado uma nítida divisão de votos entre posicionamentos de centro-direita e de centro-esquerda.

O panorama político europeu foi modificado – sem considerar a alternativa ao neoliberalismo proposta por Syriza e Podemos, que merece uma reflexão à parte – pelo acentuado crescimento dos índices de abstenção, o surgimento de partidos populistas e o notável avanço das forças de extrema direita.

O primeiro fenômeno se manifestou no momento das eleições legislativas de quase todos os Estados europeus.

O segundo, por sua vez, nasceu com a onda anti-europeísta. Nos últimos anos, surgiram novos movimentos políticos declarados “pós-ideológicos”, que se guiaram pela denúncia genérica contra a corrupção do sistema ou o euroceticismo. Em 2006, com base nesses princípios, o Partido Pirata foi fundado na Suécia e na Alemanha; em 2009, o Movimento 5 Estrelas se tornou a primeira força política na Itália, com 25,5% dos votos. Em 2013, nasceu em Berlim o Alternativa para a Alemanha. Em 2014, foi a vez do O Rio (TP) na Grécia e do crescimento em escala nacional do Ciudadanos (C’s), movimento fundado na Catalunha em 2006.

No mesmo período, organizações partidárias já há tempos existentes se afirmaram com propostas políticas parecidas. O caso mais ilustrativo é o doPartido pela Independência do Reino Unido (UKIP), que com 26,6% dos votos se tornou a primeira força nas últimas eleições europeias, acima do Manica.

A “nova” face da direita
O terceiro fenômeno aparece quando os efeitos da crise econômica começaram a ser sentidos de forma mais intensa, momento em que os partidos xenófobos, nacionalistas e neofascistas viram crescer enormemente seus votos.

Em alguns casos, mudaram seu discurso político, substituindo a clássica divisão entre a direita e a esquerda pelo conflito “entre os de cima e os de baixo”. Nessa nova polarização, esses partidos se candidataram como representantes da última parcela, o povo, contra o establishment, ou seja, as forças que se alternaram no governo favorecendo o superpoder do mercado.

O aparato ideológico desses movimentos políticos mudou. O componente racista foi, em muitos casos, colocado em segundo plano em relação às temáticas econômicas. A oposição às políticas imigratórias – já cegas e restritivas – aplicadas na União Europeia se reforçou, recorrendo antes à guerra entre os pobres que à discriminação baseada na cor da pele ou na fé religiosa. Em um contexto de desemprego de massa e de grave conflito social, a xenofobia inflou por meio da propaganda que apresentava os imigrantes como os principais responsáveis pelos problemas relativos ao emprego e aos serviços sociais.

Essa mudança de rota certamente influenciou no resultado da Frente Nacional na França, que alcançou 25,2% dos votos nas eleições municipais de 2015. Na Europa, o partido de Marine Le Pen fez alianças com outras forças políticas consolidadas que pedem, há tempos, a saída do euro, a revisão dos tratados sobre imigração e a retomada da soberania nacional. Entre elas, as mais representativas são a Liga Norte na Itália, cujos resultados eleitorais melhoraram, a ponto de ela se tornar a primeira força de centro-direita nas eleições municipais de 2015; o Partido da Liberdade austríaco, que conseguiu 20,5% dos votos nas eleições nacionais de 2013 e mais de 30% nas eleições municipais de Viena em 2015; e o Partido para Liberdade holandês, que obteve 13,3% nas eleições europeias.

Pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial, as forças de extrema direita alcançaram resultados expressivos em outras regiões da Europa.

Na Suíça, as eleições recentes, de outubro de 2015, foram decididas com 29,4% dos votos para o Partido do Povo Suíço, organização da ultradireita xenófoba e promotora do referendo, aprovado em 2009, para proibir a construção de novas torres de mesquitas.

Também na Escandinávia, a extrema direita representa uma realidade bem consolidada. Na pátria por excelência do “modelo nórdico”, o Democratas Suecos, fundado em 1988 pela fusão de diversos grupos neonazistas, foi o terceiro partido mais votado nas eleições legislativas de 2014, com 12,8% dos votos.

Na Dinamarca e na Finlândia, dois partidos criados em 1995 alcançaram resultados ainda mais surpreendentes, transformando-se na segunda força política desses países. O Partido Popular Dinamarquês foi o movimento político mais votado nas últimas eleições europeias, com 26,6%. Esse sucesso foi confirmado nas eleições legislativas de 2015, que na sequência lhe proporcionaram a maioria no governo. Depois das eleições de 2015, às cadeiras do governo de Helsinki ascenderam também os Verdadeiros Finlandeses, com 17,6% dos votos.

Por fim, na Noruega, com 16,3% dos votos, o Partido do Progresso chegou pela primeira vez ao governo com posicionamentos políticos igualmente reacionários.

A destacada e quase uniforme afirmação desses partidos numa região onde as organizações do movimento operário exercitaram uma indiscutível hegemonia por longos anos foi possível também porque os partidos de extrema direita se apropriaram de batalhas e temáticas que no passado eram caras à esquerda, tanto a socialdemocrata, quanto a comunista.

A ascensão da direita adveio não somente fazendo apelo às clássicas campanhas reacionárias, mas também àquelas contra a globalização, a chegada de novos refugiados ou solicitantes de refúgio e o espectro da “islamização” da sociedade. Na base de seu sucesso esteve, sobretudo, a reivindicação de políticas tradicionalmente de esquerda, a favor do Estado Social. Trata-se, entretanto, de um novo tipo de welfare. Não mais universal, inclusivo e solidário, como aquele do passado, mas fundado em um princípio diferente: o acesso a direitos e serviços exclusivamente aos membros da preexistente comunidade nacional.

Ao amplo apoio das zonas rurais e de província, despovoadas e com taxa de desemprego recorde, a extrema direita escandinava reuniu, assim, aquele da classe operária que, em grande parte, cedeu à chantagem da “imigração ou Estado Social”.

Perigo no Leste
Até mesmo em diversos países do Leste europeu, a extrema direita conseguiu se reorganizar depois do fim dos regimes pro-soviéticos. A União Nacional Ataque na Bulgária, o Partido Eslovaco Nacional e o Partido Grande Romênia são algumas das forças políticas que conseguiram bons resultados eleitorais e presença no Parlamento.

Nessa área da Europa, o caso mais alarmante é o da Hungria. Em seguida à introdução de severas medidas de austeridade aplicadas peloPartido Socialista húngaro, em acordo com as intimações da Troika, e à grave crise inflacionária derivada, subiu ao poder o Partido Fidesz. Além das medidas para purificar a magistratura e estabelecer o controle da grande mídia, em 2012, o governo húngaro introduziu uma nova constituição com viés fortemente autoritário.

Para compor essa realidade já ameaçadora, desde 2010, o Movimento por uma Hungria Melhor (Jobbik) se tornou o terceiro partido do país (com 20,5% dos votos nas eleições de 2014). Mas, diferentemente das forças presentes na Europa ocidental e escandinava, Jobbik representa o clássico exemplo – hoje dominante no Leste – de formações de extrema direita que continuam a se valer do ódio contra as minorias (em particular aquela cigana), o antissemitismo e o anticomunismo como principais instrumentos de propaganda e de ação.

Enfim, completam esse panorama as várias organizações neonazistas espalhadas em diversas áreas da Europa. Um exemplo é o Aurora Dourada, que com 9,4% nas eleições europeias de 2014 e 7% nas eleições de setembro de 2015 afirmou-se, em ambos os casos, como a terceira força política da Grécia.

Nesses anos, portanto, os partidos de extrema direita nitidamente ampliaram seu apoio em quase todas as partes da Europa. Muitas vezes, conseguiram hegemonizar o debate político e, em alguns casos, a entrar no governo.

A crescente expansão da União Europeia deslocou à direita o centro de gravidade político do continente, como testemunharam as rígidas posições extremistas assumidas pelos governos da Europa oriental durante a recente crise na Grécia e diante da chegada de povos em fuga dos palcos de guerra.

Trata-se de uma epidemia muito preocupante, para a qual é impossível pensar em uma resposta sem combater o vírus que a gerou: o mantra neoliberal hoje ainda tão em voga em Bruxelas.

Tradução de: Patricia Villen